Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Garrard Conley · Capítulo 9 de 20

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Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Quarta-feira, 9 de junho de 2004

 

Eram sete da manhã, mas o ar-condicionado já estava a toda no lounge do Hampton Inn. De acordo com a programação, eu tinha duas horas para tomar banho, me vestir, comer e ir até a AEA, mas minha mãe e eu estávamos tentando prolongar os minutos, arrastando os garfos preguiçosamente pelos ovos frios espalhados pelos pratos. Meu cabelo pingava, e as bordas da mesa de madeira envernizada machucavam meus antebraços. O mundo parecia mais difícil naquela manhã, como se, durante a noite, alguém tivesse removido da atmosfera um filme translúcido, um tom mais suave que eu dava como certo quando minha mãe e eu vínhamos a Memphis para finais de semana de compras e maratonas de filmes. A cidade então parecia viva e brilhante, parecia pulsar sob nossos pés. Depois de dois dias inteiros na Amor em Ação, a cidade já havia perdido o brilho, e as idas e vindas entre o hotel e a instituição revelavam apenas um pedaço cinzento de rodovia, o tráfego quente sob a luz do sol, as casas enormes à beira da estrada bocejando e mostrando suas línguas verdes de limo...

Certa vez eu ouvi alguém chamar a cidade de lixão e fiquei ofendido, mas naquela ocasião comecei a ver que a pessoa estava certa. Memphis era um lugar de coisas transitórias, lar da sede da FedEx, a cidade com o maior número disponível de voos noturnos do país, barcas de aço flutuando exatamente pelo meio do rio Mississippi — mas eram as coisas que se reuniam ali, as que ficavam e criavam raízes, que davam à cidade aquela sensação de abandono. Quem ficava por tempo suficiente conseguia ver como Memphis estava sempre salientando seu passado sem muitas glórias, as fotos de Elvis penduradas em várias lanchonetes, autógrafos presos nas paredes com fita adesiva, muitas sex shops prometendo as mesmas emoções que outrora agitaram a cidade em meio à energia do jazz e do blues.

— É melhor a gente ir — disse minha mãe, sem dar qualquer sinal de que queria se movimentar, as pequenas mãos ainda avermelhadas sobre a mesa.

Desdobrei as mangas, o ar-condicionado frio demais, meu cabelo molhado funcionando como um capacete gelado. Os verões ali significavam temperaturas congelantes e sufocantes, mudanças repentinas de clima que davam choques no organismo, faziam arrepios correrem pela pele.

— Está bem — falei, sem me mover.

Íamos nos atrasar caso não saíssemos logo. Apesar de ter deixado o relógio no quarto de propósito na esperança de perder a noção do tempo enquanto estivesse na AEA, vi no relógio de plástico na parede da recepção do hotel que eram vinte para as nove.

Uma mistura estranha de famílias e engravatados saiu do elevador diante da nossa mesa: ternos azul-marinho e pretos e saias-lápis justas; pijamas, moletons e pés sem meias. Leves vibrações no piso acompanhando os passos de crianças que corriam em volta dos pais sonolentos. Era estranho pensar que aquelas pessoas seguiriam com suas rotinas, tomariam o café da manhã, encarariam a face de um dia que devia parecer igual a todos os outros. A CNN tagarelava no canto da sala, um fluxo de palavras monótonas se espalhando pelo salão, parecendo conectar aquela manhã a todas as outras que a precederam, as sílabas quase indistintas entre o bater de pratos e talheres — “Qualquer esforço do Congresso de regular o interrogatório de combatentes ilegais violaria a posição de comandante em chefe dada pela Constituição ao presidente” —, as pessoas tirando os olhos de suas mesas por alguns segundos para fixar o olhar na tela.

Eu me sentia perdido em meio a tudo aquilo, à deriva. A costura diária da vida se desfizera em questão de dias, e, por isso, me parecia absurdo, mesmo na época, que a palavra “Guantánamo” escrita na parte de baixo da tela existisse, toda aquela tortura sem sentido acontecendo em algum lugar do outro lado do mundo, enquanto âncoras de olhos brilhantes debatiam sua constitucionalidade. Eu sentia ter enlouquecido. Não é dolorosamente óbvio que não devíamos estar torturando pessoas? No entanto, ao mesmo tempo, achei que podia estar errado. Eu já não havia estado errado antes? Não tinha sido, acima de tudo, essa atitude liberal e questionadora que me levara para a AEA? Se tivesse conseguido me manter na segurança da Palavra do Senhor, sem questioná-la, talvez tivesse ficado com Chloe e estivesse a caminho de uma vida normal agora.

Mas eu permitira que influências seculares me moldassem. No dia anterior, um dos conselheiros da equipe, Danny Cosby, nos pedira para analisar nossas vidas longa e dolorosamente. O objetivo era desenhar uma linha do tempo que demonstrasse nossa progressão pecaminosa até a homossexualidade. Eu havia percebido, para meu horror, que a maior parte da minha atração pelo mesmo sexo tinha se desenvolvido junto com meu amor pela literatura. Sideways Stories from Wayside School: a primeira paixonite gay. O sol é para todos: primeira busca por pornô gay na internet. O retrato de Dorian Gray: primeiro beijo gay. É claro, pensei. É claro que eles ficariam com o meu diário.

A leitura de livros seculares não era incentivada na AEA — os pacientes só podiam “ler materiais aprovados pela equipe”, dizia o manual, e estes costumavam ser apenas obras de autores cristãos fundamentalistas. No entanto, ficar apenas alguns dias sem ler já me fizera entrar em uma depressão noturna que me impedia de dormir. Durante o ensino médio, eu perdera muito tempo e energia evitando gostar demais de livros, temendo que uma narrativa atraente me transformasse em herege, me fizesse entrar correndo em um dos caminhos de vida pecaminosos que meus personagens favoritos seguiam. Meu ano na faculdade tinha sido tão libertador e a leitura fora tão incentivada que eu quase havia esquecido o que era temer que um livro fosse literalmente possuído pelo demônio — como pensara ao ler Laranja Mecânica. A linguagem elétrica de Burgess percorrera meu corpo em uma velocidade tão grande que minha pele parecia em chamas, carregada do que eu só podia descrever como poder demoníaco. Eu me perguntei se um dia teria a chance de voltar a ler livremente ou se teria que ficar na AEA por tanto tempo quanto meus conselheiros, aprendendo a viver com os efeitos colaterais do meu pecado, mantendo o resto do mundo a certa distância.

Senhor, torne-me puro, rezei, olhando para os âncoras embaçados através do copo d’água, “Guantánamo” se transformando em algo como “Gargantuesco”. Eu queria me entregar ao esquecimento junto com aquelas pessoas, ao riso, ao folhear casual de um jornal, digerir a manhã como fizera com muitas outras. Mas a linguagem da AEA já estava permanentemente assentada em meus pensamentos, e eu não tinha mais espaço para os confortos costumeiros que tendiam a aquietar minha mente e a fazer o mundo parecer um lugar normal. Na noite anterior, deitado na cama de armar de nossa suíte, a cabeça girando com as regras do manual da AEA, eu quisera mais do que tudo pegar o controle do Nintendo 64 ligado à TV e jogar algumas fases de Mario ou de qualquer outra coisa — algo que encerrasse o ciclo infinito de culpa em minha mente —, mas isso também era proibido.

* * *

O Inventário Moral (IM), outra instituição dos Alcóolicos Anônimos incorporada pela AEA, ocupou o lugar da minha rotina regular de leitura e escrita. Toda noite, eu tinha que me concentrar exclusivamente em meus pecados. Toda noite, eu tinha que achar um exemplo de comportamento pecaminoso em meu passado, escrever sobre aquilo em detalhes, compartilhar na terapia em grupo e ter fé em Deus para que ele me absolvesse.

Os IMs nos ajudavam a reconhecer nossas IFs, cujo desenvolvimento agora conseguíamos traçar claramente pelos As, Pos, $s e Ms dos genogramas criados para mapear o passado condenável de nossas famílias. Apesar de não ter revelado quase nada do que aprendia diariamente na AEA à minha mãe, o pouco da terminologia que deixara escapar já havia se mostrado demais para que ela acompanhasse. Ao correr pela rodovia enquanto eu tentava explicar aquilo tudo, minha mãe quase perdeu a saída. Tinha outra série de números e símbolos dominando sua visão periférica, exigindo sua atenção.

— Em que passo o IM está incluído? — perguntou ela, virando abruptamente para a saída.

Um pequeno shopping à esquerda, um maior à direita, a luz da manhã passando pelas folhas de uma árvore ocasional.

— IMs são usados nos Doze Passos — falei, o manual aberto no colo, o dever de casa por cima.

Reli a folha rapidamente, vi se havia escrito algo vergonhoso demais para compartilhar com o grupo. Mas, na verdade, tudo era vergonhoso. O objetivo do exercício era perceber como aquelas lembranças eram sórdidas e remodelar todas para que se encaixassem no propósito de Deus. Meu grupo faria as críticas necessárias para ajudar a transição a ser mais tranquila. Lembrava muito uma oficina de poesia que eu fizera no segundo semestre da faculdade: o modo como me sentira ao ouvir as opiniões contraditórias dos colegas, a ideia de que o objetivo final da escrita seria produzir algo que não ofendesse ninguém, não defendesse nada além dos dogmas aceitos oficialmente.

Talvez esse fosse o custo do ingresso no Reino dos Céus: remova de si todas as idiossincrasias, as opiniões fortes, os credos — não ponha nenhum deus falso à frente Dele —, torne-se uma concha facilmente moldável, um receptáculo para Deus. A Bíblia fala claramente do que é necessário. Ao comentar os mandamentos de Deus, o Livro dos Provérbios diz: Ata-os ao teu pescoço; escreve-os na tábua do teu coração. Se pudesse fazer isso, eu já teria feito: teria aberto as costelas e riscado a Palavra nas cavidades pulsantes do meu coração. Mas parecia que meus conselheiros ex-gays eram os únicos com técnica e experiência suficiente para segurar o bisturi.

Talvez parte do motivo para noites de sono tão inquietas fosse o fato de eu não ter me libertado genuinamente de todos os pecados até aquele momento. Sem o diário, os livros e os videogames, despojado de tudo e sem distrações, eu era forçado a confrontar as partes mais feias e vergonhosas de mim. Para ser tomado pelo Espírito Santo, eu precisava me esvaziar do espírito humano. Sentado no carro, com meu passado sórdido aberto no colo, eu sequer sabia se isso era possível.

— Quantas vezes você vai ter que fazer um IM? — perguntou minha mãe, as mãos agarrando o volante como se indicassem dez para as duas.

Suas mãos estavam sempre posicionadas dessa forma ao dirigir. Árvores passavam em intervalos perfeitos, fios de alta tensão mergulhavam e reapareciam, as placas na lateral da estrada tinham sempre a mesma altura e largura regulamentares e as mãos dela nunca se mexiam.

— Toda noite.

Apesar de suspeitar de que muitas das atividades da AEA eram inúteis, eu me orgulhava de estar tão familiarizado depois de apenas um dia, de ser o primeiro dos novatos a decorar todos os passos. Era um papel no qual me sentia à vontade: o de bom aluno. Também devia ser reconfortante para minha mãe me ver agindo como costumava agir no ensino médio.

— O que acontece quando você não tiver mais nada para contar?

O gemido de sua pele perfumada contra o couro do volante. Ela queria saber o que eu havia escrito, mas tinha medo demais de perguntar.

— O que acontece se você não tiver mais material para os IMs?

O objetivo dos IMs era fazer com que a pessoa percebesse que, naquele momento, havia pecado contra Deus. No caso do nosso grupo, um IM sempre explorava um momento de conduta sexual imprópria, fosse um ato físico ou uma tentação. O que minha mãe ainda não sabia era que, no Sul, os gays nunca ficavam sem material de trabalho. Ela não sabia que passar a vida toda escondendo a própria homossexualidade, que desviar os olhos sempre que via um homem bonito, que rezar de joelhos toda vez que um pensamento impuro entrava em sua cabeça ou toda vez que você agia de maneira remotamente feminina, que tudo aquilo havia gerado uma coleção de pecados que me deixavam constantemente com vontade de pedir desculpas, de me arrepender, de implorar por perdão. Eu jamais conseguiria contar o número de vezes em que havia pecado. Se quisesse, poderia escrever um IM novo toda noite pelo resto da vida.

* * *

— Somos dominados por um Deus soberano que reina sobre todos os aspectos de nossas vidas — disse Smid, citando o Fluxograma do Inventário Moral presente no manual.

A página do Fluxograma continha duas caixas de texto de borda preta, uma com a palavra “Deus” no centro, a outra, abaixo dela, com as palavras “Mundo”, “Carne” e “Diabo”, justificadas e separadas por espaços iguais. A ideia era que, como cristãos, todos estávamos sob o controle de Deus, mas, por sermos humanos, também estávamos sujeitos às tentações do Diabo, um fato que Smid citou alguns segundos depois:

— Somos afetados por um sistema de mundo pecaminoso, por nossa carne pecaminosa e pelos ataques manipuladores do Diabo.

Smid continuou lendo o fluxograma em voz alta. O IM se baseava no seguinte grupo de suposições, que eu devia engolir se quisesse ser curado.

1. Constantemente enfrentamos muitos desafios na vida. 2. Vivemos as consequências das decisões tomadas para enfrentá-

los.

3. Deus nos dá força tanto para querer mudanças em nossas vidas

quanto para agir com o objetivo de realizá-las.

4. Para cada aspecto de nossas vidas, podemos encontrar bênçãos e

enxergar a bondade de Deus por meio das escrituras.

* * *

Eu estava sentado na ponta direita do semicírculo do grupo, a cozinha às minhas costas. Ouvia alguém lavando a louça atrás de mim, um fluxo regular de ruído branco seguido pelo bater ocasional de talheres, metal contra metal, o farfalhar de um saco de lixo. J estava ao meu lado. De tempos em tempos, ele mastigava o lápis branco com a logomarca azul da igreja de sua cidade. Blá-blá-blá Batista do Calvário. Então ele interrompia a mordida com os dentes bem no meio da logo e segurava o lápis semimastigado com força no punho fechado, uma representação das crateras da lua na mão: um pedaço do mundo remoto e flutuante do qual havia se libertado em todas aquelas noites sobre as quais me contara, horas passadas no isolamento e na gravidade baixa, lendo as passagens reparadoras sem parar. O cabelo, penteado para trás com pomada, caiu em um dos lados de seu rosto, encobrindo um dos olhos. Fiquei feliz por aquele escudo entre nós. Mantive meu IM dobrado embaixo da coxa direita, temendo o momento em que teria que ficar de pé diante daquele grupo e compartilhar minha vergonha. Estava especialmente com medo de compartilhar aquela história com J, que parecia ter desenvolvido grande respeito por mim em apenas alguns dias.

— Eu acho que você entende de verdade — dissera ele em um dos nossos intervalos, esfregando o sapato no concreto brilhante. — Você entende como é difícil estar aqui. Não dá para simplesmente acreditar nas mudanças. É preciso realmente trabalhar para alcançá-las, sabe? Se você quiser que o tratamento dure, tem que permitir que a dúvida surja.

— Acho que é só isso que eu faço — eu respondera. — Duvidar.

— Muitas pessoas, quando chegam aqui, não se permitem duvidar de verdade — falara J, baixando a voz para um sussurro.

A maior parte dos membros do grupo ainda estava dentro do salão, então parecia seguro conversar. Só T ficara do lado de fora, encolhido em um banco com um pacote de biscoitos de manteiga de amendoim nas mãos, as mangas do cardigã preto ainda esticadas, apesar do calor da tarde. Não parecia disposto a abrir o pacote tão cedo, e muito menos a começar uma conversa.

— A dúvida não é incentivada aqui. As pessoas estão desesperadas demais por uma resposta. Mas parece que você só pensa nisso.

Eu gostava de ser analisado daquela maneira, como um personagem de livro, alguém com uma vida interior rica em experiências. A única terapia que fizera fora a de reorientação sexual, nas poucas sessões introdutórias das quais participara antes de ir para a AEA. A maioria dessas sessões, no entanto, havia sido conduzida levando em conta o que o terapeuta já sabia que havia de errado comigo, um processo que para mim era o contrário de ler um livro. A terapia comum não era incentivada na igreja de nossa família, pois nosso pastor acreditava que orar era suficiente para acabar com quaisquer confusões mentais e morais. Mas J parecia lidar com aquilo naturalmente. Parecia crer que as pessoas também podiam ser entendidas por sua complexidade. Eu queria perguntar que livros ele havia lido para saber se compartilhávamos das mesmas paixões, mas era contra as regras falar sobre a literatura exterior à AEA.

— Acho que você tem razão sobre a dúvida — eu dissera. — Não quero dar um passo errado. Já dei muitos.

— Não — respondera ele. — Você não parece ter feito nada de muito ruim. As pessoas aqui ficam com uma cara específica depois de fazerem alguma coisa que não querem compartilhar.

Apesar de sabermos que havia alguns ex-pedófilos no grupo, ninguém falava disso abertamente, o assunto só era mencionado de forma vaga pelos membros mais fechados.

— Não queria compartilhar nada disso — eu explicara. — Parece pessoal demais.

Não que eu temesse meu papel como pecador. Eu me sentia envergonhado por minha real falta de experiência, ou pelo menos pela falta de iniciativa que demonstrara durante a experiência. Como eu podia deixar que J ficasse sabendo, na frente de todos, que minha primeira e única vez fora tomada de mim contra a minha vontade?

— Você tem que compartilhar as coisas com as pessoas — dissera ele, voltando a caminho das portas de vidro e abrindo uma delas com um puxão, quando então uma rajada de ar frio atingiu meus braços. — É o primeiro passo na direção certa.

— Mas e se nada disso funcionar? E se isso só me deixar mais confuso?

— Boa pergunta — respondera J, virando-se por um segundo, antes de seguir, como sempre, para nosso semicírculo em torno de Smid.

* * *

Ao que tudo indica, a confusão era um ponto importante do Primeiro Passo. Em meio à nossa desorientação, começaríamos a entender que estávamos “fora de controle”, que precisávamos confiar na autoridade de Deus e dos conselheiros. No dia anterior, Smid me pedira para pensar em uma época em que meu pai e eu havíamos praticado esportes juntos. Será que eu tinha me sentido desconfortável? Tinha recebido de meu pai toques suficientes de afirmação de masculinidade? Buscava um amor que ele não queria me dar? Depois de apenas algumas perguntas, eu não me lembrava mais do que tinha sentido. Realmente nunca havia sido bom em esportes. Era verdade que eu nunca havia gostado de jogar bola com meu pai no jardim. E, sim, às vezes pegava o primeiro lançamento dele, mas, no fim, jogava a luva de beisebol longe e deixava a bola rolar para fora do couro. Mas será que isso significava que eu não gostava da sensação da grama sob meus dedos? Significava que não adorava a sensação do sol quente em meu rosto, que não sentia a voz de meu pai como uma vibração quente no peito? Eu não tinha mais certeza.

A Bíblia fala muito de sacrifício, de como o mundo deixa de compreendê-lo quando você aceita a cruz e passa a seguir os passos de Jesus.

— Você vai parecer chato para muita gente — dissera meu pai no dia do meu batismo. — Eles não vão entender a alegria profunda no seu coração. Para eles, você vai parecer maluco.

Mas isso significava que meu pai e eu não íamos mais entender um ao outro? Jesus disse em Matheus: Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai. E, apesar de ter lido aquelas palavras dezenas de vezes, eu não sabia se queria abandonar a possibilidade de experimentar, na vida real, a beleza das relações confusas e complexas apresentadas nas aulas de literatura. Senhor, rezei naqueles primeiros dias, ajude-me a saber a diferença entre a beleza e o mal.

A AEA conhecia bem essa diferença. Em quase todas as folhas dos manuais de 274 páginas havia uma versão do seguinte: para sermos puros, tínhamos de nos tornar uma ferramenta, algo que Deus poderia usar em nome de um bem maior. Isso significava que não havia espaço para a beleza como antes conhecíamos. Quaisquer costumes e hábitos que nos tornassem mais do que meras ferramentas eram considerados vícios, aspectos desenvolvidos a partir de mensagens danosas passadas a nós na infância. Tudo isso estava explicado claramente no Caderno de Vícios.

Vícios surgem de um sistema de crenças gravemente distorcido. Nossas

mentes são desgraçadas já no instante em que nascemos e naturalmente

tendem a se distanciar da verdade. O problema é o mesmo para todos.

No entanto, quando recebemos mensagens confusas ou hostis na

infância, nos tornamos mais vulneráveis ao desenvolvimento de padrões

viciantes.

O Caderno de Vícios continuava dizendo que tudo em nossas vidas pecaminosas e sexualmente pervertidas fora cooptado pelo mundo, pelo Diabo. Em uma seção chamada “Você é produto do mundo (e do Diabo!)”, ficávamos sabendo que “Satã é o deus desse mundo”, que ele tem domínio sobre tudo que não vem diretamente da igreja ou da Bíblia, que “na verdade é este mundo que está fora de controle e de cabeça para baixo, não Deus” e que precisávamos estar dispostos a pôr em xeque tudo aquilo em que pensávamos e acreditávamos. Mas não bastava apenas questionar nossas crenças. Era necessário estar disposto a sofrer mudanças extremas, a deixar para trás pessoas que podiam atrapalhar nosso desenvolvimento, que nos lembravam de nosso passado. Tínhamos que ser capazes de abrir mão de qualquer ideia que tivéssemos a respeito de nós mesmos antes de chegarmos à AEA: “Também lembre-se de que agora, como cristão, você NÃO É SEU, mas foi comprado por um preço (1 Coríntios 6:19), deve ver Jesus como seu Mestre.” Tínhamos que entregar nossas lembranças, nossos desejos e nossas ideias de liberdade a Jesus, nosso Mestre. Tínhamos que nos tornar servos Dele.

* * *

— Somos nós que temos de pedir ajuda a Deus — disse Smid. — Somos nós que temos de implorar por perdão.

Quando eu olhava para Smid daquele ângulo, não podia deixar de notar a semelhança gritante entre ele e Jeff Goldblum, um rosto muito familiar em virtude das muitas reprises de Jurassic Park: nariz fino, sorriso largo e olhos acentuados por óculos grossos. No entanto, quando Smid inclinava a cabeça para outro ângulo, seu rosto ficava mais chato, perdia toda a Goldblumidade. Em um segundo estava lá e, no seguinte, não mais. Eu me perguntei se Smid havia praticado aquele efeito, se tinha calculado as proporções: um Jeff Goldblum para cada cinco Smids bonzinhos e obedientes.

Tentei não sorrir. Era mesmo absurdo quanto Smid conseguia ficar parecido com Goldblum. Com medo de começar a chorar, relaxei o rosto e abri um sorriso idiota. Será que J também via aquela semelhança? Será que seus pais haviam permitido que ele visse Jurassic Park quando criança?

J parecia ser alguém que havia sido educado em casa, seu nível de concentração intenso demais para manter uma vida social ativa. Só que a maior parte das crianças educadas em casa no Cinturão da Bíblia era muito monitorada por pais fundamentalistas. Mesmo assim, eu queria saber se nossas infâncias haviam sido parecidas, apesar de nunca ter perguntado. Ninguém no programa falava muito sobre o passado por medo de desenterrar algum prazer pecaminoso que já havia sentido. Imaginei que seria assim que me sentiria se encontrasse no Céu alguém que conhecia na Terra: a ausência de tudo que havia sido tão familiar um dia, restando apenas a essência ou a aura. E não haverá mais morte, diz a Bíblia, porque já as primeiras coisas são passadas. Mas J e eu ainda estávamos longe do Céu, a instituição de paredes brancas era apenas uma simulação do pós-morte, e eu ainda conseguia sentir o peso do meu pecado no fundo do âmago.

— Para cada aspecto de nossas vidas, podemos encontrar bênçãos e enxergar a bondade de Deus por meio das escrituras — repetiu Smid.

Ele disse aquilo tão rápido que as palavras saíram como um emaranhado que tive que desfazer:

—

PodemosencontrarbênçãoseenxergarabondadedeDeuspormeiodasescrituras.

E isso me fez lembrar das orações que meus pais haviam me ensinado a fazer toda noite quando criança. As palavras saíam automaticamente, em um fluxo repentino e desesperado, rumo a fazer contato com um Deus impaciente:

Agora que vou me deitar,

peço ao Senhor para minha alma guardar.

Caso eu morra antes de acordar,

peçoaoSenhorparaminhaalmalevar. Amém.

Eu não sabia mais que horas eram. Encarava a faixa de pele branca em meu pulso onde o relógio costumava ficar. As palavras de Smid fluíam, e logo a luz do sol cortava a sala, dividindo o carpete em polígonos. Smid circundou o grupo, seus passos circundando a luz. Lembrei-me de que eu e meus amigos costumávamos jogar algo quando crianças, depois do culto: um passo em falso e você morria destruído pela lava; um passo em falso e era preciso ficar de fora e observar as outras crianças brincando. Inclinei o pé para a luz, o plástico das ponteiras dos cadarços brilhando. Se as coisas ainda pudessem ser simples assim...

O manual parecia pesado em meus joelhos, o IM pronto para abrir um buraco em minha coxa. Será que um dia eu aprenderia, como muitos dos veteranos em nosso grupo, a falar de forma casual sobre um assunto que me deixava em pânico? Talvez fosse uma mudança para melhor, deixar tudo às claras. Eu havia lido o IM incluído no manual, e a linguagem usada para descrever o exemplo de pecado sexual havia me chocado, assim como a linguagem terapêutica quase onipresente e que parecia cobrir cada declaração, tornando-a quase impossível de identificar no mundo físico, todas as IFs do falante removidas até não haver nada além de puro arrependimento divino, uma forma platônica de recuperação, todas as marcas distintivas apagadas.

Aquilo me lembrou o modo como me sentira ao terminar o genograma no dia anterior. Levantando-me para olhar para a cartolina, eu havia pensado: Aí estão eles, como se minha família tivesse se reunido diante de mim apenas para revelar meu lugar na AEA. Estranhamente, era a primeira vez que me sentia à vontade com todos os meus parentes em uma única sala. Ali, me encarando do pequeno pedaço de carpete, pareciam seres inócuos, cercados por seus pecados, incapazes de me julgar. E apesar de a gramática precisar de certa revisão, o exemplo de Inventário Moral que tinha lido prometia a mesma coisa: uma vida com Deus; a volta a nosso estado puro anterior ao pecado; a promessa de um “despertar espiritual” professada pelo Décimo Segundo Passo, algo que viveríamos um dia caso ficássemos tempo suficiente no programa; o mundo perdendo importância até sumir de vista. O IM usado ali como exemplo parecia uma carta vinda de outro mundo.

Eu busquei um encontro e usei e manipulei a pessoa para remediar a dor

que sentia em minha vida. Usei uma fantasia como fuga, mas, quando a

fantasia acabou, a realidade foi ainda mais dolorosa. Acreditei que me

daria esperança e liberdade, mas tudo que encontrei foi mais culpa,

condenação e desesperança. Menti para meus amigos e minha família

sobre meu problema e tentei me esconder dele. E então o problema só se

intensificou, deixando minha vida ainda mais fora de controle. Acreditei

em muitas mentiras: que não valia nada, que não tinha esperança, futuro.

Rejeitei as pessoas que podiam me ajudar e mergulhei nas coisas que me

machucavam.

— Vamos começar por aqui — disse Smid, apontando para S, que estava sentada na ponta esquerda do grupo. — Mas, primeiro, vamos lembrar algumas regras básicas.

Enquanto recitava as regras, ele marcava cada uma com o indicador, até abrir a palma branca da mão e estendê-la para nós:

— Nada ilícito. Seja respeitoso. Nada de glamorizar, racionalizar ou minimizar o que aconteceu ou o modo como você se sentiu.

A cozinha atrás de mim tinha ficado quieta, a sala principal tomada pelo som de respirações silenciosas, a luz do sol tão forte no carpete que parecia soltar um zumbido audível.

S ficou de pé e foi até o meio do círculo. Ela usava uma saia jeans longa e estava sem maquiagem, o cabelo preso em um rabo de cavalo cheio de frizz. Parecia uma daquelas menonitas que vendem brownies e outros doces em lojas de bugigangas nas cidades pequenas de todo o Arkansas.

— Tudo começou com um beijo — começou ela. — Não vou entrar em detalhes, mas foi assim que começou. Achei que era inocente, mas estava errada.

Olhei para J de canto de olho. Ele me lançou um meio sorriso irônico. Prepare-se, parecia dizer.

— Eu fiz... coisas horríveis — continuou ela, lendo uma folha amassada de papel quadriculado que balançava em suas mãos trêmulas. — Senti muita vergonha. Sabia que Deus estava decepcionado, mais do que decepcionado. Eu lhe dera as costas. Comecei uma relação pecaminosa com outra menina. Uma coisa repulsiva. Olhando em retrospecto percebo como era nojento.

S olhou para a própria saia. Então fechou os olhos.

— Não tenha medo — pediu Smid.

— Foi por isso... Foi por isso... — disse, de olhos fechados. — Acho que foi por isso que acabei usando o cachorro.

A palavra “cachorro” soou como uma maldição, algo que vinha se formando dentro dela havia anos.

Ela estava na parte das Consequências de seu IM, seguindo em direção à seção Mudanças.

— Quero mudar a mim mesma. Estou cansada de me sentir vazia.

Todo o IM era criado para levá-la à redenção. O resto do relato foi direto, com uma série de frases feitas em cada seção. Ao recitá-las, a voz de S se encheu de um tipo de orgulho que não estivera presente alguns minutos antes.

Forças: — Estou aprendendo a confiar mais em Deus, a confiar

em Sua graça.

Objetivos: — Quero ler mais a Bíblia todos os dias, realmente

ouvir a voz de Deus.

Bênçãos: — Vejo agora quanto amor recebi, quantas bênçãos

foram concedidas em minha vida. Vejo como fui ingrata no passado.

Aplicação do Passo: — Acho que essa experiência e a lembrança

dela está mais diretamente ligada ao Terceiro Passo. Decidi entregar

minha vida aos cuidados de Jesus Cristo.

Escritura: — Peguei este trecho de João, da Epístola aos Gálatas e

dos Salmos. “Não podemos confiar em nós mesmos. Cada centímetro

de nossa confiança tem que ser entregue a Deus.”

Três, quatro, cinco pessoas haviam falado, as histórias se misturando em um longo fluxo de arrependimento. A sala estava congelante àquela altura. Desdobrei as mangas e abotoei os punhos da camisa.

— Um dos nossos membros novos vai compartilhar conosco pela primeira vez — disse Smid, andando até mim.

Senti o olhar de J. Era visível que estava tentando me incentivar, mas aquilo só fazia com que me sentisse pior. Tirei meu IM de baixo da coxa, a mão trêmula.

— Você quer mesmo falar? — perguntou Smid, sua voz soando carinhosa, educada, incentivadora.

Eu me levantei e fui até o meio do grupo. Tossi. Queria dizer a todos que estava tremendo de frio, não de medo.

— Não tenha pressa — disse Smid.

Eu poderia fugir correndo, pensei. Poderia abrir a porta de vidro e fugir pelas ruas até chegar a um parque público onde pudesse me esconder.

Um bater metálico vindo da cozinha. Tossi outra vez e acrescentei minha voz ao coro.