Boy Erased: Uma Verdade Anulada
Capítulo I
SEGUNDA-FEIRA, 7 DE JUNHO DE 2004
John Smid estava de pé, as costas retas, sorrindo com seus óculos de armação fina, usando a calça cáqui e a camisa de botão listrada que haviam se tornado o uniforme dos homens evangélicos de todo o país. As costuras da camiseta que usava por baixo se esticavam, rígidas, sob a camisa, e o cabelo louro e grisalho estava domado por um corte máquina cinco, comum em todos os barbeiros do Sul dos Estados Unidos. O resto de nós estava sentado em um semicírculo voltado para ele, todos vestidos de acordo com as regras determinadas em nossos manuais de instruções de 274 páginas.
Homens: Sempre usar camisas, inclusive para dormir. Camisetas sem
manga não são permitidas, seja como roupa comum ou de baixo,
inclusive regatas. A barba deve ser feita todos os dias. Costeletas nunca
devem ficar abaixo da ponta da orelha.
Mulheres: Usar sutiã o tempo todo, a não ser para dormir. Saias devem
ficar na altura dos joelhos ou abaixo deles. Tops permitidos apenas se
usados sob blusas. Pernas e axilas devem ser raspadas pelo menos duas
vezes por semana.
— A primeira coisa que vocês precisam fazer é reconhecer o quanto se tornaram dependentes de sexo, de coisas que não são de Deus — disse Smid.
Estamos no Primeiro Passo do Amor do programa de Doze Passos para a Ação, uma série de princípios que põe os pecados da infidelidade, da brutalidade, da pedofilia e da homossexualidade no mesmo patamar de vícios como o alcoolismo e o jogo: um tipo de Alcoólicos Anônimos para o que os conselheiros chamam de “desvio sexual”.
Algumas horas antes, sentado sozinho em sua sala, eu havia visto um homem diferente: um Smid mais bondoso e brincalhão, um palhaço de meia-idade disposto a usar todo tipo de técnica para me fazer sorrir. Ele havia me tratado como criança, e eu tinha relaxado naquele papel, apesar de ter dezenove anos na época. Smid disse que eu tinha ido ao lugar certo, que a Amor em Ação me curaria, me tiraria do pecado e me levaria à luz da glória de Deus. O escritório dele parecera iluminado o bastante para sustentar aquela afirmação, as paredes nuas a não ser por alguns recortes de jornal e versos da Bíblia bordados dispostos em molduras. A janela dava para um terreno baldio, raro naquela área dos arredores da cidade: um gramado abandonado, pontuado por dentes-de-leão coloridos e seus milhares de sementes que se espalhariam pela rodovia até o fim da semana.
— Nós tentamos misturar vários modelos de tratamento aqui — garantira Smid, girando a cadeira de escritório para olhar pela janela.
Um sol alaranjado se erguia atrás dos prédios mal caiados ao longe. Esperei que a luz do sol os tomasse, mas, quanto mais observava, mais ela parecia demorar. Eu me perguntei se era assim que o tempo funcionaria naquele lugar: minutos pareceriam horas, horas pareceriam dias, dias pareceriam semanas.
— Assim que você entra no grupo, já está caminhando para a recuperação — dissera Smid. — O importante é se lembrar de manter a cabeça aberta.
Eu estava ali por escolha própria, apesar do meu ceticismo crescente, apesar da vontade secreta de fugir para não encarar a vergonha que sentia desde que meus pais haviam descoberto que eu era gay. Tinha investido demais em minha vida para deixá-la para trás: em minha família e naquele Deus cada vez menos definido que conhecia desde pequeno.
Deus, eu havia pedido em oração, deixando a sala de Smid e seguindo pelo corredor estreito até o salão principal, as luzes fluorescentes estalando em seus suportes de metal, não sei mais quem é o Senhor, mas, por favor, me dê sabedoria para sobreviver a tudo isso.
* * *
Algumas horas depois, sentado no meio do semicírculo de Smid, eu esperava que Deus se juntasse a mim.
— Vocês não são melhores nem piores do que os outros pecadores do mundo — disse Smid.
Ele mantinha os braços cruzados atrás das costas, o corpo todo tenso, como se tivesse sido amarrado a uma tábua invisível.
— Deus vê todos os pecados sob a mesma luz.
Todos assentimos. O jargão do ex-gay já havia se tornado familiar para mim, apesar de ter sido um choque quando o lera pela primeira vez no site da instituição, quando ficara sabendo que a homossexualidade que eu tinha tentado ignorar durante grande parte da minha vida estava “fora de controle”, que eu podia acabar tendo relações com o cachorro de alguém se não me curasse. Por mais absurda que a ideia possa parecer neste momento, eu não tinha muitas informações em que me basear na época. Ainda era jovem o suficiente para ter tido apenas casos passageiros com outros homens. Antes da faculdade, eu só havia conhecido um homem que dizia abertamente que era gay: o cabeleireiro da minha mãe, um cara grande e peludo que passava a maior parte do tempo dando sinais do que eu considerava um estereótipo — elogiava minha aparência, fofocava sobre os colegas de trabalho, discutia os planos para sua próxima festa de Natal maravilhosa, a barba branca impecável já esculpida para encarnar o papel de Papai Noel Safado. O restante do preconceito eu havia aprendido em pantomimas: punhos frouxos e gestos exagerados de membros da igreja fazendo piada; frases que chamavam atenção em virtude daquela cadência melódica comum na TV — “Ai, não precisaaava” —; petições da igreja que tinham que ser assinadas para manter o país a salvo dos “pervertidos”. O brilho de uma legging neon, o agitar de um boá, um bumbum durinho rebolando para a câmera. O que eu via na TV parecia corroborar que ser gay era estranho, não natural.
— Vocês precisam entender uma coisa muito importante — disse Smid, a voz tão próxima que pude senti-la em meu peito. — Estão usando um pecado sexual para preencher o vazio que sentem pela falta de Deus em suas vidas.
Eu estava ali. Ninguém podia dizer que eu não estava tentando.
* * *
O salão principal era pequeno, iluminado por lâmpadas fluorescentes e tinha uma porta de correr que dava para uma varanda de concreto desbotada pelo sol. Nosso grupo estava sentado em cadeiras dobráveis acolchoadas, perto da frente da sala. Nas paredes atrás de nós, havia folhas plastificadas com os Doze Passos que prometiam uma cura lenta, mas duradoura. Além desses pôsteres, as paredes não tinham basicamente nada. Não havia crucifixos nem estações da via crucis. Ali, tal iconografia era considerada idolatria, assim como a astrologia, o jogo Dungeons & Dragons, as religiões orientais, os tabuleiros de Ouija, o satanismo e a ioga.
A Amor em Ação tinha uma posição mais extrema contra o mundo secular do que as igrejas da minha infância, embora eu já estivesse familiarizado com o modo de pensar dos conselheiros. Dentro do ramo fundamentalista do cristianismo chamado de Batista, a denominação da minha família, Batista Missionária, proibia tudo que tivesse o poder de distrair a alma da comunicação direta com Deus e a Bíblia. Muitas das cento e poucas demais denominações no espectro batista costumavam discutir o que devia ou não ser permitido ao rebanho, mas algumas igrejas levavam esses temas mais a sério do que outras, e assuntos como o jeito de dançar e as armadilhas das leituras não bíblicas ainda eram debatidos.
— Harry Potter não passa de um sedutor das almas das crianças — dissera certa vez um pastor batista que fora visitar a igreja da nossa família.
Não duvido que meus conselheiros da AEA também tivessem descartado qualquer menção a Harry Potter e que, portanto, o tempo que passei em Hogwarts tivesse que continuar sendo um prazer secreto. Eu havia selado um pacto ainda mais sério com Deus ao ir até ali, algo que exigia que abstraísse a maior parte do que acontecera antes da AEA. Antes de entrar naquela sala, tinham me pedido para deixar tudo para trás, com exceção de minha Bíblia e meu manual.
Como a maioria dos clientes da AEA havia crescido naquele protestantismo literal e estava desesperada por uma cura, as regras rígidas dos conselheiros recebiam salvas de palmas. As paredes brancas e limpas do local pareciam um cenário apropriado para uma sala de espera, onde tentaríamos receber o perdão de Deus. Até música clássica era proibida — “Beethoven, Bach etc. não são considerados cristãos” —, e um silêncio pesado pairava na sala durante nosso Momento de Reflexão matinal, silêncio esse que adentrava as atividades diárias e gerava um clima que, se não parecia santo, pelo menos não era secular.
A área de estudo nos fundos do salão, com uma estante cheia de livros de cunho motivacional e uma pilha pesada de Bíblias, continha dezenas de testemunhos de ex-gays vitoriosos.
“Lenta, mas, verdadeiramente, comecei a me recuperar”, li naquela manhã, passando o dedo pela folha. “Comecei a me recuperar do fato de não ter amigos com quem eu não transasse. Comecei a entender quem eu era de verdade, em vez da personalidade falsa que havia criado para me tornar aceitável.”
* * *
Eu havia passado os meses anteriores tentando apagar minha “personalidade falsa”. Tinha saído do alojamento da faculdade em um dia de inverno e pulado no lago semicongelado do campus. Tremendo de frio, fizera a caminhada de volta para o dormitório com os sapatos encharcados, sentindo-me rebatizado. No banho quente, eu observara, hipnotizado pelo choque do calor em minha pele dormente, uma gota d’água percorrer a beirada do chuveiro. E rezara: Senhor, torne-me puro.
Durante minha estadia na Amor em Ação, eu repetiria essa oração até transformá-la em mantra. Senhor, torne-me puro.
* * *
Tenho poucas lembranças da ida até a instituição com minha mãe. Tinha tentado olhar para longe, evitar que minha mente gravasse o que passava pela janela do carona, mas alguns detalhes permaneceram: o Mississippi e sua lama cor de caramelo passando por trás da cerca de aço da ponte Memphis-Arkansas; a proporção daquele Nilo americano agindo como estimulante perfeito para minha mente descafeinada; a pirâmide de vidro reluzindo nos limites da cidade, espalhando sua luz quente pelo para-brisa. Era o início do verão, e, no meio da manhã, quase todas as superfícies da cidade já estariam quentes demais para serem tocadas por mais que alguns segundos. Ao meio-dia, tudo já estaria insuportavelmente escaldante. O único alívio vinha de manhã cedo, com o sol ainda descansando no horizonte, só o mais leve indício de luz.
— Eles devem ter dinheiro para pagar por um lugar melhor do que este — disse minha mãe, nos conduzindo até uma vaga diante de um shopping retangular.
O lugar era mais elegante que a maior parte da cidade, dentro de um bairro chique, apesar de o shopping ser o marco menos atraente em quilômetros, um local onde lojas baratas e pequenas clínicas podiam estabelecer um lar temporário. Tijolos vermelhos caiados e vidro. Portas duplas que se abriam para um saguão branco com plantas falsas. Uma logomarca acima da entrada: um triângulo vermelho invertido com um recorte em forma de coração no meio, uma série de linhas brancas e finas cortando o espaço vazio. Saímos do carro e seguimos até a porta, minha mãe sempre alguns passos à frente.
Quando entramos no saguão, um recepcionista sorridente me pediu para assinar meu nome em um livro de registro. Parecia ter vinte e poucos anos. Usava uma camisa polo larga e tinha os olhos de um tom de cobalto vivo e sincero. Eu esperava encontrar ali um fantasma pálido, já despojado de tudo de interessante. Em vez disso, encontrei alguém que parecia disposto a jogar algumas partidas de Halo comigo e depois usar analogias de videogame para me contar um pouco do que Deus tinha feito por ele. Você tem que lutar contra os inimigos, os alienígenas que estão tentando invadir sua alma. Eu já havia conhecido muitos pastores descolados, com um comportamento e um visual parecidos.
Não consigo mais me lembrar do nome dele. Não consigo mais me lembrar se naquele saguão havia algum sinal do que estava por vir, algum quadro na parede, alguma regra declarada. Hoje, a lembrança do local é apenas uma sala de espera extremamente clara, a típica representação hollywoodiana do céu: um espaço em branco.
— Posso conhecer o lugar? — perguntou minha mãe.
Algo na mudança de tom para a pergunta educada me deixou incomodado, como se ela estivesse pedindo para olhar um imóvel.
— Sinto muito, senhora — respondeu o recepcionista. — Só clientes podem entrar. Por segurança.
— Segurança?
— É, senhora. Muitos dos nossos clientes têm problemas familiares reprimidos. Ver um pai ou uma mãe, não importa qual, mesmo que seja alguém legal como a senhora — abriu um sorriso convincente, de covinhas profundas —, pode ser perturbador. É por isso que chamamos o lugar de zona de segurança.
Ele estendeu e abriu os braços de forma lenta e um pouco rígida, pensei, como se seus movimentos um dia tivessem sido mais amplos e ele tivesse aprendido a controlá-los.
— Como ele vai participar do programa de apenas duas semanas, a senhora vai ter acesso ao seu filho em qualquer horário, menos durante as sessões.
As sessões eram de nove às cinco. Eu passaria os fins de tarde, noites e inícios da manhã com minha mãe, em um Hampton Inn & Suites próximo, e sairia do quarto do hotel apenas se fosse necessário. Eu teria de passar a maior parte do tempo livre no quarto, fazendo o dever de casa para a sessão do dia seguinte. A programação que o recepcionista me entregou era bastante objetiva e trazia cada hora marcada em um quadrado de moldura preta, com palavras como “hora de reflexão”, “atividades” e “aconselhamento” escritas em maiúsculas.
Também recebi um manual grosso da AEA e um folheto. Ao abrir o primeiro, amassando a lombada de plástico, fui recebido por um bilhete de boas-vindas em preto e branco, com o meu nome impresso em letras grandes. Abaixo do meu nome, os Salmos 32:5-6 escritos de forma moderna, diferente da versão formal da Bíblia com a qual havia crescido.
Confessei-te o meu pecado, e a minha maldade não encobri. Dizia eu:
confessarei ao Senhor minhas transgressões, e tu perdoaste a maldade do
meu pecado.
Folheei as páginas aleatoriamente enquanto minha mãe espiava por sobre meu ombro. Quis fechar o livro no instante em que vi os erros de digitação óbvios e os desenhos em clip-art. Queria que minha mãe visse o melhor do lugar antes de ir embora, não porque achasse que devia defender aquele manual mal formatado, mas porque queria que aquele instante passasse o mais rápido possível sem mais nenhuma de suas perguntas educadas demais. Se ela começasse a questionar a diagramação e a linguagem bíblica, talvez começasse a fazer perguntas sobre qualificações, sobre por que estávamos ali afinal, e eu sabia que aquilo só pioraria as coisas. Perguntas só prolongam a dor desses momentos e quase sempre ficam sem respostas. Eu já estava cheio de perguntar como tinha ido parar naquela situação, de procurar outras respostas, outras realidades, outras famílias ou corpos nos quais podia ter nascido. Toda vez que percebia que não havia alternativa, eu me sentia pior por ter perguntado. Naquele momento, estava pronto para aceitar as coisas como elas eram.
— Ligue se precisar de alguma coisa — disse minha mãe, apertando meu ombro.
Uma composição de cabelo louro e rímel azul exagerado, olhos azuis e a blusa de estampa florida de sempre: ela era uma mancha em tecnicolor naquele lugar pálido.
— Sinto muito, senhora — disse o recepcionista —, mas vamos precisar guardar o celular do seu filho enquanto ele estiver aqui. — Por segurança. — Vamos informar a senhora caso alguma coisa importante aconteça.
— Você acha que isso é necessário?
Minha mãe e o recepcionista encerraram a conversa:
— São as regras, senhora. É para o bem dele.
Então minha mãe se despediu, dizendo que ia fazer check-in no hotel e que estaria de volta para me buscar às cinco em ponto. Ela me abraçou e eu a vi se afastar, a cabeça erguida, as costas eretas. As portas duplas de vidro se fecharam atrás dela com um suspiro das dobradiças pneumáticas. Eu já havia visto minha mãe daquele jeito, no ano em que meus avós morreram. Ela me mantivera ao seu lado durante todo aquele ano, sempre abrindo um espaço para mim no sofá enquanto as visitas entravam e saíam da sala de estar, trazendo ensopados e cestas cheias de doces açucarados. Tinha passado os dedos pelo meu cabelo e sussurrado que a morte era um processo, que meus avós haviam tido vidas felizes. Eu me perguntei se era assim que ela se sentia, se achava que a AEA era parte de um processo necessário — árduo, é claro, entretanto mais fácil de aceitar quando entendíamos que fazia parte dos planos de Deus.
— Vamos fazer sua matrícula — disse o recepcionista.
Eu o segui até outra sala, também de paredes brancas e limpas, onde um garoto louro estava de pé ao lado de uma mesa. Ele me pediu para esvaziar completamente os bolsos. O menino devia ter minha idade, uns vinte anos talvez, mas exibia um ar de autoridade que me fez pensar que estava ali havia algum tempo. Era esbelto e charmoso, alto e angular, apesar de não ser meu tipo. Por outro lado, eu não sabia direito qual era meu tipo.
Nas noites em que havia me permitido procurar fotos de homens de cueca na internet, eu só conseguira chegar à metade da página. Vira os pixels se agruparem, linha a linha, em um striptease em câmera lenta, mas sentira necessidade de sair do navegador e tentar esquecer o que havia visto, o laptop ainda quente em meu colo. Havia flashes, é claro, vestígios de atração surgindo em minhas fantasias ocasionais — um bíceps musculoso ali, o V reto de uma pélvis aqui, uma colagem de várias covinhas abaixo de uma série de narizes aquilinos —, mas a imagem nunca se completava.
O garoto louro esperou, batendo o indicador na mesa dobrável entre nós. Enfiei as mãos no bolso e saquei o celular, um Motorola RAZR preto, cuja tela, pequena, se iluminou de repente com uma imagem do lago, a área de natureza obrigatória do meu campus: um agrupamento de bordos em torno da superfície vítrea. O menino louro franziu o nariz ao ver aquilo, como se algo perverso estivesse à espreita sob aquela imagem tranquila.
— Terei que olhar todas as suas fotos — disse. — As mensagens também.
— É o procedimento padrão — explicou o recepcionista. — Todas as fotos vão ser retiradas para uma avaliação da sua sobriedade.
Ele estava citando a seção de Imagens Falsas (IF) do manual, um trecho que, a pedidos, eu precisaria decorar depois.
Pela afirmação de sua identidade de gênero, queremos incentivar todos
os clientes, homens e mulheres. Também queremos que cada um busque
a integridade em suas ações e aparência. Por isso, quaisquer pertences,
características, roupas, ações ou estados de espírito que possam conectar
você a um passado não apropriado estão excluídos do programa. Esses
entraves são chamados de Imagens Falsas (IF). O comportamento de IF
inclui masculinidade exagerada, roupas sedutoras, roupas masculinas
(em mulheres), bijuterias em excesso (em homens) e comportamento e
modo de falar efeminado ou lésbico.
Olhei para minha camisa branca, para as calças cáqui que minha mãe havia passado para mim mais cedo, as pregas engomadas descendo pelo meio de cada perna. Nada em meu armário ou celular podia ser considerado uma IF. Eu havia garantido isso antes de vir para cá. Conferira meu reflexo no espelho à procura de algum amassado e havia excluído longas trocas de mensagens com amigos, esperando que a barra cinza do comando deletar terminasse de engolir toda a esperança, a ansiedade e o medo que havia compartilhado com as pessoas em quem confiava. Eu me sentia recém-saído do forno, como se pela manhã eu tivesse deixado de lado minha pele antiga e meu “passado não apropriado” ainda estivesse empilhado no chão do quarto, junto com o resto das roupas sujas.
— Sua carteira, por favor.
Obedeci. Minha carteira pareceu muito pequena ali, um minúsculo quadrado de couro que continha grande parte da minha identidade: carteira de motorista, cartão do plano de saúde, do banco. O garoto na foto da carteira de motorista parecia outra pessoa, alguém livre de qualquer problema. Um rosto sorridente no vazio. Não me lembrava de como o Departamento de Veículos havia conseguido fazer com que eu sorrisse de forma tão boba.
— Por favor, esvazie a sua carteira e coloque tudo na mesa.
Meu rosto ficou vermelho. Retirei cada cartão. Peguei um maço de notas de vinte, além de um pedaço de papel quadriculado com o telefone do escritório de admissão, anotado na época em que estava ansioso com a possibilidade de ser aceito na faculdade.
— Que telefone é esse? — perguntou o garoto.
— É do setor de admissões da faculdade — falei.
— Se eu ligar vou ver que você está falando a verdade?
— Vai.
— Não tem nenhum telefone nem fotos de ex-namorados com você?
Odiei o modo como ele falou abertamente de antigos “namorados”, uma palavra que eu havia sempre evitado porque sentia que dizê-la podia revelar minha vergonhosa vontade de ter um.
— Não, não tenho nenhum material não apropriado.
Contei até dez, soltando o ar pelo nariz, e olhei de novo para o garoto. Eu não ia deixar aquilo me afetar, não tão cedo juntamente no primeiro dia.
— Você tem mais alguma coisa nos bolsos?
As perguntas dele me deixaram paranoico. Será que eu havia levado algum objeto não apropriado sem querer? Naquele momento, parecia que tudo em mim era inapropriado, como se eu pudesse ser banido do local simplesmente porque já era sujo demais. O tom dele sugeria que eu estava tentando esconder um amplo passado de comportamentos pecaminosos, mas a verdade era que, apesar de sentir o peso daquele suposto mal, eu tinha poucas provas físicas, e ainda menos experiências, para comprová-lo.
— Tem certeza de que não tem mais nada?
Eu tinha outra coisa, mas esperava não ter que entregá-la: meu diário, onde escrevia todos os meus contos. Apesar de saber que as histórias eram amadoras, que eu estava apenas brincando de ser escritor, estava ansioso para voltar a elas assim que as atividades do dia terminassem. Suspeitei que os longos parágrafos com descrições da natureza, embora tão inócuos naquele momento quanto eram quando os coloquei no papel, podiam ser vistos como rebuscados demais, femininos demais, outro sinal de minha fraqueza moral. Um dos meus últimos contos tinha até um narrador feminino, uma escolha que dificilmente seria afirmativa do meu gênero.
— Tem isto — falei, segurando o caderninho à minha frente, pouco disposto a colocá-lo na mesa com os outros pertences. — É só um caderno.
— Não permitimos diários — disse o recepcionista, citando o manual. — Todo o resto é distração.
Observei o garoto louro pegar o caderninho, pousá-lo na mesa e começar a folhear as páginas para a frente e para trás, com desinteresse, franzindo a testa. Não me lembro mais que conto ele achou, mas me lembro do jeito com que arrancou as páginas, amassou-as em uma bola compacta e disse, com uma voz livre de emoção:
— Imagem falsa.
Como se isso as resumisse.
— Bom, acho que isso é tudo — disse o recepcionista. — Agora só tenho que revistar você rapidamente e vai estar pronto.
Ele apalpou minhas pernas, passou os dedos entre as pregas da calça, seguiu até meus braços, os punhos da camisa e então, como se quisesse me confortar, deu algumas batidinhas em meus ombros — um, dois, três —, sem tirar os olhos dos meus.
— Vai ficar tudo bem — garantiu ele, os olhos azuis demais fixos nos meus, as mãos ainda pesando em meus ombros. — Todos temos que passar por isso. É um pouco estranho no começo, mas você vai acabar adorando isto aqui. Somos uma grande família.
Eu observei o garoto louro jogar meu conto no lixo. Senhor, torne-me puro. Se Deus estivesse mesmo disposto a atender minha oração, jamais faria isso a não ser que eu fosse transparente como uma gota d’água. Amasse a primeira metade da história e jogue-a no lixo. Todo o resto é distração.
* * *
— Pois a recompensa do pecado é a morte — continuou Smid.
O sol da tarde entrava pela porta de correr atrás dele. Toda vez que ele passava por nós, a sombra do suporte central da porta o percorria como o pêndulo preguiçoso de um metrônomo, marcando o ritmo lento de seu caminhar. Nosso grupo terapêutico estava quieto e imóvel, a respiração calibrada com o andar lento de suas pernas, o ensopado do almoço pesado em nosso estômago. Havia dezessete ou dezoito pessoas no grupo. Algumas estavam ali havia tempo suficiente para saber que deviam se abster educadamente da carne e do queijo processado, outros haviam trazido o próprio almoço e de seus potes com tampas fosforescentes escapavam aromas de atum e maionese. Ao observar os membros mais antigos almoçando, aqueles que estavam na AEA havia dois ou três anos, eu tinha conseguido ver que o recepcionista estava certo, ao menos em parte: era uma família, apesar de disfuncional. Pães sem casca e gelatina verde-água — esse era um grupo tolerante às idiossincrasias alimentares dos outros. As pessoas aceitavam a rotina sem muita vergonha nem agitação, sem os olhares de esguelha que costumam acompanhar grandes grupos que de repente se veem em circunstâncias mais íntimas. Eu era o único que parecia bancar o forasteiro, raspando o macarrão instantâneo sabor carne com o garfo como se não soubesse mais como me alimentar, mal tirando os olhos do prato.
À minha esquerda estava S, uma adolescente estranha, vestida com a saia obrigatória, que mais tarde admitiria ter sido pega passando manteiga de amendoim na vagina para atrair o cachorro.
— Prazer — havia dito ela de manhã, antes que eu tivesse a chance de me apresentar.
S parecia estar sempre pronta para fazer uma reverência, o polegar e o indicador se contorcendo bem junto às pregas da saia de algodão. Ela observou meus pés depois de se apresentar, o olhar fixo na lajota atrás dos meus tênis, e, por um instante, achei que eu devia ter trazido algum tipo de resíduo pecaminoso do mundo exterior.
— Você vai gostar daqui.
À minha direita estava um garoto de dezessete ou dezoito anos, J, que usava calça jeans da Wrangler, um sorriso irônico de caubói e, no cabelo, um penteado ao estilo dos universitários de fraternidade, a franja perigosamente longa caindo sobre os olhos castanhos acolhedores. J não parava de se gabar de ter decorado todas as oito “passagens reparadoras” da Bíblia, chamadas assim em virtude de seu poder de condenar a homossexualidade e defender as relações heterossexuais tradicionais.
— Eu leio as oito toda noite — dissera J, a voz séria, mas também um pouco brincalhona.
Ele agarrara minha mão em um cumprimento firme e experiente. Parecia haver milhares de apertos de mão por trás daquele, cada um fortalecendo a pegada de J para que estivesse forte o bastante para ser aprovado naquele teste básico de masculinidade.
— Também decorei capítulos inteiros — acrescentou.
Quando nossas mãos se separaram, pude sentir o suor dele resfriar a palma da minha mão. Abraços e contato físico entre clientes são proibidos, lembrei-me do manual. Só rápidos apertos de mão são tolerados.
— Meu favorito? — disse ele, sorrindo. — “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação.”
Mais tarde, ele me falaria mais sobre sua interpretação daquele versículo “reparador”:
— Abominação — diria ele, puxando a franja para trás com um movimento lento dos dedos, as meias-luas brancas das unhas brilhando, grandes e claras. — É uma palavra doida. Em hebraico, é to’e’va. Pode se referir tanto a camarões quanto a uma relação homossexual. Aquele monte de perninhas nadando na água salgada assustavam os israelitas, sabe? Eles achavam que não era natural.
Os outros membros do grupo eram homens e mulheres adúlteros, ex-professores de ensino médio ou educadores de algum tipo envergonhados por boatos sobre sua sexualidade e adolescentes mantidos ali contra sua vontade, como parte do Programa de Refugiados, um ramo controverso cujo público-alvo eram pais que achavam que mandar os filhos para a instituição era sua única opção.
A maioria era do Sul, de alguma região do chamado Cinturão da Bíblia. A maior parte das nossas histórias era extremamente parecida. Todos havíamos recebido ultimatos que não existiam para outras pessoas, tinham nos imposto condições quase sempre distantes do amor entre pais e filhos. Em algum momento, todos nós tínhamos ouvido um “mude isso ou então...”. Ou então ficaríamos sem casa, sem dinheiro, seríamos excomungados, eLivross. Todos havíamos demonstrado medo demais para passar despercebidos; todos havíamos ouvido contos moralistas sobre drogados, viciados em sexo, pessoas que acabaram morrendo nas garras da aids em alguma sarjeta da Costa Oeste. A história sempre terminava assim. E nós acreditávamos nela. E, quase sempre, o que consumíamos das mídias corroborava isso. Era muito difícil achar um filme que falasse abertamente sobre homossexualidade em um cinema de cidade pequena e, quando isso acontecia, quase sempre terminava com alguém morrendo de aids.
Eu estava ali como parte da Fonte, um programa experimental de duas semanas que determinaria a duração da terapia de que eu ia precisar. A maioria dos pacientes precisava de pelo menos três meses de residência, normalmente mais. Em muitos casos, universitários como eu interrompiam os estudos por pelo menos um ano, para se distanciar de más influências. Muitos ficavam ainda mais tempo longe. Na verdade, a maior parte da equipe era formada por ex-pacientes que estavam na AEA havia pelo menos dois anos e que tinham preferido ficar dentro da instituição a voltar às antigas vidas. Para receberem permissão de trabalho ali dentro, ex-pacientes precisavam arrumar empregos pré-aprovados, serem capazes de se manter financeiramente, conversar apenas com pessoas cujo caráter e status haviam sido aprovados pela equipe e ficar longe da internet e de outros “espaços seculares” — inclusive “shoppings” ou “livrarias não cristãs”. Como os pacientes não podiam se afastar demais da sede da AEA, os grupos de apoio se tornavam o foco de todas as suas atividades, e o caminho, a verdade e a vida de que Jesus falara no Novo Testamento, a única trilha verdadeira para o amor de Deus.
Passadas essas duas semanas, a equipe da AEA e os meus pais determinariam a quantidade de tempo necessária no meu caso. Como o nome sugeria, a Fonte era o manancial no início de uma jornada longa e difícil.
* * *
— Conte o que você fez, T — pediu Smid, dando início à Partilha em nossa sessão vespertina. — Você tem que admitir o que fez para que não aconteça de novo.
T, um homem de meia-idade obeso que usava vários cardigãs pretos, foi até a frente do grupo, pálido, para confessar que tinha tentado o suicídio mais uma vez.
Era a sétima tentativa de suicídio de T desde que ele entrara no programa. Tinha tentado comprimidos, facas, tudo que havia encontrado.
— Típico — sussurrou J, aproximando-se de mim, o hálito quente fazendo cócegas em meu pescoço. — O cara está implorando por atenção. Vários problemas com o pai.
T pareceu se encolher dentro dos cardigãs, a metade escondida do corpo parecendo muitíssimo negra contra a palidez do rosto. O que quer que o tivesse destruído a princípio o havia deixado muito tempo antes, mas a AEA tentaria trazer aquilo à tona outra vez.
— Quem dentre nós vai atirar a primeira pedra? — perguntou Smid, virando-se para o grupo. — Todos nós pecamos e não estivemos à altura da glória de Deus.
Aceitar o compromisso era meio caminho andado na luta por um estilo de vida ex-homossexual. Era preciso querer mudar. Querer mudar a ponto de preferir morrer a continuar igual, senão você jamais passaria do Primeiro Passo: admitir o erro. Pré ex-gays como T se sentiam incapazes de mudar, disse Smid, porque problemas familiares profundos os impediam de se aproximar de Deus.
— O suicídio não é a resposta — disse ele. — A resposta é Deus. Simples assim.
— O que eu fiz foi errado — continuou T, enfiando as mãos rosadas pelas cicatrizes no cardigã exterior, como se repetisse um roteiro. — Eu sei que, com a ajuda de Deus, posso aprender a enxergar que a minha vida tem valor.
J tossiu, escondendo uma risada no punho fechado. Não conte com isso.
Quando T finalmente se sentou, todos dissemos:
— Eu te amo, T.
Era uma exigência do programa, a nona regra da sessão de Regras do Grupo: Quando alguém do seu grupo parar de falar, diga: “Eu te amo, XXX.”
Como todos os filhos de Deus são iguais, nossos nomes eram intercambiáveis.
— Eu te amo, T — disse Smid.
* * *
Embora eu não soubesse disso na época, Smid tinha dado conselhos diferentes antes. Fazia uma década que ele enfrentava a repercussão negativa do programa, reflexo de um suposto conselho dado por ele a um dos primeiros jovens a participar. De acordo com o Family & Friends, um jornal de Memphis, Smid dissera ao jovem que era melhor ele se matar do que viver sendo homossexual.
Desde então, segundo cálculos de vários blogs especializados no assunto, o número de suicídios causados pelo tratamento da AEA chegava a entre vinte e trinta casos, embora fosse um número impossível de precisar.
E a polêmica não terminava por aí. De acordo com uma entrevista dada ao Daily Beast por Peterson Toscano, ex-paciente de Smid que havia participado das reuniões no fim dos anos 1990, a AEA também havia sido responsável por encenar o enterro de um “possível desertor”, um jovem de dezenove ou vinte anos que achava que seria melhor se mantivesse um estilo de vida abertamente gay fora da instituição. Os membros da AEA haviam ficado de pé diante do corpo deitado do garoto e falado sobre como “era horrível que ele não tivesse continuado com Deus. Agora vejam onde ele está. Morto porque foi embora”. Haviam lido obituários falsos que descreviam o rápido declínio do garoto até a contaminação pelo HIV, depois aos sintomas da aids e tinham chorado por ele. E isso continuara até o garoto estar realmente convencido de que seu comportamento pecaminoso o levaria à morte sem qualquer esperança de ressurreição. O menino por fim fugiu da AEA, mas apenas anos depois e, de acordo com uma conversa que tive com Toscano, levando consigo uma bagagem de danos psicológicos.
Era nosso medo da vergonha, seguido pelo medo do Inferno, que realmente evitava que cometêssemos suicídio.
* * *
Smid terminou o discurso e, em silêncio, esperou ver na expressão em nossos rostos que tínhamos registrado a importância do Primeiro Passo. Depois de vários longos segundos, dispensou os grupos, com uma única palma. O som foi um choque. Eu me levantei e me espreguicei, depois passei pelas portas de vidro e continuei seguindo até a varanda, sentindo que poderia andar por horas, dias, semanas. Os outros vieram logo atrás, os sapatos arranhando o concreto.
Eu queria conversar mais com J, que parecia um cara relativamente legal, alguém que não estava ali havia tempo suficiente para esquecer como havia sido seu primeiro dia. Mas J ficou sentado do lado de dentro, e, quando vi, eu estava parado na ponta da varanda, sozinho. Avistei S de pé do outro lado do vidro, ajeitando a saia e lançando um sorriso tímido na minha direção. T ainda estava sentado na ponta do nosso semicírculo, o olhar fixo em um pedaço de concreto próximo dos meus pés, onde alguns passarinhos fulvos ciscavam migalhas deixadas por um dos membros do grupo. Ele esticou as mãos em concha como se estivessem cheias de comida para os pássaros, como se fosse espalhar uma trilha de migalhas da porta até onde estava sentado.
* * *
— Certo — disse Smid, andando até o quadro branco da parede oposta. — Alguém sabe me dizer o que é um genograma? — perguntou, batendo as mãos. — Alguém?
Smid pegou uma caneta preta da bandeja prateada na base do quadro.
S endireitou os ombros e ergueu uma das mãos, a outra puxando a saia para cobrir os joelhos vermelhos. Eu logo aprenderia que essas eram as regras dois, quatro e seis da seção de Regras de Grupo descrita no manual: “(2) Não fique jogado nos assentos, não fique apoiado apenas nas pernas traseiras da cadeira, não cruze os braços nem fique revirando os olhos ou fazendo cara de nojo; (4) Levante a mão para falar; (6) Clientes devem se sentar de maneira a evitar que outras pessoas tropecem”. Ela obviamente estava ali havia tempo suficiente para ter domado a maioria de suas Imagens Falsas.
— Diga — pediu Smid.
— Um genograma é uma árvore genealógica que também mostra padrões no histórico familiar — disse ela. — Como uma genealogia ilustrada.
Ou uma lista de personagens, pensei, lembrando-me de quantas horas havia passado no alojamento tentando estabelecer em meu caderno a árvore genealógica de O Morro dos Ventos Uivantes, com anotações como “a Cathy má” escrita ao lado dos nomes dos personagens. Fiquei me perguntando se conseguiria recuperar meu caderno.
— Boa resposta — disse Smid, escrevendo as palavras “Árvore genealógica / Genealogia” em grandes letras cursivas no topo do quadro e depois se dirigindo novamente a nós: — Podemos acrescentar algo?
Eu me remexi na cadeira estofada. Sempre sentia esse nervosismo em sala, essa necessidade de dar fim ao silêncio que seguia uma pergunta, independentemente do quão inadequada minha resposta pudesse ser. Eu também queria impressionar meus companheiros de grupo. Queria mostrar a eles o quanto sabia, deixá-los ver como eu era mais inteligente, como eu não cometia erros de digitação óbvios, como eu não pertencia àquele lugar, não de verdade. Eu estava só de passagem e logo, logo acharia a saída.
— Foi um bom chute, S — disse Smid.
Ele então pegou uma pilha de cartolinas com o garoto louro e a entregou a T, que pegou uma e passou as demais para a frente.
— Um genograma mostra padrões hereditários e comportamentos pecaminosos em nossas famílias. Ele não mostra só a genealogia, mas a história por trás do nosso comportamento pecaminoso atual — esclareceu.
Smid andou de volta até o quadro. Tirou a tampa da caneta com um floreio. Primeiro escreveu um A para alcoolismo. Depois escreveu P para promíscuo. Foi preenchendo o quadro com letras pretas grossas que deveríamos usar como código em nossos genogramas. H para homossexualidade, D para drogas, $ para vício em jogo, M para doenças mentais, Ab para aborto, G para envolvimento com gangues, Po para pornografia. Tentei ignorar a falta de paralelismo na lista de Smid, uma regra de estilo básica que havia aprendido na aula de inglês no ensino fundamental. O meio, disse a mim mesmo, não tinha que ser sempre perfeito. J pegou uma das cartolinas e passou a pilha para mim. Pude sentir a mão dele tremer durante a troca. Coloquei minha folha sobre o carpete bege aos meus pés.
Smid se virou para nos encarar, recolocando a tampa na caneta.
— Traumas costumam estar ligados a um pecado geracional — disse. — Temos que entender de onde esse pecado veio. Como ele passou de pai para filho, de mãe para filha.
Reconheci a ideia de um versículo bíblico popular na igreja da minha família: Êxodo 20:5.
Porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos
pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me
aborrecem.
O garoto louro entregou a todos um conjunto de lápis de cor presos com um elástico. Os veteranos do nosso grupo sentaram-se no chão para começar o projeto diário, levando as cartolinas com eles. Eu logo os segui, acostumado a passar horas ajoelhado no altar encerado da igreja de nossa família, pedindo que Deus me transformasse. Eu havia passado dezoito anos da minha vida frequentando a igreja três vezes por semana, atendendo ao chamado do altar com meu pai e outros homens, tentando acreditar em uma interpretação literal da Bíblia.
— Os padrões compulsivos dos pais influenciam os filhos — continuou Smid. — Essa é a fonte mais comum do pecado sexual.
Nossos genogramas coloridos nos diriam onde tudo havia começado a dar errado. Rastreariam nossa genealogia até um ponto distante e nós encontraríamos se não a resposta para nossos pecados sexuais, ao menos alguma noção de qual galho morto e depravado de nossa árvore genealógica havia sido o responsável.
Pus a folha sobre o carpete para poder ficar mais perto de J. S passou os olhos por mim quando fui até ele, mas fingi não notar.
J cutucou minhas costelas com um lápis vermelho, deixando uma marquinha na camisa branca. O peso do meu olhar percorreu seu longo braço musculoso até seu punho cheio de veias arroxeadas. Seu lápis desenhava uma seta vermelha e ondulada de violência de seu pai contra sua mãe.
— Aposto que é isso — disse.
A voz dele era tão monótona que era difícil saber se estava falando sério ou apenas regurgitando o jargão da AEA. Imaginei que a ironia talvez fosse parte importante de sua personalidade pré-instituição. Pensei que teria gostado mais dele fora dali.
— Aposto que parte dessa violência me fez ser gay. Ou pode ter sido o D do meu pai. Ou talvez minha mãe tenha feito um Ab antes de eu nascer.
Eu me perguntei como uma pessoa podia saber tanto sobre a própria família. Meu clã mantinha a boca fechada. Quando escapavam detalhes do nosso passado, isso se dava apenas em explosões acidentais ou em código.
— Eu não sei por onde começar — falei, olhando fixamente para a cartolina em branco.
Eu experimentava essa dificuldade toda vez que me sentava para escrever, mas aos poucos eu começava a ficar melhor naquilo. Relaxando a cabeça, eu conseguia entrar em minha pisque por uma porta lateral, me sentar de pernas cruzadas e examinar os hieróglifos.
— Comece com o pior — disse J, sorrindo —, a não ser que você seja o pior.
* * *
Era difícil montar uma árvore genealógica a partir de lembranças da primeira infância. A vida do meu pai havia preenchido um vazio em nossa mitologia familiar desde o momento em que ele fora chamado para ser pastor. A importância dele na nossa cidade e na nossa comunidade parecia sobrepor tudo que sabíamos sobre nós mesmos. Eu era o Filho Dele. Minha mãe era a Esposa Dele.
As pessoas sempre haviam considerado meu pai um crente devoto, mas, aos cinquenta anos, ele dera um novo passo quando, trêmulo e aos prantos, tropeçando pelo corredor da igreja, ele se ajoelhara junto com toda a congregação até nosso pastor declarar que Deus havia chamado meu pai ao ministério.
— Eu não tinha objetivo antes de encontrar minha vocação — repetira meu pai semanalmente, atrás de púlpitos por todo o estado do Arkansas, até minha mãe e eu começarmos a acreditar nele e a aplaudir junto com a plateia. — Eu não era nada. Mas Deus me curou. Ele me tornou inteiro. Deu-me um objetivo.
Dali a menos de uma semana, no meio do curso da Fonte, minha mãe e eu planejávamos ir da sede da AEA até a ordenação do meu pai como pastor da Igreja Batista Missionária, onde pediriam que ficássemos com ele em um palco amplamente iluminado, diante de uma congregação de mais de duzentas pessoas. A viagem já havia sido pré-aprovada pela equipe e considerada essencial para a minha melhora, uma verdadeira oportunidade de testar minha devoção à causa. Na igreja, era esperado que minha mãe e eu nos déssemos as mãos e começássemos a chorar no momento apropriado. Membros importantes da Associação Batista Missionária dos Estados Unidos viajariam de todo o Arkansas para entrevistar o homem que, muitos sugeriam, podia ser o próximo Pedro, o próximo Paulo, o homem cuja bússola moral podia acertar as coisas para os batistas, conduzir a uma crença maior no caráter inequívoco da Bíblia, diluir muitos dos problemas complexos que haviam começado a assolar a associação. Questões como o divórcio, a coabitação e — a mais urgente —, a homossexualidade.
— Apenas pense em quem você é — disse J.
Ele fazia os ajustes finais em sua cartolina. Parecia tão acostumado àqueles exercícios que teria desenhado os símbolos de olhos fechados.
— Pense no seu histórico familiar.
Comecei escrevendo os nomes dos meus bisavós no topo da cartolina, seguidos pelos dos meus avós e depois dos meus pais. Ao lado deles, acrescentei tias e tios e todos os meus primos. Bem na base, em uma letra levemente menor, coloquei o meu nome. Segui os códigos do genograma da melhor maneira possível, colocando apenas um ou dois símbolos ao lado do nome de cada parente. O avô alcoólatra: A. A avó que se divorciou dele por causa do alcoolismo: uma linha com dois traços diagonais. Os dois avós que morreram em sequência: dois X. A tia cujos dois primeiros maridos morreram em quedas de avião a caminho de Saigon e que depois se casou outra vez e se divorciou: uma linha com dois traços diagonais. O tio viciado em drogas, álcool e jogo: D, A e $, respectivamente.
Enquanto traçava minha árvore genealógica, colorindo as caixinhas, setas e símbolos textuais, o genograma começou a fazer sentido. Dava uma sensação de segurança culpar as pessoas que haviam nascido antes de mim, atribuir um símbolo a cada uma delas e com isso apagar todas as suas demais características. Eu poderia colocar um H ao lado do meu nome e todo o resto deixaria de importar. Se me perguntasse por que tinha ido parar naquele piso acarpetado com um grupo de estranhos, poderia simplesmente elencar os pecados familiares, dar de ombros e passar para a atividade seguinte sem mais perguntas. Toda a confusão a respeito de quem eu era e por que minha vida havia me levado até aquele momento poderia ser dobrada junto com a cartolina do genograma pronto, colocada dentro de uma pasta e guardada em um dos muitos arquivos da AEA.
— Parece que você tem muitos A nos dois lados da família — disse J, admirando minha cartolina, a voz monótona. — Isso deve ter afetado muito sua mãe e seu pai. Dizem por aí que os maiores pecados pulam uma geração. Você deve ser muito gay.
— Que saco... — falei, olhando para cima para garantir que ninguém havia me ouvido porque mesmo os palavrões leves eram estritamente proibidos. — Imagino que vou levar um bom tempo para me curar.
Smid parou entre nós dois, observando nossas cartolinas.
— Bom trabalho — disse, dando tapinhas nas minhas costas.
Leves e frias, as pontas de seus dedos mal me tocaram. Mais tarde eu sentiria o toque dele outra vez, em meu cotovelo, para corrigir minha postura exagerada de mãos na cintura, substituindo-a por algo mais heterossexualmente apropriado, uma postura Cro-Magnon curvada, popular em cidades pequenas do Sul, como aquela na qual cresci.
— Mas não quero ouvir esse tipo de coisa de novo — acrescentou ele, a voz mais baixa, um tom grave de barítono afetado pelo esforço. — Somente a linguagem de Deus é tolerada aqui.
Ouvi S rindo baixinho atrás de mim.
— Novato — sussurrou ela.
— Porra nenhuma — respondi.
O palavrão soou como um tapa, mas ela se recompôs rapidamente e riu outra vez, alto o bastante para chamar a atenção de Smid de novo.
Pensando agora, acho que ela deve ter ficado feliz por ao menos uma vez não ter sido alvo da zombaria de todos na sala, por poder se livrar da atenção de pessoas que se consideravam sortudas por conhecerem alguém como ela, que escondia um segredo ainda mais vergonhoso. Por um segundo, S deve ter ficado feliz com o fato de as pessoas terem parado de imaginá-la deitada de barriga para cima na sala de estar entulhada de um trailer, o pote de manteiga de amendoim como uma mancha escura sobre o balcão da cozinha, seus pais entrando pela porta e encontrando a filha tão alterada que não conseguiram reconhecê-la.
— Faça isso com calma — disse Smid, voltando até onde eu estava. — Você vai querer que o resultado seja correto.
Pus o lápis atrás da orelha e observei o genograma incompleto, tentando me lembrar dos pecados dos meus pais. Fiquei ali sentado até o tempo designado para a atividade acabar, com medo de escrever algo que não poderia apagar.