Antes de Dormir

S. J. Watson · Capítulo 11 de 19

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Antes de Dormir

Domingo, 18 de novembro

— Christine? — chamou ele novamente. Som de passos no patamar da escada. — Christine, querida? Sou eu. Ben. — Enfiei as canetas e os lápis de volta na caneca sobre a mesa e me deixei cair no chão novamente. A porta começou a se abrir.

Eu não sabia o que iria fazer até que fiz. Reagi instintivamente, de um nível mais baixo do que coragem.

— Socorro! — disse, quando ele abriu a porta. Apenas sua silhueta contra a luz da escada e por um momento eu realmente senti o terror que estava encenando. — Por favor! Socorro!

Ele acendeu a luz e veio em minha direção.

— Christine! O que aconteceu? — perguntou ele, se agachando.

Recuei, me afastando dele, até que fiquei encurralada contra a parede, sob a janela.

— Quem é você? — falei.

Percebi que havia começado a chorar e tremer histericamente. Corri as mãos pela parede atrás de mim, agarrei a cortina que estava acima de mim como se procurando apoio para me levantar. Ben permaneceu onde estava, do outro lado do escritório. Ele estendeu a mão para mim, como se eu fosse um animal perigoso, selvagem.

— Sou eu — disse ele. — Seu marido.

— Meu o quê? — falei. E então: — O que está acontecendo comigo?

— Você tem amnésia — disse ele. — Estamos casados há anos.

Então, enquanto ele preparava uma xícara de chocolate quente que ainda está na minha frente, deixei que me contasse, desde o começo, tudo o que eu já sabia.

Domingo, 18 de novembro Isso aconteceu nas primeiras horas da manhã de sábado. Hoje é domingo.

Meio-dia, ou quase isso. Todo um dia se passou sem registros. Vinte e quatro horas. Perdidas. Vinte e quatro horas passadas acreditando em tudo o que Ben me disse. Acreditando que nunca escrevi um romance, que nunca tive um filho. Acreditando que tinha sido um acidente que roubara o meu passado.

Talvez, diferentemente de hoje, o Dr. Nash não tenha ligado, e eu não tenha descoberto este diário. Ou talvez ele tenha ligado e eu tenha escolhido não lê-lo. Sinto um calafrio. O que acontecerá se um dia ele decidir não ligar nunca mais? Eu jamais iria encontrar o diário, jamais o leria, jamais saberia que ele existe. Não saberia do meu passado.

Isso seria impensável. Sei disso agora. Meu marido me conta uma versão de como acabei ficando sem memória, mas meus sentimentos me dão outra versão. Imagino se alguma vez já perguntei ao Dr. Nash sobre o que me aconteceu. E, mesmo se eu o tiver feito, poderia acreditar no que ele me diz? A única verdade que tenho é a que está escrita neste diário.

Escrita por mim. Eu devo me lembrar disso. Escrita por mim.

* * *

Meus pensamentos voltam ao que aconteceu nesta manhã. Me lembro do sol brilhando por entre as cortinas, me acordando subitamente. Dos meus olhos fitando um cenário estranho e de ter ficado confusa. Ainda assim, embora eventos específicos não tenham vindo à memória, tive a sensação de olhar para trás, para toda uma história, não apenas alguns anos. E soube, mesmo que sem convicção, que aquela história abrigava um filho. Meu filho.

Naquela fração de segundo antes de eu estar completamente consciente, eu soube que era mãe. Que dei à luz um filho, que o meu corpo não era mais o único que eu deveria nutrir e proteger.

Eu me virei, ciente de estar dividindo a cama com outro corpo, um braço ao redor da minha cintura. Não me senti assustada, mas segura.

Feliz. Fui acordando e as imagens e os sentimentos começaram a se unir em verdades e lembranças. Primeiro eu vi meu menino, ouvi minha voz chamando seu nome — Adam — e o vi correndo em minha direção. Então me lembrei do meu marido. Do seu nome. Me senti completamente apaixonada. Sorri.

A sensação de paz não durou. Olhei para o homem ao meu lado e o seu rosto não era aquele que eu esperava ver. Um momento depois percebi que não reconhecia o quarto onde dormira, não me lembrava de ter chegado ali.

 

E então, finalmente, percebi que não conseguia me lembrar de nada com clareza. Aquelas imagens breves, desconectadas, não representavam minhas memórias, mas sua soma total.

Ben me explicou, é claro. Ou pelo menos algumas partes. E este diário me explicou o resto, uma vez que o Dr. Nash me ligou e eu o encontrei.

Não tive tempo de ler tudo o que estava escrito — fingi uma dor de cabeça e quis ficar no quarto, atenta ao menor ruído vindo do andar de baixo, com medo de que Ben pudesse subir a qualquer momento com uma aspirina ou um copo d’água. Mas li o suficiente. O diário me disse quem eu sou, o que tenho e o que perdi. Que nem tudo está perdido. Que as minhas lembranças estão começando a voltar, embora lentamente. O Dr. Nash me falou isso no dia em que o observei lendo o meu diário. “Você está se lembrando de um monte de coisas, Christine”, dissera ele. “Não vejo por que isso não continuaria.” E o diário me disse que o atropelamento é uma mentira, que em algum lugar do meu íntimo eu me lembro do que aconteceu comigo na noite em que perdi a memória. Que a verdade não contém um carro nem estradas congeladas, mas champanhe e flores e a batida à porta de um quarto de hotel.

E agora eu tenho um nome. O nome da pessoa que eu esperava ver quando abri meus olhos essa manhã não era Ben.

Ed. Acordei esperando estar deitada ao lado de alguém chamado Ed.

No momento eu não sabia quem ele era, esse tal de Ed. Pensei que talvez ele não fosse ninguém, que fosse apenas um nome que eu inventei, tirado do nada. Ou talvez fosse um antigo amante, alguém com quem fiz sexo casual uma noite e de quem não me esqueci. Mas agora li esse diário.

Descobri que fui atacada num quarto de hotel. E agora sei quem é esse Ed.

Ele é o homem que eu estava esperando naquela noite. O homem que me atacou. O homem que roubou a minha vida.

Esta noite coloquei meu marido à prova. Não queria fazer isso, nem sequer o planejei, mas havia passado o dia inteiro preocupada. Por que ele havia mentido para mim? Por quê? Será que ele mente para mim todos os dias?

Que me conta apenas uma versão do passado? Ou serão várias? Preciso confiar nele, pensei. Não me resta mais ninguém.

Estávamos comendo cordeiro; um corte barato, gorduroso e cozido demais. Eu remexia a mesma garfada ao redor do prato, mergulhando-a em um pouco de molho, levando-a à boca e depois ao prato novamente.

— Como fiquei assim? — perguntei. Eu tentei evocar a imagem do quarto de hotel, mas ela permanecia nebulosa, fora de alcance. De certa

forma fiquei grata por isso.

Ben olhou para mim, os olhos arregalados de surpresa.

— Christine — disse ele. — Querida. Eu não...

— Por favor — interrompi. — Preciso saber.

Ele pousou o garfo e a faca no prato.

— Está bem — disse ele.

— Preciso que você me conte tudo — falei. — Tudo.

Ele olhou para mim, os olhos semicerrados.

— Você tem certeza?

— Sim — respondi. Hesitei um pouco, mas então decidi falar. —

Algumas pessoas podem pensar que é melhor não me contar todos os detalhes, especialmente se eles forem perturbadores. Mas eu não concordo.

Acho que você deve me contar tudo, assim posso decidir por mim mesma o que devo sentir. Você entende?

— Chris — disse ele. — O que você quer dizer com isso?

Desviei o olhar. Meus olhos pousaram na fotografia de nós dois que estava sobre o aparador.

— Não sei — respondi. — O que sei é que nem sempre fui dessa maneira. Mas agora sou. Então algo deve ter acontecido. Algo ruim. Estou apenas dizendo que sei disso. Sei que deve ter sido algo horrível. Mas, mesmo assim, quero saber o que foi. Preciso saber o que foi. O que aconteceu comigo. Não minta, Ben — pedi. — Por favor.

Ele estendeu a mão e pegou a minha.

— Querida, eu jamais faria isso.

E então ele começou.

— Era dezembro. As estradas estavam cobertas de gelo... — E eu fiquei ouvindo, com um pavor crescente, enquanto ele me contava sobre o acidente de carro. Quando terminou, pegou de novo garfo e faca e voltou a comer.

— Tem certeza? — perguntei. — Tem certeza de que foi um acidente?

Ele suspirou.

— Por quê?

Tentei calcular o quanto deveria dizer. Não queria revelar que estava escrevendo novamente, que escrevia um diário, mas queria ser o mais sincera possível.

— Hoje mais cedo tive uma sensação estranha — falei. — Quase como uma lembrança. De alguma forma, foi como se tivesse algo a ver com o motivo de eu ter ficado assim.

— Que tipo de sensação?

— Não sei.

— Uma lembrança?

— Mais ou menos.

— Bem, você conseguiu se lembrar de alguma coisa específica sobre o que aconteceu?

Pensei no quarto de hotel, nas velas, nas flores. Na impressão de que não haviam sido enviadas por Ben, de que não foi para ele que abri a porta daquele quarto. Pensei, também, na sensação de não conseguir respirar.

— Que tipo de coisa? — perguntei.

— Qualquer detalhe. O tipo de carro que a atropelou? Ou ao menos a cor? Se você viu quem dirigia ou não?

Tive vontade de gritar com ele: “Por que você quer que eu acredite que fui atropelada?” Seria realmente uma história mais fácil do que a que de fato aconteceu?

Uma história mais fácil de ouvir, pensei, ou mais fácil de contar?

Pensei no que ele faria se eu dissesse: “Na verdade, não. Não me lembro de ter sido atropelada por um carro. Me lembro de estar num quarto de hotel, esperando por alguém que não era você.”

— Não — respondi. — Na verdade, não. É mais uma impressão mesmo.

— Uma impressão? — disse ele. — O que você quer dizer com “uma impressão”? — Ele levantou a voz, soando quase irritado. Eu já não tinha mais certeza se queria continuar a discussão.

— Nada — respondi. — Não foi nada. Apenas uma sensação estranha, como se algo muito ruim estivesse acontecendo, a sensação de dor. Mas não me lembro de quaisquer detalhes.

Ele pareceu relaxar.

— Não deve ser nada — falou. — Apenas sua mente lhe pregando peças.

Tente ignorar.

Ignorar?, pensei. Como ele pode me pedir para fazer isso? Estaria ele com medo de que eu me lembrasse da verdade?

Suponho que seja possível. Ele já me disse hoje que fui atropelada por um carro. Ele não tem como gostar da ideia de ser desmascarado, ainda que seja apenas pelo resto deste único dia em que conseguirei guardar essa lembrança. Especialmente se ele estiver mentindo para me poupar. Posso entender que acreditar que fui atropelada seja mais fácil para nós dois, mas como irei descobrir o que de fato aconteceu?

E quem eu estava esperando, naquele quarto?

— Tudo bem. — Afinal o que mais eu poderia dizer? — Você deve estar certo.

Voltamos ao nosso cordeiro, agora frio. Outro pensamento me ocorreu.

Terrível. Brutal: “E se ele estiver certo?” E se foi realmente um atropelamento? E se a minha mente tiver inventado o quarto de hotel, o ataque? Pode ter sido tudo invenção. Imaginação, e não lembrança. Seria

possível que, não podendo compreender um simples acidente numa estrada congelada, eu tenha inventado essa história toda?

Se assim foi, então minha memória não está funcionando. Não estou começando a me lembrar das coisas. Não estou melhorando de forma alguma, e sim ficando louca.

Encontrei minha bolsa e a abri em cima da cama. Tudo o que estava dentro dela caiu. Minha carteira, minha agenda florida, um batom, pó compacto, alguns lenços de papel. Um telefone celular, depois outro. Um pacotinho de balas de menta. Algumas moedas soltas. Um pedaço de papel amarelo.

Sentei na cama, procurando entre os objetos. Primeiro peguei a pequena agenda e pensei estar com sorte quando vi o nome do Dr. Nash anotado com tinta preta na parte de trás, mas então vi que o número abaixo dele tinha a palavra consultório. Ele não estaria lá agora.

O papel amarelo estava grudado numa das bordas, com poeira e cabelos colados nele, mas fora isso, em branco. Estava começando a imaginar o que teria me feito pensar, por um momento, que o Dr. Nash me daria seu telefone particular, quando me lembrei de ter lido que ele havia escrito seu telefone na capa do meu diário. “Me ligue se estiver confusa”, dissera ele.

Encontrei o número, então peguei ambos os telefones. Não conseguia me lembrar qual dos dois o Dr. Nash havia me dado. Olhei rapidamente o maior dos dois, vendo que cada ligação havia sido recebida ou feita para Ben. O segundo — que se abria — mal havia sido utilizado. Por qual outro motivo o Dr. Nash me daria esse telefone, pensei, senão para isso? O que me sinto agora, senão confusa? Abri o celular e disquei o número dele, então apertei o botão Ligar.

Silêncio por alguns segundos, então uma campainha tocou, interrompida por uma voz.

— Alô? — falou. Ele parecia sonolento, embora não fosse tarde da noite.

— Quem é?

— Dr. Nash — sussurrei. Eu ouvia Ben no andar de baixo, onde eu o havia deixado, assistindo a algum programa de auditório na televisão.

Música, risadas, complementadas por palmas. — É Christine.

Houve uma pausa. Um momento para pensar.

— Ah. Certo. Como...

Senti um inesperado sentimento de decepção. Ele não parecia estar contente por ouvir minha voz.

— Desculpe — falei. — Peguei o seu número na capa do meu diário.

— Ah, claro — disse ele. — É claro. Como está você? — não respondi.

— Está tudo bem?

— Desculpe. — falei. As palavras escaparam de mim, uma após a outra.

— Preciso vê-lo agora. Ou amanhã. Sim. Amanhã. Tive uma lembrança. Na noite passada. Escrevi tudo. Um quarto de hotel. Alguém batendo à porta.

Eu não conseguia respirar. Eu... Dr. Nash?

— Christine — falou ele. — Calma. O que aconteceu?

Respirei fundo.

— Tive uma lembrança. Tenho certeza de que tem algo a ver com o fato de eu não conseguir me lembrar de nada. Mas não faz sentido. Ben diz que fui atropelada por um carro.

Ouvi movimento, como se ele estivesse mudando de posição, e outra voz. Uma voz de mulher.

— Não é nada — disse ele, baixinho, enquanto falava algo mais que não consegui ouvir.

— Dr. Nash? — falei. — Dr. Nash? Eu fui atropelada por um carro?

— Não posso falar agora — disse ele, e ouvi a voz da mulher novamente, agora mais alta, reclamando. Senti algo dentro de mim. Raiva ou pânico.

— Por favor! — falei. A palavra saiu da minha boca como um silvo.

Primeiro silêncio, depois a voz dele novamente, agora com autoridade:

— Desculpe — disse. — Estou um pouco ocupado agora. Você anotou tudo?

Não respondi. Ocupado. Pensei nele e na namorada, pensei no que eu teria interrompido. Ele perguntou novamente.

— O que você recordou... está escrito no seu diário? Não deixe de escrever.

— Tudo bem — respondi. — Mas...

Ele me interrompeu.

— Nos falamos amanhã. Ligo para você neste mesmo número. Prometo.

Alívio misturado com algo mais. Alegria? Deleite?

Não. Era mais do que isso. Parte ansiedade, parte certeza, perpassada pela promessa de prazer. Ainda sinto isso enquanto escrevo esses acontecimentos, mais ou menos uma hora depois de terem ocorrido. Mas agora sei o que é. Algo que não sei se já senti antes. Expectativa.

Mas expectativa com relação a quê? Que ele me dirá o que preciso saber, que ele vai confirmar que minhas lembranças estão começando a voltar, que meu tratamento está funcionando? Ou há algo mais?

Penso em como devo ter me sentido quando ele me tocou no estacionamento, o que deveria estar passando pela minha cabeça para ignorar um telefonema do meu marido. Talvez a verdade seja mais simples.