Antes de Dormir
Quarta-feira, 14 de novembro
Mas agora isso acabou. Conheço a verdade. Minha própria verdade, que ninguém me contou, mas que eu mesma recordei. E agora ela está escrita, anotada neste diário em vez de na minha memória, e permanentemente assim.
Sei que o livro que estou escrevendo — o segundo, percebo com orgulho
— pode ser tão perigoso quanto necessário. Não se trata de ficção. Pode revelar coisas que seria melhor permanecerem ignoradas. Segredos que não deveriam ver a luz do dia.
E, contudo, minha caneta se movimenta pela página.
Quarta-feira, 14 de novembro
Esta manhã perguntei a Ben se ele já usou bigode. Ainda me sentia confusa, incerta do que seria verdade e do que não. Acordei cedo e, ao contrário dos dias anteriores, não pensei que ainda era uma criança. Me senti adulta.
Sexual. A pergunta na minha mente não era “Por que estou na cama com um homem?”, e sim “Quem é ele?” e “O que fizemos?”. No banheiro olhei para o meu reflexo horrorizada, mas as fotos ao redor dele pareciam ressoar de veracidade. Vi o nome do homem — Ben — e me pareceu de algum modo familiar. Minha idade, meu casamento, esses fatos pareciam coisas que eu relembrava, e não que ouvia pela primeira vez. Coisas enterradas, mas não muito fundo.
O Dr. Nash me ligou praticamente logo depois que Ben saiu para trabalhar. Ele me lembrou do meu diário e então — depois de me contar que viria me apanhar mais tarde para me levar para o exame de escaneamento cerebral — eu o li. Havia algumas coisas ali que eu tinha a sensação de talvez relembrar, e talvez passagens inteiras que eu me lembrava de ter escrito. Era como se algum resíduo de memória houvesse sobrevivido à noite.
Talvez fosse por isso que eu precisasse ter certeza de que as coisas ali contidas eram verdadeiras. Liguei para o Ben.
— Ben — falei, depois que ele me falou que não estava ocupado —, você alguma vez usou bigode?
— Que pergunta estranha! — exclamou ele. Ouvi o clangor de uma colher contra uma xícara e imaginei-o colocando açúcar em seu café, com um jornal aberto à sua frente. Me senti esquisita. Incerta do quanto dizer.
— É que... — comecei. — Tive uma lembrança, acho.
Silêncio.
— Uma lembrança?
— Sim — falei. — Creio que sim.
Minha mente repassou as coisas que eu havia escrito no outro dia — o bigode dele, seu corpo nu, sua ereção — e as que eu lembrei ontem. Nós dois na cama. Nos beijando. Elas foram iluminadas brevemente, antes de voltarem a afundar nas profundezas. De repente senti medo.
— Parece que me lembro de você com bigode — falei.
Ele riu, e eu o ouvi pousar a bebida. Senti o chão começar a me fugir dos pés. Talvez tudo o que eu escrevi fosse mentira. Sou uma romancista, afinal de contas, pensei. Ou costumava ser.
A fragilidade da minha lógica me ocorreu. Eu costumava escrever obras de ficção, portanto minha afirmativa de que fui uma romancista bem podia ser uma dessas ficções. Se fosse esse o caso, eu não havia escrito ficção.
Minha cabeça girava.
Mas parecia verdade, disse a mim mesma. Além disso, eu era capaz de digitar sem olhar para as teclas. Ou pelo menos escrevi que eu era...
— Usou ou não usou? — perguntei, desesperada. — É que... é importante.
— Vejamos — disse ele. Eu o imaginei fechando os olhos, mordendo o lábio inferior em uma paródia de concentração. — Suponho que talvez tenha usado, certa vez. Durante um período muito breve. Anos atrás. Não me lembro... — Pausa, e então: — Sim. Na verdade, usei sim. Acho que provavelmente usei. Durante uma semana, mais ou menos. Há muito tempo.
— Obrigada — falei, aliviada. O chão em que eu pisava parecia um pouco mais seguro.
— Você está bem? — perguntou ele.
E respondi que estava.
O Dr. Nash me apanhou ao meio-dia. Disse que eu deveria almoçar antes de ir, mas eu não estava com fome. Estava nervosa, acho.
— Vamos encontrar um colega meu — explicou ele no carro. — O Dr.
Paxton.
Eu nada disse.
— Ele é um especialista no campo das imagens funcionais de pacientes com problemas parecidos com o seu. Trabalhamos juntos.
— Certo — falei, e então ficamos parados no trânsito. — Eu liguei para você ontem? — perguntei. Ele respondeu que sim.
— Você leu seu diário?
— A maior parte dele. Pulei alguns trechos. Já está bem comprido.
Ele pareceu interessado.
— Que partes você pulou?
Pensei por um instante.
— Há algumas partes que me parecem familiares. Suponho que me dão a sensação de estar apenas relembrando coisas que já sei. Das quais eu já lembro...
— Isso é bom. — Ele olhou de relance para mim. — Muito bom.
Senti que corava de prazer.
— Então, eu liguei para você para falar sobre o quê? Ontem?
— Você queria saber se havia mesmo escrito um romance — disse ele.
— E escrevi? Escrevi?
Ele se virou para mim. Estava sorrindo.
— Sim — respondeu. — Sim, escreveu.
O trânsito voltou a andar e nós partimos. Senti alívio. Eu sabia que o
que eu havia escrito era verdade. Relaxei durante o trajeto.
O Dr. Paxton era mais velho do que eu havia imaginado. Usava um paletó de tweed, e os cabelos brancos saíam selvagens de seu nariz e das orelhas.
Ele dava a impressão de provavelmente estar aposentado.
— Bem-vinda ao Centro de Imagens do Vincent Hall — disse ele depois que o Dr. Nash nos apresentou, e então, sem tirar os olhos dos meus, deu uma piscadela e apertou minha mão. — Não se preocupe — disse ele. —
Não é tão pomposo quanto parece. Aqui, vamos entrar. Vou lhe mostrar o local.
Entramos no prédio.
— Estamos ligados ao hospital e à universidade — disse ele, enquanto atravessávamos a entrada principal. — O que pode ser ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. — Eu não sabia o que ele queria dizer com aquilo e esperei que ele dissesse mais a respeito, mas ele nada disse. Sorri.
— Verdade? — falei. Ele estava tentando me ajudar. Eu queria ser educada.
— Todo mundo quer que a gente faça tudo — Ele riu. — Mas ninguém quer pagar nem um centavo por isso.
Entramos em uma sala de espera. Estava pontilhada de cadeiras vazias, exemplares das mesmas revistas que Ben deixou para mim em casa —
Radio Times, Hello!, agora acompanhadas de Country Life e Marie Claire —
e copos de plástico descartados. A impressão que se tinha é de que ali havia acabado de acontecer uma festa e que todos tinham saído com pressa. O Dr. Paxton fez uma pausa em frente a outra porta.
— Quer ver a sala de controle?
— Sim — respondi. — Por favor.
— A RMI é uma técnica relativamente nova — disse ele, depois que entramos. — Já ouviu falar dela? RMI? Ressonância Magnética por Imagem?
Estávamos em uma saleta, iluminada apenas pelo brilho fantasmagórico de uma fileira de monitores de computador. Uma das paredes estava tomada por uma janela, através da qual se via outra sala, dominada por uma grande máquina cilíndrica, com uma cama que dela se projetava como uma língua. Comecei a sentir medo. Não sabia nada sobre essa máquina.
Sem memória, como poderia saber?
— Não — respondi.
Ele sorriu.
— Desculpe. A ressonância magnética é um procedimento relativamente padrão. É como uma radiografia pelo corpo todo. Usamos algumas das mesmas técnicas, só que para observar como o cérebro opera. Enquanto
espera.
O Dr. Nash então falou, — pela primeira vez em algum tempo — e sua voz pareceu baixa, quase tímida. Eu não tive certeza se ele tinha muita admiração pelo Dr. Paxton ou se estava desesperado para impressioná-lo.
— Se alguém tem um tumor no cérebro, precisamos escanear sua cabeça para descobrir a localização dele, a região afetada do cérebro. Isso é, observar a estrutura. Este exame de ressonância magnética permitirá que vejamos a região do cérebro que você usa ao executar determinadas tarefas. Queremos ver como o seu cérebro processa a memória.
— Quais regiões se iluminam e quais não — completou Paxton. — Para onde os fluidos estão se dirigindo.
— Isso irá ajudar? — perguntei.
— Esperamos que nos ajude a identificar onde está o dano — disse o Dr. Nash. — O que houve de errado. O que não está funcionando direito.
— E isso irá me ajudar a recuperar minha memória?
Ele fez uma pausa e então respondeu:
— Esperamos que sim.
Retirei minha aliança e meus brincos e coloquei-os em uma bandeja plástica.
— Você precisará deixar sua bolsa aí também — informou o Dr. Paxton, e depois me perguntou se eu tinha mais algum brinco ou piercing no corpo.
— Você ficaria surpresa, minha cara — disse ele quando balancei a cabeça.
— Bem, esse monstro é um pouquinho barulhento. Você vai precisar disso.
— Ele me entregou tampões de ouvido amarelos. — Pronta?
Hesitei.
— Não sei. — O medo estava começando a se arrastar sobre mim. A sala pareceu encolher e escurecer, e do outro lado do vidro o próprio scanner se agigantava. Tive a sensação de que eu já o havia visto antes, ou uma máquina parecida. — Não tenho certeza se quero fazer isso — disse.
Então o Dr. Nash se aproximou de mim e pousou a mão no meu braço.
— Não causa absolutamente nenhuma dor — disse ele. — Só é um pouco barulhento.
— É seguro?
— Perfeitamente. Eu vou estar aqui, logo atrás do vidro. Estaremos vendo você durante todo o exame.
Ainda assim eu devo ter parecido insegura, porque o Dr. Paxton acrescentou:
— Não se preocupe. Você está em mãos seguras, minha cara. Nada de errado irá acontecer. — olhei para ele, que sorriu e disse: — Imagine que as suas memórias estão perdidas em algum lugar da sua mente. A única
coisa que faremos com essa máquina é tentar descobrir onde elas estão.
* * *
Estava frio, apesar do cobertor enrolado ao redor do meu corpo, e escuro, exceto pela luz vermelha que piscava na sala e por um espelho, pendurado alguns centímetros acima da minha cabeça em um ângulo tal que refletiria para mim a imagem de uma tela de computador situada em outro lugar.
Além dos tampões de ouvido, eu usava fones, por meio dos quais eles me disseram que conversariam comigo, mas por enquanto eles estavam em silêncio. Eu não ouvia nada além de um zumbido distante, o som da minha respiração, pesada e difícil, e os batimentos monótonos do meu coração.
Com a mão direita eu segurava um bulbo de plástico cheio de ar.
“Aperte-o, se precisar nos dizer alguma coisa”, dissera o Dr. Paxton. “Não será possível ouvir você.” Acariciei aquela superfície borrachuda e aguardei.
Queria fechar os olhos, mas eles haviam me dito para mantê-los abertos, a fim de olhar para a tela. Moldes de espuma mantinham minha cabeça perfeitamente imóvel; eu não poderia me mexer nem que quisesse. O
cobertor sobre mim era como uma mortalha.
Um instante de quietude e então um clique. Tão alto que eu me assustei, apesar dos tampões de ouvido. A ele se seguiu outro, e depois um terceiro.
Um barulho grave, vindo da máquina ou da minha cabeça, eu não saberia dizer. Era como um monstro desajeitado acordando, o momento de silêncio antes do ataque. Segurei firme o bulbo de plástico, determinada a não apertá-lo, e então começou um som, como o de um alarme ou furadeira, altíssimo, tão alto que todo o meu corpo se sacudia a cada novo choque.
Fechei os olhos.
Ouvi uma voz.
— Christine — dizia. — Poderia abrir os olhos, por favor? — Portanto, de algum modo eles podiam me ver. — Não se preocupe, está tudo bem.
“Bem?”, pensei. O que eles sabem sobre estar bem? O que eles sabem sobre como é estar no meu lugar, aqui deitada, em uma cidade da qual não me lembro, com pessoas que nunca vi? Estou flutuando, pensei, completamente sem lastros, à mercê do vento.
Uma voz diferente. A do Dr. Nash.
— Pode olhar para as imagens? Pense no que elas são e diga o que são, mas apenas para si mesma. Não diga nada em voz alta.
Abri os olhos. Acima de mim, no espelhinho, apareciam desenhos, um após o outro, de traço preto sobre fundo branco. Um homem. Uma escada.
Uma cadeira. Um martelo. Nomeei cada um à medida que surgiam e então
a tela cintilou as palavras Obrigado! Agora relaxe!, e eu repeti isso a mim mesma também, para me manter ocupada, pensando ao mesmo tempo em como alguém poderia relaxar em uma máquina como essa.
Mais orientações apareceram na tela. Relembre um acontecimento do passado, dizia, e embaixo piscaram as palavras: Uma festa.
Fechei os olhos.
Tentei lembrar a festa que eu havia recordado enquanto eu e Ben assistíamos ao show de fogos de artifício. Tentei me visualizar no terraço, ao lado da minha amiga, ouvindo os ruídos da festa lá embaixo, sentindo o sabor dos fogos de artifício no ar.
Imagens vieram, mas não pareciam reais. Dava para perceber que eu não estava me lembrando delas, e sim inventando-as.
Tentei ver Keith, lembrar dele me ignorando, mas nada veio. Aquelas lembranças estavam novamente perdidas para mim. Enterradas, como se para sempre, embora agora pelo menos eu soubesse que elas existem, que estão em algum lugar aqui dentro, trancafiadas.
Minha mente se voltou para festas de criança. Aniversários, com minha mãe, minha tia e minha prima Lucy. Passa-anel. Dança das cadeiras.
Estátua. Minha mãe com sacolas de guloseimas para embrulhar como prêmios. Sanduíches de carne assada e patê de peixe no pão de forma sem casca. Pavê com geleia.
Lembrei-me de um vestido branco com babados nas mangas, meias com babados, sapatos pretos. Meu cabelo ainda é loiro, estou sentada em uma mesa diante de um bolo, com velinhas. Inspiro fundo, me inclino para a frente e sopro. A fumaça sobe no ar.
Lembranças de outra festa me ocorreram então. Eu me vi em casa, olhando pela janela do meu quarto. Estou nua, com mais ou menos 17 anos.
Há mesas dobráveis ao longo da rua, arrumadas em longas filas, repletas de travessas com pãezinhos de linguiça e sanduíches, jarras de suco de laranja. Há bandeiras do Reino Unido em toda parte, flâmulas penduradas em todas as janelas. Azuis. Vermelhas. Brancas.
As crianças estão fantasiadas — de pirata, de feiticeiro, de viking —
enquanto os adultos tentam organizá-las em grupos para fazer uma corrida do ovo na colher. Vejo minha mãe no outro lado da rua amarrando uma capa no pescoço de Matthew Soper, e, logo abaixo da minha janela, meu pai está sentado em uma espreguiçadeira com um copo de suco na mão.
— Volte para a cama — diz uma voz. Eu me viro. Dave Sopper está sentado na minha cama de solteiro, embaixo do meu pôster dos Slits. O
lençol branco está enrolado ao redor dele, manchado de sangue. Eu não tinha lhe contado que era a minha primeira vez.
— Não — respondo. — Levante! Você precisa se vestir antes que os meus pais voltem!
Ele ri, mas não com maldade.
— Venha!
Coloco meus jeans.
— Não — digo, esticando o braço para apanhar uma camiseta. — Levante. Por favor...
Ele parece desapontado. Eu não achava que isso iria acontecer — o que não significa que eu não quisesse que acontecesse —, e agora queria ficar sozinha. Não tinha nada a ver com ele.
— Tá, tudo bem — diz ele, levantando-se. Seu corpo parece pálido e magro, seu pênis quase absurdo. Olho para o outro lado, para a janela, enquanto ele se veste. Meu mundo mudou, acho. Cruzei uma fronteira e não posso mais voltar atrás. — Tchau, então — continua ele, mas eu não digo nada. Só olho para trás depois que ele sai.
Uma voz em meu ouvido me traz de volta ao presente.
— Ótimo. Mais imagens agora, Christine — diz o Dr. Paxton. — Olhe cada uma e diga a si mesma o que, ou quem, é, certo? Pronta?
Engoli em seco. O que será que eles iriam me mostrar? Quem? Quão ruim seria?
“Sim”, pensei comigo mesma, e começamos.
A primeira fotografia era em preto e branco. Uma criança — uma garota de 4, 5 anos de idade — nos braços de uma mulher. A garota apontava para alguma coisa, ela e a mulher estavam rindo, e no fundo, ligeiramente fora de foco, via-se uma grade atrás da qual descansava um tigre. Uma mãe, pensei comigo mesma. Uma filha. Em um zoológico. E então, com um choque de reconhecimento, olhei para o rosto da criança e percebi que a menininha era eu e a mãe, a minha mãe. A respiração ficou presa em minha garganta. Eu não conseguia me lembrar de já ter ido a um zoológico, e no entanto ali estávamos, ali estava a prova de que eu fora. “Eu”, disse silenciosamente, lembrando o que me disseram. “Mamãe.” Olhei para a tela, tentando gravar a imagem da minha mãe na memória, mas a foto foi desaparecendo e sendo substituída por outra, também da minha mãe, agora mais velha, mas não parecendo tão velha a ponto de precisar de uma bengala, na qual se apoiava. Ela sorria, mas parecia exausta, os olhos muito fundos em seu rosto magro. “Minha mãe”, pensei mais uma vez, e outras palavras vieram, sem querer: “Com dor.” Fechei os olhos involuntariamente e tive de me obrigar a abri-los de novo. Comecei a segurar o bulbo com força.
As imagens começaram a passar rápido, e reconheci apenas algumas.
Uma era da amiga que eu havia visto na minha lembrança, e com alegria eu a reconheci quase na mesma hora. Ela era exatamente como a havia imaginado e estava vestida com jeans velhos e uma camiseta, fumando, o cabelo ruivo solto e despenteado. Outra foto a mostrava de cabelo curto e tingido de preto, com um par de óculos escuros apoiados sobre a cabeça. A ela se seguiu uma foto do meu pai — com a aparência que ele tinha quando eu era pequena, sorrindo, feliz, lendo o jornal no quarto da frente da nossa casa — e então uma minha e de Ben, com outro casal que não reconheci.
As outras fotos eram de desconhecidos. Uma negra com uniforme de enfermeira; outra mulher de tailleur, sentada diante de uma estante de livros, espiando por cima de seus óculos em meia-lua com expressão séria.
Um homem com cabelo loiro-avermelhado e rosto redondo; outro de barba.
Uma criança de 6 ou 7 anos, um menino, tomando sorvete; e então, depois, o mesmo menino sentado a uma mesa, desenhando. Um grupo de pessoas dispersas, olhando para a câmera. Um homem atraente de cabelo negro ligeiramente comprido, com óculos de armação escura emoldurando seus olhos estreitos e uma cicatriz num dos lados do rosto. Elas continuaram aparecendo, essas fotografias, e eu as olhava, tentando localizá-las, lembrar como (ou até mesmo se) estavam entremeadas na tapeçaria da minha vida. Fiz como me pediram. Eu me comportei, porém comecei a entrar em pânico. O ruído da máquina parecia aumentar de tom e de volume, até virar uma sirene, um alerta, e meu estômago se revirou. Não conseguia respirar e fechei os olhos. O peso do cobertor começou a pressionar o meu corpo, tão pesado quanto uma placa de mármore, tanto que tive a sensação de estar me afogando.
Tentei apertar o bulbo com a mão direita, mas ela estava cerrada em forma de punho, fechada sobre o nada. As unhas se enterraram na carne; eu havia deixado cair o bulbo. Gritei, um grito sem palavras.
— Christine — disse uma voz no meu ouvido. — Christine.
Não consegui distinguir de quem era, ou o que ela queria que eu fizesse, por isso tornei a gritar e comecei a chutar o cobertor para longe do meu corpo.
— Christine!
Agora mais alto. Então a sirene parou, uma porta se abriu e apareceram vozes na sala e mãos sobre mim, sobre meus braços e pernas e ao longo do meu peito, e eu abri os olhos.
— Está tudo bem — disse o Dr. Nash ao meu ouvido. — Você está bem.
Estou aqui.
Depois de me acalmarem, garantindo que estava tudo bem (e de me
entregarem minha bolsa, meus brincos e minha aliança), o Dr. Nash e eu fomos a um café. Ficava no fim de um corredor pequeno, com cadeiras de plástico cor de laranja e mesas de fórmica amarelada. Travessas com itens de confeitaria amanhecidos e sanduíches murchavam à luz implacável. Eu não tinha nenhum dinheiro na bolsa, e deixei o Dr. Nash me pagar uma xícara de café e uma fatia de bolo de cenoura, depois escolhi um lugar perto da janela enquanto ele pagava. Lá fora o dia estava ensolarado, as sombras se espraiavam ao longo do gramado. Flores roxas pontilhavam a grama.
O Dr. Nash arrastou sua cadeira por baixo da mesa. Parecia bem mais tranquilo, agora que nós dois estávamos sozinhos.
— Aqui está — disse ele, colocando a bandeja na minha frente. —
Espero que esteja razoável.
Vi que ele havia escolhido chá para si; o saquinho ainda flutuava sobre o líquido xaroposo enquanto ele acrescentava açúcar do açucareiro que estava no meio da mesa. Tomei um gole do meu café e sorri. Estava amargo e quente demais.
— Está bom — falei. — Obrigada.
— Sinto muito — disse ele, depois de um instante. Primeiro achei que ele estivesse falando do café. — Não tinha ideia de que você acharia tão incômodo.
— É claustrofóbico — eu disse. — E barulhento.
— Sim, claro.
— Deixei cair o botão de emergência.
Ele nada disse, e, em vez disso, mexeu sua bebida. Retirou o saquinho de chá da xícara e o depositou sobre a bandeja. Tomou um gole.
— O que aconteceu? — perguntei.
— Difícil dizer. Você entrou em pânico. Não é assim tão incomum. Não é nada confortável lá dentro, como você mesma disse.
Olhei para a minha fatia de bolo. Intocada. Seca.
— As fotografias. Quem eram? Onde as conseguiu?
— Eram uma mistura. Algumas eu consegui nos seus arquivos médicos.
Ben as doou anos atrás. Pedi que você trouxesse algumas de casa para este exercício — você disse que elas estavam organizadas ao redor do seu espelho. Algumas eu forneci, de pessoas que você nunca viu. Para o que chamamos de grupo de controle. Nós as misturamos. Algumas das fotos eram de pessoas que você conheceu quando ainda era criança, de pessoas que deveria, ou poderia, se lembrar. Familiares. Amigos da escola. O resto era de pessoas de uma época da sua vida da qual você definitivamente não se recorda. O Dr. Paxton e eu estamos tentando descobrir se existe diferença na forma como você tenta acessar as lembranças desses
diversos períodos. A reação mais forte foi ao seu marido, é claro, mas você também reagiu a outras. Embora você não se lembre das pessoas do seu passado, os padrões de excitação neural definitivamente estão presentes.
— Quem era a mulher ruiva? — perguntei.
Ele sorriu.
— Uma velha amiga, talvez?
— Sabe o nome dela?
— Receio que não. As fotos estavam em seu arquivo. Não estavam com legendas.
Assenti. “Uma velha amiga.” Disso eu sabia, é claro — era o nome dela que eu tanto queria.
— Você disse que reagi às fotos, porém?
— A algumas delas, sim.
— Isso é bom?
— Precisamos olhar melhor os resultados antes de realmente saber que conclusões podemos tirar. Este trabalho é bastante recente — explicou ele.
— Experimental.
— Entendo. — Cortei um cantinho do bolo de cenoura. Estava amargo demais, a cobertura demasiado doce. Ficamos sentados em silêncio por algum tempo. Ofereci bolo a ele, que recusou, dando palmadinhas na barriga.
— Preciso ficar de olho nisso aqui! — comentou, embora eu ainda não visse motivo para ele se preocupar. Sua barriga era praticamente reta, embora parecesse ser do tipo que aumentaria. Mas ele ainda era jovem; a idade mal o havia tocado.
Pensei em meu próprio corpo. Não sou gorda, nem mesmo estou acima do peso, entretanto, mesmo assim ele me surpreende. Quando estou sentada, ele assume uma forma diferente daquela que eu esperaria. Minhas nádegas pendem, minhas coxas roçam uma na outra quando cruzo as pernas. Eu me inclino para pegar a caneca e meus seios se movem dentro do sutiã, como se me lembrassem da sua existência. No banho, sinto uma ligeira flacidez sob meus braços, que mal é perceptível. Sou maior do que penso ser, ocupo mais espaço do que percebo. Não sou uma menininha, compacta, com a pele tesa sobre os ossos, nem mesmo uma adolescente, com o corpo começando a acumular gordura.
Olhei para o bolo intocado e fiquei pensando no futuro. Talvez eu continue a me expandir, fique rechonchuda e depois gorda, inchando cada vez mais, como um balão. Ou então ficarei do mesmo tamanho que agora, sem jamais me acostumar com isso, observando as rugas do meu rosto se aprofundarem e a pele das minhas mãos ficar fina como a de uma cebola, e eu me transformar em uma velha, etapa por etapa, no espelho do
banheiro.
O Dr. Nash olhou para baixo para coçar a cabeça. Através do seu cabelo vislumbrei o couro cabeludo, que aparecia de modo mais óbvio em um círculo ao redor do cocuruto. Ele ainda não deve ter notado isso, pensei, mas um dia notará. Verá uma foto sua de costas ou tomará um susto dentro de um provador, ou então seu barbeiro comentará algo a respeito, ou sua namorada. A idade chega para todos, pensei quando ele olhou para mim.
De jeitos diferentes.
— Ah — disse ele, com uma vivacidade que pareceu forçada. — Trouxe algo para você. Um presente. Bem, na verdade não é um presente, só uma coisa que acho que você gostaria de ter. — Esticou o braço para baixo e ergueu sua maleta do chão. — Você já deve ter um exemplar — disse ele, abrindo-a. Retirou um embrulho. — Aqui está.
Eu soube o que era antes mesmo de abri-lo. O que mais poderia ser?
Aquilo pesou em minha mão. O Dr. Nash o colocara em um envelope acolchoado, fechado com fita adesiva. Meu nome estava escrito com hidrocor preto. Christine.
— É o seu romance — disse ele. — O que você escreveu.
Eu não sabia o que sentir. Uma prova, pensei. Prova de que o que escrevi no diário era verdade, caso eu precisasse de uma amanhã.
Dentro do envelope havia um único exemplar do meu livro. Eu o retirei.
Era uma brochura e não estava nova. Havia uma mancha de café na capa e as beiradas das páginas estavam amareladas pelo tempo. Será que o Dr.
Nash me deu o próprio exemplar? Estaria o livro fora de catálogo? Com ele nas mãos, eu me vi novamente como no outro dia; mais jovem, muito mais jovem, estendendo o braço para apanhar este livro na tentativa de encontrar um meio de chegar ao próximo que escrevia. De algum modo eu sabia que isso não havia dado certo: o segundo romance jamais chegara a ser publicado.
— Obrigada — falei. — Obrigada.
Ele sorriu.
— Não tem de quê.
Coloquei o livro sob o casaco, onde, durante todo o trajeto de volta para casa, ele pulsou como um coração.
Assim que voltei para casa, olhei para meu romance, mas apenas rapidamente. Queria escrever no diário o máximo que eu pudesse me lembrar antes que Ben voltasse, mas, assim que terminei e guardei o caderno, desci correndo a escada para olhar direito o que eu tinha ganhado.
Examinei o livro. A capa mostrava um desenho, feito com giz pastel, de uma mesa sobre a qual havia uma máquina de escrever. Um corvo estava encarapitado no carro da máquina com a cabeça inclinada para o lado, quase como se estivesse lendo o papel ali preso. Acima do corvo estava escrito o meu nome, e, sobre ele, o título.
Para os pássaros da manhã, dizia. Christine Lucas.
Minhas mãos começaram a tremer ao abrir o livro. Dentro havia uma folha de rosto, uma dedicatória — Para meu pai — e embaixo a palavra: Saudade.
Fechei os olhos. Um lampejo de lembrança. Vi meu pai deitado em uma cama sob luzes brancas fortes, a pele translúcida coberta de suor, de modo que ele quase brilhava. Vi um tubo em seu braço, um saco com líquido claro preso a um suporte para administração intravenosa, uma bandeja de papelão e um frasco de comprimidos. Uma enfermeira checa seu pulso, sua pressão, mas ele não acorda. Minha mãe, sentada do outro lado da cama, tenta não chorar, enquanto eu tento forçar as lágrimas a surgirem.
Então vem um cheiro. De flores cortadas e terra suja. Doce e enjoativo.
Vejo o dia em que ele foi cremado. Eu vestida de preto (algo que, de algum modo, sei que não é incomum), porém desta vez sem maquiagem. Minha mãe sentada ao lado da minha avó. As cortinas se abrem, o caixão desliza para dentro e eu choro, imaginando meu pai sendo transformado em pó.
Minha mãe aperta minha mão, depois voltamos para casa e bebemos vinho barato e comemos sanduíches enquanto o sol se põe e ela se dissolve a meia-luz.
Suspirei. A imagem desapareceu e abri os olhos. Meu livro, à minha frente.
Abri na primeira página de texto, na primeira frase. Foi então, eu escrevera, com o motor gemendo e seu pé direito pressionando com força o acelerador, que ela soltou as mãos do volante e fechou os olhos. Sabia o que iria acontecer. Sabia para onde aquilo iria levar. Sempre soube.
Folheei as páginas até a metade do romance. Li um parágrafo ali, depois outro perto do fim.
Eu havia escrito sobre uma mulher chamada Lou e um homem (seu marido, supus) chamado George. O livro parecia ser ambientado em uma guerra. Fiquei frustrada. Não sei o que eu estava esperando — algo autobiográfico, talvez? —, mas parecia que as respostas que esta obra poderia me dar eram limitadas.
Ainda assim, pensei, enquanto virava o livro para olhar a quarta capa, pelo menos eu o havia escrito, publicado.
Onde poderia estar a foto do autor não havia nenhuma. Em seu lugar havia uma pequena biografia.
Christine Lucas nasceu em 1960 no norte da Inglaterra, dizia. Formou-se em Letras pela University College de Londres, onde vive atualmente. Este é seu primeiro romance.
Sorri para mim mesma, sentindo-me inchar de felicidade e orgulho. Eu fiz isso. Queria lê-lo, destrancar seus segredos, mas ao mesmo tempo não queria. Tinha medo que a realidade pudesse levar embora minha felicidade.
Ou eu gostaria do romance e ficaria triste por nunca mais poder escrever outro, ou não gostaria e ficaria frustrada por jamais haver desenvolvido meu talento. Eu não saberia dizer que opção era mais provável, mas sabia que um dia, incapaz de resistir ao fascínio da minha única conquista, eu descobriria. Faria essa descoberta.
Mas não hoje. Hoje eu tinha outra coisa para descobrir, algo muito pior do que a tristeza, mais prejudicial do que a mera frustração. Algo que poderia me dilacerar.
Tentei guardar o livro no envelope. Havia outra coisa ali dentro. Um bilhete, dobrado em quatro, com as pontas certinhas. Nele o Dr. Nash havia escrito: Achei que você gostaria de ver isso!
Desdobrei o papel. Em cima ele havia escrito Standard, 1986. Embaixo havia uma cópia de um artigo de jornal, junto de uma fotografia. Olhei para a página por um ou dois segundos antes de perceber que o artigo era uma resenha do meu livro e havia uma foto minha.
Tremia ao segurar a página. Não sabia por quê. Era uma resenha antiga; bons ou ruins, quaisquer efeitos que possa ter tido há muito se foram.
Agora aquilo era passado, suas ondas sumiram completamente — mas era importante para mim. Como a minha obra fora recebida, há tantos anos?
Teria sido bem-sucedida?
Li o artigo por alto, esperando entender o tom antes de me obrigar a analisar os detalhes. Palavras saltaram à vista, a maioria positiva.
Estudado. Perceptivo. Talentosa. Humanidade. Brutal.
Olhei para a foto. Em preto e branco, eu estava sentada a uma escrivaninha, com o corpo voltado na direção da câmera. Eu estava em uma posição esquisita. Algo fazia com que eu me sentisse desconfortável, e me perguntei se seria a pessoa atrás da câmera ou a posição em que estava sentada. Apesar disso, sorrio. Meu cabelo é comprido e está solto, e, embora a foto seja em preto e branco, ele parece mais escuro do que é atualmente, como se eu o tivesse pintado de preto, ou se ele estivesse molhado. Atrás de mim há portas de vidro e, através delas, visível no canto do quadro, há uma árvore desfolhada. Abaixo da foto, há uma legenda: Christine Lucas em sua casa no norte de Londres.
Percebi que devia ser a casa que eu havia visitado com o Dr. Nash. Por um segundo tive o desejo quase avassalador de voltar lá, de levar essa
fotografia comigo e me convencer de que sim, era verdade; eu havia mesmo existido, naquela época. Tinha sido mesmo eu.
Mas isso eu já sabia, é claro. Embora não pudesse mais me lembrar, eu sabia que ali, de pé na cozinha, eu havia me lembrado de Ben. Ben e sua ereção balouçante.
Sorri e toquei a foto, correndo a ponta dos dedos por ela, procurando pistas escondidas como um cego. Tracei o contorno dos meus cabelos, corri os dedos pelo meu rosto. Na foto pareço pouco à vontade, mas também, de algum modo, radiante. É como se eu estivesse escondendo um segredo, aferrando-me a ele como a um amuleto. Meu romance tinha sido publicado, claro, mas havia algo mais, algo além disso.
Olhei mais de perto. Percebi o inchaço dos meus seios no vestido solto que estava usando, a forma como pouso um dos braços ao redor da barriga.
Uma lembrança borbulha na superfície, vinda do nada — eu, sentada posando para a foto, o fotógrafo na minha frente atrás do tripé, a jornalista com quem acabo de discutir minha obra borboletando pela cozinha. Ela grita, perguntando como estão indo as coisas, e nós dois respondemos com um alegre “Bem!” e rimos. “Não vamos demorar muito”, diz ele, trocando o filme. A jornalista acende um cigarro e grita para perguntar não se eu me incomodo, mas onde tem um cinzeiro. Fico irritada, mas só um pouco. A verdade é que eu mesma estou doida por um cigarro, mas parei de fumar desde que descobri que...
Olhei para a foto mais uma vez e entendi. Nela, eu estou grávida.
Minha mente parou por um momento e depois disparou. Tropeçou sobre si mesma, apanhada nas arestas afiadas da compreensão do fato de que não apenas eu estava com um bebê no ventre enquanto estava sentada ali na sala de jantar tirando foto, como sabia e estava feliz com isso.
Não fazia sentido. O que havia acontecido? A criança devia ter o quê, hoje... que idade? Dezoito anos? Dezenove? Vinte?
Mas não há criança, pensei. Onde está meu filho?
Senti meu mundo guinar mais uma vez. Aquela palavra: filho. Eu pensei nela, disse-a a mim mesma cheia de certeza. De algum modo, em algum lugar muito profundo do meu ser, eu sabia que a criança que eu gerara era um menino.
Agarrei a borda da cadeira para tentar me orientar, e, ao fazê-lo, outra palavra borbulhou à superfície e explodiu. Adam. Senti meu mundo mudar girar.
Eu havia dado à luz aquele filho. Nós lhe demos o nome de Adam.
Levantei-me e o embrulho que continha o livro caiu no chão. Minha mente disparara como um motor que, depois de inúmeras tentativas,
finalmente havia pegado; a energia ricocheteava dentro de mim como se em desespero para ser liberada. Ele não constava do álbum da sala de estar, disso eu sabia. Eu teria me lembrado de ver uma foto do meu próprio filho ao folheá-lo esta manhã. Teria perguntado a Ben quem ele era. Teria escrito a respeito dele no meu diário. Enfiei o recorte de volta no envelope junto com o livro e corri para o andar de cima. No banheiro, postei-me em frente ao espelho. Nem sequer olhei para o meu rosto, e sim ao redor dele, para as fotos do passado, as fotografias que eu devo utilizar para me reconstruir quando não tenho memória.
Eu e Ben. Eu sozinha, e Ben sozinho. Nós dois com outro casal, mais velho, que suponho serem os pais dele. Eu muito mais nova, de cachecol, acariciando um cão e sorrindo, feliz. Mas não há nenhuma de Adam.
Nenhum bebê, nenhuma criança pequena. Nenhuma foto tirada em seu primeiro dia na escola, ou num evento esportivo, ou nas férias. Nenhuma foto dele fazendo castelos de areia. Nada.
Não fazia sentido. Com certeza todos os pais tiram essas fotos, e não as jogam fora, não é?
Devem estar aqui, pensei. Levantei as fotos para ver se não havia outras grudadas embaixo delas, camadas de história dispostas umas sobre as outras como nuvens baixas. Não havia nada. Nada além dos azulejos azul-claros na parede e do vidro liso do espelho. Um vazio.
Adam. O nome girava em minha cabeça. Meus olhos se fecharam e mais lembranças me atingem, com violência, cada uma delas cintilando um instante antes de desaparecer e desencadear a lembrança seguinte. Vi Adam, o cabelo loiro que eu sabia que um dia ficaria castanho, a camiseta de Homem-Aranha que ele insistiu em usar até ficar pequena demais para ele e ter de ser jogada fora. Eu o vi em um carrinho de bebê, dormindo, e me lembro de pensar que ele era o bebê mais perfeito do mundo, a coisa mais perfeita que eu já tinha visto. Eu o vi andando em uma bicicleta azul
— um triciclo de plástico — e de algum modo soube que nós o havíamos comprado para ele de presente de aniversário e que ele andava com aquilo por todo lado. Eu o vi em um parque, a cabeça abaixada entre as barras do guidão, sorrindo enquanto descia uma ladeira a toda velocidade na minha direção e, um segundo mais tarde, inclinando-se para a frente e caindo no chão quando o triciclo bateu em algo no caminho e se retorceu embaixo dele. Eu me vi segurando-o enquanto ele chorava, limpando o sangue do seu rosto, encontrando um de seus dentes no chão, perto de uma roda que ainda girava em falso. Eu o vi me mostrando um desenho que ele havia feito — uma faixa azul para o céu, outra verde para o chão e entre as duas coisas três figuras amorfas e uma casinha minúscula — e vi o coelho de brinquedo que ele levava para todo lugar.
Voltei num estalo para o presente, para o banheiro onde eu estava, mas tornei a fechar os olhos. Queria me lembrar dele na escola, ou quando adolescente, ou visualizá-lo comigo ou com o pai. Mas não consegui.
Quando tentei organizar minhas memórias, elas flutuaram e sumiram, como uma pena apanhada pelo vento que muda de direção sempre que alguém a toca. Em vez disso, eu o vi segurando um sorvete pingando, depois com alcaçuz sujando-lhe o rosto inteiro, depois dormindo no banco de trás de um carro. Tudo o que eu podia fazer era observar essas lembranças aparecendo e depois sumindo com a mesma rapidez com que haviam surgido.
Foi preciso reunir toda a minha força para não rasgar as fotos à minha frente. Eu sentia vontade de arrancá-las da parede, buscando provas do meu filho. Em vez disso, como se temendo que qualquer movimento pudesse fazer com que os meus membros me traíssem, fiquei perfeitamente imóvel na frente do espelho, cada músculo do meu corpo tensionado.
Nenhuma foto sobre a lareira. Nenhum quarto de adolescente com pôsteres de pop stars na parede. Nenhuma camiseta para lavar ou entre as pilhas de roupas para passar. Nenhum tênis desgastado no armário embaixo da escada. Mesmo que ele tivesse saído de casa, ainda haveria algum vestígio de sua existência, com certeza... não? Algum indício?
Mas não, ele não está nesta casa. Com um calafrio, percebo que era como se ele não existisse e jamais tivesse existido.
Não sei quanto tempo fiquei ali de pé no banheiro, olhando para a ausência dele. Dez minutos? Vinte? Uma hora? Em algum momento escutei uma chave abrindo a porta de entrada, o arrastar dos pés de Ben ao limpá-los no capacho. Não me mexi. Ele entrou na cozinha, depois na sala de jantar, e, em seguida, gritou para o andar de cima perguntando se estava tudo bem.
Parecia aflito, sua voz tinha reverberações de nervosismo que eu não ouvi de manhã, mas apenas murmurei que sim, sim, eu estava bem. Eu o ouvi entrar na sala de estar e ligar a televisão.
O tempo parou. Minha mente se esvaziou de tudo. Tudo, exceto a necessidade de saber o que havia acontecido com meu filho, perfeitamente equilibrada com o sentimento de horror perante ao que eu poderia descobrir.
Escondi meu livro no armário e desci as escadas.
Fiquei parada na frente da porta da sala de estar. Tentei acalmar minha respiração, mas não consegui; ela saía em jorros quentes. Eu não sabia o que dizer a Ben, como lhe contar que eu sabia sobre Adam. Ele me perguntaria como eu sabia, e o que eu lhe diria então?
Não importava, porém. Nada importava. Nada, a não ser saber do meu filho. Fechei os olhos e, quando me senti o mais calma que achei ser
possível, empurrei a porta suavemente e a abri. Eu a senti deslizar sobre o carpete áspero.
Ben não me ouviu. Estava sentado no sofá, vendo televisão, com um prato equilibrado sobre o colo com metade de um biscoito. Senti uma onda de raiva. Ele parecia tão relaxado e feliz. Um sorriso brincava em sua boca.
Ele começou a rir. Quis correr até lá, agarrá-lo e gritar até que ele me contasse tudo, me contasse por que havia escondido o meu livro de mim, por que havia escondido as provas da existência do meu filho. Queria exigir que ele me devolvesse tudo o que eu tinha perdido.
Mas eu sabia que não adiantaria nada. Em vez disso, pigarreei. Um pigarro minúsculo, delicado. Um pigarro que dizia: “Não quero incomodar, mas...”
Ele me viu e sorriu.
— Querida! — exclamou. — Você está aí!
Entrei na sala.
— Ben? — falei. Minha voz estava engasgada. Parecia estranha para mim. — Ben, preciso conversar com você.
O rosto dele assumiu uma expressão de ansiedade. Ele se levantou e veio a mim, deixando o prato cair no chão.
— O que foi, meu amor? Você está bem?
— Não — respondi. Ele parou a mais ou menos 1 metro de onde eu estava. Estendeu os braços para que eu o abraçasse, mas não o fiz. — O que foi?
Olhei para o meu marido, para o seu rosto. Ele parecia controlado, como se já tivesse passado por isso antes, estivesse acostumado com esses momentos de histeria.
Eu já não podia aguentar mais não dizer o nome do meu filho.
— Onde está Adam? — perguntei. As palavras saíram engasgadas. —
Onde ele está?
A expressão de Ben mudou. Surpresa? Ou choque? Ele engoliu em seco.
— Me diga! — eu disse.
Ele me abraçou. Senti vontade de empurrá-lo para longe, mas não o fiz.
— Christine — disse ele. — Por favor, acalme-se. Posso explicar tudo.
Certo?
Eu queria lhe dizer que não, as coisas não estavam nem um pouco certas, mas não disse nada. Escondi meu rosto, enterrando-o nas dobras da camisa dele.
Comecei a tremer.
— Me diga — pedi. — Por favor, me diga agora.
Sentamos no sofá. Eu, numa ponta, ele, na outra. Era o mais próximo que
eu queria que ficássemos.
Conversamos. Alguns minutos. Horas. Não sei dizer. Não queria que ele falasse, que repetisse aquilo, mas ele o fez.
— Adam morreu.
Eu me senti contrair, me fechar toda como uma ostra. Suas palavras, afiadas como arame farpado.
Pensei na mosca no vidro a caminho de casa, vindo da casa da minha avó.
Ele tornou a falar:
— Christine, meu amor. Lamento muito.
Senti raiva. Raiva dele. “Maldito”, pensei, embora eu soubesse que não era culpa dele. Eu me obriguei a falar.
— Como?
Ele suspirou.
— Adam estava nas forças armadas.
Entrei em estupor. Tudo o mais se distanciou, até sobrar apenas a dor e nada mais. A dor. Reduzida a um único ponto.
Um filho que eu nem sequer sabia que tivera, e ele havia se tornado um soldado! Algo passou pela minha cabeça. Absurdo. “O que a minha mãe vai pensar?”
Ben falou de novo, em pequenos rompantes:
— Ele era fuzileiro da Marinha Real britânica. Estava no Afeganistão e foi morto. No ano passado.
Engoli com dificuldade, a garganta seca.
— Por quê? — perguntei, e depois: — Como?
— Christine...
— Quero saber — falei. — Preciso saber.
Ele esticou o braço para segurar a minha mão e eu deixei, embora tenha ficado aliviada quando ele não se aproximou de mim no sofá.
— Você não quer saber tudo, não é?
Minha raiva se agitou. Não consegui evitar. Raiva e pânico.
— Ele era meu filho!
Ele desviou o olhar, olhou para a janela.
— Ele estava se deslocando em um veículo blindado — disse ele. Falava lentamente, quase num sussurro. — Estava escoltando tropas. Explodiu uma bomba, num dos cantos da estrada. Um dos soldados sobreviveu. Adam e o outro, não.
Fechei os olhos e minha voz também baixou para um sussurro.
— Ele morreu na hora? Ele sofreu?
Ben suspirou.
— Não — disse ele, após um instante. — Ele não sofreu. Pelo que
disseram, tudo aconteceu muito rápido.
Olhei na direção em que ele estava sentado. Ele não me olhou de volta.
“Você está mentindo”, pensei.
Vi Adam sangrando até a morte num canto da estrada e afastei o pensamento, concentrando-me em vez disso no nada, no vazio. Minha mente começou a girar. Perguntas. Perguntas que eu não ousava fazer, com medo de que as respostas acabassem comigo. Como ele era quando menino, adolescente, homem? Nós dois éramos próximos?
Brigávamos? Ele era feliz? Eu fui uma boa mãe?
E como o menininho que havia andado num triciclo de plástico acabou sendo morto do outro lado do mundo?
— O que ele estava fazendo no Afeganistão? — perguntei. — Por que lá?
Ben me disse que estávamos em guerra. Uma guerra contra o terror, explicou, embora eu não soubesse o que isso significava. Disse que houve um ataque, um ataque terrível, nos Estados Unidos. Milhares de pessoas morreram.
— E por isso o meu filho acaba morto no Afeganistão? — eu disse. —
Não entendo...
— É complicado — falou ele. — Ele sempre quis entrar para as forças armadas. Achava que estava cumprindo o seu dever.
— Dever? Você acreditava que era isso o que ele estava fazendo?
Cumprindo o seu dever? E eu, acreditava? Por que você não o convenceu a fazer outra coisa? Qualquer coisa?
— Christine, era o que ele queria.
Por um momento horrível, eu quase ri.
— Ser morto? Era isso o que ele queria? Por quê? Eu nem sequer o conheci.
Ben ficou em silêncio. Apertou a minha mão, e uma lágrima solitária rolou pelo meu rosto, quente como ácido, e depois outra, e então mais outras. Eu as enxuguei, com medo de que começar a chorar pudesse significar jamais parar.
Senti minha mente começar a se fechar, a se esvaziar, a se recolher para o nada.
— Eu nem sequer o conheci — falei.
* * *
Mais tarde, Ben trouxe uma caixa e a colocou sobre a mesinha de centro à nossa frente.
— Deixo essas lá em cima — disse ele. — Por segurança.
Contra o quê?, pensei. A caixa era cinza, de metal. O tipo de caixa em que alguém guardaria dinheiro ou documentos importantes.
Seja lá o que contivesse, devia ser perigoso. Imaginei animais selvagens, escorpiões e serpentes, ratos famintos, sapos venenosos. Ou um vírus invisível, algo radioativo.
— Por segurança? — repeti.
Ele suspirou.
— Há certas coisas com as quais não seria bom você topar quando está sozinha, certas coisas que seria melhor que eu explicasse a você.
Ele sentou ao meu lado e abriu a caixa. Não vi nada ali dentro a não ser papel.
— Este é Adam bebê — disse ele, retirando um punhado de fotografias e entregando-as a mim.
Era uma foto minha em uma rua. Estou andando na direção da câmera, com um bebê — Adam — preso ao meu peito por um sling. O corpo dele está de frente para o meu, mas ele olha para trás, por cima do ombro, para a pessoa que está tirando a foto. O sorriso em seu rosto é uma versão desdentada do meu próprio.
— Você tirou essa foto?
Ben assentiu. Olhei-a novamente. Estava rasgada, as bordas manchadas, as cores lavadas como se estivessem lentamente desbotando.
Eu. Um bebê. Não parecia real. Tentei me autoconvencer que eu era mãe.
— Quando? — perguntei.
Ben olhou por cima do meu ombro.
— Ele devia ter uns 6 meses — disse ele. — Então, vejamos. Isso deve ter sido mais ou menos em 1987.
Eu teria 27 anos. Aquilo foi há uma vida inteira.
O tempo de vida do meu filho.
— Quando ele nasceu?
Ele enfiou a mão na caixa novamente, me entregou uma folha de papel.
— Em janeiro — respondeu.
Era amarela, quebradiça. Uma certidão de nascimento. Eu a li em silêncio. Seu nome estava ali. Adam.
— Adam Wheeler — eu disse, em voz alta. Tanto para mim quanto para Ben.
— Wheeler é meu sobrenome — disse ele. — Nós decidimos que ele teria o meu sobrenome.
— É claro — falei. Aproximei o papel do meu rosto. Parecia leve demais para ser portador de tanto significado. Eu desejava aspirá-lo para que se tornasse parte de mim.
— Aqui — disse Ben. Tirou o papel das minhas mãos e o dobrou. — Há mais fotos. Quer vê-las?
Ele me entregou mais fotografias.
— Não temos tantas assim — falou ele enquanto eu as olhava. —
Muitas se perderam.
Ele fazia parecer que elas tinham sido esquecidas em trens ou entregues a desconhecidos para que as guardassem em segurança.
— Sim, eu lembro. Teve um incêndio. — eu disse, sem pensar.
Ele me olhou de um jeito estranho, com os olhos estreitados, bem apertados.
— Você lembra? — perguntou ele.
De repente não tive certeza. Será que ele tinha me contado sobre o incêndio esta manhã ou estaria eu apenas me lembrando de algo que ele me disse outro dia? Ou teria eu simplesmente lido aquilo no meu diário depois do café da manhã?
— Bom, você me contou.
— Contei? — indagou ele.
— Sim.
— Quando?
Quando mesmo? Tinha sido aquela manhã ou dias atrás? Pensei no meu diário, lembrei de tê-lo lido depois que ele saiu para o trabalho. Ele me contara sobre o incêndio quando estávamos em Parliament Hill, sentados no banco.
Eu poderia ter lhe falado sobre o meu diário naquela ocasião, mas algo me conteve. Ele não parecia nada contente por eu haver me lembrado de algo.
— Antes de você sair para o trabalho — falei. — Quando estávamos olhando o álbum. Você deve ter me contado, acho.
Ele franziu a testa. Eu me sentia péssima por mentir para ele, mas não me sentia capaz de lidar com mais revelações.
— Como eu saberia, se não fosse assim? — falei.
Ele me encarou.
— Creio que sim.
Fiz uma pausa por um instante, olhando para o punhado de fotografias na minha mão. Eram dolorosamente poucas, e pude ver que a caixa não continha muitas mais. Seriam elas realmente tudo o que eu tinha para descrever a vida do meu filho?
— Como o incêndio começou? — perguntei.
O relógio sobre a lareira soou suas badaladas.
— Foi anos atrás. Na nossa antiga casa. Aquela onde moramos antes de nos mudarmos para cá. — Tentei adivinhar se ele estaria se referindo
àquela que eu havia visitado. — Perdemos muita coisa. Livros, documentos.
Esse tipo de coisa.
— Mas como começou? — insisti.
Por um momento ele não disse nada. Sua boca abriu e fechou, e então ele disse:
— Foi um acidente. Apenas um acidente.
O que será que ele não queria me dizer? Teria eu deixado um cigarro aceso, ou o ferro ligado, ou esquecido uma panela no fogo? Eu me imaginei na cozinha onde eu estivera anteontem, com sua bancada de concreto e os móveis brancos, porém anos atrás. Me vi de pé diante de uma fritadeira chiando, sacudindo a peneira de metal com as batatas fatiadas que eu estava fazendo, observando-as flutuarem à superfície antes de girarem e voltarem a afundar no óleo. Eu me vi ouvir o telefone tocar, enxugar as mãos no avental que eu amarrara ao redor da cintura, ir até o corredor.
Então o quê? Teria o óleo explodido em chamas enquanto eu atendia o telefone, ou será que eu havia voltado para a sala ou ido ao banheiro, sem nenhuma lembrança de haver começado a preparar o jantar?
Eu não sei, jamais poderei saber. Mas era generoso da parte de Ben me dizer que tinha sido um acidente. A vida doméstica oferece tantos perigos para uma pessoa sem memória, e talvez outro marido tivesse apontado os meus erros e minhas deficiências, talvez incapaz de resistir a assumir uma posição superior. Toquei seu braço, e ele sorriu.
Folheei o maço de fotografias. Havia uma de Adam com um chapéu plástico de caubói e um lenço amarelo, mirando, com um rifle de plástico, a pessoa que segurava a câmera; noutra ele estava alguns anos mais velho, seu rosto era mais magro, seu cabelo começava a escurecer. Ele usava uma camisa abotoada até o pescoço e uma gravata de criança.
— Essa foi tirada na escola — disse Ben. — Um retrato oficial. — Ele apontou para a foto e riu: — Olhe. Que vergonha. Estragou a foto!
O elástico da gravata estava visível, e não enfiado embaixo do colarinho. Corri as mãos pela foto. Não estragou, não, pensei. A foto está perfeita.
Tentei me lembrar do meu filho, tentei me ver ajoelhada à sua frente segurando uma gravata de elástico, ou penteando seu cabelo, ou limpando sangue seco de um joelho ralado.
Não veio nada. O garoto da foto tinha os mesmos lábios cheios que os meus, e olhos que pareciam vagamente os da minha mãe, mas se não fosse isso, poderia ser um estranho.
Ben apanhou outra foto e entregou-me. Nela, Adam estava um pouquinho mais velho; talvez 7 anos.
— Você acha que ele se parece comigo? — perguntou ele.
O menino segurava uma bola de futebol e vestia shorts e camiseta branca. O cabelo era curto e estava espetado de suor.
— Um pouco — falei. — Talvez.
Ben sorriu, e juntos continuamos olhando as fotos. A maioria era minha com Adam, uma ou outra dele sozinho; Ben deve ter tirado a maioria. Em algumas ele estava com os amigos; duas o mostravam numa festa, com fantasia de pirata e espada de papelão. Em outra, ele segurava um cachorrinho preto.
Havia uma carta enfiada entre as fotos. Estava endereçada ao Papai Noel e escrita com giz de cera azul. As letras desajeitadas dançavam pela página. Ele quer uma bicicleta, dizia, ou um cachorrinho, e promete ser bonzinho. Está assinada, e ele acrescentou sua idade. Quatro anos.
Não sei por quê, mas ao lê-la meu mundo pareceu entrar em colapso. A dor explodiu em meu peito como uma granada. Até então eu estava calma
— não feliz, nem mesmo resignada, mas calma —, porém aquela serenidade desapareceu como se tivesse evaporado. Embaixo dela, eu estava em carne viva.
— Desculpe — falei, devolvendo o maço de fotos para Ben. — Não consigo. Não agora.
Ele me abraçou. Senti a náusea se avolumar na minha garganta, mas a controlei. Ele me disse para não me preocupar, que eu ficaria bem, me lembrou que estava ao meu lado, sempre estaria. Eu me agarrei nele e ficamos ali sentados, balançando um ao outro. Eu me sentia dormente, totalmente distante da sala onde estávamos. Observei-o apanhar um copo d’água para mim e fechar a caixa de fotografias. Eu soluçava. Pude ver que ele também estava triste, entretanto, sua expressão parecia ter um quê de alguma outra coisa. Resignação, talvez, ou aceitação, mas não choque.
Com um estremecimento, percebi que ele já havia feito tudo isso antes.
Sua dor não é nova. Ela teve tempo de se acomodar dentro dele, de se tornar parte de suas bases, em vez de algo que as abala.
Somente a minha dor é nova, todos os dias.
Dei uma desculpa. Subi as escadas e fui até o quarto. De volta ao armário.
Continuei escrevendo.
Esses momentos roubados. Ajoelhada diante do armário ou reclinada na cama. Escrevendo. Febril. As palavras jorram de mim quase automaticamente. Páginas e mais páginas. Estou aqui novamente, enquanto Ben pensa que estou descansando. Não consigo parar. Quero anotar tudo.
Teria sido assim quando escrevi o meu romance, essa enxurrada sobre as páginas? Ou será que o processo foi mais lento, e teve mais reflexo?
Gostaria de me lembrar.
Depois que desci as escadas, preparei chá para nós dois. Enquanto misturava o leite ao chá, pensei em quantas vezes devo ter preparado refeições para Adam: papinha de legumes, suco. Levei o chá para Ben.
— Fui uma boa mãe? — perguntei, entregando a xícara para ele.
— Christine...
— Preciso saber — insisti. — Quer dizer, como eu lidei com isso? Com uma criança? Ele devia ser bem pequeno quando eu...
— ...quando você se acidentou? — interrompeu ele. — Ele tinha 2 anos.
Você foi uma mãe maravilhosa. Até aquele momento. Depois, bom...
Ele parou de falar, deixando o resto da frase em suspenso, e virou o rosto. O que ele estaria deixando por dizer, que achava melhor não me contar?
Eu sabia o bastante para preencher algumas lacunas. Podia não ser capaz de me recordar daquela época, mas era capaz de imaginá-la. Posso me ver sendo relembrada todos os dias de que era casada e tinha um filho, que meu marido e meu filho estavam vindo me visitar. Posso me imaginar cumprimentando-os todos os dias como se eu nunca os tivesse visto antes, ligeiramente fria talvez, ou apenas espantada. Posso ver a dor pela qual passamos. Todos nós.
— Tudo bem — falei. — Eu entendo.
— Você era incapaz de se virar sozinha. Estava doente demais para que eu cuidasse de você em casa. Não podia ficar sozinha, nem mesmo por alguns minutos. Você se esquecia do que estava fazendo. Costumava vagar por aí. Eu tinha medo de um dia você preparar um banho e deixar a torneira ligada, ou tentar preparar uma refeição e se esquecer de que havia começado. Era demais para mim. Portanto fiquei em casa e cuidei de Adam. Minha mãe ajudou. Porém, todas as noites íamos visitar você, e...
Segurei a mão dele.
— Desculpe — falou Ben. — Só acho difícil pensar naquela época.
— Eu sei — eu disse. — Eu sei. Mas e a minha mãe? Ela ajudou? Ela gostava de ser avó? — Ele fez que sim e pareceu prestes a dizer algo. —
Ela morreu, não é? — perguntei.
Ele apertou minha mão.
— Morreu há alguns anos. Sinto muito.
Então eu tinha razão. Minha mente começou a se fechar, como se fosse incapaz de processar mais sofrimentos, mais informações desse passado confuso, contudo, eu sabia que acordaria amanhã sem me lembrar de nada
disso.
O que eu poderia escrever no meu diário que me faria sobreviver ao dia de amanhã, ao dia depois de amanhã e àquele depois disso?
Uma imagem pairou diante de mim. Uma mulher ruiva. Adam nas forças armadas. Um nome veio, sem querer. “O que Claire vai achar disso?”
Ali estava. O nome da minha amiga. Claire.
— E Claire? — perguntei. — Minha amiga Claire. Ela ainda está viva?
— Claire? — exclamou Ben. Pareceu intrigado durante um longo momento, então sua expressão mudou. — Você se lembra da Claire?
Ele parecia surpreso. Eu me lembrei que (segundo o meu diário, pelo menos) fazia alguns dias que eu contara a ele que havia me lembrado dela, da festa no terrraço.
— Sim — respondi. — Éramos amigas. O que aconteceu com ela?
Ben olhou com tristeza para mim e, por um instante, congelei. Ele falou devagar, mas o que disse não foi tão ruim quanto eu temia.
— Ela se mudou — disse ele. — Há alguns anos. Quase vinte, acho.
Poucos anos depois de a gente se casar, na verdade.
— Para onde?
— Nova Zelândia.
— Eu e ela ainda mantemos contato?
— Mantiveram durante algum tempo. Depois não mais.
Não parecia possível. “Minha melhor amiga”, eu havia escrito, depois de me lembrar dela em Parliament Hill, e tive a mesma sensação de proximidade quando pensei nela hoje. Por que outro motivo eu me importaria com o que ela pensa?
— Nós brigamos?
Ele hesitou, e novamente senti uma reflexão calculada, um ajuste. Percebi que Ben sabia o que poderia me chatear. Teve anos para aprender o que eu acharia aceitável e o que é terreno perigoso. Afinal, essa não é a primeira vez que ele tem essa conversa comigo. Ele teve a oportunidade de praticar, de aprender a preferir vias que não irão cortar pelo meio a visão da minha vida e me despachar confusa para algum outro lugar.
— Não — respondeu ele. — Acho que não. Vocês não brigaram. Ou pelo menos não que você tenha me contado. Acho que vocês duas apenas se afastaram, e então Claire conheceu alguém, casou e os dois se mudaram.
Uma imagem me veio então. Claire e eu dizendo de brincadeira que jamais nos casaríamos. “Casamento é coisa de otário!”, dizia ela, enquanto levava uma garrafa de vinho tinto aos lábios, e eu concordava, embora ao mesmo tempo soubesse que um dia eu seria dama de honra do casamento dela e ela do meu, e que ficaríamos sentadas em quartos de hotel com
vestidos de organza, bebericando taças de champanhe enquanto alguém arrumava o nosso cabelo.
Senti uma onda repentina de amor. Embora eu mal me lembrasse do que vivemos, da nossa vida juntas (e amanhã até o pouco que lembrei estará perdido), senti de algum modo que ainda estávamos conectadas, que por algum tempo ela significou tudo para mim.
— Nós fomos ao casamento dela? — perguntei.
— Sim — assentiu ele, abrindo a caixa sobre seu colo e vasculhando ali dentro. — Tem umas duas fotos aqui.
Eram fotos de casamento, embora não oficiais; estavam fora de foco e escuras, tinham sido tiradas por um amador. Por Ben, adivinhei. Eu me aproximei da primeira com cautela.
Ela era como eu a havia imaginado. Alta, magra. Mais bonita ainda.
Estava de pé, perto da beira de um penhasco, com um vestido transparente agitado pela brisa, enquanto o sol se punha no mar atrás dela. Pousei a foto e olhei as outras. Em algumas ela estava com o marido — um homem que não reconheci — e em outras eu estava com os dois, com uma roupa de seda azul-clara, parecendo apenas ligeiramente menos bonita. Era verdade; eu havia mesmo sido dama de honra.
— Tem alguma do nosso casamento? — perguntei.
Ele balançou a cabeça.
— Elas estavam num álbum separado — informou. — Que se perdeu.
É claro. O incêndio.
Devolvi as fotos para ele. Senti como se estivesse olhando outra vida, não a minha. Tive uma vontade desesperadora de subir as escadas, de escrever sobre minhas descobertas
— Estou cansada — falei. — Preciso descansar.
— Claro — disse ele. Estendeu a mão. — Aqui. — Apanhou o maço de fotografias da minha mão e o recolocou na caixa. — Vou guardá-las em um local seguro — disse ele, fechando a tampa, e eu subi para cá, para o meu diário, e escrevi isso.
Meia-noite. Estou na cama. Sozinha. Tentando entender tudo o que aconteceu hoje. Tudo o que descobri. Não sei se consigo.
Resolvi tomar um banho antes do jantar. Olhei para a porta do banheiro atrás de mim e, rapidamente, para as fotos arrumadas ao redor do espelho, vendo agora apenas o que está faltando. Abri a torneira de água quente.
Na maioria dos dias percebo que não me lembro de Adam, porém, hoje ele surgiu para mim depois que vi apenas uma foto. Teriam essas fotos
sido cuidadosamente escolhidas para servirem de âncora sem precisarem me lembrar do que perdi?
O banheiro começou a ficar repleto de vapor branco. Eu ouvia meu marido lá embaixo. Ele havia ligado o rádio e o som de jazz flutuava até mim, nebuloso e indistinto. Lá embaixo eu ouvira o som rítmico de uma faca fatiando sobre uma tábua de corte; ele devia estar cortando cenouras, cebolas, pimentões. Preparando o jantar, como se fosse um dia normal.
Para ele é um dia normal, percebo. Eu estou crivada de dor, mas não Ben.
Não o culpo por não me contar, todos os dias, sobre Adam, minha mãe, Claire. No lugar dele eu faria o mesmo. Essas coisas são dolorosas e, se eu puder passar um dia inteiro sem me lembrar delas, então sou poupada da tristeza e ele, da dor de causá-la. Como deve ser tentador para ele ficar em silêncio, e como a vida deve ser difícil para ele, sabendo que carrego comigo a todo momento esses cacos afiados de memória, em toda parte, como minúsculas bombas, e que a qualquer instante um deles pode emergir e me obrigar a passar pela dor como se fosse pela primeira vez, levando-o a meu reboque.
Eu me despi devagar, dobrei as roupas, coloquei-as sobre a cadeira ao lado da banheira. Nua, fiquei de pé na frente do espelho e olhei para o meu corpo estranho. Obriguei-me a olhar para as rugas da minha pele, para meus seios caídos. Não me conheço, pensei. Não reconheço nem o meu corpo, nem o meu passado.
Dei um passo na direção do espelho. Lá estavam elas, ao longo da minha barriga, das nádegas e dos seios. Listras finas e prateadas, as cicatrizes irregulares da história. Eu não as havia visto antes porque não as tinha procurado. Eu me vi acompanhando seu crescimento, desejando que desaparecessem à medida que meu corpo se expandia. Agora estou feliz por elas estarem ali; um lembrete.
Meu reflexo começou a desaparecer na névoa. Tenho sorte, pensei.
Sorte de ter Ben, de ter alguém que me proteja, aqui, na minha casa, mesmo que não me lembre dela como tal. Não sou a única que sofre. Ele passou por tudo o que eu passei, hoje, mas irá se deitar sabendo que amanhã talvez tenha de fazer tudo isso novamente. Outra pessoa talvez tivesse me deixado. Olhei para o meu próprio rosto, como se tentasse gravar a imagem a ferro e fogo no meu cérebro, deixá-la próxima à superfície para que, quando eu acorde amanhã, ela não me seja tão estranha, tão chocante. Quando ela desapareceu completamente, eu dei as costas a mim mesma e entrei na água. Caí no sono.
Não sonhei — ao menos pensei que não —, mas quando acordei fiquei confusa. Eu estava em um banheiro diferente, com a água ainda morna, e
ouvi uma batida à porta. Abri os olhos e nada reconheci. O espelho era vazio, sem adornos, preso a azulejos brancos, e não azuis. Uma cortina de chuveiro pendia de um trilho acima de mim, havia dois copos virados de boca para baixo numa prateleira em cima da pia e havia um bidê perto do vaso sanitário.
Ouvi uma voz dizer:
— Estou indo. — E percebi que era minha. Sentei na banheira e olhei para a porta trancada. Dois robes estavam pendurados em ganchos na parede oposta, ambos brancos, combinando, monogramados com as letras R.G.H. Eu me levantei.
— Venha! — disse uma voz em frente à porta. Parecia a de Ben, mas ao mesmo tempo não parecia a de Ben. Tornou-se cantarolante: — Venha!
Venha, venha, venha, venha!
— Quem é? — perguntei, mas a voz não parou. Saí da banheira. O chão era azulejado, preto e branco, em diagonais. Estava molhado, eu me senti escorregar, minhas pernas cederam. Caí no chão, puxando a cortina do chuveiro por cima de mim. Minha cabeça bateu na pia quando caí. Gritei:
— Me ajude!
Acordei de vez então, com outra voz, diferente, me chamando.
— Christine! Chris! Você está bem? — perguntou a voz, e, aliviada, percebi que era Ben e que eu havia sonhado. Abri os olhos. Estava deitada em uma banheira, as roupas dobradas numa cadeira ao meu lado, fotos da minha vida grudadas com fita adesiva nos azulejos azul-claros acima da pia.
— Sim — respondi. — Estou bem. Só tive um sonho ruim.
Eu me levantei, jantei, e depois fui para a cama. Queria escrever, anotar tudo o que eu havia descoberto antes que desaparecesse. Não tinha certeza se teria tempo para fazer isso antes de Ben vir se deitar.
Mas o que eu podia fazer? Hoje passei tanto tempo escrevendo, pensei.
Com certeza ele vai ficar desconfiado, vai querer saber o que estive fazendo sozinha aqui em cima. Eu lhe disse todas as vezes que estava cansada, que precisava descansar, e ele acreditou em mim.
Não posso dizer que não me sinto culpada. Eu o ouvi andando pela casa, abrindo e fechando portas bem suavemente para não me acordar, enquanto eu estava curvada sobre o meu diário, escrevendo furiosamente. Mas não tenho outra escolha. Preciso registrar essas coisas. Fazê-lo me parece quase mais importante do que qualquer outra coisa, porque de outro modo eu as perderei para sempre. Preciso inventar minhas desculpas e voltar ao meu caderno.