Antes de Dormir
Sábado, 10 de novembro
— Boa ideia — disse ele. — Mas você terá de escrever no diário esta noite. Antes de dormir. Senão amanhã ele será apenas mais um caderno em branco. Você não saberá o que ele é.
Eu disse que escreveria, que compreendia. Saí do carro.
— Fique bem, Christine — disse ele.
* * *
Agora estou sentada na cama. Esperando o meu marido. Olho para a foto
da casa onde cresci. Parece tão normal, tão mundana. E tão familiar.
“Como vim parar aqui?”, pensei. “O que aconteceu? Qual é a minha história?”
Ouço as badaladas do relógio da sala. Meia-noite. Ben está subindo as escadas. Vou esconder o diário na caixa de sapatos que encontrei. Vou colocá-la no armário, exatamente onde eu disse ao Dr. Nash que ela ficaria.
Amanhã, se ele ligar, escreverei mais.
Sábado, 10 de novembro
Estou escrevendo isso ao meio-dia. Ben está lá embaixo, lendo. Ele acha que estou descansando, mas, embora eu esteja cansada, não é o que estou fazendo. Não tenho tempo. Preciso escrever isso antes que eu me esqueça.
Preciso escrever no meu diário.
Olho para o meu relógio de pulso e vejo as horas. Ben sugeriu que déssemos uma caminhada esta tarde. Tenho pouco mais de uma hora.
Esta manhã acordei sem saber quem sou. Quando meus olhos se abriram, eu esperava ver a beirada dura de uma mesa de cabeceira, um abajur amarelo. Um armário em forma de caixa no canto do quarto e papel de parede com a estampa desbotada de samambaias. Esperava ouvir a minha mãe lá embaixo fritando bacon, ou meu pai no jardim, assoviando enquanto apara a sebe. Esperava que a cama em que estou deitada fosse de solteiro e não contivesse nada além de mim e de um coelho de pelúcia com a orelha rasgada.
Estava errada. Estou no quarto dos meus pais, pensei inicialmente, depois percebi que não reconhecia nada. O quarto era completamente estranho. Fiquei deitada na cama. “Algo está errado”, pensei. “Muito, muito errado.”
Quando desci a escada, já havia visto as fotos ao redor do espelho, lido suas legendas. Sabia que eu não era criança, nem mesmo adolescente, e descobri que o homem que eu ouvia preparando o café da manhã e assoviando junto com o rádio não era nem o meu pai, nem um colega de apartamento nem um namorado, mas se chamava Ben e era o meu marido.
Hesitei na frente da cozinha. Senti medo. Estava prestes a encontrá-lo, como se fosse pela primeira vez. Como seria ele? Será que se pareceria com as fotos? Ou elas também seriam uma representação imprecisa?
Estaria ele mais velho, mais gordo, mais careca? Como seria sua voz?
Como ele se movimentaria? Será que eu havia me casado bem?
Uma visão surgiu do nada. Uma mulher — minha mãe? — me dizendo para tomar cuidado. Quem casa a correr, toda a vida tem para se arrepender...
Abri a porta. Ben estava de costas para mim com uma espátula, fritando bacon, que chiava, fazendo a gordura saltar da frigideira.
Ele não tinha me ouvido entrar.
— Ben? — falei. Ele se virou rapidamente.
— Christine? Você está bem?
Eu não sabia o que responder, por isso disse:
— Sim, acho que sim.
Então ele sorriu, com cara de alívio, e eu fiz o mesmo. Parecia mais velho do que nas fotos lá de cima — seu rosto exibia mais rugas, seu cabelo estava começando a ficar grisalho e rareava ligeiramente nas têmporas — mas isso tinha o efeito de torná-lo mais atraente. Seu maxilar tinha uma força que combinava com um homem de mais idade, seus olhos tinham um brilho travesso. Percebi que ele parecia uma versão ligeiramente mais velha do meu pai. Eu poderia ter me saído pior, pensei. Muito pior.
— Você viu as fotos? — perguntou ele. Fiz que sim com a cabeça. —
Não se preocupe. Vou explicar tudo. Por que não se senta ali? — Ele fez um gesto na direção do corredor. — A sala de jantar fica para lá. Não demoro.
Aqui, leve isso.
Ele me entregou um pimenteiro e saí em direção à sala de jantar.
Alguns minutos depois ele me seguiu com dois pratos. Uma fatia clara de bacon nadava em gordura, um ovo e uma fatia de pão haviam sido fritos e estavam ao lado dela. Enquanto eu comia, ele explicava como eu sobrevivo.
“Hoje é sábado”, disse ele. Ele trabalha durante a semana; é professor.
Ele me explicou sobre o telefone que levo na bolsa, sobre o quadro de avisos preso na parede da cozinha. Mostrou-me onde guardamos nosso fundo emergencial — duas notas de 20 libras bem enroladas, enfiadas atrás do relógio sobre a lareira — e o álbum de fotos no qual posso vislumbrar trechos da minha vida. Ele me disse que, juntos, nós nos viramos. Não sabia se acreditava nele, mas tive de acreditar.
Terminamos de comer e eu o ajudei a levar e organizar as coisas do café da manhã.
— Podíamos fazer uma caminhada mais tarde — sugeriu ele —, se você quiser.
Eu disse que sim e ele pareceu satisfeito.
— Vou só ler o jornal antes — avisou. — Tudo bem?
Fui até o andar de cima. Assim que fiquei sozinha, minha cabeça começou a girar, cheia e vazia ao mesmo tempo. Eu me sentia incapaz de apreender qualquer coisa. Nada parecia real. Olhei para a casa onde eu estava — aquela que agora eu sabia ser minha casa — com olhos de quem nunca a havia visto antes. Por um instante tive vontade de sair correndo.
Precisava me acalmar.
Sentei na beirada da cama na qual havia dormido. Eu devia fazer isso, pensei. Me arrumar. Me manter ocupada. Apanhei o travesseiro para afofá-lo e, ao fazê-lo, algo começou a zumbir.
Não tinha certeza do que era. Era baixo, insistente. Uma música, aguda e baixinha. Minha bolsa estava aos meus pés e quando a apanhei percebi que o zumbido parecia vir dali. Lembrei-me de Ben falando sobre o meu telefone.
Quando o encontrei, o telefone estava aceso. Eu o olhei por um longo instante. Alguma parte de mim, bem lá no fundo, ou algo quase na superfície da memória, sabia exatamente qual era o assunto daquele telefonema. Atendi.
— Alô? — Uma voz masculina. — Christine? Christine, você está aí?
Respondi que estava.
— É seu médico. Você está bem? Ben está por aí?
— Não — disse eu. — Ele está... do que se trata isso?
Ele me disse o seu nome e contou que eu e ele temos trabalhado juntos há algumas semanas.
— Da sua memória — disse ele, e, quando eu não disse nada, continuou
— Quero que confie em mim. Quero que olhe no guarda-roupa do seu quarto. — Mais uma pausa, e então ele prosseguiu — Há uma caixa de sapato no chão do guarda-roupa. Olhe dentro dela. Deve haver um diário.
Olhei para o armário no canto do quarto.
— Como você sabe?
— Você me disse — respondeu ele. — Nós nos vimos ontem. Decidimos que você deveria escrever um diário. Você me disse que iria escondê-lo aí.
Não acredito em você, tive vontade de dizer, mas parecia pouco educado e não era inteiramente verdade.
— Você vai olhar? — insistiu ele. Eu disse que ia, e então ele acrescentou: — Faça isso agora. Não diga nada a Ben. Faça isso agora.
Não desliguei o telefone e fui até o armário. Ele tinha razão. Dentro dele, no chão, havia uma caixa de sapatos — uma caixa azul com a palavra Scholl na tampa, que não fechava direito — e, dentro, um caderno embrulhado em papel de seda.
— Está com ele? — perguntou o Dr. Nash.
Ergui o caderno e o desembrulhei. Era encadernado em couro marrom e parecia caro.
— Christine?
— Sim. Estou.
— Ótimo. Você escreveu algo?
Abri na primeira página. Vi que eu havia escrito. “Meu nome é Christine Lucas”, começava. “Tenho 47 anos. Sou amnésica.” Eu me senti nervosa, empolgada. A sensação era como a de bisbilhotar, só que a mim mesma.
— Escrevi — foi minha resposta.
— Excelente! — então ele disse que iria me ligar no dia seguinte e desligamos.
Não me mexi. Ali, agachada no chão perto do armário aberto, com a cama ainda desfeita, comecei a ler.
De início, fiquei desapontada. Eu não me lembrava de nada do que havia escrito. Nem do Dr. Nash, nem dos consultórios a que ele disse haver me levado, nem dos exercícios que ele disse que fizemos. Apesar de ter acabado de ouvir a voz dele, não conseguia visualizá-lo, nem a mim mesma com ele. O caderno parecia uma obra de ficção. Mas então, enfiada entre duas páginas do final, encontrei uma fotografia. A casa onde eu havia passado a infância, aquela onde eu esperava estar quando acordei esta manhã. Era verdade, ali estava a prova. Eu havia me encontrado com o Dr.
Nash e ele me dera esta foto, este fragmento do meu passado.
Fechei os olhos. Ontem eu havia descrito minha antiga casa, o pote de açúcar na despensa, as frutinhas colhidas no bosque. Será que essas lembranças ainda estariam aqui? Poderia eu estimular mais algumas?
Pensei na minha mãe, no meu pai, desejando que mais alguma coisa aparecesse. Imagens se formaram, silenciosamente. Um carpete laranja esmaecido, um vaso verde-oliva. Um macacãozinho amarelo com um pato cor-de-rosa costurado no peito e botões de pressão no meio. Um assento de carro de plástico azul-marinho e um penico cor-de-rosa desbotado.
Cores e formas, mas nada que descrevesse uma vida. Nada. Quero ver os meus pais, pensei, e foi então, pela primeira vez, que percebi que, de alguma maneira, eu sabia que eles estavam mortos.
Suspirei e me sentei na beirada da cama desfeita. Uma caneta estava enfiada no meio das páginas do diário, e quase sem pensar eu a apanhei, tencionando escrever mais. Segurei-a acima da página e fechei os olhos para me concentrar.
Foi então que aconteceu. Se foi aquela compreensão — de que meus pais já não existiam — que desencadeou outras, eu não sei, mas tive a sensação de que minha mente acordava de um sono longo e profundo. Ela reviveu. Porém não foi algo gradual; foi mais como um raio. Uma faísca de eletricidade. De repente eu não estava mais sentada em um quarto com uma página em branco na minha frente, e sim em outro lugar. De volta ao passado — um passado que eu acreditava haver perdido —, e eu era capaz de sentir, tocar e saborear tudo. Percebi que estava relembrando.
Eu me vi voltando para casa, para a casa onde cresci. Tenho 13 ou 14
anos e estou ansiosa para continuar o conto que comecei a escrever, mas encontro um bilhete na mesa da cozinha. Tivemos de dar uma saída, dizia ele. O tio Ted virá apanhá-la às seis. Pego algo para beber e um sanduíche e me sento com meu caderno. A Sra. Royce disse que meus contos são
“fortes” e “instigantes”; ela acha que eu poderia fazer deles uma carreira.
Mas não consigo pensar no que escrever, não consigo me concentrar. Fervo de fúria silenciosa. É culpa deles. Onde eles estão? O que estão fazendo?
Por que não fui convidada? Amasso o papel e o atiro longe.
A imagem sumiu, mas logo em seguida veio outra. Mais forte. Mais real. Meu pai nos leva de carro de volta para casa. Estou sentada no banco de trás, olhando para um ponto fixo na janela. Uma mosca morta. Uma sujeira. Não sei bem. Falo, sem ter certeza do que vou dizer.
— Quando vocês iam me contar?
Ninguém responde.
— Mãe?
— Christine — diz minha mãe. — Pare com isso.
— Pai? Quando vocês iam me contar? — Silêncio. — Você vai morrer?
— pergunto, com os olhos ainda fixos no ponto da janela. — Papai? Você vai morrer?
Ele olha para trás e sorri para mim.
— Claro que não, meu anjo. Claro que não. Só quando eu for bem, bem velho. Com um montão de netinhos!
Sei que ele está mentindo.
— Vamos lutar contra isso — diz ele. — Prometo.
Inspirei fundo. Abri os olhos. A visão terminou, sumiu. Estou sentada em um quarto, o quarto onde acordei esta manhã, mas por um momento ele pareceu diferente. Completamente sem graça. Sem cor. Desprovido de energia, como se eu estivesse olhando para uma fotografia desbotada pelo sol. Como se a vibração do passado houvesse drenado toda a vida do presente.
Olhei para o caderno na minha mão. A caneta havia caído dos meus dedos e marcado a página com uma linha azul tênue ao deslizar até o chão.
Meu coração disparou no peito. Eu havia me lembrado de algo. Algo enorme, importante. Que não estava perdido. Apanhei a caneta do chão e comecei a escrever isso.
Vou terminar aqui. Quando fecho os olhos e tento recuperar a imagem, ela volta. Eu. Meus pais. Voltando para casa de carro. Ela continua lá. Menos vívida, como se houvesse desbotado com o tempo, mas continua lá. Seja como for, fico contente por haver escrito tudo isso. Sei que uma hora essa lembrança irá desaparecer. Pelo menos agora sei que não está totalmente perdida.
Ben deve ter terminado de ler o jornal. Ele me chamou lá de baixo e perguntou se eu estava pronta para sairmos. Respondi que estava.
Esconderei este caderno no armário, apanharei uma jaqueta e umas botas.
Escreverei mais depois. Se eu me lembrar.
Isso foi escrito horas atrás. Ficamos fora a tarde inteira, mas agora estamos de volta à casa. Ben está na cozinha, preparando peixe para o jantar. Ligou o rádio e o som de jazz sobe até o quarto onde estou sentada, escrevendo. Não me ofereci para cozinhar — estava ansiosa demais para subir e registrar tudo o que vi esta tarde —, mas ele não pareceu se importar.
— Tire uma soneca — disse ele. — A comida vai estar pronta daqui a uns 45 minutos. — Assenti — Eu chamo quando estiver pronta.
Olhei para o meu relógio de pulso. Se eu escrever rápido, vai dar tempo.
Saímos de casa pouco antes da 1 da tarde. Não fomos longe. Estacionamos o carro perto de um prédio baixo e atarracado que parecia abandonado; havia um pombo cinzento solitário em cada uma das janelas vedadas com tábuas e a porta estava escondida por uma chapa ondulada.
— Isso aí é o clube municipal — disse Ben quando desceu do carro. —
Abre no verão, acho. Vamos dar um passeio?
Uma trilha de concreto fazia uma curva em direção ao cume de um morro. Caminhamos em silêncio, ouvindo apenas o grito ocasional de um dos corvos aninhados na quadra de futebol vazia ou o latido melancólico distante de um cão, as vozes de crianças, o burburinho da cidade. Pensei no meu pai, em sua morte e no fato de que eu havia me lembrado de pelo menos um pouquinho dela. Uma corredora solitária percorria uma pista e eu a observei por um instante antes de a trilha nos tirar de trás de uma sebe alta e nos levar para o alto, para o topo do morro. Ali eu vi um pouco de vida; um menininho empinava uma pipa com seu pai de pé atrás dele, uma garota passeava com um cachorrinho preso numa longa correia.
— Aqui é Parliament Hill — avisou Ben. — Costumamos vir sempre aqui.
Eu não disse nada. A cidade se espalhava à nossa frente sob a nuvem baixa. Parecia tranquila. E menor do que imaginei; eu conseguia ver tudo até os morros baixos perdidos à distância. Podia ver o topo da Telecom Tower, o domo da catedral de St. Paul, a estação de eletricidade de Battersea, formas que eu reconhecia, embora de modo vago e sem saber por quê.
Havia outros marcos menos familiares também: um edifício de vidro em forma de um charuto gordo, uma roda-gigante enorme muito distante.
Como meu próprio rosto, a visão parecia ao mesmo tempo estranha e de algum modo familiar.
— Sinto que reconheço este lugar — eu disse.
— Sim — concordou Ben. — Faz algum tempo que o frequentamos, embora a paisagem mude o tempo todo.
Continuamos caminhando. A maioria dos bancos estava ocupada por pessoas sozinhas ou casais. Fomos até um que ficava logo depois do cume do morro e nos sentamos. Tinha cheiro de ketchup; havia um hambúrguer pela metade sob o banco, em uma caixa de papelão.
Ben o apanhou com cuidado e o depositou numa das lixeiras, depois voltou para se sentar ao meu lado. Ele apontou alguns dos pontos marcantes.
— Aquele é Canary’s Wharf — disse ele, fazendo um gesto na direção de um edifício que, mesmo àquela distância, parecia imensamente alto. —
Foi construído no início dos anos 1990, acho. Tem apenas conjuntos comerciais, coisas assim.
Os anos 1990. Era estranho ouvir falar de uma década da qual não conseguia me recordar de haver vivido sendo resumida em duas palavras.
Devo ter deixado passar tanta coisa. Tantas músicas, tantos filmes e livros, tantas notícias. Desastres, tragédias, guerras. Países inteiros deviam ter se despedaçado enquanto eu vagava, sem memória, de um dia para o outro.
Tanto da minha própria vida, também. Tantas visões que eu não reconheço, apesar de vê-las todos os dias.
— Ben? — eu disse. — Fale sobre nós.
— Nós? — repetiu ele. — Como assim?
Eu me virei para encará-lo. O vento açoitava o morro, esfriando o meu rosto. Um cão latiu ao longe. Eu não tinha certeza do quanto dizer; ele sabe que não me lembro de nada a seu respeito.
— Desculpe — falei. — Não sei nada sobre nós dois. Não sei sequer como nos conhecemos, como nos casamos, nada.
Ele sorriu e deslizou no banco, de modo que ficamos próximos. Envolveu meus ombros com um braço. Comecei a recuar, depois me lembrei que ele não era um estranho, e sim o homem com quem me casei.
— O que você quer saber?
— Não sei — respondi. — Como nos conhecemos?
— Bem, estávamos na faculdade, nós dois — começou ele. — Você tinha acabado de começar o doutorado. Lembra?
Balancei a cabeça.
— Na verdade, não. O que eu estudei?
— Você se formou em letras — disse ele, e uma imagem cintilou na minha frente, rápida e intensa. Eu me vi em uma biblioteca e tive vagas recordações de escrever uma tese sobre teoria feminista e literatura do início do século XX, embora na verdade isso pudesse ser apenas algo que eu fazia enquanto escrevia meus romances, algo que a minha mãe talvez não entendesse, mas que ao menos consideraria legítimo. A cena pairou por
um momento, brilhante e tão real que eu quase podia tocá-la, mas então Ben falou e ela desapareceu.
— Eu estava me formando em química — disse ele. — Via você o tempo todo. Na biblioteca, no bar, sei lá. Sempre ficava impressionado com a sua beleza, mas nunca conseguia me aproximar para falar com você.
Eu ri.
— Verdade? — Não conseguia me imaginar tão intimidante.
— Você sempre parecia tão confiante. E intensa. Ficava sentada horas a fio, rodeada de livros, lendo e fazendo anotações, bebendo xícaras de café e sei lá o quê. Você era tão linda. Nunca nem sonhei que pudesse se interessar por mim. Mas então um dia por acaso eu estava sentado ao seu lado na biblioteca e você sem querer derrubou sua xícara e seu café caiu nos meus livros. Você pediu tantas desculpas, embora aquilo quase não tivesse importância, e nós dois limpamos o café e então eu insisti em pagar outro para você. Você disse que era você quem devia me pagar um para se desculpar, e eu disse, tudo bem então, e nós saímos para tomar um café. E foi assim.
Tentei visualizar a cena, relembrar nós dois, jovens, na biblioteca, rodeados por papéis encharcados, rindo. Não consegui e senti a punhalada quente da tristeza. Imaginei como todos os casais deviam adorar a história de como se conheceram — quem falou primeiro com quem, o que foi dito
—, porém não tenho recordação da nossa. O vento açoitou a cauda da pipa do menininho; o som parecia o estertor da morte.
— O que aconteceu depois? — perguntei.
— Bem, nós namoramos. O normal, sabe. Eu me formei, você terminou o doutorado, e então nos casamos.
— Como? Quem pediu quem em casamento?
— Oh — disse ele. — Eu pedi.
— Onde? Conte como aconteceu.
— Estávamos completamente apaixonados — disse ele. Olhou para o lado, para longe. — Ficávamos o tempo todo juntos. Você dividia uma casa com outra pessoa, mas quase não ficava por lá. Passava a maior parte do tempo comigo. Fazia sentido que nós fôssemos morar juntos, que casássemos. Então, num Dia dos Namorados, comprei um sabonete para você. Um sabonete caro, do tipo que você adorava. Retirei a embalagem de papel celofane e coloquei nele um anel de noivado, depois tornei a embrulhar o sabonete e o dei a você. Quando você estava se arrumando para sairmos à noite, encontrou o anel e disse sim.
Sorri para mim mesma. Parecia melequento (um anel cheio de sabonete), além da forte possibilidade de eu talvez só usar o sabonete (e portanto de encontrar o anel) dali a semanas. Mas mesmo assim não era
uma história sem romantismo.
— Com quem eu dividia a casa? — perguntei.
— Ah — disse ele. — Não me lembro direito. Uma amiga. Enfim, nós nos casamos no ano seguinte. Em uma igreja em Manchester, perto de onde a sua mãe morava. Foi um dia lindo. Eu estava me preparando para dar aulas naquela época, então nós não tínhamos muito dinheiro, mas mesmo assim foi lindo. Era um dia ensolarado, todos estavam felizes. E depois viajamos em lua de mel. Para a Itália. Os lagos. Foi maravilhoso.
Tentei visualizar a igreja, o meu vestido, a vista do quarto do hotel. Não veio nada.
— Não me lembro de nada disso — falei. — Desculpe.
Ele olhou para o lado, virando a cabeça para que eu não pudesse ver o seu rosto.
— Não tem importância. Eu entendo.
— Não há muitas fotos — falei. — No álbum, quer dizer. Não há nenhuma foto do nosso casamento.
— Houve um incêndio — explicou ele. — Na última casa onde moramos.
— Um incêndio?
— Sim — disse ele. — Nossa casa basicamente se resumiu a cinzas.
Perdemos muita coisa.
Suspirei. Não parecia justo perder tanto as minhas lembranças quanto os objetos de recordação do meu passado.
— O que aconteceu depois?
— Depois?
— Sim — falei. — O que aconteceu? Depois do casamento, da lua de mel?
— Nós fomos morar juntos. Éramos muito felizes.
— E depois?
Ele suspirou e não disse nada. Não pode ser só isso, pensei. Isso não pode descrever toda a minha vida. Não pode se resumir a isso. Uma festa, uma lua de mel, um casamento. Mas o que mais eu esperava? O que mais poderia haver?
A resposta veio de repente. Filhos. Bebês. Percebi com um estremecimento que era isso o que parecia estar faltando na minha vida, na nossa casa. Sobre a lareira não havia fotos de um filho ou de uma filha —
segurando um diploma, fazendo rafting ou apenas posando entediado para a câmera —, e também nenhuma de netos. Eu não tivera filhos.
Senti a bofetada do desapontamento. O desejo insatisfeito queimou em meu inconsciente. Embora eu houvesse acordado sem sequer saber a minha idade, parte de mim devia saber que um dia eu havia desejado ter filhos.
Subitamente ouvi minha mãe descrevendo o relógio biológico como se
fosse uma bomba. “Apresse-se em conquistar todas as coisas que deseja na vida”, dizia ela, “pois, de um dia para o outro, você vai sentir que...”.
Eu sabia o que ela queria dizer: bum! Minhas ambições sumiriam e só o que eu desejaria era ter filhos. “Foi o que aconteceu comigo”, disse ela. “Vai acontecer com você. Acontece com todo mundo.”
Mas comigo não, suponho. Ou então alguma outra coisa aconteceu.
Olhei para o meu marido.
— Ben? — perguntei. — E depois?
Ele me olhou e apertou a minha mão.
— Depois você perdeu a memória — respondeu ele.
Minha memória. Tudo se resumia a isso, no fim. Sempre.
Olhei para a cidade. O sol estava baixo, brilhando fracamente através das nuvens, lançando sombras compridas sobre a grama. Percebi que logo escureceria. O sol iria se pôr, a lua nasceria no céu. Mais um dia chegaria ao fim. Mais um dia perdido.
— Nós não tivemos filhos — falei. Não era uma pergunta.
Ele não respondeu, mas se virou para me olhar. Segurou minhas mãos nas dele, esfregando-as, como se para aliviar o frio.
— Não — disse ele. — Não. Não tivemos.
A tristeza se desenhou no seu rosto. Tristeza por ele, ou por mim? Não soube dizer. Deixei que ele esfregasse as minhas mãos, segurasse meus dedos entre os dele. Percebi que, apesar da confusão, eu me sentia segura ali, com aquele homem. Pude perceber que ele era bondoso, atencioso, paciente. Por mais que a minha situação fosse terrível, poderia ter sido bem pior.
— Por quê? — perguntei.
Ele não disse nada. Olhou para mim, no rosto uma expressão de dor.
Dor e decepção.
— Como isso aconteceu, Ben? — perguntei. — Como acabei ficando assim?
Senti que ele ficou tenso.
— Tem certeza de que quer saber? — perguntou ele.
Fixei o olhar em uma garotinha que andava de triciclo à distância. Sabia que não deveria ser a primeira vez que eu lhe fazia essa pergunta, a primeira vez que ele tinha de me explicar aquelas coisas. Provavelmente eu lhe perguntava aquilo todos os dias.
— Tenho — respondi. Percebi que desta vez era diferente. Desta vez eu iria escrever o que ele me contasse.
Ele respirou fundo.
— Era dezembro. Estava frio. Você estava na rua, trabalhando. Quando estava voltando para casa, uma caminhada curta... Não houve testemunhas.
Não sabemos se você estava atravessando a rua naquela hora ou se o carro que a atropelou subiu na calçada, mas de todo modo você provavelmente foi atirada longe. Ficou gravemente ferida. As duas pernas quebradas. Além de um dos braços e da clavícula.
Ele parou de falar. Pude ouvir o ritmo baixo da cidade. Trânsito, um avião sobrevoando, o murmúrio do vento nas árvores. Ben apertou a minha mão.
— Disseram que você deve ter batido a cabeça no chão primeiro, por isso perdeu a memória.
Fechei os olhos. Não me lembrava de nada do acidente, e portanto não senti raiva, nem mesmo decepção. Me vi repleta, em vez disso, de uma espécie de arrependimento silencioso. De um vazio. Um agitar da superfície do lago da memória.
Ele apertou a minha mão e coloquei a minha sobre a dele, sentindo o frio e a dureza da aliança em seu dedo.
— Você teve sorte de sobreviver — disse ele.
Eu me senti gelar.
— O que aconteceu com o motorista?
— Não parou. Foi atropelamento e fuga. Não sabemos quem a atropelou.
— Mas quem faria uma coisa dessas? Quem atropelaria alguém e depois simplesmente iria embora?
Ele não disse nada. Eu não sabia o que eu havia esperado. Lembrei o que eu havia lido a respeito da minha consulta com o Dr. Nash. “Um problema neurológico”, dissera ele. “Estrutural ou químico. Um desequilíbrio hormonal.” Supus que ele se referia a uma doença. Algo que simplesmente havia acontecido, aparecido do nada. “Uma dessas coisas.”
Porém isso parecia pior; tinha sido provocado por outra pessoa, tinha sido algo evitável. Se eu houvesse escolhido outro caminho para voltar para casa naquela noite — ou se o motorista do carro que me atropelou tivesse feito isso —, eu ainda seria normal. Poderia hoje ser até avó.
— Por quê? — perguntei. — Por quê?
Não era uma pergunta que ele podia responder, e portanto nada disse.
Ficamos sentados em silêncio por algum tempo, de mãos entrelaçadas.
Escureceu. A cidade se iluminou, os edifícios se acenderam. Logo será inverno, pensei. Logo estaremos em meados de novembro. Dezembro virá em seguida, e então o Natal. Eu não conseguia imaginar como eu faria a passagem de hoje para então. Não conseguia imaginar viver uma série de dias idênticos.
— Vamos? — perguntou Ben. — Voltar para casa?
Não respondi.
— Onde eu estava? — perguntei. — No dia em que fui atropelada. O que
eu estava fazendo?
— Você estava voltando do trabalho — respondeu ele.
— Mas de que trabalho? O que eu fazia?
— Ah — disse ele. — Você tinha um emprego temporário como secretária. Bem, na verdade, de assistente pessoal, numa empresa de advocacia, acho.
— Mas por quê...? — comecei a dizer.
— Você precisava trabalhar para pagarmos a hipoteca — explicou ele. —
As coisas foram difíceis durante algum tempo.
Mas não foi isso o que eu quis dizer. O que eu quis dizer foi: “Você me disse que eu tinha doutorado. Por que me acomodaria em algo assim?”
— Por que eu estava trabalhando como secretária?
— Foi o único emprego que você conseguiu arrumar. Eram tempos difíceis.
Lembrei-me da sensação que eu tivera antes.
— Eu estava escrevendo? — perguntei. — Livros?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
Então havia sido uma ambição passageira. Ou talvez eu houvesse tentado e fracassado. Quando me virei para perguntar, as nuvens se acenderam e, um instante depois, houve um estrondo. Assustada, olhei naquela direção; fagulhas no céu distante choviam sobre a cidade abaixo.
— O que foi isso? — perguntei.
— Fogos de artifício — respondeu Ben. — Essa semana comemoramos a Conspiração da Pólvora.
Um instante depois outro fogo de artifício iluminou o céu com mais um estrondo.
— Parece que vai ter um show — disse ele. — Vamos assistir?
Fiz que sim com a cabeça. Não faria mal, e embora parte de mim desejasse correr para casa, para o meu diário, para anotar o que Ben havia me dito, outra parte desejava ficar, esperando que ele talvez me dissesse mais coisas.
— Sim — falei. — Vamos.
Ele sorriu e envolveu meus ombros com o braço. O céu ficou escuro um instante, depois houve um estalar e um chiado, e um assovio agudo enquanto uma pequenina faísca era lançada para o alto. Ela pairou por um longo momento antes de explodir em brilho alaranjado com um forte estrondo. Foi lindo.
— Normalmente nós vamos a algum show de fogos de artifício —
informou Ben. — Um dos grandes, organizados. Mas esqueci que era hoje.
— Ele afagou meu pescoço com o queixo. — Tudo bem para você?
— Sim — eu disse. Olhei para a cidade, para as explosões de cor no ar, para as luzes que sumiam. — Por mim isso está ótimo. Assim veremos todos os shows.
Ele suspirou. Nossa respiração fez uma névoa à nossa frente, e as duas nuvenzinhas se misturaram. Ficamos sentados em silêncio, observando o céu mudar de cor. A fumaça subia dos jardins da cidade iluminada com violência — de vermelho e laranja, de azul e roxo — e o ar da noite se tornou enfumaçado, com cheiro de pólvora, seco e metálico. Umedeci os lábios, que tinham gosto de enxofre, e quando fiz isso outra lembrança me atingiu.
Foi extremamente precisa. Os sons eram altos demais, as cores, vibrantes. Eu me sentia não como uma observadora, mas como alguém que continuava no meio dos acontecimentos. Tive a sensação de que estava caindo para trás. Segurei a mão de Ben.
Eu me vi com uma mulher. Ruiva. Estamos em um terraço, observando fogos de artifício. Sinto a pulsação ritmada da música que toca na sala sob nossos pés, e sopra um vento frio, que lança fumaça acre à nossa volta.
Muito embora eu esteja usando apenas um vestido fino, sinto calor e empolgação devido ao álcool e ao baseado que ainda seguro entre os dedos.
Sinto o cascalho sob meus pés e me lembro de que tirei os sapatos e os deixei no quarto da garota no andar de baixo. Olho para ela enquanto ela se vira para mim e me sinto viva, tonta de felicidade.
— Chrissy — diz ela, pegando o baseado. — Tá a fim de um doce?
Não entendo o que ela quis dizer e digo isso a ela.
Ela ri.
— Você sabe! Um doce. Uma viagem. Um ácido. Tenho certeza absoluta de que Nige trouxe alguns. Ele me disse que traria.
— Não sei — digo.
— Vamos! Vai ser legal.
Rio e pego o baseado de volta, inalando uma lufada poderosa como para provar que não sou chata. Nós prometemos uma para a outra que nunca seríamos chatas.
— Acho que não — respondo. — Não é a minha praia. Acho que quero ficar só nisso aqui. E na cerveja. Tudo bem?
— Tudo, acho eu — diz ela, tornando a olhar por sobre o gradil. Percebo que ela está desapontada, embora não esteja irritada comigo, e me pergunto se ela irá tomar mesmo assim. Sem mim.
Duvido. Nunca tive uma amiga como ela antes. Uma amiga que sabe tudo sobre mim, em quem confio, às vezes até mais do que em mim mesma. Olho para ela agora, seu cabelo ruivo açoitado pelo vento, a ponta do baseado cintilando na escuridão. Estaria ela feliz com o rumo que sua
vida está tomando? Ou seria cedo demais para dizer?
— Olhe aquilo! — exclama ela, apontando para o local onde um dos fogos de artifício explodiu, fazendo com que a silhueta das árvores se desenhe na frente do seu brilho avermelhado. — Lindo pra caralho, não é?
Rio e concordo com ela, e então ficamos em silêncio por mais alguns minutos, passando o baseado de uma para a outra. No fim ela acaba me oferecendo o que sobrou da ponta empapada e, quando recuso, ela a amassa no asfalto com sua bota.
— A gente devia ir lá embaixo — diz ela, pegando-me pelo braço. —
Tem uma pessoa que eu quero apresentar a você.
— De novo, não! — digo, mas vou mesmo assim. Pulamos um casal que está se beijando na escada. — Não é mais um daqueles idiotas do seu curso, né?
— Ah, dá um tempo! — diz ela, trotando escada abaixo. — Tinha certeza de que você ia adorar o Alan!
— E eu adorei! — retruco. — Até o momento em que ele me disse que estava apaixonado por um cara chamado Kristian.
— Bom, é... — Ela ri. — Como eu poderia saber que Alan ia escolher você para sair do armário? Esse aqui é diferente. Você vai adorá-lo. Eu sei.
Só precisa dizer oi. Sem pressão.
— Tá — digo. Abro a porta e entramos na festa.
A sala é grande, com paredes de concreto e lâmpadas sem lustres pendendo do teto. Abrimos caminho até a área da cozinha e apanhamos mais uma cerveja para cada uma, depois encontramos um lugar perto da janela.
— E aí, cadê o cara? — pergunto, mas ela não me ouve.
Sinto a empolgação do álcool e da erva e começo a dançar. A sala está cheia de gente, a maioria vestida de preto. Malditos alunos de arte, penso.
Alguém se aproxima e fica na nossa frente. Eu o reconheço. Keith. Já nos vimos antes, em outra festa, na qual terminamos aos beijos num dos quartos. Agora, porém, ele está conversando com a minha amiga, apontando para um dos quadros dela que está pendurado na parede da sala. Fico pensando se ele decidiu me ignorar ou se não se lembra de ter me visto antes. Em todo caso, ele é um idiota. Termino minha cerveja.
— Quer outra? — pergunto a ela.
— Hã-hã — diz minha amiga. — Quer ir apanhar as cervejas enquanto eu cuido de Keith? Depois vou apresentar você ao cara de quem falei. Tá bem?
Rio.
— Tá. Tanto faz. — E saio na direção da cozinha.
Então, uma voz. Alta, no meu ouvido.
— Christine! Chris! Você está bem?
Eu me sinto confusa; a voz parecia familiar. Abri os olhos. Com espanto percebi que estava ao ar livre, ao relento, em Parliament Hill, com Ben me chamando e os fogos à minha frente tingindo o céu da cor do sangue.
— Você estava de olhos fechados — disse ele. — O que foi? O que aconteceu?
— Nada — respondi. Minha cabeça girava, eu mal podia respirar. Dei as costas para o meu marido, fingindo assistir ao resto do espetáculo. —
Desculpe. Não foi nada. Estou bem. Estou bem.
— Você está tremendo — disse ele. — Está com frio? Quer voltar para casa?
Percebi que realmente estava tremendo. E queria voltar sim. Para registrar tudo o que eu havia acabado de ver.
— Sim — digo. — Você se incomoda?
A caminho de casa pensei na visão que eu acabara de ter enquanto assistíamos ao show de fogos de artifício. Ela me chocara por sua clareza, seus contornos bem marcados. Me pegara de jeito, me sugara para dentro dela como se eu a estivesse revivendo de verdade. Eu senti tudo, saboreei tudo. O ar frio e a espuma da cerveja. A erva queimando no fundo da minha garganta. A saliva de Keith, morna em minha língua. A visão parecia real, quase mais real do que a vida para a qual abri os olhos depois que ela se foi.
Eu não sabia exatamente de quando era. Da época da faculdade, supus, ou de logo depois. A festa em que eu havia me visto era do tipo que imagino ser daquelas que um estudante goste. Eu não tinha sensação de responsabilidade. Estava despreocupada. Leve.
E, embora não pudesse me lembrar do seu nome, aquela mulher era importante para mim. Minha melhor amiga. Para sempre, eu havia pensado, e embora eu não soubesse quem ela era, tinha uma sensação de segurança ao seu lado.
Eu me indaguei se ainda seríamos próximas, e tentei falar com Ben a respeito no carro. Ele estava calado — não descontente, mas distraído. Por um instante pensei em lhe contar tudo sobre a visão, mas, em vez disso, perguntei a ele quem eram os meus amigos na época em que nos conhecemos.
— Você tinha muitos amigos — disse ele. — Era muito popular.
— Eu tinha uma melhor amiga? Alguém especial?
Ele então olhou para mim.
— Não — respondeu. — Acho que não. Não em especial.
Não entendi por que não tinha conseguido recordar o nome dessa
mulher, mas me lembrara do de Keith e do de Alan.
— Certeza? — perguntei.
— Sim — disse ele. — Certeza. — Ele se virou para voltar a olhar a estrada. Começou a chover. A luz das lojas e das placas de neon acima delas se refletia na rua. Há tanta coisa que gostaria de perguntar a ele, pensei, mas nada disse e, depois de mais alguns minutos, era tarde demais.
Estávamos em casa, e ele havia começado a cozinhar. Era tarde demais.
Assim que terminei de escrever, Ben me chamou para jantar. Ele havia posto a mesa e servido vinho branco, mas eu não estava com fome e o peixe estava seco. Deixei a maior parte da minha refeição no prato. Então, como Ben havia cozinhado, me ofereci para lavar a louça. Levei os pratos para a cozinha e deixei cair bastante água quente na pia, torcendo todo o tempo para que mais tarde eu conseguisse arrumar uma desculpa para subir e ler meu diário, e, quem sabe, escrever mais um pouco. Mas não fiz isso — passar tanto tempo sozinha no quarto levantaria suspeitas —, e, portanto, passamos a noite na frente da televisão.
Não consegui relaxar. Pensei no meu diário e observei os ponteiros do relógio da lareira se arrastarem das 9 para as 10 e depois para as 10h30.
Por fim, quando eles se aproximavam das 11, percebi que eu não teria mais tempo esta noite e disse:
— Acho que vou me deitar. O dia foi cansativo.
Ele sorriu, inclinando a cabeça.
— Tudo bem, querida. Subo daqui a pouco.
Assenti e disse que tudo bem, mas assim que saí da sala senti o medo se instalar em mim. Esse homem é meu marido, disse a mim mesma, estou casada com ele, e entretanto sinto como se ir para a cama com ele fosse algo errado. Não conseguia me recordar de ter feito isso antes e não sabia o que esperar.
No banheiro, usei o vaso sanitário e escovei os dentes sem olhar para minha imagem no espelho, nem para as fotos dispostas ao seu redor. Entrei no quarto, encontrei minha camisola dobrada sobre o travesseiro e comecei a me despir. Queria estar pronta antes que ele chegasse, sob as cobertas.
Por um momento tive a ideia absurda de que poderia fingir que estava dormindo.
Tirei o pulôver e me olhei no espelho. Vi o sutiã cor de creme que eu havia colocado de manhã e, ao fazê-lo, tive uma visão fugaz de mim quando criança, perguntando a minha mãe por que ela usava sutiã e eu não, e dela me dizendo que um dia eu usaria. E agora aquele dia tinha chegado
— e não viera de modo gradual, mas instantâneo. Ali, ainda mais óbvio do que as rugas no meu rosto e nas minhas mãos, estava o fato de que eu não era mais uma menina, e sim uma mulher. Ali, no volume macio dos meus seios.
Enfiei a camisola por cima da cabeça e a alisei no corpo. Enfiei a mão por baixo dela e abri o fecho do sutiã, sentindo o peso sobre o meu peito ao fazer isso, depois abri o zíper das minhas calças e as tirei. Não queria continuar a examinar o meu corpo, não esta noite, e assim, depois que tirei as calcinhas e as meias-calças que eu colocara de manhã, deslizei para baixo das cobertas e, fechando os olhos, me virei para o meu lado.
Ouvi o relógio badalar lá embaixo, e um momento depois Ben entrou no quarto. Não me mexi, mas ouvi enquanto ele se despia, depois senti o peso na cama quando ele se sentou na beirada. Ele ficou parado um instante e então senti sua mão pesada sobre meu quadril.
— Christine? — disse ele, num quase sussurro. — Você está acordada?
— murmurei que estava. — Você se lembrou de alguma amiga hoje? —
perguntou ele. Abri os olhos e me virei para o lado dele. Pude ver suas costas largas, os pelos finos que se espalhavam pelos seus ombros.
— Sim — respondi.
Ele se virou para mim.
— O que você lembrou?
Eu contei a ele, embora apenas de modo vago.
— De uma festa — falei. — Nós duas ainda estudávamos, acho.
Ele então se levantou e se virou para entrar na cama. Vi que ele estava nu. Seu pênis balançava no meio de um ninho escuro de pelos e precisei suprimir a vontade de rir. Não me lembrava de ter visto a genitália de um homem antes, nem mesmo em livros, porém ela não me era estranha.
Fiquei pensando em quantos deles eu tinha conhecido, que experiências eu tinha vivido. Quase involuntariamente, olhei para o lado.
— Você já se lembrou dessa festa antes — disse ele enquanto afastava as cobertas para deitar na cama. — Lembra com alguma frequência, acho.
Há certas lembranças que parecem surgir com regularidade.
Suspirei. “Então não é nada de novo”, parecia dizer ele. “Nada para se empolgar.” Ele se deitou ao meu lado e nos cobriu. Não apagou a luz.
— Eu me lembro das coisas com frequência? — perguntei.
— Sim. De algumas. Na maioria dos dias.
— Das mesmas coisas?
Ele se virou para me encarar, apoiando-se sobre o cotovelo.
— Às vezes — respondeu. — Em geral. Sim. É raro haver surpresas.
Afastei o olhar de seu rosto e olhei para o teto.
— Alguma vez eu me lembro de você?
Ele se virou para mim.
— Não — disse. Segurou a minha mão. Apertou-a. — Mas não tem problema. Eu amo você. Tudo bem.
— Eu devo ser um peso terrível para você — falei.
Ele mexeu a mão e se pôs a afagar meu braço. Senti um estalo de eletricidade estática. Sobressaltei-me.
— Não — respondeu ele. — De jeito nenhum. Eu amo você.
Ele enroscou o corpo dele no meu e beijou minha boca.
Fechei os olhos. Confusa. Será que ele queria fazer sexo? Para mim ele era um desconhecido; embora inconscientemente eu soubesse que dormíamos na mesma cama todas as noites, que o fazíamos desde que nos casamos, meu corpo o conhecia há menos de um dia.
— Estou exausta, Ben — falei.
Ele abaixou a voz e começou a sussurrar.
— Eu sei, meu amor. — Começou a beijar suavemente minhas bochechas, meus lábios, meus olhos. — Eu sei. — sua mão se mexeu sob as cobertas, descendo, e senti uma onda de ansiedade começar a se avolumar dentro de mim, beirando o pânico.
— Ben — falei. — Desculpe. — Agarrei sua mão e interrompi aquela descida. Resisti ao impulso de afastá-la com violência como se fosse algo nojento e em vez disso, acariciei-a. — Estou cansada — disse. — Esta noite, não. Tudo bem?
Ele nada disse, mas retirou a mão e se deitou de costas. A frustração emanava dele em ondas. Eu não sabia o que dizer. Parte de mim pensou que eu deveria me desculpar, mas uma parte ainda maior me disse que eu não havia feito nada de errado. E assim ficamos deitados em silêncio na cama, mas sem nos tocar, e tentei imaginar com que frequência isso acontecia. Com que frequência ele se deita louco por sexo, se eu alguma vez desejo o mesmo — ou pelo menos me sinto capaz de lhe oferecer —, e se, quando não o faço, é sempre isso o que acontece, esse silêncio estranho.