Avessos do prazer: drogas, Aids e direitos humanos
14. Práticas médicas, toxicomanias e a promoção do exercício da cidadania
14 – Práticas médicas,
toxicomanias e a promoção do
exercício da cidadania
Marcelo Santos Cruz
Desde o século XIX, a questão do uso abusivo de substâncias
psicoativas foi assumida pela medicina como um problema médico.
Apesar do desenvolvimento de teorias explicativas e de práticas
direcionadas ao tratamento dos indivíduos dependentes, a
abordagem médica do uso de drogas necessita ser enfocada
cuidadosamente, pois está longe de ser consensual. Isso ocorre porque as tentativas de explicar os fenômenos relacionados às
toxicomanias por meio dos modelos teóricos que tradicionalmente
têm explicado outras formas de adoecer têm produzido
aproximações bastante incompletas. Além disso, muitos aspectos
do problema, como aqueles ligados, por exemplo, às questões
sociais, culturais, legais, jurídicas e outras, fogem do alcance da
medicina. E, ainda, porque as práticas propostas por uma visão
restrita da medicina, ou seja, por uma visão biologista, têm sido, até o momento, limitadas nos seus resultados. Finalmente, porque não
são evidentes os limites entre as incumbências da medicina e as de
outras instituições designadas pela sociedade para cuidar das
questões relacionadas às toxicomanias. É o caso da interface entre
a Justiça e a medicina, foco de importante discussão de âmbito
internacional e nacional. Constantemente ocorre que certos
problemas sejam vistos ora como questões legais, ora como
questões médicas, e esse fato tem conseqüências não apenas na definição das propostas de tratamento, mas principalmente na
definição das políticas públicas para a questão.
O papel da medicina na abordagem das toxicomanias está,
portanto, em discussão, e há formas diversas de conceber a
participação do médico no enfoque desses problemas. Ao mesmo tempo vivemos em meio ao embate de forças sociais, e os direitos
dos cidadãos são constantemente ameaçados. Nesse confronto, o
uso de drogas e as formas de lidar com o assunto são elementos
poderosos que se entrelaçam com os demais no jogo social. É importante que as ações médicas sejam discutidas para se
assegurar que a participação do médico e a das instituições de
saúde sejam coerentes com propostas democráticas, dirigidas para
o pleno desenvolvimento do exercício da cidadania.
Nosso objetivo aqui é expor experiências de práticas médicas
comprometidas com o exercício da cidadania. Esta descrição inclui
a relação entre o campo da medicina, aí incluídos o saber e as
práticas médicas e os demais campos envolvidos, com seus próprios saberes e práticas. Para tal, descreveremos inicialmente o
desenvolvimento de concepções médicas dominantes, discutindo
como diferentes formas de compreender a natureza da dependência
de drogas são articuladas a práticas diferentes. Pretendemos
enfatizar o cuidado necessário para se evitar que a atuação médica
seja utilizada como instrumento de controle social.
Modelos conceituais dominantes
sobre as toxicomanias
As divergências entre os modos de compreender o uso abusivo de substâncias psicoativas envolvem tanto aspectos ligados ao
atendimento de cada paciente como questões de alcance muito
mais amplo, como a definição das políticas públicas nessa área.
Esses aspectos micro (enfoque particular do usuário de drogas) e
macro (determinação de ações gerais, como a repressão, a
assistência e a prevenção) não têm relação de causa e efeito, mas
são resultado de uma mesma concepção (Stein, 1990).
De forma sistemática, pode-se descrever os modelos sobre o uso abusivo de drogas como: modelo jurídico-moral, modelo médico,
modelo psicossocial e modelo sociocultural (Nowlis, 1975). O
modelo jurídico-moral objetiva resolver o problema do uso de drogas
impedindo o acesso e a utilização de substâncias pela repressão ao tráfico e ao uso. Separa drogas lícitas (como o álcool e a nicotina)
das ilícitas e se preocupa com o controle das últimas. Essa
separação não encontra justificativa no conhecimento médico, se
apóia na tradição e na divulgação social de idéias que podem ser puramente preconceituosas. Apesar do emprego de recursos
astronômicos e resultados medíocres, o modelo jurídico-moral
encontra força nas parcelas mais conservadoras da sociedade e é
freqüentemente utilizado como forma de controle social.
O modelo médico tenta estender para esse campo paradigmas
que tiveram sucesso na explicação de outras formas de adoecer. No
caso das toxicomanias, as tentativas de explicação se ligam à ação
das drogas no sistema nervoso central, provocando quadros como a
intoxicação1 2 e a abstinência. Nesse modelo, a ação das drogas é
relacionada de forma menos consistente ao comportamento do
indivíduo, quando não está sob efeito da substância. De forma indevida, outro paradigma médico é associado, com freqüência, às
toxicomanias: o das doenças infecciosas. Segundo esse modelo, o
indivíduo vulnerável se torna doente quando o agente nocivo entra
no seu organismo e o mal pode ser transmitido adiante, provocando
epidemias. As terapias comportamentais se encaixam com
facilidade no modelo médico, e embora tenha havido entusiasmo
recente pelo desenvolvimento de novas técnicas, estas também têm
seus limites, da mesma forma que as demais práticas propostas. Tanto quanto o modelo jurídico, o modelo médico coloca a ênfase na
substância, e não no indivíduo ou nas circunstâncias sociais. Há
avanços interessantes no desenvolvimento de estratégias que
incluem o uso de fármacos no tratamento e de pesquisas na área de
neurobiologia, mas esses progressos não indicam que as demais
dimensões do problema percam sua importância no futuro.
Como veremos adiante de forma mais detalhada, o modelo
psicossocial cogita o uso de drogas como uma forma de lidar com conflitos ligados à história de vida da pessoa. Realça a relação do
indivíduo com a substância e com as outras pessoas. O modelo
sociocultural sugere que as sociedades humanas sempre utilizaram
substâncias psicoativas e que cada grupo social define seus usos e
suas interdições. Tais interdições são também historicamente
relacionadas ao uso de substâncias psicoativas, o que é freqüentemente esquecido na discussão atual sobre o estatuto legal
das práticas relacionadas ao consumo de drogas.
Esses modelos, em geral, não são adotados isoladamente, até
porque cada um deles, por si só, não é suficiente para a compreensão dos fenômenos e muito menos propõe formas
suficientes para a sua abordagem. No entanto, algumas
aproximações são comuns, como a do modelo jurídico-moral com o
modelo médico, de um lado, e a do psicossocial com o sociocultural,
de outro.
Interessa discutir aqui as abordagens terapêuticas; assim,
retomaremos a discussão sobre o modelo médico e o psicossocial.
De modo geral, nenhuma forma de abordagem pode reduzir, de forma simplista, questão tão complexa. Ao contrário, a assistência, o
ensino e a pesquisa sobre o uso de drogas devem refletir essa
complexidade e sugerir interrogações que ampliem o conhecimento
em direção a cada um dos aspectos envolvidos, de forma articulada,
tornando possível o desenvolvimento de práticas em que os
recursos adequados desses modelos sejam úteis.
Evolução do conceito de dependência
Foi somente a partir do século passado que o uso abusivo de substâncias psicoativas passou a ser definido como um problema
médico. Berridge (1994), historiadora do assunto, afirma que foi
Thomas Trotter quem cunhou o conceito de “adicção”,3 afirmando que o “hábito da embriaguez era uma doença da mente” (grifo
nosso). Nos países de língua inglesa, passou-se a usar o termo
addiction, que foi traduzido para o português como ‘vício’. A
questão, que antes tinha explicações morais ou religiosas, passou a
ser vista como uma questão médica. Nessa época, o uso do álcool e
da morfina foi explicado pelas teorias da hereditariedade e da
degeneração, como se fazia, então, para outras formas de adoecer
psíquico. Berridge chamou a atenção para o fato de que a nova definição do uso do álcool como doença poderia pressupor um
tratamento mais humanitário, mas o tratamento proposto – o
confinamento compulsório – pouco diferia da abordagem punitiva.
No início do século XX, o movimento de Higiene Social se
utilizava ainda das idéias de hereditariedade e degeneração para
propor intervenções sobre as pessoas que usavam abusivamente o
álcool ou outras drogas. Também foi a partir do início do século que o surgimento da psicanálise veio se contrapor às idéias que
sustentavam ser o uso de drogas algo explicável exclusivamente por
seus aspectos biológicos.
Após a Segunda Guerra Mundial, o movimento da Higiene Social
perdeu força, sendo substituído por uma nova saúde pública que dá
ênfase aos cuidados primários, ao tipo de vida individual, ao
planejamento de saúde e aos indicadores de saúde da área. É
importante acompanhar as definições dos termos utilizados nessa área, pois elas refletem formas de conceber as toxicomanias. Na
década de 50, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a ter
um papel destacado no âmbito internacional na abordagem das
questões relativas ao uso de drogas. Nessa época, uma Comissão
de Peritos da OMS definiu o que seriam ‘vício’ e ‘hábito’ (Grinspoon
& Balakar, 1976). Depois, para evitar o envolvimento de aspectos
morais e ideológicos, a OMS abandonou o termo ‘vício’ e passou a
se referir a ‘dependência’.4 Em 1969, quando a OMS definiu que
havia dependência psicológica de cocaína, abriu caminho para a
separação entre ‘dependência física’ e ‘dependência psíquica’
(Grinspoon & Balakar, 1976).
Morgado (1985) criticou vários aspectos das formulações da
OMS, entre eles a inconsistência da relevância dada à dependência
física. Lembrou o relato de Robins, Davis e Nurco (1974) sobre
soldados americanos que usaram heroína no Vietnã e que
abandonaram seu uso ao retornar da guerra antes mesmo de
receberem qualquer tratamento, mostrando que as explicações
fisiológicas não são suficientes. Morgado levantou, também, a
questão da dependência ligada a outros objetos (como comida ou jogos), em que fica patente que há outros aspectos envolvidos.
A partir da década de 80, as classificações diagnósticas
desenvolvidas pela Associação Psiquiátrica Americana (APA) têm
influenciado diretamente a conceituação dos fenômenos relativos ao
uso de drogas. Até essa época, a classificação da APA (definida na
DSM-III)5 exigia a existência de dependência física para o diagnóstico de dependência. As classificações que se seguiram
utilizaram uma definição mais ampla de dependência, com
dimensões biológica, social e comportamental, e cujo aspecto
central seria a perda do controle sobre o uso da substância. Essas classificações influenciaram diretamente a Classificação
Internacional das Doenças da OMS que, na sua décima edição
(CID-10), incluiu critérios bastante semelhantes aos utilizados pela
Associação Psiquiátrica Americana. O importante a assinalar é que,
apesar de uma tendência à valorização dos aspectos biológicos
observada na psiquiatria da última década, a conceituação de
dependência evoluiu de uma definição puramente biológica para
uma que envolve as dimensões psicológicas e sociais da questão.
Atualmente, a influência da psiquiatria americana não se restringe
à conceituação. Em relação às toxicomanias, como em outras áreas
da psiquiatria, o desenvolvimento do conhecimento nos Estados
Unidos da América é rapidamente difundido entre os profissionais
da saúde mental no Brasil. Algumas formas de abordagem utilizadas
amplamente no nosso país, como os grupos de mútua ajuda
(Narcóticos Anônimos – N. A. – e Alcoólicos Anônimos – A. A.), o
método Minnesota 6 e a ênfase nos aspectos comportamentais e
biológicos do uso abusivo de drogas, tiveram origem ou são
dominantes entre os norte-americanos.
Mesmo entre o norte-americanos alguns aspectos desse modelo são criticados. Stein (1990), por exemplo, afirma que ele impede a
individualização e a implicação particular de cada paciente, já que
produz prescrições gerais como se todos os usuários de drogas
fossem iguais. Esse autor sugere que a associação de uma
compreensão médica restritiva com técnicas de modulação de
comportamento tem funções específicas de controle social.
A experiência de serviços
especializados na assistência a
usuários de drogas no Brasil
A implementação de serviços de assistência a usuários de álcool
e outras drogas no Brasil não acompanhou, nas décadas de 80 e
90, o crescimento dos problemas relacionados a este uso. Houve
um atraso na atenção dos serviços públicos federais, estaduais e municipais para lidar com essa demanda. No entanto, desde a
década de 80 instituições especializadas como o Nepad, o Cetad, o
CMT, o CPTT, o Proad, o Instituto Raid e Cordato7 foram criadas sob a supervisão do professor Claude Olievenstein, que dirigiu o
Centre Médical Marmottan, instituição francesa distinguida por sua
atuação na assistência e no desenvolvimento de conhecimento no
campo das toxicomanias. As atividades desenvolvidas nesses
centros têm como eixo a compreensão de que o uso abusivo de
drogas é um fenômeno que envolve várias dimensões, incluindo
seus aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais.
Em 1996, técnicos e alunos do Instituto de Psiquiatria (Ipub) da Universidade Federal do Rio de Janeiro criaram o Projad (Programa
de Estudos e Assistência ao Uso Indevido de Drogas) (Cruz, 1999).
Para o Projad, levamos a proposta que conhecemos no Nepad,
onde, no atendimento a usuários de drogas e seus familiares, são
privilegiadas formas de tratamento que promovam o
desenvolvimento de modos mais satisfatórios de relação consigo
mesmo e com os outros. Dessa forma, o recurso ao uso da
substância deixa de ter a função anteriormente utilizada. Essa proposta é coerente com a idéia de que indivíduos que estabelecem
relações de dependência com substâncias o fazem porque nelas
encontram a resolução temporária de motivações inconscientes.
Outras formas de tratamento se associam à psicoterapia, que tem o
papel essencial de tornar possível o encontro do indivíduo com
aspectos anteriormente inacessíveis ao seu consciente. Tal encontro
possibilita que o indivíduo ultrapasse impasses existenciais, vá além
das repetições inconscientes de comportamentos que impedem o desenvolvimento de sua maturidade e autonomia e permite que ele
expanda o seu repertório de recursos para enfrentar as vicissitudes
do dia-a-dia.
Esse encontro, muitas vezes lento e entremeado por idas e
vindas, encontra suporte no terapeuta que sustenta o desejo do
paciente de mudar. Quando digo que o terapeuta suporta e sustenta, importa destacar que, nesse processo, a participação do
paciente é essencial e que também é fundamental, nesse momento,
que seja estimulada a responsabilização do paciente por seu
destino.
Mas, em geral, inicialmente, o paciente não dirige esse desejo de
mudança que sustenta o processo psicoterápico. Quase
invariavelmente, os pacientes que procuram o tratamento solicitam
ajuda em relação ao seu uso abusivo de drogas e trazem
expectativas fantasiosas de tratamentos mágicos que os livrem das
drogas. Muitos esperam a prescrição de comportamentos a serem
seguidos. É comum que, à chegada, os pacientes depositem nos
terapeutas suas expectativas de cura, colocando-se como receptores passivos do tratamento imaginado. Evidentemente, esse
pedido de ajuda sincero e, muitas vezes, desesperado é acolhido,
mas com o cuidado de não reforçar expectativas fantasiosas. Os
diversos recursos terapêuticos da instituição (psicoterapia individual
ou em grupo, psicofarmacoterapia, atendimento a familiar co-
dependente, atendimento à família, oficinas terapêuticas e
internação) são indicados de forma individualizada para cada caso.
A técnica da entrevista motivacional tem sido utilizada no Projad para pacientes em grupo, como um recurso interessante para
facilitar a vinculação dos pacientes ao tratamento. Quando os
pacientes iniciam o atendimento psicoterápico, em geral, durante
muitas sessões falam principalmente de seus problemas com as
drogas. Pouco a pouco, com o contato com o terapeuta vão
surgindo outras questões e tornando-se mais claro de que forma a
droga tem sido usada para cumprir determinadas funções
inconscientes.
Paralelamente à psicoterapia individual ou em grupo, em muitos
casos se associam a terapia de um co-dependente (em geral, mãe
ou esposa), terapia de família e oficinas terapêuticas. Essas formas
de tratamento vão permitir que aconteçam mudanças intrapsíquicas
e na interação interpessoal nas famílias dos usuários de drogas. As
modificações de posturas, de formas de agir, o encontro de modos
mais satisfatórios de viver ocorrem, freqüentemente, em paralelo na
família e naquele que usa drogas, através de influências mútuas e positivas.
O papel do médico é essencial para referendar a importância da
psicoterapia no processo de tratamento. Outras funções
fundamentais do atendimento médico incluem o exame psiquiátrico
que permite a identificação de outros transtornos psiquiátricos que freqüentemente se associam à dependência de drogas. Esses
quadros associados, ou co-morbidades, como quadros depressivos,
ansiosos, esquizofrênicos ou outros, exigem tratamento específico
sem o qual o tratamento da dependência de drogas pode ficar
inviabilizado.
O tratamento psicofarmacológico é utilizado quando são
identificados quadros associados com a toxicomania. Também
podem ser indicados fármacos para quadros de intoxicação, abstinência e para reduzir o risco de recaída. Também nesses casos
as indicações são individualizadas. Sabe-se que muitas vezes a
associação entre psicoterapia e o uso de psicofármacos facilita a
vinculação ao tratamento. As medicações auxiliam que se
ultrapassem as fases de maior depressão e/ou ansiedade,
possibilitando o estabelecimento de vínculo psicoterápico. É
evidente que há que se ter o cuidado de priorizar o uso de
medicações que não provoquem dependência, para se evitar a troca de uma droga por outra. Os quadros de abstinência podem exigir
cuidados especiais.
Em situações em que o paciente não consegue interromper o uso
compulsivo, apesar de seu interesse e esforço, pode-se lançar mão
de encaminhamento para internação em clínicas públicas
especializadas. As instituições especializadas estão adequadas,
atualmente, ao modelo proposto pelo Ministério da Saúde de
articulação em rede, entre si e com as demais unidades de saúde, de acordo com a reforma psiquiátrica brasileira.
Em todas essas circunstâncias, o trabalho médico é indispensável
e o bom uso dos recursos pode ser decisivo para o curso do
tratamento. Mas, é importante que ele seja visto pelo médico e pelos
demais como um recurso valioso entre outros também
indispensáveis. Esse cuidado é necessário para que se evite a
concepção errônea de que o enfoque biológico da situação será
suficiente. Além disso, é preciso que os recursos terapêuticos (médicos ou outros) sejam usados sem que se retire do paciente
sua responsabilidade sobre o tratamento.
Atendimento médico a usuários de
drogas e interação psicossocial
As maiores dificuldades do atendimento médico aos dependentes de drogas encontram-se justamente nos aspectos contemplados de
forma menos satisfatória na formação profissional. No que tange
aos aspectos diagnósticos e psicofarmacoterápicos, há necessidade
de atualização constante, já que nessa área tem havido intensa
produção científica. Mas, há necessidade de aperfeiçoar a
capacitação, principalmente, nos aspectos que envolvem questões
de interação psicossocial. Assim, as ações médicas como
prescrição de medicamentos, indicação ou não de internação, encaminhamento para outras formas de tratamento e a interação
com outras pessoas interessadas no tratamento do paciente (como
a família, o empregador, a Justiça etc.) devem levar em
consideração sempre suas conseqüências médicas e psicossociais.
Entre as conseqüências indesejáveis de uma abordagem médica
reducionista das toxicomanias está a de acentuar a não implicação
do paciente nas suas escolhas. Foi um avanço a mudança da
concepção sobre a dependência de substâncias psicoativas, antes considerada uma questão moral, e que passou a ser vista como um
problema médico. Mas, é preciso ir além, considerando as
toxicomanias problemas de saúde, incluindo seus aspectos
médicos, psicodinâmicos e socioculturais. Quando as toxicomanias
passaram a ser encaradas como um problema médico, passaram a
ser vistas como uma doença como outra qualquer. Essa concepção
coloca em marcha formas de pensar ou modelos bastante
arraigados na sociedade em geral e mesmo nos médicos. O modelo de doença inclui, entre seus constituintes, a idéia de inexistência ou
de um forte abrandamento da responsabilidade daquele que está
doente sobre o que lhe acontece. E envolve a modificação do papel
social, daquele que adoece, que passa de uma posição de autonomia e controle sobre si e seu destino para uma de
dependência e passividade, como ocorre, de maneira geral, com
outras formas de adoecer.
As diversas formas de conceber os fenômenos relacionados às toxicomanias devem suas divergências, em grande parte, à
ausência de clareza sobre determinados aspectos. Um dos
aspectos centrais se refere à possibilidade ou não de o usuário de
drogas julgar e se determinar conforme seu julgamento. Parece
haver consenso entre aqueles que têm experiência no tratamento de
usuários de drogas sobre o fato de que em certas situações há,
efetivamente, perda de controle. Exemplos disso ocorrem durante
determinadas situações de intoxicação ou abstinência. Mas o consenso termina por aí. Não há indicações precisas sobre quando
retorna a possibilidade de julgamento e determinação nem sobre o
uso de substância, nem sobre outros atos. Se a medicina é
instituída pela sociedade para cuidar do usuário quando ele não tem
controle sobre si, a utilização do poder médico fora dessas
situações é técnica e eticamente questionável. Do ponto de vista
técnico, o que se questiona é o fato de que, quando o médico toma
para si a responsabilidade por qualquer decisão do usuário de drogas, este passa a um papel passivo (ou de oposição) no
tratamento.
Usuários de drogas que procuram tratamento demonstram
dificuldade em perceber de que forma motivações, em geral
inconscientes, determinam escolhas de caminhos que levam ao
aprofundamento das relações de dependência (com a droga ou com
pessoas). Evidenciam essa dificuldade referindo-se ao uso da
substância como algo que lhes acontece: “uso porque sou viciado” ou “uso porque sou doente”. E ficam assim justificados não apenas
o uso da droga, mas inúmeros outros comportamentos indesejados.
Sem dúvida é pior pensar a questão como moral (“usa porque é
semvergonha”), mas há que se ter cuidado para que o modelo de
doença não reforce a não implicação do sujeito. Esse reforço pode
referendar fantasias de que só a medicação ou o afastamento da
substância pelo controle do comportamento ou pela internação
serão, por si, suficientes. Em cada um desses casos, essas fantasias se associam à idéia de recebimento passivo de uma ação terapêutica que vem de fora do indivíduo. E, da mesma forma que a
responsabilidade pelos atos durante o uso da droga, fica colocada
fora do indivíduo a responsabilidade pelas modificações com o
tratamento.
Essa concepção reforçada pelo modelo de doença
freqüentemente leva a que o usuário deixe por conta do médico e da
família o desejo do tratamento. Na ambigüidade que apresenta entre
querer e não querer parar de usar drogas, a idéia de impotência
diante das drogas pode levar o paciente a não lutar, não procurar
compreender o que se passa com ele e não acreditar na
possibilidade de mudar.
Há, ainda, outras conseqüências desastrosas da compreensão das toxicomanias como um transtorno exclusivamente biológico e
das tentativas de tratá-lo sem a implicação do paciente. Psiquiatras
menos informados podem empregar tratamentos descabidos como
antipsicóticos, eletroconvulsoterapia e prolongadas internações
compulsórias. Instituições obscuras se utilizam de práticas que se
assemelham aos tratamentos morais dos séculos passados.
Evidentemente, nesse curso sai-se do terreno do que é
tecnicamente questionável e vai-se em direção ao que é eticamente inaceitável.
Se as conseqüências de uma prática que conceba as
toxicomanias em sua dimensão biológica são danosas no trato do
usuário, o mesmo se pode dizer quanto às conseqüências das
ações dirigidas à coletividade. Essas incluem tentativas de
prevenção pelo amedrontamento, a utilização de exames
laboratoriais que favorecem a discriminação profissional e a
normatização rígida dos comportamentos.
No trabalho institucional, todo cuidado é pouco para se evitar o
uso do poder médico como forma de controle social. Isso se
manifesta, por exemplo, nos pronunciamentos sobre a questão nos
meios de comunicação, na orientação sobre estratégias de
prevenção, na interação com a administração de empresas sobre o
uso de exames para rastreamento do uso de drogas, nas respostas
às solicitações da Justiça etc. Nos serviços de assistência, deve
haver o maior cuidado sobre solicitações externas de informações sobre os pacientes ou seu tratamento. Isso inclui instituições, empresas e a família. Em casos em que o próprio paciente solicita
esse contato, só se pode prestar informações a terceiros depois de
se ter discutido com ele as possíveis conseqüências disso. Uma
exceção é o caso do atendimento a adolescentes, quando a concordância da família é indispensável.
No que se refere à interface entre a saúde e a Justiça na
abordagem dos problemas relacionados ao uso de drogas, é
necessário ampliar a discussão, incluindo os parceiros do Judiciário
que privilegiam uma visão democrática e de respeito aos direitos de
cidadania. Nesse diálogo deve-se questionar a concepção jurídico-
moral do uso de drogas e a proposta de lidar com esses problemas
apenas pela via da repressão da oferta e uso de drogas (Karam, 2003). Além disso, é importante assegurar que mesmo nos
encaminhamentos judiciários para tratamento, as decisões como
‘quem deve ser tratado’ e ‘como’ devem ser tomadas pelas equipes
de saúde, e não por profissionais do Judiciário que não são
capacitados nem instituídos pela sociedade para tal.
Conclusão
É fundamental, então, a participação do médico no debate social
sobre as questões relacionadas ao uso de substâncias psicoativas, para que se evite, de um lado, a omissão e, de outro, as práticas
dirigidas para o controle social. A função social do médico vai além
do atendimento aos pacientes e se estende pelas diversas formas
de interação com outros elementos da sociedade. Uma série de
progressos tem aumentado o repertório de recursos médicos que
são úteis no tratamento de usuários de drogas. É importante que a
eles se somem outros que promovam o crescimento do indivíduo e
de sua família em direção ao maior desenvolvimento de sua saúde e autonomia. Serviços como o Nepad, o Projad e outros têm tido
papel importante na prática assistencial e no desenvolvimento do
conhecimento sobre as toxicomanias. As universidades têm uma
função essencial na criação do saber, na interlocução com outros
setores da sociedade e na formação de profissionais capacitados para lidar adequadamente com os problemas trazidos pelo uso
abusivo de drogas.
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