Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Garrard Conley · Capítulo 8 de 20

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Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Os negociadores honestos

 

 

Os homens estavam reunidos no showroom, as solas dos sapatos de couro rangendo contra o piso. A chuva da noite anterior havia acumulado vários centímetros no índice pluviométrico, centímetros agora reunidos nos buracos no concreto das entradas de suas casas, acomodados nas borrachas que vedavam as portas de seus carros, transbordando pelos reservatórios escondidos abaixo do piso. Era como se o homem do tempo, com seu sotaque experiente do Meio-Oeste, tivesse se enganado e a chuva não tivesse caído. As ruas estavam secas como sempre e, na bruma da segunda ou terceira xícara de café da manhã, aqueles homens talvez nem tivessem notado nada de diferente não fosse pelo barulho dos sapatos, um ruído que demonstrava que as atividades noturnas haviam continuado sem eles.

— Estou dizendo a vocês. É o Fim dos Tempos — dizia o Irmão Nielson.

Dois homens o ajudaram a mancar até o sofá de couro preto no canto do showroom. Enquanto passava por seu reflexo no Mustang vermelho estacionado no meio da loja, o Irmão Nielson sorriu rapidamente para sua forma desajeitada, depois desviou o olhar.

— Uma guerra no Oriente Médio. Por quê? Por que a gente simplesmente não taca umas bombas em cima deles?

O Irmão Nielson era um homem muito respeitado pelos vinte anos de trabalho duro como diácono da Igreja Batista Missionária local. À medida que sua saúde decaía e seu corpo calcificava lentamente, seu status de pilar da igreja e da nossa pequena cidade no Arkansas se tornava mais evidente. Mas, no fim, o caminho para o respeito lhe havia custado a vaidade.

— Eu tinha todas as mulheres que se pode imaginar — costumava dizer ele. — Centenas delas. Faziam fila. De todo tipo imaginável.

Agora a barra de sua calça cáqui pendia atrás dos sapatos, enxugando as trilhas d’água que os outros homens haviam deixado ao passar.

— Não sei por que as pessoas têm que complicar tanto as coisas. A CNN quer que a gente ache que não devia sequer ter entrado lá. Esse pessoal não sabe que Jesus vai voltar a qualquer momento? — perguntou ao desabar no sofá com um ruído emborrachado. — Eu consigo sentir isso profundamente.

Havia algo que meu pai e outros homens gostavam de falar sobre o Evangelho: Deus só tem tempo para negociadores honestos. Fale o que pensa e fale de forma clara.

— Não existe uma área neutra — gostava de dizer meu pai. — Não há zona de sombra. Não há meios-termos.

Eu os observei da porta da sala do meu pai, uma das mãos segurando um volume encadernado em couro da Bíblia de King James, a outra agarrando o batente de madeira. Em menos de cinco minutos, eu me ajoelharia com eles diante do sofá e guiaria meu pai e seus funcionários no estudo matinal da Bíblia pela primeira vez. Desde que meu pai se mudara para aquela cidade, vários anos antes, para cuidar de uma nova concessionária da Ford, fizera uma sessão de estudo bíblico toda manhã. Como a maioria dos membros da igreja que conhecíamos, ele estava preocupado com a falta de orações nas escolas e nos estabelecimentos e acreditava que o país, apesar de chefiado por um presidente protestante, tentava constantemente arrancar toda a glória original de Cristo da vida diária de seus cidadãos, especialmente quando o assunto eram coisas como o Juramento à Bandeira e as festas de Natal, que, dizia-se sempre, estavam sendo atacados. Como minha mãe, meu pai havia crescido na igreja, e, como só havia uma no lugar em que os dois moraram a maior parte da vida, minha família sempre fora Batista Missionária, preocupada em levar fiéis ao Senhor. Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles. Meu pai entendia esse versículo de maneira literal, como a maioria dos Batistas Missionários, e, como todos os evangélicos, acreditava que quanto mais almas pudesse reunir em nome de Jesus, mais almas seriam salvas do fogo eterno. Duas almas era o mínimo, três era um número adequado, mas nove, dez ou mais era ainda melhor.

— Quero levar pelo menos cem almas ao Senhor antes de morrer — repetia ele para mim quase todos os dias.

Trabalhar para ele como vendedor de carros todo verão me mantinha a uma distância respeitável da salvação de almas. Aos dezoito, eu ainda não havia feito nenhuma tarefa ministerial de verdade. Apesar de nunca ter dito isso abertamente, todo verão meu pai exigia que eu fizesse o tipo de trabalho manual que ajudaria a me tornar um sulista viril normal, coisas que me fariam esquecer minhas qualidades literárias e femininas. Meus companheiros de trabalho eram latas de spray selante, ceras para polimento, reparadores de arranhões e um gel para polir pneus. Líquidos cor-de-rosa, roxos e amarelos que eu mal conhecia, a não ser pelo cheiro e pela sensação quando penetram minha pele bronzeada. Ao fim do dia, também os reconhecia na espuma que se formava e escorria pelo ralo do chuveiro. Quando meu pai me perguntava para quantos clientes eu havia testemunhado no estacionamento, eu conseguia sorrir e dizer:

— Não acho que o lava-jato tenha alma, apesar de fazer aqueles zumbidos doidos.

E meu pai conseguia responder, antes de virar a cara para mim:

— A gente tem que consertar aquela coisa.

Mas, quando o assunto era o estudo bíblico matinal, piadas não me salvavam. Eu tinha que me sair bem ou decepcionaria meu pai diante de outros homens. Como era visto como uma extensão dele — Você vai ficar igualzinho ao seu pai; mal posso esperar para ver que talento o Senhor deu a você —, todos esperavam que meus lábios enunciassem grandes verdades. Vinho dos jarros de Canaã: o que estava vazio seria repentinamente restaurado, a festa de casamento continuaria, os discípulos passando a crer em milagres.

Na hora do almoço no Timberline, um dos únicos restaurantes da cidade composto por um salão enorme de paredes de madeira cobertas por velhos serrotes e lâminas enferrujadas três vezes maiores que minha cabeça, minha mãe se juntava a nós e meu pai ficava observando os outros clientes. Então suspirava, um som ferido que deixava sua voz baixa ao dizer:

— Quantas dessas almas vão direto para Inferno? — perguntava.

E, antes de sairmos do restaurante, ele dava seu show, pagando o almoço de todos. Levantava-se de nossa mesa, tirava a garçonete do seu trajeto automático pelo mar de rostos manchados de gordura e sussurrava o pedido na orelha dela. Enquanto os clientes passavam por nós, minha mãe e eu ficávamos parados perto da entrada, esperando que ele terminasse de pagar. Às vezes um deles ia até meu pai e reclamava da caridade. Então meu pai dizia algo como:

— O Senhor me abençoou. Ele também vai abençoar você se deixá-Lo entrar em seu coração.

Na maioria das vezes, os clientes permaneciam à mesa, deixando o cheiro de fígado de galinha frito impregnar suas calças, camisetas e folículos, alheios até a hora da conta, quando então encaravam a garçonete com olhos estreitos, como se de algum modo ela pudesse ser responsável por sua vergonha. Ninguém naquela pequena cidade do Sul gostava de sentir que devia algo e ninguém sabia disso melhor do que meu pai.

* * *

Sacudi o batente da porta do escritório do meu pai até quase desprendê-lo, ouvindo o Irmão Nielson e os outros estabelecerem um ritmo regular de conversa. Muitos dos funcionários da concessionária frequentavam nossa igreja, alguns mais devotos, outros talvez exagerando sua fé por causa do meu pai. No entanto, todos eram meus Irmãos, um nome dado pelos Batistas Missionários a quaisquer seguidores de Cristo. Irmãos e Irmãs a serviço do mesmo Pai, em nome do Filho. De onde eu estava não era possível entender o que diziam, mas era possível sentir o discurso animado quase como uma dor, cada sílaba um zumbido alto, um bater de asas apressado.

— Teve outro terremoto hoje de manhã — disse meu pai. — Vocês estão prontos para o Arrebatamento?

Eu podia ouvi-lo digitar no computador atrás de mim, uma tecla de cada vez, acrescentando movimentos de seu metrônomo interno ao tique-taque do relógio cromado e polido sobre a mesa. Pouco antes, ele havia trocado a conexão telefônica de 56k da concessionária por uma a cabo de alta velocidade e, toda manhã, lia voando as manchetes do Yahoo! à procura de possíveis evidências do Armagedom. Um terremoto que havia matado centenas em algum lugar da cordilheira de Indocuche. Um cerco à Basílica da Natividade. Os Estados Unidos invadindo o Afeganistão. Tudo isso estava relacionado às previsões descritas nos sonhos de São João, no Livro do Apocalipse. Uma lógica simples guiava essas buscas: se todas as palavras da Bíblia tivessem que ser entendidas de maneira literal, então as pragas e incêndios do testemunho de São João com certeza eram as pragas e incêndios das notícias atuais. A única coisa pela qual podíamos torcer naquele Fim dos Tempos era para que o país anunciasse sua fidelidade a Jesus antes de o Arrebatamento começar. Que alguns de seus erros fossem corrigidos, que continuássemos a eleger fortes republicanos renascidos para a presidência.

— Estou pronto — falei, virando-me para ele.

Eu imaginei o terremoto que se aproximava, os carrinhos de metal alinhados nas prateleiras do escritório caindo no chão, suas portinhas minúsculas rangendo, as dobradiças rachando. Para alguém que havia montado quatorze carros sozinho, para um homem que se vangloriava de ter vencido uma competição nacional de montagem de carros em Evanville, Indiana, com seu Ford 1934 verde-água, meu pai estava pronto — até ansioso — para ver todo o seu trabalho ser destruído no instante em que as trombetas soassem. Ele não fazia nada pela metade. Quando decidira montar carros, não se contentou em montar apenas um, mas quatorze. Quando decidira trabalhar em tempo integral para Deus, fizera isso da única maneira que sabia que não colocaria em risco o bem-estar material de sua família: transformando seu negócio no negócio de Deus. Seu ídolo era Billy Graham, um evangelista capaz de manejar tão bem a esfera pública que havia conseguido moldar todo o clima político do país sussurrando palavras para nada menos que onze presidentes. Antes de meu pai se tornar pastor da própria igreja, sua pequena influência espelhava a de Graham em termos de intensidade. Membros da polícia da nossa cidade, que comprava do meu pai seus Crown Victoria brancos e quadrados, nunca saíam da concessionária sem uma bronca: ao colocar os pés para fora, deveriam pôr ordem na cidade — e, sobretudo, ajudar a espalhar o Evangelho para os não crentes.

— Temos que ser vigilantes — disse meu pai sobre o monitor do computador. — Pois falsos Cristos e falsos profetas surgirão e eles nos mostrarão grandes sinais e maravilhas.

Ele clicou no mouse várias vezes com a mão grande demais, a mão que conseguia desmontar um carburador, mas cujas extremidades de pele grossa e queimada o impediam de mexer em um computador com facilidade.

* * *

Vários anos antes de eu nascer, meu pai havia parado no acostamento da rodovia que passava pela nossa cidade para ajudar um homem cujo carro quebrara. Quando meu pai se arrastara para baixo do motor a fim de investigar o problema, o estranho virara a chave, incendiando a gasolina que vazava do carburador. Essa ignição espalhara queimaduras de terceiro grau pelo rosto e pelas mãos do meu pai. Suas terminações nervosas ficaram tão destruídas que meu pai se tornara capaz de deixar uma das mãos sobre a chama de uma vela por trinta segundos ou mais, até que minha mãe ou eu berrássemos para que parasse. Quando eu era bebê, sofrendo com as cólicas, ele me acalmava sentando comigo em uma cadeira de balanço e aproximando uma vela do meu rosto. Ele pressionava a palma da mão contra o topo do candelabro até o fogo quase apagar e repetia o gesto até eu me cansar e deixar a cabeça pender contra seu peito. O tempo todo ele me acalentava com uma das muitas canções de ninar que havia inventado.

Ele é um grande amigo meu

Não há amigo melhor do que eu

Ele é um cara legal

É um velho amigo

É um grande amigo meu

Em alguns momentos de sua vida, meu pai deve ter se perguntado por que o estranho havia girado a chave. Ele deve ter se perguntado por que qualquer pessoa faria tal coisa.

— Não importa o que você faça — dissera meu pai, dando a volta no carro do estranho para examinar o motor —, não gire a chave.

Deve ter havido algum problema de comunicação, algo naquele estranho que dissesse que ele podia dar a partida no exato instante em que o Bom Samaritano se arrastara para baixo de seu para-lama. Qualquer que tenha sido a motivação, o estranho não hesitou.

Minha mãe mais tarde me contou que, quando meu pai aparecera à porta, as roupas cobertas de cinzas, o rosto parcialmente queimado e todo o corpo trêmulo, a primeira reação dela tinha sido pedir que ele ficasse do lado de fora. Ela estava aspirando o carpete. A princípio pensara que ele estava simplesmente coberto de sujeira.

— Saia daqui — dissera ela. — Espere até eu terminar de aspirar.

Horas depois, parada ao lado da cama de hospital de meu pai, esperando que a mão dele ficasse boa o bastante para que pudesse ao menos tocar em alguma parte dele, ela sentira pena e medo, não amor. Pena por um homem que arriscava a vida por estranhos sem pensar duas vezes; medo por ter vivido com um homem que um dia fora bonito, um ex-zagueiro de futebol americano de vinte e poucos anos com o furo no queixo e as covinhas de John Travolta em Os embalos de sábado à noite, mas que agora se transformara — no quê? Ninguém sabia dizer exatamente. Os curativos seriam retirados semanas depois e só então os médicos saberiam se os enxertos de pele formariam algo remotamente parecido com o antigo rosto dele.

* * *

— São terremotos demais para acompanhar — disse meu pai.

Ele jogou o mouse em uma pilha de papéis ao seu lado e estalou todos os dedos.

— Mas não precisamos de abrigo quando usamos a Armadura de Deus.

Ele apontou para a Bíblia em minhas mãos.

— Realmente — respondi.

Imaginei gafanhotos de armadura descendo das nuvens em espirais. Multidões de não crentes com os corpos tomados por escaravelhos de casca prateada. E, em algum lugar da minha consciência, o início de uma ideia que havia começado a me afligir havia pouco: eu podia ser um deles.

* * *

Aos dezoito anos, eu ainda não havia saído do armário e mantinha um compromisso pouco animado com minha namorada, Chloe, cuja predileção por beijos de língua fazia meu estômago revirar. Uma semana antes, sentados em meu carro diante da casa dela, Chloe havia posto a mão em minha perna. Eu me afastara dela e dissera:

— Está muito frio aqui.

Então aumentara o aquecimento, voltando para o banco do carona, desejando que houvesse um botão de ejeção. Naquele momento, vivi minha própria fantasia de Armagedom: o botão afundado de um rádio, um insurgente encapuzado se afastando calmamente dos destroços que voavam, pedaços da minha camisa de flanela sendo lançados no ar por asas em chamas, um policial de pescoço grosso vasculhando os restos queimados da explosão atrás do elástico de cabelo roxo de Chloe.

— Além disso — falei, pensando que aquele momento talvez levasse a mais intimidade do que já havíamos permitido —, a gente tem que esperar até se casar.

— É verdade — respondeu ela, puxando a mão de volta.

Como já estávamos juntos havia um ano e meio, a congregação esperava que nos casássemos antes de sermos transformados pelos muitos anos de faculdade que viriam. No início daquele verão, tínhamos viajado para a Flórida com minha mãe e minha tia. Quando estávamos saindo, a mãe de Chloe havia se inclinado à janela do motorista para fingir sussurrar na orelha da minha mãe.

— Você sabe que tudo vai mudar depois disso, não sabe? — perguntara ela. — Todos vocês no mesmo quarto de hotel. Tu-do.

Mas nada havia mudado. Chloe e eu havíamos fugido à noite com a caixa de vinho da minha tia para nos sentar ao lado da piscina iluminada e observar as ondulações da água baterem na cobertura de plástico, uma maré raivosa pulsando em algum lugar da escuridão à frente. Eu havia começado a pensar que não precisávamos ser nada além de amigos. Chloe me fizera sentir completo de um modo que ninguém mais havia feito. Ela fazia com que fosse divertido caminhar pelos corredores da escola, ver os olhares de aprovação no rosto das pessoas. Eu via nos olhos dela um amor verdadeiro, que talvez um dia pudesse retribuir. Quando nos conhecemos na igreja, o sorriso dela havia sido tão genuíno que eu decidira chamá-la para sair já no fim do culto e rapidamente estabelecemos uma rotina feliz. Assistir a filmes, ouvir música pop, jogar videogames, ajudar o outro a terminar o dever de casa. Parecia que eu não tinha nada a confessar até aquele momento íntimo no carro. De repente, havia uma nova pressão sobre nós.

* * *

Meu pai e eu saímos do escritório para nos juntar aos outros homens aos pés do sofá e nos ajoelhamos no piso frio. Acima de nós havia uma placa que dizia: PALAVRÕES NÃO SERÃO TOLERADOS — ESTE ESTABELECIMENTO PERTENCE AO SENHOR.

O homem à minha esquerda, o Irmão Hank, fechou os olhos com força, até leve ondas brancas aparecerem acima de suas bochechas vermelhas. Principal vendedor da loja de meu pai, o Irmão Hank sabia adaptar seu discurso para qualquer ocasião.

— Meu Senhor — começou ele —, dê a este menino força para passar sua mensagem hoje.

Ele pôs um braço pesado sobre meus ombros e me puxou para perto de suas costelas. Senti o cheiro forte de mentol e, abaixo disso, o aroma terroso da fazenda dele, um lugar que eu tinha visto apenas de passagem, em uma das minhas longas caminhadas pelas trilhas florestais nos arredores da nossa casa.

O Irmão Hank continuou:

— Derrame sobre ele Sua divina graça e misericórdia.

Ele fez uma pausa, permitindo que o distante tique-taque do relógio cromado do meu pai tranquilizasse a todos. Alguns dos homens grunhiram incentivos.

— Sim, Senhor — disseram.

— Ah, sim, ah, sim, ah, sim, Senhor — disseram.

O Irmão Hank tirou a mão dos meus ombros e a deixou pairar sobre meu cabelo, como meu pai costumava fazer antes de quebrar um ovo imaginário em minha cabeça e fazer a gema de mentira escorrer por minhas bochechas.

— Que ele seja um receptáculo para a verdade. Que nenhuma falsidade jorre de Sua fonte abençoada. Amém.

— Amém! — gritaram os homens, levantando-se e estalando os joelhos.

Nos sentamos em um círculo de cadeiras em torno do sofá, com o Irmão Nielson e meu pai no meio. O Irmão Hank pegou uma pilha de Bíblias da gaveta de uma mesa próxima e as abriu como um baralho. Cada homem escolheu um volume com cuidado, examinando o livro antes de abrir a capa.

— Me diga uma coisa antes de começarmos — pediu o Irmão Nielson, tirando a própria Bíblia de trás de uma das almofadas do sofá.

O nome dele brilhava em dourado na ponta inferior da capa de couro rachada. Sua Bíblia gasta dizia uma coisa a todos nós: Eis um homem cujos dedos dobraram e desdobraram cada uma dessas páginas nos últimos vinte anos. Eis um homem que chorou em silêncio sobre a lombada aberta, permitindo que suas lágrimas molhassem e enrugassem as letras vermelhas do nosso Salvador.

— Eu estava falando com o pessoal — continuou o Irmão Nielson. — e quero saber uma coisa, garoto. Qual é a sua opinião sobre a questão do Oriente Médio? O que você acha da decisão do nosso presidente?

Fiquei paralisado. A existência de Chloe havia me protegido de perguntas diretas demais sobre minha sexualidade, mas havia certas opiniões que me tornariam suspeito de qualquer modo. Eu ficava nervoso toda vez que era convidado a dar uma opinião a respeito de qualquer coisa que levasse a um possível julgamento. Ser considerado frouxo era uma coisa; ser considerado frouxo e simpatizante da causa árabe era outra totalmente diferente. Ser frouxo e simpatizante da causa árabe abriria caminho para que outras pessoas finalmente detectassem a atração que eu sentia por homens. E, quando descobrissem esse segredo, nada os impediria de ver cada detalhe da minha personalidade, cada opinião minha apenas como sintomas da minha homossexualidade. Eu podia me gabar por higienizar, lavar e polir mais carros do que qualquer outro funcionário do meu pai; podia apontar para um garoto do ensino médio e rir de sua calça apertada e do cabelo bem penteado; mas depois que suspeitassem que eu sentia certos impulsos ou que pensava certas coisas, eu deixaria de ser homem aos olhos deles, aos olhos do meu pai.

— E então, garoto? — perguntou o Irmão Nielson.

Ele se inclinou para a frente e abriu um sorriso discreto. Erguer as costas do sofá de couro parecia exigir toda a força dele.

— O gato comeu sua língua?

Eu havia preparado um estudo sobre Jó, a pessoa mais azarada dentre todas as pessoas sem sorte do Antigo Testamento. Achei que, se seguisse o roteiro, podia evitar o escrutínio, a sensação das paredes de vidro do showroom voltando sua luz amarelada de microscópio para minha crença frouxa, meus maneirismos suspeitos. Agora eu não sabia o que dizer nem fazer.

Tossi no punho fechado e olhei para minha Bíblia. Ignorei o olhar fixo do Irmão Nielson.

— A lição de Jó é que nunca sabemos quais são as intenções de Deus para o mundo — falei. — Por que coisas ruins acontecem? Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?

Folheei a Bíblia até encontrar a passagem, tentando evitar que minhas mãos tremessem. Senti o calor dos olhares do Irmão Nielson e do meu pai, mas não olhei para cima. Virei as páginas para a frente e para trás, esperando que meu fluxo de pensamento retomasse o curso.

— Continue, garoto — disse o Irmão Nielson. — Deixe o Espírito Santo agir através de você.

Encarei as palavras até elas se tornarem rabiscos sem sentido, até boiarem nas páginas. As frases simples e declarativas que eu havia preparado na noite anterior se recusavam a se juntar às lógicas gastas que a igreja havia incutido em mim três vezes por semana desde o meu primeiro aniversário.

— Jó era um homem bom — falei. — Ele não merecia o que aconteceu. Mas os amigos dele não ouviram. Eles não...

O que eu tentava dizer parecia impossível e complicado demais para ser colocado em palavras. Quando tudo deu errado na vida de Jó, quando ele perdeu a mulher, os dois filhos e todos os animais em uma aposta entre Deus e o Demônio, seus amigos só conseguiam perguntar o que ele havia feito de errado, por que merecia a punição de Deus. Para eles, esta parecia ser a única explicação: coisas ruins acontecem com pessoas ruins. Mas o que acontece quando coisas boas acontecem com pessoas ruins e vice-versa?

Olhei para a entrada do showroom a tempo de ver Chloe estacionar. Seu cabelo comprido estava preso em um rabo de cavalo, o sorriso entrecortado por um aparelho que eu havia usado várias vezes como desculpa para interromper nossos beijos de língua. Apesar de mulheres quase nunca participarem do estudo bíblico junto com os homens, Chloe era meio rebelde quando o assunto era a separação de papéis de gênero dentro da igreja e acreditava que as mulheres tinham tanto direito de serem líderes evangélicas quanto os homens, apesar de ter confessado isso a mim em segredo. A maioria das mulheres da minha congregação, inclusive minha mãe, acreditava que a Bíblia havia nomeado claramente os homens líderes da igreja, apesar de alguns membros estarem começando a questionar essa suposição. Naquele dia, Chloe ficou do lado de fora, no carro, procurando em mim sinais do que meu pai e aqueles homens esperavam que eu tivesse: a confiança de um futuro líder da igreja. A cadeia patriarcal seguiria diretamente do Irmão Nielson para meu pai e, por fim, para mim.

Senti meu rosto ruborizar. Fechei a Bíblia com força e encarei meus pés.

— Eu não...

O piso já estava seco e nas marcas deixadas pela sola de borracha dos homens havia uma camada de pólen ultravioleta. O chão tinha que ser limpo. Do lado de fora, filas de carros precisavam ser lavadas com o lava-jato, e a água da chuva da noite passada agora formava manchas no estoque do meu pai.

— Tudo bem, filho — disse meu pai, sem tirar os olhos da Bíblia. — A gente pode fazer isso outro dia.

Minha boca estava seca, minha língua era como um peso de papel, dificultando a saída das sílabas.

— Eu perdi o fio da meada — disse, à guisa de justificativa.

Então, desviando o olhar, vi o reflexo do nosso grupo na janela traseira do Mustang. Com as imagens esticadas pelo vidro convexo, parecíamos o círculo longo e fino de uma aliança dourada, interrompido apenas pelo espaço entre a minha perna direita e o braço do sofá.

O Irmão Nielson abriu a Bíblia em outra passagem e pigarreou.

— Tudo bem — disse. — Alguns de nós não fomos feitos para a leitura das escrituras.

Ele começou a falar da glória do céu e da vida eterna.

* * *

Horas depois, sentado com meus pais e Chloe no Timberline, eu remoía as palavras do Irmão Nielson. Encarei a enorme serra radial diante da nossa mesa e a imaginei pulando do prego torto que a prendia à parede. Imaginei-a serrando a cidade ao meio. Naquela noite, sonhei com o Irmão Nielson parado no canto de uma sala de estar cortada ao meio, afastando-se aos poucos do restante da cidade, o short frouxo batendo com o vento, seu corpo quebrado e cansado tornando-o incapaz de pular o espaço que ia se expandindo, aquele homem perdido em uma deriva continental.

A verdade é que os amigos de Jó não entenderam. Nem Elifaz nem Bildade nem Zofar. Jó perdeu os animais, a mulher e as duas lindas filhas — tudo. Bastou uma aposta e tudo que ele possuía desapareceu. Só um mediador como Eliú, o mais jovem dos amigos de Jó, conseguiu entender a complexidade da perda.

Uma boa família, uma boa casa, um bom carro. Para aqueles homens, e para mim, na época, aqueles eram os elementos necessários para garantir décadas de sorte. Independentemente de vendermos carros e não animais; mesmo que nunca fôssemos ver ou entender a máquina de guerra, os tanques cortando trilhas no deserto. No fim da história, Deus daria a Jó uma mulher diferente, novos filhos, mais animais. Seja lá o que acontecesse — seja lá qual fosse o tamanho do sofrimento —, se tivéssemos fé, Deus nos devolveria tudo, enxertaria a pele de volta, moldaria novos corpos para nós a partir de nossos ossos cansados.

* * *

Assim como na noite anterior, uma tempestade se movia pelas montanhas Ozark.

— Uma frente fria vai chegar pela manhã — havia dito o homem do tempo, o sotaque do Meio-Oeste cortando as palavras antes que pudessem ganhar o ritmo arrastado do Sul. — Vocês quase não vão sentir — continuara ele, sorrindo, seus olhos castanhos brilhando sob as luzes do estúdio.

Eu estava deitado na cama, relendo a parábola de Jó na esperança de encontrar uma explicação simples para a escritura. Tentei silenciar a parte crítica do meu cérebro, a que me fizera gaguejar durante o estudo bíblico daquela manhã.

Às vezes, apenas olhar para a Bíblia aberta me dava uma sensação de pertencimento. Às vezes, abrir a Bíblia e pressionar as páginas com a palma da mão, adicionando mais uma rachadura na lombada, me fazia sentir mais próximo de meu pai. Passei o polegar pelas abas recortadas, pressionei-o contra a lateral do livro até as palavras ganharem um peso que eu podia carregar e exibir como prova de devoção. Fechei a Bíblia e a coloquei na mesa de cabeceira.

Chloe me mandou uma mensagem minutos depois, a vibração do celular me tirando da semiconsciência.

— O que você está fazendo?

— Nada — escrevi, enterrando o celular de flip embaixo do travesseiro.

Queria sufocar as vibrações até pararem. Desde o momento em que havia aparecido na concessionária, Chloe não tinha parado de me perguntar como fora o estudo bíblico. Eu havia fugido da pergunta murmurando um “tudo bem” de vez em quando.

Pela ausência do ronco costumeiro, eu sabia que meu pai também estava acordado. Tive medo de que a tempestade não fosse o verdadeiro motivo para a insônia dele. Os ecos de trovões que haviam acordado tantos lares naquela noite, feito cervos correndo pelas estradas e batendo na lateral dos carros, eram menos graves que os que deviam acompanhar os temores de meu pai. Tentei ouvir as orações dele por vários minutos, imaginando que ele estava vendo outra aparição de Jesus junto à sua cama, sangrando sobre os lençóis. Meu pai afirmava ter esse tipo de visão com frequência.

Quando ele finalmente adormeceu, seus roncos soaram altos o bastante para sacudir as molduras douradas que cobriam as paredes do corredor que levava ao meu quarto. Anos antes, minha mãe tinha se mudado para o quarto de hóspedes, dizendo que precisava de um tempo longe do terremoto que era meu pai dormindo, do ranger das molas que acompanhava cada inspiração. Quando eu era pequeno, com sete ou oito anos de idade, eu acordava de pesadelos inspirados nas escrituras — espirais de fogo azul lambendo meus pés, abismo após abismo se abrindo em uma escuridão mais sentida do que propriamente vista — e seguia até o quarto do meu pai, onde me colocava ao pé da cama desejando que ele acordasse. Eu achava que ele ia me ouvir mesmo que não dissesse nada, que a corrente entre nós fluiria de forma tão livre e profunda que ele não teria escolha a não ser acordar no mesmo instante. Ficava parado ao lado do armário espelhado e observava o quarto coberto pela luz azul da TV que ele deixava ligada a noite toda, trêmulo e furioso, morrendo de medo de ter que voltar para meus pesadelos. Horas depois, eu atravessava o corredor até o quarto de minha mãe para realizar o mesmo ritual absurdo. Poucos minutos depois minha mãe sentia que eu estava parado ao seu lado e me puxava para a cama, afastando-se para que eu ficasse com a parte quente do colchão.

— Te amo — dizia ela.

— Te amo — eu murmurava, virando-me de lado, passando a mão pelos lençóis quentes até o aroma de seu creme de lavanda cobrir minha pele.

O celular se acendeu de novo sob meu travesseiro. A vibração foi ficando mais forte, mais alta, até os contornos embaçados da minha visão voltarem a ganhar foco. Encarei o estrado do beliche que eu havia mantido mesmo durante o ensino médio porque minha mãe às vezes ocupava a cama de cima no meio da noite, adormecendo com o braço fino pendurado na lateral. Imaginei a madeira quebrando, a prancha caindo com força. Por fim, depois de várias sequências de vibrações, pus a mão embaixo do travesseiro e abri o celular.

— Por que você está me ignorando? — perguntou Chloe.

— Eu só estou cansado — menti.

Sabia que ela era a pessoa que podia me tranquilizar, mas estava com medo de contar meu fracasso na concessionária e ter que revelar uma verdade que não estava pronto para admitir para ninguém: não só que eu talvez não fosse feito para o tipo de trabalho que meu pai realizava, mas que talvez não fosse feito para nenhuma obra do Senhor. Talvez, por ter certos impulsos e certos pensamentos, eu já tivesse ido parar no time errado.

— A tempestade.

Quando Chloe ficava preocupada, sua voz subia quase uma oitava. Eu queria ser o tipo de namorado naturalmente protetor, que lhe daria colo mesmo que eu parecesse precisar muito mais dela do que ela de mim.

— Vai ficar tudo bem — falei.

Quando seria o momento certo de dizer a ela o que estava acontecendo? O que eu diria? E se contasse a ela, se simplesmente dissesse a verdade, o que a impediria de me deixar por alguém mais promissor, alguém com uma bagagem menos pesada? Eu sabia que era errado supor que ela simplesmente me abandonaria. Chloe não era do tipo de pessoa que desistia de ninguém. Era uma das pessoas mais otimistas que eu conhecia. Mas eu não conseguia imaginar nenhum cenário em que ela ficasse, em que nós dois conseguíssemos seguir em frente tendo ciência dos meus desvios. Contar a verdade a ela acabaria com qualquer possibilidade frágil de ter uma vida normal. Mas se eu conseguisse sair daquela situação sozinho, se apenas tivesse tempo suficiente, talvez conseguisse preservar nossa inocência. Se tudo desse certo no fim, talvez eu pudesse conviver com minhas falhas, e então meus desejos secretos pareceriam apenas mentiras em que o Diabo tentara me fazer acreditar. Eu teria a satisfação de saber que nunca dera ouvido a elas, que eu nunca as havia expressado de maneira clara, que tinha escolhido a versão verdadeira de nossa vida juntos. Nada disso me pareceu egoísmo na época.

Estávamos chegando à parte silenciosa da conversa. A parte em que eu sentia raiva e culpa, até que o tédio finalmente sobrepujasse tudo. Mas, sob ele, havia a sensação de que Deus queria que ficássemos juntos. Como poderia ser diferente? Como nossa igreja poderia estar errada? Os sentimentos que eu não conseguia ter por ela deviam ser meros efeitos colaterais de nossa imaturidade. Nós nos acostumaríamos àquilo: um ao outro, a Deus. Então toda noite, por horas, esperávamos daquela maneira: Chloe de um lado da linha lendo um livro ou assistindo TV, eu do outro jogando videogame, os dois em silêncio, esperando que o próximo bloco de conversa incômoda chegasse.

Eu me levantei, joguei os lençóis para longe e me sentei de pernas cruzadas no meio do quarto, os joelhos bronzeados ardendo, o celular apoiado no pescoço. Ainda sentia na pele o aroma artificial de limão dos produtos de limpeza da concessionária. Liguei a TV, peguei o controle do Playstation que havia deixado no chão e apertei o start. O menu de pausa se dividiu em três e desapareceu, revelando a imagem de um avatar masculino alto, de cabelo preto espetado, parado no meio de uma floresta enorme. Ele usava uma jaqueta de couro forrada de pele e uma longa corrente pendurada no cinto preto grosso. Sua espada era um objeto de fascínio para mim — não porque fosse parte arma branca, parte arma de fogo, mas por causa dos ornamentos prateados espalhafatosos que corriam pela bainha. Lembravam a coleção de pulseiras Brighton de minha mãe, a maneira como brilhavam sob qualquer luz e repousavam sua beleza nos pulsos finos dela.

O objetivo do jogo era viajar de cidade em cidade em busca de itens especiais e aventuras. A missão era perigosa: havia poucos carros naquele mundo, a maior parte dos deslocamentos era feita a pé e, a qualquer momento, a tela poderia se transformar em um vórtex, as cores da floresta misturando-se até me deixar firmemente plantado diante de um inimigo. Em geral era alguma quimera, um ser que facilmente poderia ter saído de um bestiário do século XVIII, cavalos com cabeça de leão, uma bola gosmenta e verde com braços em forma de galhos e presas enormes. Uma vitória na batalha me dava novos acessórios brilhantes, objetos que, depois de listados e inseridos de forma organizada no menu principal, traziam uma sensação de dever cumprido.

Era como pôr ordem no caos. O rosto de Deus passando por águas profundas. No livro de Jó, é o Criador matando o Leviatã em fuga.

Certos dias eu passava horas encarando as salas virtuais de um palácio barroco, imóvel enquanto o avatar coçava a cabeça e assumia o tipo de pose em contrapposto que os homens da concessionária considerariam sexualmente suspeita. Eu achava que me mover quebraria o feitiço, me faria voltar a um mundo em que eu era velho demais para correr para a cama da minha mãe, com medo de que o Inferno fosse horrível.

Quando cheguei à puberdade e comecei a fantasiar mais com homens, fiquei tão hipnotizado pelo mundo dos videogames que mal me levantava do chão nos finais de semana. Nas poucas ocasiões em que não podia mais ignorar minhas necessidades, eu ficava de pé, irritado, para soltar fluxos de urina no carpete ao pé da cama. Era impossível saber se minha mãe entrava em meu quarto enquanto eu estava na escola, mas queria que ela fizesse isso. Queria que ela interpretasse os hieróglifos molhados que escrevia para ela — às vezes meu nome; com mais frequência o desenho de um oito ou, dependendo do ângulo, o símbolo do infinito —, ainda que eu mesmo não os entendesse. Sentindo-me culpado ao chegar da escola, eu entrava escondido no banheiro, roubava alguns produtos de limpeza e limpava o carpete até o quarto deixar de cheirar a urina. E, apesar de ter parado de fazer aquilo depois dos dezesseis, eu ainda tinha vontade de violar nossa casa de alguma maneira. Às vezes imaginava o lugar todo em chamas, nossa pequena família abraçada do lado de fora enquanto as paredes caíam em câmera lenta. Não que eu achasse que a violência resolveria nossos problemas, mas a necessidade de contar aos meus pais alguma coisa — qualquer coisa — me dominava e, na época, eu não conhecia um jeito apropriado de fazer isso.

Fiz meu avatar avançar pela trilha da floresta, os passos pesados como sapatos de madeira lançados de uma grande altura. As árvores o cercaram e, a distância, a entrada de uma caverna surgiu. Eu o levei até lá e me inclinei para a frente, esquecendo o celular preso ao meu pescoço até ouvir o suspiro de Chloe.

— A gente tem que fazer alguma coisa — disse ela. — Estou preocupada.

— A tempestade vai passar logo — falei.

— Não — respondeu ela. — Em relação a nós. Temos que fazer uma coisa drástica.

Ainda não havíamos conversado sobre como continuaríamos o namoro quando fôssemos para a faculdade no fim do verão, como realizaríamos o milagre de manter um bom relacionamento a distância. Tínhamos sido aceitos em faculdades diferentes e seguiríamos em direções opostas, apesar de no mesmo estado. Esse era outro dos muitos tópicos que eu havia tentado esquecer. Chloe estava certa. Se a ideia era manter aquele relacionamento, tínhamos que fazer algo drástico. Mas nenhum dos dois sabia o quê. Fazer aquilo? Não fazer aquilo? Casar? Terminar? As próprias perguntas já estavam nos deixando loucos. Debatemos a questão da virgindade. Que virgindade? A minha? A dela? E se íamos fazer aquilo, quando seria?

— Seja como for, o tempo não é real. Ele só existe na Terra. No Céu ele é ausente, então tecnicamente já estamos casados. Tecnicamente já estamos fazendo aquilo.

— Se tecnicamente a gente sempre fez aquilo, então para que fazer?

— Porque ainda temos livre-arbítrio. Acho que Deus está nos dizendo para agir agora para demonstrar nosso amor por Ele.

No início do nosso relacionamento, Chloe ficava sentada comigo enquanto eu jogava videogame, apontando animadamente para toda nova criatura que pulava na tela. Quando nos conhecemos na igreja alguns anos antes, eu havia sentido algo que raramente experimentava fora do mundo virtual: uma passagem de nível, uma sensação de merecimento, de todo um grupo de pessoas sorrindo e aprovando. Nos recreios da escola, eu não tinha mais que me agachar sobre a privada para me esconder de mesas de refeitório cheias demais. Agíamos com muita naturalidade um com o outro quando explorávamos a floresta atrás do quintal dela com seu irmão mais novo, Brandon, que ainda gostava de fingir que estava em um safári. Passeávamos em um dos carros novos do meu pai, inventando caminhos à medida que avançávamos, perguntando a Brandon, no banco de trás, se devíamos virar para a esquerda, direita ou seguir reto.

— Vamos para Memphis — dizia ele, confiante como um playboy famoso, fingindo fumar um cigarro de chocolate. — Vamos ver a pirâmide de vidro, pessoal.

Com Brandon entre nós, tudo ficava menos confuso. Tínhamos algo em que podíamos nos concentrar além de nós mesmos.

A tempestade ficava mais barulhenta, os trovões, mais próximos.

— Está bem — falei, o celular quente contra minha orelha. — Vamos dar um jeito.

Outro silêncio se fez entre nós. Fiquei de pé, andei até a janela do quarto e ergui uma das persianas de alumínio com o indicador. Postes de luz amarela acalentavam nuvens baixas. Pinheiros balançavam com o vento, as folhas se espalhando pela entrada da casa. Faróis piscaram por um segundo em uma rodovia distante, depois desapareceram sob uma chuva forte que passou quase tão rápido quanto chegou. Não ouvi mais trovões.

Ao contrário dos cenários apocalípticos do Irmão Nielson e de meu pai, eu temia que o Armagedom viesse silenciosamente como a estática de um rádio. Ruído branco: depois de um trovão, o mundo seria repentinamente silenciado pelo barulho de um temporal. Mais assustadora do que meus pesadelos era a ideia de ser deixado para trás por minha família adormecida, seus corpos transformados em cascas ocas. Eu podia chegar em casa da escola um dia e encontrar apenas uma panela borbulhando sobre o fogão, o rádio tagarelando apesar da ausência de meus pais. Depois que tinham decidido passar a televisão antiga para o meu quarto, eu costumava ficar acordado, assistindo ao jornal da meia-noite, imaginando que ainda havia outras pessoas acordadas, outras pessoas vivendo naquele momento. Então pensava que Deus não deixaria tanta gente para trás e me sentia seguro por alguns minutos. Chloe me passava essa sensação de segurança o tempo todo, pelo menos até ela pousar a mão na minha perna no carro. Até aquele momento, sentira que Deus talvez pudesse me dar um passe livre, já que estava tentando ser o homem que meu pai veria como semelhante. Agora, com a intimidade crescente com Chloe, achei que precisaria agir. Sem hesitar, sem gaguejar, sem dar margem a interpretações diferentes. Talvez um pecado fosse um bom substituto para um pecado ainda maior, a homossexualidade. Então pelo menos teríamos a chance de viver nossas vidas abençoadas juntos.

— Ainda está aí? — perguntou Chloe.

— Estou.

Marcamos de assistir a um filme na casa dela, tarde da noite. Parecia haver algo obscuro naquele acerto, algo tácito, mas que os dois deviam saber. Quando chegasse a hora de dormir, imaginei que Chloe poderia dizer que deveríamos preparar uma grande mesa de café na manhã seguinte e insistir para que eu dormisse no porão, perto da cama de Brandon. A mãe dela talvez olhasse para nós com alguma desconfiança, mas por fim cederia. Afinal, já havíamos passado a noite no mesmo quarto de hotel na Flórida. Seríamos silenciosos. Estaríamos protegidos. Eu podia comprar uma camisinha de 25 centavos em uma máquina de posto de gasolina em uma cidade distante, dizer aos meus pais que precisava dar um longo passeio de carro para clarear as ideias, conversar com Deus. Então, se tudo estivesse certo, eu entraria escondido no quarto dela e veria o que ia acontecer entre nós.

Ao pensar em sexo, eu nunca havia me perguntado quanto tempo levaria. Nunca havia pensado no gosto que teria um café da manhã pós-sexo nem que filme seria mais apropriado para as preliminares. Sobretudo, eu nunca havia me perguntado se o sexo — não simplesmente beijar, ficar abraçado, ou se esfregar, mas sexo de verdade, ir direto ao ato e pular todos os outros passos — poderia finalmente me tornar se não heterossexual, pelo menos alguém capaz de fingir heterossexualidade. Nunca havia suposto que ia querer chegar até aquele ponto, que quebraria uma das principais regras da nossa igreja. Ao fantasiar com homens, esses eram pensamentos que eu sempre afastava antes de me entregar ao devaneio. Sempre imaginava apenas um corpo, agindo sozinho, apresentando-se exclusivamente para mim. Como seria fazer aquilo com outra pessoa, alguém que eu teria que encarar pelo resto da vida, os dois convivendo com a noção do que o outro fazia em seus momentos mais desesperadores? Daríamos um jeito de acertar as coisas com Deus? E se não funcionasse? E se a transgressão levasse ao fracasso e eu acabasse sozinho, apodrecendo em meu pecado?

— Está chovendo aí agora? — perguntou Chloe, bocejando. — Está chovendo aqui.

— Não — menti.

Eu ouvia as gotas batendo nas telhas. Eu desejava manter nossas vidas separadas. Então fiquei com medo do que aconteceria se eu fizesse isso.

— Quer dizer, sim.

— Como as duas coisas podem estar acontecendo ao mesmo tempo? — disse ela.

— Não sei. Só estão.

Sentei-me de novo no carpete e apertei o start no controle.

— As duas coisas não estão acontecendo ao mesmo tempo. Não sei por que disse que estavam.

A caverna agora estava no caminho do meu avatar. Não seria possível desviar. O que quer que estivesse escondido ali dentro provavelmente valeria a pena.

* * *

Eram os tesouros de minha mãe, seus colares prateados e anéis pesados, a luz de seu simbolismo, o modo como muitos haviam sido transmitidos por antepassadas maternas, o modo como podiam construir um lar e oferecer um histórico familiar com mais de um enredo possível. Era a complexidade daqueles símbolos que eu desejava toda vez que fazia meu avatar do Playstation abrir outro baú do tesouro, ir cada vez mais fundo na caverna cheia de estalactites trêmulas.

Quando eu tinha nove anos, aqueles tesouros haviam adquirido uma concretude que eu nunca conseguira tirar da cabeça. Minha família e eu estávamos em um píer que logo seria interditado. Estávamos de férias na Flórida. O píer balançava sempre que a maré batia contra seus pilares frágeis. Um grunhido soava quando a água entrava em contato com as juntas enferrujadas. Meu pai bagunçou meu cabelo. Joguei uma garrafa de Coca-Cola na água e, dentro dela, havia uma mensagem.

Caro pirata,

Tudo bem? É um prazer, apesar de não saber quem você é.

Gostaria de conhecer você, então me escreva de volta. Aliás, se puder,

me mande um tesouro também.

Seu amigo Garrard

Quando chegamos em casa, exaustos após uma viagem de dez horas, encontramos um pedaço amarelado de papel preso com fita à porta da frente, um mapa do nosso jardim com um X gigante, onde, segundo o bilhete, um pirata chamado Lonzo havia escondido seu tesouro. Minha mãe fingiu estar surpresa, pressionando as bochechas com a ponta dos dedos e deixando dez marcas vermelhas no rosto após baixar os braços.

— Isso é incrível — disse ela. — Isso é realmente incrível.

Meu pai me ajudou a carregar uma pá da garagem até o ponto que Lonzo havia marcado no mapa. O X estava pintado em tinta spray prateada na grama. Juntos, pressionamos os tênis de cada lado da pá e escavamos a argila compacta. A cerca de um metro de profundidade, achamos uma caixa repleta de joias falsas, mas também de coisas verdadeiras que, como descobriria mais tarde, pertenciam a minha avó, coisas que ela não usava mais. Ela e meu avô haviam organizado tudo na noite em que minha mãe ligara para contar a eles sobre a mensagem na garrafa.

Depois que lavamos a caixa com uma mangueira de jardim, guardei as joias na última gaveta da minha escrivaninha. Eu tirava as peças douradas da caixa, colocava o máximo que podia no pescoço e nos pulsos e ficava parado diante do espelho. Girando. Fiz isso muitas e muitas vezes, até meu pai me pegar de surpresa um dia e dizer que eu precisava parar, que Lonzo ficaria triste se me visse ridicularizando o tesouro dele daquela maneira.

— Quero ir morar com o Lonzo — falei. — Quero ser um pirata.

— Você provavelmente não ia gostar — respondeu meu pai. — Teria que esfregar o convés o dia inteiro e Lonzo transformaria você em um de seus escravos. Você ficaria enjoado do mar.

* * *

A frente fria da noite anterior tinha trazido fortes rajadas de vento que fizeram minha mangueira do lava-jato lançar cortinas de água no topo de outros carros, deixando marcas nos para-brisas. As gotas borbulharam e evaporaram ao entrar em contato com o metal quente. Saí da oficina, protegi os olhos e encarei a longa fila de carros que agora teria de lavar. Atrás de mim, um dos funcionários apertava o botão de um elevador hidráulico, erguendo o carro de Chloe até a altura de seus ombros para que pudesse começar a trocar o óleo. Eu ia deixar meu carro na concessionária naquela noite, levar o carro dela de volta à tarde e seguir com o planejado.

Naquela manhã, durante o estudo bíblico, o Irmão Nielson havia ficado um pouco mais no showroom, apoiando o corpo com uma das mãos na lateral do Mustang.

— Eu sigo me perguntando — disse, enquanto eu passava carregando um punhado de chaves — se um dia você vai responder a minha pergunta.

Eu não tinha certeza se ele estava me testando ou se realmente queria saber o que eu achava da questão do Oriente Médio, saber que a geração seguinte estava decidida a lutar contra o terrorismo.

— Deixe o garoto em paz — disse o Irmão Hank, pondo a cabeça para fora de um escritório próximo. — Ele ainda não tem idade para se importar com política. Só pensa em mulher.

— Em mulher, é? — respondeu o Irmão Nielson. — Não tem nada de errado com isso — acrescentou enquanto esticava as costas o máximo que podia, parecendo sentir dor. — Só não se esqueça de que existem coisas mais importantes nesse mundo.

Ele estendeu a mão em minha direção. Passei as chaves para a outra mão e peguei a dele em um cumprimento firme cuja pressão aumentava a cada segundo, tornando-se tão forte que achei que íamos quebrar os dedos. Ele me olhou bem diretamente, seus olhos repletos de um conhecimento secreto. Tive a sensação de que ele podia sentir a contaminação que havia passado para a palma de minha mão naquela manhã, antes de o sol nascer, como se a camisinha que havia comprado no posto de gasolina carregasse um aroma secreto ou um óleo impossível de ser detectado, a não ser pelos homens mais corretos.

— Estamos no Fim dos Tempos — disse ele. — Fique esperto.

* * *

Pousei a mangueira do lava-jato no concreto, catei a garrafa de limpa-vidros e algumas folhas de papel-toalha e saí para o estacionamento asfaltado para atacar a fila de para-brisas manchados. A distância, os pinheiros das colinas começavam a balançar com o vento, e fiquei grato pela corrente de ar, mesmo sabendo que ela podia aumentar as chances de uma queimadura de sol, o protetor solar FPS 40 já lavado pela água, as pontas dos dedos enrugadas.

Eu estava no quinto ou sexto para-brisa quando a mulher se aproximou de mim.

— Com licença — disse ela, o sorriso se misturando ao brilho do reflexo do sol no para-brisa. — Você pode me falar alguma coisa sobre este carro? Estou querendo comprar um o quanto antes e realmente não entendo nada a respeito.

Eu me virei para encará-la. Tinha manchas de maquiagem ao redor das pálpebras e mexia na alça preta de uma bolsa jogada em um dos ombros. O carro em questão era um Taurus padrão, um dos muitos ali disponíveis. Parecia não haver qualquer motivo para perguntar sobre aquele. Parecia não haver qualquer motivo para perguntar a mim. Pensei em uma coisa que meu pai dizia durante o estudo bíblico: de vez em quando, Deus apresenta a oportunidade perfeita. Era nosso dever como cristãos aproveitar aquele momento e guiar uma de Suas almas perdidas para a salvação.

O Camry amassado e gasto da mulher estava parado atrás dela, a porta do motorista aberta. Pensei em dizer: A senhora parece perdida. Pensei em dizer: Senhora, não existe meio-termo. Pensei em como meu pai ficaria feliz se soubesse que eu havia ministrado para minha primeira cliente. Mas não consegui. A pergunta havia sido tão direta que tentar escapar parecia uma traição.

— Não há nada de errado com um bom Taurus — falei. — É confiável. Tem uma quilometragem decente. Quase nunca quebra se você levá-lo para a revisão periódica. Mas, bom, é só um Taurus.

Ela pôs a mão em meu antebraço e sorriu outra vez.

— Você é uma graça — disse. — Não precisava me dizer a verdade.

Eu quis me lançar no peito dela e sentir seus braços envolverem meus ombros. Quis jogar as folhas de papel-toalha e o frasco de limpa-vidros no asfalto, entrar no carro dela e desaparecer nas colinas e, então, quando ela não tivesse olhando, jogar o pacote com a camisinha pela janela.

* * *

— Isso é tão estranho — disse Chloe. — Onde eles conseguiram esses efeitos sonoros esquisitos?

Assistimos a Janet Leigh entrar no chuveiro, sua panturrilha branca se contraindo. Sabíamos o que aconteceria depois, mas prendemos a respiração mesmo assim. Apesar de não precisar, Chloe havia aplicado mais base no rosto, escondendo as marcas rasas dos locais em que a acne deixara cicatrizes. Estava de cabelo solto. Nós dois tínhamos nos vestido para a ocasião. Eu usava uma camisa de botão preta e uma jaqueta leve que havia tirado só depois de entrar na casa. Chloe usava um vestido que eu nunca vira. Se achou que havia algo de estranho com nossas roupas, a mãe dela guardou para si.

Nos sentamos no sofá do porão diante da luz azulada da TV. De tempos em tempos, Brandon descia a escada sorrateiramente e se escondia atrás do sofá, pulando para nos assustar.

— Você está velho demais para isso — disse Chloe, depois que ele agarrara o braço dela justo enquanto a cortina do chuveiro se abria. — Vá arrumar o que fazer.

— É você quem tem que arrumar o que fazer — respondeu ele, jogando a cabeça para trás, imitando um tique da irmã. — Está assistindo a um filme de terror na sua grande noite romântica.

Brandon estava com seu blazer dominical. Trazia uma grande rosa na lapela, que devia ter roubado do jardim do vizinho. Ele gostava de se vestir como os personagens de seus jogos de videogame favoritos. Quando perguntamos quem ele era naquele dia, Brandon respondeu, formando uma arma com o indicador e o polegar:

— Sou James Bond em GoldenEye.

Eu estava feliz pelas interrupções ocasionais, pelo modo como a aparição repentina dele fazia Chloe inconscientemente se afastar de mim.

Cada movimento naquele sofá era uma vitória ou um fracasso. Muitas vezes os dois. Eu trocava de lado na guerra de minuto em minuto.

Brandon sacou um cigarro de chocolate do bolso e fingiu que ia colocá-lo de forma delicada nos lábios. Em vez disso, o mordeu.

— Não esqueça que você vai dormir comigo hoje — disse, fingindo me esfaquear com o restante do cigarro. — Psicose II. Bates ataca de novo.

Vimos a câmera virar para cima, partindo da pupila aberta de Leigh, a cena de Hitchcock paralisada por um segundo além, o medo insuportável naquele instante. Chloe se aproximou de mim.

— Ainda assim dá medo — explicou ela. — Mesmo com esses efeitos sonoros bobos.

* * *

Descobri o que era sexo quando tinha a idade de Brandon, em uma noite sem tempestade em que meu pai não roncava e eu tinha certeza de que estava acordado. Senti a casa relaxar e se assentar em suas juntas escondidas, então pude andar pela sala de estar escura sem medo, passando os dedos pelo tampo de vidro frio da mesa, mexendo nos junquilhos de plástico afiados em seus vasos de porcelana. Sentei-me na poltrona de couro do meu pai e liguei a TV. Como a sala de estar compartilhava da mesma conexão com a antena que o quarto dele — não com o da minha mãe —, eu podia ver a mesma coisa que ele estava assistindo naquelas horas insones, depois que já havia encerrado suas orações. Vi o chiado se transformar em uma sugestão de coxa nua, uma boca aberta se fechar sobre algo longo e duro, um batom vermelho brilhar através da estática. Ouvi o gemido baixo da mulher — muito ensaiado, muito diferente dos gemidos espirituais do meu pai. Mas a cena não durou mais de um ou dois minutos, o tempo que, imagino, meu pai levou para sentir o peso da culpa. Ainda assim, contei à minha mãe a transgressão dele no dia seguinte, já sabendo na época que, se contasse o segredo do meu pai, eu conseguiria esconder melhor meu segredo mais sombrio.

— Tenho certeza de que foi por engando — disse ela, sempre uma boa mediadora. — Por que você espionou seu pai?

Então ela se forçou a abrir um sorriso e disse:

— Vamos fazer crème brûlée hoje. Vamos usar a prataria da sua avó e tudo.

* * *

Eu estava deitado no saco de dormir no porão escuro da casa de Chloe havia cerca de uma hora. Decidi me sentar e ouvir a respiração regular de Brandon antes de tentar subir a escada. Tinha deixado a camisinha presa no elástico da calça do pijama e o plástico arranhava minha pele, queimando-a. Não tinha ideia de como ia fazer aquilo. Ia entrar escondido no quarto dela e anunciar minhas intenções? Ficar parado à porta, torcendo para que ela tomasse a iniciativa?

— Eu não estou dormindo, caso você queira saber — disse Brandon.

Eu o ouvi jogar os lençóis no chão ao lado da cama.

— O filme de vocês me tirou o sono.

— Desculpe — falei. — Achei que seria divertido. Roubo, assassinato, carros afundando em poços de piche.

— Quer saber de uma coisa?

Os pés descalços de Brandon batiam no chão de concreto enquanto vinha até mim. Consegui ver o contorno de seu cabelo lambido e seus braços finos despontando das mangas do pijama.

— Você não é igual aos outros namorados dela. É bem mais legal.

— Obrigado, eu acho.

Ele ficou parado na ponta do saco de dormir, os dedos do pé mexendo no forro de tafetá.

— Posso perguntar uma coisa?

Meus olhos se acostumaram com a escuridão. Vi que o rosto dele estava franzido e que rugas finas desciam pelo meio da testa. Ouvi passos vindo do teto do ponto diretamente abaixo do quarto de Chloe.

— Como você consegue fazer um personagem chegar ao nível cinquenta?

Brandon abriu um sorriso travesso. O que quer que tivesse planejado dizer não fora dito.

Ele se sentou na ponta do saco de dormir.

— Se importa? — perguntou, segurando o controle remoto perto o bastante para que eu pudesse ver o objeto ao qual se referia.

Ele ligou a TV e engatinhou até o Playstation para ligar o aparelho. Nós nos acomodamos em nossas posições de jogador, curvados em direção à tela. Estávamos parados no salão de um grande castelo gótico iluminado por tochas. Um tapete vermelho-escuro atravessava a sala e guardas em uniformes dourados guardavam cada porta.

Os olhos de Brandon brilharam. Ele lambeu os lábios sem perceber.

— Esta parte é difícil. Esses guardas vão vir correndo se eu me mexer.

— Confira seu inventário primeiro.

Vasculhamos as poções e nos equipamos com armas mais poderosas. Brandon obviamente não fazia ideia do que tinha em seu inventário. Usava poções demais quando não precisava. Jogava arcos fora sem antes vendê-los no mercado. Apesar de continuar pensando em Chloe no quarto acima de nós, tentei bloquear tais imagens. Já havia preparado um álibi: como sair do porão com Brandon acordado?

Depois de algumas horas de concentração intensa, ambos nos deitamos no saco de dormir.

Brandon se apoiou no cotovelo, a palma da mão segurando o queixo.

— Quer saber? — perguntou ele.

— O quê? — respondi.

— Acho que ele deve ser gay — disse, a voz falhando repentinamente na última sílaba.

Brandon tirou os olhos de mim. Tinha a respiração ofegante. Levei alguns segundos para perceber que ele estava falando do nosso avatar.

— Ah, é?

— É, eu acho mesmo — disse. — Ele usa gel demais no cabelo.

Quando olhou de volta para mim, nós dois sabíamos o que éramos.

Decidimos continuar jogando até chegar à próxima fase. Quando um nascer do sol alaranjado entrou pelas persianas e se transformou em retângulos tortos no concreto, Chloe já havia preparado o café da manhã sozinha.

— Surpresa — disse, parada no último degrau, recusando-se a tocar no chão do porão.

Ela não parecia nem um pouco surpresa. Não havia se dado ao trabalho de tirar a camisola de algodão. Tentei bloquear a visão da dor que ela sentia e mantive os olhos no saco de dormir amarrotado aos meus pés.

— O café está pronto.

* * *

Meu pai escreveu um bilhete para Deus, deixou-o na gaveta de minha escrivaninha e me disse para nunca abrir. Nunca tocar nele, só deixá-lo ali. Era a promessa formal que havia feito ao Senhor depois da explosão do carro, dobrada em um quadradinho e enfiada atrás de pilhas de lapiseiras que eu mastigava, frustrado, quando não conseguia escrever exatamente o que eu queria em meu diário.

No último verão que passei na concessionária, já com idade suficiente para deixar minha curiosidade superar a idolatria, eu li o bilhete.

Pai Celestial,

Obrigado por me salvar, literalmente, do fogo do Inferno. Fiz uma

promessa ao Senhor que pretendo manter. A partir de agora, eu e

minha casa iremos servi-Lo. Prometo educar meu filho na igreja.

Prometo ser um homem temente a Deus e trazer outras pessoas para

seu rebanho divino. Por favor, poupe meu filho de tudo que sofri e

dos meus erros. Poupe-o da confusão do mundo. Pela boca dos

meninos e das criancinhas tiraste o perfeito louvor. Que ele descanse

na verdade de Sua palavra santa.

Seu servo

* * *

— Por que você não atendeu nenhuma das minhas ligações? — perguntou Chloe.

Uma semana de silêncio havia se passado desde nossa noite fracassada. Eu estava sentado no chão do quarto, o controle do Playstation enfiado no triângulo formado por minhas pernas cruzadas, o celular apoiado no ombro.

— Não sei.

— Como assim você não sabe? Você atende ou não atende.

Depois de um minuto de silêncio, ela desligou.

Outra semana passou. Duas. Abri o celular, pensei em apertar o botão da discagem rápida com o número de Chloe, desisti.

— Não sei — disse para a tela.

Não era alívio o que eu sentia. Era mais uma espécie de medo: do desconhecido, de mim mesmo. Que tipo de pessoa eu estava me tornando?

* * *

Outra semana passou. Meus pais ficaram preocupados. Quiseram saber por que Chloe e eu não estávamos mais saindo juntos. A mãe dela não parava de ligar, as pessoas na igreja não paravam de perguntar, ninguém conseguia acreditar que pudéssemos ter terminado tão de repente e sem nenhuma explicação plausível. Fingi que estava doente no domingo para não ter que vê-la na igreja.

Outra semana. Quando não consegui mais fingir que estava doente, me ofereci para trabalhar na cabine do projetor nos fundos da igreja, longe dos olhares questionadores da congregação. Chloe às vezes estava lá, às vezes não, mas sempre tomávamos o cuidado de nunca ficar na mesma parte da igreja juntos.

Outra semana. Era quase hora de me mudar para a faculdade de artes em que eu havia sido aceito. Minha mãe e eu fomos algumas vezes ao Wal-Mart comprar o que eu precisava para o alojamento e voltamos para casa com sacos pesados, cheios de potes de plástico, pacotes de camisetas, meias e cuecas. Então, um dia, tarde da noite, meu pai recebeu um telefonema da mãe de Chloe. Ela estava histérica. Brandon havia sido pego com outro menino, um amigo dele, na cama. Experimentando. Ela não conseguira ligar para mais ninguém. Queria saber se meu pai podia ir tentar acertar as coisas com os garotos. Fiquei sentado em nossa sala de estar a maior parte da noite, tentando não tremer, ao lado da minha mãe, esperando que ele voltasse.

— Por que vocês terminaram? — perguntou ela, referindo-se à Chloe. — Vocês eram tão fofos juntos...

Não consegui responder. Não havia palavras, não havia uma explicação clara que não envolvesse uma confissão terrível. Percebi que meu silêncio repentino estava magoando minha mãe, estava magoando todos nós. Mas, em poucos meses, eu já havia conseguido estragar tudo. Não queria dizer mais nada que pudesse tornar as coisas ainda piores.

Meu pai chegou em casa por volta das quatro da manhã, os olhos vermelhos, o cabelo bagunçado. Não quis falar muito sobre o que havia acontecido, só ficou parado na cozinha balançando a cabeça. Os meninos tinham cometido um erro, disse. Ele explicara a Brandon e ao outro garoto que manter aquele comportamento pecaminoso os afastaria de Deus, os expulsaria do Reino dos Céus. Brandon cresceria e esqueceria, disse meu pai. Não soou convencido. Percebi que estava abalado com a visita, que talvez tivesse começado a desconfiar de algo sobre mim. Eu me virei, andei até meu quarto e fechei a porta.

Outra semana. Videogame todas as noites. Eu mal pensava na fase seguinte de minha vida. Mal pensava em nada — só nos artefatos de que precisava para a viagem do meu avatar pela selva. Nos poucos momentos em que não estava jogando, eu tentava abstrair o fato de que não falar com Chloe também significava que teria que parar de falar com Brandon. A única pessoa que sabia quem eu era de verdade nunca mais faria parte da minha vida. O que quer que decidíssemos fazer sobre nossos impulsos, ambos estaríamos sozinhos.

Um mês antes de ir para a faculdade, finalmente larguei o controle do Playstation. Andei até a sala de estar onde meus pais estavam sentados, um em cada ponta do sofá. Pedi que me seguissem até o banheiro para olhar o cadáver da minha vida de gamer.

— Quero que vocês vejam uma coisa — falei.

Mal sabia o que estava fazendo. Queria contar tudo a eles: por que havia terminado com Chloe, que era igual a Brandon. Queria contar a eles, mas não conhecia as palavras certas. Queria mostrar que havia algo errado, que estava tentando ignorar uma parte de mim, mas que não ia mais ignorá-la. Eu iria consertá-la.

No meio da banheira estava meu Playstation, os dois controles enrolados ao lado dele como gatos adormecidos. Meus pais ficaram parados à porta, com uma expressão de “que diabos é isso” no rosto. Meu pai passou a mão pelo cabelo preto grosso. Minha mãe cruzou os braços sobre o peito e suspirou.

Abri a cortina de plástico transparente e liguei a torneira do chuveiro. Meus pais e eu observamos a água correr pelo console e formar um redemoinho oval antes de desaparecer com um gargarejo no ralo. Imaginei a água gotejando na placa-mãe, seguindo afluentes formados pelos microchips. Deixei a água correndo por alguns segundos a mais do que o necessário, até ouvir meus pais se remexerem, incomodados, atrás de mim. Fechei a cortina de novo.

— Cansei dos jogos — falei.

O que quer que acontecesse depois daquele momento, eu enfrentaria de peito aberto.