Antes de Dormir

S. J. Watson · Capítulo 6 de 19

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Antes de Dormir

Terça-feira, 13 de novembro

Eu me sentia empolgada durante todo o trajeto de volta para casa.

Acesa com energia nervosa. Olhei para o mundo exterior — o mundo estranho, misterioso e não familiar — e nele não enxerguei ameaça, e sim possibilidade. O Dr. Nash me disse que achava que estávamos chegando a algum lugar. Parecia animado. “Isso é bom”, não parava de dizer. “Isso é bom.” Eu não tinha certeza se ele queria dizer que era bom para mim ou para ele, para sua carreira. Ele disse que gostaria de marcar um exame de escaneamento cerebral e, quase sem pensar, concordei. Ele me entregou um telefone celular também, dizendo que tinha sido da namorada dele. Era diferente daquele que Ben havia me dado. Era menor, e a tampa se abria para revelar um teclado e uma tela em seu interior. “É um celular de reserva”, disse ele. “Pode me ligar a qualquer hora. Qualquer hora que for importante. E fique sempre com ele. Vou ligar para lembrar você do diário.”

Isso foi horas atrás. Agora percebo que ele o deu para mim para que pudesse me telefonar sem que Ben soubesse. Ele inclusive chegou a dizer isso. “Liguei para você outro dia e quem atendeu foi Ben. As coisas podem ficar meio estranhas. Isso vai facilitar tudo.” Aceitei sem fazer perguntas.

Eu me lembrei de Ben. Lembrei que eu o amava. Logo ele estará em casa. Talvez mais tarde, quando formos para a cama, eu compense a rejeição da noite passada. Eu me sinto viva. Vibrando de possibilidades.

Terça-feira, 13 de novembro

Agora é de tarde. Logo Ben chegará em casa após mais um dia de trabalho.

Estou sentada com este diário à minha frente. Um homem — o Dr. Nash —

me ligou na hora do almoço e me contou onde eu poderia encontrá-lo. Eu estava sentada na sala quando ele ligou, e de início não acreditei que ele soubesse quem eu sou. “Olhe na caixa de sapatos dentro do armário”, disse ele por fim. “Você vai encontrar um caderno.” Eu não acreditei no que ele dizia, mas ele ficou na linha enquanto eu olhava, e estava certo. Meu diário estava lá, embrulhado em papel de seda. Eu o retirei como se fosse algo frágil e então, depois que me despedi do Dr. Nash, me ajoelhei em frente ao armário e o li. Cada palavra.

Estava nervosa, embora não soubesse por quê. O diário parecia proibido, perigoso, embora isso talvez se devesse apenas ao cuidado com que eu o havia escondido. Eu não parava de desviar os olhos das páginas para verificar as horas; cheguei mesmo a fechá-lo rapidamente e a embrulhá-lo de novo no papel de seda quando ouvi o som de um carro em frente à casa.

Mas agora estou calma. Estou escrevendo isso à janela do quarto. Tenho uma sensação familiar aqui, de algum modo, como se fosse um local onde costumo me sentar com frequência. Vejo a rua, que em uma das direções leva a uma fileira de árvores altas atrás das quais se vê um parque, e na outra, a uma fileira de casas e a outra rua, mais movimentada. Percebo que, embora eu tenha decidido manter o diário escondido de Ben, nada terrível aconteceria se ele o encontrasse. Ele é meu marido. Posso confiar nele.

Li mais uma vez sobre o entusiasmo que senti a caminho de casa, ontem. Ele desapareceu. Agora me sinto satisfeita. Tranquila. Carros passam. De vez em quando alguém passa caminhando, um homem assoviando, ou uma jovem mãe levando o filho para o parque e, mais tarde, trazendo-o de volta. À distância, um avião, que se aproxima do pouso, parece quase parado.

As casas em frente estão vazias, a rua, silenciosa, a não ser pelo homem que assovia e pelo latido de um cão infeliz. A comoção da manhã, com sua sinfonia de portas se fechando, despedidas melodiosas e motores dando partida, desapareceu. Sinto-me sozinha no mundo.

Começa a chover. Grandes gotas se espalham na janela em frente ao meu rosto, permanecem ali por um instante e então, unidas com outras, começam sua lenta descida pela vidraça. Ponho a mão sobre o vidro gelado.

Tanta coisa me separa do resto do mundo.

Leio a respeito da visita à casa que compartilhei com meu marido.

Teria sido mesmo apenas ontem que essas palavras foram escritas? Não

parecem pertencer a mim. Leio sobre o dia do qual havia me lembrado, também. De beijar meu marido — na casa que compramos juntos, há tanto tempo —, e, quando fecho os olhos, consigo ver a cena novamente. É tênue no início, desfocada, mas então a imagem se ilumina e se revela, ganhando foco com uma intensidade quase insuportável. Meu marido arrancando as minhas roupas. Ben me abraçando, seus beijos se tornando mais urgentes, profundos. Eu me lembro de que não comemos o peixe nem bebemos o vinho; em vez disso, depois que terminamos de fazer amor, ficamos na cama pelo máximo de tempo possível, com as pernas entrelaçadas, minha cabeça em seu peito, sua mão afagando meu cabelo, o sêmen secando sobre minha barriga. Ficamos em silêncio. A felicidade nos envolvia como uma nuvem.

— Eu amo você — disse ele. Num sussurro, como se jamais tivesse dito aquelas palavras antes e, embora devesse tê-lo feito muitas vezes, elas pareciam novas. Proibidas e perigosas.

Olhei para ele, para os pelos eriçados de seu queixo, a carne de seus lábios e a linha do nariz acima deles.

— Também amo você — falei, sussurrando para seu peito, como se aquelas palavras fossem frágeis.

Ele apertou o meu corpo de encontro ao dele, e me beijou suavemente.

O topo da minha cabeça, minha testa. Fechei os olhos e ele beijou minhas pálpebras, mal tocando-as com os lábios. Eu me sentia segura, em casa.

Sentia como se ali, de encontro ao corpo dele, fosse o único lugar que eu podia chamar de meu. O único lugar onde eu já desejara estar na vida.

Deitados em silêncio por um instante, abraçados, nossa pele se fundindo, nossa respiração sincronizada, senti como se o silêncio fosse permitir àquele momento durar para sempre — tempo que ainda assim não seria o suficiente.

Ben quebrou o encanto.

— Preciso ir — disse ele, e eu abri os olhos e segurei sua mão. Era quente. Macia. Trouxe-a até meus lábios e a beijei. Gosto de vidro, de terra.

— Já? — falei.

Ele voltou a me beijar.

— Sim. Está mais tarde do que você pensa. Vou perder o trem.

Senti meu corpo afundar. A separação parecia impensável. Insuportável.

— Fique um pouco mais — pedi. — Pegue o próximo.

Ele riu.

— Não dá, Chris — disse ele. — Você sabe disso.

Eu o beijei novamente.

— Eu sei — falei. — Eu sei.

Tomei uma chuveirada depois que ele partiu. Demorei, ensaboando-me

 

lentamente, sentindo a água em minha pele como se fosse uma nova sensação. No quarto, borrifei perfume no corpo e vesti minha camisola e um robe, e então desci até a sala de jantar.

Estava escuro. Acendi a luz. Na mesa à minha frente havia uma máquina de escrever, com papel em branco, e ao lado dela uma pilha de folhas de papel viradas para baixo. Eu me sentei à máquina e comecei a datilografar: Capítulo Dois.

Então me detive. Não conseguia pensar no que escrever em seguida, em como começar. Suspirei, apoiando os dedos sobre o teclado. Ele me dava uma sensação de naturalidade, frio e macio, delineado de encontro à ponta dos meus dedos. Fechei os olhos e voltei a datilografar.

Meus dedos bailaram ao longo das teclas, automaticamente, quase sem pensar. Quando abri os olhos eu havia datilografado uma única frase.

Lizzy não sabia o que ela havia feito, ou como isso poderia ser desfeito.

Olhei para a frase. Sólida. Ali, colocada na página.

Que lixo, pensei. Senti raiva. Sabia que poderia fazer melhor. Já o fizera antes, dois verões atrás, quando as palavras jorraram de mim, espalhando minha história sobre a página feito confetes. Mas e agora? Agora havia algo de errado. A linguagem se tornara sólida, rígida. Endurecera.

Apanhei um lápis e risquei a frase. Eu me senti um pouco melhor com ela riscada, mas agora de novo eu não tinha nada; nenhum ponto de partida.

Levantei-me e acendi um cigarro do maço que Ben deixara em cima da mesa. Traguei a fumaça profundamente, retive-a nos pulmões, expirei. Por um instante desejei que fosse maconha, me perguntei onde eu poderia conseguir um pouco para uma próxima vez. Eu me servi uma bebida —

vodca pura num copo de uísque — e tomei um gole. Teria de servir.

Bloqueio de escritor, pensei. Como é que eu havia caído nessa merda de clichê?

Da última vez. Como eu havia conseguido da última vez? Vasculhei pelas estantes que tomavam a parede da sala e, com o cigarro pendurado entre os lábios, retirei um livro da prateleira superior. Deve haver pistas ali, com certeza, não é?

Pousei o copo de vodca e virei o livro em minhas mãos. Apoiei as pontas dos dedos sobre a capa, como se o livro fosse delicado, e passei-as delicadamente sobre o título. Para os pássaros da manhã, dizia. Christine Lucas. Abri o livro e folheei as páginas.

A imagem sumiu. Meus olhos se abriram. O quarto onde eu estava parecia desmazelado e cinzento, mas minha respiração estava entrecortada.

Registrei fracamente a surpresa de que eu já fui fumante, mas ela logo foi substituída por outra coisa. Seria verdade? Será que escrevi um romance?

Teria ele sido publicado? Levantei-me; meu diário deslizou do colo. Se sim, eu havia sido alguém, alguém com uma vida, com objetivos, ambições e conquistas. Desci as escadas correndo.

Seria verdade? Ben não me disse nada esta manhã. Nada sobre ser uma escritora. Esta manhã eu li sobre o passeio até Parliament Hill. Lá ele havia me dito que eu trabalhava como secretária quando sofri o acidente.

Vasculhei as estantes de livros da sala de estar. Dicionários. Um atlas.

Um guia do tipo faça-você-mesmo. Alguns romances de capa dura, que, pelo estado, adivinhei não terem sido lidos. Mas nada escrito por mim. Nada sugerindo que eu havia publicado um romance. Girei o corpo, meio enlouquecida. Deve estar aqui, pensei. Tem de estar. Mas então outro pensamento me atingiu. Talvez minha visão não tivesse sido uma lembrança, e sim uma invenção. Talvez, sem ter uma história verdadeira à qual se agarrar e sobre a qual refletir, minha mente houvesse criado uma.

Talvez meu subconsciente tenha decidido que eu era escritora porque foi isso o que eu sempre quis ser.

Subi as escadas correndo. As prateleiras do escritório estavam repletas de caixas de arquivo e manuais de computador, e eu não havia visto livro algum em nenhum dos quartos quando explorei a casa pela manhã. Fiquei parada um instante, depois vi o computador à minha frente, silencioso e escuro. Sabia o que fazer, embora não soubesse como eu sabia. Eu o liguei e embaixo da mesa ele zuniu de volta à vida, sua tela se acendeu um instante depois. Um barulho musical soou das caixinhas de som que ficavam dos lados da tela, e então uma imagem surgiu. Uma fotografia minha com Ben, os dois sorrindo. Bem no meio dos nossos rostos havia uma caixa. Usuário, dizia, e embaixo outra: Senha.

Na minha visão eu datilografava sem ver, os dedos dançando pelas teclas como se guiados pelo instinto. Posicionei o cursor piscante sobre a caixa marcada Usuário e ergui as mãos acima do teclado. Seria verdade?

Teria eu aprendido a digitar? Deixei que os dedos se apoiassem sobre as letras erguidas. Eles se moveram, sem esforço, os mindinhos buscando as teclas que eram de seu domínio e o restante encontrando seu lugar ao lado deles. Fechei os olhos e, sem pensar, comecei a digitar, ouvindo apenas o barulho da minha respiração e o bater das teclas de plástico. Ao terminar, olhei para o que eu havia feito, para o que estava escrito na caixa. Esperava algo sem sentido, mas o que vi me chocou.

Um pequeno jabuti xereta viu dez cegonhas felizes.

Olhei fixamente para a tela. Era verdade. Eu era capaz de digitar sem olhar para o teclado. Talvez minha visão não tivesse sido invenção, e sim

uma lembrança.

Talvez eu tivesse de fato escrito um romance.

Corri para o quarto. Não fazia sentido. Por um momento, tive a sensação excruciante de que eu estava ficando louca. O romance parecia existir e não existir ao mesmo tempo, ser real e também completamente imaginário. Não conseguia me lembrar de nada a seu respeito, nada sobre sua trama ou seus personagens, nem mesmo o motivo pelo qual eu havia dado aquele título — mas mesmo assim ele parecia real, como se fosse um coração pulsando dentro de mim.

E por que Ben não me contara? Nem tinha um exemplar à vista? Eu o imaginei escondido na casa, embrulhado em papel de seda, armazenado em uma caixa no sótão ou no porão. Por quê?

Uma explicação me ocorreu. Ben havia me contado que eu trabalhava como secretária. Talvez fosse por isso que eu soubesse digitar: o único motivo.

Retirei um dos telefones da minha bolsa, sem me importar qual era e mal dando importância para quem eu iria ligar. Meu marido ou meu médico?

Os dois pareciam igualmente estranhos para mim. Abri o telefone e procurei na lista de contatos até avistar um nome que reconheci, depois apertei a tecla de chamada.

— Dr. Nash? — eu disse, quando ele atendeu. — É Christine. — Ele começou a dizer alguma coisa, mas eu o interrompi. — Escute. Eu já escrevi alguma coisa?

— Perdão, não entendi — disse ele. Parecia confuso, e por um instante tive a sensação de que eu havia feito algo terrivelmente errado. Fiquei em dúvida se ele sabia quem eu era, mas então ele disse: — Christine?

Repeti o que havia acabado de perguntar.

— Acabei de me lembrar de uma coisa. Que eu estava escrevendo algo, anos atrás, na época em que conheci Ben, acho. Um romance. Eu cheguei a escrever um romance?

Ele pareceu não entender o que eu queria dizer.

— Um romance?

— Sim — falei. — Parece que me lembro de ter tido vontade de ser escritora, quando pequena. Só fiquei me perguntando se cheguei a escrever alguma coisa de fato. Ben me contou que eu trabalhava como secretária, mas eu pensei que...

— Ele não lhe disse? — perguntou o Dr. Nash. — Você estava escrevendo o seu segundo romance quando perdeu a memória. O primeiro foi publicado. Foi um sucesso. Eu não diria que chegou a ser um best seller, mas com certeza foi um sucesso.

As palavras giraram em falso. Um romance. Um sucesso. Publicado. Era

 

verdade, a lembrança tinha sido real. Eu não sabia o que dizer. O que pensar.

Eu me despedi e depois subi para escrever isso.

O relógio na mesa de cabeceira diz 10h30. Imagino que Ben logo virá se deitar, mas continuo aqui sentada na beira da cama, escrevendo. Conversei com ele depois do jantar. Passei a tarde impaciente, andando de um ambiente para outro, olhando tudo como se fosse a primeira vez, me perguntando por que ele removeria os indícios até mesmo deste sucesso modesto. Não fazia sentido. Estaria ele envergonhado? Constrangido? Será que eu havia escrito sobre ele, sobre nossa vida a dois? Ou seria o motivo algo pior? Algo mais sombrio, que eu ainda não conseguia vislumbrar?

Quando ele chegou em casa resolvi que iria lhe perguntar diretamente, mas agora... Agora isso não parecia possível. Tinha a sensação de que eu o estaria acusando de mentir.

Falei o mais casualmente que pude.

— Ben? O que eu fazia para viver? — Ele levantou os olhos do jornal e olhou para mim. — Eu tinha um emprego?

— Sim — respondeu ele. — Você trabalhou como secretária durante algum tempo. Logo depois que nos casamos.

Tentei manter o tom uniforme.

— Verdade? Tenho a sensação de que eu queria escrever.

Ele fechou o jornal, dando-me total atenção.

— Sensação?

— Sim. Definitivamente, eu me lembro de amar os livros quando criança. E pareço ter uma vaga lembrança de querer ser escritora. — Ele estendeu o braço por cima da mesa de jantar e segurou a minha mão. Seus olhos pareciam tristes. Desapontados. “Que pena”, pareciam dizer. “Que azar. Acho que agora você não vai mais poder fazer isso.” — Tem certeza?

— comecei a dizer. — Pareço recordar que...

Ele me interrompeu.

— Christine — disse ele —, por favor. Você está imaginando coisas...

Durante o resto da noite fiquei em silêncio, ouvindo apenas os pensamentos que ecoavam em minha cabeça. Por que ele faria isso? Por que fingiria que eu jamais havia escrito uma palavra sequer? Por quê? Eu o observei, adormecido no sofá, roncando baixinho. Por que eu não lhe disse que eu sabia ter escrito um romance? Será que eu realmente confiava tão pouco nele assim? Eu havia me lembrado de nós dois nos braços um do outro,

murmurando juras de amor enquanto o céu escurecia. Como chegamos então a esse ponto?

Mas depois comecei a imaginar o que aconteceria se eu topasse com um exemplar do meu romance em um armário ou nos fundos de uma prateleira alta. O que aquilo me diria, a não ser “Olhe o quanto você decaiu.

Olhe o que você era capaz de fazer antes de um carro em uma rua coberta de gelo tirar tudo de você, deixando-a menos que imprestável.”

Não seria um momento feliz. Eu me vi ficando histérica — muito mais do que nesta tarde, quando pelo menos essa compreensão foi gradual, desencadeada por uma lembrança há muito ansiada —, gritando, chorando.

O efeito poderia ser devastador.

Não admira que Ben tenha desejado esconder aquilo de mim. Eu o vejo agora, recolhendo todos os exemplares, queimando-os na churrasqueira no quintal, antes de decidir o que me diria. Qual seria a melhor maneira de reinventar o meu passado a fim de torná-lo tolerável. No que eu precisaria acreditar durante o restante dos meus anos.