Antes de Dormir

S. J. Watson · Capítulo 16 de 19

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Antes de Dormir

Sexta-feira, 23 de novembro

Porém, existe uma pessoa que talvez saiba. Uma pessoa que talvez possa me contar o resto da verdade. Com quem eu estava me encontrando em Brighton. A verdadeira razão pela qual a minha melhor amiga desapareceu da minha vida.

Li este diário. Sei que amanhã irei encontrar Claire.

Sexta-feira, 23 de novembro

Estou escrevendo isso em casa. O lugar que por fim entendo como sendo meu, ao qual pertenço. Li este diário e me encontrei com Claire, e, juntas, as duas coisas me contaram tudo o que preciso saber. Claire me prometeu que agora voltou à minha vida e que jamais sairá dela novamente. Diante de mim está um envelope surrado com meu nome escrito. Um artefato. Que me completa. Finalmente o meu passado faz sentido.

Logo meu marido voltará para casa, e estou ansiosa por encontrá-lo. Eu o amo. Sei disso agora.

Vou entender toda essa história e então, juntos, vamos conseguir melhorar tudo.

Estava um dia claro quando saí do ônibus. A luz estava encoberta pela frieza azul do inverno, o chão era rígido. Claire me dissera que estaria esperando no alto do morro, perto dos degraus principais que levam ao palácio, e portanto dobrei o papel em que eu tinha escrito as instruções dela e comecei a subir a suave inclinação enquanto esta arqueava ao redor do parque. Levei mais tempo do que eu esperava e, ainda não acostumada com as limitações do meu corpo, precisei descansar ao me aproximar do topo. Um dia eu devo ter estado em forma, pensei. Ou pelo menos mais do que agora. Imaginei se eu não deveria me exercitar.

O parque se abria para um gramado bem aparado, entremeado de trilhas de cascalho, pontilhado com latas de lixo e mulheres em cadeiras de rodas. Percebi que estava nervosa. Não sabia o que esperar. Como poderia saber? Nas imagens que eu tinha de Claire, ela estava sempre de preto.

Jeans, camisetas. Eu a vi com botas pesadas e um trench coat. Ou então com uma saia comprida, de tie-dye, feita de algum tecido que, creio, poderia ser descrito como “esvoaçante”. Não consegui imaginar nenhuma dessas duas visões capazes de representar Claire hoje — não com a nossa idade atual —, mas não tinha ideia do que poderia estar no lugar delas.

Olhei para meu relógio de pulso. Estava cedo. Sem pensar, disse a mim mesma que Claire está sempre atrasada, depois instantaneamente me perguntei como eu poderia saber, que resíduo de memória havia me lembrado disso. Há tanta coisa, pensei, logo abaixo da superfície. Tantas recordações disparando como peixinhos prateados em um regato raso.

Decidi aguardar em um dos bancos.

Sombras compridas estendiam-se preguiçosamente pelo gramado. Por cima da copa das árvores, fileiras de casas se alongavam para longe de mim, próximas entre si a um ponto claustrofóbico. Com espanto, percebi que uma das casas que eu podia ver era aquela onde hoje eu morava —

parecia indistinguível das demais.

Tentei me imaginar acendendo um cigarro e dando uma tragada ansiosa; tentei resistir à tentação de me levantar e caminhar de um lado para o outro. Me sentia nervosa, ridiculamente nervosa. Contudo, não havia motivo para isso. Claire já tinha sido minha amiga. Minha melhor amiga.

Não havia nada com que me preocupar. Eu estava segura.

A pintura do banco estava descascando, e eu comecei a puxá-la, revelando uma área maior da madeira úmida que havia embaixo. Alguém tinha usado o mesmo método para rabiscar dois conjuntos de iniciais perto de onde eu estava sentada, depois os rodeou com um coração e acrescentou a data. Fechei os olhos. Será que um dia vou me acostumar com o choque de ver os indícios do ano em que hoje vivo? Inspirei: grama úmida, o cheiro forte de cachorro-quente, gasolina.

Uma sombra caiu sobre o meu rosto e abri os olhos. Uma mulher estava em pé na minha frente. Alta, com cabelos ruivos arrepiados, vestia calças e uma jaqueta de pele de carneiro. Um menininho segurava a sua mão e trazia sob o outro braço uma bola de futebol.

— Desculpe — falei, e deslizei pelo banco para abrir espaço para que os dois se sentassem ao meu lado, mas quando fiz isso a mulher sorriu.

— Chrissy! — exclamou. Era a voz de Claire. Inconfundível. — Chrissy, querida! Sou eu. — Olhei do menino para o rosto dela. Sua pele estava enrugada onde antes devia ser lisa, os olhos tinham certa queda que estava ausente da imagem mental que eu tinha dela, mas era ela. Sem dúvida. —

Meu Deus — continuou. — Andei tão preocupada com você. — Ela empurrou o menino na minha direção. — Esse é Toby.

O menino me olhou.

— Ande — incitou Claire. — Diga oi. — Por um momento achei que ela estivesse falando comigo, mas depois ele deu um passo para a frente.

Sorri. Meu único pensamento foi, “esse é Adam?”, embora eu soubesse que não podia ser.

— Oi — cumprimentou ele.

Toby remexeu os pés e murmurou algo que não entendi, depois se virou para Claire e disse:

— Posso ir brincar agora?

— Pode, mas não saia de vista. Tá? — Ela acariciou o cabelo dele e ele correu na direção do parque.

Eu me levantei e me virei para olhá-la de perto. Não sabia se teria preferido me virar e correr também, tão amplo era o abismo entre nós, mas então ela estendeu seus braços.

— Chrissy, querida — disse ela, as pulseiras de plástico em seu pulso chocando-se umas com as outras. — Senti saudades. Senti tanta, mas tanta

saudade. — O peso que antes estivera me esmagando deu uma cambalhota, levantou-se no ar e desapareceu, e caí aos soluços nos braços dela.

Pelo mais breve dos instantes senti como se conhecesse tudo a seu respeito, e tudo a meu respeito, também. Era como se o vazio, o vácuo que repousava no centro da minha alma, tivesse sido aceso com uma luz mais brilhante do que a do céu. A história — minha história — cintilou na minha frente, mas rápido demais para que eu pudesse ter alguma outra coisa que não apenas um vislumbre.

— Eu me lembro de você — falei. — Eu me lembro de você.

E então o vislumbre sumiu e a escuridão tomou conta mais uma vez.

Nós sentamos no banco e, por um longo tempo, silenciosamente observamos Toby jogar futebol com um grupo de garotos. Eu me senti feliz de estar conectada ao meu passado desconhecido, porém havia uma estranheza entre nós que eu não conseguia afastar. Uma frase não parava de se repetir em minha cabeça. “Algo a ver com Claire.”

— Como você está? — eu perguntei por fim, e ela riu.

— Péssima — respondeu ela. Abriu a bolsa e tirou um pacotinho de fumo. — Você não voltou a fumar, né? — disse ela, oferecendo-o a mim, e balancei a cabeça em negativa, mais uma vez ciente de como era outra pessoa que conhecia tanta coisa mais sobre mim do que eu mesma.

— Qual o problema? — perguntei.

Ela começou a enrolar seu cigarro, fazendo um sinal com a cabeça na direção do filho.

— Ah, você sabe. O Toby tem TDAH. Ficou acordado a noite inteira, e portanto eu também.

— TDAH? — perguntei.

Ela sorriu.

— Desculpe. É uma expressão relativamente nova, acho. Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Temos de dar Ritalina a ele, embora eu ache uma merda. É o único jeito. Já tentamos praticamente tudo, e ele é quase um monstro sem isso. Um horror.

Olhei para ele, correndo à distância. Outro cérebro problemático e estragado num corpo saudável.

— Mas ele está bem?

— Sim — respondeu ela, suspirando. Equilibrou o papel do cigarro no joelho e começou a polvilhar o fumo ao longo da dobra. — É que ele é exaustivo às vezes, só isso. É como se a fase terrível dos 2 anos nunca tivesse acabado.

Sorri. Eu sabia o que ela queria dizer, mas apenas teoricamente. Eu não tinha nenhuma referência, nenhuma lembrança de como Adam foi, seja na

idade de Toby ou menor.

— Toby parece bem novo, não? — eu disse.

Ela riu.

— Você quer dizer que eu sou bem velha! — Ela lambeu a cola do papel.

— Sim. Eu o tive tarde. Tinha certeza de que não ia acontecer, por isso a gente não estava tomando nenhum cuidado...

— Oh — falei. — Você quer dizer que...?

Ela riu de novo.

— Eu não diria que ele foi um acidente, mas digamos que ele tenha sido meio que um choque. — Ela pôs o cigarro na boca. — Você se lembra de Adam?

Olhei para ela. Tinha a cabeça virada para o outro lado, para proteger o isqueiro do vento, e não pude ver a expressão em seu rosto, nem saber se aquele movimento tinha sido deliberadamente evasivo.

— Não — respondi. — Há algumas semanas eu lembrei que tive um filho, e desde que escrevi a respeito sinto como se estivesse carregando esse conhecimento comigo feito uma pedra pesada no peito. Mas não. Não me lembro de nada a respeito dele.

Ela enviou uma nuvem de fumaça azulada na direção do céu.

— Que pena — disse ela. — Sinto muito. Mas Ben não lhe mostra fotos? Isso não ajuda?

Ponderei sobre o quanto eu deveria contar a ela. Eles pareciam ter mantido contato, ter sido amigos um dia. Eu tinha de ser cautelosa, mas mesmo assim sentia uma necessidade cada vez maior de falar, assim como de ouvir, a verdade.

— Ele me mostra fotos, sim. Embora não tenha nenhuma à mostra na casa. Diz que as acha muito perturbadoras. Ele as esconde. — Por pouco eu não disse “tranca”.

Ela pareceu surpresa.

— Esconde? Sério?

— Sim — eu disse. — Ele acha que seria muito perturbador para mim topar com uma foto de Adam.

Claire assentiu.

— Porque talvez você não o reconhecesse? Não soubesse quem ele é?

— Creio que sim.

— Imagino que isso possa ser verdade — comentou ela. Hesitou. —

Agora que ele não está mais aqui.

“Não está mais aqui”, pensei. Ela disse isso como se ele só tivesse ido dar uma volta, levado a namorada ao cinema, ou a uma loja para comprar um par de sapatos. Eu entendi, porém. Entendi o acordo tácito de não falar sobre a morte de Adam. Ainda não. Entendi que Claire está tentando me

proteger também.

Eu não disse nada. Em vez disso, tentei imaginar como deve ter sido ver meu filho todos os dias, quando a expressão todos os dias significava algo, antes de cada dia se tornar destacado do anterior. Tentei imaginar acordar de manhã sabendo quem ele era, sendo capaz de planejar, de aguardar com ansiedade o Natal, o aniversário dele.

Que ridículo, pensei. Eu nem sequer sei quando é o aniversário dele.

— Você não gostaria de vê-lo?

Meu coração deu um pulo.

— Você tem fotos? — perguntei. — Posso...?

Ela pareceu surpresa.

— Claro! Toneladas! Em casa.

— Gostaria de ter uma — falei.

— Sim — disse ela. — Mas...

— Por favor. Significaria tanto para mim.

Ela colocou a mão sobre a minha.

— É claro. Vou trazer uma da próxima vez, mas...

Ela foi interrompida por um choro à distância. Olhei para o outro lado do parque. Toby estava correndo na nossa direção, chorando, enquanto atrás dele o jogo de futebol prosseguia.

— Merda — disse Claire, baixinho. Ela se levantou e chamou: — Tobes!

Toby! O que aconteceu? — Ele continuou correndo. — Droga — disse ela. —

Vou ter de ir lá ajudar.

Ela caminhou até o filho e se agachou para perguntar qual era o problema. Olhei para o chão. A trilha estava coberta de musgo, e uma ou outra folha de grama havia despontado através do asfalto, lutando para encontrar a luz. Me senti feliz. Não apenas Claire iria me dar uma foto de Adam, como também disse que faria isso no nosso próximo encontro. Nós duas iríamos nos encontrar mais vezes. Percebi que todas as vezes eu teria a sensação de que era a primeira. É uma ironia: eu tendo a esquecer que não tenho memória.

Percebi, também, que algo na forma como ela falou de Ben — com certa melancolia — me fez pensar que a ideia de eles dois terem um caso era ridícula.

Ela voltou.

— Está tudo bem — avisou. Atirou o cigarro longe e o amassou com o salto. — Ligeira confusão a respeito da posse da bola. Vamos dar uma volta? — Fiz que sim, e ela se virou para Toby. — Querido! Sorvete?

Ele disse sim e começamos a caminhar na direção do palácio. Toby segurava a mão de Claire. Eles eram tão parecidos, pensei, os olhos acesos pelo mesmo fogo.

— Adoro aqui em cima — disse Claire. — A vista é tão inspiradora.

Você não acha?

Olhei para as casas cinzentas, pontilhadas de verde.

— Acho que sim. Você ainda pinta?

— Quase nunca — respondeu ela. — Aqui e ali. Virei pintora de fim de semana. As paredes da nossa casa são lotadas de meus quadros, mas ninguém mais tem um. Infelizmente.

Sorri. Não falei do meu livro, embora quisesse perguntar se ela o havia lido, o que ela tinha achado.

— O que você faz agora, então? — perguntei.

— Na maior parte do tempo, cuido de Toby — respondeu ela. — Ele está sendo educado em casa.

— Entendo.

— Não por escolha — retrucou ela. — Nenhuma escola quer aceitá-lo.

Dizem que ele é muito desatento. Não conseguem lidar com ele.

Olhei para o filho dela enquanto ele caminhava conosco. Ele parecia perfeitamente calmo, segurando a mão da mãe. Perguntou se podia tomar seu sorvete, e Claire respondeu que daqui a pouco. Não consegui imaginá-lo como uma criança difícil.

— Como era Adam? — perguntei.

— Quando criança? — Ela esclareceu. — Era um bom menino. Muito educado. Bem comportado, sabe?

— Eu era uma boa mãe? Ele era feliz?

— Oh, Chrissy — disse ela. — Sim. Sim. Ninguém foi mais amado do que aquele menino. Você não se lembra, não é? Vocês dois estavam tentando há algum tempo. Você teve uma gravidez ectópica. Ficou com medo de nunca mais conseguir engravidar de novo, mas aí veio Adam.

Vocês ficaram tão felizes, os dois. E você adorou ficar grávida. Eu odiei.

Inchei como uma casa, e aquele enjoo maldito. Terrível. Mas com você foi diferente. Você adorou cada segundo. Cintilou durante todo o tempo em que o carregou na barriga. Iluminava os lugares onde entrava, Chrissy.

Fechei os olhos enquanto caminhávamos e tentei primeiro me lembrar de estar grávida, depois imaginar. Não consegui nenhuma das duas coisas.

Olhei para Claire.

— E depois?

— Depois? O parto. Foi maravilhoso. Ben estava lá, é claro. Eu fui assim que pude. — Ela parou de caminhar, e se virou para me olhar. — E

você foi uma ótima mãe, Chrissy. Ótima. Adam era muito feliz, bem cuidado, muito amado. Nenhuma criança poderia querer mais.

Tentei lembrar como era ser mãe, a infância do meu filho. Nada.

— E Ben?

Ela fez uma pausa, depois disse:

— Ben foi um grande pai. Sempre. Ele amava aquele garoto. Corria para casa do trabalho toda noite para vê-lo. Quando Adam disse a primeira palavra, Ben ligou para todo mundo para contar. E quando ele começou a engatinhar também, ou deu seus primeiros passos. Assim que ele começou a andar, Ben o levou para o parque com uma bola de futebol, a coisa toda.

E no Natal! Tantos brinquedos! Acho que foi a única coisa a respeito da qual vi vocês dois brigarem — a quantidade de brinquedos que Ben comprava para Adam. Você tinha medo de que ele ficasse mimado.

Senti uma pontada de arrependimento, uma ânsia de me desculpar por um dia haver tentado negar alguma coisa ao meu filho.

— Eu deixaria ele ter o que quisesse, hoje — falei. — Se eu pudesse.

Ela me olhou com tristeza.

— Eu sei — falou. — Eu sei. Mas fique feliz sabendo que ele nunca quis mais nada de você, nunca.

Continuamos a andar. Um furgão estava parado na trilha, vendendo sorvete, e nós fomos em sua direção. Toby começou a puxar o braço da mãe. Ela se inclinou para baixo e lhe deu uma nota que tirou da bolsa antes de deixá-lo ir.

— Escolha um só! — gritou para ele. — Um só! E espere o troco!

Eu o observei correr até o furgão.

— Claire — falei —, quantos anos tinha Adam quando perdi a memória?

Ela sorriu.

— Devia ter uns 3 anos. Talvez tivesse acabado de fazer.

Senti como se eu estivesse pisando em território novo agora. Em perigo.

Mas era para onde eu tinha de ir. A verdade que eu precisava descobrir.

— Meu médico me disse que fui atacada — falei. Ela não respondeu. —

Em Brighton. Por que eu estava lá?

Olhei para Claire, analisando seu rosto. Ela parecia estar tomando uma decisão, pesando opções, decidindo o que fazer.

— Não sei direito — respondeu. — Ninguém sabe.

Ela parou de falar e nós duas observamos Toby por algum tempo. Ele agora tinha seu sorvete e o desembrulhava, com um olhar de concentração determinada. O silêncio se alongou na minha frente. Se eu não disser nada, pensei, ele vai durar para sempre.

— Eu estava tendo um caso, não estava?

Não houve reação. Nenhuma inspiração, nenhum engolir em seco com negação ou olhar de choque. Claire me encarou. Calmamente. — Estava. Você estava traindo Ben.

A voz dela não tinha nenhuma emoção. Eu me perguntei o que ela achava de mim. Hoje ou naquela época.

— Me conte — pedi.

— Certo — disse ela. — Mas vamos sentar. Estou seca por um café.

Caminhamos na direção do prédio principal.

O café também fazia as vezes de bar. As cadeiras eram de aço, com mesas simples. Palmeiras pontilhavam aqui e ali numa tentativa de criar um clima que se via arruinado pelo vento frio que entrava sempre que alguém abria a porta. Nós sentamos uma de frente para a outra a uma mesa toda suja de café, aquecendo as mãos com as bebidas.

— O que aconteceu? — perguntei novamente. — Preciso saber.

— Não é fácil dizer — disse Claire. Falava calmamente, como se estivesse escolhendo onde pisar em terreno acidentado. — Suponho que tenha começado pouco depois de você dar à luz Adam. Depois que a empolgação inicial passou, houve um período em que as coisas foram extremamente difíceis. — Ela fez uma pausa. — É tão difícil, não é?

Enxergar o que está acontecendo quando se está bem no meio de alguma coisa? Somente em retrospecto é que conseguimos ver as coisas como elas são. — Assenti, mas não entendi. Retrospecto é algo que eu não tenho.

Ela prosseguiu. — Você chorava muito. Se preocupava de não estar se apegando ao bebê. O de sempre. Ben e eu fazíamos o que podíamos, e também sua mãe, quando estava presente, mas foi difícil. E mesmo quando o pior dos piores passou, você ainda assim achava difícil. Não conseguia voltar a trabalhar. Me ligava no meio do dia. Chateada. Dizia que se sentia um fracasso. Não um fracasso como mãe — você via como Adam estava feliz —, mas um fracasso como escritora. Achava que nunca mais iria conseguir escrever de novo. Eu vinha ver você, e você estava um caco, chorando, sei lá o quê. — Imaginei o que viria em seguida, o quanto o quadro iria piorar, e então ela disse: — Você e Ben viviam discutindo, também. Você se ressentia dele, de como ele achava a vida fácil. Ele se ofereceu para pagar uma babá, mas, bem...

— O quê?

— Você disse que era típico dele. Tapar o problema com dinheiro. Você tinha um pouco de razão, mas... talvez não estivesse sendo muito justa.

Talvez não, pensei. Me ocorreu que naquela época devíamos ter dinheiro

— mais dinheiro do que tivemos depois que perdi a memória, mais dinheiro do que acho que temos hoje. Que baque nos nossos recursos minha doença não deve ter provocado...

Tentei me ver discutindo com Ben, cuidando de um bebê, tentando escrever. Imaginei mamadeiras, ou Adam no meu seio. Fraldas sujas.

Manhãs em que alimentar a mim e ao meu bebê eram as únicas ambições que eu poderia razoavelmente ter, e tardes em que eu estava tão exausta

que a única coisa que desejava era dormir — um sono que estava ainda a horas de distância —, e a ideia de tentar escrever era afastada da minha mente. Vi tudo isso, e senti o rancor brotar, ardente, pouco a pouco.

Mas tudo isso não passava de imaginação. Não me lembrava de nada. A história de Claire parecia não ter nada a ver comigo.

— E então eu tive um caso?

Ela olhou para cima.

— Eu tinha tempo livre. Estava pintando naquela época. Me ofereci para cuidar de Adam duas tardes por semana para que você pudesse escrever.

Insisti. — Ela segurou as minhas mãos entre as dela. — Foi minha culpa, Chrissy. Eu até mesmo sugeri que você fosse a um café.

— Um café? — repeti.

— Achei que seria bom para você sair de casa. Que lhe daria um pouco de espaço. Algumas horas por semana, longe de tudo. Depois de umas semanas você parecia estar melhor. Estava mais feliz consigo mesma, disse que o trabalho fluía bem. Começou a frequentar o café quase todos os dias, levando Adam quando eu não podia cuidar dele. Mas então notei que você estava se vestindo diferente, também. Foi tudo da forma como normalmente acontece, embora na época eu não tivesse percebido o que era. Achei que era porque você estava se sentindo melhor. Mais confiante.

Mas então Ben me ligou, uma noite. Tinha bebido, acho. Disse que vocês dois estavam brigando mais do que nunca e que ele não sabia o que fazer.

Você rejeitava sexo, além disso. Eu disse a ele que era provavelmente por causa do bebê, que ele estava se preocupando sem necessidade. Mas...

Interrompi.

— Eu estava saindo com outra pessoa.

— Eu lhe perguntei. No começo você negou, mas então eu lhe disse que eu não era boba, e nem Ben. Discutimos, mas depois de um tempo você me contou a verdade.

A verdade. Nada glamorosa, nem empolgante. Apenas os fatos nus e crus. Eu tinha me transformado em um clichê, transando com alguém que conheci num café enquanto minha melhor amiga cuidava do meu filho e o meu marido ganhava o dinheiro que pagava as roupas e as lingeries que eu estava usando para agradar outro homem. Imaginei os telefonemas furtivos, os encontros abortados quando algo inesperado acontecia e, nos dias em que podíamos nos encontrar, as tardes sórdidas e patéticas, passadas na cama com um homem que tinha temporariamente parecido melhor — mais empolgante? atraente? melhor amante? mais rico? — do que o meu marido. Seria esse o homem que eu estava esperando naquele quarto de hotel, o homem que terminaria por me atacar, deixando-me sem passado e sem futuro?

Fechei os olhos. Um lampejo de memória. Mãos agarrando meu cabelo, segurando a minha garganta. Minha cabeça embaixo d’água. Eu ofegando, chorando. Eu me lembro do que eu estava pensando. “Quero ver meu filho.

Uma última vez. Quero ver meu marido. Eu nunca devia ter feito isso com ele. Nunca devia tê-lo traído com esse homem. Nunca poderei lhe contar que sinto muito. Nunca.”

Abro os olhos. Claire estava apertando a minha mão.

— Está tudo bem com você? — perguntou ela.

— Me conte — pedi.

— Não sei se...

— Por favor — pedi. — Me conte. Quem era ele?

Ela suspirou.

— Você disse que tinha conhecido alguém que ia sempre ao café. Ele era bacana, segundo você. Atraente. Você tentou, mas não conseguiu se conter.

— Qual era o nome dele? — perguntei. — Quem ele era?

— Não sei.

— Você deve saber! — exclamei. — O nome dele, pelo menos! Quem fez isso comigo?

Ela me olhou nos olhos.

— Chrissy — disse, com a voz calma. — Você nunca me contou o nome dele. Você só disse que o conheceu em um café. Acho que não queria que eu soubesse os detalhes. Não mais do que os que eu precisava saber, pelo menos.

Senti outra lasca de esperança deslizar para longe, ser arrastada pela correnteza. Eu jamais saberia quem fez isso comigo.

— O que aconteceu?

— Eu lhe disse que achava que você estava sendo boba. Precisava pensar em Adam e em Ben. Achei que você tinha de terminar tudo. Parar de ver esse cara.

— Mas eu não quis ouvir.

— Não — disse ela. — No começo, não. Brigamos. Eu lhe disse que você estava me colocando numa situação difícil. Ben era meu amigo também.

Você estava me pedindo para mentir para ele.

— O que aconteceu? Quanto tempo isso durou?

Ela ficou em silêncio, depois disse:

— Não sei. Um dia, deve ter sido apenas umas semanas depois, você avisou que estava tudo acabado. Que tinha dito a esse homem que a coisa não estava dando certo, que você tinha cometido um erro. Disse que lamentava, que tinha sido boba. Louca.

— Eu estava mentindo?

— Não sei. Acho que não. Você e eu não mentíamos uma para a outra.

Simplesmente não fazíamos isso. — Ela soprou a superfície do seu café. —

Algumas semanas depois você foi encontrada em Brighton — disse ela. —

Não tenho ideia do que aconteceu ali.

Talvez tenham sido essas palavras — “Não tenho ideia do que aconteceu ali” — que desencadearam isso, a compreensão de que talvez eu nunca viesse a descobrir como fui atacada, mas um som de repente escapou de dentro de mim. Tentei sufocá-lo, mas não consegui. Era algo entre um grito e um uivo, era o berro de um animal em sofrimento. Toby desviou os olhos de seu livro de colorir e olhou para mim. Todos no café se viraram para me encarar, a mulher maluca sem memória. Claire agarrou o meu braço.

— Chrissy! — exclamou ela. — O que foi?

Agora eu estava soluçando, e todo o meu corpo balançava, ofegante por ar. Chorava por todos os anos que eu havia perdido, e por todos aqueles que continuaria a perder entre hoje e o dia em que eu morresse. Chorava porque, por mais difícil que tivesse sido para ela me contar sobre o meu caso, e meu casamento, e meu filho, ela teria de fazer tudo isso amanhã.

Mas chorava principalmente porque eu mesma havia feito isso tudo comigo.

— Desculpe — eu disse. — Desculpe.

Claire se levantou e deu a volta na mesa. Ela se agachou ao meu lado e passou o braço ao redor do meu ombro, e eu apoiei a cabeça contra a dela.

— Pronto, pronto — disse ela, enquanto eu soluçava. — Está tudo bem, Chrissy querida. Estou aqui agora. Estou aqui.

Saímos do café. Como se não quisesse ser superado por ninguém, Toby ficou violentamente barulhento depois da minha explosão: atirou o livro de colorir no chão, junto com o copo de plástico de suco. Claire limpou a sujeira e depois disse:

— Preciso de um pouco de ar fresco. Vamos embora?

Agora estávamos sentadas em um dos bancos que davam para o parque. Os joelhos de uma apontavam para os da outra, e Claire segurava minhas mãos, afagando-as como se estivessem frias.

— Eu... — comecei. — Eu tinha muitos casos?

Ela balançou a cabeça.

— Não. Nenhum. Nós nos divertimos na faculdade, sabe, mas não mais do que a maioria das pessoas. E depois que você conheceu Ben, isso parou.

Você sempre foi fiel a ele.

Fiquei pensando o que teria havido de tão especial naquele homem do café. Claire disse que eu contei a ela que ele era “bacana, atraente”. Será que foi só isso? Seria eu tão superficial assim?

Meu marido era essas duas coisas, pensei. Ah, se eu tivesse me contentado com o que eu tinha!

— Ben sabia que eu estava tendo um caso?

— No começo, não. Não. Só depois que você foi encontrada. Foi um choque terrível para ele. Para todos nós. No começo parecia que você nem sequer conseguiria sobreviver. Depois Ben me perguntou se eu sabia que você tinha ido a Brighton. Eu contei a ele. Precisava contar. Já tinha contado à polícia tudo o que eu sabia. Não tive escolha a não ser contar ao Ben.

A culpa me atravessou mais uma vez quando pensei no meu marido, no pai do meu filho, tentando entender por que sua mulher moribunda tinha sido encontrada a quilômetros de distância de casa. Como pude fazer isso com ele?

— Mas ele perdoou você — continuou Claire. — Ele nunca usou isso contra você, nunca. Ele só queria que você vivesse... e melhorasse. Ele teria dado tudo por isso. Tudo. Nada mais importava.

Senti um arroubo de amor pelo meu marido. Verdadeiro. Não forçado.

Apesar de tudo, ele havia me aceitado de volta. Cuidado de mim.

— Você conversaria com ele? — perguntei.

Ela sorriu.

— É claro! Mas sobre o quê?

— Ele não tem me contado a verdade — falei. — Pelo menos não sempre. Está tentando me proteger. Diz o que acredita que eu posso suportar, o que acredita que eu quero ouvir.

— Ben não faria isso — retrucou Claire. — Ele ama você. Sempre amou.

— Bom, mas está fazendo — eu disse. — Ele não sabe que eu sei. Não sabe que estou anotando as coisas. Não me conta sobre Adam, a não ser quando eu me lembro dele e pergunto. Não me fala por que me largou. Diz que você mora do outro lado do mundo. Acha que eu não consigo suportar.

Ele desistiu de mim, Claire. Não sei como ele era antes, mas ele desistiu de mim. Não quer que eu me consulte com um médico porque acha que eu não vou melhorar, mas estou me consultando com um, Claire. Um tal de Dr. Nash. Em segredo. Não posso nem sequer contar a Ben.

O rosto de Claire tombou. Ela pareceu desapontada. Comigo, suponho.

— Isso não é bom — disse ela. — Você precisa contar a ele. Ele ama você. Confia em você.

— Não posso. Ele só admitiu que mantinha contato com você outro dia.

Até então ficava dizendo que não falava com você há anos.

A expressão de desaprovação dela sumiu. Pela primeira vez, vi que ela estava surpresa.

— Chrissy!

— É verdade — falei. — Sei que ele me ama. Mas preciso que ele seja

honesto comigo. Sobre tudo. Não conheço o meu próprio passado. E só ele pode me ajudar. Preciso que ele me ajude.

— Então você precisa conversar com ele. Confiar nele.

— Mas como? — perguntei. — Depois de todas as mentiras que ele me contou? Como?

Ela apertou as minhas mãos entre as dela.

— Chrissy, Ben ama você. Você sabe disso. Ele ama você mais do que a própria vida. Sempre amou.

— Mas... — comecei, mas ela interrompeu.

— Você precisa confiar nele. Acredite em mim. Você vai poder entender tudo, mas precisa contar a verdade a ele. Contar sobre o Dr. Nash. Contar que está escrevendo. É o único jeito.

Em algum lugar, bem no fundo, eu sabia que ela tinha razão, mas ainda assim não conseguia me convencer de que deveria contar a Ben sobre o meu diário.

— Mas ele pode querer ler o que eu escrevi.

Os olhos dela se estreitaram.

— Não tem nada ali que você não quer que ele veja, ou tem? — Eu não respondi. — Ou tem? Chrissy?

Olhei para o outro lado. Não falamos nada, e então ela abriu a bolsa.

— Chrissy — disse ela. — Vou lhe dar uma coisa. Ben me entregou isso quando decidiu que precisava deixar você. — Ela retirou um envelope e o entregou a mim. Estava amassado, mas continuava lacrado. — Ele me disse que isso explicava tudo. — Olhei para o envelope. Meu nome estava escrito na frente com letras maiúsculas. — Pediu que eu entregasse isso a você, se um dia achasse que você estivesse bem o bastante para lê-lo. — Olhei para ela, sentindo todas as emoções ao mesmo tempo. Empolgação e medo. — Acho que chegou a hora de você ler — disse ela.

Apanhei-o da sua mão e o coloquei na bolsa. Embora não soubesse o motivo, não queria lê-lo ali, na frente de Claire. Talvez tivesse medo de que ela fosse capaz de ler o conteúdo refletido em meu rosto e que ele já não fosse apenas meu.

— Obrigada — agradeci.

Ela não sorriu.

— Chrissy — disse ela. Olhou para baixo, para as próprias mãos. — Existe um motivo pelo qual Ben diz que eu me mudei. — Senti meu mundo começar a mudar, embora não tivesse certeza de como. — Preciso contar uma coisa. Sobre a razão por que eu e você perdemos o contato.

Então eu soube. Sem que ela dissesse nada, eu soube. A peça faltante do quebra-cabeça, o motivo pelo qual Ben havia partido, o motivo pelo qual minha melhor amiga desaparecera da minha vida e meu marido mentira

sobre por que tudo isso havia acontecido. Eu tinha razão. O tempo todo. Eu tinha razão.

— É verdade — falei. — Oh, Deus. É verdade. Você está saindo com Ben. Está trepando com meu marido.

Ela olhou para cima, horrorizada:

— Não! Não!

Uma certeza me dominou. Tive vontade de gritar “Mentirosa!”, mas não fiz isso. Estava prestes a perguntar mais uma vez o que ela queria me contar quando ela enxugou algo do olho. Uma lágrima? Não sei.

— Hoje não — sussurrou ela, depois olhou de volta para as mãos em seu colo. — Mas, um dia, sim.

De todas as emoções que eu poderia ter esperado sentir, o alívio não era uma delas. Mas era verdade: me senti aliviada. Porque ela estava sendo sincera? Porque agora eu tinha uma explicação para tudo, uma explicação na qual eu podia acreditar? Não tenho certeza. Mas a raiva que eu poderia ter sentido não estava ali; nem a dor. Talvez eu estivesse feliz por sentir uma minúscula faísca de ciúmes, prova concreta de que eu havia amado o meu marido. Talvez eu estivesse apenas aliviada por Ben haver sido infiel assim como eu, de que agora estávamos de igual para igual. Quites.

— Me conte — sussurrei.

Ela não olhou para cima.

— Sempre fomos próximos — disse ela, baixinho. — Nós três, quero dizer. Você. Eu. Ben. Mas nunca houve nada entre mim e ele. Você precisa acreditar nisso. Nunca. — Eu pedi que ela continuasse. — Depois do seu acidente, tentei ajudar de todas as maneiras possíveis. Você pode imaginar o quanto foi horrivelmente difícil para Ben. Num nível prático, se nada mais.

Ter de cuidar de Adam... Fiz o que pude. Passávamos muito tempo juntos.

Mas não dormimos juntos. Não naquela época. Juro, Chrissy.

— Então quando? — perguntei. — Quando aconteceu?

— Logo depois que você foi transferida para Waring House — respondeu ela. — Você estava pior do que nunca. Adam andava difícil. As coisas estavam complicadas. — Ela virou o rosto. — Ben andava bebendo. Não muito, mas o bastante. Ele não estava conseguindo lidar com as coisas.

Certa noite voltamos de uma visita. Coloquei Adam na cama. Ben estava na sala chorando. “Não consigo”, dizia ele. “Não consigo continuar fazendo isso.

Eu a amo, mas isso está me matando.”

O vento açoitou o morro. Frio. Gélido. Puxei o casaco para perto do meu corpo.

— Eu me sentei ao lado dele. E...

Eu vi tudo. A mão no ombro, depois o abraço. As bocas que se

encontram através das lágrimas, o momento em que a culpa e a certeza de que as coisas não devem continuar cede caminho para a lascívia e a certeza de que não é possível parar.

E depois o quê? A trepada. No sofá? No chão? Não quero saber.

— E?

— Desculpe — disse ela. — Nunca quis que acontecesse. Mas aconteceu e... Eu me senti tão mal... Tão mal... Nós dois nos sentimos.

— Quanto tempo?

— O quê?

— Quanto tempo durou?

Ela hesitou, depois disse:

— Não sei. Não muito. Algumas semanas. Nós apenas... nós fizemos sexo apenas algumas vezes. Não parecia certo. Nós dois nos sentíamos muito mal depois.

— O que aconteceu? — perguntei. — Quem terminou?

Ela deu de ombros, depois sussurrou:

— Nós dois. Nós conversamos. Aquilo não podia continuar. Decidi que eu devia, por você — e por Ben —, me afastar dali em diante. Era culpa, acho.

Um pensamento horrível me ocorreu.

— Foi por isso que ele resolveu me deixar?

— Chrissy, não — disse ela, rápido. — Não pense isso. Ele se sentiu péssimo também. Mas ele não deixou você por minha causa.

Não, pensei. Talvez não diretamente. Mas você deve ter lembrado a ele o quanto ele estava perdendo.

Olhei para ela. Ainda assim não senti raiva. Talvez se ela tivesse me dito que eles continuavam dormindo juntos, eu tivesse me sentido diferente.

O que ela me disse me deu a sensação de pertencer a outra época. À pré-história. Achei difícil acreditar que aquilo tivesse alguma coisa a ver comigo.

Claire me encarou.

— No começo, mantive contato com Adam, mas então Ben provavelmente contou a ele o que aconteceu. Adam disse que não queria mais me ver. Disse para ficar longe dele e de você também. Mas eu não consegui, Chrissy. Simplesmente não consegui. Ben havia me dado carta branca, me pedido para ficar de olho em você. Por isso continuei visitando-a. Na Waring House. No começo, num intervalo de algumas semanas, depois a cada dois meses. Mas aquilo a irritava. Irritava terrivelmente. Eu sei que estava sendo egoísta, mas não podia simplesmente largar você ali. Sozinha.

Continuei visitando. Só para ver se você estava bem.

— E contou a Ben como eu estava?

— Não. Não estávamos nos falando.

— Foi por isso que você não me visitava ultimamente? Em casa?

Porque não quer ver Ben?

— Não. Há alguns meses fui a Waring House e eles me contaram que você havia ido embora. Que tinha voltado a morar com Ben. Eu sabia que Ben tinha se mudado. Pedi que me dessem seu endereço, mas eles se recusaram. Disseram que seria quebra de confidencialidade. Disseram que lhe dariam meu telefone e que se eu quisesse escrever, mandariam as cartas para você.

— Então você escreveu?

— Enderecei a carta a Ben. Disse que eu sentia muito, que me arrependia do que havia acontecido. Implorei que ele me deixasse ver você.

— Mas ele se recusou a deixar?

— Não. Você me respondeu, Chrissy. Disse que estava se sentindo muito melhor. Disse que estava feliz, com Ben. — Ela virou o rosto, para o parque. — Disse que não queria me ver. Que sua memória às vezes voltava e que quando voltava, você sabia que eu tinha traído você. — Ela enxugou uma lágrima do olho. — Disse que não queria que eu me aproximasse de você nunca mais. Que era melhor que você me esquecesse para sempre, e que eu me esquecesse de você.

Eu me senti gelar. Tentei imaginar a raiva que eu devia ter sentido para escrever uma carta assim, mas ao mesmo tempo percebi que talvez eu não tivesse sentido raiva nenhuma. Para mim, Claire mal existiria, qualquer amizade entre nós teria sido esquecida.

— Desculpe — falei. Não conseguia imaginar-me recordando a traição dela. Ben devia ter me ajudado a escrever aquela carta.

Ela sorriu.

— Não. Não se desculpe. Você tinha razão. Mas eu não parei de torcer para que você mudasse de ideia. Queria ver você. Queria lhe dizer a verdade, na sua cara. — Eu nada disse. — Sinto tanto — disse ela então. —

Você seria capaz de me perdoar?

Segurei a mão dela. Como poderia sentir raiva dela? Ou de Ben? Minha doença depositou uma carga impossível sobre todos nós.

— Sim — falei. — Sim. Eu a perdoo.

Nós fomos embora pouco depois. No pé do morro, ela se virou para me encarar.

— Vamos nos ver de novo? — perguntou.

Eu sorri.

— Espero que sim!

Ela pareceu aliviada.

— Senti tantas saudades, Chrissy. Você não faz ideia.

Era verdade. Eu realmente não fazia ideia. Mas com ela e esse diário,

 

havia uma chance de eu conseguir reconstruir uma vida que valesse a pena ser vivida. Pensei na carta em minha bolsa. Um recado do passado. A peça final do quebra-cabeça. As respostas das quais preciso.

— Vamos nos ver em breve — disse ela. — No começo da semana que vem. Tudo bem?

— Tudo bem. — respondi. Ela me abraçou, e minha voz se perdeu nos cachos dos seus cabelos. Ela parecia ser minha única amiga, a única pessoa com quem eu podia contar, além de Ben. Minha irmã. Apertei-a com força.

— Obrigada por me contar a verdade — falei. — Obrigada. Por tudo. Eu amo você.

Quando nos despedimos e olhamos uma para a outra, ambas estávamos chorando.

Em casa, sentei-me para ler a carta de Ben. Comecei a me sentir nervosa — será que ela iria me contar o que eu precisava saber? Será que eu finalmente iria entender por que Ben me deixou? —, mas ao mesmo tempo empolgada. Tive certeza de que iria. Certeza de que com a carta, com Ben e com Claire, eu teria tudo o que precisava.

Querida Christine,

Esta é a coisa mais difícil que já tive de fazer na vida. Já comecei com um clichê, mas você sabe que não sou escritor — você é quem tem o dom de escrever! — por isso desculpe, mas farei o melhor que puder.

Quando você ler esta carta, já estará sabendo, mas decidi que preciso abandonar você. Não consigo suportar escrever isso, nem mesmo pensar nisso, mas preciso. Tentei tanto encontrar outro jeito, mas não consigo. Acredite.

Você precisa entender que eu amo você. Sempre amei. Sempre amarei. Não me importo com o que aconteceu, nem por que aconteceu. Não se trata de vingança nem nada do tipo. Não conheci outra pessoa. Quando você estava em coma, percebi o quanto você faz parte de mim — sempre que olhava para você, tinha a sensação de que eu estava morrendo. Percebi que para mim não importava o que você estava fazendo naquela noite em Brighton, nem com quem estava saindo. Só queria que você voltasse para mim.

E então você voltou, e fiquei tão feliz. Você nunca saberá o quanto fiquei feliz no dia que me disseram que você estava fora de perigo, que não iria morrer. Que não iria me deixar. Nos deixar,

quero dizer. Adam era muito pequeno, mas acho que ele entendeu.

Quando percebemos que você não tinha lembrança do que havia acontecido, achei que era uma coisa boa. Acredita nisso? Hoje sinto vergonha, mas achei que era o melhor. Mas então percebemos que você estava se esquecendo de outras coisas também. Aos poucos, com o tempo. No começo eram os nomes das pessoas nos leitos perto de você, dos médicos e das enfermeiras que estavam cuidando de você. Mas você piorou. Esquecia por que estava no hospital, por que não deixavam que voltasse para casa comigo.

Quando eu a levei para casa para passar o fim de semana, você não reconheceu nossa rua, nossa casa. Sua prima veio nos visitar e você não tinha ideia de quem ela era. Nós a levamos de volta ao hospital e você não tinha ideia de para onde estava indo.

Acho que foi aí que as coisas começaram a ficar difíceis. Você amava tanto Adam. Seus olhos brilhavam quando ele ia visitar você

— ele corria em sua direção, corria para os seus braços, e você o levantava e sabia quem ele era imediatamente. Mas então —

desculpe, Chris, mas preciso lhe dizer isso —, você começou a acreditar que Adam tinha sido afastado de você quando ele era bebê. Sempre que você o via, achava que era a primeira vez desde que ele tinha meses de idade. Eu pedia que ele lhe contasse quando havia sido a última vez que ele a tinha visto e ele dizia: “Ontem, mamãe” ou “Semana passada”, mas você não acreditava. “O que você andou dizendo a ele?”, você dizia. “É mentira.” Começou a me acusar de deixar você trancada ali. Achou que outra mulher estava criando Adam enquanto você estava no hospital.

Um dia eu cheguei e você não me reconheceu. Ficou histérica.

Agarrou Adam quando eu não estava olhando e correu para a porta, para salvá-lo, suponho, mas ele começou a gritar. Não entendia por que você estava fazendo aquilo. Eu o levei para casa e tentei explicar, mas ele não entendeu. Começou a ter muito medo de você.

Isso foi piorando. Um dia liguei para o hospital. Perguntei como você ficava quando eu não estava lá, quando Adam não estava lá.

“Descreva como ela está agora”, pedi. Disseram que você estava calma. Feliz. Sentada na cadeira ao lado da sua cama. “O que ela está fazendo?”, perguntei. Disseram que estava conversando com outra paciente, uma amiga sua. Que às vezes vocês duas jogavam cartas.

“Cartas?”, perguntei. Não conseguia acreditar. Disseram que você era boa no baralho — precisavam ensinar as regras a você

todos os dias, mas depois você conseguia derrotar praticamente qualquer um.

“Ela está feliz?”, perguntei.

“Sim”, disseram. “Sim. Ela está sempre feliz.”

“Ela se lembra de mim?”, perguntei. “De Adam?”

“Só quando vocês estão aqui”, responderam.

Acho que eu soube naquele momento que um dia teria de deixar você. Encontrei um lugar onde você poderá morar por quanto tempo for necessário. Um lugar onde poderá ser feliz. Porque você será feliz, sem mim, sem Adam. Não se lembrará da gente, por isso não sentirá a nossa falta.

Amo tanto você, Chrissy. Precisa entender isso. Amo você mais do que amo qualquer coisa. Mas preciso dar uma vida ao nosso filho, a vida que ele merece. Logo ele terá idade suficiente para entender o que está acontecendo. Não mentirei para ele, Chris. Vou explicar a escolha que fiz. Vou lhe dizer que, embora ele possa desejar muito vê-la, isso seria imensamente perturbador para você.

Talvez ele me odeie por isso. Talvez me culpe. Espero que não. Mas desejo que ele seja feliz. E desejo que você também seja feliz.

Ainda que só possa encontrar essa felicidade sem mim.

Faz algum tempo que você está em Waring House agora. Não tem mais ataques de pânico. Tem percepção da rotina. Isso é bom.

Por isso, chegou a hora de eu ir.

Vou entregar esta carta a Claire. Vou pedir que ela a guarde para mim e a entregue a você quando estiver bem o bastante para lê-la e entendê-la. Não posso guardá-la eu mesmo, senão ficarei pensando nela o tempo todo e não conseguirei resistir à tentação de lhe entregar na semana que vem, ou no mês que vem, ou mesmo no ano que vem. Antes do tempo.

Não posso fingir que não espero que um dia possamos ficar juntos novamente. Depois que você se recuperar. Nós três. Como uma família. Preciso acreditar que talvez isso aconteça. Preciso, senão morrerei de tristeza.

Não estou abandonando você, Chris. Nunca vou abandonar você.

Eu a amo demais.

Acredite, isso é a coisa certa, a única coisa que me cabe fazer.

Não me odeie. Eu amo você.

Um beijo,

Ben

 

Leio a carta novamente e dobro o papel. Parece firme, como se talvez a carta houvesse sido escrita ontem, mas o envelope para dentro do qual eu a deslizo é macio, com bordas desgastadas e cheiro doce como o de perfume. Teria Claire a carregado consigo, enfiada num canto da bolsa? Ou, mais provavelmente, teria guardado em uma gaveta em casa, fora de vista, mas nunca totalmente esquecida? Durante anos a carta esperou pelo momento certo para ser lida. Anos que passei sem saber quem era o meu marido, sem saber quem sou. Anos em que eu nunca poderia ter transposto a distância entre nós, porque era uma distância de cuja existência eu não sabia.

Encaixo o envelope entre as páginas do meu diário. Estou chorando enquanto escrevo isso, mas não me sinto infeliz. Entendo tudo. Porque ele me deixou, porque anda mentindo para mim.

Porque ele anda mentindo para mim. Não me contou sobre o livro que escrevi para que eu não ficasse arrasada com o fato de que jamais escreverei outro. Me diz que minha melhor amiga se mudou para me proteger do fato de que os dois me traíram, porque ele não achava que eu amava ambos o suficiente, que seria impossível não perdoá-los. Me diz que fui atropelada por um carro, que foi um acidente, para que eu não tenha de lidar com o fato de que fui atacada e de que o que aconteceu comigo foi resultado de um ato deliberado de ódio cego. Me conta que nós nunca tivemos filhos, não apenas para me proteger de saber que meu filho está morto, mas também para me proteger de precisar lidar com a tristeza de sua morte todos os dias da minha vida. E não me contou que, após anos tentando encontrar uma maneira de manter a nossa família unida, ele precisou encarar o fato de que isso era impossível e se foi, a fim de encontrar a felicidade.

Deve ter achado que a nossa separação seria para sempre, ao escrever esta carta, mas também provavelmente esperava que não fosse — senão por que a escreveria? No que ele estaria pensando, quando se sentou aqui, nesta casa, na nossa casa, como um dia deve ter sido, e apanhou a caneta e começou a tentar explicar a alguém que ele não poderia esperar que entendesse por que ele não tinha outra escolha a não ser abandoná-la? Não sou escritor, disse ele, entretanto para mim suas palavras são lindas, profundas. Parece que ele está falando sobre outra pessoa, porém, em algum lugar aqui dentro, embaixo da pele e dos ossos, dos tecidos e do sangue, sei que não está. Ele está falando de, e para mim. Christine Lucas.

Sua esposa perturbada.

Mas não para sempre. A esperança dele se tornou realidade. De algum modo, melhorei, ou então achou que estar separado de mim era ainda mais difícil do que imaginara, e voltou para mim.

Tudo parece diferente agora. O quarto onde estou não parece mais familiar para mim do que parecia esta manhã quando acordei e tropecei por ele tentando achar a cozinha, desesperada por um gole d’água, desesperada para juntar os pedaços do que havia acontecido na noite passada. E contudo não mais parece trespassado de dor e tristeza. Não mais parece emblemático de uma vida que não consigo me conformar em viver. O

tique-taque do relógio acima do meu ombro não está mais só marcando o tempo. Ele fala comigo. “Relaxe”, diz ele. “Relaxe, e aceite o que acontece.”

Eu errei. Cometi um erro. De novo e de novo e de novo eu o cometi; quem sabe quantas vezes? Meu marido é meu protetor, sim, mas também o meu amante. E agora percebo que eu o amo. Que sempre o amei, e que se preciso descobrir como amá-lo novamente todos os dias, então que assim seja. É isso que irei fazer.

Ben logo estará em casa — já posso senti-lo se aproximando — e quando ele voltar irei lhe contar tudo. Contar que encontrei Claire — e o Dr. Nash, e até mesmo o Dr. Paxton — e que li sua carta. Contar que entendo por que ele fez o que fez naquela época, por que ele me deixou, e que eu o perdoo.

Contar que sei sobre o ataque, mas que não mais preciso saber o que aconteceu, que não me importa mais quem fez isso comigo.

E irei contar o que sei sobre Adam. Sei o que aconteceu com ele e, embora a ideia de enfrentar isso todos os dias me faça congelar de terror, é o que eu preciso fazer. Devemos permitir que a lembrança do nosso filho exista nesta casa, e no meu coração também, não importa quanta dor isso cause.

E irei contar sobre este diário, que finalmente sou capaz de me dar uma narrativa, uma vida, e irei mostrá-lo a ele, se ele pedir para ver. E então posso continuar a usá-lo, a contar a minha história, minha autobiografia. A me criar a partir do zero.