Antes de Dormir
Segunda-feira, 12 de novembro
— Boa noite, meu amor — disse ele, depois de mais alguns minutos, e a tensão desapareceu. Esperei até que ele estivesse roncando baixinho, saí da cama e aqui, no quarto de hóspedes, me sentei para escrever isso.
Gostaria tanto de me lembrar dele. Só uma vez.
Segunda-feira, 12 de novembro
O relógio acabou de soar 4 horas; está começando a escurecer. Ben ainda vai demorar um pouco para chegar, mas, enquanto estou aqui sentada escrevendo, fico atenta ao ruído do carro dele. A caixa de sapatos está pousada no chão aos meus pés, o papel de seda no qual este diário estava embrulhado escapa pelas suas bordas. Se ele chegar, colocarei meu caderno dentro do armário e lhe direi que estava descansando. É desonesto, mas não horrivelmente; além do mais não há nada de errado em querer manter o conteúdo do meu diário em segredo. Preciso anotar o que vi. O que aprendi. Mas isso não significa que queira que alguém — que qualquer um
— o leia.
Vi o Dr. Nash hoje. Nós nos sentamos um diante do outro à mesa dele.
Atrás do doutor havia um porta-arquivos, sobre o qual repousava um modelo plástico do cérebro fatiado ao meio como uma laranja. Ele me perguntou como eu estava me saindo.
— Bem — respondi. — Acho. — Era uma pergunta difícil de responder: as poucas horas desde que eu acordara eram as últimas de que eu conseguia lembrar claramente. Vi meu marido (como se fosse a primeira vez, embora eu soubesse que isso não era verdade), recebi um telefonema do meu médico, que me contou sobre meu diário. Então, depois do almoço, ele me apanhou em casa e me trouxe até seu consultório.
— Escrevi no meu diário — falei — depois que você ligou. No sábado.
Ele pareceu satisfeito.
— Acha que ajudou em alguma coisa?
— Creio que sim — respondi. Contei-lhe sobre as lembranças que eu havia tido. Sobre a visão da mulher na festa, sobre a doença do meu pai.
Ele fez anotações enquanto eu falava.
— Você ainda se lembra dessas coisas agora? — perguntou. — Ou quando acordou hoje de manhã?
Hesitei. A verdade era que não lembrava. Ou pelo menos, só em parte.
Esta manhã eu li a entrada de sábado — sobre o café da manhã que compartilhei com meu marido, sobre a ida a Parliament Hill. Pareceu tão irreal quanto uma ficção, sem nada a ver comigo, e me vi lendo e relendo a mesma parte vezes sem conta, tentando cimentá-la na minha mente, fixá-la. Levei mais de uma hora fazendo isso.
Li as coisas que Ben havia me contado, de como nos conhecemos e nos casamos, de como vivemos, e nada senti. Entretanto, outras coisas permaneceram comigo. A mulher, por exemplo. Minha amiga. Não consegui me recordar de nada específico — da festa com fogos de artifício, de ter estado no terraço com ela, de encontrar um homem chamado Keith — mas a lembrança ainda existia em mim e, esta manhã, quando li e reli a entrada de sábado, mais detalhes vieram. O ruivo vibrante do cabelo dela, as roupas pretas, suas preferidas, o cinto com tachas, o batom escarlate, a forma como ela fazia fumar parecer a coisa mais descolada do mundo. Não consegui me lembrar do seu nome, mas agora recordei da noite em que nos conhecemos, numa sala enevoada pela fumaça espessa de cigarros e vibrando com os chiados e batidas das máquinas de pinball e com a música de um minúsculo jukebox. Ela acendeu meu cigarro quando pedi fogo, depois se apresentou e sugeriu que eu me juntasse a ela e a seus amigos.
Bebemos vodca e cerveja e depois ela segurou meus cabelos para que não caíssem dentro do vaso sanitário enquanto eu vomitava a maior parte das duas.
— Acho que ficamos amigas de vez agora! — Ela riu enquanto me recolocava de pé. — Eu não faria isso por qualquer pessoa, sabe.
Agradeci e, por nenhum motivo consciente, e como se explicasse o que eu havia acabado de fazer, contei que meu pai tinha morrido.
— Que merda... — disse ela, e, na que deve ter sido a primeira das suas muitas transições da estupidez embriagada à eficiência compassiva, me levou de volta para a sala, onde comemos torradas e bebemos café preto, escutando discos e conversando sem parar sobre nossas vidas, até o dia começar a raiar.
Havia quadros apoiados na parede e atrás da cabeceira da cama, e cadernos de desenho atulhavam o quarto.
— Você é artista? — perguntei, e ela fez que sim.
— É por isso que estou aqui na faculdade — explicou ela. Lembrei-me de ela ter dito que estudava artes plásticas. — Vou acabar professora, claro, mas nesse meio-tempo a gente precisa sonhar. Certo? — Eu ri. — E
você? O que está estudando? — Contei-lhe. Letras. — Ah! — exclamou ela.
— Você quer escrever romances ou dar aulas, então? — ela riu, sem maldade, mas eu não mencionei o conto que estava escrevendo antes de descer até ali.
— Sei lá — retruquei, em vez disso. — Acho que estou na mesma situação que você.
Ela riu de novo.
— Bom, um brinde a nós duas! — disse ela, e enquanto brindávamos uma à outra com café eu senti, pela primeira vez em muitos meses, que as coisas talvez finalmente fossem ficar bem.
Relembrei isso tudo. O esforço me esgotou, esse esforço consciente de vasculhar o vazio da minha memória buscando encontrar algum detalhezinho minúsculo que pudesse desencadear uma recordação. Porém e as minhas lembranças da vida com o meu marido? Sumiram. Ler isso não
suscitou o menor resíduo de lembrança. Era como se não apenas o passeio até Parliament Hill jamais houvesse acontecido, como também tudo o que ele me disse ali em cima.
— Lembrei algumas coisas — contei ao Dr. Nash. — Coisas de quando eu era mais jovem, coisas que lembrei ontem. Elas continuam aqui. E
consigo recordar mais detalhes, também. Mas não consigo lembrar do que fizemos ontem. Nem sábado. Posso tentar construir uma imagem da cena que descrevi no meu diário, mas sei que não é uma lembrança. Sei que estou apenas imaginando-a.
Ele assentiu.
— Você se lembra de alguma coisa que aconteceu no sábado? Qualquer detalhezinho que você anotou e de que ainda consiga se lembrar? À noite, por exemplo?
Pensei no que eu havia escrito sobre ir para a cama. Percebi que me sentia culpada. Culpada por, apesar de sua gentileza, eu não ter sido capaz de me entregar ao meu marido.
— Não — menti. — Nada.
Imaginei o que ele talvez fizesse de diferente para mim para que eu desejasse tomá-lo nos braços, para que o deixasse me amar. Flores?
Chocolates? Precisaria ele fazer investidas românticas sempre que quisesse fazer sexo, como se fosse a primeira vez? Percebi o quanto os caminhos da sedução estavam fechados para ele. Ele não pode sequer colocar a primeira música que nós dançamos no nosso casamento, nem recriar a refeição que tivemos na primeira vez que saímos para comer juntos, porque não me lembro de nenhuma dessas coisas. E, seja como for, sou mulher dele; ele não deveria precisar me seduzir como se nós tivéssemos acabado de nos conhecer sempre que deseja fazer sexo.
Porém, haveria alguma vez em que eu o deixava fazer amor comigo, ou talvez até desejava fazer amor com ele? Será que alguma vez eu acordo sabendo o bastante para que o desejo possa existir, sem ser forçado?
— Nem sequer me lembro de Ben — eu disse. — Esta manhã não tinha a menor ideia de quem ele era.
Ele assentiu.
— E você gostaria de ter?
Quase ri:
— Mas claro! — falei. — Quero me lembrar do passado. Quero saber quem eu sou. Com quem me casei. É tudo parte da mesma coisa.
— É claro — respondeu ele. Fez uma pausa, depois apoiou os cotovelos na mesa e juntou as mãos na frente do rosto, como se pensasse cuidadosamente no que dizer, ou em como dizê-lo. — O que você me contou é animador. Sugere que suas lembranças não estão completamente
perdidas. A questão não é de armazenamento, e sim de acesso.
Refleti por um instante, depois disse:
— Quer dizer que minhas lembranças estão aqui, porém eu simplesmente não consigo acessá-las?
Ele sorriu.
— Se prefere colocar as coisas desse modo... — respondeu. — Sim.
Fiquei frustrada.
— Então como posso me lembrar de mais coisas?
Ele se reclinou na cadeira e olhou para a pasta à sua frente.
— Na semana passada, no dia em que lhe dei o diário, você escreveu que eu lhe mostrei uma foto da casa em que passou sua infância? Acredito que eu a entreguei a você.
— Sim — respondi. — Escrevi.
— Você pareceu se lembrar muito mais ao ver aquela foto do que quando lhe perguntei do local onde você morava sem antes mostrar-lhe uma foto. — Ele fez uma pausa. — O que, novamente, não é de surpreender. Mas gostaria de ver o que acontece se eu lhe mostrar fotos do período de que você definitivamente não se lembra. Gostaria de ver se algo volta à sua lembrança assim.
Hesitei, incerta de onde isso poderia levar, mas certa de que era uma via que eu não tinha escolha a não ser seguir.
— Certo — concordei.
— Ótimo! Vamos olhar apenas uma foto hoje. — Ele apanhou uma fotografia dos fundos da gaveta e depois deu a volta na mesa para vir se sentar ao meu lado. — Antes de olhá-la, me diga: você se lembra de alguma coisa do seu casamento?
Eu já sabia que não havia nada sobre o assunto aqui dentro; até onde eu sabia, meu casamento com o homem com quem eu acordara esta manhã simplesmente não havia acontecido.
— Não — respondi. — Nada.
— Certeza?
Assenti:
— Sim.
Ele pousou a fotografia na mesa à minha frente.
— Você se casou aqui — informou, apontando para a foto. Era de uma igreja. Pequena, com teto baixo e uma torrezinha. Completamente estranha.
— Alguma lembrança?
Fechei os olhos e tentei esvaziar a mente. Vi água. Minha amiga. Um chão com azulejos pretos e brancos. Nada mais.
— Não. Não me lembro de jamais ter visto essa igreja antes.
Ele pareceu desapontado:
— Tem certeza?
Voltei a fechar os olhos. Escuridão. Tentei pensar no dia do meu casamento, tentei imaginar Ben e eu, de terno e vestido de noiva, em pé no gramado em frente à igreja, mas nada me veio. Nenhuma lembrança. A tristeza cresceu dentro de mim. Como qualquer noiva, eu devo ter passado semanas planejando o meu casamento, escolhendo o vestido e aguardando ansiosamente pelas alterações, marcando cabeleireiro, pensando na maquiagem. Imaginei-me sofrendo por causa do cardápio, escolhendo os cânticos, selecionando as flores, o tempo inteiro esperando que aquele dia correspondesse às minhas expectativas impossíveis. E agora eu não tinha meios de saber se havia de fato correspondido ou não. Tudo foi arrancado de mim, todos os vestígios apagados. Tudo, exceto o homem com quem eu me casei.
— Não — eu disse. — Não vem nada.
Ele pôs a fotografia de lado.
— Segundo os registros feitos no início do seu tratamento, você se casou em Manchester — informou ele. — A igreja se chama St. Mark’s.
Esta é uma foto recente, foi a única que consegui, mas suponho que ela tenha basicamente a mesma aparência daquela época.
— Não existem fotografias do meu casamento — eu disse. Era tanto uma pergunta quanto uma afirmação.
— Não. Elas se perderam. Em um incêndio na sua casa, ao que parece.
Assenti. Ouvi-lo dizer aquilo cimentava o fato de algum modo, tornava-o mais real. Era quase como se o fato de ele ser um médico desse às suas palavras uma autoridade que as de Ben não possuíam.
— Quando me casei? — perguntei.
— Deve ter sido em meados dos anos 1980.
— Antes do meu acidente.
O Dr. Nash pareceu incomodado. Teria eu alguma vez conversado com ele sobre o acidente que me deixou sem memória?
— Você sabe o que provocou sua amnésia? — perguntou ele.
— Sei — respondi. — Conversei com Ben. Outro dia. Ele me contou tudo. Eu anotei no meu diário.
Ele concordou.
— Como se sente a respeito?
— Não sei bem. — A verdade é que eu não tinha nenhuma lembrança do acidente, portanto ele não parecia real. Tudo o que havia eram seus efeitos.
O modo como ele me deixou. — Sinto como se eu devesse odiar quem fez isso comigo — continuei. — Especialmente porque essa pessoa nunca foi pega, nunca foi punida por me deixar assim. Por arruinar a minha vida. Mas o estranho é que não a odeio, na verdade. Não consigo. Não consigo
imaginar essa pessoa, ou visualizar sua aparência. É como se ela nem sequer existisse.
Ele pareceu decepcionado.
— É isso o que você acha? — perguntou. — Que sua vida está arruinada?
— Sim — respondi após alguns instantes. — Sim. É o que eu acho. —
Ele ficou em silêncio. — E não está?
Não sei o que eu esperava que ele dissesse, ou fizesse. Suponho que parte de mim desejava que ele dissesse o quanto estou errada, tentasse me convencer de que minha vida vale a pena ser vivida. Mas ele não fez isso. Apenas me fitou. Notei como seus olhos são extraordinários. Azuis salpicados de cinza.
— Sinto muito, Christine — disse ele. — Sinto muito. Mas estou fazendo tudo o que posso, e acho que posso ajudar você. Acho mesmo. Você precisa acreditar nisso.
— Eu acredito — falei. — Eu acredito.
Ele pôs sua mão sobre a minha, que estava pousada sobre a mesa entre nós. Era pesada. Quente. Ele apertou meus dedos, e por um segundo me senti constrangida, por ele e também por mim, mas então olhei para seu rosto, para a expressão de tristeza que vi nele, e me dei conta de que aquilo era apenas um jovem rapaz confortando uma mulher mais velha.
Nada além.
— Desculpe — falei. — Preciso ir ao toalete.
Quando voltei, ele havia servido café, que bebemos à mesa, sentados um de frente para o outro. Ele parecia relutante em fazer contato visual, folheando em vez disso os papéis sobre a mesa de um modo esquisito. No começo achei que ele estava envergonhado por haver apertado a minha mão, mas então ele me olhou e disse:
— Christine, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Duas, na verdade. —
Assenti. — Primeiro: decidi escrever sobre o seu caso. Ele é bastante incomum na área, e acho que seria de grande benefício divulgar seus detalhes para uma comunidade científica mais ampla. Você se incomoda?
Olhei para os periódicos científicos arrumados em pilhas aleatórias nas prateleiras do consultório. Seria assim que ele tencionava avançar na carreira, ou torná-la mais estável? É por isso que estou aqui? Por um momento pensei em dizer que preferia que ele não utilizasse a minha história, mas por fim apenas balancei a cabeça e disse:
— Não. Tudo bem.
Ele sorriu.
— Ótimo. Obrigado. Agora, outra pergunta. É mais uma ideia, na verdade. Algo que eu gostaria de tentar. Você se importaria?
— No que está pensando? — perguntei. Me sentia nervosa, mas aliviada por ele finalmente estar prestes a me contar o que tinha em mente.
— Bom — disse ele. — Segundo seus arquivos, depois que você e Ben se casaram, continuaram morando na mesma casa no leste de Londres onde já viviam. — Ele fez uma pausa. Do nada veio uma voz que devia ser a da minha mãe. “Viviam em pecado”: um muxoxo, um menear de cabeça dela que diziam tudo. — E depois de mais ou menos um ano se mudaram para outra casa, onde ficaram até você ser hospitalizada. — Ele fez uma pausa. — Fica bem perto daquela onde vocês moram hoje. — Comecei a entender o que ele poderia estar sugerindo. — Achei que podíamos sair agora e visitá-la no caminho de volta para sua casa. O que acha?
O que eu achava? Eu não sabia. Era uma pergunta quase irrespondível.
Eu sabia que era algo razoável de se fazer, que poderia me ajudar de algum modo indefinível que nenhum de nós poderia ainda entender, mas mesmo assim senti relutância. Era como se meu passado de repente parecesse perigoso. Um lugar que talvez não fosse sábio visitar.
— Não tenho certeza — respondi.
— Você morou ali durante alguns anos — disse ele.
— Eu sei, mas...
— Podemos simplesmente ir e olhar. Não precisamos entrar.
— Entrar? — perguntei. — Como...?
— Sim — disse ele. — Escrevi para o casal que hoje mora ali. Nós conversamos ao telefone. Eles disseram que se existe uma chance de isso ajudar, então se sentiriam mais do que felizes em deixar você dar uma olhada.
Fiquei surpresa com aquilo.
— É mesmo?
Ele desviou ligeiramente o olhar — rápido, mas o suficiente para que eu registrasse algo como constrangimento. Imaginei o que ele poderia estar escondendo.
— Sim — disse ele, e então: — Não me dou a esse tipo de trabalho com todos os meus pacientes. — Eu não disse nada. Ele sorriu. — Eu acredito mesmo que isso possa ajudar, Christine.
O que mais eu poderia fazer?
No caminho eu tencionava escrever em meu diário, mas o trajeto não foi longo e eu mal havia acabado de ler a última entrada quando estacionamos em frente a uma casa. Fechei o caderno e olhei para cima. A casa era
parecida com aquela de onde eu saíra pela manhã — aquela da qual precisava me lembrar que moro agora — com tijolinhos vermelhos, esquadrias de madeira pintada e a mesma janela ampla e jardim cuidado.
Se havia alguma diferença é que esta casa parecia maior, e uma janela no teto sugeria um sótão convertido em quarto que a nossa não tinha. Achei difícil entender por que havíamos nos mudado desta para outra casa quase idêntica, localizada a somente alguns quilômetros de distância. Depois de um instante, compreendi: por causa das lembranças. Lembranças de uma época melhor, anterior ao meu acidente, quando éramos felizes, levávamos uma vida normal. Ben devia ter essas recordações, embora eu não.
Subitamente tive certeza de que a casa revelaria coisas para mim.
Revelaria o meu passado.
— Quero entrar — falei.
Aqui, devo fazer uma pausa. Desejo escrever o resto, mas é importante, importante demais para que seja escrito às pressas, e Ben estará de volta a qualquer momento. Ele já está atrasado; o céu escureceu, a rua reverbera com os sons de portas se fechando à medida que as pessoas voltam do trabalho para casa. Carros desaceleram em frente à nossa casa — em breve, o de Ben será um deles. É melhor eu interromper agora, deixar meu caderno de lado, escondê-lo em segurança dentro do armário.
Mais tarde eu continuo.
Estava recolocando a tampa da caixa de sapatos quando ouvi o barulho da chave de Ben na fechadura. Ele me chamou quando entrou em casa, e eu lhe disse que desceria em um instante. Embora eu não tenha motivos para fingir que não estava olhando dentro do guarda-roupa, fechei a porta do armário suavemente e depois fui encontrar meu marido.
A noite foi entrecortada. Meu diário me chamava. Enquanto comíamos, não parava de pensar se conseguiria escrever algo antes de lavar a louça; enquanto a lavava, pensava se eu não poderia fingir uma dor de cabeça e escrever depois que terminasse. Mas então, quando terminei de arrumar a cozinha, Ben falou que precisava trabalhar um pouco e foi para seu escritório. Suspirei, aliviada, e disse que iria me deitar.
É onde estou agora. Consigo ouvir o Ben — o tac tac tac do teclado — e admito que o som é reconfortante. Li o que escrevi antes de Ben voltar para casa e consigo agora mais uma vez me visualizar como estava esta tarde: parada em frente a uma casa onde um dia morei. Posso retomar minha história.
Aconteceu na cozinha.
Uma mulher — Amanda — atendeu a campainha insistente da porta, cumprimentou o Dr. Nash com um aperto de mão e a mim com um olhar que pairava entre a pena e o fascínio.
— Você deve ser Christine — disse ela, inclinando a cabeça para o lado e estendendo sua mão manicurada. — Entre!
Ela fechou a porta atrás de nós. Usava uma blusa cor de creme e joias douradas. Apresentou-se e disse:
— Pode ficar quanto tempo quiser, ok? Quanto tempo quiser.
Assenti e olhei ao redor. Estávamos em um corredor iluminado e acarpetado. O sol atravessava as vidraças da janela e incidia sobre um vaso de tulipas vermelhas que estava em uma mesinha de canto. O silêncio foi duradouro e incômodo.
— É uma casa adorável — disse Amanda finalmente, e por um momento senti como se o Dr. Nash e eu fôssemos possíveis compradores e ela uma corretora ávida por fechar um negócio. — Nós a compramos há mais ou menos dez anos. Simplesmente a adoramos. É tão iluminada. Quer ver a sala?
Nós a seguimos até a sala de estar. Era ampla, de bom gosto. Não senti nada, nem mesmo a mais tênue sensação de familiaridade; podia ser qualquer sala de qualquer casa em qualquer cidade.
— Muitíssimo obrigado por ter nos deixado dar uma olhada — disse o Dr. Nash.
— Ah, não foi nada! — retrucou ela, com um riso peculiar. Imaginei-a andando a cavalo, ou fazendo arranjos de flores.
— Você fez muitas reformas desde que se mudou? — perguntou ele.
— Ah, um pouco — disse ela. — Aqui e ali.
Olhei para as tábuas de madeira cor de areia e as paredes brancas, para o sofá cor de creme, para as reproduções de arte moderna penduradas na parede. Pensei na casa de onde eu havia saído de manhã; esta não poderia ser mais diferente.
— Você se lembra de como ela era antes de se mudar?
Ela suspirou.
— Apenas vagamente, receio. Tinha carpete. De tom bege, acho. E papel de parede. Alguma estampa listrada, se me lembro bem. — Tentei visualizar a sala como ela a havia descrito. Nada me veio. — Havia uma lareira que mandamos retirar, também. Hoje me arrependo. Era de um tipo original.
— Christine? — perguntou o Dr. Nash. — Alguma coisa? — Quando fiz que não, ele disse: — Acha que poderíamos olhar o resto da casa?
Subimos as escadas. Havia dois quartos.
— Giles trabalha boa parte do tempo em casa — comentou ela enquanto entrávamos no que ficava na parte da frente. Era dominado por uma mesa de trabalho, gaveteiros e livros. — Acho que os antigos donos devem ter usado este como quarto de dormir. — Ela olhou para mim, mas eu nada disse. — É um pouco maior do que o outro, mas Giles não consegue dormir aqui. Por causa do trânsito. — Uma pausa. — Ele é arquiteto. — Novamente, eu nada disse. — É uma grande coincidência — continuou ela —, porque o homem de quem compramos a casa também era arquiteto. Nós o conhecemos quando viemos olhar o lugar. Eles se deram bastante bem.
Acho que conseguimos um desconto de alguns milhares de libras só por causa dessa conexão. — Outra pausa. Imaginei se ela estaria esperando que a parabenizássemos. — Giles está abrindo o próprio negócio.
Um arquiteto, pensei. Não um professor, como Ben. Não podia ser para eles que ele vendeu essa casa. Tentei imaginar o quarto com uma cama em vez da mesa de tampo de vidro, com carpete e papel de parede listrado no lugar das tábuas de madeira e das paredes brancas.
O Dr. Nash se virou para me olhar.
— Alguma coisa?
Balancei a cabeça.
— Não. Nada. Não me lembro de nada.
Olhamos o outro quarto, o banheiro. Nada me veio e, então, descemos as escadas e entramos na cozinha.
— Quer uma xícara de chá? — perguntou Amanda. — Não é incômodo nenhum, já está pronto.
— Não, obrigada — respondi. A cozinha era dura. Cheia de arestas. Os móveis eram cromados e brancos, e a bancada parecia puro concreto. Uma tigela com limões fornecia o único ponto de cor. — Acho que daqui a pouco já vamos embora — continuei.
— Claro — disse Amanda. Sua eficiência jovial parecia ter desaparecido, substituída por um olhar de decepção. Eu me senti culpada; ela obviamente esperara que uma visita à sua casa pudesse ser o milagre que me curaria.
— Posso tomar um copo d’água? — pedi.
Ela se animou imediatamente.
— Claro! Vou apanhar.
Ela me estendeu o copo e foi nesse momento, quando o apanhei de sua mão, que eu vi.
Amanda e o Dr. Nash sumiram. Eu estava sozinha. Sobre a bancada vi um peixe cru, úmido e cintilante, disposto numa travessa ovalada. Ouvi uma voz. Uma voz masculina. Era a voz de Ben, pensei, mas de algum modo mais jovem.
— Vinho branco — dizia ela — ou tinto? — E eu me virei e o vi entrando
numa cozinha. Era a mesma cozinha — aquela onde eu estava com Dr.
Nash e Amanda —, mas as paredes estavam pintadas de uma cor diferente.
Ben segurava uma garrafa de vinho em cada mão, e era o mesmo Ben, porém mais magro, com menos fios grisalhos nos cabelos, e com bigode.
Estava nu e seu pênis estava semiereto, balançando comicamente enquanto ele andava. Sua pele era macia, tesa sobre os músculos de seus braços e peito, e senti a pontada pungente do desejo. Eu me vi engolir em seco, mas ri.
— Branco, acho? — disse ele, e riu comigo, e então colocou as duas garrafas na mesa e veio até onde eu estava. Seus braços me envolveram, e comecei a fechar os olhos, e minha boca se abriu, como se de forma involuntária, e eu o beijei, e ele a mim, e pude sentir seu pênis pressionando a minha virilha e a minha mão se movendo em direção a ele.
E, enquanto eu o beijava, eu pensava: “Preciso me lembrar disso, dessa sensação. Preciso colocar isso no meu livro. É isso o que eu quero escrever.”
Então eu me larguei em seus braços, pressionando o meu corpo contra o dele, e suas mãos começaram a abrir o meu vestido, buscando o zíper.
— Pare! — eu disse. — Não... — Mas mesmo enquanto eu dizia não, pedia que ele parasse, sentia como se eu o desejasse mais do que jamais desejara alguém antes. — Lá em cima — falei —, rápido. — E então saímos da cozinha, tirando nossas roupas no caminho, e nos dirigimos ao quarto com carpete cinza e papel de parede de estampa azul, e o tempo inteiro eu pensava: “Sim, é sobre isso que eu deveria escrever no meu próximo romance, essa é a sensação que quero captar.”
Balancei para a frente. Ouvi o som de vidro se quebrando, e a imagem à minha frente sumiu. Era como se um rolo de filme tivesse acabado, as imagens na tela tivessem sido substituídas por uma luz trêmula e sombras de partículas de poeira. Abri os olhos.
Eu continuava ali, naquela cozinha, mas agora era o Dr. Nash quem estava na minha frente, e Amanda um pouco atrás dele, e os dois me olhavam, preocupados e ansiosos. Percebi que eu deixara o copo cair.
— Christine — chamou o Dr. Nash. — Christine, você está bem?
Não respondi. Não sabia o que sentir. Era a primeira vez — pelo que eu sabia — que eu havia me lembrado do meu marido.
Fechei os olhos e tentei fazer a visão voltar. Tentei ver o peixe, o vinho, meu marido de bigode, nu, com o pênis balançando, mas nada veio. A lembrança havia desaparecido, evaporado como se jamais houvesse existido ou tivesse sido obliterada pelo presente.
— Sim — respondi. — Estou bem. Eu...
— O que foi? — perguntou Amanda. — Você está bem?
— Eu me lembrei de algo — falei. Vi as mãos de Amanda voarem até a boca, seu rosto adquirir uma expressão de prazer.
— É mesmo? — exclamou ela. — Que maravilha! O quê? O que você lembrou?
— Por favor... — pediu o Dr. Nash. Ele deu um passo para a frente e segurou o meu braço. O vidro quebrado se esmigalhou sob seus pés.
— Do meu marido — eu disse. — Aqui. Eu me lembrei do meu marido...
A expressão de Amanda desabou. “Só isso?”, parecia dizer ela.
— Dr. Nash? — falei. — Eu me lembrei de Ben! — Comecei a tremer.
— Ótimo — disse o Dr. Nash. — Ótimo! Isso é excelente!
Juntos, os dois me levaram até a sala de estar. Sentei no sofá. Amanda me entregou uma caneca com chá quente, um biscoito num prato. Ela não entende, pensei. Não tem como entender. Eu me lembrei de Ben. De mim, quando jovem. De nós dois, juntos. Sei que estávamos apaixonados. Não tenho mais de aceitar a palavra dele a esse respeito. É importante. Muito mais importante do que ela jamais seria capaz de saber.