Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos
5. Revisitando a crítica ao mito da marginalidade: a população favelada do Rio de Janeiro em face do tráfico de drogas
5 – Revisitando a crítica ao mito
da marginalidade: a população
favelada do Rio de Janeiro em
face do tráfico de drogas *
Marcelo Lopes de Souza
Há duas décadas, Janice Perlman publicou um livro que, hoje, é
considerado uma das principais obras já escritas sobre a pobreza
urbana na América Latina, em geral, e no Brasil, em particular: O
Mito da Marginalidade. Com suporte empírico em estudos de caso
conduzidos na metrópole do Rio de Janeiro entre fins dos anos 60 e
começo dos anos 70, Perlman fulminou tanto a ingênua crença,
comum entre observadores de esquerda nos anos que precederam o golpe militar de 1964, de que os favelados, em razão de sua
condição de explorados, seriam contestadores latentes do status
quo, altamente receptivos à pregação revolucionária, quanto os
estereótipos simplistas e estigmatizantes abrigados no campo
conservador, ou seja, a visão dos favelados como ‘parasitas’,
‘desajustados’, ‘vagabundos’ etc.
Dotada de razoável senso crítico, mas sem ser uma intelectual
marxista, Perlman demonstrou, com seu trabalho, que os favelados não eram, de forma alguma, ‘marginais’, no sentido de estarem à
margem do sistema. Muito pelo contrário, os favelados estariam
integrados ao sistema – o que, obviamente, não significa negar a
sua situação objetiva de segmento desprivilegiado e oprimido. Isso
porque: 1) economicamente, a grande maioria dos moradores de
favelas seria composta por trabalhadores explorados (e suas
famílias), pilares da economia capitalista; 2) politicamente, a
população favelada estaria enredada nas malhas do clientelismo, muitas vezes contribuindo para a manutenção das estruturas políticas reacionárias, das quais ela, em última análise e a longo
prazo, era e é a principal vítima; 3) culturalmente, os favelados
partilhariam muitos dos valores dos não-favelados. ‘Exploração’ e
‘acomodação’, e não marginalidade, seriam, por conseguinte, os termos adequados para caracterizar a situação das populações
faveladas.1
A despeito da grande ressonância encontrada no meio científico-intelectual pelo trabalho de Perlman e pelo padrão de crítica do qual
seu livro acabou por tornar-se um símbolo, o ‘mito da marginalidade’
não desapareceu simplesmente. Na verdade, a década de 80
acrescentou a ele um ingrediente a mais: o clichê segundo o qual os
favelados são vistos como traficantes de drogas ou, pelo menos,
como criaturas socialmente perigosas e moralmente deformadas,
porque cúmplices dos traficantes (Souza, 1995a; 1996a; 1996b). 2
Nesse novo contexto de estigmatização, que tem servido para
atualizar o mito da marginalidade, uma outra cientista social, Alba
Zaluar, tampouco uma pesquisadora de corte marxista, vem
insistindo, há muitos anos, sobre dois pontos: em primeiro lugar, sobre a necessidade de uma nítida distinção, no seio da população
favelada, entre ‘trabalhadores’ (implicitamente assumidos como a
maioria da população) e ‘bandidos’, distinção categorial que refletiria
uma diferenciação da qual os próprios favelados seriam bastante
ciosos, a despeito de uma certa complacência ou ‘solidariedade’ dos
‘trabalhadores’ para com os ‘bandidos’, por conta do fato de também
serem favelados estes últimos (Zaluar, 1994). Em segundo lugar,
Zaluar tem tido a preocupação de caracterizar a situação da população ‘trabalhadora’ como vítima do sistema e aterrorizada
pelos ‘bandidos’, ao mesmo tempo salientando que, em última
análise, os próprios traficantes de favela, especialmente os
integrantes dos escalões mais baixos, deveriam ser encarados
como vítimas de uma engrenagem que os devora, não escapando à
autora que os traficantes mais ricos não moram em favelas nem
arriscam a própria vida (Zaluar, 1994).
Em trabalhos anteriores tive a oportunidade de, enfaticamente, rebater o mito da marginalidade, assim como a sua ‘atualização’ a
partir da crescente visibilidade sociopolítica do tráfico de favela.
Também compartilhei e desenvolvi a compreensão dos diversos efeitos negativos acarretados pelo tráfico para os ‘moradores
comuns’ das favelas, da mesma maneira que o entendimento da
condição de ‘bucha-de-canhão’ dos traficantes favelados (Souza,
1995a; 1995b; 1996a; 1996b). Sem querer, de modo algum, suavizar as críticas endereçadas em outros trabalhos ao moralismo
conservador reducionista e estigmatizante, entendo ser necessário,
porém, refinar ainda mais a análise, com base em experiência
acumulada a partir da realização de inquéritos e observações de
campo. Mesmo os favelados não sendo econômica, política ou
culturalmente ‘marginais’, será razoável, no final dos anos 90,
continuar vendo a população favelada como composta por uma
maioria de trabalhadores, sob os ângulos valorativo e funcional claramente distinta dos ‘bandidos’? Mesmo os ‘moradores comuns’
sofrendo diversos tipos de efeitos negativos da presença do tráfico
de drogas, não seria necessário focalizar mais realisticamente os
elos que, econômica, cultural e afetivamente, os unem aos
‘bandidos’?
Sabemos dos riscos embutidos em uma análise como a que se
segue. Aqueles leitores afeitos ao sacrifício do rigor analítico em
favor de maniqueísmos panfletários, em que o mundo aparece dividido em ‘mocinhos’ e ‘bandidos’ absolutos, poderão ver-se
tentados, a esta altura, a interpretar este trabalho como uma
tergiversação, ou mesmo um recuo, diante da missão de denunciar
a exploração da maioria por uma minoria. Muito longe disso, o fato é
que, sem negar a fragilidade estrutural e os sofrimentos da
população favelada – incluindo aí, sob alguns aspectos, também os
traficantes, os quais não passam de ‘primos pobres’ dos verdadeiros
grandes negociantes do mundo das drogas (Souza, 1996b) –, faz-se mister recusar um enfoque romântico e simplisticamente
‘vitimizador’ dos favelados em geral (incluindo-se aí os traficantes),
em particular considerando a multiplicidade e a grande expressão
dos vínculos econômicos que ligam os favelados ao tráfico.
Que é, afinal, ‘estar envolvido’ com o
tráfico de drogas?
‘Estar envolvido’ com o tráfico soa como uma acusação muito
séria. Qual é, porém, o seu conteúdo efetivo? Cumprimentar um
traficante constituiria, para um favelado, um ‘envolvimento’, uma
‘cumplicidade’? Se assim for, então, a princípio, não há quem não esteja envolvido. Ainda que a contragosto (o que não é sempre o
caso), aquele que, na favela, hostilizar ou não se mostrar submisso
aos traficantes (na base não da auto-humilhação, mas da
diplomacia do ‘jeitinho’) simplesmente não sobrevive. Somente um
outsider completamente alienado, um intelectual do ‘asfalto’ (como
dizem os favelados cariocas referindo-se aos bairros comuns), sem
um pingo de sensibilidade ou poder dedutivo, poderia imaginar outra
coisa. É óbvio que, portanto, cumprimentar, ou mesmo trocar palavras amigáveis na base de uma política da boa vizinhança
(tanto quanto possível), não possui poder discriminador algum. Por
ser totalmente geral, é um indicador vazio.
Contudo, entre ser ‘gerente’ ou mesmo ‘dono’ de uma boca-de-
fumo e ser um trabalhador de salário mínimo que tenta apenas fazer
de tudo para não ser molestado por esse ‘gerente’ ou esse ‘dono’
(ou seus ‘soldados’), há muito mais situações possíveis e reais do
que as vãs filosofias reducionistas e maniqueístas querem nos fazer crer. A variedade de papéis econômico-sociais é grande, e a
complexidade do quadro sociopsicológico relacionado, como
intuitivamente se pode captar, também não é pequena.
Considere-se, inicialmente, A) aqueles atores sociais
regularmente remunerados em dinheiro por seus serviços prestados
a um ‘dono’: ‘gerentes’, que têm participação nos lucros da ‘boca’;
‘soldados’, que recebem um salário; e ‘aviões’ e ‘olheiros’, que cada
vez mais percebem uma remuneração regular, embora (no caso de crianças) a remuneração possa também apresentar-se como
presentes e recompensas não regulares (em dinheiro, sob a forma
de tóxicos para consumo pessoal etc.). A isso devem ser
acrescentadas as pessoas que trabalham na ‘endolação’, isto é, na
embalagem da droga, em que é comum encontrar mulheres e não-
jovens. Como se vê, não se trata meramente de um punhado de
‘bandidos’ vivendo mais ou menos isolados do restante da
‘comunidade’, na medida em que diversas pessoas, incluindo várias daquelas que não correspondem ao estereótipo usual do delinqüente perigoso, prestam serviços remunerados ao negócio
das drogas – e o fazem sobre a base de uma racionalidade
econômica, e não por ‘desvio moral’ ou ‘inclinação para o crime’.
Em segundo lugar, deve-se mencionar B) aqueles que recebem presentes, individualizados ou não, de algum traficante, nos marcos
de uma eventual generosidade e/ou, especialmente, de um cálculo
estratégico efetuado pelo traficante, que busca granjear simpatia e
cobertura: dinheiro para uma viúva comprar remédios, auxílio
financeiro para a construção uma quadra de esportes, churrascos
para os moradores, balas para as crianças no dia de São Cosme e
São Damião, e por aí vai. Os presentes individualizados são, claro,
esporádicos, mas seu benefício material direto é fácil de delimitar (favorecem um número muito restrito de pessoas de cada vez); já os
presentes coletivos podem beneficiar um percentual muito alto dos
moradores de uma favela (churrascos, doces no dia de São Cosme
e São Damião) e, às vezes, apresentar-se como um benefício
duradouro (como no exemplo da quadra de esportes).
As situações A e B envolvem, portanto, atores bastante distintos
que apresentam diversos tipos de vinculação com o tráfico; em A,
na qualidade de empregados (vinculação forte e ativa), e em B, na condição de beneficiários passivos. Os beneficiários não se
restringem, porém, aos empregados e aos recebedores de
presentes e agrados. Em uma categoria C podem-se agrupar
aqueles que são os dependentes diretos dos atores do grupo A, ou
que fazem parte do mesmo domicílio para cuja renda um dado ator
do grupo A contribui: são os pais, irmãos, irmãs, mulheres, filhos e
filhas dos ‘donos’ (no caso, cada vez mais raro, de o ‘dono’ residir
na favela), ‘gerentes’, ‘soldados’ etc. Em uma categoria D podem ser agrupados aqueles que, sem trabalharem exclusivamente para
os atores do grupo A, são diretamente beneficiados pela maior
circulação de renda propiciada pela economia ilegal instalada na
favela: por exemplo, birosqueiros e fornecedores de ‘quentinhas’
para os traficantes. Finalmente, os dependentes diretos dos atores
do grupo D, ou que fazem parte do mesmo domicílio para cuja renda
um dado ator do grupo D contribui, constituem uma última categoria,
E.
Se se levar em conta conjuntamente as cinco categorias
delineadas – não perdendo de vista as superposições ou
interseções, as quais tornam as categorias B, C, D e E, às vezes,
parcialmente redundantes –, o percentual geral dos beneficiados materialmente pelo tráfico, mesmo não podendo ser definido
precisamente (e mesmo uma estimativa seria algo temerário),
deverá ser bastante elevado (dependendo, é claro, da favela).
Dados precisos, é óbvio, inexistem. Não há, a bem da verdade,
sequer estimativas confiáveis, o que pode ser facilmente inferido
dos números disparatados já lançados a esse respeito pela grande
imprensa, às vezes mencionando alguma fonte, outras tantas vezes
sequer citando fonte alguma. Em 30 de outubro de 1994, às vésperas do início da Operação Rio I, o jornal O Globo noticiava a
existência de três mil traficantes armados nas favelas do Rio;
enquanto isso, alguns dias depois, a revista Veja de 2 de novembro,
citando como fonte “cálculos estimados pela 2ª Seção da Polícia
Militar do Rio de Janeiro”, aludia à existência de 4.400 homens
armados nas favelas do Rio, de um total de 11.340 indivíduos
diretamente envolvidos com a venda de tóxicos.
Estimativas a propósito da quantidade de envolvidos em favelas específicas também existem, mas os números freqüentemente não
coincidem. Por exemplo, a revista Istoé de 31 de agosto de 1994
apontava a existência de 30 ‘soldados’ e 80 homens no total sob o
comando do traficante Uê na favela de Acari, ao passo que a revista
Veja de 2 de novembro falava, a respeito da mesma favela, de 52
homens. Sobre a Rocinha, a Istoé de 31 de agosto mencionava 100
pessoas, e a Veja de 2 de novembro apenas 40. Em meio ao festival
de palpites, o deputado estadual Carlos Minc, do Partido dos Trabalhadores do Rio de Janeiro, chegou a falar de “140 mil
pessoas que trabalham no ‘exército do pó’” no Rio, sem citar
qualquer fonte e sem indicar o que significaria, precisamente,
‘trabalhar’ no ‘exército do pó’ (Minc, 1994:64). Já o ex-chefe da
Polícia Civil do Rio de Janeiro, delegado Hélio Luz, citado pela
Folha de S. Paulo de 11 de maio de 1997, estimou em
aproximadamente 20.000 o número de pessoas que viveriam “às
custas do comércio de drogas na cidade”.3
Não é minha intenção acrescentar mais alguns ‘palpites
selvagens’ à já longa lista continuamente alimentada pela imprensa.
Para os objetivos do presente texto, e baseando-me em indícios
registrados a partir de pesquisas de campo, especialmente informações colhidas por minha equipe acerca de algumas favelas
selecionadas,4 o que considero admissível e seguro postular é que
mesmo a soma apenas de A, C, D e E (ou seja, sem B, que é redundante com outras categorias e pode referir-se, evidentemente,
a um percentual elevadíssimo de beneficiados eventuais) não
desembocará em uma ‘ínfima minoria’, mas em uma parcela nada
desprezível, ainda que minoritária, da população da favela.
Tomando-se como válida a impressão de que em uma parte
significativa das favelas da metrópole do Rio de Janeiro já se
instalou o tráfico de drogas, 5 e estimando-se em cerca de 15% a
participação da população favelada no total da população
metropolitana,6 pode-se ter uma certa idéia da importância ‘social’
do comércio ilegal de drogas na metrópole carioca.
Importa salientar que nenhum dos papéis desempenhados admite
ser interpretado moralisticamente, até porque não se está diante de
casos de ‘corrupção’ (não foram incluídas, propositadamente,
situações como a de um hipotético presidente de associação de moradores que cede a pressões de traficantes interessados em se
utilizar das dependências da associação para guardar drogas, ou
outras situações do gênero). Por que os atores do grupo B não
deveriam aceitar presentes, se o Estado e o ‘asfalto’ os segregam,
discriminam e, justamente, os induzem a essa situação? Poderiam
os atores do grupo D se negar (caso o desejassem – pura hipótese
irrealista) a vender um bem ou serviço para os atores do grupo A,
sem com isso arriscar a própria pele? No que concerne ao grupo A, que compreende os criminosos propriamente ditos, é preciso levar
em conta os custos de oportunidade envolvidos na opção por não
fazer parte dele. Sem dúvida, o risco de vida (especialmente para
‘gerentes’ e ‘soldados’) é alto. No entanto, há um núcleo de cálculo
econômico racional que os desestimula a optar por um emprego de
salário mínimo (ou um subemprego qualquer) em detrimento de uma
função melhor remunerada a serviço do tráfico. Isso para não falar
da fuga do desemprego crescente. Ademais, o dinheiro não é o único fator de atração: o status ou prestígio no local (perante
mulheres jovens, por exemplo) e o poder também pesam na
balança.
‘Estar envolvido’, assim, para além de qualquer moralismo hipócrita, constitui, para os favelados, uma estratégia de
sobrevivência (Souza, 1996b; Campos, 1998). Isso não exclui, é
certo, dramas de consciência, ambigüidades de postura e coisas
assim (por exemplo, da parte de uma mãe que se preocupa com a
sorte do filho e lamenta a sua vida criminosa mas, ao mesmo tempo,
recolhe avidamente a contribuição que ele, graças à sua posição no
negócio, dá regularmente para a renda familiar – tendo mesmo, no
limite, incentivado o filho a ingressar na ‘carreira’ criminosa). O quadro que emerge dessa análise mais acurada da realidade, de
toda maneira, choca-se com a proposta – ideologicamente simpática
e sedutora – de se tratar os ‘trabalhadores’ e os ‘bandidos’ quase
que como compartimentos estanques, separados por uma barreira
moral.
As referidas ambigüidades não são, obviamente, exclusivas dos
favelados. Em uma sociedade profundamente marcada pela
corrupção, em diferentes níveis, as ambigüidades de muitos favelados são, eticamente, mais compreensíveis e justificáveis do
que as de outros indivíduos mais privilegiados. Seja como for,
conceder isso ainda é muito pouco. A situação dos habitantes de
favelas é, na realidade, uma complexa dialética, em que os diversos
efeitos positivos da economia ilegal se realizam cobrando dos
indivíduos pertencentes às várias categorias examinadas um preço
elevado: elevado para todos eles, no geral, mas com manifestações
específicas, conforme o grupo, sendo oportuno destacar, aqui, as ações de atores do grupo A (notadamente daqueles respaldados
pela força das armas: ‘donos’, ‘gerentes’ e ‘soldados’) contra
membros das demais categorias. A próxima seção examinará esse
outro lado da mesma medalha, que faz contraponto com os
benefícios.
O cotidiano favelado: um enredo
trágico
A referência a um enredo trágico não prenuncia qualquer
resvaladura para a pieguice. Trágico, aqui, significa: para além dos
efeitos positivos do tráfico, há efeitos negativos indescoláveis dos
positivos – ambos pertencendo à mesma dinâmica, à mesma lógica.
O tráfico, para um jovem favelado, é – e ao mesmo tempo não é –
uma questão de escolha; os favelados não escolhem suas
estratégias de sobrevivência com a mesma liberdade com que um
jovem de classe média alta opta entre estudar medicina ou engenharia, e o núcleo de cálculo racional envolvido tem mais a ver
com o pólo da necessidade que com uma dimensão de liberdade.
Essa estratégia de sobrevivência, a qual, em última análise e
objetivamente, aparece aos atores antes como a ‘menos ruim’ do
que como a ‘melhor’, caracteriza-se por estar acompanhada de um
risco físico e um desgaste psicológico permanentes para eles. Ao se
levar em conta a funcionalidade do tráfico de favela para o negócio
das drogas em uma escala que transcenda a própria favela (e inclua diretamente outros atores, que lá não residem, mas que financiam o
negócio), a relativa fragilidade dos traficantes de favela e a injustiça
social representada pela situação favelada fica ainda mais evidente.
Destaquei os custos do tráfico para os próprios favelados em
diversos trabalhos anteriores (Souza, 1995a; 1995b; 1996a; 1996b).
É conveniente, porém, fazer um resumo das ponderações feitas em
outras ocasiões, acrescentando-lhes alguns comentários.
Sublinhe-se, de antemão, o fato de que o tratamento dispensado aos moradores favelados por parte dos ‘bandidos’ – notadamente
daqueles que, ‘donos’, ‘gerentes’ ou ‘soldados’, encarnam a ameaça
do uso arbitrário da força bruta – não é o mesmo em todas as
favelas, nem necessariamente permanece inalterado ao longo do
tempo. Conforme o autor tem tido oportunidade de constatar,
mediante o exame tanto de dados obtidos em entrevistas quanto de
informações provenientes de matérias publicadas na imprensa,
alguns traficantes possuem um perfil mais paternalista, ao passo que outros comportam-se como terríveis tiranos, sendo por isso
temidos e odiados pelos moradores. Além do mais, considerando-se
a possibilidade de sucessões sangrentas na chefia do tráfico em
uma dada favela (com a substituição do chefe ou mesmo da quadrilha e do comando), uma mesma ‘comunidade’ pode ver-se,
em períodos diferentes, confrontada com estilos muito discrepantes
entre si de exercício da autoridade do ‘poder paralelo’, ora
predominando o aliciamento de simpatizantes, ora recaindo a
ênfase sobre a intimidação.
Vários fatores podem concorrer para a variabilidade no espaço e
no tempo anteriormente referida; um deles, porém, tem chamado
particularmente a atenção do autor. Um estilo de relacionamento mais violento entre os traficantes e os demais moradores parece ter
lugar principalmente naqueles casos, que aliás ocorrem com
freqüência cada vez maior, em que os líderes do tráfico ou os seus
prepostos (‘gerentes’) em uma dada favela não nasceram nem
foram criados no local, lá não possuindo, portanto, parentes ou
amigos de infância, que são sempre importantes elos afetivos com a
‘comunidade’. Percebe-se que, à medida que as redes de
‘organizações’ como o Comando Vermelho se expandem, aumenta a probabilidade de um traficante oriundo de uma determinada favela
se instalar em outra ‘comunidade’, ao ser deslocado para lá como
‘gerente’ ou, sendo ele mesmo um ‘dono’, para tomar as bocas de
fumo de outro ‘dono’.
No contexto de relacionamentos verdadeiramente duros,
particularmente tirânicos, os traficantes, embora normalmente
desempenhem um papel ordenador e punitivo quando se trata de
criminosos comuns (assaltantes, estupradores), atentam, eles mesmos, contra a dignidade dos demais moradores: por exemplo,
ao tomarem pela força mulheres ou residências alheias. Além disso,
várias outras formas de arbitrariedade, como o toque de recolher,
são comumente praticadas. Especialmente os relacionamentos do
tipo duro indicam que o tráfico de drogas constitui, como atividade
capitalista comandada por indivíduos que alicerçam seu poder no
dinheiro (e, essencialmente graças a esse dinheiro, em sua
capacidade de sedução e intimidação), mesmo na escala da favela,
uma manifestação de tipo sistêmico (no sentido habermasiano),7
que agride e transforma o Lebenswelt favelado.
Entre os custos do tráfico de drogas para os moradores de favelas
encontra-se, também, o nada raro sacrifício de vidas inocentes,
inclusive de crianças, durante as ‘guerras’ entre grupos rivais e as
incursões ‘oficiais’ da polícia, sem contar as chacinas promovidas
por grupos de extermínio. Particularmente diante do fato de que, em meio a tiroteios e execuções sumárias, não são apenas ‘bandidos’ e
policiais que tombam feridos ou sem vida, mas, vez por outra,
pessoas sem qualquer envolvimento direto com o tráfico (ou seja,
não integrantes do grupo A), constata-se que a dimensão de ordem
(uma ‘ordem’, é bem verdade, assaz instável) encarnada pelos
traficantes – a qual, quando se trata da punição de criminosos
comuns, é benéfica para os moradores – cede, volta e meia, lugar a
um elemento de ‘desordem’ e risco.
Negativos são, também, do ponto de vista do desenvolvimento
político da sociedade civil, a asfixia e o descrédito das associações
comunitárias, que cada vez mais sucumbem ao controle por parte
do crime organizado. Um corolário do tornar-se, como associação
comunitária, marionete dos traficantes, é a perda de legitimidade
perante os moradores e, obviamente, perante o Estado. Entretanto,
os líderes comunitários normalmente não têm alternativa: se
desenvolverem seus talentos diplomáticos para lidar com os traficantes, fazendo de tudo para não hostilizá-los e contrariá-los,
talvez consigam, assim, preservar um mínimo de margem de
manobra. Por outro lado, se não reconhecerem os traficantes como
a máxima instância decisória no local, provavelmente serão
destituídos do cargo, forçados a se mudar da favela e, no limite,
fisicamente eliminados. Via de regra, mesmo esse mínimo de
margem de manobra não esconde a subserviência que reside em
ter de notificar antecipadamente e mesmo pedir a autorização dos chefes do tráfico para a condução de várias atividades, assim como
ter de aceitar que os traficantes se utilizem da associação como
fachada legitimatória, instância de public relations (por exemplo,
quando o presidente da associação tem de fazer a mediação entre
políticos interessados em percorrer a favela em busca de votos e os criminosos, os quais autorizam ou não a visita) e ponto de apoio
logístico.
Além disso, o tráfico de drogas, especialmente em anos mais
recentes, parece estar colaborando, decisivamente, para a erosão de certas normas e valores tradicionais, ainda fortemente
perceptíveis nas favelas há duas décadas, e outrora respeitados
pelos traficantes. A utilização cada vez maior de crianças como
mão-de-obra descartável e simultaneamente como testas-de-ferro, a
completa banalização da morte – inclusive do assassínio de
menores de idade – e os atos de violência muitas vezes cometidos
contra os próprios moradores, tudo isso faz soçobrar a nítida
distinção, sublinhada por Zaluar (1994), com base em suas observações de campo da primeira metade dos anos 80, entre
‘pivete’ (bandido imaturo e agressivo, normalmente muito jovem) e
‘bandido formado’ (criminoso que ‘respeita as regras’, isto é, evita
importunar os ‘trabalhadores’). Sob a influência conjunta da
dependência econômica crescente relativamente ao tráfico e do
clima de arbítrio e violência por este instaurado, o Lebenswelt
favelado parece, a exemplo da cidade como um todo, estar
atravessando um processo social-psicológico de longa duração, caracterizado pela desvalorização da dignidade humana e da
própria vida. No entanto, é bom não esquecer que o tráfico e o
comportamento dos traficantes, antes de serem causas, são
conseqüências: a erosão dos valores não começa nas favelas, e
muito menos a elas se restringe; os maus exemplos que vêm ‘do
alto’ (cinismo, corrupção, desrespeito pela coisa pública) têm um
efeito devastador, à luz do que as favelas e os traficantes são meras
caixas de ressonância.
Por último: também uma autêntica urbanização das favelas,
componente fundamental de um processo genuíno de reforma
urbana democrática, pode ver-se prejudicada, hipótese justificada
por fatos recolhidos pelo autor e sua equipe da experiência atual do
Rio de Janeiro. Deve-se, é certo, admitir que, embora raramente o
façam, os próprios traficantes podem colaborar para a
implementação de melhoramentos pontuais nas favelas. Não se
deve sempre contar, todavia, com a total ausência de oposição deles a intervenções mais abrangentes – em que estão incluídos o alargamento e a pavimentação de vias de acesso e a integração da
malha viária local àquela dos bairros adjacentes –, as quais
subvertam significativamente a estrutura espacial da favela, com
conseqüências perigosas para as suas atividades, como uma maior facilidade para as incursões da polícia (ou, eventualmente, do
Exército). Além disso, a própria insegurança derivada da presença
de traficantes armados e freqüentemente envolvidos em conflitos
com rivais ou com a polícia configura um fator dificultador da
atuação das equipes técnicas e dos trabalhadores envolvidos com
as obras de urbanização (ainda que as dificuldades possam ser,
mediante o uso de tato diplomático e mesmo negociações com os
chefetes locais, em larga medida superadas ou evitadas). O atual Programa Favela-Bairro, da Prefeitura do Rio, mesmo com todas as
suas imperfeições, parece permitir que lições sejam extraídas a
esse respeito. 8
De toda maneira, o importante é que não basta um processo de
slumupgrading ser tecnicamente bem concebido. Urbanizar uma
favela, em um sentido radicalmente democrático, não envolve
meramente uma remodelação do espaço, com a introdução de
alguns remendos e de algumas melhorias. Um programa de
urbanização comandado por um déspota (pseudo)esclarecido e
seus urbanistas certamente não englobará aspectos essenciais,
capazes de estimular a civilidade e criar maiores chances para o exercício da cidadania, como o acesso a alternativas de trabalho
visando à elevação da renda e à valorização efetiva das entidades
representativas dos moradores, sempre garantindo a informação e,
sobre esse fundamento, a participação livre dos moradores na
tomada de decisões.9 E esse é o ponto verdadeiramente nevrálgico:
seria sensato esperar uma autêntica participação popular na
concepção e implementação de políticas públicas para as favelas,
na medida em que o crime organizado dissemina o medo e a
desconfiança entre os moradores e crescentemente manipula e, em
face de recalcitrantes, expulsa e até executa líderes comunitários?
Do ponto de vista de uma preocupação com as chances de implementação de um planejamento e uma gestão urbanos
alternativos – vale dizer, radicalmente participativos e que sirvam
como instrumentos de promoção de justiça social, destacando-se aí o combate à segregação residencial –, preocupação que tem me
acompanhado desde muitos anos, a territorialização de favelas por
traficantes de drogas aparece como um seriíssimo problema.
De modo bastante sintético, pode-se dizer que todos os aspectos nefastos expostos confluem, como transformações e desafios ao
Lebenswelt favelado tradicional por parte do tráfico de drogas, para
um impacto negativo geral: o bloqueio do desenvolvimento
socioespacial autêntico, conforme tematizado, sobretudo, em Souza
(1996a, 1996b).
Por tudo isso, e guardando-se a distinção, corretamente marcada
por Wolfgang Welsch (1996), entre os conceitos filosóficos de
‘racionalidade’ (em alemão, Rationalität), mais específico, e ‘razão’ (Vernunft), mais geral, pode-se argumentar que, embora
incorporando indubitavelmente uma dimensão de racionalidade
(racionalidade econômica e instrumental), o tráfico de drogas,
geneticamente articulado com um panorama marcado por uma
profunda injustiça social e acarretando, ele mesmo, elevados custos
sociopolíticos e social-psicológicos de longo prazo para os próprios
favelados (à luz da exigência de um desenvolvimento socioespacial
autêntico), é, em última análise, ‘irracional’, no sentido de ‘irrazoável’
( 10 unvernünftig ).
Conclusão
A ‘marginalidade’ é, sem dúvida, um mito – mas as condições de contexto que tornam o tráfico de drogas cada vez mais atraente
para a população favelada não o são. Não se deve, por um medo
infundado de se desviar da nobre militância em prol da justiça social,
tentar tapar o sol com a peneira. Não perceber o enorme poder de
cooptação do tráfico de drogas e os custos da influência crescente
do tráfico será, isso sim, o maior desserviço que se poderá prestar
aos próprios favelados. Ainda que fosse possível eliminar o tráfico
de favelas com recurso à repressão da oferta, sem intervir no lado da demanda – o que, sem dúvida, constitui uma expectativa
irrealista –, restaria a seguinte questão: o que oferecer como
alternativa a uma população favelada que, em grande medida, tornou-se economicamente mais ou menos dependente do tráfico de
tóxicos? A consideração do alcance econômico-social do tráfico de
varejo nas favelas contribui para enfraquecer, com base em
argumentos não apenas éticos, mas sociopolíticos, a ênfase na repressão como solução para o problema, uma vez que combater o
tráfico sem a geração de alternativas ocupacionais para os
favelados pode trazer como conseqüência conflitos e tensões ainda
muito mais sérios que aqueles que surgem como subprodutos do
florescimento da economia ilegal.
Não idealizar a realidade das favelas, destarte, nada tem a ver
com uma postura moralista ou conservadora. Não se está
arrastando os favelados ao banco dos réus nem postulando, simplística e preconceituosamente, sua ‘cumplicidade’ ou
‘conivência’ para com os traficantes. Bem ao contrário, a
consideração simultânea dos benefícios e malefícios do tráfico, no
âmbito do ‘enredo trágico’ descortinado anteriormente, ressalta
justamente o agravamento do quadro de injustiça e promove uma
reavaliação, para menos, da dimensão de positividade do tráfico
para os favelados. Fortemente relativizados na esteira de uma
apreciação dos riscos e custos sociopolíticos e social-psicológicos do tráfico para os habitantes das favelas, bem como de uma análise
multiescalar que grifa a assimetria entre os ganhos dos traficantes
de favela operando no varejo 11 e aqueles dos verdadeiros grandes
traficantes, 12 os benefícios da economia ilegal, na verdade,
empalidecem.
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