Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos

Gilberta Acselrad · Capítulo 8 de 17

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Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos

6. Perigo silencioso: trabalhadores intoxicados por mercúrio em uma indústria de cloro/soda

6 – Perigo silencioso:

 

trabalhadores intoxicados por

 

mercúrio em uma indústria de

 

cloro/soda

 

Heloisa Pacheco-Ferreira

 

Os trabalhadores e o uso do mercúrio

 

A preocupação com a saúde dos trabalhadores em uma indústria

de cloro/soda, no estado do Rio de Janeiro, expostos ao mercúrio

metálico, iniciou-se com a denúncia de casos de contaminação pelo

Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas do Rio de

Janeiro, no final de 1989. A partir dessa data, teve início uma

mobilização tanto dos trabalhadores, através do sindicato, como de

algumas instituições públicas, tais como o Programa de Saúde do

Trabalhador da Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro (PST/SES-RJ), a Fundação Estadual de Engenharia de Meio

Ambiente (Feema) e a Comissão de Energia e Tecnologia da

Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

O objetivo dessa mobilização era intervir para reverter a situação,

principalmente no que dizia respeito às condições de trabalho e de

saúde dos trabalhadores. Dela resultou a assinatura do Acordo para

Mudança de Tecnologia e Defesa do Meio Ambiente, em 15 de maio

de 1992 (Rio de Janeiro, 1992).

A doença ocupacional em decorrência do uso do mercúrio (Hg) é

um fato recentemente reconhecido no Brasil. As primeiras

denúncias sobre a possibilidade de contaminação por Hg em

indústrias de cloro/soda ocorreram no final de 1987 em São Paulo,

quando o Sindicato dos Químicos do ABC denunciou a contaminação de 80 dos 120 operários da unidade eletrolítica da

fábrica de cloro/soda Eletrocloro, multinacional belga, atual Solvay

do Brasil. Em 1991, o caso de contaminação por mercúrio de 75 dos

210 trabalhadores do setor de produção de lâmpadas fluorescentes da Philips, em Mauá, foi tornado público pelo Sindicato dos

Metalúrgicos de Santo André, São Paulo (INST/CUT, 1992).

No caso da indústria de cloro/soda, localizada no município do Rio

de Janeiro, cujos trabalhadores foram avaliados neste estudo,

apesar das ações para modificar as condições de trabalho na

empresa, com a assinatura do referido acordo, nenhum trabalhador,

até então, havia sido diagnosticado como portador de hidrargirismo

– doença ocupacional causada pelo mercúrio metálico.

Essa ausência de diagnóstico de hidrargirismo chamou a atenção,

uma vez que o relatório conjunto do Programa de Saúde do

Trabalhador (SES-RJ) e do Centro de Estudos da Saúde do

Trabalhador e Ecologia Humana da Fundação Oswaldo Cruz

(Cesteh/Fiocruz), de 1990, era claro quanto às condições no

ambiente de trabalho na referida empresa e apresentava possíveis

causas ou agravantes da contaminação dos trabalhadores por

mercúrio. Segundo o relatório, a empresa contava com equipamentos e instalações bastante antigos, em especial nas salas

de eletrólise – centro do processo produtivo da fábrica e onde se

localizam as células de Hg –, cujo elevado nível de obsolescência e

degradação contribuía para que se multiplicassem os pontos de

vazamento do mercúrio, dificultando o seu controle.

Outro dado importante em relação às condições no ambiente de

trabalho é que a empresa, em 46 anos de funcionamento, não

melhorou suas instalações, com exceção dos últimos quatro anos, por pressão do sindicato e em função do acordo. Durante todo esse

período, tampouco realizou estudos sobre as condições de saúde

dos funcionários devido ao uso e manipulação do mercúrio,

limitando-se a prestar assistência médica no Serviço de Segurança

e Medicina do Trabalho da empresa (SESMT) (Alerj, 1991).

Portanto, no caso em estudo, a riqueza de depoimentos diversos,

e em especial dos trabalhadores, suas queixas e o quadro clínico já

apresentado por alguns nos levaram a acreditar que hipóteses diagnósticas mais precisas poderiam ter sido apontadas. Na época, pensar tal estudo era um desafio, uma vez que, no decorrer do

processo, os trabalhadores precisavam ser atendidos, e,

efetivamente, não tínhamos, no estado do Rio de Janeiro, um centro

de referência para casos de contaminação por Hg que avaliasse adequadamente as suas condições de saúde.

Assim, o Cesteh assumiu a realização da avaliação de saúde

desses trabalhadores, já que estes estavam sem acesso a

atendimento adequado devido à falta de recursos humanos nesta

área. O trabalho desenvolvido pautou-se na análise de algumas

variáveis presentes em estudos sobre o tema, entre elas o indicador

biológico de exposição (mercúrio na urina), setor e tempo de

trabalho na empresa, relacionando-os com os agravos à saúde presentes nos trabalhadores expostos.

A análise do processo saúde-trabalho considerou, como marco

teórico referencial, as cargas presentes no ambiente de trabalho

como um todo complexo, cuja interação entre as partes se dá de

forma processual, imprimindo-lhe uma qualidade específica, bem

como o caráter histórico e social da doença (Laurell & Noriega,

1989). Exigiu também a construção de uma metodologia integradora

das diversas áreas de conhecimento, com uma abordagem interdisciplinar, em que a participação dos trabalhadores, em todos

os momentos, constituiu-se como componente central de estratégia

de conhecimento e ação.

A partir desses referenciais foram utilizados instrumentais para

avaliar a exposição ocupacional ao mercúrio metálico e os danos

provocados no sistema nervoso. A análise dos dados encontrados

foi comparada com outros estudos realizados sobre a intoxicação

crônica por mercúrio e demais efeitos nocivos deste metal, que é denominado por muitos como “o perigo silencioso”, pela forma

contínua com que é absorvido e acumulado em sítios específicos do

organismo, durante toda a vida profissional (Azevedo, 1989).

Com base na avaliação das condições de saúde de 55

trabalhadores, no período de 1992 a 1994, dessa indústria de

cloro/soda, expostos a ambientes com elevada concentração de

mercúrio, identificaram-se os efeitos adversos à saúde, o que

permitiu elaborar rotinas de monitoramento clínico e neuropsicológico desses trabalhadores, articuladas com as ações de vigilância sanitária, epidemiológica e ambiental no campo da

saúde do trabalhador.

 

As indústrias de cloro/soda e o

 

consumo de mercúrio: risco

 

ocupacional e ambiental

 

A utilização do mercúrio metálico em vários processos industriais, em níveis mundial e nacional, é preocupante devido à alta

toxicidade deste metal. As atividades industriais são responsáveis

pela emissão de cerca de 5.000 t/ano de mercúrio para o meio

ambiente, provocando inúmeros danos à saúde da população em

geral (WHO/IPCS, 1991). Das 340 toneladas de mercúrio

oficialmente importadas para o Brasil, 5% são usadas em indústrias

de cloro/ soda, em que a emissão atmosférica desta substância

corresponde em média a 45% do consumo, representando a principal via de exposição de trabalhadores e moradores das

circunvizinhanças e provocando danos ao meio ambiente.

A indústria de cloro/soda, entre todas as atividades industriais que

utilizam mercúrio, representa a maior fonte de liberação de mercúrio

para o meio ambiente (Bastos & Caio, 1985; Bezerra, 1990). Para

ilustrar a gravidade do problema, podem-se citar alguns acidentes

ocorridos no Brasil com danos ao meio ambiente: o da enseada dos

Tainheiros, Bahia/1975, provocado pelo lançamento contínuo de mercúrio pela indústria de cloro/soda Companhia Química do

Recôncavo (CRQ), contaminando peixes e crustáceos, consumidos

pela população local; o do Rio Botafogo (Pernambuco) e o do Rio

Mogi-Guaçu (São Paulo), em que a contaminação por mercúrio

metálico foi provocada, respectivamente, pelas produtoras de

cloro/soda Companhia Igarassu e Indústria Champion de Papel e

Celulose S.A. (Ferreira & Appel, 1991).

Os riscos da produção eletrolítica de cloro/soda, com o emprego de células à base de mercúrio metálico, são grandes, e os vapores

de mercúrio, o calor, a energia elétrica, o gás cloro, o hidrogênio e a soda cáustica constituem os principais riscos à saúde (Viana, 1983).

Ao longo do processo, a exposição dos trabalhadores ao metal é

grande, principalmente durante a operação na sala de células

eletrolíticas. O Hg é um metal líquido com alta pressão de vapor, que, mesmo à temperatura ambiente, sofre volatilização e é liberado

para o ambiente em maior ou menor quantidade, dependendo da

vedação das partes em contato. A quase totalidade da capacidade

produtiva de cloro/soda instalada no país está nos processos a

mercúrio e diafragma. Das 13 empresas existentes, oito operam

com células de mercúrio, hoje uma tecnologia obsoleta em diversos

países do mundo (Abiclor, 1992).

 

A indústria de cloro/soda, RJ

 

No caso específico da empresa em estudo, como consta nos

relatórios de inspeção do PST/SES-RJ, desde a sua implantação

nenhuma modificação significativa foi realizada nas instalações e

equipamentos, permanecendo um ambiente de trabalho insalubre,

onde até gotas de mercúrio se encontravam espalhadas pelo chão,

o que demonstra o alto grau de exposição a que os trabalhadores

estavam submetidos, principalmente nas eletrólises, âmago do

processo produtivo na empresa.

Com a implementação do Acordo Mudança de Tecnologia,

algumas modificações estão sendo realizadas, conforme as atas

das comissões de vigilância sanitária e ambiental (PST/SES/RJ,

1991), responsáveis pelo acompanhamento dos itens acordados de

melhoria das condições de trabalho. Essas mudanças estão

previstas para continuarem até a alteração definitiva do processo

tecnológico, ou seja, até o fim do uso do mercúrio em um prazo de

seis meses a quatro anos a partir de assinatura do acordo.

Entretanto, durante esse processo, há uma intensificação das

atividades com um decorrente aumento da exposição dos

trabalhadores nas áreas de risco, que, têm agregada às suas

atividades normais de operação a realização das obras de

adequação/controle preconizadas pelo acordo, como observado pela Comissão de Vigilância Sanitária e descrito por Mattos e

Gonçalves (1993:7)

 

esta fase de transição entre tecnologias tem agravado as situações de risco,

pois além de estarem sendo feitas obras nas salas eletrolíticas, ainda estão

sendo feitas as manutenções das células de mercúrio, nas quais se faz a

quebra do leito da célula (fundo de concreto) para sua troca e a renovação

da manta de vedação. Esta operação coloca os trabalhadores em contato

direto com o mercúrio, provocando um aumento nas suas taxas de Mercúrio

Urinário (Hg-U).

 

Alguns estudos realizados investigaram a associação do Hg no ar e o possível aparecimento de sinais e sintomas nos indivíduos

expostos a esse ambiente, além de compará-lo também com os

níveis de excreção urinária de Hg. Alguns sugerem que quanto

maior o tempo de exposição semanal (horas trabalhadas) em

ambientes com níveis de 0,5 a 0,10 mg/m3 Hg no ar, maior será o

número de trabalhadores com altos índices de excreção urinária de

Hg (Niosh, 1973).

Bunn e colaboradores (1986) comparam níveis de exposição

ambiental com sinais e sintomas que se apresentam, por grupos de

permanência semanal, na sala das células de Hg em duas indústrias

de cloro/soda. Na indústria B, onde os índices de Hg-ar eram maiores e o tempo de trabalho/ano dos trabalhadores era menor

(três anos), o aparecimento da sintomatologia foi mais perceptível, o

que sugere uma maior importância do grau de contaminação

ambiental, relativizando tempo de exposição como fator

preponderante no aparecimento da sintomatologia.

 

Mercúrio: metal potencialmente tóxico

 

Desde Ramazzini (1985), os estudos sobre a intoxicação por Hg

nas minas, indústrias de chapéus e feltros, cloro/soda e em outras indústrias que usam este metal no processo produtivo têm sido

numerosos, trazendo sempre dados preocupantes em relação às

condições de saúde dos trabalhadores, principalmente quando considerados os mecanismos de intoxicação do Hg (Vigliani & Baldi,

1949).

A principal via de absorção do mercúrio metálico no organismo é

a inalação de vapores. O percentual de retenção no pulmão é cerca

de 80%; mas no nível alveolar é de 100%. O Hg elementar (Hg 0)

atravessa as membranas, sendo oxidado e retido dentro delas. Esse

mecanismo é responsável pelo acúmulo do Hg0 no cérebro. É

altamente lipossolúvel, com 100% de absorção após a inalação do

vapor, seguida de difusão rápida pelas membranas alveolares do

pulmão, ficando 74-80% do mercúrio inalado retido nos tecidos humanos.

Ao penetrar no organismo, parte do Hg metálico absorvido

permanece assim durante algum tempo, o que poderia justificar sua

entrada na barreira hemato-encefálica. No sangue e nos tecidos, há

uma oxidação, responsável pela formação de íons mercúrio Hg, que

se fixam às proteínas depositando-se nos rins e no encéfalo. O

mercúrio e os seus compostos são ativos quimicamente e, a

depender da concentração atingida, podem, no tecido animal, desnaturar proteínas, inativar enzimas e modificar as membranas

celulares com prejuízo de suas funções, causando a morte da célula

e a destruição de qualquer tecido com o qual entrem em contato. Os

efeitos típicos do mercúrio são particularmente notáveis nos rins e

no cérebro, órgãos nos quais é importante a função das membranas

(Azevedo, 1989; Foá & Cimi, 1991; Lauwerys & Buchet, 1973).

Do total do mercúrio elementar inalado, 10% são excretados pelo

ar exalado dos pulmões. Após sua oxidação, o Hg++ é excretado pelas glândulas salivares, lacrimais, sudoríparas e, principalmente,

pela urina e fezes. O indicador biológico mais usado no

monitoramento de trabalhadores expostos a vapores é o mercúrio

na urina, embora sua variabilidade seja muito grande e ainda não

haja uma correlação bem definida entre a excreção urinária e o total

absorvido (Langworth et al., 1991; Jacobs, 1964).

As concentrações normais de mercúrio encontradas no sangue e

na urina são, respectivamente, 5 ug/l e 6,5 ug/l. Os valores encontrados, em estudo realizado em populações não expostas

ocupacionalmente, na região norte da Itália, estão na faixa de 0,17 a

0,99 g/100 ml no sangue (Hg-S) e 0,1 a 6,9 g/l na urina (Hg-U) (Minoia et al. 1990). Em um estudo realizado na Bahia, analisando

os níveis de mercúrio em amostra da população da cidade de

Salvador, encontrou-se uma média de Hg-U de 5,534 +/3,498 ug/l

(sexo masculino) e de 6,164 +/3,323 ug/l (sexo feminino), segundo Carvalho e colaboradores (1993).

Desordens no sistema nervoso seguidas à exposição a vapor de

mercúrio metálico foram observadas em diversos estudos, tanto em

exposições agudas como crônicas, com efeitos neurológicos

similares. A intensidade dos sintomas e a possível reversibilidade

são relacionadas à duração da exposição e/ou ao aumento das

concentrações de mercúrio na urina (ATSDR, 1992; Langworth,

1992a). Em períodos longos de exposição, os órgãos mais atingidos são os rins e o sistema nervoso central. Em uma exposição aguda,

efeitos respiratórios, cardiovasculares e gastrointestinais são

observados. Muitos estudos relatam casos de morte por

intoxicações agudas, atribuídos à diminuição da função respiratória,

como resultado de lesões pulmonares graves (Aguado et al., 1989).

Na intoxicação crônica, objeto deste estudo, os sintomas

atribuídos ao sistema nervoso predominam, tais como irritabilidade,

insônia, diminuição da autoconfiança, diminuição da memória, depressão, dificuldade para dormir, pesadelos, fadiga, diminuição da

concentração, nervosismo, labilidade emocional e tremores finos,

afetando inicialmente partes periféricas do corpo, como os dedos e

mãos (Piikivi & Haenninen, 1989; Vroom & Greer, 1972).

As áreas do cérebro afetadas na intoxicação por mercúrio

metálico são principalmente no córtex cerebral, especificamente o

lobo occipital e o lobo temporal (Cavanagh, 1988; Clarkson, 1986).

Outros autores sugerem que há uma distribuição uniforme do mercúrio no cérebro (Hartman, 1988). Em relação ao sistema

nervoso periférico, a exposição crônica a vapores de Hg metálico

pode provocar danos, causando as neuropatias periféricas (Singer

et al., 1987).

No Brasil, as pesquisas realizadas têm evidenciado alterações do

sistema nervoso, principalmente distúrbios cognitivos. Um estudo

realizado com 71 trabalhadores expostos a mercúrio metálico em

indústria de lâmpadas elétricas, com faixa etária entre 20 e 50 anos, apresentou os seguintes dados: as funções predominantes dos trabalhadores eram a de mecânico de manutenção, ajudante de

produção e operador de máquinas. Nesse estudo, 55 casos

apresentaram cefaléia; 41, parestesias; 38, insônia; 35, tremores;

31, sonolência; 22, gosto metálico; 12, câimbra; 52, nervosismo; 48, irritabilidade; 27, tristeza; diminuição da atenção e da acuidade

visual, entre outros sintomas. Os níveis de Hg-U encontrados em 32

trabalhadores estavam acima de 10 mg/l. Associando-se tais níveis

aos dados clínicos, concluiu-se que o número de trabalhadores com

hidrargirismo foi de 61-85,9% (Zavariz & Glina, 1992).

Quanto aos rins, órgãos com alta capacidade de concentração do

Hg, lesões graves podem ser observadas: disfunção glomerular,

síndrome nefrótica aguda caracterizada por proteinúria com albuminúria e edema, aparecendo após alguns meses de exposição

(ATSDR, 1992; Langworth et al., 1992b). Os efeitos imunológicos

ocorrem em conseqüência da diminuição dos níveis das

imunoglobulinas (IgA e Ig6), em especial a última, em prolongadas

exposições (Langworth et al., 1992b; Bencko, 1990). Quanto aos

efeitos reprodutivo, genotóxico e cancerígeno e outros, os estudos

efetuados não apresentaram uma correlação com a exposição ao

Hg metálico (McGregor & Mason, 1991; Alcser, 1989).

 

A avaliação dos efeitos sobre a saúde

 

A área de pesquisa compreendeu a indústria de cloro/soda

localizada no município do Rio de Janeiro. Os 55 trabalhadores

estudados, todos do sexo masculino, pertenciam ao grupo de risco I.

Ao se iniciar o processo de modificações na empresa, por ocasião

da assinatura do Acordo de Mudança de Tecnologia, os

trabalhadores foram divididos em três grupos com diferentes formas

e intensidades presumíveis de exposição, utilizando-se o setor de trabalho como fator de diferenciação entre grupos. A construção dos

grupos de risco foi baseada na metodologia de inspeção sanitária

desenvolvida pelo PST/SES-RJ, com base em informações dos

trabalhadores e da empresa.

Os trabalhadores do grupo I permanecem a maior parte da

jornada de trabalho em atmosferas com maiores níveis de vapores de mercúrio (média de 18,2 ug/l de Hg-U). O grupo II se define por

um contato indireto, no caso de tarefas de manutenção, pelo contato

dérmico com equipamentos e produtos contaminados no ambiente

da fábrica (média de 10,9 ug/l de Hg-U). O grupo III se define por um contato a distância. Essa exposição pode ocorrer pela

contaminação do ambiente de trabalho externo aos galpões da

eletrólise, através da dispersão atmosférica dos vapores de

mercúrio (média de 6,9ug/l de Hg-U) (Machado et al., 1992).

Este estudo epidemiológico observou a prevalência do

hidrargirismo na referida indústria, com base na análise dos dados

obtidos na avaliação clínica e neuropsicológica do grupo de risco I,

discutindo as relações existentes entre a presença ou não de agravos à saúde, níveis de Hg-U, setor e tempo de trabalho na

empresa. Os dados referentes a condições de trabalho, formação

dos grupos homogêneos de risco e níveis de Hg-U e ambiental

foram obtidos a partir dos relatórios do PST/SES-RJ e do

Cesteh/Fiocruz, no processo de acompanhamento das mudanças

na empresa.

O estudo individual das condições de saúde desses trabalhadores

foi realizado por uma equipe constituída de uma assistente social, uma técnica de segurança do trabalho, três psicólogas e duas

médicas. Constou das seguintes etapas:

 

1. Atendimento de enfermagem: verificação de sinais vitais,

orientação da coleta da urina.

2. Avaliação ocupacional anterior e atual: exposição a metais,

solventes, praguicidas, outras substâncias químicas e/ou

cargas físicas e biológicas, tempo de trabalho na empresa,

função, setor.

3. Avaliação clínica: história fisiológica, história patológica

pregressa, história familiar, história social, uso de remédios,

sintomas referidos, sinais apresentados ao exame clínico.

4. Exame neurológico: avaliando força muscular, sensibilidade,

coordenação, reflexos, marcha, presença ou não de tremor e

movimentos involuntários.

5. Avaliação psicológica: ingestão de álcool, nervosismo,

irritabilidade, agressividade, mudança de humor, dispersão,

distúrbios da memória recente, distúrbios do sono e cansaço.

6. Aplicação dos testes neuropsicológicos: AC (Atenção e

Concentração), WMS (Wechsler Memory Scale), Série Both

(Testes manuais: Subteste Tecer; Subteste Destecer; Subteste Parafusar) e TAM (Subteste Disco).

 

Os exames laboratoriais solicitados foram: dosagem de mercúrio

urinário (Hg-U) – as amostras foram coletadas pela manhã e

analisadas no laboratório do Cesteh/Fiocruz, através de espectrofotometria de absorção atômica com geração de vapor frio

–; hemograma completo, uréia, creatinina, glicose, TGO, TGP,

fosfatase alcalina, Gama GT, TAB, proteínas totais, albumina,

globulinas, EAS, parasitológico de fezes – realizados no Centro de

Saúde Escola Germano Sinval Faria da Escola Nacional de Saúde

Pública/Fiocruz.

Obedeceu-se aos seguintes critérios para a realização de todas

as etapas do estudo: os trabalhadores em escala de turnos deveriam encerrar as atividades laborativas no mínimo às 14h do

dia anterior ao exame, e os trabalhadores diaristas, no mínimo às

16h30 do dia anterior ao exame.

Uma etapa importante foi a discussão de caso individual, com

uma abordagem interdisciplinar, em que se estabelece a interface

das diversas disciplinas envolvidas no processo de avaliação,

incluindo dados da avaliação ambiental e das condições de trabalho

apontadas pelos estudos específicos, analisando-se todas as hipóteses diagnósticas, de forma a evidenciar ou não o nexo causal

com o trabalho.

 

A presença de agravos à saúde

 

Realizada a avaliação clínica e neuropsicológica de 60

trabalhadores, todos do sexo masculino, pertencentes ao grupo de

risco I, encaminhados pela empresa, no período de março a

dezembro de 1993, foram excluídos do estudo cinco funcionários:

um por não pertencer ao grupo de risco I, dois por não terem feito avaliação psicológica – entrevista e testes – e dois por alta ingestão

diária de álcool.

Nenhum deles referiu história atual ou patológica pregressa de

doença renal, neurológica e psiquiátrica, tampouco história familiar que justificasse o afastamento do estudo. Não apresentaram,

também, história de exposição ocupacional passada a substâncias

químicas.

Observamos que a maioria se situa entre 30 e 50 anos, sendo

78% com mais de 30 anos. A idade média corresponde a 40,06, e o

desvio-padrão, 11,94, configurando uma força de trabalho com

idade elevada e sugerindo relativa estabilidade no emprego,

confirmada na Tabela 1. Essa categorização por tempo de trabalho permite distinguir que a maioria dos trabalhadores se apresenta

exposta de forma crônica – exposição a uma substância por 365

dias ou mais ao mercúrio metálico –, diferentemente da exposição

aguda – menos de 14 dias – ou da intermediária – de 15 a 365 dias.

 

Tabela 1 – Distribuição dos 55 trabalhadores por tempo de

trabalho em uma indústria de cloro/soda. Rio de Janeiro – março a

dezembro/1993

 

Tempo de trabalho (anos) nº %

 

0 - 1 13 24

 

1 - 5 15 27

 

5 - 10 8 14

 

> 10 19 35

 

TOTAL 55 100

 

Observamos, na Tabela 1, que 78% dos trabalhadores têm mais

de um ano na empresa, situação que é compatível com a

possibilidade de se tornarem casos de intoxicação mercurial crônica. A média correspondeu a 4,6 anos, e o desvio-padrão, 2,19 anos. Os

dados obtidos na empresa sobre o tempo de trabalho concentram-

se na faixa de 2,4 a 6,8 anos.

Nos trabalhadores examinados, não houve nenhum caso de

intoxicação aguda, mesmo porque esta é rara, principalmente

quando provocada por ingestão acidental ou intensa exposição aos

vapores de Hg metálico. Esses casos acontecem principalmente em acidentes industriais, apresentando-se com sintomatologia

específica, já discutida anteriormente.

Observou-se que 77% dos trabalhadores estão localizados nos

setores de manutenção e eletrólise, áreas de maior exposição ao

Hg. A característica da exposição é diferenciada nesses setores,

mesmo sendo todos do grupo de risco I (Gráfico 1).

 

Gráfico 1 – Níveis de Hg-U apresentados pelos trabalhadores

As amostras foram coletadas no dia do exame clínico. Em cinco

trabalhadores não foi possível avaliar os índices de Hg na urina, por

problemas nas amostras. Existe um número grande de

trabalhadores (82%) com níveis de Hg-U acima do limite considerado normal, ou seja, com valores superiores a 10 ug/l,

conforme as portarias do SUDS/SP (1991) e do SUS/RJ (1993), e

acima dos níveis de Hg-U encontrados em populações não expostas

ao Hg.

O indicador biológico de exposição (Hg-U) tem variabilidade muito

grande. Normalmente, após um período de afastamento da área de

maior exposição ou da própria empresa, esses índices tendem a

baixar, não refletindo, portanto, os possíveis danos ou agravos à saúde sofridos pelos trabalhadores, o que relativiza esta discussão

e aponta para a necessidade de outros parâmetros de avaliação e

conduta em relação aos trabalhadores expostos ao Hg (Molin et al.,

1991).

No Gráfico 2, mostram-se os níveis de Hg-U em relação ao tempo

de trabalho, análise importante para evidenciarmos a distribuição do

indicador de exposição (Hg-U) nos grupos de trabalhadores com

tempos diferenciados de exposição.

Gráfico 2 – Níveis de Hg-U em relação ao tempo de trabalho

 

Em todos os períodos, evidenciamos um elevado índice de

contaminação por Hg. No entanto, para visualizarmos melhor este

gráfico, estabelecemos dois índices: 1) um de contaminação geral,

que se expressa pela razão entre o número de casos acima de 10

g/l Hg)-U e o número de casos abaixo de 10 g/l Hg-U; 2) outro de

contaminação excessiva, definida pela razão entre o número de

casos acima de 50 g/l Hg-U e o número de casos abaixo de 10 g/l

Hg-U.

Comparando os resultados nos diferentes tempos de trabalho,

verificamos que há elevação inicial até um período crítico de um a cinco anos de exposição e acentuada queda a patamares inferiores

aos apresentados pelo primeiro período, possivelmente devida a

uma menor exposição dos trabalhadores mais experientes, por

formas ou funções diferenciadas de trabalhar. Outra possibilidade que poderia estar agregada seria a queda relativa de Hg-U, a partir

de cinco anos de exposição, dever-se aos danos da função renal

ocasionada pelo Hg.

Os sintomas apresentados são os que tiveram uma maior

prevalência, conforme mostrados no Gráfico 3. Os demais sintomas

investigados não apresentaram dados relevantes. Predominaram os

sintomas atribuídos ao sistema nervoso, característicos da

intoxicação crônica por Hg, tais como diminuição da memória recente (44%), nervosismo (45%), insônia (42%), dispersão (30%),

cefaléia (36%), câimbras (30%), labilidade emocional (25%),

irritabilidade (25%), tonteira (16%), parestesias (16%). Cansaço

(40%) também foi elevado e foi relatado em vários estudos como

freqüente em casos de intoxicação mercurial. Outros sintomas,

como sialorréia (25%) e gengivite (9%), também característicos

nesses casos, foram referidos.

Gráfico 3 – Sintomas apresentados pelos trabalhadores

 

Os distúrbios visuais (40%) mencionados não tiveram uma

qualificação precisa. Quando se investigava a diminuição da acuidade visual, muitos se queixaram de problemas gerais, como a

necessidade de usar óculos. Quando associados à idade,

apresentaram-se estatisticamente significativos. Distúrbios do sono,

no caso a insônia, foram relacionados com o trabalho em turnos.

Dos 55 pacientes analisados, 9 trabalhavam em turnos, sendo que,

desses 9, um grupo de 7 referiu insônia, em um total de 25 que

apresentaram este distúrbio.

Chamou atenção a prevalência dos sintomas associados à lesão no lobo temporal, comumente relacionada com intoxicação

mercurial, como a diminuição da memória recente e distúrbios do

comportamento (nervosismo, labilidade emocional, irritabilidade),

também com alta prevalência e que podem interferir na vida pessoal

e social.

Gráfico 4 – Alterações neurológicas presentes no exame dos

trabalhadores

 

Notou-se, no exame dos trabalhadores, uma prevalência alta de

sinais neurológicos, principalmente se considerarmos que

representam nível de comprometimento mais grave, presente em

casos avançados de intoxicação mercurial. As fasciculações

ocorreram em 13 trabalhadores (24%); em 6, localizaram-se no

músculo D e E dos braços; em 4, nos músculos dos braços e

pernas; e em 3, nos músculos da perna. A força muscular diminuída apresentou-se em 9 trabalhadores (16%). Em 8, predominou nos

dedos das mãos, caracterizando-se por uma paresia leve (grau 4).

Em um trabalhador, apresentava-se diminuída na mão direita, paresia leve; porém o trabalhador referiu acidente, com a

conseqüente diminuição da força muscular na mão.

Os reflexos profundos apresentaram-se alterados em 7

trabalhadores (13%). Dois apresentaram hiperreflexia generalizada; 2, hiperreflexia do nervo patelar direito e esquerdo; 1, hiperreflexia

do nervo patelar e cubital; 1, abolido nervo tibial e nervo radial; 1,

nervo radial, cubital abolidos e hiporreflexia do nervo patelar. A

sensibilidade apresentou-se alterada em 6 trabalhadores (10%),

caracterizando-se por hipostesia leve (táctil e dolorosa) nas mãos

em 5 trabalhadores, e em 1 trabalhador nas mãos e nos pés. O

tremor apresentou-se em 1 trabalhador (2%), ao traçar uma reta.

Os testes neuropsicológicos foram aplicados em 47 trabalhadores. Os resultados apresentaram-se alterados em 44

deles. Destes, verificamos que 8 apresentaram alteração em toda a

bateria de testes; 22, em três testes; 11, em dois e 3, em um.

Restando, portanto, 3 trabalhadores sem alteração.

A correlação do quadro clínico com as variáveis, tempo de

trabalho, setor e Hg-U pelos testes estatísticos X2 e variância,

respectivamente, não se mostraram significativas. Tal resultado era

esperado, pois todos esses trabalhadores pertenciam ao mesmo grupo de risco com exposição elevada e por longo tempo. Em

relação à variável setor, quando associada ao Hg-U, a análise de

variância mostrou-se significativa, todavia quando comparada com o

quadro clínico não foi relevante.

Tal resultado também era esperado, justificando-se principalmente

pela mobilidade interna entre os setores do grupo I, em que 9

trabalhadores classificados de outros setores já estiveram ligados à

manutenção ou eletrólise. Ainda em relação ao Hg-U, quando associado ao tempo de trabalho pelo coeficiente de Spermam não

foi significativo, demonstrando, mais uma vez, sua variabilidade, já

discutida anteriormente na interpretação do Gráfico 2.

 

Trabalhadores intoxicados

 

Ao analisarmos condições do ambiente de trabalho na empresa,

assim como o processo de trabalho, confirmou-se o risco da intoxicação, presente principalmente nos setores das eletrólises e

manutenção, onde as operações realizadas, tais como operadores

de produção e mecânico de manutenção, expõem os trabalhadores

mais ainda a elevadas concentrações de Hg ambiental.

Utilizamos instrumentos que permitissem avaliar adequadamente

e de forma interdisciplinar a possibilidade ou não de a exposição

ocupacional ao mercúrio metálico provocar danos a órgãos e

sistemas do corpo humano. Com base na avaliação das condições

de saúde dos 55 trabalhadores, observaram-se resultados que

condizem com os critérios usados para definir a doença ocupacional

pelo mercúrio já verificados em outros estudos.

A possibilidade de termos número significativo de trabalhadores intoxicados comprovou-se, confirmando-se a hipótese deste estudo

e contradizendo o discurso da empresa, que afirmava não haver

trabalhadores doentes. O estabelecimento do diagnóstico da

intoxicação crônica por mercúrio, neste estudo, considerou a

avaliação da história ocupacional, clínica, psicológica e os

resultados dos testes neuropsicológicos. Com esses critérios,

observou-se que dos 55 trabalhadores examinados, 19 (35%) foram

confirmados como casos de intoxicação crônica por Hg e 26 (47%) suspeitos de intoxicação.

Pela sintomatologia presente, observamos que os agravos se

deram principalmente no sistema nervoso, interferindo diretamente

no comportamento dos trabalhadores, situados em faixas

produtivas, podendo prejudicar, conseqüentemente, a relação com

eles mesmos, com a família e com a sociedade. Ao caracterizar as

condições de saúde dos trabalhadores, deparamo-nos com a falta

de conhecimento no atendimento a eles.

Os exames admissionais e periódicos realizados pela empresa

não avaliaram, ao longo dos seus 46 anos de existência, se os

mesmos poderiam se expor ao mercúrio e/ou a possibilidade de já

estarem apresentando um quadro clínico compatível com a

intoxicação mercurial. Este é um exemplo da qualidade dos serviços

médicos gerenciados por algumas empresas e do seu ‘desserviço’ à

saúde pública: tais serviços falseiam o atendimento médico e

prestam assistência, no mínimo, desqualificada.

Não basta apenas identificar momentaneamente a situação de

saúde desses trabalhadores. Faz-se necessário o monitoramento

clínico periódico, acompanhado de monitoramento biológico e

ambiental, com o objetivo de prevenir seqüelas irreversíveis, de forma que, na presença de sinais e sintomas característicos de

intoxicação mercurial e demais substâncias neurotóxicas, eles

sejam imediatamente afastados e tenham os direitos trabalhistas

assegurados.

Acreditamos que uma das formas de se garantir efetiva

assistência aos trabalhadores expostos ocupacionalmente a

substâncias químicas e/ou ruído, poeira etc. seja a consolidação dos

centros de referência em saúde do trabalhador no município do Rio de Janeiro e nos demais municípios do estado, assim como do

serviço do Cesteh e do Ambulatório de Produção, Ambiente e

Saúde do Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva (NESC/UFRJ).

Esses núcleos devem ser capacitados não só para diagnosticar,

como também para estudar possibilidades de tratamento e realizar

pesquisas voltadas para a prevenção das intoxicações químicas,

estabelecer o nexo causal da doença com o trabalho, subsidiar

tecnicamente os programas de saúde do trabalhador sobre a doença e suas causas, contribuindo com a formação e treinamento

dos profissionais de saúde, dentro de uma perspectiva

interinstitucional, tendo em vista a efetiva consolidação do Sistema

Único de Saúde nesta área.

Associado a essa possibilidade, o controle social, através das

mais diversas entidades sociais e instituições públicas, é que

garantirá que tecnologias sujas, poluidoras do meio ambiente, como

no caso do garimpo de ouro, e geradoras de agravos à saúde nos ambientes de trabalho sejam erradicadas, de forma que a luta pela

qualidade de vida seja permanente.

 

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