Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos
12. A prevenção de DST/Aids e do uso indevido de drogas a partir da pré-adolescência: uma abordagem lúdico-afetiva
12 – A prevenção de DST/Aids e
do uso indevido de drogas a
partir da pré-adolescência: uma
abordagem lúdico-afetiva
Virgínia Schall
Vulnerabilidade e riscos na infância e
adolescência em relação às dst/aids e
à drogadição
Focalizar a infância e a adolescência, no contexto da discussão
sobre a questão dos direitos humanos e cidadania das pessoas
vivendo com o HIV/Aids e dos usuários de drogas, remete à
importância dessas fases da vida como períodos críticos nos quais
se estabelecem as atitudes e os comportamentos relativos à
sexualidade, bem como à possível aquisição de dependência de
alguma substância psicoativa. Para a maioria das pessoas, durante
o final da infância, na pré-adolescência ou adolescência, ocorre o início da vida sexual e a primeira vez que se experimenta uma
droga.
Considerando a realidade brasileira, embora haja subnotificação
nas estatísticas sobre prevalência da Aids, de outras DST e do uso
de drogas na adolescência, diversos estudos demonstram que o
início da vida sexual e a experimentação de diferentes substâncias
psicoativas pela maioria das pessoas ocorrem entre 10 e 19 anos. O
cigarro é um dos exemplos de uma dependência cujo uso é iniciado durante a infância ou adolescência, sendo, hoje, a principal causa
de doenças e incapacidades prematuras, prevista como a primeira causa de morte evitável no século XXI. Dados da Organização
Mundial de Saúde (OMS) (Roemer, 1995) revelam que a cada ano
morrem cerca de 3 milhões de pessoas em todo o mundo devido ao
tabaco. O documento prevê que essa epidemia será, nos próximos 30 a 40 anos, responsável por 10 milhões de mortes por ano, das
quais 70% ocorrerão nos países em desenvolvimento. No Brasil, um
dos raros estudos de base populacional sobre tabagismo na
adolescência foi realizado pelo Inam (Instituto Nacional de
Alimentação e Nutrição), em 1989. Na ocasião, foi encontrado um
total de 2,7 milhões fumantes, em um universo de aproximadamente
30 milhões de adolescentes entre 10 e 19 anos. Vários grupos de
pesquisa têm apontado a idade cada vez mais precoce do início do vício de fumar e o aumento da prevalência de tabagismo em
adolescentes, seja no Brasil ou no mundo. Segundo a OMS (1999),
essa tendência poderá causar 250 milhões de mortes nos próximos
anos.
Em 1996, a OMS divulgava que nove de dez fumantes acenderam
seu primeiro cigarro entre os 5 e os 19 anos No final da mesma
década, a OMS estimava que, dos cerca de 5,6 bilhões de
habitantes da Terra, havia aproximadamente 1,1 bilhão de fumantes, sendo consumidos anualmente 6 trilhões de cigarros. Os dados
mostravam que, apesar das intensas campanhas e legislação
antitabagistas, principalmente em países desenvolvidos do
Hemisfério Norte, em dez anos o consumo anual de cigarros caiu de
2.800 para 2.400 por pessoa, o que pode ser considerado um
resultado modesto se consideradas as pesadas restrições. Já nos
países em desenvolvimento, as estatísticas demonstravam
crescimento de consumo nos últimos anos (Opas, 1998). O mesmo documento informa também que o total de mortes a serem evitadas
nas Américas corresponde a 670 mil a cada ano e que, apesar dos
esforços e medidas tomadas para combater o cigarro na América
Latina e Caribe, uma terça parte dos adultos destas regiões são
fumantes, nível que corresponde ao do Canadá e é um pouco
superior ao dos Estados Unidos. Ao vício estão associadas
morbidade e mortalidade por doenças crônicas e não transmissíveis.
O documento assinala o êxito recente das políticas de luta antitabagista no Canadá, verificando-se reduções no número de fumantes em conseqüência de diversas medidas associadas, tais
como restrições na publicidade, controle de vendas a menores,
advertências sobre a saúde nos pacotes de cigarro, proibição de
fumar nos espaços fechados, aumento de impostos sobre a venda do cigarro, educação continuada nas escolas e para o público em
geral, apoio aos que desejam parar de fumar. O que se percebe é o
predomínio das restrições e o aumento de custos como medidas
limitadoras, demonstrando que, uma vez instalado o vício, parar não
é um ato voluntário e espontâneo. Isso alerta para a importância do
incentivo às políticas que possam ampliar a decisão dos jovens para
o ‘não começar’. Pois a adição à nicotina ocorre com o uso regular
de tabaco, prevendo-se que adolescentes fumantes apresentem alta probabilidade de se tornarem adultos fumantes.
Na literatura, os fatores de risco para tabagismo na adolescência
incluem: sexo e idade; nível socioeconômico; hábito de fumar entre
os pais, irmãos e amigos; rendimento escolar; trabalho remunerado
e separação dos pais. O fator de risco mais fortemente mencionado
e constatado na literatura está na associação do hábito de fumar
dos amigos e dos irmãos mais velhos ao tabagismo em
adolescentes. Assim, o início do uso na adolescência é favorecido pela pressão do grupo e pela vulnerabilidade à influência de irmãos
e colegas, associadas à insegurança e à necessidade de aceitação
típicas da idade. Nessa fase, a criança e o jovem estão buscando
modelos fora de casa, buscando se libertar da influência dos pais.
Trata-se de uma época em que muitos seguirão o padrão do grupo,
modelado por líderes, já que ainda não consolidaram um locus de
controle interno, não sendo ainda capazes de tomar decisões com
independência. Assim, a liderança e a influência de alguns colegas podem contribuir para práticas sexuais desprotegidas, bem como
para o uso indevido de drogas. O comentário de uma estudante de
15 anos que fumava dez cigarros por dia, sendo fumante desde os
11 anos, é revelador dessa pressão dos pares: “meus amigos
fumavam e eu queria entrar para a turma”. Em estudos anteriores
(Schall, 1996), um aluno, levado para a coordenação do colégio, ao
ser apanhado com um cigarro apagado na boca junto com os
demais que fumavam, expressou a sua dificuldade em recusar o uso, pois a turma ameaçava tirá-lo do grupo.
Associada a essa influência predisponente ao início do vício, há
ainda a falta de informação. Uma pesquisa americana demonstrou
que apenas 5% dos estudantes entrevistados sabiam que, ao fumar
diariamente, uma pessoa torna-se dependente após cinco anos. Todos esses aspectos aumentam a vulnerabilidade para o início do
vício, o qual, uma vez implantado, já incorpora outros aspectos,
como a própria dependência, colaborando para a sua manutenção.
Nesse caso, a sociedade de consumo, movida por interesses
econômicos, sobretudo quando se trata da trilionária indústria do
cigarro, contribui para a consolidação do hábito de fumar. Nas
décadas passadas, havia mais um fator predisponente, presente na
própria mídia. Eram numerosas as propagandas que glamourizavam o uso do cigarro, as quais, no Brasil, foram proibidas por lei. Agora,
ocorre um movimento contrário, ou seja, há anúncios e propagandas
governamentais e patrocinadas por ONGs que denunciam os riscos
e agravos à saúde causados pelo cigarro. O reflexo dessas medidas
só será melhor percebido através de análises longitudinais
posteriores. Outro fator associado ao vício é a manipulação genética
das espécies de tabaco, de modo a torná-las mais potentes, além
da adição de produtos químicos como a amônia, que favorece a liberação de maior quantidade de nicotina no organismo do fumante,
aumentando a dependência. Essa soberania do poder econômico
desconsidera a saúde da população, sendo um fenômeno
generalizado na área do comércio das drogas, observando-se a
manipulação química de praticamente todas elas, de modo a
aumentar a dependência. O uso de acetona aditivada na cocaína
tem o mesmo efeito que a amônia em relação ao tabaco.
Em relação à Aids no Brasil, de 1980 a 31 de dezembro de 2003 foram diagnosticados 310.310 casos de Aids (Brasil, 2003). A
categoria de exposição ao HIV mais significativa na faixa etária
acima de 12 anos é a via sexual (64%). Além disso, a grande
maioria dos casos de exposição sangüínea – do total de 13%,
12,9% – corresponde aos usuários de drogas injetáveis. Entre
menores de 13 anos salienta-se a transmissão via perinatal, 83,6%.
Na faixa de 15 a 24 anos foram notificados 18.271 casos, referentes
a 13,1% do total acumulado; na faixa de 25 a 39 anos o percentual sobe para 59,7%. Devido ao longo período de incubação do vírus (em torno de 8 a 10 anos), conclui-se que uma parcela significativa
da contaminação ocorre na juventude.
Além disso, apesar de as estimativas de prevalência do HIV, de
outras DST e do consumo de drogas entre os jovens serem falhas (Castilho, Chequer & Struchiner, 1994), dados de Gupta e Leite
(1999) relativos à gravidez entre mães brasileiras com menos de 19
anos revelam que houve aumento de 12% para 19% de 1986 para
1996, denotando práticas sexuais desprotegidas.
Dados do Sinasc (Sistema Nacional de Informações sobre
Nascidos Vivos) revelam, em números absolutos, que o total de
crianças nascidas em Minas Gerais em 1996 é 2,85 vezes o total de
nascidos em 1994. Quando se considera a faixa etária de mães entre 10 a 19 anos, o número cresceu 3,29, ou seja, em proporção
superior à média geral. Isso representa um total de 9.292 de
nascidos em 1994, que cresce para 30.579 em 1996. Considerando
o município de Belo Horizonte, a tendência de crescimento é
contínua, passando-se de 14,6% em 1994 para 21,0% em 1999, ou
seja, um aumento de 6% no período de 5 anos (Sinasc). Os
percentuais se assemelham aos do Rio de Janeiro, onde, em 1994,
17% das crianças nascidas vivas eram filhas de mães entre 12 e 19 anos, totalizando 15.697 bebês. Dessas mães, cerca de 60 % eram
analfabetas ou tinham o 1º grau incompleto, reforçando a
associação da vulnerabilidade comportamental relacionada às
práticas sexuais, sobretudo do gênero feminino, a aspectos sociais,
ou seja, menor acesso à escola, a informações e condições de uso
de recursos contraceptivos.
O tratamento dado a crianças e
adolescentes na família e na escola:
uma prática de equívocos,
discriminação e desigualdades
Ao considerar o início da drogadição e das práticas sexuais de risco na infância e adolescência, é preciso atentar para o modo como as famílias e a escola vêm tratando suas crianças e jovens
atualmente, recuperando os aspectos históricos, culturais,
econômicos e políticos que caracterizam essa situação. Na
sociedade ocidental, é muito recente a compreensão da infância e da adolescência como períodos específicos da vida que merecem
uma atenção diferenciada. Em seu estudo sobre a história das
mentalidades, Ariès (1981) assinala o anonimato a que é relegada a
criança até fins do século XVII na Europa, considerada e tratada até
aquela época como um adulto em miniatura, bem como a influência
religiosa no processo de escolarização a que ela é submetida a
partir daquele período. Por sua vez, Costa (1979) atesta um
processo semelhante no Brasil, onde a infância era ignorada no seio da família colonial. Somente no século XIX, sob a influência da
medicina e da mentalidade higienista, orientada pela medicina
social, advém uma nova organização das famílias e dos colégios,
em que a afetividade da criança, antes ignorada, se torna
aprisionada sob exigências sanitaristas. Segundo o autor,
A partir da terceira década do século passado, a família começou a ser
incisivamente definida como incapaz de proteger a vida de crianças e
adultos. Valendo-se dos altos índices de mortalidade infantil e das precárias
condições de saúde dos adultos, a higiene conseguiu impor à família uma
educação física, moral, intelectual e sexual, inspirada nos preceitos
sanitários da época. Esta educação, dirigida sobretudo às crianças, deveria
revolucionar os costumes familiares. Por seu intermédio, os indivíduos
aprenderiam a cultivar o gosto pela saúde, exterminando, assim, a desordem
higiênica dos velhos hábitos coloniais. (Costa, 1979:12)
Constatação semelhante é feita por Muricy (1988:18), ao analisar
a obra de Machado de Assis, na qual se revela a ambivalência do discurso médico, “ligado a uma ideologia cientista e liberal européia,
mas comprometida politicamente com os valores e com a realidade
patriarcais”. Uma medicina que está a serviço da sociedade
capitalista nascente e da eficácia política do poder estatal, forjando
um novo tipo de indivíduo e de população e demonstrando que, no
social, tudo diz respeito à saúde, e está sob o controle da ação
médica. Sintetizando, Muricy (1988:27-28) acrescenta:
A medicina ocupará, nessa racionalidade, o papel de ‘Vanguarda da
civilização’, reclamado em numerosas teses médicas do século. A
identificação de seus objetivos com os de um projeto mais amplo de
racionalização da ordem social fará dela a pedagogia apropriada para a
construção do cidadão, isto é, o indivíduo liberto da confusão social a que os
instintos e a ignorância o condenavam, vivendo em harmonia com os outros
cidadãos, regidos pelas normas do bem comum. (grifos da autora)
Como enfatiza Muricy, a política higienista não se restringiu à
transformação dos hábitos sanitários da família, mas, articulada a
outras instâncias sociais, alterou o modelo patriarcal de organização
familiar, orientando o modelo atual, nuclear e conjugal. Isso afetou
de modo substancial as manifestações afetivas entre pais e filhos, redimensionando o papel da criança na família.
Segundo Costa (1979), a imagem da criança frágil, que exige o
desvelo absoluto dos pais, é recente. Na família colonial, a criança
era ignorada ou subestimada, privada do tipo de afeição que,
modernamente, é reconhecida como indispensável ao seu
desenvolvimento físico e emocional. No seio de tal família, a criança
era relegada a uma espécie de limbo cultural, submetida à
autoridade paterna que monopolizava toda a família, e assim permanecia até a puberdade. Nesse ambiente, ela era submetida
por vezes a castigos físicos brutais, como espancamentos,
palmatórias, cipós, varas de marmelo, que confirmavam a
prepotência paterna, e só lhe restava a obediência para escapar da
punição.
Por sua vez, os higienistas, diante do alto índice de mortalidade
infantil e do descaso com a infância, instauram a nova ‘pedagogia
higiênica’, criando uma nova organização doméstica, em que a dissimetria do poder paterno fosse contrabalançado e a criança, tida
como entidade físico-moral amorfa, pudesse ser educada para se
tornar um adulto adequado à ordem médica. Assim, no século XIX,
a família passa a ser considerada nefasta aos filhos e estes devem
ser protegidos da má influência dos pais nos colégios internos, onde
ficam expostos a uma educação rígida, destinada a formar hábitos
físicos e morais, ou seja, a moldá-los. A educação era, então,
sinônimo de disciplina e domesticação. Tal apropriação médica da infância fez-se à revelia dos pais, tendo seu apogeu nas teses sobre alienação mental, em que a idéia da nocividade familiar era
defendida. Assim, reduzida à condição de fator patogênico, a família
estava sob intervenção médica, a qual regulava a vida e a saúde
infantil, prescrevendo a boa norma do comportamento familiar. Como conclui Costa (1979:173), “na família higiênica, pais e filhos
vão aprender a conservar a vida para colocá-la a serviço da Nação”.
Se os filhos das elites foram submetidos a uma educação
higiênica para disciplinar o espírito, reprimir e domar suas más
inclinações, inculcar bons hábitos desde bem cedo, quando ainda a
alma era dócil e o corpo tenro e flexível, de modo a formar o adulto
adequado à ordem médica, como o queria o Estado (Costa, 1979),
as crianças das classes desfavorecidas, sobretudo os filhos dos escravos, mantiveram-se à margem da escola. Às crianças pobres
só restava o ensino profissionalizante ou a aprendizagem de um
ofício ao entrarem na puberdade, realizado, na prática, no próprio
estabelecimento das diversas categorias profissionais, onde não
estavam livres de serem explorados e maltratados.
Assim, seja na escola ou fora dela, os reflexos dos interesses das
classes dominantes e, por conseguinte, do Estado influem no
tratamento dado à criança e ao adolescente e no tipo de educação a eles oferecido, como se demonstra nas diversas análises na
perspectiva da sociologia, as quais têm encaminhado importantes
reflexões sobre esta questão no Brasil. Tais análises permitem
evidenciar que a escola tem sido um privilégio para poucos e que
não buscou aperfeiçoar suas metodologias para o adequado
atendimento às crianças oriundas de famílias de baixa renda,
submetidas ao fracasso escolar intensamente denunciado e
estudado nas últimas décadas. E mesmo para quem a escola esteve e está disponível, em sua prática não têm sido contempladas
as questões afetivas, pois nela prioriza-se a aprendizagem de
habilidades e conhecimentos pouco úteis à vida; a escola, assim,
deixa a dever como espaço de constituição da identidade e da
cidadania (Schall, 1996).
Muitos são os estudos que demonstram o desrespeito, o descaso
e a violência que atingem crianças ainda hoje, bem como a
permanência dos preconceitos, do individualismo e do egoísmo preconizados pela sociedade capitalista e reproduzidos no interior da escola e da família. Em relação às questões ligadas a sexo e
drogas na infância, a falta de diálogo se justifica pela exclusão de
assuntos que nem a família, nem a escola acham apropriados para
as crianças; essa área temática é reservada aos adultos, perpetuando-se uma certa moralidade tradicional pouco construtiva
e nada preventiva, que prejudica a formação de conceitos e atitudes
na infância.
Considerando a informação sobre aspectos da sexualidade para
crianças, as famílias e, principalmente, as mães que participam mais
ativamente da educação dos filhos acreditavam, até algumas
décadas atrás, que só se devia falar de tais assuntos quando a
criança já tivesse entre 10 e 14 anos, como revelam Barroso e Bruschini (1979). Muitas mães, sobretudo as de baixa renda,
revelaram ficar envergonhadas para tratar desses assuntos, o que
contribui para a repressão da sexualidade infantil.
Essa repressão tem origens sociais bem remotas, como afirmam
os autores, considerando modelos sociais anteriores, como a
aristocracia e o campesinato dos séculos XVI e XVII, da classe
trabalhadora do início da Revolução Industrial e da burguesia no
século XIX. Até nossos dias, ainda há reflexos da estrutura emocional da família burguesa, na qual a criança precisava
renunciar ao prazer do corpo em troca da afeição dos pais (Barroso
& Bruschini, 1979). Entretanto, já se registram avanços nesse
aspecto, sobretudo diante da ameaça da Aids. Com o advento
dessa doença, a própria sociedade e o poder político que,
ideologicamente, reprimiram a sexualidade no seio da família
privatizada pelo modelo social buscam agora alternativas
pedagógicas para abordar o problema, observando-se a possibilidade de maior comunicação pressionada por uma ameaça à
saúde e à vida.
Apesar das pressões e de múltiplos esforços atuais, a escola
ainda não se preparou para enfrentar o desafio de alcançar uma
educação integral, na qual a sexualidade seja abordada,
associando-se cognição e afeto de modo a conduzir à formação do
cidadão. A despeito dos avanços teóricos da psicologia e da
pedagogia, a prática educativa ainda se caracteriza pela ênfase na transmissão de conteúdos nem sempre úteis à vida do aluno. Todavia, em sala de aula, para além das disciplinas trabalhadas, há
um outro contexto em movimento, caracterizado por uma trama de
relações e conflitos ocultos ao atarefado mestre, em que muitas
crianças são alvo de preconceitos, rejeição etc., os quais podem favorecer um relacionamento humano pouco construtivo, a violência,
a alienação, o uso indevido de drogas. Se a cena observada é o
pátio, nos intervalos das aulas, as relações se agravam, deixando
de ser apenas sugestões de olhares, palavras sussurradas entre os
dentes ou arremesso de pequenos objetos e bilhetes ofensivos. Aí a
violência física e a segregação se explicitam com maior força e as
relações de poder e submissão nada ficam a dever ao mundo adulto
(Schall, 1996).
É nesse contexto que se inicia a vida amorosa das crianças e
adolescentes, bem como se experimentam as primeiras drogas. Em
lugar de lidar positivamente com a informação, a escola reprime de
forma quase policial e com um autoritarismo que incita ao desafio e
à desobediência por parte dos jovens. Essa tendência não está
restrita aos países do Terceiro Mundo. Autores americanos, como
Ausubel, Novak e Hanesian (1980), citam estudos realizados desde
a década de 40, demonstrando o autoritarismo e agressividade ainda predominantes nas escolas. O mesmo é descrito por
pesquisadores europeus, entre os quais Dolto (1988), que adverte
para “a miséria das crianças das cidades”, submetidas ainda a
tratamentos autocráticos, seja na família seja nas escolas,
estimuladas a reações emocionalmente negativas, a ressentimentos
e à violência. Tal tendência continua presente hoje em dia,
repercutindo entre as próprias crianças, como denunciado
cotidianamente pela imprensa. Como exemplo, está a declaração do professor Carlos Neto, da Faculdade de Motricidade Humana da
Universidade Técnica de Lisboa:
a taxa de agressividade entre crianças no meio escolar é muito elevada. A
violência é verbal, física, de chantagem psicológica. As percentagens são tão
altas que essa violência é extrapolada para o meio social. A vida numa
escola européia é em clima de terror.1
A violência tem chegado a pontos tão extremos que tem motivado
assassinatos coletivos em escolas, envolvendo e atingindo jovens e crianças, a exemplo do acontecido em 1998 e amplamente
registrado nos Estados Unidos, quando dois jovens do Colégio
Columbine, em Litleton, Colorado, mataram 12 colegas e um
professor, suicidando-se em seguida. Esse acontecimento tem espalhado um certo pânico nos EUA, onde outras ameaças têm sido
registradas em diversos colégios de vários estados. As perguntas
são inúmeras, as hipóteses proliferam. Questões familiares,
influência da televisão e dos video games são os mais
mencionados. No caso do assassinato do Colorado, os jovens eram
fanáticos por dois dos mais violentos jogos de computador, o Doom
e o Quake. Essa influência dos meios de entretenimento foi
analisada com propriedade pela filósofa americana Sissela Bok em seu livro Mayhem: violence as public entertainment (1998). A autora
alerta para os efeitos de recursos que podem gerar uma certa
dessensibilização, ou seja, indiferença ao sofrimento alheio,
banalizando a violência.
Paralelamente a essas análises, é preciso considerar a escola,
esse campo de socialização em que as crianças hoje permanecem,
por vezes, mais tempo do que no lar, em que conhecimentos e
valores vão sendo reforçados e constituídos, as atitudes se moldam e as decisões sobre o futuro do homem vão se delineando. É
também o cenário onde as crianças e jovens encontram seus pares,
ensaiando a vida amorosa e experimentando as primeiras drogas.
Neste ponto observa-se que a educação tem falhado
sistematicamente, não contemplando os aspectos afetivos no
processo de construção do conhecimento, centrado quase
exclusivamente nos aspectos cognitivos, priorizando o acúmulo de
saber, a memorização, sem a necessária contextualização e envolvimento pessoal do indivíduo. Em relação à educação em
saúde, as práticas exercidas estão sob o controle de modelos
ultrapassados, ainda predominando as explicações biológicas, a
ênfase na higiene física e a tentativa autocrática de impor mudanças
de comportamento, em geral, malsucedidas.
Além disso, ao se pensar a educação em saúde, um ponto crucial
a ser destacado está nos limites do conhecimento para gerar
mudança de comportamento. Aqui está o grande desafio da tarefa educativa. Como afirma Rosenstock (1990), o conhecimento é importante, às vezes essencial, para a mudança de comportamento,
embora raramente suficiente. Para assumir a atitude de deixar de
fumar, não basta saber que o cigarro predispõe ao câncer, que
diminui a expectativa de vida. Existe um hiato entre a aquisição do saber e a mudança de comportamento ou a aquisição de novos
padrões de ação. É no desconhecido mundo dos motivos que levam
as pessoas a se comportar de uma maneira e não de outra que se
movem a saúde e a doença, a felicidade e a infelicidade, o sucesso
e o fracasso, entre outros fenômenos. A mera aquisição de saber
não é suficiente para engendrar atitudes e ações, em cuja esfera se
encontra de fato o objetivo da iniciativa educacional, principalmente
na área da saúde, o que requer investimentos em experimentação de metodologias renovadoras que incluam as emoções e o
relacionamento humano.
Fatores predisponentes ao uso de
drogas e a práticas sexuais
desprotegidas na adolescência
Experimentar drogas e álcool pode ser um rito de passagem para
os adolescentes, mas essa primeira prova pode ter resultados
prolongados para alguns. Goleman (1995) cita estudos americanos
nos quais se demonstra que, para a maioria dos alcoólatras e
drogaditos, o início do vício se deu na adolescência. Segundo o autor, dos 90% dos alunos que experimentaram álcool na escola
secundária, cerca de 14% eventualmente se tornaram alcoólatras.
Dos milhares de americanos que experimentaram cocaína, apenas
cerca de 5% se tornaram adictos). Goleman se pergunta sobre os
fatores que podem contribuir para que o indivíduo venha ou não a
se tornar um dependente. Aponta fatores sociais de facilitação,
como morar na vizinhança de locais em que a droga é traficada e
em que o modelo de sucesso econômico são os envolvidos no tráfico da droga, ou fazer parte de culturas em que o uso da droga é
glamourizado, como, antes, no caso do cigarro.
Muitos estudos sociológicos demonstram a associação da história
da droga com a história da economia capitalista, considerando o
problema da drogadição, em parte, como resultante das
contradições do atual modelo de relações sociais de produção (Baratta, 1995). Ainda assim, como alerta Goleman (1995), mesmo
que sob tais pressões, alguns apenas experimentarão e outros
desenvolverão a dependência. O autor cita como uma hipótese
científica hoje bastante apoiada a evidência de que aqueles que
adquirem o hábito o fazem por usarem a droga como uma
substância para acalmar sentimentos como ansiedade, angústia ou
depressão. Cita um estudo em que, entre estudantes
acompanhados durante dois anos, aqueles que descreviam níveis mais elevados de estresse emocional foram os que se tornaram
dependentes. Esse pode ser o fator fundamental responsável pela
diferença entre os que experimentam e não se viciam e os demais
que se tornam dependentes. Estes últimos seriam aqueles que
encontram na droga um alívio instantâneo para sofrimentos
emocionais que os perturbavam por anos.
No caso do álcool, alguns estudos apontam uma predisposição
genética para o seu uso, como é o caso de filhos de alcoólatras, em que se demonstrou terem baixos níveis de Gaba, um
neurotransmissor que regula a ansiedade. Assim, ao beberem,
experimentam aumento do nível de Gaba e relaxamento da tensão.
Tais pessoas estão mais vulneráveis ao uso abusivo de sedativos e
álcool pela sensação de redução da ansiedade. Vários estudos têm
demonstrado que o uso abusivo do álcool está associado a uma
“automedicação para sintomas de ansiedade” (Goleman, 1995:254).
O alcoolismo também foi associado a alto nível de agitação, impulsividade e tédio, pois o álcool nesses casos pode modificar tais
estados, gerando maior sensação temporária de bem-estar. Muitos
dos alcoólatras afirmam: “no momento em que eu experimentei
minha primeira droga, eu me senti normal pela primeira vez”. O
álcool ou a droga estabilizam essas pessoas psicologicamente,
embora por curto prazo, e as leva a usar, além do álcool, uma lista
de outras drogas, à procura de melhores sensações. Como afirma
Goleman (1995: 255), a droga provoca “uma sensação prazerosa de curta duração em troca de toda uma vida submetida ao controle do
vício”.
Assim como a ansiedade predispõe ao álcool, a depressão, ou o
sentimento contínuo de infelicidade, predispõe à cocaína. O ideal é que, desde a infância, pessoas com predisposição para tais
sentimentos possam desenvolver a capacidade de lidar com elas,
conhecendo-se melhor e aprendendo a buscar outras alternativas,
antes da experimentação da droga, sabendo do risco que correm.
Como afirma Goleman, a última década foi marcada por
campanhas caracterizadas como ‘guerras’ à gravidez, às drogas e à
violência na adolescência. Essa intervenção é comparada pelo autor
à resolução emergencial de um problema em lugar da abordagem preventiva. Além disso, como assinala Baratta (1995:29), estudos
sociológicos têm demonstrado que os primeiros contatos dos jovens
consumidores de drogas com a polícia acaba por conduzi-los à
“carreira de adictos”. O que se faz necessário é oferecer às crianças
um clima de maior confiança nos relacionamentos e a possibilidade
de desenvolver habilidades para saber lidar com os desafios da vida
e assim ter chances de evitar tais caminhos. Entre essas
habilidades, como sugere Goleman (1995), estão: autoestima, autoconfiança, otimismo, persistência diante de fracassos ou
frustrações, capacidade de recobrar-se rapidamente de problemas
acidentais, de saber recorrer aos outros, de ser solidário. Embora
estejamos cônscios do que é necessário, alcançar tais metas não é
um processo simples, requerendo muito esforço por parte de
professores, pesquisadores, terapeutas e familiares para criar
alternativas bem-sucedidas de desenvolvimento dessas habilidades.
A par das análises socioculturais que apontam as causas estruturais associadas à maior prevalência das drogas e DST entre
jovens de menor poder aquisitivo e entre aqueles que vivem em
áreas controladas pelo tráfico, os fatores psicológicos associados à
pressão do grupo na adolescência se revelam cruciais para a
vulnerabilidade ao vício. Assim, as estratégias
informativoeducativas, sobretudo no âmbito escolar, onde há maior
chance de encontrar a maioria dos pré-adolescentes e
adolescentes, devem superar as metodologias centradas no estereótipo negativo das drogas e suas conseqüências, sobretudo
do ponto de vista da criminalização. Como aponta Baratta (1995:35):
a falta de diferenciação entre drogas leves e pesadas na programação das
ações pedagógicas, a confusão entre consumo e a adição e a degeneração
física e psíquica do consumidor podem dar origem, quando dirigidas a um
público juvenil com experiências diferentes do conteúdo programático das
ações pedagógicas, aos chamados efeitos bumerangue. Uma vez que estes
efeitos são produzidos no destinatário, dão origem a uma atitude de recusa
da mensagem pedagógica e da autoridade que a emite. (grifo da autora)
Além da recusa à informação, as campanhas orientadas por uma política de criminalização apresentam, em geral, alto percentual de
inexatidões e erros. Segundo Baratta (1995), dados do National
Council on Drug Education demonstraram que 84% de uma amostra
de 220 filmes informativos sobre consumo de drogas apresentavam
erros científicos e abordagens psicológicas inadequadas.
Se, tanto em relação às drogas quanto às práticas sexuais, mudar
o comportamento é um desafio com alto grau de insucesso, é
urgente ampliar a ação educativa antes do início da vida sexual e da experimentação da droga. Trata-se da prevenção prévia ao
‘momento crítico’ que caracteriza a época da primeira relação ou da
primeira vez que se usa uma droga. É preciso capacitar a criança e
o jovem para saber negociar com segurança o ‘não’ ao uso abusivo
de drogas e ao sexo desprotegido, sem que por isso ela tenha que
pagar o alto preço de perder a turma ou o namorado. Em relação à
sexualidade, o não, na maioria das vezes, tem ficado sob a
responsabilidade da mulher, para quem há o risco da gravidez, além das doenças sexualmente transmissíveis. Em relação às drogas,
sobretudo o fumo e o álcool, a negociação do não predomina entre
meninos, já que a pressão do grupo é maior neste caso para o
gênero masculino, embora cada vez mais presente na realidade
feminina.
Dados de estudos anteriores (Schall, 1996) quanto a aspectos
relativos a identidade e gênero permitem apontar como uma
tendência geral o fato de as meninas serem mais autocríticas, demonstrarem auto-estima mais baixa e revelarem insegurança e
conflitos no relacionamento com as colegas, sugerindo um jogo de poder oculto e sutil, em que muitas delas se submetem às
imposições das outras. Essa passividade e submissão das meninas
potencializa o que já ocorre para todos os indivíduos socializados,
que já sofrem carecimentos impostos pela ordem social, que por si só induzem “à submissão e à interiorização de instâncias
repressivas”, como argumenta Reich, citado por Micela (1982:120).
Para Reich, a ideologia autoritária e os valores repressivos têm
sua origem na família, a qual reproduz no nível psíquico profundo as
condições estruturais para a manutenção dessa situação. Se a
ideologia autoritária e a repressão se reproduzem na família, no
caso das meninas supõe-se uma apropriação social da expressão
afetiva específica do gênero feminino, cuja docilidade, cordialidade e preocupação com o bem-estar do outro foram apropriadas
historicamente pelo gênero masculino, ficando as mulheres
submetidas à sua autoridade e controle.
O que se observa na história da humanidade é que o processo
social tem sido opressivo em relação às mulheres, o que só muito
recentemente vem sendo questionado. Como assinala Gilligan
(1982), é apenas no século XX que se observa a legitimação de
muitos dos direitos que as primeiras feministas buscaram, tais como o controle da natalidade, o direito ao prazer e à participação política
efetiva, entre outros. Entretanto, como comenta a autora, a mulher
ainda vive um conflito entre a questão moral da bondade (em que a
virtude consiste em auto-sacrifício) e as questões adultas de
responsabilidade e escolha. Gilligan cita casos que ilustram as
dificuldades atuais de várias mulheres para alcançar um senso de
justiça que considere moral cuidar não só de outros, mas de si
mesmas. Segundo a autora, o silêncio e a omissão das mulheres, orientadas por uma ética do cuidado baseada na não-violência e na
idéia de que não devem prejudicar ninguém, podem acabar por
prejudicar a elas próprias. O cuidado com o outro, a importância dos
relacionamentos aparecem como cruciais para as mulheres, a ponto
de que “a ameaça de perda de uma associação seja percebida não
precisamente como uma perda de um relacionamento mas como
algo próximo de uma total perda do eu” (Miller apud Gilligan,
1982:181). Assim, sendo os relacionamentos essenciais para as mulheres, estes representam mais um elemento de conflito na vida feminina, retratando a dificuldade de convívio entre elas próprias e a
subordinação a jogos de poder a que socialmente são
arremessadas desde a infância. Nesse ponto, apesar de sua
crescente afirmação na sociedade, muitas ainda se submetem ao desejo masculino e cedem seus corpos sem proteção, sendo
incapazes, por exemplo, de requerer o uso do preservativo, se isso
gerar reação no parceiro. O temor de ser considerada “menina de
programa” ou de provocar a desconfiança quanto à sua fidelidade,
apenas por ter na bolsa uma camisinha ou exigir o seu uso, a faz
ceder aos desejos do parceiro, ainda que isso represente riscos de
gravidez ou de doenças.
No mundo adulto persiste ainda o que Piaget (1993) chama de “paradoxo do egocentrismo”, constituído pela falta de compreensão
mútua entre homens e mulheres que os leva a um respeito baseado
em regras combinadas em que cada um joga mais ou menos como
lhe agrada, sem prestar atenção ao vizinho. Por isso, é preciso
considerar como se estabelecem as relações na infância, pois cada
gênero difere no modo de perceber e resolver seus conflitos, os
quais ainda não são adequadamente considerados pela escola
(Schall, 1996). A tendência feminina, travada por jogos sutis ou ocultos, sequer é percebida pela escola. Já a tendência masculina
de resolver conflitos com agressão é reprimida de modo também
agressivo com o uso de recursos quase policiais, como repreensões
públicas, castigos e expulsões, geralmente orientados pelos
inspetores, personagens autoritários de controle da ‘disciplina’.
Assim, o que se percebe é que tanto a escola quanto a sociedade
ainda se encontram distantes dos ideais de respeito mútuo,
cooperação e responsabilidade nos relacionamentos, os quais deveriam ser enfatizados pela educação desde a mais tenra
infância, época frutífera para que tais valores e atitudes se
desenvolvam.
Estratégias educativas de longo prazo, iniciadas desde a pré-
escola, e outras emergenciais, ambas orientadas por aspectos
positivos da prevenção, como o estímulo ao desenvolvimento da
auto-estima, do respeito, da responsabilidade, informando sobre as
alternativas disponíveis, discutindo papéis e opções através de dramatizações, histórias de vida, debate de vídeos etc. são alguns dos recursos sugeridos por Goleman (1995). Tais estratégias vêm
sendo experimentadas pela equipe de pesquisa do Laboratório de
Educação em Ambiente e Saúde (LEAS), do Departamento de
Biologia/IOC, Fiocruz, Rio de Janeiro, desde 1983, e pelo Laboratório de Educação em Saúde (Labes) do Centro de
Pesquisas René Rachou (CPqRR/Fiocruz), em Belo Horizonte,
desde 1998, como descrito a seguir.
O enfoque preventivo desenvolvido
na Fiocruz (Leas/Ioc-Labes-Cpqrr):
bases teóricas
A opção dos grupos de pesquisa dos laboratórios da Fundação
Oswaldo Cruz (LEAS – Labes) pelos segmentos da população
infantil e adolescente está baseada na possibilidade de desenvolver
pesquisas que possam contribuir para a promoção da saúde e desenvolver materiais e estratégias que favoreçam a prevenção de
doenças dentro de uma perspectiva global. Busca-se, assim,
estimular o desenvolvimento da auto-estima, do respeito pela
própria vida e pela dos outros e zelar pelo equilíbrio do planeta,
assumindo um comprometimento com melhores condições de
existência. Para tal, é importante compreender como as crianças
constroem os significados sobre saúde no contexto, em interação
com aspectos singulares próprios de cada uma, como o grau de auto-estima, as experiências anteriores e os relacionamentos na
família e na escola. Nesse sentido, alguns teóricos foram essenciais
para fundamentar as práticas educativas e o desenvolvimento de
novos materiais educativos no Leas.
A perspectiva apresentada por Vygotsky (1991, 1993) é bastante
enriquecedora ao discutir as características dos diferentes
processos de constituição da linguagem e dos conceitos, como o
“pensamento por complexos”, os “conceitos potenciais” ou pseudoconceitos, até os conceitos propriamente ditos.
Vygotsky ressalta que as funções intelectuais superiores,
caracterizadas pela consciência reflexiva e pelo controle deliberado,
se destacam no início da idade escolar como importantes no
processo de desenvolvimento. Assim, a escola, ao induzir um tipo de percepção generalizante, ao trabalhar os conceitos científicos a
partir das noções espontâneas trazidas pelas crianças, tem “um
papel decisivo na conscientização dos seus próprios processos
mentais” (Vygotsky, 1993:79). A escola, ao invés de se limitar às
exigências fixadas pela hierarquia da idade mental, deve buscar
apreender as possibilidades das crianças, considerando os
processos de cooperação, evidenciando a zona de seu
desenvolvimento proximal, acreditando que a aprendizagem pode caminhar à frente do próprio desenvolvimento, que deve se orientar
para o futuro, estimulando as funções a serem adquiridas, como
recomenda Vygotsky.
Também a psicanálise, ao estabelecer as características do
desenvolvimento psíquico em relação às pulsões sexuais, oferece
subsídios importantes à educação infantil e juvenil, sobretudo
quanto à fase de latência, período em que se encontra parte das
crianças e jovens vulneráveis à experimentação das drogas. Nessa fase, embora a excitação libidinal não seja interrompida, a energia
dela é deslocada para os sentimentos sociais e para mecanismos
de repressão à sexualidade, dando lugar à sublimação, processo
que desvia os impulsos instintivos para novos objetivos, já que a
consciência moral, a vergonha e o pudor condenam os impulsos
internos e estímulos excitantes do mundo exterior. A sexualidade
recalcada dá lugar a outros interesses, como as atividades sociais e
grupais, especialmente as tarefas escolares, o interesse pelos livros e pelo conhecimento, as brincadeiras e os jogos.
Nesse período, a escola tem um papel relevante, como destaca a
psicanalista Teresa Ferreira (1993:3):
Todo o período de latência vai reforçar a identidade sexual através de novas
experiências relacionais, novos tipos de conflitualidade-confronto com
professores-pais, colegas-irmãos, numa seqüência que deve confirmar a
criança no poder do seu próprio sexo, nas escolhas afetivas e na capacidade
de pensar.
Além disso, através das transformações pelas quais passa a
criança, ela vai construindo novas defesas para manter a
estabilidade interna, durante o processo de formação do “ideal de
ego”, em interação dinâmica com o ego e o superego, o qual representa um ideal de si a ser atingido, não dependendo mais só
dos pais, requerendo modelos externos, novos ídolos, alguns dos
quais estarão na escola, ambiente muito presente na vida da criança
além da família. Assim, a escola deve estar atenta a tais aspectos,
de modo a não se tornar fonte de conflitos para a criança. Como
esclarece Ferreira (1993:12):
O esforço do ego consiste agora em conciliar diferentes investimentos
objetais sem grande conflitualidade interna – pais, professores, irmãos,
amigos, modelos, líderes não podem ser antagônicos a ponto de romperem
com o equilíbrio, a continuidade do seu ser e a estabilidade incipiente do
sentimento de auto-estima.
O sentimento de auto-estima é um dos aspectos abordados na perspectiva preventiva desenvolvida, já que tem relação direta com
o cuidado com o corpo e a manutenção da saúde. Outros aspectos
relativos à fase de latência, como a identificação de crianças da
mesma faixa etária pelos seus pares (em oposição ao grupo
familiar), as fantasias e desejos internos ameaçadores, revelam-se
importantes quando se levam em conta as relações e afetos
evocados na e pela escola.
Considera-se ainda a contribuição de Piaget (1978, 1988, 1993) crucial para a compreensão dos aspectos afetivos envolvidos nos
momentos do desenvolvimento moral. Por exemplo, na fase
heterônoma, em que predomina o nível emocional, a criança age
por medo ou por afeto às figuras de autoridade, sendo o dever um
imperativo imposto. Essa assimetria na relação com o adulto pode
ser reforçada ou enfraquecida na relação do aluno com os mestres
de modo a se encaminhar para a autonomia, em que predomina
uma relação de cooperação, na qual as regras são entendidas e podem ser discutidas. A escola, então, pode colaborar para
estimular as relações cooperativas, de modo que a criança se torne
capaz de operar junto com os seus pares para alcançar fins
positivos.
Assim, ao focalizar, seja em questões específicas, como DST/Aids
ou uso de drogas, ou em questões gerais de saúde e doença na
escola, as práticas pedagógicas devem priorizar um processo
dialógico, do modo como propõe Bakhtin (1985). A relação dialógica favorece uma ampliação de significados, os quais podem evoluir, de
modo a alcançar um sentido complexo que ultrapasse a associação
com aspectos do corpo biológico e alcance o bem-estar social e
afetivo, o respeito e a cooperação nas relações humanas e a
responsabilidade pela preservação do ambiente, superando as
noções restritas e circunscritas à realidade imediata, sem contudo
estar dela alienada. É importante que as idéias e conceitos
científicos não sejam apenas memorizados, restringindo-se a meras definições esquemáticas, mas que impliquem significados de saúde
entrelaçados por diversos outros sentidos, impregnados de
orientações positivas advindas das experiências concretas e
pessoais, tecidas no cotidiano, mesclando idéias espontâneas e não
espontâneas, cimentadas por uma perspectiva cognitivo-afetiva.
Como verificado em estudos anteriores (Schall et al., 1987a,
1987b; Schall, 1996), em relação à saúde, as crianças relataram
noções e conceitos espontâneos relacionados à sua vida cotidiana, privilegiando aspectos de sua experiência imediata e aspectos
afetivos, associados à auto-estima e às relações familiares. A
escola, ao trabalhar os conceitos científicos, deve valorizar os
significados preexistentes trazidos pelos alunos, facilitando uma
intermediação nova de sentido para tais palavras, contribuindo
significativamente para o desenvolvimento de um conceito amplo,
que possibilite a conscientização do valor do estado de bem-estar,
que considere a valorização da vida, das relações com os outros e com o ambiente.
Contudo, a escola tem, tradicionalmente, enfatizado a construção
de conceitos científicos, sem trabalhar as idéias trazidas pela
criança, assumindo um discurso monológico, promovendo a
generalização de idéias padronizadas, memorizadas sem reflexão
crítica, e desconsiderando os sentidos afetivos, quando poderia
integrá-los. Esse predomínio cognitivo, caracterizado por idéias
massificadas, absorvidas sem questionamentos, pode estar colaborando para o que Guattari chama de “laminagem da subjetividade”, que precisa urgentemente ser substituída por um
processo de re-singularização, para o qual a escola pode contribuir
e através do qual “os indivíduos, a um só tempo solidários e cada
vez mais diferentes, possibilitem uma catálise da retomada de confiança da humanidade em si mesma” (Guattari, 1990:35-36).
Considerando os pressupostos teóricos abordados, bem como as
pesquisas realizadas, Schall (1996) propôs uma estratégia orientada
para criar situações pedagógicas que estimulem o desenvolvimento
de um maior grau de “singularidade afetiva”. 2 O termo significa
maior compreensão das próprias disposições afetivas, das próprias
tendências e limites, que permita obter maior autoconhecimento e
construir uma atitude reflexiva e responsável diante das decisões ao
longo da vida. Buscar a própria singularidade no sentido atribuído
por Guattari (1990), pela qual a pessoa, ao afirmar a própria
diferença, ao mesmo tempo percebe e respeita a diferença do outro, sendo solidário com ele.
Através de um processo pedagógico planejado e contínuo na
escola (sem esgotar-se nela, certamente), viabilizado pela literatura
infantil, entre outros métodos e recursos lúdicos, como ponto de
partida para inúmeras atividades práticas, a criança poderá ter
oportunidade não apenas de construir conceitos científicos, mas
também de refletir sobre a própria vida e valorizá-la. O trabalho com
a literatura permite discutir e construir noções de respeito por si, pelo outro e pelo ambiente, facilitado pelo exercício de colocar-se no
lugar do personagem, através da identificação e troca de papéis que
as histórias propiciam. Assim, ele favorece reflexões imprescindíveis
para o desenvolvimento da ‘responsabilidade socioecológica’, uma
atitude de consideração crítica e consciente quanto aos próprios
deveres e direitos, aos dos demais, bem como à natureza.
Responsabilidade no sentido de responder por si e de (co)responder
ao outro, sabê-lo com os mesmos direitos, mantendo-se consciente quanto aos próprios atos. Tais noções devem ser construídas
conjuntamente, aliando-se a singularidade e a responsabilidade, em
um movimento dinâmico entre ser e corresponder.
Considerando-se a área da saúde, em que as relações entre as
pessoas podem implicar maior ou menor equilíbrio psíquico, assim
como possibilidades de contágio ou transmissão de doenças, desenvolver a singularidade e a responsabilidade torna-se
fundamental, podendo resultar em maior valorização da própria vida,
da vida dos outros e em respeito ao equilíbrio da natureza, do qual
depende a continuidade dos seres vivos. Isso requer um processo reflexivo permanente que dê lugar à compreensão das disposições
afetivas individuais e dos interesses coletivos, em um clima que
considere a diversidade da experiência humana, atual e
historicamente focalizada. Requer pensar o homem como o supõe
Hegel, capaz de autodeterminação, dotado de uma vontade própria,
a qual, tem na razão uma “dimensão essencial de liberdade”
(Konder, 1991). Uma razão que considera o conflito entre o objeto
da vontade do sujeito isolado e o da comunidade, pela qual ele se liga às outras pessoas, não pertencente apenas a si mesmo, mas a
um corpo social. Nesse sentido, a razão deve ir além do arbítrio,
integrando o conhecimento sobre si mesmo à dimensão social da
relação com os outros.
Segundo Konder (1991), tal perspectiva exige uma constante
superação dialética, através de um “movimento de eticidade”,
orientado por valores fundamentais como a liberdade, a igualdade e
a solidariedade, rejeitando-se quaisquer imposições de modelos ou padrões, questionando-se a ênfase individualista do capitalismo e a
suficiência fatalista das inovações tecnológicas. Assim orientada, a
prática pedagógica deve privilegiar a situação de discussão e
subjetividade interpessoal, através de uma relação dialógica, como
propõe Bakhtin (1985). Um trabalho dessa natureza requer a
capacidade do professor para tal tarefa, através de uma reflexão
sobre seus próprios afetos e condicionamentos sociais, bem como
de maior conscientização sobre a sua expressão em sala de aula, na relação com os alunos, aspectos que devem ser incluídos na sua
formação. E exige um currículo que considere os afetos,
estimulando uma prática reflexiva que dê lugar à constituição da
subjetividade, no sentido de ampliar a possibilidade de a criança
construir a sua identidade como pessoa e indivíduo social, em
consonância com um projeto de sociedade em que a qualidade de
vida dos que a compõem seja discutida e transformada para melhor. Uma abordagem lúdico-afetiva de
promoção da saúde e prevenção de
doenças e do uso indevido de drogas
Tanto a literatura quanto as observações de campo têm
demonstrado quão distantes as escolas e também as famílias ainda
estão do mundo psicológico que se constitui, dinâmica e
progressivamente, na infância. Embora sejam remotos os tempos
em que a criança era relegada ao limbo, na sociedade da Europa
medieval e do Brasil colonial, assim como a época dos castigos
físicos e da modelagem de hábitos promovida pela pedagogia
higienista do século XIX (embora isso ainda se mantenha em certo grau em algumas famílias e entre alguns professores), ainda
estamos distantes da possibilidade de estabelecer um clima propício
ao desenvolvimento pleno de seu potencial de modo a alcançar
maior autoconhecimento associado a um comprometimento com
maior justiça social.
Muitas crianças apresentam queixas e dificuldades de
relacionamento, não recebendo a atenção e o tratamento
necessários para resolver, de forma construtiva, seus problemas (Schall, 1996). Além disso, estão expostas à constituição de valores
e atitudes em que são reforçados preconceitos, consumismo,
relações assimétricas de poder, entre outros. Nesse contexto,
perante os diversos problemas de saúde que acometem as crianças
e os desafios de novas doenças como a Aids, bem como o
crescente aumento da drogadição entre jovens, têm sido buscadas
novas alternativas educativas que permitam um trabalho que vá
além da mera transmissão de conhecimento. Para tal, o uso de histórias infantis e recursos lúdicos tornou possível viabilizar um
processo pedagógico que integra o conhecimento psicológico à
educação, favorecendo uma maior interação entre os aspectos
cognitivo e afetivo.
Através de diversos estudos experimentais em diferentes escolas,
a equipe de pesquisa do LEAS desenvolveu, a partir de 1983, uma
estratégia transdisciplinar de educação em saúde, baseada no uso de histórias para crianças, elegendo a literatura infantil, em sua
vertente paradidática, como uma alternativa fecunda para o
desenvolvimento de conceitos, valores e atitudes contextualizados
na realidade do aluno, desde que conduzida por um professor bem preparado. Os estudos anteriores permitiram observar a fertilidade
dos textos literários para mobilizar a afetividade dos alunos e o seu
envolvimento pessoal, contribuindo para uma participação mais
ativa e subjetiva no assunto focalizado, como também para
promover situações de intercâmbio enriquecedoras, gerando a
busca de soluções coletivas para os problemas abordados (Schall et
al., 1987a, 1987b). Através da identificação do aluno com um ou
mais personagens das histórias, situações de sua própria vida eram evocadas, gerando diálogos sobre o seu cotidiano, suas práticas, os
riscos a que estava sujeito em seu ambiente; promovia-se, enfim,
uma reflexão sobre a sua saúde e a sua vida, num contexto de troca
com os colegas e o professor. Nesse clima, emergiam naturalmente
a construção de novos conceitos científicos sobre prevenção, bem
como o estímulo a novas práticas de cuidado com a saúde e à
busca de soluções coletivas a serem implementadas por
movimentos comunitários e em iniciativas da própria escola, como atestam os dados de Schall e colaboradores (1987a, 1987b, 1993) e
Schall (1995, 1996).
São freqüentes os teóricos que destacam tanto a literatura quanto
o brinquedo e as artes, em geral, como recursos que tornam
possível o esclarecimento dos desejos e das emoções. Freud, em
seu texto Personagens Psicopáticos no Teatro, de 1906, já
destacava:
a função do drama é despertar a piedade e o temor, provocando assim uma
‘catarse das emoções’ – que corresponde à liberação dos afetos do sujeito,
permitindo uma excitação emocional, inspirando um sentimento de exaltação
de seu nível psíquico. (Freud, 1973:1.272)
O autor argumenta que a contemplação de uma representação
dramática tem para o adulto a mesma função que o jogo tem para a
criança, ao satisfazer a sua esperança de fazer tudo quanto os
adultos fazem. Como espectador de um drama, o adulto que se sente ‘mísero’, a quem nada importante pode ocorrer, já desviou há muito o seu desejo de controlar o mundo à luz de sua vontade.
Resignado por não ser protagonista, vislumbra a possibilidade de se
identificar com o personagem da história representada, vivenciando
o gozo de se sentir herói, experimentando as emoções desse papel com a segurança de que se trata apenas de uma ficção e, portanto,
sem ameaças reais. Como enfatiza Freud, nessa situação o
indivíduo pode abandonar-se, sem culpa ou vergonha, a seus
impulsos coartados, como a demanda de liberdade em questões
religiosas, políticas, sociais e sexuais, e pode deixar-se levar até
aonde seus desejos querem, enquanto a cena da vida é
representada no cenário ficcional.
Freud (1973:1.273) destaca que essa possibilidade é comum a várias outras formas de criação artística:
A poesia épica serve em primeiro lugar à liberação de sentimentos intensos,
mas simples, como em sua esfera de influência o faz também a dança. Cabe
afirmar que o poema épico facilita particularmente a identificação com a
grande personalidade heróica em meio a seus triunfos, enquanto que do
drama se espera que focalize mais as possibilidades emocionais e que
possibilite transformar ainda as mais sombrias ameaças do destino em algo
desfrutável, de modo que representa ao herói acossado pela calamidade,
fazendo-o sucumbir com certa satisfação masoquista.
Essa vinculação recíproca entre imaginação e emoção é
destacada por Vygotsky (1987:25), que sugere o nome de “representação emocional da realidade” para o fenômeno que
abrange a influência da imaginação nos sentimentos e vice-versa,
cuja essência foi formulada por Rimbaud (apud Vygotsky, 1987:25),
ao afirmar que “todas as formas de representação criadora
encerram em si elementos afetivos”. Acrescido a isso está o fato de
que “todo sentimento ou emoção dominante deve concentrar-se em
‘idéia’ ou ‘imagem’ que lhe dê materialidade, sistema sem o qual se
manteria em estado nebuloso” (Vygotsky, 1987:25) (grifos do autor). Isso ressalta a importância da linguagem, seja oral ou visual, na
tradução dos estados afetivos, no esclarecimento das disposições
emocionais que orientam as ações. Esse potencial da linguagem
encontra na literatura a sua expressão mais plena, como enfatiza
Lajolo (1993:106):
É à literatura, como linguagem e como instituição, que se confiam os
diferentes imaginários, as diferentes sensibilidades, valores e
comportamentos através dos quais uma sociedade expressa e discute,
simbolicamente, seus impasses, seus desejos, suas utopias. Por isso, a
literatura é importante no currículo escolar: o cidadão, para exercer
plenamente sua cidadania, precisa apossar-se da linguagem literária,
alfabetizar-se nela, tornar-se seu usuário competente, mesmo que nunca vá
escrever um livro: mas porque precisa ler muitos.
Por sua vez, a linguagem escrita, diferentemente da oralizada, como na televisão, possibilita a criação de um espaço simbólico,
estimula a imaginação do interlocutor, possibilitando uma
interpretação criadora, uma reconstrução de significados, cumprindo
funções que vão além da linguagem oral, permitindo, como aponta
Dietzsch (1988:21), uma “interlocução à distância, que supera os
limites do tempo e do espaço, não atingidos pela fala”.
Se bem orientado, um trabalho dessa natureza pode permitir às
crianças, por intermédio dos personagens que vivenciam conflitos e situações semelhantes às suas, descobrir outras alternativas de
pensar e reagir diante das dificuldades que enfrentam. Neste ponto,
vale lembrar a contribuição de Deleuze (1996) ao considerar o ato
de escrever como um devir sempre inacabado, um processo sempre
na fronteira de tornar-se, numa “zona de vizinhança” de ser outro. O
ato de leitura, por sua vez, pode acordar esse devir nas pessoas,
através das vidas dos personagens. Como afirma o autor, a
literatura é uma enunciação, um delírio, mas um delírio saudável, pois invoca o homem oprimido que se agita sob as dominações a
resistir a tudo aquilo que o esmaga e aprisiona, descobrindo como
abrir um sulco em sua vida. Trata-se, por isso, de uma abordagem
especialmente adequada para a prevenção do uso abusivo de
drogas, considerando os fatores biopsicológicos predisponentes
associados a determinados contextos sociais potencializadores da
drogadição.
A ficção pode trazer à tona o imaginário da criança, assim como seus sentimentos, conflitos e preconceitos, muito dos quais podem
ser fonte de sofrimento desnecessário, como no caso da grande
maioria das meninas entrevistadas por Schall (1996), que revelaram
dificuldades de relacionamento com as colegas. Pelos relatos e queixas, percebe-se que elas se encontram envolvidas em uma
rede de relações, imersas em negociações de afeto e atenção,
como atesta a fala de uma delas, ao se referir às colegas: “é tudo
igual, às vezes ficam de mal e no outro dia ou no mesmo dia já estamos falando outra vez. A C. não quis falar comigo porque eu
não dei uma bala para ela”. A mesma menina ainda afirma que
algumas colegas nem sempre querem brincar com ela, pois
preferem “a E., porque ela traz dinheiro todo dia pra escola e é sócia
de um clube lá na Barra”. Esse é apenas um exemplo que ilustra
como as meninas não falam sobre tais dificuldades e impressões
entre si e como seria oportuno facilitar uma troca reflexiva entre
elas. Textos literários que abordam o relacionamento entre meninas e meninos podem representar uma abertura, um ‘sulco’ por onde
elas seriam estimuladas a dialogar sobre os seus sentimentos, sob
a orientação de um professor bem preparado ou do psicólogo
escolar e, quem sabe, alcançar outros níveis de relacionamento.
Com base nos princípios descritos observou-se, nas experiências
desenvolvidas em escolas (Schall et al., 1987a, 1993; Schall, 1995),
uma possibilidade de mobilizar aspectos afetivos que levem a
questionamentos e mesmo a mudanças de opiniões sobre os próprios comportamentos, podendo estimular um processo de
conscientização, através de um trabalho planejado e contínuo na
escola, que favoreça um melhor cuidado em relação a si, aos outros
e à natureza, a valorização da própria vida, da vida dos outros e do
planeta. Tal construção de valores e conceitos afetivos, a partir de
processos e situações de autovalorização, exige que o educador
esteja envolvido e participando, ativamente, do processo. Nas
experiências desenvolvidas, as discussões empreendidas com as crianças ou jovens, a partir de textos literários, visavam a
questionar, refletir, desconstruir e reconstruir conceitos e relações
afetivas, integrados a idéias cognitivas sobre saúde e doença,
utilizando-se para isso de histórias curtas e jogos em que os
personagens estão envolvidos em situações de escolha ou
problemas semelhantes ao cotidiano dos jovens.
Esse é um programa que tem, necessariamente, de estar incluído
na escola, já que implica um longo processo de reflexão, construção e reconstrução de conceitos e comportamentos, de preferência conduzido e planejado por psicólogos que podem orientar os
professores para o seu desenvolvimento, uma vez que envolve
respostas afetivas, requerendo um melhor conhecimento sobre
aspectos subjetivos da criança e sensibilidade e abertura para aprender aprendendo.
Esta proposta, como já foi dito, baseia-se nas observações (Schall
et al., 1987a, 1987b, 1993) de que o uso de histórias infantis com
escolares de 1º grau é um ponto de partida de um processo de
constituição de conceitos e valores relativos a diversos aspectos de
saúde que pode conduzir a maior envolvimento e posicionamento
pessoal em relação à própria saúde e à preservação do ambiente.
Algumas experiências com crianças foram realizadas, com base em livros paradidáticos que abordam a saúde, o meio ambiente e a vida
– Ciranda da Saúde (1986), Ciranda do Meio Ambiente (1988) e
Ciranda da Vida (1994) (Schall et al., 1987a, 1987b, 1993). Também
com jovens, vêm sendo empreendidas algumas experiências, dentro
desta perspectiva, por Monteiro (1994) e Monteiro, Rebello e Schall
(1991, 1994), inseridas em pesquisas que conduziram à elaboração
de novos materiais educativos, como o jogo Zig-Zaids, destinado à
prevenção da Aids entre pré-adolescentes e adolescentes, e O Jogo da Onda, que questiona o uso indevido de drogas (Monteiro,
Rebello & Schall, 1994). Tais experiências, por terem sido de curta
duração, necessitam ser ampliadas, repetidas e avaliadas para que
se tenha uma verdadeira dimensão de sua efetividade. Contudo, a
motivação, o interesse e a honestidade com que os jovens se
lançam à experiência, o desejo manifesto de dar continuidade, a
satisfação e afirmação do quanto foi positivo para eles indicam que
essa estratégia pode ser fértil e promissora em alcançar os seus objetivos. Os materiais desenvolvidos são certamente facilitadores
desse processo, o que requer capacitação dos educadores para o
alcance da proposta, bem como acompanhamento e avaliação de
sua efetividade, comparando-se as variações de estratégias e
contextos (Schall et al., 1999). O que se percebe é que o saber
sobre saúde exprime aquilo que a criança valoriza em si mesma
como saudável e revela o sentido e os valores que possui em
relação a este aspecto fundamental em sua vida. Assim, é revelador também da identidade de cada criança, de suas percepções, experiências, motivações e ações, expressando uma imagem de si
mesma, o que possibilita um trabalho para além dos aspectos
físicos e cognitivos.
Mas não basta ter em mãos bons textos ou quaisquer outros recursos: a formação do educador é fundamental, e para ela muito
tem a contribuir a psicanálise, que possibilita maior compreensão do
mundo inconsciente, o qual pode ser mais determinante para o
desenvolvimento da criança do que a própria ação educacional
programada, como afirma Millot (1992). Além disso, a psicanálise
contribui para a educação ao explicitar a gênese da internalização
do valor do processo de construção do conhecimento a partir do
envolvimento emocional com o professor, como afirmado por Ekstein (1968). Assim, a criança que entra na escola trabalha
primeiro por amor, identifica-se com o professor idealizado e seu
modo de ensinar e, dessa forma, aprende a amar a tarefa escolar,
através de um processo de internalização. Quanto mais se
identificar com o professor, e quanto mais este amar o próprio
trabalho, mais facilmente o aluno passará do ‘trabalhar pelo amor’
(pois, a princípio, seu objetivo é ser amado pelo professor) para o
‘amor pelo trabalho’. Também Piaget (1988), em seu livro Para Onde Vai a Educação, reafirma a importância da formação psicológica dos
professores, sugerindo que sejam incluídas na escola classes de
orientação, com métodos ‘ativos’, que privilegiam a participação
espontânea do aluno, os quais demandam uma colaboração
constante entre professores e psicólogos, requerendo “uma estreita
união entre a análise pedagógica e a análise psicológica” (Piaget,
1988:47). Ainda segundo Piaget (1988:61),
Na realidade, a educação constitui um todo indissociável, e não se podem
formar personalidades autônomas no domínio moral se (...) o indivíduo é
submetido a um constrangimento intelectual de tal ordem que tenha de se
limitar a aprender por imposição sem descobrir por si mesmo a verdade: se é
passivo intelectualmente, não conseguiria ser livre moralmente.
Reciprocamente, porém, se a sua moral consiste exclusivamente de uma
submissão à autoridade adulta, e se os únicos relacionamentos sociais que
constituem a vida da classe são os que ligam cada aluno individualmente a
um mestre que detém todos os poderes, ele também não conseguiria ser
ativo intelectualmente.
Piaget enfatiza que os aspectos intelectuais são inseparáveis dos
afetivos, sociais e morais que constituem a vida da escola,
valorizando a atividade coletiva em sala, que estimula o controle
mútuo, o exercício do espírito crítico e da cooperação que conduzam à autonomia e à reciprocidade, podendo mesmo levar a
uma renovação do ser em uma atmosfera social constituída de
afeição e liberdade. Entretanto, como demonstra Goleman (1995),
os educadores, sempre aflitos para que os alunos alcancem bons
escores em matemática e leitura, estão percebendo que existe uma
deficiência ainda mais alarmante quanto à afetividade e às relações
humanas, ainda não contempladas nos currículos escolares. O autor
apresenta algumas experiências inovadoras, desenvolvidas nos Estados Unidos, que exemplificam possibilidades de integrar os
aspectos afetivos nas escolas. Algumas delas visam à prevenção da
violência, da Aids e das drogas, como o Social Competence
Program, que tem apresentado resultados bastante positivos. O
programa vem sendo desenvolvido em uma escola de New Haven,
área de mais alta prevalência de Aids entre mulheres nos EUA.
Acredita-se, assim, que, em relação às DST/Aids e às drogas, é
preciso superar as práticas tradicionais de transmissão de conhecimento, bem como o clima de ameaças, e buscar um
trabalho de maior duração, iniciado desde a pré-escola, de modo a
fortalecer as crianças e jovens para que possam se conhecer
melhor, assim como exercitar-se em trabalhos coletivos que
estimulem o respeito e a responsabilidade por si e pelo outro. Para
que, desde cedo, as crianças não se acomodem em situações
sociais desiguais e injustas, para que se capacitem para fazer
opções, sem se sentirem constrangidas pelo grupo, para que alcancem melhores relações humanas, maior comunicação,
intercâmbio e solidariedade, através de um processo educativo em
que se reúnem as escolas e as famílias. O desenvolvimento de um
relacionamento perpassado pela confiança mútua, o encontro
verdadeiro e solidário entre as pessoas, aliados ao avanço científico
e tecnológico, são perspectivas de que um dia a humanidade possa
se libertar do risco da maioria das doenças e das dependências. Referências bibliográficas
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