Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos
Apresentação
Drogas e Aids são temas de interesse público; no entanto, hoje, o
uso de substâncias químicas e o exercício da sexualidade são questões discutidas por meio de muitas generalizações indevidas.
Isto porque os riscos que cercam essas experiências variam para
cada grupo social – os riscos não são os mesmos para quem vive
no asfalto ou na favela. Entretanto, a prevenção oficial que
conhecemos no Brasil é genérica, parcial, deixando um campo
aberto a violações constantes dos direitos básicos de cidadania.
Mesmo sendo comum a afirmação de que o uso de drogas faz parte
da história da humanidade – são inúmeras as modalidades de consumo conhecidas ontem e hoje –, a experiência assume a cada
momento características particulares, nem sempre adequadamente
consideradas. Pesquisadores identificaram diferentes tipos de uso,
alguns sob formas específicas de controle, adotados em
determinados contextos históricos. Com base nessa evidência, há
muitos anos se tem procurado afirmar que a dependência não é
inevitável para todos os usuários: ela resulta do encontro de um
produto, uma personalidade e um meio sociocultural, sendo o uso indevido uma conseqüência da perda de controles individuais e
coletivos diante dos riscos próprios a tal experiência. Também a
noção de ‘grupos de risco’ já há alguns anos não se tem sustentado,
prevalecendo a noção não estigmatizante de ‘comportamentos de
risco’. No entanto, as generalizações persistem no senso comum,
‘justificando’ a discriminação de alguns grupos sociais. Na política
dita ‘antidrogas’ prevalece a pregação da abstinência, apoiada na
repressão, tantas vezes violenta (no caso das drogas ilícitas), ou na negligência perigosa (quando se trata de drogas de uso lícito).
Motivações religiosas, por sua vez, comprometem o sexo seguro –
ao condenar o uso do preservativo – e dificultam a prevenção de
doenças sexualmente transmissíveis.
De maneira geral, predominam mistérios, discriminação,
repressão. Daí a urgência de um debate amplo e esclarecido.
Com o objetivo de contribuir para a reflexão e a ação dos atores
sociais com prática institucional e/ou comunitária no campo da
educação, saúde e direitos dos usuários de drogas e pessoas com
HIV/Aids, tentamos aqui pensar coletivamente tais questões nos seus ‘avessos’, ou seja, de forma essencialmente solidária, na
contramão das políticas repressivas e autoritárias. Tentamos refletir
sobre o estreitamento dos espaços de prazer na vida dos sujeitos e
sobre o prazer que a droga garante, ainda que, hoje, em meio a
tantos riscos. À pergunta usual – por que as pessoas se drogam? –,
acrescentamos outra – por que algumas pessoas conseguem usar
drogas de forma controlada e por que, de outro lado, se tem
exercido tanta intervenção em experiências que pertencem à esfera da vida privada?
Por se tratar de temas de interesse público, apostamos na
importância de uma reflexão e atuação coletiva que reúne
profissionais de várias áreas – ciência política, psicanálise,
medicina, direito, comunicação, educação, serviço social, psicologia,
enfermagem, entre outras –, professores da Uerj (Instituto de
Medicina Social, Instituto de Filosofia, Faculdade de Direito,
Faculdade de Enfermagem, Departamento de Saúde do Trabalhador, Hospital Universitário Pedro Ernesto, Programa
Cidadania e Direitos Humanos), da UFRJ (Departamento de
Geografia, Divisão de Saúde do Trabalhador, Núcleo de Estudos em
Saúde Coletiva), do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz (Laboratório de
Educação Ambiental e em Saúde/Departamento de Biologia), assim
como ativistas de organizações não-governamentais (Associação
Brasileira de Redutores de Danos Aborda, Grupo Consciência
Masculina, Grupo Pela Vidda/Rio de Janeiro, Instituto Noos, Liga Antiproibicionista Internacional).
A necessidade de um pensar coletivo se manifestou também no
acompanhamento das atividades da Rede de Direitos Humanos
Drogas e Aids/ Rio de Janeiro, articulação de entidades
comunitárias, entidades religiosas, organizações não-
governamentais, pessoas físicas ligadas a instituições
governamentais, estudantes, trabalhadores, desempregados,
aposentados; em todos esses espaços, percebemos o interesse em formular propostas democráticas em substituição às estratégias
repressivas.
Os artigos aqui reunidos refletem, em sua maioria, questões
centrais que vêm sendo discutidas no espaço do Núcleo de Estudos Drogas/Aids e Direitos Humanos, Laboratório de Políticas Públicas
da Uerj.1
A constituição do sujeito coletivo e a questão dos direitos
humanos, apresentada por Carlos Alberto Plastino, introduz a idéia
moderna de sujeito. O texto discute a igualdade como noção
necessária mas não suficiente, devendo ser ampliada através da
noção do direito à singularidade. A sociedade moderna, altamente
desenvolvida, diversificada e complexa, tem dificuldades em
encontrar os caminhos de convívio com a diferença. A contribuição
da psicanálise é apresentada como essencial à compreensão do
homem como ser de afetos, capaz de atos solidários.
Em Identidade, diferença e exclusão na sociedade brasileira
contemporânea, Benilton Bezerra Jr. fala de “um sentimento
generalizado de crise que afeta o imaginário social, comprometendo
a construção da subjetividade e a responsabilidade individual e
coletiva de construção do futuro”. A afirmação do projeto neoliberal
cria novas formas de marginalização pela produção de sujeitos
descartáveis, excluídos. O autor acentua a importância de
‘aprender’ a ser humano reconhecendo os outros, nas suas semelhanças e diferenças sociais e culturais.
Violência, dinheiro fácil e justiça no Brasil: 1980-1995 traz à
discussão a pesquisa de Alba Zaluar sobre o crescimento da
criminalidade nas regiões metropolitanas. O lugar da violência na
nossa cultura e no panorama do crime organizado
internacionalmente, o funcionamento ineficiente e injusto da Justiça
são referidos como tendo um papel crucial no modo pelo qual a
crise da moralidade se concretiza no Brasil. As deficiências da Justiça e a análise de processos judiciais evidenciam discriminações
que se somam no caso de jovens, não brancos, com baixo poder
aquisitivo, cuja superação dependerá da participação dos cidadãos
na construção da democracia da vida cotidiana.
Aprofundando as raízes dos problemas decorrentes do uso de
drogas, Marco Perduca discute o tema da proibição e suas
implicações em nosso cotidiano. No artigo Vamos criminalizar a
proibição!, o autor faz a crítica das leis e políticas de controle,
esclarecendo que a imposição de restrições dogmáticas à vida e à
liberdade é contrária aos direitos humanos e resulta num dramático e custoso impacto sobre a vida das pessoas. Após tantos anos de
políticas ineficazes, Perduca propõe examinar “a possibilidade de
criminalizar a proibição e não o que ela tenta regular”.
O consumo de drogas nem sempre passa por uma decisão
voluntária consciente, não sendo, portanto, claramente percebido.
Em alguns casos, o sujeito não se percebe como usuário, não há
busca de novas percepções da realidade, prazer, ou o alívio de
sensações dolorosas, físicas ou psíquicas. Trata-se aqui da inalação involuntária de substâncias psicoativas, de uso permitido
legalmente, durante o processo de trabalho industrial, que está na
origem de doenças ocupacionais que atingem trabalhadores
expostos à sua ação. Em Perigo silencioso: trabalhadores
intoxicados por vapor de mercúrio em uma indústria de cloro/soda,
Heloisa Pacheco-Ferreira relata depoimentos de trabalhadores,
suas queixas e o quadro clínico apresentado. Essa realidade não
costuma ser associada ao uso de drogas e é ainda muito pouco discutida.
No campo jurídico, a defesa dos direitos das pessoas com
HIV/Aids já tem uma história. A partir do entendimento da
necessária relação entre o sentimento de civilidade e o sistema
jurídico que nos leva a exigir a extensão da cidadania, em um
projeto profundo de solidariedade, Miriam Ventura analisa em
Instrumentos jurídicos de garantia dos direitos das pessoas vivendo
com HIV/ Aids o processo de efetivação jurídica e social das pessoas soropositivas e seus reflexos nas políticas de saúde
pública.
O reconhecimento dos direitos das pessoas vivendo com HIV/Aids
tem sido conquistado através da militância de organizações não-
governamentais, mas ainda estamos longe de algo semelhante no
que se refere aos direitos dos usuários de drogas. Em Legislação
brasileira sobre drogas: história recente – A criminalização da
diferença, Maria Lúcia Karam critica a irracionalidade da política proibicionista, a opção repressora que criminaliza usuários,
propondo alternativas que respeitem a liberdade do sujeito.
Em Drogas: o desafio da saúde pública, Pedro Gabriel Delgado
discute as ações do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) e a implementação dos Centros de Atendimento Psicossocial em Álcool
e Drogas, que buscam revisar, propor e discutir a política sobre
álcool. As ações afirmativas de políticas consistentes e articuladas
intersetorialmente são afirmativas de uma saúde pública
comprometida com a democracia e a promoção dos direitos
humanos.
A influência da lei que regulamenta o consumo de drogas no
Brasil tem condicionado o discurso da educação. Ao invés de investir na educação para a autonomia formando sujeitos capazes
de ação e reflexão, os educadores muitas vezes incorporam e
prestigiam a função de vigiar e punir. No texto A educação para a
autonomia: construindo um discurso democrático sobre drogas, a
organizadora analisa a ineficácia de programas antidrogas que têm
como objetivo a abstinência e propõe como alternativa a educação
dialógica, incorporando princípios da redução de danos.
Numa proposta provocadora de reflexão sobre as possibilidades
de troca entre educação e psicanálise, em Freire e Freud: por uma
atitude transitiva na educação sobre drogas Marcelo Araújo Campos
faz a síntese desses olhares, afirmando a importância de uma
pedagogia comprometida com a construção da autonomia. O autor
faz a crítica do adestramento ingênuo e perigoso do discurso
antidrogas que, afastado do princípio de realidade, entorpece a
razão e perturba a emoção, mantendo despreparados os
educadores na sua função de orientar seus educandos, diante dos riscos reais e imaginados que caracterizam hoje o consumo de
drogas.
Ainda que o uso de drogas e as DST/Aids não sejam ‘privilégio’
da população jovem, é, sem dúvida, a partir da adolescência que
essas situações podem acontecer. No artigo A prevenção das
DST/Aids e do uso indevido de drogas a partir da infância e da
adolescência: uma abordagem lúdico-afetiva, Virgínia Schall fala da
criança, do jovem e de sua busca de modelos fora de casa, tentando libertar-se da influência dos pais e construir valores próprios. A autora apresenta as estratégias informativo-educativas
desenvolvidas pelo Laboratório de Educação Ambiental e em Saúde
(Leas)/Fundação Oswaldo Cruz.
Na mesma linha de pesquisa pedagógica do Leas, Simone
Monteiro e Sandra Rebello, no texto Prevenção do HIV/Aids e do
uso indevido de drogas: desenvolvimento e avaliação de jogos
educativos, discutem a construção do Jogo da Onda e do Zig-Zaids.
São ilustradas as etapas de desenvolvimento do material educativo
voltado para a prevenção do uso indevido de drogas e apresentados
os métodos de avaliação da repercussão de jogo Zig-Zaids.
Estendendo a reflexão sobre formas de proteção em face dos
riscos das DST/Aids e do uso indevido de drogas, Marcelo dos
Santos Cruz, em Práticas médicas, toxicomanias e a promoção do
exercício da cidadania, discute os modelos conceituais dominantes
sobre as toxicomanias, a evolução do conceito de dependência, as
bases do atendimento aos usuários de drogas e seus familiares, as
dificuldades e novas possibilidades de atendimento, assim como a
função social do médico promovendo a expansão da liberdade do
sujeito.
Elize Massard da Fonseca e Francisco Inácio Bastos reafirmam a
importância do respeito aos diferentes usos em Políticas de redução
de danos em perspectiva: comparando as experiências americana,
britânica e brasileira. A discussão comparativa de modelos de
políticas de drogas demonstra que ações afirmativas de redução de
danos são hoje uma realidade possível e desejável no tocante ao
fortalecimento da capacidade de autodeterminação e à flexibilização
de alternativas. Se o vínculo inicial é tributário da troca material de
seringas e agulhas, a abordagem da redução de danos recupera uma escuta institucional, integra a comunidade no encaminhamento
das questões, abrindo espaço para políticas democráticas sobre
drogas.
A reflexão sobre drogas e Aids do ponto de vista dos direitos
humanos vem sendo nossa resposta à necessidade coletiva de
formação de cidadãos capazes de deliberação e ação na ótica da
construção dos direitos. A solidariedade e o compromisso político
com a cidadania devem ser constitutivos, sem dúvida também no campo das drogas e da prevenção de riscos à saúde, de políticas
públicas democráticas.
A Organizadora