Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Garrard Conley · Capítulo 10 de 20

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Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Outros garotos

 

 

Eu estava parado na entrada do alojamento com uma caixa de papelão junto ao peito, os blocos de concreto branco da escada cobertos por uma camada de teias de aranha e poeira, respirando o ar daquele não lar: lençóis não exalando aroma de flores, balcões de cozinha não limpos com água sanitária, páginas da Bíblia não se abrindo para exalar o aroma de décadas de manuseio cuidadoso. Em vez disso, cheiro de decadência, apatia e do que logo reconheceria como o cheiro de outros garotos.

— Merda — falei, a caixa quase escorregando de minhas mãos.

Foi bom falar o palavrão em voz alta. Era sonoro, prazeroso. Ali, naquela meca das belas-artes com uma leve tendência presbiteriana que se recusava a se levar muito a sério, não havia ninguém para me impedir de falar palavrão. Havia o culto da quinta à tarde, caso quisesse comparecer. Mas, se não quisesse, tudo bem. Eu faria parte da maioria dos alunos caso ignorasse o repicar descomprometido do sino percorrendo o campus. Imaginei-me ouvindo seu toque enquanto saía da aula, sorrindo com a imagem de cultos obrigatórios recuando diante da filosofia carpe diem de certos cursos de humanas.

— Merda — repeti.

Minha voz se tornou um eco. Uma porta de banheiro se abriu no corredor adjacente e um garoto de cabelos pretos e boca aberta pôs a cabeça para fora, me lançou um olhar entediado de cima a baixo e deixou a porta fechar com força. Ali, ninguém parecia se importar com o que eu falava nem com o que eu fazia.

* * *

Apenas meia hora antes, eu havia observado meus pais irem embora pela estrada de asfalto sinuosa que descia uma colina coberta de pinheiros. Fiquei parado, os tênis brancos junto ao meio-fio, um calouro em seu primeiro dia segurando a última caixa cheia de porta-retratos vazios nos quais me recusaria a colocar fotos de família. UMA FAMÍLIA VALE MAIS QUE MIL PALAVRAS, dizia o porta-retratos que estava por cima. Um clarão de sol na janela traseira e meus pais tinham ido embora.

No caminho até ali, ao ver a torre do sino no topo da colina, meu pai havia soltado um assobio alto no banco do motorista. Eu percebera na hora o que ele queria dizer. Ele ficava impressionado com qualquer construção que exigisse elevação, qualquer coisa que chegasse a uma altura impossível. A igreja da nossa cidade tinha acabado de instalar um novo campanário branco, com uma janelinha de escotilha que capturava o sol ao nascer e ao se pôr, antes de soltá-lo no céu outra vez. Meu pai planejava construir um campanário similar, ou talvez um pouco maior, antecipando o dia em que se tornaria um pastor ordenado com uma igreja própria. Naquele mês, depois de anos de debate privado entre ele e Deus, ele decidira se render publicamente ao chamado do Senhor e se tornar pastor. Desde então não parava de falar sobre o tipo de igreja que queria construir, sobre o grupo de pessoas parecidas com ele, tementes a Deus, que um dia chamaria de seu rebanho.

* * *

— Merda — repeti.

Os porta-retratos bateram uns nos outros, ameaçando cair. Apenas alguns minutos antes, eu havia carregado caixas duas ou três vezes maiores só para provar que era mais forte do que meu pai. Tinha observado a mancha de suor em formato de mariposa se espalhar pelas costas da camisa de algodão dele enquanto o seguia pelas escadas, sentindo-me limpo e superior, minha mãe guiando nossa subida, implorando para tomarmos cuidado com onde pisávamos pelo amor de Deus.

Uma vez que ele havia ido embora, meus dedos relaxaram. Um dos porta-retratos caiu, fazendo barulho pelos degraus, uma rachadura fina formando um Z no vidro.

— Precisa de ajuda? — perguntou uma voz.

O som veio de algum lugar abaixo e saltou sobre mim. Seria assim que mais tarde me lembraria dessa voz: saltando. Não, atacando, pensaria eu. Derrubando.

Apoiei a caixa no quadril direito. Pela grade de metal abaixo, pude ver dois braços envolvendo uma enorme esfera de roupa suja, todas brancas, já amassada. Os braços ficaram mais definidos à medida que se aproximaram: duas faixas finas, incrivelmente parecidos com os meus.

Eu havia perdido quase 22 quilos durante o verão. Começara aos poucos, antes de cortar todo o contato com Chloe, depois o peso fora diminuindo de forma tão repentina que vários amigos não haviam me reconhecido ao me ver correndo pelas ruas esburacadas da cidade. Eu tinha me recusado a comer mais de quinhentas calorias por dia e me punido ainda mais correndo por pelo menos duas horas toda tarde. Em parte uma penitência pelo fracasso com Chloe, em parte um desafio às supostas expectativas das pessoas sobre meu futuro na igreja, minha perda de peso ganhou um toque irritado e masoquista que beirou a anorexia e assustou meus pais a ponto de terem começado a me perguntar o que estava errado dia sim, dia não — apesar de atribuírem o comportamento à minha decisão de ser mais ativo e renunciar à vida de gamer. Quase não saí inteiro daquela situação, mas tinha orgulho do que sobrara: havia escavado outro eu; a possibilidade de anonimato do belo e do magro. Como a aula de Psicologia Básica me informaria depois, eu encontrara o segredo da beleza humana: proporções verdadeiramente medianas.

— Pode me dar — disse a voz, a mão tentando pegar a caixa, uma cueca boxer branca caindo de seus braços para o piso manchado, nossos olhos se encontrando e reconhecendo que ambos éramos membros do Clube de Proporções Verdadeiramente Medianas.

— Tem certeza? — perguntei.

— O Senhor vai me ajudar — respondeu ele.

Então éramos membros de mais de um clube. Eu me perguntei quais outros teríamos em comum.

Ele tinha o sorriso de um pastor que trabalhava com jovens, vazio e sem mostrar os dentes. Vou chamá-lo de David. Ele também era calouro.

— Vi você mais cedo — disse David.

Ele explicou que tinha me visto quando voltava da lavanderia e que esperara meus pais irem embora; disse que pareciam legais, mas chatos como todos os outros. Enquanto conversávamos, descobrimos que tínhamos muito em comum. Falamos das banalidades habituais: nós dois preferíamos acordar cedo, ambos nos interessávamos por corrida e nos considerávamos muito estudiosos.

Ele pegou minha caixa com uma das mãos e empilhou as roupas sujas na outra, subindo os degraus para o segundo andar — esquerda, juntos, direita, juntos; os passos breves e cuidadosos de uma procissão formal —, a parte de trás de seus sapatos sociais marrons brilhando à luz empoeirada, os calcanhares sem meias aparecendo a cada passo em flashes pálidos.

A música de uma banda de metais ecoou pela entrada do alojamento. A banda marcial da faculdade circundava o pátio, marchando em formação, de uniforme completo, os instrumentos brilhando ao sol.

— Você gosta daqui? — perguntou ele.

— Parece barulhento — falei. — Mas legal.

— A administração disse que eles estão sempre ensaiando.

— E como as pessoas conseguem se concentrar nas tarefas de casa aqui?

Olhei para trás, para a cueca jogada nos degraus, sem saber se ele queria que eu pegasse.

— Por quê? Você não gosta de música?

— Talvez eu esteja no lugar errado — brinquei.

Tirei os olhos da cueca. Não sei se ele voltou para buscá-la ou se era um adereço dispensável. A peça ficaria ali esperando, como uma casca de banana, pelo próximo calouro inocente, esquete de uma comédia pastelão muito diferente, com um ator muito diferente.

— Mais uma pergunta — disse David, virando-se para a porta do meu quarto entreaberta, ainda sorrindo, mesmo que discretamente, na minha direção. — Para a gente se conhecer melhor...

Eu queria voltar e pegar a cueca, experimentá-la, sentir como seria estar próximo daquele outro corpo normal.

— Que superpoder você preferiria? — perguntou ele. — Voar ou ser invisível?

A banda marchou para a outra ponta do pátio. Uma rajada forte de vento abriu a porta e a fechou com força.

Ser invisível, pensei na hora. Livre para fazer o que quisesse, ir aonde quisesse, sem ser visto. Eu me sentira de toda forma menos invisível nas semanas anteriores à ida para a faculdade. Depois de terminar com Chloe, tentei ignorá-la o tempo todo na igreja, mas parecia que todo mundo sabia que eu era o vilão da história, que devia ter feito algo horrível para perder uma menina tão legal. Chloe, do outro lado da igreja, passara os olhos por mim e agarrara o braço de outro menino, bem forte e largo, de tanto lançar bolas de futebol americano; ela atraíra o olhar de outros membros da congregação, fazendo com que minhas orações automáticas em voz alta começassem a sair gaguejadas. Meu Senhor, eu começara, a respiração abafada do coletivo à minha volta ficando mais alta, mais cheia de expectativa, dê-me forças para aguentar. O que quer que aconteça — os homens do estudo bíblico da concessionária esperando que eu me recuperasse do fracasso com Jó, seus olhos analisando os meus em busca da resposta para o sofrimento humano. Ninguém ouvindo nem observando: parecia um sonho.

— Ser invisível — falei.

— Isso diz muito sobre você. Você é introvertido — disse David, chutando a porta destrancada do meu quarto. — Você vai se divertir muito aqui.

Mais tarde, depois que tudo aconteceu, quis muito poder mudar minha resposta. Eu repetia a alternativa sem parar, querendo esquecer tudo que veio depois do momento em que entrei no quarto do alojamento com ele.

Voar, pensava eu. Deus, quero voar.

* * *

— Como seu colega de quarto ainda não chegou, você pode escolher. Que cama vai querer? — perguntou David.

O quarto era pequeno e atulhado. Ficamos parados à porta, encarando nossos reflexos em um espelho de parede manchado de preto. Eu era o introvertido, e ele, o extrovertido. Ele sorriu, eu fiz uma careta. Enquanto o cabelo dele parecia refletir a luz dourada vinda da janela, o meu, castanho-escuro, parecia absorvê-la, roubá-la de cada canto do cômodo.

— E aí? — insistiu ele. — Qual vai ser?

— Não sei — respondi.

Os amieiros diante da janela balançaram as sementes secas. Uma das flores bateu no vidro, fazendo barulho, e caiu do parapeito.

— Bom — disse ele. — Meus braços estão doendo.

Ele passou as mãos para a frente da caixa para segurar melhor.

Andei até a ponta do beliche de madeira. O restante das minhas caixas estava empilhado atrás de mim. Eu não havia parado para pensar em que cama ia ficar. Em casa, eu sempre havia dormido na parte de baixo e deixado a de cima para minha mãe.

— Anda — pediu David. — Estou ficando cansado.

— Vou ficar em cima — pensei, achando que seria mais fácil não incomodar meu colega de quarto.

Ele pousou a caixa de porta-retratos no colchão vazio. A caixa quicou, empurrada por uma mola solta que pretendia me causar muita dor.

— Cadê a sua família? — perguntou ele. — Já foi?

— Já — falei. — Já foram embora.

Na época, eu me senti bem ao dizer aquilo.

* * *

Passei mais de meia hora no banheiro do alojamento naquela primeira noite, com medo de pôr a cueca, com medo de que as estrias provocadas por toda a perda de peso aparecessem enquanto eu subia na cama de cima. Examinei-me no espelho, virando-me para ver minhas pernas de todos os ângulos. Lembrei-me de como Chloe às vezes apertava as laterais das minhas coxas e se aproximava para me beijar, do medo de a mão dela se mover mais para cima quando nossos lábios se encontrassem. Eu me perguntei se toda a corrida havia finalmente conseguido queimar aquele pedaço de pele contaminada.

O garoto de boca aberta que havia me olhado naquela manhã entrou no banheiro, em uma cabine próxima. Então soltou um fluxo forte de urina que apagou minha lembrança de Chloe. Quando finalmente decidi que as marcas não apareceriam, voltei para o quarto e subi os degraus de madeira o mais rápido possível, sentindo os olhos de meu novo colega de quarto, Sam, passarem por minhas panturrilhas.

— Pernas maneiras — disse ele. — Você corre todo dia, não é?

— É — respondi. — Basicamente.

Sam e eu não havíamos conversado muito quando ele chegara naquela noite. Algumas brincadeiras, mas nada de mais. Assim como David, Sam acordava cedo e corria. Era estudioso. Mas, percebi, não tinha metade de seu charme.

Deitei-me no colchão com os lençóis recém-lavados e abracei um travesseiro. Sentia-me limpo, puro naqueles lençóis de algodão com aquele novo corpo. Pensei em meu pai trabalhando no velho descaroçador de algodão da família, levando o algodão ao processo de limpeza, prensando a brancura em fardos que depois seriam usados para fazer estes lençóis. Ser o produto final de todo aquele trabalho era reconfortante.

Sam se levantou e apagou a luz dando um tapa no interruptor. Por alguns segundos, ainda pude ver o brilho de suas costas pálidas se movendo no escuro.

* * *

Nós nos acomodamos em silêncio. Cada farfalhar dos lençóis da cama dele, cada respiração profunda, cada tosse ou engolir de saliva mais alta tinha o poder de me acordar com um susto. Virei-me de lado. Ainda achava difícil dormir sem TV, sem o som regular de vidas pré-gravadas me convencendo a perder o medo do Inferno.

Depois de meia hora de silêncio, Sam ligou a TV. Os cantos do quarto recuperaram o tom azulado, as áreas de sombra foram redescobertas.

— A TV incomoda você? — perguntou ele.

— Nem um pouco — falei. — Mas não está passando nada agora.

— Como você sabe?

— Tenho insônia. Mas estou tão agitado agora que nem a TV vai ajudar. Acho que vou dar uma caminhada.

Saí do quarto e dei algumas voltas no pátio. Estava contando o número de rachaduras na calçada quando esbarrei com David, que também parecia sofrer de insônia. Ele andou até mim.

— Não consigo dormir — falou.

— Você está em um lugar novo — expliquei. — Seu corpo precisa de tempo para se adaptar.

Pouco antes, eu havia lido um artigo que ligava traços evolutivos aos padrões de sono. Era libertador ler algo tão a favor da ciência da evolução, tão casualmente anticriacionista, tão diferente do que minha igreja e minha escola tinham me ensinado.

— A pessoa tem que ser muito idiota para achar que viemos de um macaco — costumava dizer nosso pastor, uma declaração que gerava gritos de amém na congregação.

Em minha escola pública, a professora de biologia havia pulado o capítulo sobre evolução e dito que podíamos ler em casa, se quiséssemos. No dia em que devíamos estudar Darwin, ela convidou as líderes de torcida da nossa turma para fazerem a coreografia que apresentavam nos jogos. Como movimento final, as meninas tinham que abrir uma bandeira da Confederação e marchar em círculo para que todos os lados do estádio pudessem vê-las. Era nessa parte que nossa mascote, Rebel, um homem de cabeça grande vestido de dono de latifúndio, tinha que correr até o campo de futebol americano e dançar com as meninas. Na época, a omissão da professora me pareceu relativamente normal, mas, quando comecei a ler mais sobre biologia na internet, percebi que ela vinha ignorando o que 97 por cento da comunidade científica acreditavam. Sentindo-me tão amaldiçoado quanto animado, li vários outros artigos sobre o assunto. Apesar de ainda acreditar n’Ele, não me sentia à vontade com a ideia de um Deus que preferia ignorar a ciência.

— Existe uma vantagem evolucionária em acordar com qualquer barulho — expliquei.

— Você acredita nessas coisas?

— Não sei — falei. — É interessante pensar que podemos ser filhos de sobreviventes. Que talvez estejamos aqui porque nossos tatatatataravós foram mais fortes, de algum modo.

— Não gosto dessa palavra — disse ele.

Ele limpou algo do braço, como se estivesse tirando minhas palavras de sua pele.

— Avós?

— Não. Evolução.

— Não falei “evolução”. Falei “evolucionária”.

— Vamos lá — disse ele. — Vamos ver o que está passando na TV.

Andamos de volta até o alojamento dele e seguimos para o lounge, onde podíamos ver TV. Nos acomodamos nas poltronas que cobriam uma das paredes da sala, e David começou a trocar de canal. Ele parou em um comercial conhecido sobre um grill revolucionário. Um homem de bronzeado alaranjado começou a pôr quatro pedaços de frango crus na grelha. Usava um longo avental verde. Toda vez que punha outro frango na grelha, seus lábios se abriam em um sorriso largo.

— Vou até ali — disse ele, a câmera dando um zoom em uma coxa besuntada de azeite. — Vou pôr os pedaços de frango aqui em nosso grill Promodel e depois vou... — A câmera fez um arco para revelar uma plateia sorridente composta de casais brancos de meia-idade. — Como é, plateia?

De esguelha, vi David se remexer na poltrona. A luz da TV dividia a sala em polígonos escuros.

— Como é, plateia? — repetiu o homem de bronzeado alaranjado.

— Aqueça — berraram David e o homem em uníssono — E ESQUEÇA!

Qualquer pessoa que havia assistido TV tarde da noite naquele ano sabia aquele slogan. A plateia do estúdio repetia a frase toda vez que o homem colocava mais pedaços de frango no grill. Ele incentivava a plateia a gritar ainda mais alto a cada vez.

— É muito fácil — dizia ele. — Incrivelmente fácil.

Aquela frase se espalharia como um mantra xamânico pelos corredores do alojamento. Estudantes estressados repetiriam aquilo como se fosse a solução para a enorme quantidade de trabalhos acadêmicos. Deixe para lá e dê o fora.

— Você realmente acha que sua avó foi um macaco ou algo assim? — perguntou David.

— Acho — respondi. — Minha avó poderia ter sido um macaco, se quisesse. Ela poderia ter sido qualquer coisa.

Contei a ele sobre uma brincadeira que eu e minha avó costumávamos fazer. Eu balançava um de seus longos relógios de bolso diante do rosto dela — você está ficando com sono agora, muito sono — até suas pálpebras cheias de veias começarem a piscar e se fecharem totalmente. E então eu dava a ela ordens para aquele dia. Você vai agir como um fantasma até eu estalar os dedos três vezes. Você vai sentir que está embaixo d’água, como uma sereia, até eu gritar: “Vovó, acorda!” Você vai fazer tudo que eu mandar. O relógio ficava como um amuleto em meu bolso durante o restante do dia, e minha avó representava fielmente o papel de hipnotizada. Uma vez, tinha até entrado de quatro na sala de jantar e latido como um cachorro durante uma das partidas de bridge mensal com as amigas. Precisei estalar os dedos várias vezes, envergonhado por ela e mais do que um pouco assustado com a reação exagerada das velhinhas, que, como percebi mais tarde, também eram alvo da brincadeira da minha avó. As cartas de uma das mulheres haviam caído do colo dela, figuras vermelhas e pretas escorregando e formando um zigue-zague atrás de seus calcanhares. Quando se abaixara para pegá-las com a mão trêmula e enrugada, ela quase caíra da cadeira. Vovó, acorda!

Hipnose, autoinfligida ou não. Era um talento de que eu e minha avó compartilhávamos. Acreditávamos que podíamos nos transformar em algo que não éramos. Talvez até fosse genético.

— Então, de acordo com essa baboseira evolucionista — disse David —, quanto mais você fica em um lugar, mais você começa a confiar nele?

Ele bateu no braço da minha poltrona. Senti a vibração por todo o braço.

— Vai se tornando mais fácil confiar nas pessoas ao seu redor?

— Acho que, de uma maneira inconsciente, sim.

O homem de bronzeado alaranjado se virou para a plateia, os dentes brilhando.

— Quando fechar nosso Promodel, vai ser muito fácil — disse. — Quão fácil, pessoal?

David desligou a TV. A escuridão tomou o lounge. Eu ainda podia ver a silhueta dele na parede. A imagem que se fixou me lembrou um dos cidadãos de Pompeia, capturados em seu último gesto antes de o Vesúvio prendê-los em seu túmulo de cinzas.

Era por isso que as pessoas enchiam porta-retratos de fotos de família? Um flash súbito e as pessoas que amávamos eram preservadas em sua inocência, sua alegria, antes que pudessem fazer mal umas às outras? O oposto parecia verdade para o meu pai, que dizia que a promessa das fotografias era enganosa, que nossos pecados só podiam ser transformados em bondade depois da destruição, depois do flash do Arrebatamento. Ele acreditava que nossos verdadeiros corpos só se realizariam depois que tivéssemos ascendido aos Céus e ficado cara a cara com Deus — sem estrias, sem um grama de gordura, nem impulsos pecaminosos: um lençol branco e sem vincos estendido entre esta vida e a próxima. Uma tábula rasa vislumbrada durante a vida terrena apenas uma vez, se tivéssemos sorte, nas águas brilhantes do batismo, enquanto o pastor guia sua cabeça de volta para a superfície e você tenta respirar de novo.

Eu me senti seguro. Invisível no escuro.

— Aqueça! — gritou David — E ESQUEÇA!

* * *

Precisa de ajuda? Decidir aceitar a ajuda de David pareceria algo estranhamente ameaçador. Mais tarde, eu passaria muito tempo pensando nas escolhas que fiz naquele ano. Por mais irracional que fosse, eu às vezes acreditava que ele não teria me estuprado alguns meses depois — levado meu rosto até o buraco de sua cueca de algodão e me forçado a chupá-lo até eu engasgar em um coquetel do meu próprio vômito e do sêmen dele, a intimidade que achava que queria com ele apenas minutos antes me sendo imposta com extremo excesso — se eu simplesmente tivesse decidido carregar minha caixa até o alojamento.

* * *

— E a igreja? — perguntou David.

Quase dois meses do semestre haviam passado e nós ainda mal nos conhecíamos. Depois de nossa conversa noturna sobre evolução, eu havia pensado que era melhor manter distância, apesar de às vezes esbarrarmos um com o outro enquanto seguíamos para nossos quartos. Tínhamos ido correr juntos. Ele estava sentado na ponta de uma cadeira do lounge, o short vermelho de ginástica pendendo quase até o chão. Depois de correr de manhã cedo, ele passava horas sentado, assistindo a talk shows, o suor secando, a respiração se regularizando aos poucos. Tomou um gole d’água de uma garrafa com o brasão da faculdade e limpou a boca ressecada com as costas da mão.

— Eu frequento — falei, tirando os olhos de meu exemplar de Memórias do subsolo, de Dostoiévski. — Às vezes.

Era mentira. Dois meses haviam se passado e eu não tinha ido a nenhum culto. Quando minha mãe ligava, eu inventava histórias sobre como as pessoas eram legais na igreja batista local, sobre as festas que frequentava, o macarrão com queijo, a vagem e o frango assado que comia depois dos cultos dominicais. Escondia tudo isso de David. Toda noite, em meu quarto, eu encarava as constelações formadas pelas rachaduras no teto de gesso e imaginava que Deus podia estar me olhando, que devia estar pensando no que fazer com meus pensamentos pecaminosos, nos quais eu sonhava em descer a escada escondido, abrir a porta do quarto de David, subir na cama dele e me aconchegar ao seu lado, encaixando meu membro duro na curva de sua bunda, encaixando algo que, em seu devido lugar, não poderia ser desmontado.

Lambi o dedo, virei a página e me ajeitei na poltrona ao lado da janela. Como o homem do subsolo de Dostoiévski, eu mal saía do meu quarto ou do lounge de David, a não ser que fosse absolutamente necessário. Ia para a aula e voltava, mal trocando olhares com meus colegas, imaginando que qualquer interação mínima pudesse evocar algo sinistro. As meninas, que mal me notavam antes de eu perder peso, agora sussurravam quando eu passava, seus olhos me seguiam. Apesar de saber que provavelmente tentavam chamar minha atenção, eu não conseguia deixar de pensar que na verdade sussurravam sobre meu segredo; que, de alguma forma, conseguiam detectar a minha parte oculta. Meu uniforme para afastar todos era um conjunto da época do Kid A, do Radiohead: linhas pretas e brancas rajadas que pareciam os picos de um Kilimanjaro assustador. Eu também sempre garantia que meus olhos nunca se arregalassem de prazer ou surpresa sob a prateleira negra das sobrancelhas. Se não dissesse muita coisa, se as pessoas não me notassem, então talvez escapasse do olho onisciente de Deus.

O único momento em que me sentia seguro fora do alojamento era na aula de literatura, discutindo vidas hipotéticas, acontecimentos hipotéticos que construíam sistemas hipotéticos de moralidade. Eu achava irônico, seguro em minha superioridade de homem do subsolo, que os mesmos professores que desprezavam o amor de muitos de seus alunos por videogames nunca tivessem percebido que compartilhavam do mesmo amor pelo virtual, por uma vida experimentada indiretamente.

Sem perceber, eu havia pulado de um avatar para outro. Incapaz de confiar em uma mentalidade pós-Arrebatamento, eu encontrava conforto apenas nos livros. Para me convencer de que não estava pecando tanto assim, concentrei-me na Incredulidade de Tomé, que, depois de ver provas da ressurreição de Cristo, finalmente passara a acreditar em Deus; ou em Pedro, que negara Cristo três vezes, mas ainda assim espalhara o cristianismo por toda a Europa hedonista. Posso mudar isso a qualquer momento, dizia a mim mesmo, se tiver o ímpeto certo. Na época, eu não tinha ideia do que inspiraria tal mudança, de que forma isso viria a mim.

— Vamos fazer uma aposta — disse David.

Ele espirrou um pouco de água do bico da garrafa na frente da camisa e o líquido se espalhou como uma armadura escura por seu peito. Sentado ali, com a beleza de sua juventude e sua normalidade, ele parecia invencível.

— Se eu ganhar de você em uma corrida, você vai à minha igreja. Estou até em desvantagem. Já corri hoje.

— Não é pecado apostar? — perguntei.

— Não quando a alma de alguém corre perigo.

* * *

Mesmo quando conhecemos a pessoa — especialmente se conhecemos a pessoa —, o estupro, a lembrança dele, se torna um clarão que nos cega. Um breve toque em algo maior do que nós mesmos. Às vezes a experiência toma a forma de uma visita divina, tal é a nossa necessidade de esquecer a realidade daquilo. Como as filhas de Ló em Sodoma, aquelas virgens belíssimas oferecidas no lugar dos anjos para os sodomitas lascivos — Eis aqui, afirma Ló, duas filhas tenho, que ainda não conheceram varão; fora vo-las trarei, e fareis delas como bom for nos vossos olhos. Talvez mais tarde as duas tenham se lembrado do cheiro da feira da cidade naquela manhã; do calor do sol enquanto viravam seus rostos de uma barraca para outra; do toque das lentilhas frias e lavadas passando por seus dedos enquanto ajudavam a mãe a preparar o jantar. Como aquelas filhas, eu poderia me lembrar, em detalhes de altíssima definição, das curvas da madeira na base do beliche de David, do som das portas do corredor se fechando uma após a outra, os outros calouros voltando de suas noites de bebedeira. Mas eu não me lembraria do ato em si.

Eu nunca chegaria perto o bastante da lembrança para ver o que realmente havia nela. Por muito tempo, não me permiti admitir que aquilo havia sido um estupro, de forma alguma. Como muitas vítimas, eu tinha vergonha. Como podia ter deixado aquilo acontecer? Que tipo de homem deixava outro homem fazer aquilo com ele? David não era mais forte do que eu, então como eu podia ter sido tão fraco, tão impotente? Só havia ouvido falar de estupros de mulheres, embora soubesse que a Bíblia mencionava estupros masculinos na história de Sodoma e Gomorra, que um dos motivos para Deus ter punido aqueles cidadãos tinha sido a vontade demonstrada por eles de estuprar os anjos. Para completar toda aquela vergonha, eu tinha consciência de que havia desejado secretamente uma oportunidade de estar próximo de outro homem daquela maneira. Era muito difícil, depois de minha experiência com David, considerar o sexo gay como qualquer outra coisa que não um estupro. Será que fora isso que minha igreja havia me avisado todo aquele tempo? Se aquela era a punição que eu receberia na Terra, a que receberia na vida após a morte seria realmente muito pior?

Detalhes, flashes: apenas isso ficaria gravado em minha memória. Olhe diretamente para a luz e você vai se tornar apenas um pilar de sal, como percebeu a mulher de Ló. Apenas outra lição sobre a obediência passiva. Mas, ainda assim, estou em busca de uma linguagem. Ando até os limites de uma fronteira desconhecida, alinho as pontas de meus tênis brancos e tento me lembrar dos detalhes.

A sensação do ar da manhã em meu rosto no dia anterior ao estupro, quando eu e David apostamos corrida pela colina da faculdade. O berro intermitente da banda marcial pelos amieiros. Os tênis brancos que havia amarrado com força porque queria muito ganhar a aposta. O modo como encarei a floresta passando por nós, contando a série de árvores que surgia dos dois lados da rua — um, dois, três, um, dois, três —, observando os fios de alta tensão mergulharem e balançarem nos galhos. O modo como tentei vencê-lo até que por fim agarrei os joelhos e me curvei, vomitando na grama cheia de pedrinhas.

— Vamos para a igreja então — disse David, me ultrapassando. — Eu ganhei.

* * *

— Você vai adorar — disse ele.

Era o dia seguinte à corrida, uma quarta à noite, e eu cumpri o que prometi.

David e eu nos sentamos nas cadeiras dobráveis acolchoadas de uma velha agência dos correios, esperando que o serviço pentecostal começasse. Por décadas, prédios antigos como aquele haviam ficado abandonados naquela cidade, as paredes de tijolos vermelhos desmoronando, as vigas de madeira apodrecida afundando em ângulos estranhos por causa de anos de chuva. Para encobrir a decadência, a igreja havia pendurado uma grande faixa na parede. GRUPO PÓS-JUVENTUDE, dizia. Depois que entramos, um homem gordo de olhos claros me disse mais ou menos a mesma coisa. Afirmou ser um pastor que trabalhava com jovens.

— Queremos que você se sinta à vontade — disse, me dando tapinhas nas costas. — Talvez a gente seja mais relaxado aqui do que você está acostumado.

Eu tinha ouvido meu pai pregar contra as igrejas pentecostais, contra aquela atitude “relaxada”.

— Aqui não ficamos balançando as mãos — dizia ele. — Deus não quer nos ver nos arrastando pelos corredores, agindo feito idiotas.

Uma das coisas que mais me incomodavam nos primeiros sermões de meu pai era sua tendência a fazer uso de falácias, estabelecer um inimigo e derrotá-lo com facilidade. Igrejas pentecostais eram um deles: pessoas falando em línguas estranhas, convulsionando no chão, chamando Jesus aos berros e balançando as mãos. Para nós, batistas missionários, o único caminho para Deus era uma interpretação literal da Bíblia, o batismo, o trabalho duro, o trabalho missionário, a dedicação e mais dedicação. O amor de Deus não vinha tão facilmente para os batistas quanto para os pentecostais, apesar de ambas as denominações terem um caminho árduo até ele. A única diferença parecia ser o fato de que os pentecostais confiavam mais em espetáculos espirituais, ao passo que batistas acreditavam mais em ações corretas e tendiam a ser mais céticos em relação a revelações pessoais que não estivessem declaradas na Bíblia.

Nós nos sentamos no meio da congregação. David batia o tênis no chão de concreto. Um, dois, três.

— Quando as pessoas começarem a chorar muito alto — sussurrou ele —, não se assuste, está bem?

— Tudo bem — respondi.

Olhei para trás, para os rostos sorridentes dos membros da igreja. Reconheci muitos dos meus colegas, pessoas que, até aquele momento, haviam basicamente me ignorado, seguros na bolha pentecostal iridescente que parecia englobá-los. Agora seus sorrisos traziam um convite, pediam que me juntasse a eles. Deixei meu olhar viajar pelas vigas de aço do teto. Acompanhei uma linha de ferrugem até uma série de janelas em meia-lua, cobertas de sujeira, acima do púlpito. O pôr do sol atrás delas havia começado a desaparecer e as luzes fluorescentes da igreja piscaram até ganhar vida.

— Você não está fazendo nada de errado — disse David. — Por ter vindo aqui.

— Eu sei.

— Acho que você ainda não sabe.

Peguei o hinário vermelho embaixo da cadeira e folheei as páginas. As músicas eram diferentes das batistas. Eram mais novas, mais inspiracionais, menos centenárias. Repetiam “Querido Jesus” e “Ah, Jesus” em refrãos longos, quase intermináveis, que podiam continuar pelo tempo que as pessoas achassem necessário ou pelo tempo que o Espírito Santo pairasse sobre o salão.

— Você não vai precisar disso — disse o pastor, inclinando-se do corredor. — Temos uma tela de projeção nova acima da banda.

Ele indicou o palco, onde um guitarrista afinava seu instrumento. Como se tivessem combinado, o guitarrista acenou para mim com a mão livre. Todos ali pareciam ansiosos para fazer os visitantes se sentirem à vontade, especiais. Aquilo me lembrava o modo como meu pai se aproximava de um cliente no showroom e oferecia uma visita guiada pela concessionária, o modo como ele o conduzia até a área de lavagem, apontava na minha direção e dizia:

— Esse menino trabalha mais do que qualquer homem aqui. Ele vai garantir que qualquer carro que você compre daquele estacionamento esteja muito mais limpo do que quando veio da fábrica.

— Não é incrível? — perguntou David.

A música começou, um hino de louvor simples, de quatro acordes, algo sobre o sangue de Jesus nos lavar. A congregação ficou de pé. Uma das meninas à minha direita se virou para mim, sorrindo.

— Querido Jesus — cantou David. — Ah, Jesus.

Ele se balançava para a frente e para trás, esfregando as mãos e soprando nelas, como se fôssemos acender uma fogueira em pleno ar. As mãos dos outros membros da igreja foram para o alto, os dedos balançando. A menina sorridente ao meu lado começou a tremer, seu corpo, a convulsionar.

Murmurei as palavras baixinho, torcendo para parecer que estava cantando. Eu nunca me sentira à vontade cantando diante de outras pessoas, nem mesmo em minha igreja, mas, em meus sonhos, minha voz soaria linda. Um dia, minha boca soltaria um tom profundo de barítono, diferente de tudo que eles já tinham ouvido. Eu esperava que a inspiração surgisse.

* * *

Herdei esse desejo por inspiração naturalmente, talvez de forma genética. Durante toda minha vida tinha ouvido histórias sobre minha tia-avó materna, Ellen, e sobre sua busca desenfreada por inspiração. O tom de voz dos meus pais ao falar dela era mais de assombro que preocupação. Ninguém sabia o que havia levado aquela linda mulher à insanidade, mas Ellen tinha passado grande parte de sua vida adulta sozinha na casa de dois andares da fazenda de sua falecida mãe, esperando que a inspiração divina se revelasse de dentro das velhas paredes. Como muitas pessoas místicas e extremamente devotas, tia Ellen acreditava que Deus tinha uma tarefa especial para ela. Mas, em vez de procurar respostas no céu, ela vasculhara o mundo limitado que a cercava. Para evitar que outras pessoas descobrissem o mistério antes dela, pregara todos os lençóis que tinha nas janelas. Usava jornais de décadas anteriores nos pés em vez de chinelos e cobria o rosto de mercurocromo laranja, andando de um cômodo para outro da casa, em busca de algo que não conseguia descrever. Seu padrão era habitar determinado cômodo por tempo suficiente para sujá-lo, deixá-lo inabitável, com pratos cobertos de comida, bandejas de micro-ondas tortas e mofadas, potes abertos de quiabo em conserva — o que quer que os vizinhos preocupados mandassem para ela — espalhados por todo o carpete velho. Parecia crer que nunca ficaria sem cômodos para destruir, ou pelo menos que encontraria a resposta para o mistério de sua vida antes de chegar ao último.

Era fácil entender por que, aos dezesseis anos, minha mãe não a visitava havia anos. Sua mãe a tinha proibido de ver a mulher que mais parecia um fantasma que uma tia. Na noite do quarto ou quinto encontro dos meus pais, meu pai seguiu pela rodovia que levava à casa da tia Ellen, com minha mãe ao seu lado, a cabeça apoiada em seu ombro. Minha mãe começou a sentir algo parecido com pânico, um frio na barriga. Ela pensou: com certeza ele não deve estar dirigindo até a casa da tia Ellen.

— Tem uma casa mal-assombrada aqui que você precisa conhecer — disse meu pai.

— Não sei — respondeu minha mãe, ficando séria. — Não acho que seja uma boa ideia.

Os campos de algodão se estendiam em ambos os lados da estrada, as plantas trêmulas na semiescuridão, o céu se pondo como a tampa de cerâmica de uma das panelas de minha avó. Quando meu pai se casasse com minha mãe, dali a menos de um ano, ele herdaria tudo aquilo, mas não sabia disso na época. Meu avô cederia seu lugar na gerência dos negócios da família e entregaria as rédeas da Processadora dos Irmãos Caudill para meu pai. Uma cama de algodão macio o alçaria de uma infância trabalhando como mecânico para meu avô paterno, alcoólatra e violento, a uma vida de bom trabalho, de avanços que eram fruto do talento de suas mãos. Finalmente, depois de dezenove anos vivendo como um zé-ninguém, ele seria reconhecido como uma pessoa importante. Acalentaria essa sensação nas três carreiras diferentes — 25 anos de trabalho duro como gerente da processadora de algodão da família, antes de ela ser derrotada por uma concorrente maior; seis anos em uma das concessionárias Ford mais populares da região e, por fim, o último chamado a ser pregador e futuro pastor. Ele também se recusaria a esquecer tal sensação mesmo quando Deus o tirasse do caminho direto para o pastorado, enviando para ele um filho gay. Ainda assim, ele se apegaria a essa sensação de importância.

— Vai ser divertido — disse meu pai, abraçando minha mãe. — Vou proteger você.

— Não — disse ela. — Tenho que ir para casa. Agora.

Foi então que o lençol branco surgiu, voando preguiçosamente sobre as janelas do Mustang e pousando como uma névoa opaca e lisa. O lençol os cobriu de luz branca, o brilho dos faróis do Mustang invertendo seu curso, voltando para cegar os dois.

— Como se tivéssemos entrado em uma nuvem — diria minha mãe, mais tarde. — Assustador, mas ao mesmo tempo nem um pouco.

Meu pai tentou manter o controle da direção, tirando o braço de trás do ombro da minha mãe e agarrando o volante com ambas as mãos, mas não conseguia se lembrar do ponto exato da curva seguinte. Só depois que se livraram do lençol ofuscante foi que os dois começaram a ficar com medo.

Meu pai se assustou e pisou fundo no freio.

— O que foi aquilo? — perguntou minha mãe.

De algum modo, o lençol havia desaparecido.

E então, com as pernas bambas, os dois saíram do carro. Não havia nada branco a quilômetros dali. Só o barulho regular dos grilos e o brilho ocasional de um vaga-lume. Só minha mãe estalando os tornozelos na vala lamacenta enquanto procurava o que provocara a tal visão.

— O que foi aquilo?

Eles não foram até a casa de tia Ellen naquela noite. Minha mãe só quis contar ao meu pai a verdade sobre a tia maluca depois de vários anos de casamento. Naquela época, o lençol branco havia adquirido um significado novo, sinistro. Deitada em uma cama do Hospital Memorial Batista de Memphis, enquanto o médico contava que ela havia perdido o bebê, tudo que minha mãe conseguiu fazer foi agarrar o lençol da cama, enrolá-lo e impedir que a cama escorregasse de baixo dela. Ela se lembraria do lençol branco e o veria como um presságio ruim, um sinal de que coisas horríveis aconteceriam.

Anos depois — ao decidir que ia me dar à luz, apesar de o médico tê-la avisado sobre seu coração fraco, apesar da grande chance de poder morrer, e depois de eu haver nascido e ter sido posto em seus braços pelo médico —, minha mãe passaria a ver o branco como um sinal de que tudo seria lavado, de que todos teríamos uma segunda chance. Ela aprenderia a se deitar na cama de cima do meu beliche, a puxar bem os lençóis e a ouvir a respiração regular do filho vivo, vindo de baixo.

Apesar de tia Ellen nunca ter descoberto o mistério por trás de suas paredes, meus pais com certeza tiveram contato com um mistério naquela noite. O mistério os assombraria, assim como mais tarde assombraria a mim também. A ideia de que, a qualquer momento, uma força divina poderia dominá-lo, estivesse você procurando por ela, como tia Ellen, ou se afastando dela, como meu pai fez. Às vezes isso podia ser uma coisa boa, mas na maioria das vezes podia ser uma visita assustadora.

— Não peça a Deus que lhe dê um sinal — dizia meu pai às vezes aos membros da igreja durante os cultos, esfregando a lateral de seu rosto que fora quase completamente queimado. — Talvez você não goste do que vai receber.

* * *

Eu esperava um sinal de Deus enquanto David batia os pés ao meu lado na igreja. Bati de volta. Um, dois, três. Deixamos que dançassem em volta uns dos outros.

O pastor se posicionou atrás do púlpito.

— Como cristãos — disse —, temos que vestir a armadura de Deus.

As palavras dele surgiram ao final de uma oração eufórica em forma de música. Algumas das notas finais dos membros continuaram durante o sermão, espiralando pela leitura das escrituras.

— Por fim, meus irmãos, sejam fortes no Senhor e na força de Seu poder. Vistam a armadura completa de Deus para poderem enfrentar as armadilhas do Diabo.

A garota ao meu lado gemeu e falou em uma língua estranha, as mãos pressionadas contra algo invisível diante dela, a voz repleta de sílabas desconhecidas, um cântico.

O pastor fez uma pausa, os olhos parando em cada membro da congregação.

— Levantem-se então, com as entranhas cingidas com a verdade, vestidos com a armadura da retidão.

Armar-se, para os pentecostais, parecia tão simples quanto erguer as mãos para receber os frutos do paiol divino. O Espírito Santo então prenderia em você a armadura da retidão e colocaria o escudo da verdade em seu braço, como num desenho medieval. Sentado ao meu lado, David parecia já estar usando sua armadura invisível. Ele murmurou as sílabas de uma língua secreta para si mesmo, uma que seus inimigos nunca seriam capazes de interpretar. Não precisamos de evolução, parecia dizer naquela língua. Nosso Deus manterá você a salvo de seus inimigos, ajudará você a dormir à noite.

Nesse sentido, batistas e pentecostais concordavam. Os cristãos tinham que se armar contra o ataque de Satã ao país. Eu tinha ouvido pastores batistas como Jerry Falwell condenarem, em termos militares, a efeminização dos Estados Unidos, culpando o terrorismo pela homossexualidade, pela permissividade de nossa cultura. O Irmão Nielson e sua filosofia “vamos explodir todos” proclamava mais ou menos a mesma coisa. Os estrangeiros não teriam armas de destruição em massa, dizia a lógica, se não tivéssemos ficado tão frouxos. Eu ouvira aquilo em nossa igreja, quando um homem careca e de rosto vermelho entrara na aula de catecismo trazendo uma petição da igreja incentivando-nos a protestar contra a parada LGBT que aconteceria dali a algumas horas em nossa cidade.

— Assine — dissera o homem —, senão como vai poder se considerar soldado do exército de Cristo?

Aquilo fora passado de pessoa a pessoa até chegar a mim, até eu sentir todos me encarando enquanto segurava a caneta perto do papel com medo de assinar, como se achasse que seria convocado para um exército de verdade no instante em que acrescentasse minha assinatura; até que finalmente consegui formar as letras do meu nome, odiando que se encaixassem de forma tão clara e fácil entre as linhas pontilhadas da petição.

Naquele momento, o jovem pastor me dizia que eu poderia ser mais forte se apenas aceitasse os dons de Deus. Eu podia mergulhar na língua secreta de David, sentir o peso daquelas sílabas passando pela língua, nossos corpos unidos pelo corpo único de Cristo. Em um flash ofuscante, a promessa de tal intimidade se tornou tudo para mim. Talvez eu achasse minha verdadeira inspiração nela.

* * *

Durante o segundo ano de casamento, quando meus pais ainda dormiam no mesmo quarto, um encontro singular testou a fé deles na divina proteção de Deus. Minha mãe estava dormindo ao lado do meu pai — a TV desligada, o quarto escuro, a casa silenciosa —, quando um dos empregados da processadora de algodão entrou escondido no quarto, uma faca em punho, e se arrastou para os lençóis frios. Assim como o homem que virou a chave e queimou o rosto e as mãos de meu pai, a motivação daquele sujeito nunca ficaria clara para nenhum de nós. Ele se aproximou de minha mãe e agarrou uma de suas pernas, passou uma das mãos pelas coxas dela e, com a outra, manteve a faca perto de seu pescoço, mantendo-a refém, impedindo-a de gritar. O homem supusera que meu pai havia saído. A caminhonete dele não estava estacionada na frente da casa — simplesmente porque ele resolvera, por motivos que nunca conseguiria explicar, estacionar nos fundos. O empregado não havia sido cuidadoso, seu desejo tinha sido grande demais para permitir uma aproximação lenta. Por isso, enquanto o homem deslizava pela cama em direção à minha mãe, meu pai pegou a espingarda de baixo da cama, preparando-se para atirar nele.

— Eu não conseguia ver o cara direito no escuro — diria minha mãe mais tarde. — Mas ouvi o clique da trava da arma. Isso foi muito claro.

Minha mãe se sentou enquanto a mão fria e áspera do homem passava por sua pele. Como ele não sentiu meu pai deitado ao lado dela? Esse detalhe, como muitos outros, seria sempre um mistério. Meu pai achou a espingarda e, no escuro, antes de seus olhos se acostumarem, apontou a mira do cano duplo para o espaço onde achou que estava a silhueta do homem, confundindo a nuca de minha mãe com a do invasor. Minha mãe estava na linha de fogo. Quando ouviu o clique da trava, o homem pulou da cama e meu pai o perseguiu pela casa, até o empregado conseguir fugir pela porta dos fundos e desaparecer nos campos de algodão.

Apesar de ter conseguido identificar o invasor, meu pai nunca pôde dar uma prova clara às autoridades, e a única opção dos meus pais foi demitir o homem imediatamente e pedir uma ordem de restrição contra ele. Na única vez que voltou a encontrar o antigo funcionário na cidade, meu pai disse:

— Se chegar perto da minha mulher outra vez, eu não vou só matar você... Vou torturá-lo do jeito que você queria fazer com ela.

Minha mãe não conseguia mais dormir depois daquele incidente. Culpando os roncos do meu pai pela insônia, ela deixava a televisão acesa a noite toda. Ia para a cama de cima do meu beliche quando não conseguia dormir. Eu ouvia sua respiração lenta minutos depois de se deitar sobre os lençóis. Quando nós dois dormíamos no mesmo quarto, o mundo lá fora parecia recuar e levar nossos medos com ele. Nós nos sentíamos seguros.

— Meu colega de quarto — dizia ela.

— Eu te amo — eu respondia.

Meu pai nunca pareceu se perdoar por ter posto o cano da espingarda na nuca da minha mãe. Criado para se considerar o protetor da família, o chefe da casa, ele sentia que tinha falhado em cumprir seu dever. Já havia fracassado com o primeiro bebê, sendo incapaz de curar a complicação que estava latente no corpo de minha mãe. Se tivesse a oportunidade de ter outro filho, prometeu que nunca deixaria nada ruim acontecer a sua família. Mas meu pai não poderia ter previsto o que aconteceria com todos nós quando eu saísse de casa.

* * *

Algumas horas depois do culto, eu estava no quarto de David, e ele molhava o indicador e o dedo do meio em uma lata de óleo para motor.

— Temos que nos proteger do pecado — disse.

Ele andou até a janela do alojamento, subiu em uma cadeira e desenhou uma linha com óleo sobre a armação de metal.

— Temos que remover as forças demoníacas deste quarto.

David começou a falar em uma língua estranha, algo que soava como um dialeto africano falso misturado com vogais inglesas longas. Usava a roupa que eu passara a adorar naqueles meses desde que o conhecera no alojamento.

— Chega — falei, rindo.

Eu estava sentado no degrau mais alto da escada do beliche.

— Pare.

Eu o amei naquele instante. Amei o modo como os pelos de sua perna serpenteavam, formando um jota minúsculo que se estendia das costas do joelho até o elástico de baixo da cueca.

— Talvez não esteja perfeito — disse ele, descendo da cadeira —, mas funciona.

O pastor havia ficado sem óleo para unção na igreja.

— Vocês vão ter que usar isto — dissera ele, levando David e eu até seu carro, onde abrira o porta-malas e tirara uma garrafa de 250 mililitros de Pennzoil amarelo.

Então convidara vários membros da congregação a rezar sobre a garrafa para abençoá-la com o poder divino da unção.

— Muito obrigado — dissera David. — Isso é capaz de salvar vidas.

David mergulhou os dedos na garrafa outra vez. Foi saltitando pelo quarto, inclinando a cabeça em vários ângulos, de brincadeira, tentando decidir o que ia ungir depois.

— Hummmm! — exclamou. — Não sei.

— Você é ridículo — respondi. — Não espera que eu acredite nisso, espera?

Ele andou até mim e pendurou o braço livre no degrau em que meus pés descalços estavam pousados. Então estendeu a outra mão e pôs os dedos cobertos de óleo diante de minha testa.

— Não se atreva — falei.

— Saia, demônio! — gritou ele, mais sério, jogando a mão para trás.

Uma gota de óleo de motor pousou na avalanche congelada de lençóis que caíra do beliche mais cedo, quando eu os empurrei.

Ele passou o óleo em minha testa, usando o polegar para espalhá-lo por minha pele.

* * *

Algumas horas se passaram e então aconteceu. De início, foi como um batismo. Senti meu corpo mergulhar, mas as mãos de outra pessoa me chamavam para a superfície. Como em meu batismo propriamente dito, eu havia ficado preocupado com a sensação que teria, com o que pediriam que eu fizesse, com a logística exata do ato. Será que me sentiria diferente? Será que mudaria para sempre, como as pessoas diziam?

Eu me preocupava com o visual do meu corpo. Preocupava-me com as estrias. Mesmo enquanto ele forçava minha cabeça para baixo, tive medo de não fazer aquilo direito. Mesmo enquanto engasgava e lutava, puxando os pelos da panturrilha dele, tive medo de chateá-lo. Não era assim que eu queria que fosse, pensei.

Eu já havia pensado naquilo. Aos doze anos, parado no batistério da igreja da nossa família, havia agarrado a túnica justa na minha cintura enquanto a congregação olhava para mim e aplaudia. Eu era um novo homem, em um novo território. Nascido outra vez, à imagem de Deus. Membros da minha família congregacional gritavam Amém. Eu olhei para o rosto deles, sentindo que havia tirado toda a roupa e revelado a parte mais vulnerável de mim mesmo. Eu não era mais invisível.

* * *

Tudo que me levou a entrar na Amor em Ação pareceu uma punição merecida. David confessou, na mesma noite em que me estuprou, que também havia violentado um menino de quatorze anos de seu grupo de jovens e que não sabia por que fazia aquilo, não conseguia explicar. Eu fora incapaz de me mexer da cama onde ele havia me colocado depois — acreditava que Deus estava me punindo fisicamente por minhas transgressões mentais. Apesar de nossos feitiços contra eles, de alguma forma os demônios haviam entrado naquele quarto.

— Eu queria ser pastor e trabalhar com jovens — disse ele, chorando tão alto que os vizinhos esmurraram a parede de concreto. — Como posso ser pastor agora? Depois do que eu fiz?

Eu ainda não a reconhecia, mas a lógica da terapia de reorientação sexual, a ideia de que meus impulsos pecaminosos eram, de certa forma, iguais aos de David, começou a invadir meus pensamentos. Claro que eu estava no mesmo grupo dos pedófilos. De acordo com as escrituras, eu não era melhor do que um deles, ou do que um adorador de imagens, ou do que um assassino.

Quando contei à pastora presbiteriana da faculdade o que David havia feito com o menino de quatorze anos, ela me mandou ficar quieto. Eu não tinha provas concretas. Era uma coisa ruim, é claro, mas não havia nada a fazer. Acreditei que meu silêncio era uma punição merecida. Não contei o que ele havia feito comigo, em parte porque suspeitava que o sexo gay envolvesse apenas estupro e vergonha, mas sobretudo porque estava envergonhado demais para admitir que não havia sido forte o bastante para me desvencilhar dele. Tive medo de ela interpretar aquela fraqueza como uma submissão à homossexualidade.

— Está bem — falei, lendo as lombadas de couro que cobriam as prateleiras de seu escritório, me perguntando se tais teólogos também haviam achado um meio de se desvencilhar de temas difíceis como aquele.

Para que a vida voltasse a fazer sentido um dia, eu teria que procurar por respostas claras com mais afinco.

David ligou para minha mãe algumas semanas depois, sofrendo de uma culpa desesperada, e disse a ela que seu filho único era homossexual, um gay.

— Ele é nojento — disse a ela. — Um monstro.

Soube por uma amiga em comum que minha mãe estava a caminho da faculdade para me levar para casa e fiquei sentado no quarto do alojamento dessa amiga, chorando baixinho em um travesseiro fofo, enquanto ela dava uma série de tapinhas em minhas costas. De acordo com outro amigo, que soubera disso por David, minha mãe havia dito ao telefone que meu pai não continuaria pagando por minha educação se me assumisse gay. Eu desliguei o celular, esperando bloquear o que quer que fosse acontecer.

Minha mãe chegou à faculdade naquela noite e me pediu para ir para casa conversar com meu pai. Veio junto com outra mulher da igreja porque teve medo de me enfrentar sozinha. A outra mulher esperou no carro, os olhos evitando os meus, enquanto conversávamos em um banco próximo do pátio. Ela me perguntou, a voz mais baixa do que nunca, se o que havia ouvido era verdade.

— Não — respondi, de início. — O David é um mentiroso.

Um minuto de silêncio se passou. Então, sentindo que não conseguia mais guardar aquilo, comecei a chorar e disse que era verdade, que eu era gay. Dizer aquelas palavras em voz alta me deixou enjoado e eu me perguntei se o que David me forçara a engolir havia crescido em mim, me tornando permanentemente homossexual.

Envergonhada, minha mãe me levou para o carro. A outra mulher não disse nada. Deitado no banco traseiro, chorando em silêncio e observando os fios de alta tensão entre as estrelas, pensei: O que mais eu achei que ia conseguir com isso? No instante em que me afastara do chuveiro e deixara para trás o PlayStation encharcado na banheira, eu havia começado uma vida independente. Tinha assumido coisas demais e engasgado com a liberdade.

Mais tarde, naquela noite, meu pai disse:

— Você nunca mais vai pisar nesta casa se agir de acordo com o que sente. Nunca vai terminar a faculdade.

Pensei: Tudo bem.

Olhei para as molduras douradas que cobriam a parede da sala de estar, para todos os rostos sorridentes dos membros da família olhando para mim de um lugar mais feliz, para a tia Ellen, quando ainda era bonita e indiferente, e pensei: Qualquer coisa. Vou fazer qualquer coisa para apagar essa parte de mim.