Antes de Dormir

S. J. Watson · Capítulo 10 de 19

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Antes de Dormir

Sábado, 17 de novembro — 2:07

O que eu poderia dizer? Tudo o que consegui fazer foi chorar mais, afastá-lo com as mãos e então esperar. Esperá-lo adormecer, para que então eu pudesse levantar da cama e escrever tudo isso.

Sábado, 17 de novembro — 2:07

Não consigo dormir. Ben está no andar de cima e estou escrevendo isso na cozinha. Ele pensa que estou tomando o chocolate quente que ele acabou de fazer para mim. Pensa que logo voltarei para a cama.

Voltarei, mas primeiro tenho que escrever.

A casa está em silêncio e escura agora. Mais cedo, no entanto, me pareceu que tudo estava vivo. Amplificado. Escondi meu diário no armário e voltei para a cama após escrever sobre o que eu vi enquanto fazíamos amor, mas ainda não me sentia cansada. Ouvia o tique-taque do relógio no andar de baixo, as badaladas enquanto ele marcava as horas, os leves roncos de Ben.

Sentia o tecido do edredom no meu peito e não via nada além do brilho do despertador na mesa de cabeceira ao meu lado. Virei-me de bruços e fechei os olhos. Tudo o que conseguia ver era a mim, com mãos me apertando a garganta para que eu não pudesse respirar. Tudo o que conseguia ouvir era minha própria voz, ecoando: “Vou morrer.”

Pensei no meu diário. Ajudaria se escrevesse mais? Ou ler tudo novamente? Será que eu conseguiria tirá-lo do esconderijo sem acordar Ben?

Ele estava ali deitado, quase invisível nas sombras. Você está mentindo para mim, pensei. Porque ele de fato estava. Mentindo sobre o meu livro, sobre Adam. E agora tenho certeza de que está mentindo sobre como acabei aprisionada aqui dessa maneira.

Tive vontade de sacudi-lo para que acordasse. De gritar: “Por quê? Por que você me diz que fui atropelada por um carro numa estrada congelada?”

Imagino do que ele está tentando me proteger. O quanto a verdade pode ser terrível.

E o que mais eu não sei?

Meus pensamentos vão do meu diário para a caixa de metal, aquela em que Ben guarda as fotos de Adam. Talvez dentro dela existam mais respostas, pensei. Talvez eu descubra a verdade.

Decidi me levantar da cama. Dobrei o cobertor para não acordar meu marido. Retirei meu diário do esconderijo e fui andando pé ante pé, descalça, até o patamar da escada. A casa parecia diferente agora, iluminada pelo luar azulado. Fria e imóvel.

Fechei a porta do quarto depois de sair, um roçar leve de madeira contra o carpete, um clique sutil ao fechar. Ali, no patamar da escada, olhei para o que havia escrito. Li que Ben me contara que eu tinha sido atropelada por um carro. Li que ele negara que eu havia escrito um romance. Li sobre o nosso filho.

Eu precisava ver uma foto de Adam. Mas onde eu deveria procurar? “Eu as guardo lá em cima”, dissera ele. “Por segurança.” Eu sabia disso. Havia escrito no meu diário. Mas onde ele guardava, exatamente? No quarto de hóspedes? No escritório? Como eu iria começar a procurar por algo que não me lembrava de ter visto antes?

Coloquei o diário de volta onde eu o havia encontrado e entrei no escritório, fechando a porta depois de entrar. O luar se infiltrava pela janela, deixando o quarto com um brilho prateado. Não ousei acender a luz, não poderia correr o risco de Ben me encontrar ali, remexendo nas coisas.

Ele me perguntaria o que eu estava procurando e eu não teria nada a dizer para ele, nenhum motivo para estar ali. Haveria muitas perguntas a responder.

Eu havia escrito que a caixa era de metal cinza. Olhei primeiro na mesa. Um pequeno computador com uma tela incrivelmente fina, canetas e lápis numa caneca, papéis organizados em pilhas, um peso de papel de cerâmica em formato de cavalo-marinho. Em cima da mesa havia um calendário de parede cheio de adesivos coloridos, círculos e estrelas.

Embaixo da mesa havia uma maleta de couro e uma lixeira, ambas vazias, e próximo à mesa, um gaveteiro porta-arquivos.

Olhei ali primeiro. Puxei a primeira gaveta, bem devagar, silenciosamente. Estava cheia de papéis, organizados em pastas com os rótulos Casa, Trabalho, Finanças. Folheei os arquivos. Atrás deles havia um recipiente plástico com comprimidos, embora eu não conseguisse ler o nome no rótulo na semiescuridão. A segunda gaveta estava cheia de material de escritório — caixas, blocos de anotações, canetas, corretivo —

e fechei-a com cuidado antes de me agachar para abrir a última gaveta.

Um cobertor, ou uma toalha; era difícil distinguir na luz fraca. Levantei uma das pontas, coloquei a mão, senti o frio do metal. Puxei. Embaixo do pano estava a caixa de metal, maior do que eu havia imaginado, tão grande que ocupava praticamente a gaveta inteira. Coloquei minhas mãos ao redor dela e percebi que era também mais pesada do que eu pensava, e quase a derrubei quando a tirei da gaveta e a coloquei no chão.

A caixa estava no chão, à minha frente. Por um momento fiquei sem saber o que queria fazer, se realmente queria abri-la. Que novidades chocantes ela poderia conter? Assim como a própria memória, ela poderia guardar verdades que eu não podia sequer tentar imaginar. Sonhos não imaginados e horrores inesperados. Eu estava com medo. Porém, percebi que essas verdades eram tudo o que eu tinha. Elas são o meu passado. São o que me tornam humana. Sem elas não sou nada. Nada além de um animal.

Respirei fundo, fechando os olhos, e comecei a levantar a tampa.

Ela abriu um pouquinho, mas então parou. Tentei novamente, pensando que estava emperrada, depois outra vez, e foi então que percebi. Estava trancada. Ben a havia trancado.

Tentei me manter calma, mas a raiva subiu pelo meu corpo, sem convite. Quem era ele para trancar essa caixa de recordações? Para me manter longe do que era meu?

A chave tinha de estar por perto, eu tinha certeza. Olhei na gaveta. Abri a toalha e chacoalhei-a. Eu me levantei, tirei canetas e lápis da caneca e olhei lá dentro. Nada.

Desesperada, procurei nas outras gavetas o melhor que pude sob a luz fraca. Não encontrei chave nenhuma e percebi que ela poderia estar em qualquer lugar. Em qualquer lugar. Caí de joelhos.

Então, um ruído. Um estalo tão baixo que pensei que havia sido meu próprio corpo. Mas então outro ruído. Respiração. Ou um suspiro.

Uma voz. A voz de Ben.

— Christine? — chamou a voz, e então soou mais alta. — Christine!

O que eu iria fazer? Estava ali sentada, no escritório dele, com a caixa de metal da qual Ben acha que não me recordo no chão à minha frente.

Entrei em pânico. Uma porta se abriu, a luz do patamar se acendeu, iluminando a porta do escritório por baixo. Ele estava vindo.

Eu me levantei rapidamente. Guardei a caixa de volta e, sacrificando o silêncio em nome da rapidez, fechei a gaveta com força.