Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos
2. Identidade, diferença e exclusão na sociedade brasileira contemporânea
2 – Identidade, diferença e
exclusão na sociedade
brasileira contemporânea
Benilton Bezerra Jr
Uma atmosfera de crise
Tornou-se lugar comum, hoje em dia, falar de crise. Ela parece
estar em toda parte. Crises políticas crônicas, como as do Oriente
Médio e da África, e crises agudas, como aquelas que nos últimos
anos vêm explodindo de maneira surpreendente entre as
populações e governos dos países balcânicos. Crises econômicas:
com a globalização, todo o planeta passou a viver em sobressalto
permanente. A qualquer momento, e de surpresa – para os
desavisados –, países que, na semana anterior, pareciam ostentar uma economia exemplar subitamente ameaçam ir à bancarrota,
levando junto com eles dezenas de outros países e centenas de
milhões de pessoas. A atmosfera de crise não atinge apenas países
e economias. Nem mesmo a natureza está a salvo: os efeitos
provocados por agressões maciças ao meio ambiente produzem um
impacto cada vez mais global e profundo no equilíbrio ecológico do
planeta. Há um sentimento universal crescente de que os recursos
naturais de que a espécie dispõe estão efetivamente começando a escassear.
No plano da cultura, a crítica feroz aos desmazelos da
racionalidade totalizante e imperativa, tão comum nos últimos
tempos, tem vindo freqüentemente acompanhada de uma espécie
de celebração do fugaz, do efêmero, da virtualidade e do provisório,
que tem como efeito colateral uma atmosfera de incerteza e
insegurança em relação do futuro. A tudo isso é preciso acrescentar a rápida desorganização – no período pós-guerra fria – dos quadros
de referência política e social que durante os últimos cem anos
organizaram o mundo em projetos universais. O bipolarismo
geopolítico trazia para o cotidiano uma competição entre alternativas que visavam não só ao cenário atual, mas sobretudo à construção
de uma hegemonia no futuro. O confronto existia, é claro, mas a
crise sempre podia ser atribuída ao outro lado. Com a queda do
muro de Berlim, desabou esse quadro e, com ele, o pano de fundo
que, de um jeito ou de outro, ajudava a organizar o sentido da
história na qual estávamos inseridos. Sem ele, os indivíduos têm
maior dificuldade de compreender os interesses e a direção dos
conflitos e disputas, perdendo-se na impressão de que a lógica dos acontecimentos lhes escapa. No plano da vida subjetiva tudo isso
não deixa de produzir efeitos. Entre outros, uma experiência de si
cada vez mais marcada pelo sentimento de superficialidade, pela
fragmentação das imagens identitárias, pela apatia psíquica, pela
tensão entre a sofreguidão consumista, de um lado, e a tonalidade
vagamente depressiva no cotidiano, por outro.
Mais do que um conjunto de crises particulares, poderíamos falar
de um sentimento disseminado de crise, que afeta o imaginário social de maneira contundente e destrutiva, diminuindo
drasticamente a capacidade de construir promessas de um mundo
melhor projetadas em um futuro ao alcance de nossas ações. Esse
efeito é perceptível tanto no nível individual quanto no nível coletivo
e diz respeito à perda – no plano da experiência vivida – da
dimensão de historicidade no seu sentido forte, ou seja, da
assunção da responsabilidade quanto ao futuro. É como se ele já
não dependesse tanto de nossas ações no presente. Diante de uma realidade adversa e cheia de incertezas, parece não haver outra
saída para os sujeitos, exceto a expressão de uma indignação
impotente, ou a busca de estratégias de sobrevivência que dêem
conta do imediato.
Na realidade, nunca deixou de haver crises ao longo da história
humana: rupturas, mudanças violentas, períodos de grande
turbulências. A história é feita de transformações, e – como disse
Lenin com razão – a violência é muitas vezes a parteira da história. O que há de particular em relação ao que estamos vivendo, porém, é que o sentido das transformações parece nos escapar, parece
seguir uma lógica da qual não conseguimos nos apropriar e que nos
governará quer queiramos, quer não. Nos períodos anteriores à
época moderna no Ocidente, essa não era uma experiência corrente. O sentido geral da história se expressava em utopias
religiosas, que organizavam simbolicamente o reino material e
humano, tornando plausíveis, para os homens, os seus destinos.
Com a modernidade, a crença em uma Razão universal tomou o
lugar hegemônico da religião. As revoluções modernas, como a
americana e a francesa, trouxeram o sentido da história para o
âmbito de ação dos homens. Pela primeira vez, a humanidade
ousava decidir que tipo de sociedade construir, a partir de valores que – embora universais – eram terrenos. A utopia moderna de uma
sociedade democrática – feita por e para seres humanos livres,
iguais e solidários – fundou-se na vontade de construir um mundo
melhor para todos e na convicção de que o destino pertence aos
humanos e não aos deuses. Era isso que tornava o progresso
possível: a crença na capacidade humana de recusar o presente em
nome de um futuro mais desejável. Em outras palavras: sempre
houve, mesmo nos períodos de maior arbítrio e violência, e no interior de organizações sociais injustas e desiguais, a possibilidade
de vislumbrar uma alternativa, de pensar o presente indesejado
como transitório e superável.
O que hoje parece diluir-se na atual experiência cotidiana da crise
é justamente essa dimensão de historicidade, de potência em
direção ao novo, de inquietação ativa e confiante em relação a um
estado de coisas que se pretende mudar. O imaginário social
contemporâneo parece impregnado de uma visão do mundo e dos sujeitos inteiramente regidos por instâncias heterônomas
(Castoriadis, 1982), que esvaziam seu poder normativo, ou seja, sua
capacidade de criar novas normas de funcionamento para si e para
a sociedade. Diante das forças invisíveis e abstratas da economia,
da inevitabilidade orgânica e concreta dos genes e hormônios, ou
das estruturas inescapáveis do psiquismo, pouco resta para a ação,
para a invenção. No final, parecemos todos condenados a fazer na
vida pouco mais do que uma figuração discreta em uma peça cujo roteiro nos é imposto e cuja razão de ser nos escapa.
O mercado no lugar da sociedade
Entre as muitas conseqüências deste quadro, duas merecem
destaque aqui: a primeira é a deterioração a que vêm sendo
submetidos os valores da solidariedade e da tolerância para com a
diferença e os diferentes nos dias atuais; a segunda é a decrescente
estabilidade e confiabilidade de laços sociais tradicionalmente
apaziguadores das identidades e propiciadoras de um terreno
psicológico menos movediço para os indivíduos.
Os exemplos da primeira conseqüência são abundantes: a explosão de conflitos étnicos e religiosos nos países do antigo bloco
socialista, o aumento assustador do racismo e da xenofobia na
Europa Ocidental, a ascensão do fundamentalismo mais
obscurantista em países muçulmanos, a dilaceração interna em ex-
colônias africanas. A diluição de horizontes coletivos, o
esmaecimento do poder normativo de valores universais e a
necessidade de pertencimento que inevitavelmente surge como um
remédio para angústia em um universo fragmentado, tudo isso contribui decisivamente para reforçar a adesão crescente a esses
tipos de movimentos sociais. Este fenômeno é certamente complexo
demais para ser analisado em poucas linhas. Mas vale a pena
chamar a atenção para um dos elementos presentes na composição
do quadro mais geral em que tudo isso acontece. Nos últimos 20
anos estamos vivendo um período marcado pela hegemonia
crescente no plano político e econômico do que se convencionou
chamar de neoliberalismo. O ano de 1989 marca simbolicamente o momento em que se concretizou finalmente essa hegemonia, após
décadas de embate com as experiências inspiradas nas propostas
socialistas e socialdemocráticas. Os equívocos do chamado
socialismo real são conhecidos: a idéia de uma sociedade
organizada de forma absolutamente racional, central e planificada
como passo para a construção de maior justiça e fraternidade social
mostrou seus limites e graves defeitos. Dependia de uma crença
quase ilimitada (e muito pouco razoável) em uma racionalidade econômica e política que supostamente vislumbraria os meios para
reorganizar a sociedade, de modo a superar definitivamente suas divisões e conflitos internos. As conquistas e acertos alcançados em
certas áreas não supriram o que muitos críticos de orientação
socialista há muito haviam apontado: a ausência de um processo
efetivo de construção de espaços democráticos, o que resultou na burocratização de efeito letal (Castoriadis, 1983).
Apesar de tudo isso, é inegável que a dissolução de um mundo
organizado basicamente em torno de dois pólos que disputavam
hegemonia em todos os campos (político, econômico, ideológico)
mudou drasticamente o cenário político mundial. Sem o campo de
tensões organizado em torno do bipolarismo, as experiências
socialdemocráticas da Europa, que historicamente significavam a
tentativa de corrigir politicamente os efeitos cegos de uma economia liberal, viram desaparecer o chão debaixo dos pés e se tornaram
vulneráveis às investidas neoliberais. Países periféricos, cujo apoio
estratégico era valorizado nos tempos da guerra fria, tornaram-se
supérfluos geopoliticamente e foram deixados de lado, entregues à
própria sorte (Que sinos dobraram pela tragédia de tutsis e hutus ou
da Libéria?). O planeta passou a ser globalmente submetido a uma
lógica econômica que dispensa justificativas políticas, porque
supostamente se baseia em uma racionalidade neutra. É como se a economia, fantasiada de ciência racional, tivesse conquistado
supremacia total em relação à política, que passou a ser nada mais
do que gestão de interesses econômicos e financeiros. O que
aconteceu não foi simplesmente o fato de a sociedade de mercado
ter prevalecido sobre a economia planificada. É que agora a
sociedade parece ser apenas e nada mais do que o mercado. E se
até há pouco capitalistas e socialistas debatiam acerca do melhor
caminho para promover o progresso humano e a conquista do futuro (nesse sentido a corrida ao espaço foi uma das mais belas
metáforas), hoje em dia o vocabulário e os interesses mudaram.
Trata-se de maior produtividade, menores custos, otimização dos
investimentos, reengenharia, downsizing etc., que se supõe trarão
como benefícios secundários mais riqueza global a ser distribuída
para todos.
A realidade tem mostrado, no entanto, um quadro muito diferente.
Ao lado de economias que sazonalmente ostentam índices aparentemente espantosos de crescimento, observa-se, nas populações desses mesmos países, o aumento do contingente de
miseráveis. Paralelamente a uma expansão, sem precedentes na
história, de tecnologias fantásticas em todos os campos, ressurgem
com força total as doenças da pobreza e do passado. De um lado, presenciamos sem alarde um absurdo desperdício de energia e
alimentos; do outro, uma foto, uma notícia rápida no jornal da noite
nos jogam no rosto a realidade bárbara de crianças disputando com
abutres restos de comida. Em um mundo que poderia alimentar a
todos os seus habitantes, a morte por falta de comida é um destino
provável para milhões. Vivemos em uma era de opulência, de um
lado, e privação, por outro. Desperdício por parte de uns, carência
absoluta por parte de outros. A competição, erigida em valor supremo, tem simplesmente deixado de lado todos aqueles que por
diversos motivos se encontram – ou são jogados – à margem do
todo-poderoso mercado (Kurtz, 1997).
A exclusão dos irrelevantes
Um traço particularmente cruel, no entanto, caracteriza os novos
tempos: o mundo do neoliberalismo criou um novo tipo de
marginalização, mais radical e escandaloso do que aqueles com os
quais sempre convivemos. É claro que toda organização social implica a existência do diferente, do oprimido, do marginalizado, do
desigual. Toda cultura produz diferenças e sustenta alguma forma
de hierarquia para ordená-las. Mesmo as sociedades igualitaristas
da modernidade ocidental, fundadas no individualismo, abrigam
estruturas hierarquizadas. Além disso, toda cultura implica normas.
E toda norma implica o seu oposto, a ‘antinorma’, o desvio, a
diferença. Uma sociedade que visasse à igualdade absoluta entre
seus membros seria até mesmo indesejável; dificilmente poderia não ser uma forma qualquer de totalitarismo. Entretanto, até em
sociedades profundamente desiguais pode haver laços de
reciprocidade, ou seja, uma certa forma de organicidade que une os
diferentes sob o manto de uma realidade maior que abarca a todos.
Nas sociedades fortemente hierarquizadas como as sociedades de
casta, por exemplo, é a religião que cumpre essa função de organizar simbolicamente as diferenças sociais (mesmo as mais
brutais), e com isso dar a cada um lugar na totalidade social, um
lugar de reconhecimento simbólico (Dumont, 1978, 1985). Na
sociedades ocidentais tradicionais, apesar de não haver uma justificação teológica (pelo menos a partir do cristianismo) das
diferenças entre opressores e oprimidos, exploradores e explorados,
sempre houve uma ‘necessidade social’ dos estratos subordinados.
Não poderia haver os homens livres da Grécia clássica sem os
escravos e todos os demais privados da liberdade; não poderia
haver a burguesia sem os operários e assim por diante. Desse
modo, ao lado das diferenças e do tratamento desigual concedido a
eles, sempre existiu um regime de distribuição de direitos e deveres e um mapeamento do lugar reservado a cada um no universo social.
Um dos elementos mais assustadores do quadro atual é que
mesmo esse tipo de laço parece se desvanecer. Criou-se uma
espécie de marginalização ‘por obsolescência’. As políticas e
mecanismos econômicos atuais vão simplesmente dispensando,
para seu pleno funcionamento, a existência de contingentes
imensos de seres humanos, que se tornaram literalmente
supérfluos, desnecessários, obsoletos. O modelo neoliberal vigente implica a assunção de que o ‘bolo’ não é mesmo para todos. E
como os seus opositores parecem ter sido calados para sempre, já
não é mais preciso vender a idéia de que primeiro é preciso fazer o
bolo crescer para só depois haver o que dividir. Quem puder arranjar
convite, que entre na festa e dispute uma fatia; quem não puder,
está mesmo barrado no baile e se transforma em descartável. No
nível planetário, esse efeito perverso exclui nações inteiras, como
acontece com boa parte dos países africanos. Até mesmo nas regiões ricas do chamado primeiro mundo o fenômeno é crescente.
São milhões e milhões no mundo inteiro condenados a uma vida
irrelevante. Não são sequer oprimidos ou explorados: não
interessam, são deixados de lado. São verdadeiramente ‘excluídos’.
As conseqüências desse quadro não podem passar
despercebidas. Uma delas é que a reação espontânea dos
excluídos tende a ser inteiramente despida de horizonte político, ao
contrário do que caracterizou modernamente a luta dos que são postos à margem. Não se trata de criar espaços de liberdade, como nas revoltas de escravos, nem uma sociedade mais justa, como nos
movimentos e revoluções operárias. Esses objetivos implicam a
reivindicação de participação no conjunto social, com a finalidade de
transformá-lo. A ação política exige sujeitos minimamente capazes de se reconhecerem como agentes, como capazes de estabelecer
pactos coletivos com vistas à obtenção de objetivos comuns, como
capazes de investir no presente as promessas do futuro, o seu ou
de seus descendentes, e assim por diante (Arendt, 1981). Ora, a
rarefação desses sentimentos é justamente um dos problemas mais
sérios que enfrentam todos aqueles empenhados hoje em dia em
mobilizar mesmo aqueles setores tradicionalmente engajados nos
movimentos sociais. Para que qualquer indivíduo se sinta responsável pelos seus atos perante todos os demais membros de
sua comunidade, é indispensável que ele se sinta necessário, que
sua presença não seja irrelevante (Sennett, 1999). Quando isso
deixa de acontecer, é a própria idéia de ação política que se
encontra em processo de esvaziamento. E se isso é verdade para
os que ainda se percebem como partes dos processos sociais de
troca, é muito mais evidente nos contingentes excluídos. E o
dramático é que, em um mundo em que as formas de reciprocidade, os laços de dependência necessária se tornam crescentemente
inexistentes, mais do que nunca a solidariedade depende de uma
opção ética e de uma ação política. Ou seja, é exatamente no
momento em que as condições são menos propícias à formação de
sujeitos e consciências coletivas dotadas de um desejo de futuro
que mais precisamos da agência, da vontade, da determinação de
mudar que só a expansão do espaço democrático e a construção do
exercício da cidadania podem oferecer.
Cidadania e identidade
Para fins desta discussão, podemos caracterizar, de modo um
pouco impreciso (mas não equivocado), o projeto democrático como
um processo de ampliação constante de espaços mais livres de
coerção e a produção de mecanismos mais eficazes de promoção
da solidariedade no interior da sociedade, com o objetivo de possibilitar, a um número cada vez maior de seus membros, a vida
mais criativa e satisfatória possível.
Para entender melhor este ponto, importa fazer rapidamente
menção a algumas idéias que dizem respeito à noção de identidade (analisada do ponto de vista da construção subjetiva, ou seja, dos
processos pelos quais todo indivíduo se constitui como um sujeito
dotado de uma imagem de si mais ou menos estável, base para sua
ação no mundo).
Gostaríamos de insistir na idéia de que o projeto democrático só
pode se tornar uma experiência real se levado a cabo por meio de
seres humanos imbuídos da convicção de sua validade e armados
não só com consciência racional de sua plausibilidade, mas também dotados de uma adesão afetiva, emocional ou subjetiva a esse
projeto. Isto significa que não se pode pensar no processo de
construção de cidadãos apenas como a fabricação social de
agentes racionais orientados para a realização de certos objetivos
universais e igualitários. É preciso também que esses agentes
sejam dotados de um certo tipo de ‘sentimentalidade’, ou seja,
sejam predominantemente regidos por uma pauta de reações
afetivas ao mundo e aos seus semelhantes. E que contemplem, como alvo dessas respostas ao meio, a conquista de objetivos
demarcados pelo chamado projeto democrático, em especial o
exercício da solidariedade e da tolerância.
Essa afirmação, na realidade, nada tem de novo no seu núcleo.
Os teóricos do contrato social já aludiam a ela, quando viam, na
base de toda a vida social, um contrato estabelecido entre seus
membros, que renunciam à concretização de certos interesses
particulares com vistas à conquista de um mínimo de coesão que permita a realização de interesses comuns. Sem esse contrato, não
seria possível a cooperação, a vida coletiva: ela seria destruída pela
violência inerente a toda forma de vida, que se impõe de forma
brutal para sobreviver. A cultura humana só existe porque essa
violência é ordenada e administrada pelas regras e leis que
compõem tal contrato. Certamente o excesso, a violência arbitrária,
a crueldade estão presentes em qualquer forma de organização
social. Mas em qualquer uma delas sempre há as regras que tornam tal ou qual tipo de violência aceitável ou intolerável. Entre nós, por exemplo, uma das regras básicas é a de que nenhum ser humano
tem o direito de tirar a vida de um semelhante. Mas a regra,
universal, tem suas exceções: nas guerras, por exemplo, o soldado
não só tem permissão como obrigação de matar, obrigação que se não é cumprida o leva à corte marcial onde, então, é a sua própria
existência que está em perigo. O juiz que condena alguém à cadeira
elétrica o faz sob os auspícios da lei, e se alguém tira a vida do
outro em legítima defesa, aceita-se o fato como defensável.
O equilíbrio social absoluto jamais é alcançado (exceto na
ambição patológica dos regimes totalitários), mas a própria noção
de uma contratualidade subjacente organiza as transgressões e as
respostas a elas, ao mesmo tempo que fornece o chão do qual revoluções e rupturas emergem, instaurando novas ordens, novas
normas de organização social. Também a psicanálise, desde seus
primórdios, afirmou a existência de um pacto, de um acordo, na
origem de todo laço social. Freud jamais renunciou à idéia de que a
sociedade repousa sobre a coerção das pulsões. A renúncia à
satisfação pulsional sem limites é indispensável tanto à vida
subjetiva individual quanto à vida em sociedade. Sem essa renúncia
o indivíduo se tornaria uma caricatura de animal selvagem. Caricatura porque, ao contrário daquele, o ser humano não vem ao
mundo dotado de uma pauta inteiramente determinada de condutas
para lidar com o meio ambiente. A força dos instintos nos animais é
organizada em padrões de resposta ao meio que os orientam frente
às necessidades e surpresas da vida. No ser humano essa força
perde a direção precisa, o objeto naturalmente adequado. É preciso
aprender a ser um humano, e o processo é demorado. Nenhum
animal é tão dependente de outros de sua espécie quanto o homem.
Toda a extraordinária potencialidade incrustada na complexa e
maravilhosa anatomia do cérebro não vem à tona sem a presença
de outros indivíduos já socializados, que mergulham paulatinamente
o recém-nascido no universo propriamente humano – o universo da
cultura, da significação, da linguagem. É somente no interior desse
universo que os recursos biológicos mais nobres do ser humano são
despertados e acionados. Inscrever-se nesse universo implica ser
atravessado pelas regras que o governam, regras que impõem a cada indivíduo limites, a começar pelas regras da própria linguagem – meio pelo qual o indivíduo humano se torna um sujeito, um ‘eu’.
Tornar-se um ‘eu’ significa, ao mesmo tempo, ser capaz de
reconhecer os outros, perceber-se, assim como ocorre com os
outros, regido por uma instância que transcende o singular, o particular, o idiossincrático: o simbólico, a cultura, ou as
significações sociais e suas regras, que não são obra de nenhum
‘eu’ em particular e que, ao contrário, abarcam e marcam a todos
sem exceção. Por outro lado, são os sujeitos que sustentam a
permanência da cultura, dando-lhe suporte por meio da adesão e
reprodução dos seus valores e instituições mais fundamentais.
Mesmo quando rompem com esses valores, só o fazem para
substituí-los por outros, por meio de novas significações gestadas na vida coletiva. Indivíduo e sociedade, portanto, são faces de uma
mesma moeda (Castoriadis, 1999). A construção dos sujeitos
individuais é sempre uma fabricação social e, por outro lado,
qualquer sociedade só subsiste na medida em que encontre formas
de se reproduzir por meio dos sujeitos que constrói.
As exigências do ‘eu’
Piera Aulagnier cunhou uma feliz expressão para dar conta desse
processo de reciprocidade: “pacto narcísico”. Assim ela denominou o processo pelo qual a cultura, em troca da própria sobrevivência,
oferece a cada novo humano que emerge em seu seio um lugar de
reconhecimento. Um lugar simbólico no qual o futuro sujeito
ancorará seu processo de construção de si como um eu, de onde
obterá o reconhecimento dos pares e a partir do qual processará –
em um movimento que só termina com a morte – a pluralidade
identificatória que se abriga sob seu nome próprio. Todo esse
processo é realizado por meio da ação e da presença de humanos que o precedem na escala de gerações, humanos que representam
simbolicamente a sociedade que acolhe o recém-chegado e que
dão provas (libidinais) do desejo de integrá-lo ao todo social. Por
outro lado, o sujeito, assim dotado de uma carga simbólica de
pertencimento, será a garantia de reprodução dessa cultura, preservando-a e sendo ele próprio um agente de transmissão
simbólica para as gerações que o sucedem (Aulagnier, 1985).
É somente na medida em que esse pacto se dá de uma maneira
“suficientemente boa”, para usar a expressão de Winnicott, que se pode esperar que os sujeitos construídos nesse processo se
percebam ligados por laços de pertencimento à totalidade social e
se tornem indivíduos com uma integridade subjetiva razoavelmente
bem sucedida. Aulagnier chama de “projeto identificatório” o
processo pelo qual o indivíduo em vias de socialização produz um
eu. A criança ao nascer é inteiramente dependente da mãe (ou de
quem ocupe a função materna). A mãe é a garantia de
sobrevivência física, é a oferta de um investimento libidinal primário indispensável à sobrevivência psíquica e é a guardiã, a mestra, a
senhora absoluta da significação. É à mãe que compete designar
com sentidos o que ainda é para o bebê uma experiência estésica
amorfa, informulada. É ela quem vai oferecer os primeiros índices
de discriminação e classificação do mundo, do meio ambiente. E um
dos primeiros índices é justamente a separação entre o bebê e ela
própria, a definição de limites entre a individualidade que é o bebê e
o resto do mundo. Entretanto, esse lugar de ‘senhora absoluta da significação’ deve ser deslocado para que o bebê possa levar
adiante o processo de diferenciação de si próprio. Isto só pode ser
alcançado na medida em que a instância paterna intervenha,
fazendo valer a noção de que as significações que a mãe oferece à
criança não são absolutas, e têm origem em uma ordem que a
transcende e da qual ela é apenas porta-voz: a instância da lei do
pai, que é também – como afirma a autora – a lei dos pares. Só
quando, rompendo com a simbiose inicial com a mãe, a criança começa a se organizar subjetivamente em torno de enunciados
identificatórios que a predicam, que a qualificam de modo singular
diante dos demais, é que se pode falar do início do projeto
identificatório – a própria essência do eu.
O eu, portanto, existe no início como um nome, uma idéia, uma
imagem no desejo dos pais, uma projeção de indivíduos que
antecipam a chegada de mais um semelhante. Ele existe como
possibilidade antecipada e desejada pelos eus já existentes. Pela repetição, vai paulatinamente tornando ‘seus’ esses ditos e enunciados sobre si próprio, veiculados pelos porta-vozes que lhe
transmitem as significações sobre si e sobre o mundo. Uma vez
ultrapassado o momento inicial, progressivamente entra em cena
um agente, um ‘enunciante’. Se de início ele depende de que sua existência e seu futuro estejam reafirmados na palavra dos outros
significativos para ele, aos poucos vai se apropriando da função
própria à atividade do eu, a de contar, para si e para os outros, as
narrativas nas quais ele se revela com uma singularidade. É nesse
momento, que o mergulho na temporalidade (e na incerteza, na
imprevisibilidade, na precariedade) da vida psíquica vai configurar o
eu como devir, como ‘identidade’ em constante processo de
atualização. O eu se mostra como um “centro de gravidade narrativa”, como disse Daniel Dennett, uma ficção necessária como
dizemos em psicanálise, uma narrativa construída na interação com
outros eus, com o meio ambiente cultural e físico que o cerca, com
seu próprio passado, e com as antecipações que faz acerca de seu
futuro.
Compreender o eu dessa maneira é vê-lo como um feixe e um
fluxo complexos de imagens identificatórias que organizam aquilo
que percebemos com uma identidade mais ou menos estável a cada momento da existência. Significa também perceber no interior
mesmo de seu funcionamento os pólos da identidade e da
diferença. Pode-se afirmar isso lembrando que a existência do eu
como uma narrativa de si que se desdobra supõe a preservação de
um sentimento de identidade, ou ‘ipseidade’, que é corroborado
pelas experiências inscritas na narrativa. Afinal, pluralidade
identificatória não tem nada a ver com personalidade múltipla (nesta
a condição patológica despedaça a narrativa do eu em enredos que não apenas não se relacionam como se excluem). Por outro lado, as
aspirações identificatórias que projetam no futuro um eu diferente e
o processo constante de reapropriação do passado em função de
exigências presentes faz com que a afirmação de uma identidade do
eu implique concomitantemente um movimento de diferenciação de
si para si mesmo.
Nada garante em princípio a preservação do eu no tempo. Quem
quer que tenha experimentado alguma vez angústia ou depressão compreende a afirmação imediatamente. É enorme a necessidade de encontrar meios pelos quais a precariedade e o desamparo que
caracterizam a vida subjetiva sejam aliviados e produzam um
sentimento de estabilidade e preservação em um meio de
mudanças inevitáveis provocados pelo acaso, por um ambiente indiferente, ou simplesmente pelo tempo. Para que isso seja
alcançado é indispensável que certas referências simbólicas sejam
preservadas da precariedade e transitoriedade. É preciso que certas
aspirações encontrem plausibilidade entre os pares, que as
reconheçam como legítimas e realizáveis. É necessário que a
experiência de si encontre algum grau de coerência com os
enunciados e discursos que organizam o mundo de possibilidades
compartilhadas. É importante que determinadas lembranças do passado, que funcionam como esteio de imagens do eu prazerosas
e valorizadas, não se desfaçam sob a injunção de experiências
traumáticas do presente.
Ora, uma das formas mais importantes que os humanos têm de
enfrentar a experiência da precariedade, da imprevisibilidade que
caracteriza a vida, é o investimento no futuro. A possibilidade de
imaginar um futuro que não seja a repetição do passado, um futuro
mais generoso e seguro do que o presente, é algo vital para o funcionamento do eu. Por mais estreitas que sejam as
possibilidades do momento, a manutenção dessa capacidade
preserva um significado para o presente e organiza a experiência do
eu em direção a um horizonte mais aberto e mantém uma saída –
por mais improvável que seja – para os conflitos e o sofrimento.
Mesmo quando a sobrevivência física do indivíduo se encontra
fortemente ameaçada, senão efetivamente condenada, é na
antecipação de um futuro melhor para os filhos, os compatriotas, ou as próximas gerações humanas que o eu encontra esteio para se
preservar e não se dissolver na angústia ou na indiferença total.
Essa característica do funcionamento do eu é fundamental para o
projeto democrático. É claro que qualquer sociedade depende da
existência de um futuro antecipável. No entanto, é preciso notar que
a própria noção de futuro varia em contextos sócio-históricos
diferentes. Em sociedades tradicionais hierárquicas, a noção de
futuro está comprometida com uma visão do tempo que não privilegia o sentido de linearidade, nem a idéia de construção. O investimento no futuro pode ganhar a forma de ‘reafirmação’, por
meio do resgate da tradição em processo de corrupção no presente,
e não de invenção ou criação. Ou ainda, em sociedades fortemente
regidas por utopias religiosas, o futuro pode estar identificado com alguma outra esfera que não a terrena, ou com uma escala de
tempo medida não por gerações mas por períodos de tempo
inimagináveis para os humanos. Quando um hindu tradicional pensa
no futuro, sua escala é a de incontáveis reencarnações. Nas
sociedades modernas o projeto democrático se apresenta em um
horizonte laico, incrustado em uma experiência social do tempo que
percebe o futuro como imprevisível, aberto à ação humana, como
um espaço de criação do inimaginado, do inteiramente novo. Nessas circunstâncias, a possibilidade de investir o futuro é
indispensável. Sem o exercício dessa capacidade não se criam
cidadãos. Consumidores, com certeza. Contribuintes, talvez. Mas
cidadãos, não.
Como é possível se depreender facilmente, porém, essa
capacidade de investir o futuro, e nessa operação exercer seu poder
normativo, não pode ser uma atividade autônoma do eu,
completamente independente das condições que cercam o seu ‘projeto identificatório’, ou seu processo constante de construção de
si. Isso significa que a realidade social na qual os sujeitos se
encontram pode facilitar ou, ao contrário, contribuir para o
engessamento da atividade essencial do eu. Ou seja, a estrutura
das relações sociais e a força do imaginário social que compõem o
cenário no qual o eu circula determinam – em alguma medida
(embora não de modo direto nem exclusivo) – o espectro de
possibilidades, o grau de plausibilidade a que seus investimentos podem aspirar.
Desigualdade e hierarquia: o caso
brasileiro
O Brasil mostra certas peculiaridades que nenhum outro país do
mundo, no momento, apresenta. É uma das mais poderosas economias e está entre os países de menor ‘desenvolvimento
humano’. Seu desempenho em termos distributivos é um dos piores
do planeta. Sua concentração de renda é vergonhosa, assim como
os índices de doenças da miséria, como a hanseníase, esquistossomose, malária, chagas e tuberculose. Único país do
mundo com uma extensão territorial tão imensa e com uma única
língua e cultura, cultiva, entretanto, desigualdades sociais e
regionais tão brutais que impõem verdadeiras fronteiras internas.
Não tivemos o racismo como ideologia oficial, mas ostentamos um
verdadeiro apartheid social. Não temos entre nós a pulverização de
etnias, nações ou comunidades lingüísticas ou religiosas que
acendem fogueiras em tantos pontos do mundo. No entanto, abismos econômico-sociais dividem parcelas da população, como
se houvesse de fato mais de um país no mesmo território.
Há muitos países no mundo de hoje que impõem a grandes
parcelas de suas populações uma vida de privações e dificuldades.
Há muitos países pobres, incapazes de solucionar problemas
básicos da população. Mas o Brasil não é pobre como a sua
população é. O Brasil é basicamente injusto, desigual. Há muitos
países – pobres ou não – nos quais o princípio da desigualdade prevalece sobre o da igualdade. Ainda hoje, nos países de cultura
predominantemente tradicional e hierárquica, a igualdade entre
todos os humanos está longe de ser um preceito admitido, mesmo
legalmente. Basta olhar o que se passa nos países em que o
fundamentalismo islâmico tomou o poder ou está estabelecido há
algum tempo: a maioria das mulheres está condenada ao ‘chador’, à
obediência absoluta e à extirpação do clitóris. Na sociedade indiana,
apesar de o sistema de castas ter sido abolido oficialmente desde 1948, sua presença na cultura ainda é fortíssimo. Na vida fora dos
corredores oficiais, os párias continuam sem olhar nos olhos dos
passantes – pois os seus olhos contaminam aqueles a quem fitam.
Seu toque é impuro, mesmo sua sombra é impura.
Mas o que diferencia de forma decisiva esses países de tradição
hierárquica e o Brasil é que, no nosso caso – ao contrário do que
ocorre com os demais –, nada temos que justifique ‘nossa’
hierarquia. Um pária indiano hindu tem uma explicação para sua condição: o determinismo cármico, que lhe oferece a oportunidade de, nesta encarnação, elevar-se espiritualmente e ascender a
melhores condições em outras vidas. O manto religioso, matriz
fundamental de significação para a existência pessoal, organiza o
que para nós seria um absurdo em uma condição carregada de sentido. Muitas mulheres imigrantes de origem islâmica reivindicam
o respeito a práticas e tradições de sua religião em países europeus
cujas leis e culturas as consideram inaceitáveis. É claro que, tanto
no caso indiano quanto no caso do fundamentalismo islâmico, há os
que se insurgem contra essas regras e normas culturais. Mas o
ponto importante é que essa forma de tratar os desiguais encontra
alguma justificação, alguma razão de ser. Pode-se ser contra ou a
favor da justificação, mas ela existe, e é por todos reconhecida. É um campo de significações que organiza o mundo de um
determinado modo. Como qualquer outro, promove adesões e
suscita oposição. Só não se pode dizer que há um sem-sentido, um
vazio de significação na produção e na reprodução dessas
desigualdades.
É justamente essa ausência que encontramos em ‘nossa’
hierarquia. Ela é violenta e nada a sustenta, exceto o cinismo dos
donos do poder. O Brasil é, do ponto de vista jurídico-formal, uma democracia. Todos são iguais perante a lei, cidadãos com direitos e
deveres iguais. Mas a realidade experimentada no cotidiano mostra
uma realidade muito diferente. Muita coisa explica a miséria
absoluta, o ‘jeitinho’, o apadrinhamento, a benevolência da lei para
com os brancos e de colarinho e gravata, a fome cíclica no sertão, a
explosão de favelas etc. (Da Matta, 1981). Mas não há nada que
‘justifique’ essas expressões brutais de desigualdade. São
simplesmente a evidência da indiferença absoluta com que são tratados os irrelevantes. Estes se vêem às voltas com uma situação
paradoxal: em um mundo oficialmente de iguais, são tratados como
peças fora do jogo. Quando se voltam para o universo simbólico, no
qual deveriam encontrar pontos de apoio para a construção de uma
imagem à qual possam se identificar, encontram um espelho que
não lhes devolve imagem alguma.
Esse contraste entre a hierarquia tradicional de outras culturas e a
desigualdade real e ilegítima de nossa sociedade já traria bons motivos de reflexão para as injunções que sofrem os sujeitos submetidos a esse ‘descarte simbólico’ em nosso país. Certamente
não se podem compreender muitos dos fenômenos complexos que
infernizam a vida de nossas metrópoles, como a violência urbana e
a fragilidade de nossas práticas democráticas, sem a consideração desse tipo de fator. O quadro se torna mais preocupante ainda
quando associamos a esse traço estrutural da sociedade brasileira o
cenário que descrevemos no início, que vem se delineando nas
últimas décadas, e que resulta em outro processo, globalizado, de
produção de exclusão. Se estivermos de acordo com as conclusões
acerca da importância axial do investimento no futuro como
elemento que sustenta o eu capaz de agência e promessa, temos
boas razões para nos ocuparmos com o problema da constituição do projeto democrático no Brasil. Sem o exercício da cidadania no
cotidiano, realizado por sujeitos capazes de pensar o futuro como
um horizonte de possíveis, onde as promessas de hoje quanto à
realização de ideais solidários não esteja fadada à frustração
permanente, não há como imaginar uma democracia ganhando
corpo. Não serão decisões econômicas, nem desenvolvimentos
tecnológicos, nem ampliação de faixas de consumidores que nos
levarão mais perto da realização desse projeto. O terrível hoje é que se pode perfeitamente pensar uma economia forte e competitiva,
instituições democráticas formais funcionando sem solavancos e,
simultaneamente, uma população inteira de não-cidadãos
mergulhado no limbo civil.
Importa salientar que é a esse esvaziamento da dimensão do
futuro que podemos associar não apenas grande parte do impasses
descritos, mas também algumas das estratégias a que são levados
os sujeitos mutilados de seu próprio poder de desejar o futuro. Uma das saídas é a submissão. Submeter-se é acomodar-se às regras
tais como elas se apresentam, justificar-se invocando a impotência
ou a inutilidade de qualquer tentativa de crítica. É o império da
“razão cínica” (Costa, 1988). O consumo de drogas de todo tipo, a
ideologia da prosperidade material e a aquisição compulsiva e
ostentatória de objetos funcionam cada vez mais como mecanismos
por meio dos quais os sujeitos modelam as identidades. Afundados
em uma cultura em que a expansão narcísica ilimitada do eu não mais encontra as barreiras simbólicas dos ideais coletivos, os indivíduos precisam ancorar suas identidades em algo um pouco
mais ‘sólido’. O fundamentalismo religioso de todos os matizes e as
identidades fundadas em itens ‘naturais’ (etnias, cor da pele, sexo
ou orientação sexual etc.) são exemplos desse tipo de solução. Outra forma de submissão, crescente aos nossos olhos, é a da
violência banalizada. Para os que participam da festa, ela parece
fazer parte das regras do jogo. Para os excluídos, ela é apenas um
recurso para arrancar nacos do que parece ser o banquete do qual
foram expulsos. Quando não há nada a ganhar, não há nada a
perder. Matar por causa de um tênis usado não significa grande
coisa.
O quadro no fim do século é certamente menos auspicioso do que o do início. Havia mais generosidade na imaginação do futuro e
mais esperanças na possibilidade de realizá-lo. Apostas altas foram
feitas, e o jogo terminou antes do previsto. No momento, o
sentimento de crise prevalece. Mas quer para os indivíduos, quer
para a sociedade, a solução é clara: não há saída exceto a
retomada da aspiração utópica e a ampliação e aprofundamento do
projeto democrático. Foi no seu interior que se construiu o maior dos
feitos da espécie humana: a bela e improvável imagem de uma sociedade e de um ser humano marcados pelo amor à liberdade e
pela prática da solidariedade.
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