Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos
1. A constituição do sujeito coletivo e a questão dos Direitos Humanos
1 – A constituição do sujeito
coletivo e a questão dos
Direitos Humanos
Carlos Alberto Plastino
Para o Betinho
saudades
O conceito do sujeito evoca duas acepções antagônicas. Sujeito é
aquele que faz, que pratica ações e também que é titular de direitos
(Cf. dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira). Entretanto, o termo exprime também uma idéia praticamente oposta: sujeito é
quem está obrigado, quem depende da vontade de outro, e ainda
quem é escravo e quem está submetido. Temos, pois, duas
significações evocando alternativamente a idéia de atividade e
autonomia e a de submissão, escravidão e dependência. Na
verdade, a língua exprime a complexidade do conceito, forjado em
um longo e acidentado processo histórico. Na Antigüidade grega o
termo subjectum evocava aquilo que constituía o substrato do mundo fenomênico, remetendo assim a uma idéia de mistério. A
idéia de mistério, por sua vez, se referia àquilo que, não sendo
apreensível pela razão conceitual, permanecia desconhecido.
Essa perspectiva mudará radicalmente com a modernidade. Ao
longo de um vasto movimento caracterizado pelo racionalismo e o
individualismo, o termo ‘sujeito’ passa a designar o homem, imbuído
da tarefa de dominar a natureza por meio de sua razão e de seu
trabalho. Há, entretanto, uma ambigüidade nessa relação entre o homem e a natureza. É que a concepção moderna faz do real uma
máquina totalmente determinada, com suas leis de funcionamento
potencialmente conhecíveis pela razão. Assim, a razão humana
pode conhecer e dominar – esta é a tarefa atribuída às ciências e à
técnica – o funcionamento do existente, incluindo aí a própria natureza humana. Porém, sendo o real pensado como totalmente
determinado, é a idéia de necessidade que preside essa concepção,
não a de liberdade. Talvez seja essa complexa concepção que se
encontra na base da ambigüidade do termo sujeito. De um lado, como sujeito racional, ele é pensado como podendo ascender ao
domínio total das leis que regem o real, tornando-se senhor delas e
capaz de utilizar seu conhecimento para dominar a natureza e
impulsionar o progresso. De outro lado, sendo a realidade
totalmente determinada, o processo histórico se apresenta como
‘necessário’, não restando nessa concepção espaço para a criação
e para a liberdade. Esta se limitaria, para repetir a famosa frase de
Engels, a ser a consciência da necessidade. Nessa concepção, então, o homem é pensado como senhor de sua razão e de suas
ações e, através delas, dominador do mundo e, ao mesmo tempo,
como dependente das determinações rigorosas que estruturam o
real. Como veremos, essa ambigüidade se apresenta com muita
força no discurso hoje hegemônico. A oposição entre ‘liberdade’ e
‘determinismo’ e suas relações com o sujeito constitui um primeiro
ponto a ser discutido.
Entretanto, o tema proposto para nossa reflexão neste texto refere-se ao sujeito coletivo. Convém vincular este conceito – ao
interior do paradigma da modernidade – com o conceito de classe
social cunhado pela teoria marxista. É sabido que, para Marx, os
homens são os demiurgos de sua própria história, porém, não como
indivíduos mas como sujeitos coletivos. Na sociedade capitalista o
protagonismo no processo de transformação social é atribuído à
classe proletária. A transformação da classe em si em classe para si
supõe, na perspectiva marxista, a eliminação da alienação e, em conseqüência, o aceso do proletariado à compreensão racional da
realidade, momento decisivo na sua configuração como sujeito
coletivo revolucionário. Este rico conceito marxista é tributário, de
um lado, da realidade da sociedade capitalista tal como existia na
época de Marx e, de outro, da perspectiva característica da
modernidade, segundo a qual o sujeito era definido unilateralmente
a partir de sua racionalidade. A questão central aqui é discutir se o
papel de sujeito coletivo deve continuar a ser atribuído à classe social ou, alternativamente, se é preciso pensar em sujeitos coletivos plurais. Este é o segundo ponto que interessa aqui
considerar.
O terceiro ponto relacionado ao tema deste artigo refere-se aos
direitos humanos. Sua emergência coincide historicamente com a consolidação da idéia moderna de sujeito e se dá no bojo de uma
concepção do mundo e da sociedade centrada no indivíduo.
Articulada com as concepções centrais da modernidade, a idéia dos
direitos humanos se consolida quando, com o sucesso da revolução
política, igualdade, liberdade e fraternidade tornam-se, no discurso
político, valores fundamentais. Isso constituiu uma mudança
significativa. Antes da modernidade, a sociedade era pensada não
em termos de igualdade, mas em termos de diferença (diferença entendida como negação da igualdade). O poder de um senhor
feudal, na idade pré-moderna, sustentava-se no (pretenso) fato de
ele ser diferente, isto é, superior. A própria idéia do direito, nessa
época, se organizava em torno dos ‘privilégios’. Este termo tem hoje
uma conotação negativa, aludindo a um tratamento especial
injustificado e, portanto, injusto. Sem dúvida é isso mesmo, e a
própria origem do termo o indica. Privilégio significa,
originariamente, lei privada, isto é, conjunto de normas aplicáveis a algumas pessoas e não a todas. Um exemplo atual, no Brasil, é a
vigência de tribunais especiais para os policiais militares, que,
assim, ao invés de serem julgados pela mesma justiça que julga
todos os cidadãos, desfrutam de um tribunal especial. Enfim, o
exemplo serve não apenas para ilustrar o quanto estamos longe de
uma verdadeira modernidade, mas, sobretudo, para mostrar que a
idéia de igualdade apenas recentemente se impôs como valor. Um
valor que, mesmo restrito ao nível da ideologia, exigiu lutas e sacrifícios prolongados para ser reconhecido. Entretanto, vinculada
à questão dos direitos humanos, a igualdade como valor, embora
necessária, não é suficiente. É preciso completá-la, como veremos,
com a idéia de valor da diferença – idéia que nada tem a ver com a
de privilégio ou superioridade, mas que alude ao direito de cada
homem à singularidade. Este é o terceiro ponto a discutir aqui.
A discussão – mesmo que necessariamente sucinta – das três
questões assinaladas exige considerá-las no quadro histórico de sua emergência. O que significa discutir primeiro o paradigma no qual essas questões foram pensadas. Paradigmas são formas
historicamente produzidas de conceber o real e o processo do
conhecimento. O paradigma da modernidade está centrado no
pressuposto da racionalidade. Convém distinguir a racionalidade pressuposta no objeto e a racionalidade pressuposta no sujeito.
Pela primeira postula-se que o real – tanto o real natural como o
social e humano – está organizado conforme leis rigorosas de
determinação, constituindo, em conseqüência, uma ordem
necessária. Assim a realidade seria em última instância simples, e
sua compreensão redutível a leis cujo conhecimento é acessível à
razão humana. É sobre essa crença – sustentada no fantástico
sucesso obtido pela física moderna ou newtoniana, assim como no pressuposto da racionalidade do sujeito – que foi construída a idéia
do progresso: o conhecimento das leis que regem o real por parte
do sujeito racional (ciência) tornaria possível a manipulação desse
real (técnica) de maneira a atingir os objetivos humanos e garantir
um progresso permanente. Nessa formulação está obviamente
implícita a segunda vertente do racionalismo, a subjetiva, segundo a
qual o homem, como sujeito racional, poderia potencialmente
ascender ao conhecimento das leis que regem o real. Há aqui, como se verá, ao mesmo tempo, uma exorbitância e uma mutilação na
concepção do homem. De um lado, atribui-se a ele a capacidade de
obter o conhecimento da verdade do real, de maneira a permitir-lhe,
potencialmente, um domínio total de tal conhecimento. E ao mesmo
tempo uma mutilação, na medida em que o homem é definido
apenas pela sua racionalidade, com exclusão dos aspectos
emocionais e afetivos.
Convém insistir na idéia de que esse paradigma – como todos os outros – é uma produção histórica. E acrescentar que o próprio
desenvolvimento das ciências a que ele deu origem encarregou-se
de contestá-lo. Elas nos mostram hoje, com efeito, que a realidade,
longe de apresentar a simplicidade de leis rigorosas e universais,
evidencia uma enorme complexidade. Ademais, ao invés da ordem
que era pressuposta, é preciso postular a coexistência de ordens
diferentes, pautadas por princípios diferentes e por momentos de
caos que se necessita compreender como matriz possível de novas e inéditas ordenações. Essas novas ciências nos falam ainda não de uma natureza inerte, passivamente submetida a leis eternas,
mas de uma natureza viva, autocriativa. Assim, não é apenas o
paradigma que é histórico. A própria realidade é pensada hoje como
histórica. Obviamente, é impossível sequer resumir aqui esse rico processo de transformação paradigmática. Convém, entretanto,
salientar que o paradigma fundador da modernidade atravessa uma
profunda crise e que esta crise paradigmática constitui um dos
aspectos centrais da crise de civilização que estamos vivendo.
Outro aspecto dessa crise de civilização reside no processo
histórico de evolução das sociedades modernas, condensando as
crises econômica, social, política e cultural hoje vigentes. A
consideração dessa crise, assim como a do paradigma moderno, me parece imprescindível para nos aproximar de uma resposta das
questões levantadas. Mais uma vez é necessário frisar que,
considerando o âmbito das questões abordadas, só será possível
desenvolver aqui algumas idéias gerais sobre o tema.
A modernidade demonstrou-se incapaz de cumprir suas
promessas e, ao que tudo indica, na trilha atual, ela será cada vez
mais incapaz de fazê-lo. Apesar do fantástico progresso científico e
técnico que tornou possível, ela não conseguiu tornar realidade os valores de igualdade, fraternidade e liberdade, de democracia e
vigência dos direitos humanos que levantou como bandeira. É obvio
que não pretendemos negar os progressos efetivamente realizados.
Todavia, uma análise mesmo sucinta da realidade contemporânea
impede qualquer complacência a esse respeito. Senão, vejamos
algumas das características mais evidentes da realidade
contemporânea.
Conforme o projeto da modernidade, o progresso da ciência e da técnica permitiria aos homens alçarem-se à condição de senhores
do mundo, dominando a natureza para pô-la ao serviço dos
objetivos humanos. A razão humana permitiria, assim, manipular o
mundo natural e social para atingir os ideais proclamados pela
modernidade. A razão instrumental estaria subordinada à razão
substantiva, e a ciência e a técnica, subordinadas aos objetivos livre
e racionalmente fixados pela humanidade. O processo histórico,
entretanto, não confirmou essas previsões. No contexto da organização capitalista da sociedade, foi a razão instrumental que se tornou hegemônica, cabendo à lógica da máquina produtiva ditar
as regras no convívio social. Na lógica individualista do capitalismo,
a maximização dos interesses individuais resultaria na melhor
ordenação social possível. Obviamente essa concepção se sustenta em uma concepção da natureza humana que pensa o homem como
movido apenas pelo seu interesse egoísta. A natureza, por sua vez,
é concebida – de acordo com o paradigma moderno – como eterna
e inerte, submetida a rigorosas determinações. Como se verá
depois, essa concepção não é confirmada pelos saberes
contemporâneos sobre o homem (psicanálise, psicologia analítica)
nem pelas ciências contemporâneas.
Essa lógica impôs às relações do homem com a natureza e dos homens entre si a marca da dominação, não a da fraternidade. A
dominação da natureza, através de uma febril atividade predatória,
levou ao atual desastre ecológico, sobre o qual – dada sua
evidência – não é preciso alongar-se aqui. A dominação do homem
sobre o homem, por sua vez, resultou do desigual acesso ao poder
e aos recursos produtivos. Essa lógica centrada no individualismo
gerou, assim, o contraste entre o fantástico desenvolvimento da
racionalidade parcial e o não menos fantástico – e assustador – crescimento da irracionalidade global. A racionalização dos
processos produtivos – orientada centralmente pela procura do lucro
– teve como conseqüência o crescimento da desigualdade na
distribuição do produto e do desemprego. E ainda a irracionalidade
na determinação do conteúdo da produção – na escolha do tipo de
bens produzidos – comandada não pelas necessidades humanas
mas pela configuração da demanda, ela própria determinada pela
desigual distribuição da renda e pela manipulação operada pela propaganda. Consideremos isso um pouco mais detalhadamente.
É inquestionável que a humanidade conseguiu desenvolver uma
capacidade de produzir bens sem comparação com épocas
passadas. As crises econômicas contemporâneas são provocadas
pela superprodução de bens (com relação à demanda solvente),
não pela sua insuficiência. Por outro lado, na medida em que o
processo produtivo se desenvolve no contexto do mercado e da
concorrência, o aumento da produtividade se impõe a quaisquer outras considerações. O fantástico desenvolvimento da tecnologia resultante desse processo tem assim uma dupla conseqüência:
aumentar a produtividade e a produção e substituir o trabalho
humano pela máquina. Cria-se assim o desemprego, flagelo
contemporâneo que não possui – como às vezes se pretende – características conjunturais. Trata-se de desemprego estrutural, que,
tendo por causa a lógica de organização vigente do processo
produtivo, tende necessariamente a aumentar. Não se trata
obviamente, nesta crítica, de ressuscitar o ludismo do começo da
Revolução Industrial, mas de assinalar a racionalidade global de um
sistema comandado pela racionalidade parcial dos interesses
individuais e pela lógica da máquina produtiva. É obvio que o
progresso técnico é, em si mesmo, positivo. Ele tem a capacidade potencial de libertar os homens do constrangimento dos trabalhos
mais penosos, abrindo a possibilidade de imprevisíveis
desenvolvimentos da criatividade humana. Mas para que isso seja
possível é imprescindível que os bens produzidos sejam distribuídos
de maneira a satisfazer as necessidades dos homens. Entretanto, a
distribuição dos bens produzidos segundo critérios de mercado –
isso é, mediados exclusivamente pela retribuição do trabalho – torna
isso impossível, configurando a atual situação na qual a extraordinária riqueza produzida pela máquina produtiva determina
o crescimento da desigualdade e a disseminação da miséria – junto
com o desemprego e o aumento da exploração do trabalho. Assim,
é a lógica que rege a produção e a distribuição de bens que deve
ser questionada, não o progresso tecnológico em si mesmo.
Em relação a esse progresso, parece inevitável que continue a
aumentar aceleradamente. De um lado, porque a concorrência que
rege o mercado faz da produção e incorporação de tecnologia a principal arma na luta pelo mercado. É, portanto, condição de
sobrevivência para cada fração do capital. De outro, porque o
extraordinário crescimento da ciência o incentiva de maneira
espetacular. Basta citar Hobsbawm, que, no seu último livro (Era
dos Extremos: o breve século XX), apresenta os seguintes dados:
se, no início do século, o número de físicos e químicos existentes na
Alemanha e na Inglaterra era de aproximadamente oito mil, em
1980, o número de cientistas e engenheiros dedicados à pesquisa e ao desenvolvimento experimental era estimado em cerca de cinco milhões. Esse processo de crescimento da capacidade científica e
tecnológica continua inquestionavelmente a aumentar, de maneira
que é perfeitamente legítimo prever que em poucas décadas
estaremos muito perto da automatização quase geral do processo produtivo em múltiplas áreas da atividade econômica, com as
inevitáveis conseqüências sobre a oferta de emprego. Essa será a
realidade para a qual temos de nos preparar. Ela exigirá de nós uma
enorme capacidade de invenção em relação às formas de
distribuição dos bens produzidos e de organização da sociedade em
um sentido mais geral. Parece-nos indiscutível que a ideologia e as
práticas sociais vigentes, difundidas pelo discurso e pelas políticas
neoliberais, estão longe de nos preparar para esse futuro.
Aumento da desigualdade, da exploração do trabalho, da
marginalidade e da miséria, crescente descompasso entre as
capacidades de produzir e de consumir da demanda solvente,
irracionalidade crescente do conteúdo da oferta com relação às
necessidades básicas da maior parte da humanidade, estas
características ilustram a situação vigente no terreno da economia.
Entretanto, entre as caraterísticas negativas desse modelo é preciso
mencionar também suas conseqüências sobre as relações humanas. Cremos existir consenso em admitir a existência de um
mal-estar específico na sociedade contemporânea. A sociedade do
individualismo tem-se tornado também a sociedade da solidão, da
intolerância e da xenofobia. A desagregação das formas tradicionais
de organização social, por não ser acompanhada da emergência de
outras formas de sociabilidade caracterizadas pela solidariedade,
abriu espaço – no contexto da luta feroz pela sobrevivência – à
notória expansão de atitudes e condutas narcísicas. A aparente ausência de alternativas a esse modelo social regido pelo
darwinismo social, ausência enfatizada pela pregnância do discurso
neoliberal – ainda mais crível devido ao fracasso e à derrubada dos
regimes denominados de socialismo real – permitiu uma
extraordinária expansão das atitudes que vêm no “salve-se quem
puder” a única alternativa na luta pela sobrevivência.
A solidão e o desespero que resultam dessa situação se
exprimem no sensível aumento de consumo de drogas (legais ou não) e do alcoolismo. De outro lado, o desemprego e o medo do desemprego incentivam o crescimento de atitudes xenófobas e
intolerantes, acrescentando este tipo específico de violência à
violência social provocada pela miséria. O tratamento dado a
trabalhadores estrangeiros (tanto por muitos governos quanto por frações da população de numerosos países) constitui um dos
aspectos mais claros da irracionalidade global vigente, tornando
evidente a primazia outorgada aos interesses da máquina produtiva
em detrimento dos interesses humanos. A globalização da
economia impulsiona a integração de mercados, condicionando o
crescimento econômico à livre circulação de mercadorias e capitais.
Porém, o mesmo não ocorre com os homens, que, em maior medida
do que nas décadas anteriores, sofrem crescentes restrições ao direito de se deslocarem entre países para procurar emprego –
quando não são expulsos, sem nenhuma cerimônia, de países em
que trabalharam e viveram durante anos. A ignorância do outro e de
seus direitos e a rejeição da alteridade constituem uma perigosa
característica da sociedade contemporânea. Ela exprime um déficit
erótico – isto é, do laço que une e aproxima os homens – de
conseqüências assustadoras. (Voltaremos brevemente a este
assunto ao discutirmos a concepção neoliberal da natureza humana.)
Convém atentar para algumas questões que, apesar de
evidentes, são com freqüência ignoradas, quiçá como conseqüência
da hegemonia alcançada pelo discurso neoliberal. Em numerosos
países, submetidos às políticas econômicas e sociais postuladas por
essa ideologia, se aplicam atualmente políticas de ‘racionalização’
dos gastos públicos e de ‘flexibilização’ das relações de trabalho. As
primeiras consistem invariavelmente na diminuição dos gastos sociais, levando a um processo de desmonte do Estado de bem-
estar social. A flexibilização das relações de trabalho, por sua vez,
constitui um eufemismo para aludir à anulação de numerosas
conquistas sociais resultantes de décadas de luta das classes
trabalhadoras. Todo isso no contexto de um acréscimo espetacular
dos bens produzidos e da capacidade de produzir. Assim, porque
estamos fantasticamente ricos como espécie, é necessário
aumentar o tempo de trabalho (aumento da idade para aposentadoria), anular benefícios conquistados pelas mulheres-mães trabalhadoras, diminuir gastos em educação, em saúde etc.
Um exemplo mais preciso permitirá apreender na sua real dimensão
as conseqüências dessa irracional organização da sociedade
contemporânea. Como é sabido, quase todos os países reconhecem, nas suas legislações, direitos específicos das
mulheres trabalhadores que são mães. Também é sabido que
muitos empresários penalizam essas trabalhadoras, que encontram,
assim, maiores dificuldades para obter emprego. De acordo com a
racionalidade vigente, considera-se que seria benéfico para essas
trabalhadoras se os mencionados direitos fossem anulados ou
diminuídos, pois, desse modo, as mulheres encontrariam menos
dificuldades para conseguir emprego. Cabe, então, perguntar, tendo como horizonte critérios de racionalidade – qual é a racionalidade de
uma sociedade que, ignorando a fundamental importância da
relação mãe-filho para a vida das pessoas, ao invés de privilegiá-la,
torna-a mais difícil e precária?
Em outro aspecto ainda a sociedade contemporânea evidencia o
afastamento das promessas da modernidade. Trata-se da questão
da política e da democracia, que exige uma reflexão sobre uma
situação paradoxal. Com efeito, é possível constatar a substituição, nos últimos anos, de numerosos governos autoritários por governos
representativos eleitos pelo voto popular. Isso constitui um fato
positivo de valor inquestionável. Entretanto, ele é acompanhado de
outras características contrárias, tais como o crescente desinteresse
da população pela política, os níveis atingidos pela manipulação da
opinião pública com o uso maciço dos meios de comunicação social
e de técnicas sofisticadas de propaganda e a pregnância do
discurso hegemônico com pretensões de discurso único.
O desinteresse crescente da população pelos processos políticos,
verificado em numerosos países, parece obedecer a motivações
complexas. Algumas delas, entretanto, podem ser aqui identificadas.
Assinalemos em primeiro lugar a expansão da mentalidade
individualista já mencionada, que tende afastar as pessoas de
questões relativas ao coletivo. Esta tendência vê-se reforçada pelas
frustrações experimentadas no passado recente em diversos
países, nos quais partidos políticos e políticos eleitos em função de defenderem determinado programa desenvolveram, uma vez no governo, políticas antagônicas àqueles programas. A isso deve
acrescentar-se a pregnância do discurso neoliberal hegemônico,
apresentado como o único científico e racional, e que nega de
maneira intolerante quaisquer alternativas. A manipulação da opinião pública pelos meios de comunicação de massas e a
utilização de sofisticadas técnicas de propaganda reforçam ainda
esse processo. As dimensões atingidas por essa manipulação são
realmente assustadoras. Elas permitem que fatos notórios e
evidentes em si mesmos se transformem, por arte da manipulação,
em seu contrário. O episódio da imprudente fala do então ministro
Ricupero pela antena parabólica, por ocasião da campanha eleitoral
que resultou na eleição do atual presidente no Brasil é, nesse sentido, exemplar. O ministro reconheceu, em uma entrevista que se
tornou pública em rede nacional de televisão, que o governo a que
pertencia sonegava e manipulava informação para favorecer seu
candidato à presidência. Entretanto, a máquina de propaganda
manipulou de tal maneira os fatos que, em poucas horas, o dito
ficou por não dito, e quem assumira publicamente ter infringido a lei
tornou-se a vítima daqueles cujos direitos legítimos foram
violentados. A reprodução da fita contendo a entrevista de Ricupero foi censurada poucos dias após o fato ter ocorrido, e a própria fala
foi apresentada como resultado do estresse e do cansaço
provocados pela abnegada dedicação devotada à nação. Assim, o
processamento que a propaganda fez do fato caracterizado pela fala
do ministro veio a confirmar aquilo que ele próprio reconhecera
involuntariamente na sua fala, isto é, a existência de uma
extraordinariamente eficiente prática de manipulação da opinião
pública.
Esse conjunto de fatos caracteriza uma situação que restringe de
maneira notável as margens de escolha e decisão da cidadania.
Não constitui obviamente uma fatalidade, mas coloca um desafio
para a criatividade daqueles que, discordando do projeto e das
políticas neoliberais, lutam por implementar políticas e projetos
alternativos. Numerosas iniciativas de diversos segmentos da
sociedade civil, assim como experiências desenvolvidas em
municípios administradas por forças políticas progressistas, assinalam eficientes formas alternativas de luta política. Dimensões da crise contemporânea
Apesar de breves, as considerações feitas indicam a existência de
uma crise multifacetada. A lógica da máquina produtiva, tornada
hegemônica em uma sociedade comandada pelas relações de
mercado, se contrapõe de maneira crescente a uma racionalidade
organizada em torno da obtenção dos valores fundadores da
modernidade. É a negação do outro (cada vez mais reduzido à
condição de objeto de consumo), e não a fraternidade, que rege a
vida social. A manipulação, e não a liberdade, a marginalidade e a exclusão, ao invés da igualdade. A lógica da máquina produtiva,
tornada onipotente pelo esvaziamento das funções do Estado, se
estende a todos os aspectos da vida social, impondo a todos suas
características constitutivas: a concentração, o primado do interesse
individual ou setorial e a exploração. Assistimos a um inequívoco
processo de concentração, que abrange desde a concentração da
riqueza até a do poder, nos seus múltiplos aspectos. Essa lógica
tende a atingir o conjunto das relações humanas, desde as relações com a natureza até as relações entre os homens, difundindo as
práticas e a mentalidade predatórias. Assim, caracterizada pela
irracionalidade, pela marginalização de milhões de homens e
mulheres, pela miséria de massas, pelo desperdício e pela
destruição da natureza, a civilização forjada pela modernidade
tornou-se incapaz de realizar seu projeto e cumprir suas promessas.
Essa crise multifacetada, entretanto, inclui também a crise do
paradigma moderno, e é em seu bojo que parece possível, rompendo a camisa de força na qual a modernidade aprisionou o
pensamento, encontrar possibilidades de superação da atual
situação. Nesta crise paradigmática, comparável pela sua
profundidade e extensão à que presidiu a emergência da
modernidade, tanto a concepção do real quanto a do conhecimento
são submetidas a uma profunda transformação. Como se assinalou
anteriormente, a modernidade concebia o real como estável,
organizado conforme leis rigorosas e, portanto, como rigorosamente determinado. A essa ontologia do ser, os saberes contemporâneos
opõem uma ontologia do devir, caracterizada pela transformação e pela auto-poiésis. Nesta concepção, o determinismo caracteriza
apenas setores do real, extremamente complexo, marcado pela
indeterminação e pela emergência do novo. Esta nova concepção
ontológica é acompanhada de uma nova perspectiva epistemológica. À crise do paradigma corresponde a crise de suas
condições de inteligibilidade. Assim, não é apenas o real que é
pensado como complexo, mas também o sujeito. A crítica da
racionalidade postulada no objeto é acompanhada pela crítica do
racionalismo atribuída ao sujeito de conhecimento, isto é, pela
crítica da unilateralidade da concepção forjada pela modernidade
sobre o homem.
O caráter de necessidade atribuído à situação presente pelo pensamento hegemônico se sustenta na premissa de determinação
que preside a concepção do mundo da modernidade. Pensando o
homem como naturalmente orientado para a maximização de seus
interesses individuais, o paradigma moderno concebe a
concorrência entre os homens como a forma ‘natural’ e, portanto,
necessária, de organizar a vida social. Qualquer outro projeto,
concepção ou alternativa é visto, de acordo com essa perspectiva,
como uma utopia irrealizável, fadada ao fracasso. Entretanto, essa maneira extremadamente simplificada de conceber o fenômeno
humano não se sustenta à luz dos saberes contemporâneos. Assim,
o saber produzido pela psicanálise, longe de pensar o homem como
constituindo ‘naturalmente’ uma máquina de procurar
‘racionalmente’ a satisfação de seus interesses individuais, o
apresenta na sua extrema complexidade como dotado de uma
grande plasticidade psíquica e como, em grande parte, resultado de
sua história.
Entretanto, nem tudo é história na concepção freudiana do
homem. Considerado, basicamente, como um ser de afetos, a
psicanálise vê o homem impulsionado por forças conflitantes, que
recebem na teoria as designações de pulsão de vida e de morte. A
primeira, denominada pulsão erótica, supõe o reconhecimento do
outro e o movimento de unir-se a ele. A segunda caracteriza um
movimento de separação e agressividade. É nas vicissitudes da
história que o conflito entre esses movimentos, em si mesmo insuperável, adquire suas múltiplas formas possíveis. São as práticas sociais históricas, em conseqüência, que concedem a
primazia a um ou outro movimento pulsional, em um processo
infindável no qual qualquer equilíbrio permanente deve ser excluído.
Assim, práticas sociais – e o discurso é uma prática social – que incentivam e impulsionam comportamentos individualistas,
agressivos e de negação do outro produziram um certo tipo de
homem, ao passo que práticas sociais caracterizadas pelo
reconhecimento do outro favoreceram o fortalecimento do
movimento erótico também presente no psiquismo humano.
Reencontramos assim, na teorização psicanalítica, a famosa
afirmação de Marx segundo a qual a “natureza humana” é o
resultado do conjunto das relações sociais que os homens estabelecem entre si em cada momento histórico. O saber sobre o
homem produzido pela psicanálise desautoriza qualquer otimismo
em torno da possibilidade de ascender a uma organização social
isenta de conflitos. Sustenta, todavia, a possibilidade da expansão
de relações solidárias e de uma organização social democrática
impulsionada pelo movimento erótico que procura o reconhecimento
e a unidade. Esse saber sobre o homem, produzido por meio de
práticas de conhecimento que fogem dos estreitos limites do racionalismo da modernidade, fornece uma outra concepção sobre o
fenômeno humano, superando a limitada perspectiva racionalista.
Podemos, assim, indicar um caminho de resposta para a primeira
interrogação formulada no início deste artigo. É nesta perspectiva
que convém agora desenvolver algumas considerações em torno da
concepção antropológica do marxismo, de maneira a nos aproximar
de uma resposta às duas outras questões levantadas em torno do
sujeito.
Embora constitua um poderoso instrumento teórico para a
compreensão da vida social, não acreditamos ser pertinente repetir
hoje a fórmula sartriana, segundo a qual o marxismo representaria o
horizonte científico do nosso tempo. Constituindo a expressão mais
conseqüente do pensamento iluminista – segundo afirma Engels –,
a concepção antropológica postulada pela teorização marxista
funciona como um verdadeiro obstáculo epistemológico. O
racionalismo que preside essa concepção encerra, de fato, uma idéia de necessidade. Com efeito, como seres racionais, os homens deveriam escolher formas de organização social que possibilitassem
a organização mais racional das relações dos homens com a
natureza e dos homens entre si. Se não o fazem é porque,
alienados pela ideologia dominante na sociedade de classes, enxergam a realidade sob a forma deturpada produzida por essa
ideologia. Entretanto, a substituição dessa perspectiva ideológica
por outra, produzida pelo trabalho científico e político, permitiria
superar tal alienação, transformando o proletariado de classe em si,
ignorante de sua força e de seus interesses, em classe para si,
consciente de ambos. O processo revolucionário, capaz de instalar
a racionalidade na vida social, passa então pela difusão da
perspectiva científica entre o proletariado, na sua organização como sujeito coletivo da transformação social, pela mudança das relações
sociais de produção capitalista que esse sujeito coletivo
implementaria e pela difusão da racionalidade no conjunto da vida
social. O resultado final seria uma sociedade sem conflitos, que
poderia prescindir do Estado pensado como instrumento de poder e
arbitragem, substituindo a administração dos homens, própria da
sociedade de classes, pela administração das coisas.
Projeto belíssimo, sem dúvida, que inspirou a luta generosa de milhões de homens e mulheres. Porém, projeto primo-irmão do mito
do progresso iluminista e, como este, incapaz de apreender a
complexidade do homem e das forças e processos através dos
quais os homens produzem a história. Como já afirmamos, há nessa
concepção uma idéia de necessidade histórica e, portanto, de
determinismo Não de determinismo economicista, como as críticas
levianas ou interessadas e as vulgarizações teóricas difundiram. Na
perspectiva de Marx, a base econômica era vista como condicionante da vida dos homens, não como determinante; ele
pôde assim afirmar, como fez na Ideologia Alemã e nas Teses sobre
Feuerbach, que os homens são aos autores de sua própria história.
Entretanto, outro determinismo marca o pensamento marxista,
fundamentado na expansão inevitável da racionalidade. Nesse
processo necessário, o sujeito seria coletivo e seria o proletariado.
Duas ordens de considerações fundamentam essa concepção: uma
de ordem empírica, outra de ordem teórica. A primeira diz respeito à expansão numérica do proletariado, resultante da lógica econômica do capitalismo e constatada empiricamente na época de Marx. E
ainda ao crescimento – constatado por Marx – da alfabetização do
proletariado, impulsionada inicialmente pelo trabalho de suas
próprias organizações e também pela expansão da escolaridade nos países mais avançados. Tanto essa expansão quanto a forma
como ela era realizada – pensava Marx – produziriam a formação de
uma consciência autônoma do proletariado, autônoma com relação
à ideologia burguesa e, portanto, isenta da contaminação dessa
ideologia. A crença de Marx, segundo a qual o processo histórico,
no contexto da expansão das forças produtivas sob o capitalismo,
levaria à constituição de uma consciência autônoma do proletariado,
não contaminada nem muito menos subordinada à ideologia gerada perla sociedade burguesa, não se verificou.
Múltiplos aspectos deveriam ser considerados para se entender
esse fato. Aqui, nos limitaremos a assinalar que o processo de
difusão da escolaridade, assim como dos meios de comunicação de
massa e mesmo do consumo, acabou por atrelar a formação do
proletariado ao movimento geral da sociedade, ‘hegemonizada’ pela
ideologia burguesa. Isso é óbvio hoje, dada a influência da televisão
e do rádio. Porém, a mudança da situação – com respeito à analisada por Marx – se verificara bem mais cedo. De fato, se os
operários da época de Marx liam a imprensa sindical e socialista – e
muitas vezes aprendiam a ler com ela –, as gerações seguintes, de
maneira progressiva, tinham acesso a publicações produzidas
conforme a mentalidade hegemônica na sociedade. Mais importante
ainda foi a mudança operada em torno do processo de
proletarização. A expansão do capital, embora tenha eliminado
progressivamente os pequenos proprietários, após um primeiro período de expansão numérica do proletariado, e na medida em que
aumentava a introdução de tecnologia no setor secundário da
economia, propiciou um crescente processo de diferenciação dos
trabalhadores, diminuindo a percentagem dos operários na
população assalariada. Como se sabe, não é apenas o fato da
exploração ou de ser assalariado que interessa na concepção do
papel que cabe à sociedade e ao processo produtivo. As
modalidades do processo de trabalho, o tipo de ocupação e até a forma de vestir que a função exige têm importância na maneira como as pessoas percebem a si mesmas. Assim, não é incomum
que trabalhadores que recebem remunerações inferiores aos que
trabalham na indústria de transformação, pelo fato de não usarem
macacão e de realizarem determinados serviços, se considerarem situados em um nível social ‘superior’ ao dos operários da indústria.
Entretanto, se os dois fatores mencionados – e muitos outros não
abordados aqui – mudaram a realidade que geraria o proletariado
como sujeito autônomo e consciente, outro fator, este de ordem
teórica, permite compreender o fracasso da previsão marxista.
Trata-se do racionalismo e da sua contrapartida – a ignorância da
participação decisiva dos afetos no psiquismo humano e, portanto,
na formação dos sujeitos sociais. O comportamento dos proletariados francês e alemão por ocasião da Primeira Guerra
Mundial ilustra bem este ponto. Essa guerra era compreendida pelo
pensamento socialista da época como um conflito ‘interburguês’ e
‘interimperialista’, alheio às motivações e interesses dos proletários.
Por isso, o pensamento socialista era contrário à guerra e defendia
bandeiras pacifistas. Todavia, para surpresa dos poucos dirigentes
socialistas que permaneceram fiéis a essas idéias, o sentimento
patriótico da maior parte dos proletários dos dois países os levou a apoiar suas respectivas burguesias e a participar de uma guerra na
qual seriam as principais vítimas.
Cabe, então, perguntar por que a teoria não foi capaz de pensar a
questão e de fazer uma previsão mais pertinente. O que estava em
jogo, na verdade, era o sentimento de participação em um ‘nós’
coletivo, organizado em torno da idéia de nação. Múltiplos aspectos
participam na constituição desse sentimento de nacionalidade, que
possui – especialmente em momentos históricos de alta densidade emocional – uma força de motivação que tem se mostrado mais
forte e decisiva do que qualquer compreensão racional. A
significação da idéia e do sentimento de nação simplesmente não foi
apreendida pela teorização marxista, que preferiu privilegiar outro
importante aspecto: o mercado nacional como terreno reservado
pela burguesia de cada país. Não há dúvida de que esse aspecto foi
fundamental na constituição e na história dos países. Todavia, isso
não autoriza a ignorar os outros aspectos que estão em jogo quando se fala em nação, aspectos que não são do registro da economia,
mas pertencem ao registro dos afetos, crenças e sentimentos.
A tarefa de reproduzir as condições da vida material responde
obviamente à necessidade humana mais premente. Nessa esfera da vida social se processam, em conseqüência, relações sociais,
formas de organização e conflitos de primeira importância. Na
perspectiva do sujeito coletivo, o que se forma nas atividades
vinculadas à vida econômica constitui sem dúvida um sujeito central.
Entretanto, afirmar que os trabalhadores constituem um sujeito
central não significa afirmar que o proletariado é a classe que, por
encarnar o sentido da história, constitui necessariamente a
vanguarda do processo histórico, devendo subordinar a todos os outros sujeitos coletivos. Esta última perspectiva encerra uma
compreensão determinista da história, segundo a qual o
comunismo, por ser a forma de organização mais racional, seria
necessariamente construído. Observe-se que, conforme já
assinalamos, o determinismo subjacente a tal perspectiva elimina de
fato a idéia de criatividade, aprisionando o conceito de história nas
margens estreitas do teleologismo. As ciências e os saberes
contemporâneos desautorizam tal determinismo. Os saberes contemporâneos sobre o homem e, em particular, a psicanálise,
longe de confirmarem a perspectiva que o define a partir de sua
racionalidade, expõem a extrema complexidade de suas motivações
e objetivos. É essa pluralidade que está na base das múltiplas
formas de organização que homens e mulheres constroem na vida
social. Movimentos sociais, por vezes mal denominados ‘de
minorias’, privilegiam determinado aspecto da vida social e
individual, constituindo sujeitos sociais coletivos específicos. Os objetivos desses sujeitos coletivos não se confundem com os
objetivos do sujeito coletivo que se organiza em torno da esfera da
produção nem a eles se subordinam, embora muitas vezes os
múltiplos objetivos possam e devam articular-se entre si. Assim, os
movimento feminista, negro, das ‘minorias sexuais’, ecológico etc.
não constituem formas secundárias de organização do sujeito
coletivo nem se ocupam de problemas que teriam solução
automática em uma sociedade socialista.
Cada um desses movimentos se organiza em torno de relações
sociais específicas nas quais se processam formas também
específicas de dominação, exploração, negação de direitos etc. E,
obviamente, quanto mais complexas se tornam a sociedade e as relações sociais que nela se organizam, mais se multiplicam os
‘campos’ de atuação e as condições de emergência de novas
modalidades de organização do sujeito social. Se o sujeito social
deve ser pensado como ‘plural’, a organização dos sujeitos coletivos
parciais que atuam nos diversos níveis de relações sociais não pode
operar pela via da subordinação, mas da coordenação. Sujeito
plural, mas também sujeito de criação e, portanto, sujeito da
diferença. Com efeito, a crise do paradigma da modernidade significa abandonar a idéia de uma ordem necessária e de um
processo histórico determinado. Assim, a história não se realiza,
mas se cria em um processo em que a emergência do novo exige a
aceitação da diferença. Estas considerações em torno do sujeito
coletivo plural e do sujeito da diferença fornecem alguns dos
instrumentos teóricos necessários para se considerar a segunda e a
terceira questão abordadas no início deste texto.
Vivemos uma época singular. Desencantada e sem utopias, o novo nela parece reduzir-se ao terreno da invenção tecnológica.
Fascinado, e ao mesmo tempo amedrontado, o homem
contemporâneo parece cada mais incapaz de pensar os desafios
resultantes de sua própria ação, orientada pela razão instrumental.
Prisioneiro da máquina produtiva por ele mesmo criada – o novo
fetiche – obrigando-se a sacrificar por ele seus valores mais caros –
solidariedade, fraternidade, compaixão –, o homem contemporâneo
se condena em larga medida a abandonar seus sonhos, projetos e utopias de um mundo melhor. Essa triste e estéril representação da
realidade se funda em uma perspectiva determinista que não
encontra sustento nas ciências e nos saberes contemporâneos.
Longe de afirmar a inexorabilidade de leis naturais a determinar o
curso da história e as motivações da ação humana, essas ciências e
saberes reintroduzem a perspectiva da criação e da utopia.
Mostram, assim, a possibilidade mas também o desafio de um
pensamento e de uma racionalidade diferentes. Racionalidade não mais pautada apenas no ‘como’, mas também no ‘para quê’. Racionalidade que não mais confunde o real existente com o real
natural. Racionalidade plural, feita de múltiplas racionalidades,
coordenadas por uma perspectiva humanista centrada no respeito
pela vida e pelas suas também múltiplas e criativas manifestações.
As ciências e os saberes contemporâneos derrubaram a metáfora
que pensava o real como constituindo uma máquina determinada
pelas suas leis de constituição. Alternativamente, sugerem outra
concepção segundo a qual o real é pensado por meio de metáforas
que o aproximam de um organismo vivo, criativo e inter-relacionado
por formas que excedem largamente a relação causal, única
reconhecida pelo paradigma da modernidade. As idéias centrais
nesta concepção emergente do real são as de criatividade e interrelacionamento – as relações entre as partes constituindo as
singularidades de cada uma delas. Esta perspectiva, quando
utilizada para pensar o homem, obriga a superar o individualismo da
modernidade e a associar o desenvolvimento da singularidade de
cada indivíduo a seu relacionamento solidário com os outros e com
a natureza.
A evolução da doutrina sobre os direitos humanos acompanha
esse processo. Surgida no contexto da afirmação do indivíduo diante do arbítrio do poder estatal, tal doutrina afirmou inicialmente
os direitos civis e políticos. Posteriormente, no bojo da preeminência
e da premência da questão social, foram cunhados os direitos
sociais e econômicos. Se os direitos humanos de ‘primeira geração’
apontavam para uma limitação do poder estatal, os de ‘segunda
geração’ sustentavam a obrigação da sociedade e do Estado de
garantir a todos o acesso aos bens e serviços indispensáveis para
uma vida digna. Mais recentemente ainda, o reconhecimento do caráter constitutivo das relações dos homens com a natureza levou
à proclamação dos diretos humanos de ‘terceira geração’, entre os
quais podemos destacar o direito à preservação do meio ambiente.
Assim, o reconhecimento das diversas categorias de direitos
humanos resultam de um processo de conquistas progressivas.
Trata-se de um processo aberto, não concluído. Ele não se limita a
reconhecer determinados dados da natureza, mas a criar novos
direitos, emergentes da ação criativa dos homens e da afirmação da multiplicidade e da diferença. É um processo aberto no qual, paradoxalmente, é preciso superar a perspectiva do paradigma da
modernidade para poder realizar uma de suas concepções centrais,
a historicidade. Proclamada, porém ao mesmo tempo esvaziada
pelo determinismo também constitutivo do paradigma moderno, a historicidade é recuperada no paradigma emergente, abrangendo
não apenas a experiência dos homens mas também o processo da
natureza.