Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos

Gilberta Acselrad · Capítulo 15 de 17

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Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos

13. Prevenção do HIV/Aids e do uso indevido de drogas: desenvolvimento e avaliação de jogos educativos

13 – Prevenção do HIV/Aids e

 

do uso indevido de drogas:

 

desenvolvimento e avaliação de

 

jogos educativos

 

Simone Monteiro & Sandra Rebello

 

Nosso objetivo aqui é analisar as etapas de produção de jogos

educativos a partir da nossa experiência no campo da prevenção do

HIV/Aids e do uso indevido de drogas, desenvolvida no Laboratório

de Educação em Ambiente e Saúde (Leas) da Fundação Oswaldo

Cruz. Pretendemos, assim, divulgar o processo de desenvolvimento

e avaliação de materiais educativos e, desta forma, estimular a produção de novas estratégias complementares no campo da

educação em saúde. O trabalho foi organizado em três eixos

centrais: o primeiro apresenta a linha de pesquisa do Leas referente

ao desenvolvimento de estratégias educativas; o segundo descreve

as etapas de criação de um jogo educativo sobre a prevenção do

uso indevido de drogas, denominado Jogo da Onda; o terceiro

apresenta a metodologia utilizada na avaliação das repercussões do

Zig-Zaids – outro jogo educativo sobre a prevenção do HIV/Aids.

 

Desenvolvimento de estratégias

 

educativas

 

O Leas iniciou seus projetos de investigação científica na área de

doenças endêmicas, em especial a esquistossomose. Ao longo dos

anos, interessado em contribuir para o incremento de alternativas no

campo da educação em saúde, o laboratório inaugurou uma linha de

investigação relacionada à elaboração de recursos educativos. Tal ênfase originou-se de uma pesquisa dirigida para a produção e

avaliação da utilização da história infantil na abordagem da

prevenção da esquistossomose entre escolares do 1º grau,

desenvolvida por Schall e colaboradores (1987).

Os resultados dessa investigação fundamentaram uma proposta

pedagógica, caracterizada pela busca da integração das

singularidades cognitivas e afetivas com perspectivas coletivas. 1 Informadas por esse ponto de vista, foram desenvolvidas três

coleções de livros para o público infanto-juvenil sobre a prevenção

de doenças (Ciranda da Vida), questões ambientais (Ciranda do

Meio Ambiente) e o ensino de ciências (Ciranda da Vida), além de

uma revista de divulgação científica (Almanaque: colorindo a

Fiocruz 2 ). É importante salientar que, considerando-se o papel do

educador no processo de ensino e aprendizagem, teve-se a

preocupação de incluir nos materiais encartes específicos com

sugestões de atividades e indicações bibliográficas

complementares.

As repercussões positivas da utilização das coleções de livro no contexto escolar, associadas aos resultados de trabalhos sobre a

visão equivocada e alarmista de estudantes do 1º grau sobre a

epidemia de Aids (Rebello, Monteiro & Schall, 1989), orientaram o

nosso interesse para o desenvolvimento de novos recursos

educativos dirigidos para a prevenção do HIV. A definição por essa

temática também levou em conta a carência de recursos 3 e de

literatura na área, que apontava para a necessidade de se elaborar

propostas de prevenção capazes de promover tanto o conhecimento

como debates sobre os aspectos sociais e simbólicos dessa

epidemia. Considerando que a dinâmica de um jogo potencializa o

diálogo e a interatividade dos participantes, decidimos desenvolver um jogo educativo. Além de incentivar a troca de idéias acerca de

temas tabus associados à epidemia de HIV/Aids, como sexualidade,

morte e preconceito, o jogo, assim como os livros paradidáticos,

permitem a abordagem de conteúdos com a utilização de recursos

lúdicos dentro de uma visão construtiva e participativa. Com base

nessas evidências, criamos o Zig-Zaids. 4 Esse jogo vem sendo

utilizado por diversos profissionais e instituições. Foi adquirido pela

Coordenação Nacional de DST/Aids, pelo Sesc Nacional e por empresas privadas para uso em programas educativos, conforme

atesta o relatório de Torres (1995), que será comentado

posteriormente.

Diante da boa repercussão e do potencial do Zig-Zaids de promover aprendizagem e interação, decidimos desenvolver um

outro material, desta vez abordando os diversos aspectos do uso

indevido de drogas. Denominado Jogo da Onda, 5 esse recurso busca informar, esclarecer e promover reflexões sobre a dimensão

social do consumo indevido de drogas e da transmissão do vírus da

Aids, além de estimular debates acerca de vivências do cotidiano,

como relações entre amigos e familiares, práticas sexuais, sonhos,

decepções, dependências, entre outras.

O desenvolvimento dos jogos educativos foi orientado por

análises sobre os limites das políticas no campo da prevenção

fundamentadas apenas na informação biomédica, na responsabilidade individual e/ou em uma visão alarmista e fatalista,

indicados nos estudos sobre a prevenção da epidemia de HIV/Aids

(Homans & Aggleton, 1988; Bolton, 1992; Ingham, Woodcock &

Stenner, 1992) e sobre o uso abusivo de drogas (Acselrad, 1989;

Bastos, 1995; Soares, 1997).

Essa literatura aponta para a necessidade de que os programas

de prevenção abordem a dimensão socioeconômica e política da

epidemia, assim como as representações e práticas da população em relação à doença. Tal perspectiva de análise filia-se a uma

determinada visão crítica da educação (Melo, 1993) que repercute

nas discussões sobre a natureza educativa do trabalho de

prevenção no campo da saúde e, conseqüentemente, no

desenvolvimento de materiais. Esse enfoque baseia-se, entre

outros, na argumentação de Paulo Freire (1979) sobre o papel da

educação na transformação social. O autor relaciona a educação ao

processo de conscientização, caracterizado pela ação crítica permanente dos seres humanos sobre a realidade. Freire questiona

as ações pedagógicas domesticadoras, centradas na autoridade e

no saber do educador, e propõe uma concepção libertadora da

educação, em que educador e educando participem e colaborem no

processo de aprendizagem, em uma relação dialógica. Tal

orientação teórica introduz uma dimensão política e social na educação, ampliando a discussão da aprendizagem para além das

análises que priorizam o desenvolvimento cognitivo e emocional do

educando. 6

Assim, os jogos educativos aqui descritos têm por objetivo não

apenas esclarecer sobre os meios de prevenção de problemas de

saúde, mas fomentar debates acerca da dimensão social,

econômica, simbólica, cognitiva e afetiva desses fenômenos no interior da prática pedagógica.

Objetivamos com essas observações ressaltar que o processo de

desenvolvimento de materiais pedagógicos voltados para a

promoção de comportamentos preventivos deve incluir a definição

da(s) teoria(s) educacional(is) no campo da educação e saúde que

irá(ão) nortear o desenvolvimento de tais recursos.

Com o objetivo de estimular novas iniciativas críticas neste

campo, optamos por descrever a metodologia de desenvolvimento dos jogos citados, tendo por base as etapas de elaboração do Jogo

da Onda.

 

Jogo da onda: da criação à edição

 

1ª etapa: definição do tema, da população-

 

alvo e da abordagem

 

De um modo geral, a escolha do tema do material está

relacionada a fatores diversos, como, por exemplo, a carência de

recursos pedagógicos na área, a relevância e gravidade do

problema, a solicitação externa, o interesse e o apoio institucional.

Devido à complementaridade desses fatores, sua análise deve ser feita de forma integrada.

No caso do Jogo da Onda, a definição da temática, inicialmente,

levou em conta pedidos de profissionais de ensino, pais e alunos

para que produzíssemos um material sobre o consumo de drogas

entre jovens semelhante ao jogo sobre Aids. Cientes da gravidade,

da complexidade e da importância do tema e da linha de

investigação do Leas no campo da promoção da saúde, realizamos um levantamento preliminar de propostas pedagógicas e de

instituições que trabalham com essa questão e constatamos a

pertinência de desenvolver um recurso educativo capaz de abordar

os diversos aspectos do consumo abusivo de drogas. Portanto, a opção pelo assunto drogas foi orientada por demandas externas,

por uma primeira análise das especificidades e propostas

educacionais sobre o tema e pela experiência, interesse e

viabilidade institucional do projeto.

Observa-se, assim, que a definição da temática centra-se numa

confluência de fatores que se interligam. Tais variáveis também

orientam outra decisão importante, a caracterização da população à

qual o material se destina. Com relação ao jogo, resolvemos privilegiar o público jovem com domínio da leitura e escrita,

considerando: indicações sobre a carência de recursos educativos

destinados a essa população, a demanda de educadores e

especialistas da área e a intenção de criar alternativas de caráter

pedagógico para jovens, tendo em vista que esse grupo está

particularmente sujeito aos apelos e ofertas de diferentes drogas e

tem curiosidade pelo assunto. Além do tema, as condições de

acesso à população também são determinantes para a delimitação

do público-alvo.7 Tal escolha pode ser bastante específica – por

exemplo, pais de crianças com HIV/Aids – ou geral – toda a

população.

As especificidades do tema e da população-alvo influenciam as

demais etapas do trabalho, como a escolha do tipo de abordagem

do conteúdo. Assim, a opção por criar um jogo educativo sobre o

uso indevido de drogas para pessoas a partir de 12 anos levou em

conta alguns aspectos complementares. Um deles refere-se à

possibilidade do jogo de gerar informações, integrar e promover

debates sobre os diferentes aspectos que informam a prática

preventiva, a partir de uma situação divertida para os jovens, conforme foi evidenciado nas observações e avaliações do Zig-

Zaids. Dito de outra forma, a dinâmica de um jogo possibilita uma

abordagem participativa e reflexiva da temática, identificada com a

proposta pedagógica que orienta essa linha de trabalho do Leas,

além de se adequar às características da população-alvo. Outro

aspecto relaciona-se à amplitude e às especificidades da temática a ser desenvolvida. Compreendemos que a prevenção do uso abusivo

das drogas deve ser abrangente, para abordar os aspectos legais,

políticos e econômicos do consumo envolvidos na comercialização,

repressão e controle de drogas lícitas e ilícitas no mundo contemporâneo, bem como suas dimensões sociais, culturais,

afetivas e seus efeitos físicos e psíquicos.

Portanto, a idéia de fazer um jogo educativo foi informada pelos

resultados obtidos em experiência anterior, pelos princípios

educacionais, pelo perfil da população-alvo e pelas particularidades

do assunto tratado. Vale esclarecer que, ao longo do projeto, essa

opção inicial pode sofrer adequações e mudanças; tal escolha tem a

intenção de orientar o trabalho; no entanto, os desdobramentos da investigação podem indicar novos rumos.

 

2ª etapa: levantamento da literatura

 

Esta etapa tem por objetivo aprofundar o levantamento inicial

através da análise crítica de materiais, programas e pesquisas em torno do tema. Tal reflexão permite verificar se a hipótese referente

à carência de recursos pedagógicos no campo se confirma, bem

como fornecer fundamentos para o desenvolvimento do material. Ao

se conhecer a literatura, pode-se obter uma visão crítica do assunto

em foco, contextualizar as justificativas e evitar a reprodução de

equívocos.

Na elaboração do Jogo da Onda, a revisão bibliográfica

proporcionou um aprofundamento de estudos acerca das diversas dimensões do fenômeno das drogas, das motivações e implicações

do consumo de drogas lícitas e ilícitas entre os jovens, e sugeriu

importantes dados sobre os limites das iniciativas educativas

voltadas para a prevenção do uso indevido de drogas nesta

população, como a política repressiva, alarmista e

descontextualizada De acordo com Acselrad (1993:19), “o discurso

sobre drogas, seja ele médico, pedagógico, jurídico ou repressivo,

tradicionalmente buscou (...) amedrontar os indivíduos como forma de garantir e reforçar a submissão pela rejeição total do consumo”.

Essa visão, além de desconsiderar a complexidade e particularidade dos contextos sociais e individuais, não tem favorecido a diminuição

do consumo. Wusthof (1991) também aponta para os limites das

campanhas antidrogas centradas apenas na informação científica

e/ou na não experimentação.

A abordagem da ‘redução de danos’ tem sido apontada como um

novo modelo de tratamento e prevenção do uso abusivo de drogas.

Contraposta à política repressiva de guerra às drogas – centrada

numa visão alarmista e preconceituosa que reforça a noção de

controle social e punição dos usuários –, tal perspectiva

fundamenta-se no reconhecimento do fracasso dos programas

repressivos e na aceitação de que a utilização de drogas psicoativas

é uma realidade historicamente comprovada. Por isso, as estratégias preventivas devem buscar minimizar as conseqüências

negativas decorrentes do uso, através de alternativas capazes de

contemplar as singularidades dos diferentes tipos de droga, de

consumo e de usuário. Os programas de distribuição de seringas

para usuários de drogas injetáveis, analisados por Mesquita e

Bastos (1994) e Bastos (1995), e a avaliação de Soares (1997)

sobre um programa de prevenção realizado no sistema público de

ensino de São Paulo fornecem fundamentos para uma discussão aprofundada sobre as implicações desse ponto de vista para a

prática preventiva. Vale reiterar que as análises da revisão da

literatura nortearam o processo de elaboração do Jogo da Onda.

 

3ª etapa: investigação da visão do público-

 

alvo sobre o tema

 

Visando a enriquecer a análise da literatura e adequar o recurso

educativo à realidade do público-alvo, partimos para uma terceira

etapa, caracterizada pela pesquisa do conhecimento, opinião e

práticas desse grupo acerca do tema. A investigação foi organizada

em duas etapas complementares. A primeira refere-se à realização

de entrevistas individuais com alunos sobre diferentes aspectos do

uso abusivo de drogas, tais como: auto-imagem, atitudes perante situações de conflito e/ou prazer; relações familiares, sociais,

afetivas e sexuais; conhecimento, opinião e experiência a respeito das drogas lícitas e ilícitas. Entrevistamos cerca de 70 escolares de

12 a 18 anos, de ambos os sexos, das redes pública e privada dos

municípios do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Niterói. Com

objetivo de complementar os dados, realizamos uma segunda etapa caracterizada por entrevistas coletivas com grupos de estudantes

sobre o significado, o grau de envolvimento e as motivações dos

jovens em relação às drogas.

Para abranger realidades diversas, além da pesquisa com

escolares da rede pública e privada, fizemos contatos com jovens

que consomem socialmente drogas lícitas e ilícitas e com aqueles

que estão em tratamento em clínicas ou freqüentam grupos de auto-

ajuda devido ao consumo abusivo. Vale destacar que a investigação entre a população-alvo é muito importante para adequar o conteúdo,

a dinâmica e a linguagem do material. Para ilustrar este ponto de

vista, é interessante citar que as análises das entrevistas

reafirmaram a importância de se elaborar um recurso capaz de

fomentar a comunicação, conforme será comentado no próximo

item.

A definição da estratégia metodológica prevista nesta etapa deve

levar em conta os objetivos, o assunto e a população do estudo, bem como as condições de sua aplicação. Tal questão é ampla e

complexa, e está além dos objetivos deste artigo.8

 

4ª etapa: a criação

 

Após reunir, interpretar e integrar os dados coletados nas etapas

anteriores, é importante selecionar os conteúdos e adequar as

informações ao tipo de abordagem escolhida. No caso do Jogo da

Onda, a análise dos dados da literatura e das entrevistas com os jovens, descritos no artigo de Monteiro, Rebello e Schall (1994),

sugeriu a necessidade de incluir no material informações acessíveis

sobre os efeitos do uso de drogas lícitas e ilícitas e situações do

cotidiano vivenciadas pelos jovens, relacionadas à influência do

grupo de amigos e familiares, à dificuldade de compartilhar os

problemas, às dúvidas sobre motivações e conseqüências do

consumo de drogas, entre outros assuntos.

Essa análise também orientou a escolha da dinâmica do material.

Com o objetivo de potencializar a comunicação entre os

participantes, incrementamos a dinâmica do Zig-Zaids, 9 por meio da

criação de situações que ora enfatizam à transmissão da informação

correta, ora privilegiavam a reflexão e o diálogo. Para tal, foram

desenvolvidos quatro baralhos diferenciados. O baralho laranja,

denominado ‘dicionário’, descreve o conceito e efeitos de drogas

lícitas e ilícitas; 10 o baralho vermelho contém perguntas e respostas

sobre aspectos jurídicos, conceito e classificação das drogas e as

conseqüências de seu uso abusivo; 11 os baralhos verde e azul

fomentam a troca de experiência e o conhecimento do outro a partir

da apresentação de situações do cotidiano associadas ao consumo

de drogas, como relacionamento familiar, políticas educativas, conflitos pessoais, pressão social do grupo, entre outros. O baralho

verde 12 13 difere do baralho azul por conter mensagens das autoras

sobre o tema abordado na carta.

Além de os baralhos terem sido ampliados e diferenciados, o Jogo

da Onda foi projetado para ser jogado em dupla. 14 Tais inovações

procuraram estimular a comunicação, debates e reflexões entre os participantes, bem como ampliar as possibilidades de conhecimento

do outro, a expressão de opiniões e a aquisição de informações,

dentro de uma visão realista e não repressiva. Para enriquecer o

jogo também foi elaborado um encarte, que acompanha o material,

com sugestões de uso e indicações bibliográficas.

 

5ª etapa: testagem e adequações

 

O material deve ser testado com a população à qual se destina,

com o objetivo de avaliar a repercussão, a aceitação e a

necessidade de mudanças e adequações. Ninguém melhor do que o

público interessado para informar sobre o que está funcionado bem

e o que precisa ser melhorado. Isso pode ser feito mediante o uso

de formulários antes e depois da aplicação do jogo e da observação

das partidas.15

A realização da testagem implica a elaboração de uma versão

preliminar. Como idealizamos um jogo, utilizamos papel e cartolina para desenhar a pista e fazer os baralhos; os demais elementos

(pinos, bloco, caneta, marcador de tempo) foram fáceis de reunir.

Após construir a primeira versão do Jogo da Onda, conjugamos a

observação de partidas com a aplicação de questionários para antes

e depois do uso do jogo16 em um universo de cerca de 50

estudantes do 1º e 2º graus, oito jovens por partida, de cinco

escolas da rede pública e privada dos municípios do Rio de Janeiro e de Niterói. Durante a testagem verificamos a motivação, o

interesse, o funcionamento da dinâmica e a compreensão do

conteúdo.

De modo geral, os resultados sugeriram ajustes – como, por

exemplo, adequação da linguagem – e uma boa aceitação do jogo,

conforme ilustram algumas falas dos entrevistados sobre o jogo:

“ótimo, porque nos obriga à reflexão sobre questões e nos faz

formular argumentos para ajudar alguém com problema”; “bom pra abrir a mente”. A grande maioria dos escolares disse que jogaria

novamente; de acordo com o relato de um deles, “para conhecer

todas as perguntas e discutir mais o assunto”.

Para complementar a avaliação, pedimos a pais e educadores

que aplicassem o jogo. 17 Houve também a preocupação em realizar

testagens em realidades diferenciadas, como escolas localizadas

em regiões distantes dos centros urbanos, clínica para dependentes

químicos e consultório de psicopedagogia, aplicando a mesma

metodologia.

Com o objetivo de trocar opiniões, ouvir sugestões e enriquecer o

material, solicitamos ainda a consultoria de profissionais das áreas de educação, psicologia, epidemiologia e sociologia, especializados

no assunto do uso indevido de drogas. Os pareceres técnicos

contribuíram para a complementação e reformulação de alguns

temas abordados nas cartas e no folheto que acompanha o jogo,

assim como reforçaram a importância da criação do material.

 

6ª etapa: comercialização e distribuição do

 

produto

A edição comercializada do jogo implica investimentos financeiros

por parte de editoras/empresas. A grande vantagem da

comercialização é a possibilidade de divulgação e distribuição do

produto, além de eventuais lucros. Essa negociação envolve fatores diversos, como o perfil e o interesse da instituição e do profissional

responsável pela criação do material, a avaliação da empresa sobre

a qualidade e o potencial de venda do produto, entre outros. O

interesse de instituições na aquisição do material e a identificação

de patrocinadores podem agilizar e/ou viabilizar a edição. De

qualquer modo, é recomendável que desde a fase inicial haja

clareza sobre as expectativas de uma produção comercializada do

material.

No que se refere ao processo de comercialização do Jogo da

Onda, os materiais desenvolvidos no Leas, como já dito aqui,

originam-se de projetos de pesquisa que visam a contribuir para a

criação de alternativas no campo da promoção da saúde. Assim,

além da produção e testagem do jogo, o projeto previu a formação

de recursos humanos e a divulgação dos resultados em eventos e

artigos científicos. Ao final, quando todas as etapas do projeto já

haviam sido cumpridas, apresentamos a algumas editoras a proposta do jogo e negociamos a viabilidade e o interesse em

comercializar o produto. Embora houvesse a intenção de procurar

empresas com potencial de produção, deve ser observado que, ao

se iniciar o projeto, não se tinha garantia da edição do jogo. Vale

salientar que o projeto não incluía a sua comercialização.

Os jogos e livros complementam mas não substituem a prática

pedagógica; portanto, procurou-se conjugar a produção de materiais

com sugestões de atividades e bibliografia – indicadas no encarte que acompanha o material – e cursos de formação de recursos

humanos no campo da educação para a saúde, através de parcerias

institucionais com organizações voltadas para a educação em

saúde. Os jogos também podem ser utilizados como instrumentos

de investigações subseqüentes sobre o conhecimento e práticas da

população acerca do tema em pauta.

Por fim, sugere-se que o material passe por um processo

contínuo de avaliação, atualização de conteúdos e revisões com base em novos conhecimentos científicos e na repercussão do seu uso. Para ilustrar essa afirmação, apresentaremos, a seguir, a

metodologia de avaliação das repercussões do jogo Zig-Zaids.

 

Avaliando a repercussão dos jogos

 

A avaliação permite dimensionar a viabilidade e o alcance dos objetivos de uma proposta educativa; ela pode, então, ser entendida

como um processo capaz de (re)orientar e corrigir os rumos de um

trabalho. A definição da estratégia metodológica de avaliação varia

de acordo com os propósitos do estudo, as referências teóricas,

assim como com as condições materiais e humanas para sua

realização. As opções nesse campo são vastas e variadas, porém

não devem perder de vista: a definição clara dos objetivos que se

pretende alcançar; a contextualização do cenário e o planejamento das ações previstas; a adequação dos instrumentos; a viabilidade

para a sua realização e as análises e implicações dos resultados.

Ayres (1996), ao destacar a importância da avaliação de

intervenções educativas, sistematizou três princípios básicos desse

processo: 1) realismo – relevância da construção de critérios de

avaliação adequados à experiência real; 2) fecundidade –

importância da conscientização da proposta a partir da diferenciação

dos elementos que determinam o(s) sucesso(s) alcançado(s); 3) operacionalidade – definição de métodos objetivos e acessíveis,

capazes de produzir dados significativos e passíveis de

retroalimentação. Posteriormente, o autor utilizou esses conceitos

para avaliar uma situação fictícia relacionada à vulnerabilidade às

DST/Aids e ao abuso de drogas em uma unidade de ensino na

periferia de São Paulo. Mesmo apontando para a complexidade da

tarefa, tal iniciativa buscou revelar a importância da construção e

execução de um processo de avaliação de ações educativas.

Para exemplificar este ponto de vista, é interessante citar os

argumentos de Gilham, Lucas e Sivewrightham (1997) referentes à

avaliação de um programa de prevenção do uso de drogas voltado

para jovens. Ao comparar os resultados da visão da equipe de

educadores do projeto com dados empíricos quantitativos colhidos

entre os alunos, os autores identificaram que o impacto percebido pela equipe não foi evidenciado nas investigações entre os alunos,

ou seja, havia diferenças significativas entre o percebido pelos

educadores e o atestado pelos levantamentos empíricos. Tal

disparidade pode ser melhor compreendida quando se consideram: 1) o baixo risco da população-alvo em relação ao consumo de

drogas; 2) as expectativas e crenças dos educadores em relação ao

programa; 3) a sensibilidade das análises estatísticas.

Estas breves considerações, somadas à apresentação do método

de avaliação da repercussão do Zig-Zaids, intencionam estimular o

desenvolvimento de investigações no campo da avaliação da

utilização de materiais educativos. Estudos (Vargas, 1998; Monteiro,

Vargas & Cruz, 2001) têm apontado para a escassez de trabalhos neste campo, sugerindo a necessidade de se problematizar o

distanciamento entre as iniciativas de produção de recursos

educativos e o seu consumo pelos usuários, público-alvo das ações

preventivas.

 

O Zig-Zaids e suas repercussões

 

A partir da comercialização e divulgação do Zig-Zaids, recebemos

pedidos de escolas, agentes de saúde, pais, empresas, profissionais

e organizações de ensino e/ou saúde, comunidades, entre outros, dentro e fora do país. Para atender à demanda, iniciamos a doação

de um exemplar do material, privilegiando instituições públicas e da

sociedade civil organizada. Visando a obter dados sobre a utilização

desse recurso, enviamos junto com os jogos doados um formulário

de opinião. Paralelamente, organizamos um acervo com as notícias

da mídia acerca do material, as solicitações, opiniões e respostas

dos formulários. Diante do aumento das vendas e das demandas de

doação, da grande divulgação do jogo nos meios de comunicação de massa e do pequeno retorno dos formulários, decidimos realizar

um levantamento mais amplo de suas repercussões. Com a

intenção de obter uma visão mais neutra, contratamos uma

profissional para investigar a capacidade do jogo de gerar

informação, interesse, motivação e debates sobre práticas de

prevenção e convivência com a epidemia de HIV/Aids em diferentes realidades. Em virtude da dificuldade de registrar a adoção de

comportamentos preventivos – através da observação das partidas

e da opinião dos participantes e educadores envolvidos na dinâmica

do jogo –, esse estudo teve por objetivo atestar se o Zig-Zaids era capaz de promover aprendizagem sobre os meios de transmissão e

prevenção e debates acerca dos riscos de infecção, da convivência

com pessoas com HIV/Aids, entre outros aspectos da epidemia,

como alternativas de tratamento. Essa pesquisa, cuja metodologia

de coleta e organização dos dados serão descritas a seguir, foi

realizada por Torres (1995) e analisada por Schall e colaboradores.

(1999). Considerando nossos objetivos aqui, descreveremos as

etapas do estudo realizado por Torres, enfocando a metodologia de coleta e organização dos dados.

Para alcançar a meta prevista, a autora utilizou metodologias

complementares, a saber: 1) análise dos arquivos do Leas/Fiocruz,

organizados pelas autoras do Zig-Zaids sobre demandas,

formulários de opinião, relatórios e notícias divulgadas pelos meios

de comunicação de massa; 2) levantamento de opiniões por meio

de entrevistas e de questionários enviados; 3) observação de

situações de uso do Zig-Zaids.

Uma das contribuições importantes dessa investigação foi a

combinação da abordagem estatística com a análise do conteúdo

das opiniões, entrevistas, observação direta e registro fotográfico.

Outro aspecto relevante foi a diversidade da população investigada.

A pesquisa foi realizada no interior de um universo variado de

profissionais e instituições públicas, civis e privadas, nacionais e

internacionais, para além do campo da educação e da saúde.

Quanto à organização e à apresentação das análises dos dados colhidos, Torres privilegiou sete etapas centrais. A primeira centra-

se na contextualização dos aspectos históricos, epidemiológicos e

preventivos da epidemia de HIV/Aids e na descrição do processo de

produção, divulgação e repercussão do Zig-Zaids. A segunda

descreve os resultados dos formulários, mencionados

anteriormente, enviados pelas autoras do jogo durante o período de

1991 a 1994. O quadro demonstrativo indica o conteúdo do

questionário, ou seja, o nome da instituição que utilizou o jogo, a opinião sobre o material como recurso pedagógico, o público-alvo, as atividades desenvolvidas, a utilização de outros materiais

educativos, o local da aplicação e observações gerais.

A terceira etapa refere-se às respostas da carta enviada por

Torres, entre fevereiro e abril de 1995, para instituições que haviam adquirido e/ou recebido o jogo. A identificação dessas organizações

foi possível por meio do contato com a Editora Salamandra,

responsável pela edição do material, e da consulta nos arquivos do

Leas/Fiocruz. Os dados foram organizados em um quadro

demonstrativo com os mesmos conteúdos descritos no eixo anterior.

Na quarta fase consideram-se as avaliações do Zig-Zaids

dirigidas à Coordenação Nacional de Controle de DST/Aids, que

adquiriu cem mil exemplares do jogo para distribuir na rede pública de ensino e entre organizações não-governamentais. Até março de

1995, dez meses após a aquisição, haviam sido encaminhados 25%

do total de jogos. Das 27 cartas enviadas por Torres, para as

secretarias estaduais que receberam o material, apenas cinco

responderam. Destas, quatro ganharam um número significativo de

jogos e os distribuíram para as escolas com o objetivo de integrá-los

a programas de prevenção. Para complementar a análise, Torres

entrevistou a responsável pela distribuição do material. A quinta etapa demonstra a análise geral das avaliações sobre o alcance do

Zig-Zaids, como recurso educativo, de 54 instituições que

representam o total dos questionários enviados para a Fiocruz (1991

a 1994) e para Torres em 1995. A sexta fase caracterizou-se pela

observação direta de partidas do jogo, com jovens de 11 a 17 anos

de duas escolas privadas e do Instituto de Ação Cultural.18 Na

sétima e última fase, a autora organizou a descrição dos pareceres

de alguns profissionais sobre o Zig-Zaids.

Com base nos resultados colhidos nas diferentes etapas de

avaliação, Torres concluiu que o nível de informação da população é

mais relevante para a avaliação da repercussão do jogo do que a idade. Outro aspecto destacado foi diversidade de usos do Zig-

Zaids. O jogo foi aplicado em: treinamentos de profissionais de

ensino e saúde; atividades com meninas que vivem na rua; eventos

da prefeitura como a de Três Pontas, que montou mesas com jogo

na Praça Central durante o carnaval; outras atividades em escolas,

empresas e comunidades. No posto de saúde de Miguel Pereira, o tabuleiro foi ampliado em uma lona; no Colégio Bandeirantes, em

São Paulo, o jogo foi reproduzido em transparência para todos os

alunos poderem participar.

Por fim, Torres (1995:51) destacou que o jogo

 

Zig-Zaids é uma alternativa inteligente e adequada, pois de maneira lúdica,

criativa e inovadora fornece informações sobre Aids. Através da

descontração o jogo ameniza reações de constrangimento, (...) e permite

que haja um aprofundamento em questões ligadas à sexualidade.

 

Na prática, a repetição das cartas foi considerada prejudicial,

apesar de ter como objetivo a fixação das informações – os

participantes tendem a se cansar e a passar adiante. De qualquer modo, o jogo é considerado um competente recurso informativo.

Seu potencial de utilização está associado às ações pedagógicas

complementares, à sua adaptação, em termos de linguagem, à

população com dificuldade de leitura e à ampliação do conteúdo

para grupos com um bom nível de informação.

O estudo de Torres, além de complementar e aprofundar as

avaliações anteriores sobre o alcance do jogo em diferentes

realidades, forneceu sugestões capazes de potencializar o seu uso e de orientar a produção de novos materiais. Como desdobramento

dessas repercussões positivas, aceitamos a sugestão de editar esse

jogo no formato CD-Rom, o que resultou em dois produtos. O

primeiro CD-Rom tem os elementos do Zig-Zaids original (tabuleiro,

dados, baralho numerado, baralho surpresa e o manual para pais e

educadores), além de uma versão do jogo em inglês, e está

disponível na Internet. O segundo também mantém a estrutura

original, mas incorpora conteúdos novos e mais complexos. Essas iniciativas vêm atender a uma demanda crescente de que se tornem

acessíveis o conhecimento e a tecnologia da informática dentro de

programas educativos do ensino de 1º e 2º graus.

Como indicado anteriormente, os projetos de produção de

materiais educativos desenvolvidos no Leas incluem avaliações

continuadas voltadas para a análise das repercussões entre a

população-alvo e para revisões, aperfeiçoamentos e atualizações.

Assim, continuamos a atender aos pedidos de doação do Zig-Zaids e a enviar formulários de opinião, além de obter informações complementares sobre o seu uso em realidades diversas. Segundo

o relatório do projeto de prevenção das secretarias de Educação

estadual e municipal do Paraná, onde 3.345 jovens de escolas e

unidades de saúde utilizaram o material, esse jogo é capaz de promover diversão, conhecimento e debate sobre os diversos

aspectos da epidemia de HIV/Aids.

Objetivando avançar nessa direção, realizamos um estudo

exploratório sobre o uso do Jogo da Onda em unidades de ensino

das redes municipal e estadual do Rio de Janeiro, tendo em vista

que a Secretaria Estadual de Saúde/RJ adquiriu 10.000 unidades da

primeira edição do jogo para distribuir na rede. O projeto objetivou

analisar se a utilização do Jogo da Onda nas escolas selecionadas contribuiu para a divulgação e implementação de uma abordagem

preventiva/educativa do uso indevido de drogas identificada com a

perspectiva da ‘redução de danos’, citada anteriormente. Para tal,

definimos procedimentos metodológicos diferenciados e

complementares: entrevistas individuais, grupos focais, observação

direta de partidas e aplicação de questionários. Tais estratégias

possibilitaram não só caracterizar o contexto de aplicação do jogo,

mas também investigar a opinião de estudantes e professores da rede pública acerca dos temas e da dinâmica do material.

Os dados da investigação, descritos nos artigos de Monteiro,

Vargas e Rebello (2003) e de Rebello, Monteiro e Vargas (2001),

indicaram que o Jogo da Onda foi considerado tanto pelos/as jovens

quanto pelas educadoras um recurso capaz de informar, promover a

reflexão e estimular o debate acerca de várias situações cotidianas

relacionadas ao uso de drogas. Um dos aspectos observados foi a

motivação dos/as escolares para trabalhos de prevenção do uso indevido de drogas, valorizando especialmente as atividades

participativas que levam em conta a interação interpessoal e o

autoconhecimento, em contraposição às atividades centradas

apenas na transmissão de informação – “As pessoas decoram,

pregam coisas nos cartazes, escrevem só e nem prestam atenção

no que escrevem”. Os resultados dessa avaliação motivaram o

desenvolvimento de novos conteúdos, principalmente sobre saúde

reprodutiva e relações de gênero, que irão integrar as edições futuras do Jogo da Onda.

Considerações finais

 

Procuramos aqui ilustrar as etapas de desenvolvimento de um

material educativo voltado para a prevenção do uso indevido de

drogas e apresentar os métodos de avaliação da repercussão de

outro jogo sobre a prevenção do HIV/Aids. Essa opção de forma

alguma esgota a complexidade e amplitude desses campos de

ação; no entanto, ela procura incentivar e orientar a produção de

novos materiais educativos capazes de incrementar a prática

pedagógica.

Nesta perspectiva, essa produção deve vir acompanhada de

investimentos na formação de recursos humanos, através da troca

de experiências. Consideramos os materiais como um apoio e

incentivo à ação educativa, e não como uma substituição desta. Os

recursos lúdicos, como o Zig-Zaids e o Jogo da Onda, bem como a

literatura infantil, além de desempenharem um papel informativo,

têm se mostrado excelentes instrumentos para discussões em torno

de práticas e opiniões relacionadas à saúde.

 

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