Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos
10. A educação para a autonomia: construindo um discurso democrático sobre as drogas
10 – A educação para a
autonomia: construindo um
discurso democrático sobre as
drogas
Gilberta Acselrad
As propostas de classificação dos discursos sobre as drogas –
lícitas e ilícitas – buscam esclarecer a prática preventiva dos
educadores. Nas escolas, essas propostas não são muito
conhecidas, prevalecendo o discurso que trata a questão do ponto
de vista moral e legal, o que limita as possibilidades de ação
pedagógica. Aqui, propomos uma reflexão sobre a construção dos discursos de prevenção: quais são as diversas estratégias que
tentam fixar e impor seu sentido em contraponto às apropriações
plurais e móveis? Quais são as possibilidades de uma educação
para a autonomia, identificada com os direitos do cidadão, com base
na proposta de redução dos danos decorrentes do uso de drogas?
O processo de construção dos
discursos sobre as drogas
A construção de um discurso próprio sobre as drogas implica
exigências: a identidade de cada um em face do discurso enunciado e a necessidade de incorporar argumentos múltiplos e encadeados:
químicos, neurobiológicos, médicos, psicológicos, éticos,
sociológicos, históricos, culturais, jurídicos, econômicos, políticos. O
uso de drogas pressupõe situações do indivíduo, do grupo, do
bairro, da cidade, da região, do Estado-nação, do mundo
globalizado. A demanda dos educadores por uma fala que oriente sua ação não pode ignorar essa complexidade. Entretanto, ao
mesmo tempo que formulam o desejo por uma ação preventiva, os
educadores rapidamente buscam uma fórmula mágica, na qual as
‘verdades’ estejam claramente enunciadas. Parece haver um medo do que pode haver de singular, de contraditório, na elaboração do
discurso pedagógico no campo das drogas.
Segundo Foucault (1971), diante das dúvidas naturais a todo
começo, o indivíduo sente o desejo de incorporar um discurso já
pronto. Mais do que tomar a palavra, deseja ser envolvido por ela,
deseja encontrar-se de imediato no interior do discurso, no qual as
verdades, uma a uma, se apresentem e ele apenas se deixe levar. A
esse desejo, as instituições respondem que o discurso existe na ordem das leis, que há muito tempo sua expressão está dada. O
desejo de se deixar levar e o poder exercido pelas instituições
seriam réplicas de uma mesma inquietação, diante dos poderes e
perigos que envolvem a construção de um discurso próprio – sua
realidade material de coisa pronunciada e escrita, sua duração
transitória, o próprio sentido temporal das palavras. A partir daí, o
discurso das instituições se organiza, como instrumento de poder,
não havendo espaço para refletir sobre as contradições que, ontem e hoje, permeiam o uso de drogas.
Mas as pessoas falam e suas falas se reproduzem... O que há de
tão perigoso nisso? Referindo-se ao discurso sobre a sexualidade e
a política, reflexão que aqui estendemos à análise dos discursos
sobre as drogas, Foucault (1971:10) afirma que
em toda a sociedade a produção dos discursos é controlada, selecionada,
organizada e redistribuída através de um certo número de procedimentos,
externos e internos, que têm por objetivo conjurar os poderes, controlar os
acontecimentos aleatórios, driblar sua pesada e temível materialidade.
Tais procedimentos teriam como objetivo ‘controlar’ sua produção.
A palavra proibida seria um desses procedimentos externos –
nem todos têm o direito de dizer qualquer coisa em qualquer
circunstância, no que se refere às drogas ilícitas. Tabu do objeto,
ritual da circunstância, direito exclusivo e privilegiado de quem fala,
três interdições que se cruzam, fortalecendo-se. Percebemos que, no discurso antidrogas ilícitas, essas interdições expressam a ligação com o desejo e o poder. A experiência se traduz em ameaça
maior na medida em que a transgressão se generaliza, escapa ao
controle. O desejo por outras percepções da realidade explicaria a
demonização e o mistério que envolvem o tema. É sempre bom lembrar que os usos abusivos, indevidos de substâncias psicoativas
da farmacologia legal não carregam o mesmo grau de ameaça,
mesmo quando se dão à revelia da prescrição médica. Ameaça
mais a ousadia do ato ilícito.
Um segundo procedimento seria a oposição entre a razão e o
discurso do usuário. A experiência é criminalizada, negada a sua
possibilidade ainda que de forma controlada; ao mesmo tempo, lhe
são atribuídos estranhos poderes. O discurso da experiência é excluído, embora a história da humanidade confirme sua
materialidade. A experiência de uso ilícito é identificada à
dependência, e a dependência só é investida de poder quando
controlada pela escuta do especialista. Não é dado espaço à fala do
usuário que, em termos estritos, não existiria; prevalece o discurso
da razão.
A oposição entre o falso e o verdadeiro completa o quadro de
procedimentos externos à construção do discurso sobre as drogas, fundamental no controle do que é aceito como ‘verdade’. Se nos
colocamos no interior do discurso repressivo que impõe a
abstinência como norma, essa partilha não parece arbitrária ou
violenta – afinal, a pretensão de um mundo ‘sem drogas’ é
apresentada de forma natural... Mas se queremos saber sobre a
história do consumo de drogas ao longo de tantos séculos,
percebemos sistemas de exclusão, modificáveis e institucionalmente
constrangedores. O discurso da abstinência continua sendo valorizado, distribuído e atribuído pelas instituições como ‘o
verdadeiro’. Em que pesem os inúmeros estudos que têm
confirmado ontem e hoje a evidência de usos controlados,
prevalecem pressões, constrangimentos. A ação das drogas no
sistema nervoso central se impõe como determinante em qualquer
uso, assim transformado em dependência ‘química’. As experiências
antigas e recentes de uso sem danos ficam obscurecidas.
Dos três procedimentos, os dois primeiros perdem hoje um pouco de sua força. É ampla a discussão sobre as drogas, não mais restrita ao espaço dos especialistas. Em que pese o medo ainda
presente de “despertar a curiosidade”, o privilégio de quem detém a
fala se estende aos educadores através de cursos de capacitação.
Mas a oposição entre verdadeiro e falso fortalece-se como garantia de controle sobre os sujeitos. É teoricamente incorporada a
complexidade que intervém na experiência do consumo de drogas,
mas ainda prevalecem os aspectos químicos, neurobiológicos, que
“devem ser controlados com repressão e/ou medicação” na medida
em que dizem respeito a um sujeito considerado incapaz de reflexão
e deliberação.
A necessidade de modernizar o discurso preventivo impõe
técnicas pedagógicas participativas. Internamente à construção do discurso sobre as drogas, o procedimento do comentário, de
repetição de conceitos já enunciados e aceitos como verdadeiros,
tem como objetivo controlar o acaso que surge naquela
participação, limitando o pensar autônomo. Assim, o discurso
dominante sobre as drogas na sua busca obstinada de abstinência
vem sendo contado e repetido. Modificou-se em aparência,
modernizou-se em parte para continuar sendo o mesmo.
O risco da experiência que se generaliza – a valorização do Homo economicus (Daly, & Cobb Jr., 1993), a ‘cidadania’ consumista,
compulsiva e individualista fortalecem generalizações – sugere a
necessidade de campanhas, nas quais a pedagogia do medo ainda
é considerada fator fundamental de proteção individual e coletiva. O
procedimento do comentário busca o controle do aleatório, nega a
autonomia, considerada perigosa, prevenindo pela repetição de
palavras de ordem que, na sua estreiteza, não ensinam de fato o
sujeito a avaliar os riscos e a deliberar.
O controle do discurso sobre as drogas se realiza pela sua
distribuição em disciplinas específicas: ainda permanece como
verdade, no imaginário coletivo, a função do professor de ciências
biológicas como o responsável pelas explicações que legitimem o
objetivo da abstinência. Cada disciplina reconhece proposições
verdadeiras e falsas. O discurso repressivo sobre as drogas, contido
na disciplina de ciências biológicas, afirma a verdade da ação
inexorável das substâncias no sistema nervoso central e repudia as histórias de uso, os rituais construídos, social e historicamente, e
que permitiram o controle dos riscos individuais e coletivos.
A demanda dos educadores por uma fala que oriente sua ação,
presa na armadilha da ‘receita mágica’ repressiva, se frustra. Temem alçar vôo próprio, temem a experiência de autonomia.
Tornam-se porta-vozes de um discurso único, repetem fórmulas. O
medo diante de uma formulação própria gera a opção pelo discurso
já pronto. A dificuldade em suportar a inquietação da sociedade
diante da construção de percepções inovadoras, alternativas, muitas
vezes coloca a exigência de controles, limites. Na medida em que
incorporam uma fala que não resulta de uma construção própria, a
história dos educadores e a dos jovens sob sua responsabilidade ficam à margem do processo de elaboração mesma do discurso.
Daí a sensação de que nunca estão suficientemente preparados
para lidar com as situações de consumo de drogas.
As ‘verdades’ têm valor transitório e contraditório: os usos mudam
com o tempo. Em um mesmo momento histórico, substâncias são
legais em alguns países e proibidas em outros; em um mesmo
território, usos tolerados, legais outrora, ficam obscurecidos; há
tolerância diante do consumo de certas drogas lícitas, em que pesem os altos índices de danos à saúde e à sociedade decorrentes
de seu uso banalizado (caso do uso abusivo de bebidas alcoólicas);
discutem-se pouco os prejuízos da automedicação, na medida da
legalidade do produto. A discussão sobre o uso involuntário de
substâncias psicoativas no processo de trabalho – da indústria e da
agricultura – fica restrita aos especialistas. Trabalhadores e seus
familiares têm sua saúde prejudicada, mas nem sempre percebem a
violação de seus direitos de cidadania. Apesar de tantos argumentos, o discurso da abstinência prevalece, criminaliza o uso
de certas drogas, não favorece reflexão e ação responsável – as
‘verdades’ que sustentam o discurso preventivo repressivo tornam-
se uma pedra no meio do caminho da educação.
Verdades e ilusões: o que prevenir?
Diz o ditado popular que é melhor prevenir do que remediar. E o
conceito de prevenção tem se afirmado como o melhor caminho.
Prevenção é tarefa por excelência dos educadores, e é grande a
expectativa de que, com ela, seja possível evitar o encontro com a droga, o uso, o hábito de consumo.
Prevenir significa agir antes que algo aconteça. Segundo a
Organização Mundial da Saúde (OMS), a prevenção primária passa
por uma opção voluntária. Trata-se de prevenir a própria experiência
de forma radical. A prevenção primária do uso de drogas tem como
objetivo a abstinência: que ninguém use. A partir da noção de que
certos produtos são ruins, certos comportamentos sociais passam a
ser considerados negativos, condenáveis (Lazarus, 1995) Daí, a proibição e a repressão, que se legitimam como forma de controlar
todos os riscos. Conseqüentemente, grupos sociais que têm esses
comportamentos passam a ser marginalizados. Entretanto, com o
fracasso dessa proposta, surgiu como alternativa o conceito da
prevenção do uso abusivo ou do uso indevido de drogas – o que
causa sofrimento –, introduzindo-se uma perspectiva mais realista,
ainda que esses conceitos também possam ser interpretados de
forma quantitativa (abusivo, porque a quantidade usada é maior) ou qualitativa (indevido, porque não houve prescrição médica ou
porque a droga é ilícita).
Na construção de um modelo de prevenção e tratamento, o
discurso sobre as drogas tomou emprestadas características
próprias ao processo das doenças infecciosas. A noção da droga
como produto-vetor que invade o sujeito-paciente, em um ambiente
favorável à sua multiplicação – oferta poderosa, banalização do
consumo – afirma a noção de sujeitos frágeis, dando origem às campanhas de ‘vacinação’ que seguem o mesmo princípio de ‘tentar
proteger indivíduos indefesos’, ajudá-los a resistir. Como nem todos
conseguem resistir, as campanhas se valem das metáforas
militares, sugerindo um clima de ‘guerra nas estrelas’, facilitador da
imposição autoritária de medidas preventivas repressivas,
consideradas vitais “à preservação da saúde, à tranqüilidade dos
lares, à produção, à segurança pública” (em 1998, numa Sessão
Especial da ONU sobre o tema, a droga foi tratada como inimigo público número um no século XXI). Essa linguagem ajuda a construir uma imagem negativa da própria condição de existência do
usuário, como alguém que ameaça a tranqüilidade coletiva. O
objetivo da política antidrogas – evitar a experiência de uso –
historicamente buscou, no discurso médico ou repressivo, justificativas para um controle sobre os sujeitos. Uma reflexão
cuidadosa ajuda a perceber por que essa prevenção, depois de
tantos anos de aplicação, fracassa: porque compromete a
possibilidade de reflexão e ação reais.
Como alternativa, a educação, na perspectiva da redução dos
danos decorrentes do uso indevido, envolve ‘todas’ as drogas, quer
lícitas ou ilícitas. Não impõe abstinência, apenas afirma a
importância de se avaliarem os riscos, sem dúvida reais. Não prega a permissividade, apenas compreende a fragilidade, que não é só
individual mas também coletiva e socialmente construída. Traduz os
objetivos pedagógicos: educar para a autonomia, tornar o sujeito
capaz de reflexão e ação protetora de si e de sua comunidade.
Perspectiva construída na contramão do controle dos sujeitos.
Nesse caso, a abstinência deixa de ser ‘o’ objetivo proposto de
forma geral para todos. Ao contrário do discurso moral e legal que
identifica qualquer tipo de uso ao uso dependente e afirma ser o usuário um ‘doente’, a implementação da proposta de redução de
danos, aqui entendida de forma plena, esclarece os diferentes tipos
de relação com a droga e as diferentes possibilidades de ação
educativa: os usos – não dependentes – implicam riscos, sem
dúvida, e colocam a urgência de atenção, de acompanhamento
pedagógico, em oposição à medicalização e/ou ao controle policial
do problema de forma indiscriminada. Quando há uso dependente,
os educadores atuam ajudando na formulação da demanda por tratamento, participam do encaminhamento junto com unidades
especializadas, levando em conta as particularidades daquela
demanda, mantendo um acompanhamento pedagógico integrado ao
tratamento, com relações de confiança, abandonando a pedagogia
do terror, que gera e aprofunda situações de discriminação.
Da primeira experiência da droga, passando pelo uso habitual, e
na dependência, a atenção pedagógica, constante e solidária, se
volta para os riscos que permeiam qualquer uso. O consumo de drogas é percebido como parte da realidade cotidiana. Ganha espaço a possibilidade de uma participação efetiva da comunidade
na discussão – educadores, alunos, pais e funcionários,
comunidade circunvizinha à escola. Constrói-se dessa forma um
projeto de educação que tem por objetivos a autonomia e o diálogo, baseado na necessária orientação e ajuda dispensadas aos
sujeitos, no processo de passagem para a vida adulta.
A educação sobre drogas, na perspectiva da redução de danos,
não tem a pretensão de impedir a própria experiência de uso e
coloca também limites à ação educativa, já que os professores não
poderão, isolados de um esforço social coletivo, dar conta da
relação sofrimento/prazer representada pelo uso. Ao mesmo tempo,
retira de seus ombros a onipotência do controle. A ação inclui o debate coletivo, aberto e verdadeiro sobre a história do consumo de
drogas, mantida a responsabilidade de educar, através de um
projeto de construção de sujeitos de reflexão e ação. Negando a
tarefa irreal de prevenir quaisquer usos, essa proposta procura
distribuir e construir coletivamente um saber sobre a questão.
Segundo a proposta de redução de danos, a construção de fatores
de proteção da qualidade de vida é vital para se aprender a lidar
com os riscos inerentes à vida, entre os quais está o uso de drogas. A própria consciência de um mal-estar no mundo atual, advindo do
consumo, da competição, da desigualdade social, do desemprego
estrutural e de discriminações, é uma questão que precisa ser
pensada como condicionante do uso abusivo de drogas.
O discurso comprometido com a cidadania faz referência às leis
que permitem ou criminalizam o uso de certas drogas, recupera a
memória sobre outros usos históricos, procura agir sobre as
situações de risco, anuncia a possibilidade de transformação da realidade e contribui ativamente para essa transformação.
Compreendendo-se que a decisão de uso se dá no espaço privado,
que a decisão de uso é, portanto, pessoal, aposta-se na consciência
crítica, na responsabilidade de cada um diante de si mesmo e diante
do outro, como alternativa à interferência do Estado na vida privada
como forma de superação dos problemas. A função pedagógica se
traduz no diálogo educador-educando. O que desaparece nessa
perspectiva é a relação de poder autoritária que pretende erradicar uma prática que tem raízes na história pessoal e social. Os educadores assumem a responsabilidade pela criação de um
discurso pedagógico sobre as drogas, negando o papel de
repetidores do discurso moral e legal, em um projeto de formação
da autonomia do sujeito.
Pensar a prevenção sugere de imediato a idéia de que temos de
‘fazer’ alguma coisa, definir práticas, tarefas. Em alguns estados do
Brasil, há quase 20 anos, as universidades públicas colaboram, por
intermédio de núcleos de estudos e atendimento, em programas
sobre drogas em escolas, empresas, comunidades. Essas
atividades têm pouca visibilidade e são de difícil avaliação, porque
os resultados só aparecem a longo prazo. As universidades vêm
formulando também propostas de tratamento da dependência, nas suas formas as mais variadas – grupos de ajuda mútua, psicoterapia
individual e em grupo, terapia familiar, programas de internação de
maior ou menor duração, programas de troca de seringas e agulhas
entre os usuários que utilizam a via endovenosa. Em face da
diversidade das situações vividas, são admitidas diferentes
possibilidades: o uso controlado, a abstinência do uso endovenoso,
o uso seguro (sem compartilhar seringas e agulhas), a passagem do
uso de droga ilegal para o uso de drogas legais são percebidos como objetivos reais, tendo em vista a situação de sofrimento
anterior.
O discurso dominante, entretanto, continua organizando
campanhas, periodicamente, com base no mote “diga não às
drogas’, “drogas, nem morto”, “drogas, tô fora”, “sou careta, mas sou
feliz”, prevenção clássica baseada na interdição de consumo,
projeto de prevenção que confunde mais do que esclarece. No
Brasil, predomina ainda o discurso repressivo, não havendo registro de políticas democráticas, identificadas com o interesse público no
que se refere às drogas. A política governamental foi, durante
muitos anos, uma expressão do texto legal – Lei n. 6.368, elaborada
em 1976, durante a ditadura militar 1964-1979. Essa lei mantém
presentes as características de um período de exceção: “todos” os
brasileiros “devem prevenir o uso e combater o tráfico ilícito”, sob
risco de penalização; as escolas que não colaborarem correm o
risco de perder subvenções eventuais. Professores deverão receber formação sobre o tema durante a graduação, benefício até hoje não implementado. Criminaliza-se o usuário, penalizam-se todos os que
estiverem próximos, como cúmplices, facilitadores.
Ainda que distantes de um debate público mais amplo, na década
de 90 surgem propostas alternativas à Lei n. 6.368/76. Em 1999, a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) – criada pelo governo
federal em maio de 1998, por ocasião da 2ª Sessão Especial da
ONU sobre drogas – designa uma comissão para analisá-las. Mais
recentemente, o Projeto de Lei n. 7.134/02, já aprovado pela
Câmara dos Deputados e atualmente em discussão no Senado
Federal, é um exemplo expressivo da necessidade de ‘mudar
alguma coisa para que tudo permaneça igual’, quando, de um lado,
afirma uma série de medidas de respeito aos direitos humanos e, de outro, mantém o objetivo de uma sociedade livre das drogas, de
erradicação do consumo, conservando um capítulo “Dos crimes e
das penas” aplicado aos usuários, numa clara exacerbação do
direito do Estado de legislar no espaço privado, mesmo quando não
há danos a terceiros. A manutenção da Justiça Terapêutica, vista de
certa maneira como um avanço, uma pena alternativa à perda da
liberdade, acontece em meio a sérios questionamentos éticos por
parte dos profissionais da saúde que percebem a inocuidade de qualquer tratamento em situação de constrangimento. No próprio
texto da Política Nacional Antidrogas (Senad, 2004), reafirmado por
esse projeto de lei, essa dubiedade também está presente e
enfraquece a aceitação da redução de danos, de fato valorizada no
que se refere à prevenção da Aids e da hepatite, pragmatismo
fundamental para ‘evitar um mal maior’, mas, sem dúvida,
insuficiente do ponto de vista do pleno respeito aos direitos de
cidadania. Continua não havendo uma distinção clara entre uso e comércio ilícito. Essa ausência de definição deixa um campo aberto
à violação dos direitos de cidadania – na prática, cabe à autoridade
policial, nem sempre capacitada, fazer essa distinção, o que se
torna ainda mais grave quando se leva em conta que, atualmente, o
comércio ilícito de drogas/tráfico é considerado crime hediondo.
Antes da criação da Senad, existiam os Conselhos de
Entorpecentes – nos âmbitos federal, estadual e municipal –,
instâncias dirigidas por civis e encarregados de zelar pela formulação de leis, de políticas públicas na área de drogas. Esses conselhos, de nomeação privilegiada dos governos, de maneira
geral tinham uma prática pouco visível. Hoje, a Senad, diretamente
ligada à Presidência da República, é dirigida por um representante
das Forças Armadas. Tem como proposta “combater o crime organizado, organizar a prevenção e o tratamento”, em que pesem
as propostas apresentadas ao governo de Lula, de modificação
dessa estrutura – desmilitarização da política e transferência da
responsabilidade de seu comando a civis. As propostas explicitadas
no texto da Política Nacional Antidrogas (PNAD) são objeto de
preocupação do ponto de vista pedagógico: pretende-se “criar” a
prevenção, quando ela já existe há muitos anos; anuncia a proposta
de “educação para a legalidade”, reforçando o combate às drogas ilícitas – tráfico e uso. Não leva em conta momentos, já havidos na
história do país, em que o usuário de drogas (ilícitas) não era
criminalizado. Segundo Henmann & Pessoa (1986), a criminalização
do usuário nem sempre foi a norma, mas caracterizou momentos de
exceção, de rompimento político com a democracia –, tornando-se
lei durante o Estado Novo (1930-45) e a partir da ditadura militar
(1964-79) e estendendo-se até os dias de hoje. Ao mesmo tempo,
quando se afirma que “descriminalizar o uso contribui para o aumento do consumo” não se consideram legislações mais brandas
já em vigor em alguns países da Europa e avaliações que, nesses
países, demonstram não ter havido, em conseqüência, aumento do
índice anterior de consumo (Manschot, 1995). O que de fato
aumentou nesses países foi a demanda por orientação e
tratamento, sentindo-se o usuário livre para se manifestar sem
constrangimentos. A Senad pretende também oficialmente tolerar
algumas propostas de tratamento da dependência, em prática há mais de dez anos, baseadas no consumo decrescente da droga,
desde que seja mantido o objetivo final da abstinência. Mas o
objetivo é esclarecido mais adiante: erradicar o uso e tráfico de
drogas. Do ponto de vista do interesse público, fica o temor de
militarização crescente da ‘guerra às drogas’. Militarização que é
afirmada pela promessa de um combate mundial, rigoroso e sem
tréguas ao comércio das drogas hoje consideradas ilícitas, e agora
com participação das Forças Armadas.
A clientela principal da prevenção oficial do uso de drogas tem
sido a juventude. Por vezes associa-se o ‘perigo das drogas’ ao
‘perigo da adolescência’, momento da vida percebido como
ameaçador – período de dúvidas, de questionamento de valores (Charbonneau, 1988).
A adolescência é marcada por transformações físicas e psíquicas.
O questionamento da norma, as transgressões marcam esse
processo que caminha no sentido da emancipação do jovem. A
busca do prazer, a afirmação do desejo são constantes.
O pensamento do adolescente é predominantemente intuitivo, abrindo
facilmente a via da passagem ao ato (...) cabendo ao professor facilitar a
passagem do processo primário ao processo secundário, isto é, o
desenvolvimento da função cognitiva (...). O professor facilita a passagem do
Eu adolescente ao Eu adulto. (Dias, 1979:62)
Através da relação com o aluno, o educador realiza o objetivo da
paideia, ou seja, ajuda na passagem para a vida adulta, para que “esse feixe de pulsões e de imaginação torne-se um anthropos
(autônomo), capaz de governar e ser governado” (Castoriadis,
1989:55). Dessa forma, desde que consciente do papel que pode
representar entre os alunos e pais, o educador se torna um
mediador no processo de construção da ação refletida. Mas até que
ponto as questões suscitadas durante a adolescência sugerem à
memória dos adultos sonhos esquecidos, e também vivências,
passadas e presentes, e essa lembrança muitas vezes é percebida como ameaça à autoridade? Até que ponto a ‘necessidade de
controle’ da adolescência e da experiência da droga, ambas
percebidas como expressões de transgressão, dificultam a
construção de um modelo educativo democrático no que se refere
às drogas?
A reflexão sobre usos entre as comunidades ‘primitivas’ ou em
comunidades de organização recente (a exemplo das colônias do
Santo Daime) pode contribuir para a percepção do quanto o consumo nem sempre é privilégio dos jovens, assim como permitiria
redescobrir que o uso coletivo, amparado em valores comunitários,
pode reduzir a incidência do uso indevido na medida em que, no
interior do próprio grupo, sujeitos mais experientes difundem informações que atuam como mecanismos de controle, construídos
coletivamente e por isso mesmo respeitados. Perdemos a memória
dessas experiências solidárias, mas a história do consumo pode
ajudar a resgatá-las, alterando a noção que identifica a experiência do uso a condutas desviantes.
Para ‘bem educar’, o professor se questiona e admite que ele
próprio também se defronta com a possibilidade da experiência do
uso de drogas. Num pólo oposto, a educação para a legalidade
acredita que só os jovens correm riscos e, portanto, precisam ser
convencidos a todo custo de que ‘a droga faz mal’, devendo abster-
se, adequar-se. Mantido esse propósito, ficam à margem de uma
orientação necessária os que não querem, não conseguem não experimentar, aumentando assim a possibilidade de riscos.
Não há um consenso em torno da idéia de que a toxicomania é o
resultado da equação sujeito-droga-sociedade. De modo geral, nas
ações educativas fala-se, predominantemente, da ação dos
produtos psicoativos no sistema nervoso central, subliminar ou
explicitamente reduzindo a experiência a uma questão biológica,
química, que aconteceria em um organismo igual para todos. Entre
os produtos, os ilegais ainda são considerados os mais perigosos, ‘pesados’, ainda que os levantamentos sobre o uso de drogas entre
estudantes, realizados até o momento, esclareçam que as
substâncias lícitas são as mais usadas e que o índice de
dependentes do uso de drogas ilícitas, no Brasil, é menos dramático
do que o verificado na Europa e nos EUA. 1 O consumo de drogas
ilícitas é considerado ‘caso de polícia’, enquanto os danos
decorrentes do uso crônico do álcool são discutidos como problema
de saúde pública. A exemplo do movimento antitabagista norte-
americano, no Brasil fala-se das doenças decorrentes do consumo
do tabaco, que atingem também os consumidores passivos. Mas,
quando se divulga que a indústria de cigarros no nosso país aumenta a quantidade de substâncias que garantem a dependência
para assegurar o alto índice de vendas, a reação é muito tímida.
Se nos países desenvolvidos a sociedade civil se organiza na
defesa dos seus direitos, no Brasil a sociedade civil se encontra
pouco mobilizada e freqüentemente é exposta à violação de seus
direitos de cidadania. Fala-se pouco dos problemas causados pelo consumo indevido de medicamentos psicoativos – tranqüilizantes,
barbitúricos, substâncias que, depois do álcool e do tabaco, estão
entre as de maior consumo no Brasil. Passa desapercebido na
política antidrogas o uso involuntário de substâncias psicoativas utilizadas na indústria e na agricultura. Sobre esses usos, sobre
essas drogas, as autoridades mantêm controles bastante
deficientes. Entretanto, o discurso tradicional repete que o grande
mal vem do uso dos produtos ilícitos. O reconhecimento das
variáveis que intervêm na configuração de um quadro de
dependência é mais teórico e superficial do que prático e revelador.
Se, por um lado, o discurso da clínica manifesta um maior
conhecimento da personalidade do sujeito dependente, os profissionais da saúde que atuam na área por vezes estão muito
distantes de um compromisso com a garantia dos direitos de
cidadania de seus pacientes. A construção de uma prática
efetivamente democrática fica, quando muito, a meio caminho, na
medida também em que o debate sobre os diferentes usos da
atualidade permanece limitado aos círculos dos especialistas da
área da saúde. A discussão restrita ao campo das disciplinas e que
não se torna coletiva se realiza apenas dentro de um jogo estreito, que exclui a maioria dos sujeitos e afirma mais uma vez o privilégio
de quem detém o poder do discurso da ciência.
São raros os programas que esclarecem as diferentes formas de
uso da droga: experimental, ocasional, habitual, dependente – este
último sem dúvida de difícil tratamento. São raros os que
esclarecem que nem todo uso significa alteração do estado de
saúde. Em que pesem alguns esforços, de maneira geral prevalece
a noção de que todos os usos são igualmente perigosos. Prevalece a noção também de ‘escalada’, segundo a qual, quase
obrigatoriamente, a primeira experiência daria origem à
dependência. Na medida em que a prática do uso se generalizou –
todos nós, em algum momento da vida, já usamos algum tipo de
droga psicoativa legal ou ilegal –, generaliza-se também a noção da
tragédia decorrente do uso.
A responsabilidade individual fragilizada, a carência de autoridade
parental são aceitos como fatores de risco da dependência. É significativa a atribuição individualizada de responsabilidades, mas ainda é rara a discussão sobre a influência do modelo de sociedade
de consumo no uso de drogas. Esse modelo se caracteriza por
mensagens mais ou menos explícitas e bastante contraditórias –
“consuma para ser feliz/não consuma drogas ilícitas”, “a lei proíbe certos produtos/tolera-se o desrespeito à lei em certos momentos,
desde que praticado por certos grupos sociais” –, que geram a idéia
de que nada é verdade, pois existem leis que não são, na prática,
cumpridas, fator que não contribui para a formação da consciência
do cidadão como sujeito de direitos e deveres. Tais mensagens
desorganizam e tornam difusas questões sobre o que é legal mas
não é justo, como, por exemplo, a criminalização do usuário. A
educação para a autonomia, em um projeto democrático sobre drogas, pelo contrário, esclarece que as leis existem, precisam ser
cumpridas, ainda que o cidadão tenha o direito de questionar sua
justiça e conveniência.
Ações educativas nas escolas, empresas, comunidades discutem
os problemas decorrentes do uso de drogas, a incidência da relação
entre uso e absenteísmo na escola e no trabalho, acidentes de
trabalho e internações hospitalares. Muitas vezes omitem-se as
causas associadas ao uso indevido: o discurso dominante associa o uso de drogas, basicamente, à perturbação da capacidade de
estudo, de produção, tendendo mais a uma análise de custo/
benefício, a partir da preocupação essencial com os interesses de
mercado que excluem interesses coletivos mais amplos.
Nos programas educativos, fala-se muito pouco sobre o prazer
como uma das motivações do uso. Daí os programas criarem
poucas alternativas realmente prazerosas e, quando o fazem,
freqüentemente se restringirem ao campo das atividades físicas – cultuando o corpo, como fonte de prazer –, na maior parte do tempo
tendendo a cansar o corpo para que as consciências não
devaneiem demasiadamente. A necessidade vital do prazer,
particularmente forte entre os jovens, soa como uma ameaça para
os adultos.
O modelo de sociedade individualista e competitivo, a restrição
dos espaços de prazer, o mercado de produção crescente de
substâncias psicoativas somam-se negativamente para fortalecer a tendência a resolvermos nossos problemas preferencialmente pela via química. Nesse quadro, cria-se um impasse nas relações
humanas porque competir significa ultrapassar, eliminar o outro. Até
que ponto a generalização do uso de drogas não seria, então, uma
forma de corresponder a esse modelo de realização? Na lógica do discurso dominante, essas questões permanecem obscuras: o
procedimento do comentário, que consiste em repetir os mesmo
conceitos, com formulações diferentes, intervém, segundo Foucault
(1971), através da repetição da proposta de erradicação de um
consumo, ainda percebido como ato desviante e minoritário, mesmo
que a realidade de sua generalização e banalização demonstre o
contrário.
O uso de certas drogas lícitas – tabaco, por exemplo, – perde um pouco do seu glamour, mas prevalece ainda a pedagogia do terror
(a exemplo das fotos divulgadas nos maços de cigarros). O uso do
álcool continua sendo evocado de forma glamourizada – associado
à juventude, à beleza, ao sucesso de figuras públicas – e
incentivado, como na recente publicidade do “experimenta,
experimenta”, numa abordagem bem diferente dos clipes das
campanhas contra as drogas de uso ilícito: nesse caso o prazer é
totalmente negado, predominando imagens de perigo, doença, escuridão, degradação física, horror, morte. Assim, permanece a
confusão entre o verdadeiro e o falso, que não contribui para
esclarecer as diferenças de uso que foram, e continuam sendo,
construídas historicamente. O esclarecimento se compromete,
assim como a construção de uma consciência dos riscos.
É também comum, em textos sobre drogas, a afirmação de que a
prática do uso faz parte da história da humanidade, desde que
permaneça relegada a um passado bem longínquo ou projetada num futuro distante – sempre distante do presente. Entre a busca da
abstinência e a luta pela descriminalização do usuário, perde-se um
tempo precioso de discussão sobre a (re)construção de
mecanismos de controle, individuais e coletivos, estes sim com força
para evitar os danos decorrentes do uso indevido. Na medida em
que a história dos muitos consumos se perde no tempo, o discurso
se torna rarefeito, sem consistência, contribuindo para entorpecer
nossa razão.
Programas sobre drogas, integrados ao dia-a-dia das escolas, são
ainda experiências isoladas. Predominam as práticas esporádicas,
as palestras de ‘especialistas na área’ que se limitam a falar sobre
como o produto psicoativo atua no sistema nervoso central, como a dependência se manifesta, mas pouco sabem dizer sobre a relação
entre o uso de drogas e as condições sociais de vida da
comunidade e, assim, não ajudam a pensar alternativas de
mudança. Apela-se por vezes para a confissão de ‘ex-drogados’,
prática que tem, em geral, efeitos paradoxais: os ‘ex’ se apresentam
tão bem dispostos que os jovens tendem a minimizar os relatos de
suas tragédias passadas. A expulsão dos alunos usuários tem se
tornado freqüente, reforçando situações de exclusão. Possibilidades pedagógicas de encaminhamento da questão não se realizam
quando se fazem exames antidoping nas escolas, nas empresas,
para identificar usuários. Reafirma-se a tendência a sanções
drásticas – tradução da abordagem jurídico-legal antidrogas – a
partir da crença na supremacia da ação do produto sobre o sujeito.
Existem, entretanto, alguns relatos de atuações pedagógicas
democráticas. São experiências que, ao invés de se limitar à
pergunta “por que as pessoas se drogam?”, colocam outro tipo de questão: “por que alguns não se drogam?”, “por que alguns usam e
controlam o uso, e/ou não têm tantos problemas?”. São
experiências que investem na consciência dos direitos de cidadania,
na capacidade de construção de sujeitos autônomos capazes de
reflexão e ação responsável. Seu ‘segredo’ reside na percepção
aguda diante de situações de risco e do necessário cuidado que o
educador deve ter em não potencializar uma exclusão já existente.
Tais experiências apostam na construção de valores que orientem a educação sobre drogas através de uma relação solidária, não
discriminatória, entre professores e alunos, invertendo a relação
pedagógica tradicional.
No que se refere às substâncias de uso permitido, no processo de
trabalho, pode-se falar em uso indevido, em violação dos direitos de
cidadania? A resposta, sem dúvida, é afirmativa. Na década de 90,
na cidade de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul, a Comissão de
Direitos Humanos da Assembléia Legislativa denunciou casos de depressão e suicídio entre os agricultores da lavoura de fumo local, intoxicados por agrotóxicos psicoativos. Recentemente, no Rio de
Janeiro, a 9ª Vara de Fazenda Pública deu um prazo de 60 dias
para a empresa Pan-Americana substituir, na produção do cloro, o
uso de mercúrio, que traz sérios riscos não só à saúde dos
trabalhadores, mas também ao meio ambiente, 2 fato constatado
desde o início dos anos 90 por pesquisadores e que contraria a Lei
n. 2.436/95, de autoria do deputado Carlos Minc (Partido dos Trabalhadores). Nesse caso, seria impossível responsabilizar o
‘usuário’, individualizar o problema como decorrente de fragilidade
pessoal, psíquica ou física, pois trata-se, de fato, de violação dos
direitos, nas áreas do trabalho e do meio ambiente. É importante,
também, ressaltar que as promessas veiculadas pela publicidade,
tão comuns no que se refere às drogas lícitas, são enganosas e
ferem os direitos de cidadania. Tem sido rara a apelação jurídica de
reparação dos danos, apenas registrando-se ações judiciais de indenizações por danos decorrentes do uso de tabaco – mais
numerosas nos EUA, algumas já no Brasil.
Violências cometidas em nome do ‘combate às drogas’ são
comuns, e particularmente dirigidas à população que mora nas
favelas, sistematicamente identificada ao tráfico de drogas ilícitas,
reforçando a construção negativa da identidade dos moradores
dessas comunidades. As manifestações contrárias a essa
identificação ainda são raras. No início de 1998, em uma favela do Rio de Janeiro, familiares de um rapaz – trabalhador, com emprego
fixo – morto pela polícia, em um confronto, como ‘traficante’,
moveram uma ação judicial requerendo indenização pela injustiça
cometida. Mais recentemente, familiares de três jovens moradores
da Rocinha, no Rio de Janeiro, movem ação jurídica contra o Estado
– segundo a família e a comunidade, os jovens foram mortos pela
polícia quando voltando de uma festa, numa madrugada de
domingo. Estudavam durante a semana, trabalhavam em feiras livres aos domingos. No dia seguinte ao das mortes, autoridades do
Estado afirmavam “eram traficantes e estavam armados”.
Ainda muito tímida no Brasil, a noção de direitos de cidadania dos
usuários de drogas é uma realidade em alguns países da Europa.
Em 1992, a associação dos profissionais na área da toxicomania
aprovou a Carta de Lisboa (Lazarus, 1995), pretendendo que os termos dessa declaração se tornassem uma realidade internacional.
Afirma-se no documento que o dependente de drogas é um cidadão,
com direitos e deveres. A toxicomania expressa um sofrimento que
leva a dificuldades diversas – físicas, psíquicas e sociais –, e, mesmo prolongada, deve ser considerada como uma situação
transitória. As pessoas nessa situação devem sempre ter acesso a
tratamentos que respeitem sua dignidade e lhes permitam inserção
social. No que se refere aos direitos trabalhistas, o toxicômano deve
ter licença para tratamento, como em qualquer outro caso de
doença. O Estado é responsável pela formulação de políticas
públicas de saúde, educação, juventude, família, previdência social,
justiça, emprego, de âmbitos nacional e local, integrando atividades públicas e privadas. A definição dessas políticas exige
competências técnicas e respeito à pluralidade de modelos de
tratamento. Os governos devem assumir, sem exploração política ou
ideológica, suas responsabilidades de garantir o acesso à
orientação e ao tratamento de qualidade, respeitados os direitos e
as liberdades individuais. Essa carta teve repercussão em nosso
país, quando muitos profissionais atuantes na área endossaram
pontos nela assinalados. Ora, a possibilidade de uma política democrática sobre drogas sem dúvida depende, em muito, de ações
desse tipo, que expressam o compromisso político articulado.
Em 2000, foi divulgada uma Declaração dos Usuários de Drogas,
estendendo as afirmações da Carta de Lisboa aos usuários de
maneira geral. Essa declaração foi assinada por deputados
estaduais do Rio de Janeiro e por várias ONGs e associações de
defesa dos direitos humanos. O texto serviu de base para a
elaboração de um projeto de lei estadual de autoria do deputado estadual Carlos Minc (PT-RJ), tornado lei 4.074/03. Um avanço, sem
dúvida, embora a afirmação elementar “o usuário de drogas é um
cidadão com direitos e deveres” não tenha sido aceita e,
principalmente, não se tenha aceitado nenhuma referência à
Redução de Danos, proposta que já é lei em alguns estados
brasileiros (São Paulo e Espírito Santo, por exemplo).
No Brasil, a influência da política repressiva norte-americana é
ainda muito presente. Entre nós, soma-se negativamente a noção “usuário é um doente” à noção “usuário de drogas ilícitas é um marginal”. A perspectiva de eliminação do problema rapidamente
sugere a eliminação, a exclusão dos próprios sujeitos. Trata-se de
um discurso paradoxal, que considera o usuário um doente e propõe
como tratamento, no mínimo, sua marginalização, amparado sem dúvida no discurso da lei que reconhece a doença e propõe como
tratamento a privação da liberdade.
A prevenção vem formando ‘agentes multiplicadores’. Mas se são
tantas as perguntas, tantas as possibilidades de respostas... por que
multiplicar essencialmente a mensagem antidrogas? Até que ponto
a formação de agentes multiplicadores com um pensamento único
pode sugerir sujeitos idênticos que repetirão indefinidamente aquilo
que já foi dito por meio de técnicas pedagógicas sempre renovadas? Afinal, não se trata de aprender questões específicas, mas sim de
aprender a aprender, aprender a descobrir, aprender a inventar. É,
entretanto, ainda muito frágil a perspectiva de formação de sujeitos
capazes de ação e reflexão, sujeitos capazes de formular perguntas,
elaborar respostas, propostas, em um projeto de construção de
autonomia.
Formar ou informar? Sempre se disse que o principal na
prevenção é a informação científica atualizada. Mas fez-se isso e não foi o bastante. Informação e formação, fornecidas/impostas e
supostamente aceitas, não mudam atitudes. Parece haver carência
de informação e formação de interesse público. Mais importante que
as informações sobre os produtos em si, a educação sobre drogas
deveria promover o debate sobre os valores sociais, políticos, sobre
as relações entre os sujeitos, sobre a liberdade individual, sobre o
direito a dispor de seu próprio corpo. A informação sobre a ação das
drogas no organismo e sobre as conseqüências previstas em lei, no caso do uso de produtos hoje considerados ilícitos, não é
suficientemente esclarecedora sobre o que acontece na realidade. É
necessário discutir sobre as políticas públicas, sobre a organização
da cidade, esclarecendo-se a cartografia dos problemas vividos
pelos diferentes grupos sociais e abrindo-se possibilidades reais de
intervenção nas condições de vida (Lazarus, 1995).
São muitas as questões que envolvem a experiência da droga. O
‘problema’ da droga evoca tantos argumentos, e apesar de tanta complexidade reconhecida pelo menos teoricamente, muitas vezes, na prática, os discursos sobre ela são, de maneira geral, simplistas,
permanecendo no campo restrito do “faz mal”, “é proibido”. Pensar o
uso de drogas dessa forma reducionista dificulta a possibilidade de
construção de uma fala alternativa e torna perene o despreparo dos educadores.
Segundo Olievenstein (1984:2),
O problema da droga não existe em si, mas seria o resultado do encontro de
um produto, uma personalidade e um modelo sócio-cultural. Isto quer dizer
que qualquer pessoa, a qualquer momento, pode encontrar um produto
tóxico, legal ou ilegal, em seu caminho. Toda a política sobre drogas deve
levar em conta estes pressupostos. Entretanto, a maioria das pessoas que
experimentam drogas uma ou algumas vezes não se tornará doente, o que
significa dizer que, diante da droga, não existe um destino igual para todos.
No que se refere à construção dos discursos sobre o uso de
drogas, nem sempre a interação dialética da equação explicativa da
dependência foi percebida na sua riqueza, e muitas identificações
perigosas têm sido associadas à necessidade de uma prevenção
repressiva antidrogas que, sempre é bom lembrar, tem fracassado.
Como alternativa à prevenção primária do uso de drogas, que luta
pela abstinência de forma radical, sugere-se a educação para a
autonomia, que afirma os direitos e deveres dos cidadãos e
aprofunda a compreensão dos danos decorrentes de quaisquer
usos. Nesse sentido, a reflexão sobre as propostas de classificação
dos discursos esclarece seus mecanismos de construção,
questionando mitos e mistificações.
As classificações dos discursos
sobre as drogas
Para analisar a construção dos discursos sobre as drogas, alguns
autores elaboraram classificações, identificando modelos
preventivos. Helen Nowlis (1975) e Ana Lia Kornblit (1988)
basearam-se na importância dada a uma das três variáveis que
intervêm na dependência, ou seja, produto, personalidade e momento/meio sociocultural. Nowlis (1975:50) identifica quatro
modelos “decorrentes das posições assumidas a respeito das
variáveis droga, indivíduo e contexto sócio-cultural, mas que
dependem também de outras suposições relativas ao comportamento”: o modelo jurídico-moral, o modelo de saúde
pública, o modelo psicossocial e o modelo sociocultural.
Por meio do discurso jurídico-moral, tradicionalmente buscou-se,
com a punição ou a ameaça de punição, manter o indivíduo
afastado do consumo, evitar um comportamento considerado
indesejável. O uso de drogas (ilícitas) é aí considerado desvio
social, crime. A informação sobre os perigos decorrentes do uso de
drogas ilícitas é, nesse discurso, fundamental na medida em que fortalece e justifica as leis repressivas do uso. Segundo essa
proposta, o texto da lei antidrogas prevalece como proposta
educativa. Todas as substâncias são consideradas igualmente
perigosas, mas as ilícitas são definidas como as essencialmente
mais perigosas, as mais procuradas pelos jovens, ainda que os
levantamentos até agora realizados no país afirmem justamente um
maior consumo de drogas lícitas entre eles. Os jovens aqui são
considerados como população mais vulnerável, física e psiquicamente. Todos os indivíduos seriam passíveis de se tornarem
dependentes. O contexto sociocultural é visto como permissivo, e a
‘crise de valores’ sugere a importância de leis duras. Os efeitos do
uso de drogas são sempre absolutamente trágicos. E, como todos
são vulneráveis, os programas devem ser dirigidos a todos, mas
principalmente aos jovens – ao perigo do uso de drogas, somar-se-
ia a própria fase da adolescência, considerada período perigoso da
vida, momento no qual princípios são questionados, novas percepções da realidade estão se incorporando, em um desejo de
transformação considerado ameaçador e diante do qual o controle é
a melhor solução.
Reforçando a erradicação do consumo de substâncias
psicoativas, um segundo modelo – de saúde pública – identificou o
uso de drogas à doença, copiando o discurso sobre as doenças
infectocontagiosas. A partir dessa construção, torna-se essencial
eliminar o ‘bacilo’, ‘o vírus’ (leia-se o produto), para que as pessoas não se contaminem. Aprendemos, com esse discurso, que, se há menos ‘agentes transmissores’ (usuários) em circulação, haverá
menos chances de ficarmos doentes. A droga é o vetor, o indivíduo
é o hospedeiro e o momento sociocultural/meio ambiente sugere o
consumo. A substância psicoativa tem uma ação determinante e a população – considerada indefesa, quando diante da droga – deve
ser informada acerca de seus efeitos. A informação deve envolver
drogas lícitas e ilícitas, pois se trata de preservar a saúde e evitar a
doença. Todos os indivíduos são considerados vulneráveis, já que o
meio ambiente é visto como permissivo e destituído de valores,
logo, favorável à contaminação. Como não é possível ter a certeza
da erradicação dos ‘bacilos’, dos ‘vírus’, vamos precisar de
verdadeiras campanhas de ‘vacinação’ que ajudem a resistir ao apelo do uso, à pressão dos amigos. E se a ‘vacinação’ não
funcionar – afinal, estamos falando de comportamentos humanos?
Nesse modelo de discurso, o desejo, a vontade do sujeito,
fundamentais no processo da educação democrática, são
considerados obstáculos. E no caso de dependência, preconiza-se o
isolamento dos usuários, que precisariam ser tratados, evitando-se
que contaminem os demais. Nesses dois modelos de discurso,
percebe-se a importância dada ao produto, considerado determinante na evolução inexorável do uso para a dependência.
O modelo de discurso psicossocial parte do princípio de que “o
uso ou não uso de drogas é um comportamento humano, algo
complexo e sujeito a fatores sociais e culturais” (Nowlis, 1975:50).
Resgata-se o lugar do indivíduo, que se torna o ator principal, o
centro das atenções. A informação sobre os efeitos do uso de
drogas, lícitas e ilícitas, continua sendo uma questão importante,
mas constata-se que a informação, tradicionalmente divulgada de forma autoritária e recebida passivamente, ou não, contribui para o
alcance dos objetivos ou é mesmo contraproducente. O discurso
preventivo psicossocial reconhece que a falta de credibilidade,
decorrente de informações parciais que não dão conta da realidade
do consumo, provocou negação ou fascinação diante dos riscos do
uso. No modelo preventivo modifica-se a metodologia da
transmissão da informação: a necessidade de modernização
metodológica sugere a participação dos jovens na realização dos programas educativos com relação às drogas. Relaciona-se informação e ‘formação de atitudes’ para tentar fortalecer a
capacidade de tomar decisões. A história da prevenção tem
mostrado que esse modelo preventivo alterou a metodologia mas o
conteúdo de prevenção – a busca da abstinência – permaneceu intocado. Os jovens são chamados a participar da execução dos
projetos, mas não de sua elaboração. O incentivo a mudanças de
comportamento, estimuladas nesse modelo, se torna provisório,
frágil, porque não se investiu na formação de sujeitos de reflexão e
ação. Sem dúvida, na medida em que o sujeito se torna o ator
principal de sua história, ficam abertas as possibilidades de
fortalecimento de um projeto educacional voltado para a construção
da autonomia, mas como o objetivo da prevenção se mantém – a abstinência, a erradicação do uso –, corre-se o risco de, em caso de
fragilidade individual, repetir-se a culpabilização individual do sujeito.
No terceiro modelo – sociocultural -, a estratégia é a
transformação do contexto social, com base na convicção de que é
ele o responsável por comportamentos desviantes. Sugerem-se
mudanças nesse contexto, ao invés de se tentar adequar o indivíduo
ao meio. Trata-se de um discurso de humanização das instituições
de ensino e trabalho. O modelo defende o controle da propaganda de todas as drogas e a necessidade de rever as leis que causam
mais danos que o comportamento que visam a controlar,
constituindo-se em uma primeira abertura para a crítica aos modelos
proibicionistas.
Segundo Nowlis (1975), o modelo de discurso eficaz mantém a
perspectiva preventiva de busca de abstinência, incorporando as
quatro perspectivas em um modelo psicossocial abrangente.
Modernização das técnicas de ensino, informação criteriosa e científica garantiriam sua credibilidade entre o público. Associa-se a
necessidade de informação – base de decisões com conhecimento
de causa – à necessidade de prevenir os danos causados pelo
abuso de drogas. Não se pode negar o relativo avanço na
construção de um processo educativo democrático sobre a questão.
A autora conclui afirmando que a prevenção deve se humanizar: a
informação deve ser construtiva, sem apelos dramáticos,
considerados contraproducentes. Deverá ser programada com base no currículo das disciplinas de história, química, biologia, literatura e ciências sociais, para dar conta da complexidade do tema. A criação
de um clima favorável na escola contribuirá para que os alunos
gostem de si mesmos e mantenham boas relações com os outros. A
preocupação central da escola deverá ser a de abrir possibilidades intelectuais, sociais, culturais e recreativas, como alternativas ao
uso de drogas. A participação de todos na realização – não na
elaboração – dos programas preventivos deve ser, segundo Nowlis,
um objetivo, o que contribuirá para melhorar os comportamentos
socialmente desejáveis. Sugerem-se a formação de monitores,
grupos de aconselhamento, treinamento de lideranças. Os
professores encarregados de informar sobre o uso/abuso de drogas
devem ter uma formação especializada. O educador precisa ultrapassar a mera transmissão de informações e contribuir para a
formação de valores pessoais e sociais, em uma atuação conjunta
com os pais.
O modelo de discurso defendido por Nowlis ultrapassa em vários
momentos o reducionismo característico da prevenção tradicional,
mas ainda fica restrito ao aperfeiçoamento da competência técnica.
Modernizam-se a linguagem e a metodologia sem transformação
real dos valores subjacentes ao modelo: garantir a abstinência, adequar o indivíduo ‘ao efeito desejado’. Nowlis declara-se
explicitamente favorável à inclusão de todos os argumentos que
favoreçam a abstinência, também afirmando a necessidade de os
educadores explicitarem essa opção, que os alunos devem aceitar
(Nowlis, 1975). O modelo preventivo, preconizado por Nowlis, prevê
a participação dos alunos restrita à execução dos programas, não
permitindo uma atuação dos jovens na sua elaboração, mantendo o
procedimento de exclusão dos sujeitos na produção dos discursos sobre as drogas. Nowlis aponta as possibilidades de uma ação
educativa democrática, mas sua proposta se compromete quando
afirma que “trata-se de fazer de maneira diferente o que já vinha
sendo feito antes, ou então de favorecer a mobilização de talentos
que não estavam sendo aproveitados na sua capacidade máxima”
(1975:60).
A segunda classificação dos discursos sobre as drogas (Kornblit,
1988) define quatro modelos de discursos, à semelhança da proposta anterior: o modelo ético-jurídico, que privilegia a informação sobre as substâncias e as medidas legais e penais,
como forma de evitar o consumo de drogas; o modelo médico-
sanitário, que considera o dependente um enfermo a ser tratado; o
modelo psicossocial, que percebe o sujeito na sua relação com o meio ambiente e busca identificar as motivações individuais que
levam ao abuso; o modelo sociocultural, que considera o meio
ambiente como gerador da dependência, concentrando toda a ação
preventiva na sua transformação.
Cada um desses modelos teria correspondido, segundo a autora,
a uma fase da prevenção. Nos anos 60 teria predominado o
discurso ético-jurídico, que, por intermédio da escola, procurou
difundir informações ameaçadoras sobre o uso/efeitos das drogas. Nos anos 70, após as primeiras avaliações negativas dessa
proposta, concluiu-se pela necessidade de mudanças na
abordagem preventiva. Reconhece-se, tanto quanto na classificação
anterior, que sem a participação dos jovens e da comunidade na
realização dos programas não será possível alcançar os objetivos.
São consideradas necessárias técnicas pedagógicas mais
adequadas: formação de grupos de crescimento pessoal,
classificação de valores, treinamento de lideranças e fortalecimento da tomada de decisões, baseadas na compreensão de que
mudanças de atitudes geram mudanças de comportamento.
Nos anos 80, após novas avaliações, teriam surgido duas
tendências na prevenção: a proposta americana, de informação
sobre os efeitos das drogas ilícitas e sobre as leis que proíbem seu
consumo, e a tendência européia, baseada em programas gerais de
educação para a saúde e que tem como objetivo influir sobre o estilo
de vida, no quadro de uma política integral voltada para a juventude. Essa proposta foi considerada por Kornblit como de difícil aplicação
nos países do Terceiro Mundo, tendo em vista a frágil participação
social dos jovens nas escolas, conseqüência da ausência de
políticas voltadas para integração das gerações mais jovens, ainda
que a escola permaneça como suporte principal dos programas
sobre drogas. Aconselha-se evitar o excesso de informação, o
sensacionalismo, que devem ser substituídos pela auto-observação
e pela construção do senso crítico. Educar para a saúde significaria poder conceituar a dependência, entre outras condutas, como parte de um contexto no qual os jovens não escapam às exigências de
um processo econômico e ao qual opõem sua contracultura, opõem
outras percepções da realidade.
Nessa classificação, o valor dado à informação sobre o produto em si e seus efeitos no organismo cede espaço para as outras
variáveis, e o objetivo de ‘formar atitudes positivas’ de negação das
drogas ganha lugar de destaque. Kornblit afirma a necessidade de
um processo gradual de construção do desejo de mudança, do
hábito em si, da predisposição ao hábito. Partindo da premissa de
que a dependência de drogas se constrói como uma conduta em
que os laços sociais se perderam, seria urgente atuar sobre a auto-
estima, como fator de fortalecimento da capacidade de tomar decisões.
A dependência é redefinida como um ‘mau comportamento’, e não
mais como doença, ampliando a base de sustentação social e
cultural do conceito. Afirma-se a idéia de que os recursos capazes
de organizar intervenções efetivas estão na própria comunidade,
nos seus próprios agentes que se substituem aos tradicionais
agentes externos de intervenção. Drogas legais e ilegais devem ser
tratadas no mesmo nível, na compreensão de que a legalidade ou ilegalidade de uma droga não tem sido definida em função da
intensidade dos problemas de saúde decorrentes do seu uso, mas
sim em função de questões econômicas, políticas e culturais. O
‘problema’ da droga deve ser tratado como um entre outros
problemas vividos pelos jovens, negando-se qualquer
sensacionalismo, que tem como conseqüência a marginalização. A
busca da abstinência não é o único objetivo nesse modelo de
discurso; entretanto, a proposta de prevenir não só o abuso mas o próprio uso se justifica, segundo a autora, porque, na prática, a
melhor estratégia preventiva consistiria em reduzir os níveis globais
de consumo na comunidade: a intensidade dos problemas
relacionados com o consumo de drogas seria proporcional ao nível
de consumo global por habitante.
As duas classificações definem os modelos de discursos em
função das posições assumidas a respeito das variáveis produto,
sujeito e contexto sociocultural. Na primeira, prevalece a modernização dos métodos pedagógicos sem uma avaliação crítica dos pressupostos que servem de base aos diferentes (mas não
tanto) discursos. Na segunda, discute-se a historicidade da
prevenção do uso/abuso de drogas e questionam-se as bases de
sustentação dos quatro modelos de discursos apresentados quando se acentua a importância da proposta européia, abrangente, de
valorização da vida, de intervenção não assistencialista e com
ênfase na mobilização de recursos da comunidade. A partir daí, os
programas deveriam buscar a transformação dos climas sociais
favoráveis à dependência em climas sociais favoráveis à evolução
social. Enquanto Nowlis propunha, como síntese, um programa
voltado para a criação de um clima ‘positivo’ na escola, apoiado
numa filosofia comportamental, o modelo proposto por Kornblit abre possibilidade para uma atuação conjunta de toda a comunidade na
construção coletiva de um saber e de formas coletivas de uso
controlado, reduzindo-se os danos.
Uma terceira proposta de classificação dos discursos sobre as
drogas foi elaborada por Beatriz Carlini-Cotrim (1988) e define três
linhas distintas de atuação nas escolas, a partir da relação de poder
estabelecida entre o educador e o educando: controle social,
oferecimento de alternativas e educação. O discurso de controle social é semelhante ao dos modelos jurídico-moral/ético-jurídico,
saúde pública/médico-sanitário, das classificações anteriores. As
linhas de oferecimento de alternativas e educação desdobram
classificações anteriores – o modelo do princípio moral, o modelo do
amedrontamento. A autora critica a falta de credibilidade dos
programas insistindo na importância fundamental da informação
científica, identificando-se com a perspectiva européia – de
educação para a vida saudável, referida também por Kornblit. Nessa perspectiva, a noção de prevenção como busca da abstinência
parece ceder espaço para uma ação pedagógica sensível à
compreensão da diferença entre diferentes usos – uso controlado,
uso dependente –, afirmando a importância do diálogo entre
educadores e alunos, em uma proposta de construção de
autonomia, semelhante à de Bucher (1989), voltada para a
‘educação sobre drogas’, baseada na prevenção primária da
dependência, e que incorpora, sem meias verdades, a noção de consumo como parte da história da humanidade.
Acreditamos que os discursos sobre as drogas não se constroem
isoladamente, mas refletem um discurso pedagógico mais amplo.
Para compreender seu processo de construção, deve-se levar em
conta: 1) a vertente política que invade todas as atividades humanas: a educação como ação social, política, sofre as injunções
do poder, poder este que se sente perturbado, ameaçado pela
produção de drogas ilícitas em certos territórios dependentes e pelo
consumo maior dessas substâncias na Europa e nos EUA; 2) a
vertente técnico-científica, que assume um tipo de crescimento que
se transforma em ameaça à qualidade de vida social, psíquica e
cultural, na medida em que provoca danos ao meio ambiente, entre
os quais a própria disseminação descontrolada do consumo de drogas, e 3) a vertente do próprio contexto do mundo dependente
caracterizado pela miséria, por instabilidade e crises, marcado pelo
avanço da globalização.
Essas três vertentes exercem pressões e impõem valores que se
manifestam na ação pedagógica que ora reproduz e repete valores
estabelecidos, ora inova e produz alternativas. Segundo Pey
(1988:11),
Na escola as pessoas falam, escrevem e lêem. São falas que fazem falar, e
também falas que calam, inibem, ocultam, confundem. Professores e
estudantes instalam um discurso que ora reproduz mecanicamente os
conteúdos, ora se compromete com o ato de estudar mais rigorosamente.
De acordo com o discurso pedagógico tradicional, autoritário, o
professor ensina e o aluno aprende. Entretanto, cabe lembrar que,
se o professor fala, ele também pode ouvir para melhor ensinar. E
se o aluno que ouve também puder falar sobre suas experiências, sobre seus desejos, ele aprenderá melhor o que não sabe. “O ouvir
do professor é introduzido na dinâmica do discurso como elemento
que desmancha a hierarquia, e valendo-se dela para construir o
conteúdo a ensinar e a aprender” (Pey, 1988:19).
Importa, então, perguntar: quem ensina, quem aprende nos
programas sobre as drogas nas escolas? A relação de poder
tradicional no discurso pedagógico se inverte: o aluno, no limiar da
vida adulta, experimenta e sabe, ao passo que o professor, investido de sua autoridade e responsabilidade e nelas fechado, dominado pelo discurso proibicionista oficial, tem dificuldades em se lembrar
de suas experiências, e por isso tem um saber frágil. De um lado, o
professor, incorporando a proposta pedagógica autoritária, não se
questiona, temendo perder sua autoridade. De outro, o aluno que busca percebe outras formas de descoberta e tudo questiona. A
relação de poder na pedagogia tradicional sofre um ‘terremoto’, no
que se refere à experiência das drogas, e professores e alunos
ficam à deriva. Os educadores precisam se dispor a repensar o
lugar que ocupam e as relações que estabelecem com seus alunos.
A relação de poder entre educadores e educandos e a
intervenção de procedimentos de exclusão ameaçam a
possibilidade de construção de um discurso pedagógico democrático. Na construção desse discurso democrático, a própria
linguagem acerca das drogas precisa ser esclarecida: o conceito tão
repetido de dependência química empobrece a reflexão sobre o
contexto do uso; o termo ‘narcotráfico’ confunde quando se aplica
ao comércio de substâncias que são estimulantes do sistema
nervoso central, nada semelhante à ação depressora dos
narcóticos; os termos ‘tráfico’ (ao invés de ‘comércio ilícito’) e ‘crime
organizado’ ajudam a dramatizar o problema, justificando a ação violenta da repressão. A publicidade reflete o senso comum – “o
usuário é responsável pela violência do tráfico” –, alimentando a
discriminação, enquanto os moradores das comunidades pobres
afirmem que “a polícia garante o tráfico”. Hoje, muito além das
situações de uso, o envolvimento recente dos jovens com o tráfico
de varejo exige uma reflexão: a verdadeira pedagogia implica outros
valores que não a repressão, o exercício desmedido da autoridade.
A verdadeira paideia significa orientar e ajudar na passagem para a vida adulta de forma solidária, reinventando novas formas de
relação entre educador e educando. Para esclarecer o processo de
construção dos modelos preventivos, sugerimos uma nova
classificação dos discursos e definimos uma atuação pedagógica
que fortaleça a reflexão e ação face à experiência do uso de drogas.
O discurso dominante sobre as drogas tem se caracterizado pelo
autoritarismo, afirmando o objetivo de alcançar “o bem de todos”.
Sua construção parte de uma visão da realidade que é tomada como norma. No discurso autoritário predominam técnicas pedagógicas comportamentais, tentando enquadrar os jovens em
uma abstinência considerada indiscutível, ainda que cheia de
contradições. Se os direitos são desigualmente distribuídos, em que
pese a criminalização do uso, a resposta será desigual: aos jovens de classe média sugere-se um tratamento psicológico mesmo
quando não se comprove dependência; aos jovens moradores de
comunidades pobres, a condenação por tráfico. O discurso
autoritário identifica-se com o discurso pedagógico tradicional, não
permitindo reversibilidade entre os interlocutores, cabendo ao
professor ensinar os riscos do uso de drogas e ao aluno, aprender a
se abster. Está prescrita a fórmula mágica de solução do uso de
drogas. A história do consumo de drogas foi esquecida. O discurso autoritário, na fala do educador, começa em princípios tidos como
imutáveis e a eles se reduz. A experiência do uso de drogas
permanece como extremamente perturbadora, um verdadeiro
enigma. Algumas técnicas pedagógicas, algum conhecimento de
biologia que explique a ação do produto no sistema nervoso central
e o texto legal basicamente a criminalização do uso e a
responsabilidade de controle pedagógico – compõem a receita do
‘bem agir’ que será colocada em prática. Está pronta a ilusão de que estão “preparados para enfrentar o problema”. O professor, assim,
tende a ser porta-voz de um conhecimento e de valores nos quais
nem sempre acredita, mas que mantêm os alunos, até certo ponto,
e pelo menos temporariamente, sob controle. Ficam excluídas as
situações novas, imprevisíveis, sem dúvida tão criativas. Se de
alguma forma alguns se sentem ‘preparados’, muitos professores
percebem a fragilidade da própria função pedagógica assim
definida, na medida em que esta anula, inibe, oculta a fala do aluno. A fórmula mágica parece incompleta. Os educadores se sentem
inseguros, despreparados. A reflexão sobre o cotidiano, sobre as
motivações e dificuldades que condicionam a atuação profissional e
pessoal não foi incluída. O tabu do objeto, o peso das penalidades
em caso de transgressão rompem a possibilidade de diálogo entre
educador e educando.
Ao incorporar discursos pedagógicos autoritários sobre as drogas,
os professores não percebem a diferença entre os usos, e perdem a oportunidade de orientar quanto aos riscos que até mesmo uma simples experiência pode trazer. Diante do que acreditam ser
dependência, optam por ações drásticas e potencialmente
marginalizadoras. Em que pesem as evidências do fracasso da
orientação autoritária, esse é o discurso preventivo referendado pelos órgãos oficiais. Fala e escuta não são intercambiáveis. Ficam
claros, nessa construção, procedimentos de exclusão dos sujeitos: o
educador sempre despreparado, o afastamento do usuário do
convívio coletivo, a negação da possibilidade de esclarecimento do
que é verdadeiro/falso, o jogo estreito de discussão na medida do
poder das disciplinas, fatores que explicam a tragédia da prevenção
atual.
O fracasso dos programas preventivos baseados no autoritarismo contribui para a necessidade de se substituir prevenção por
educação. A competência técnica se impôs como forma de garantir
credibilidade, mas ficou limitada a um discurso de cópia, repetição
de conhecimentos que a prática desmente. O mote de negação do
uso de drogas porque “não é bom para a saúde” não incorpora seus
diferentes usos. Nesse modelo preventivo, o professor continua
sendo o único sujeito do saber, e o saber tem um único sentido.
Raramente o aluno assume a posição de intérprete, sua condição se reduz à de mero repetidor. O distanciamento entre o professor e o
aluno contribui negativamente, ambos estão excluídos da
possibilidade de se tornarem autores do conhecimento. Para as
perguntas formuladas já existem respostas preestabelecidas. Ora,
para que exista a conversa é necessário admitir contribuições
diferentes, aceitar a diferença, mas a experiência da droga, o
sofrimento decorrente da dependência ameaçam a estabilidade
interna de um saber que se acredita único. A abstinência é ainda a meta, tanto quanto no discurso autoritário. O discurso de cópia não
incentiva a autonomia, considerada um perigo em si. Tende a
trabalhar respostas incluídas em um texto anteriormente dado, no
qual todas as ‘verdades’ foram dispostas claramente, sem espaço
para dúvidas.
Conclusão
Como alternativa à pedagogia da prevenção antidrogas autoritária
e de cópia, proibicionista, na contramão dos procedimentos de
controle da construção dos discursos, sugerimos a educação para
autonomia,
pedagogia dialógica, provocante, desafiadora, professores e alunos
suscitando questões, fazendo a crítica do real, buscando identidade com a
prática, num estudo rigoroso, comprometido com a transformação da
realidade, buscando uma sistematização coletiva. (Pey, 1988:29)
As características de intercâmbio entre os sujeitos do
conhecimento e o objeto a ser conhecido – a experiência do uso de
drogas –, a crítica aos mitos e a meias verdades favorecem o encontro entre professores e alunos. No processo discursivo
dialógico aplicado à educação sobre as drogas resgata-se o saber
coletivo, professor e aluno são considerados como sujeitos de
transformação, e não meramente agentes de repetição. Nessa
‘viagem,’ a abstinência é considerada uma opção individual, a
própria experiência da droga é reconhecida como parte da condição
humana. O educador não abre mão de sua responsabilidade de
orientar na passagem para a vida adulta, mas reage contra a função tradicional de ‘vigiar e punir’ (Acselrad, 1989). Assim, rompe-se o
isolamento, em si favorecedor de situações de risco, promovendo-se
o autoconhecimento, gerando-se autovalorização e
responsabilização dos sujeitos na relação com o outro e em grupo.
Essa postura pedagógica possibilita refletir sobre como o uso de
drogas tem sido tratado, ao longo do tempo, e cria o poder de
inventar novas formas coletivas de lidar com a questão (Savater,
2000). Aprofunda-se a reflexão sobre os riscos, mas o objetivo central, tendo em vista a generalização da experiência, é a redução
de danos (e não do próprio risco, este inerente à vida). Para isso, é
preciso atuar na (re)construção de mecanismos de controle
individuais e coletivos. Nesse modelo, percebe-se que os danos
decorrentes do uso não se restringem à saúde individual, mas se
estendem à saúde coletiva de forma ampla, em termos do bem-
estar no mundo. A noção de que o uso de drogas faz parte da
história da humanidade é, de fato, aceita. Tendo em vista que os avanços tecnológicos atuais favorecem a produção de substâncias psicoativas, compreende-se que, dificilmente, a prática do uso de
drogas poderá ser erradicada do planeta, como sugerem algumas
autoridades. A história antiga e atual relata formas de controle
individuais e coletivas do consumo. A tarefa pedagógica de orientação e ajuda pode ser resgatada desde que o educador
assuma esse papel. Os conflitos decorrentes do consumo de drogas
são identificados como sintomas de um mal-estar no mundo. A falsa
idéia de um mundo em harmonia, em equilíbrio perfeito, cede
espaço para a compreensão de que, através da reflexão e ação
diante dos conflitos, se fortalecem nossas chances de descobertas,
de aceitação de limites e de uma convivência solidária.
Na perspectiva dialógica, professores e alunos vão além da competência técnica e assumem o compromisso político com a
democracia, com a expansão da liberdade do sujeito, colocando-se
como alternativa às campanhas moralistas, reducionistas. Na
sociedade do consumo, muitos são os usos, e a reflexão sobre o
uso involuntário de drogas, já referido, pode contribuir para a
diluição do caráter demoníaco da experiência voluntária de uso, ao
mesmo tempo que é um alerta para a necessidade da mobilização
popular na defesa do meio ambiente. As ações educativas precisam de um discurso amplo que dê conta dos problemas do nosso tempo:
a distribuição dos poderes, das riquezas, do saber; a violência, o
desemprego, a fome, a falta de solidariedade, “desigualdades que
fazem como que alguns se sintam bem porque pertencem a um
grupo social e outros se sintam mal porque são excluídos” (Lazarus,
1995:144).
A droga em si é um produto inerte. A reflexão sobre o elo que se
estabelece entre sujeito e droga, a cada momento e em meios socioculturais diferentes, permite o resgate da memória da realidade
brasileira de produção e consumo e ajuda na formulação de
políticas que atendam aos interesses públicos.
A construção do discurso democrático sobre as drogas tem uma
pedra no meio do caminho: o modelo antidrogas, com seus métodos
repressivos, não só não consegue a abstinência almejada, como
produz um círculo vicioso e trágico pela espiral de violência,
evidenciando sua fragilidade e explicando seu fracasso. Usuários de drogas são sujeitos de direitos e deveres. Sem discriminação, sem fantasias que glamourizem sua condição. O que a sociedade
precisa realmente é de uma política voltada para os usos
problemáticos, respeitosa dos direitos de cidadania, baseada em
uma ética de uso equilibrado e responsável, tendo em vista os padrões de consumo atuais incorporados. Programas educativos
que integrem esse discurso terão melhores resultados com a
descriminalização do usuário, associada à luta contra a
discriminação racial e contra a desigualdade, facilitando a demanda
de orientação e ajuda, e rompendo com o círculo perverso da
violência. Com esse entendimento, a atuação dos educadores se
esclarece, a escola cumpre o seu papel, com base em um projeto
de educação para a liberdade, compreendendo que o mal não está no produto em si, mas na forma como nos servimos dele.
A educação para a autonomia no que se refere às drogas atua no
sentido da inibição mínima da imaginação e no desenvolvimento
máximo da reflexão, em um projeto democrático de construção da
capacidade de atividade refletida e de deliberação voltadas para a
redução dos danos decorrentes do uso de drogas.
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