Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Garrard Conley · Capítulo 19 de 20

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Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Quarta-feira, 16 de junho de 2004

 

Não há fotos daquele dia. Não há fotos de nenhum daqueles dias. Um ano inteiro da minha vida ausente, não documentado. Minha mãe e eu costumamos brincar que, naquele ano, fomos abduzidos por alienígenas. Foi o ano dos invasores de corpos. Mas a verdade é que, mesmo enquanto tudo estava acontecendo, nós sabíamos que nunca mais iríamos querer olhar para trás.

Seria mais fácil com uma foto. Seria um registro que me permitiria ler entre as falhas da memória, ver no sorriso reorientado sexualmente daquele menino algum sinal da dor que estava sentindo. Mas, agora, só há fotos do antes e do depois: um garoto gordinho de calça jeans desbotada e uma polo apertada da Tommy Hilfiger, seguido por um Homem do Subsolo magro em uma camiseta do jogo Legend of Zelda. Eu nem sei se reconheceria o garoto entre as duas fotos.

* * *

A introdução de Smid, em minha oitava manhã na Amor em Ação, para o modo de recapturar lembranças reprimidas foi:

— Caso se sinta perdido, comece com uma pequena parte da sua vida. Tente conectar esse pedaço da sua vida com a do seu pai. Encontre o momento em que tudo mudou para vocês dois. Às vezes basta um segundo.

Nosso grupo estava sentado no semicírculo habitual no salão principal. Havia no ar o cheiro de café torrado e de lápis apontado, ouvíamos o bater ansioso de borrachas contra as páginas de nossos manuais. Escutávamos o tique-taque de um relógio distante que eu nunca havia notado.

— Quero que vocês se concentrem — pediu Smid. — Pensem em um momento importante.

Eu estava sentado diante de J, que não olhava para mim. Aquela era uma tática que parecíamos ter adotado sem consultar um ao outro: mantínhamos certa distância entre nós por pelo menos metade do tempo em que ficávamos na AEA. Os conselheiros desconfiavam cada vez mais de mim. Quando eu chegara naquela manhã, Cosby havia me puxado para seu escritório para perguntar se eu tinha alguma coisa para contar. Ele apontara para uma cadeira ao lado de sua mesa, mas eu ficara de pé, balançando a cabeça, tentando parecer o mais casual possível.

— Não — respondi. — Estar aqui é um processo. Alguns dias são melhores do que outros.

— Você ainda está rezando? — perguntou ele, as rugas se contraindo no canto de seus olhos.

— O tempo todo — menti.

A verdade era que fazia dois dias que não tentava rezar, desde que tínhamos ido até o Peabody, onde eu sentira, por um instante, como seria viver outra vida.

“Eu queria poder ficar aqui hoje”, dissera eu, observando as luzes das velas brincarem no rosto bronzeado de minha mãe, a estranha cor avermelhada convertendo-se em dourado naquele grande salão elegante: o truque de luz de um alquimista. Eu queria ficar ali e nunca ir embora.

“Eu também”, respondera minha mãe.

— Ótimo — disse Cosby, levando-me de volta até a porta do escritório, a mão tocando rapidamente o espaço entre minhas escápulas. — Você vai ter que ser mais vigilante do que nunca. Deus está me deixando ver algo em você agora. Um toque de rebelião. Não sei nem se você consegue ver.

Meu olhar parou no carpete, nos sapatos pretos e lustrados de Cosby, os cadarços amarrados em um X justo. Era a primeira vez que notava como seus pés eram pequenos. Aquele detalhe — a pequenez dele — me deu uma força temporária.

— Estou me esforçando mais do que nunca — disse.

Isso não era mentira.

* * *

Smid estava parado diante de mim. Tinha as mãos unidas com força.

— Fechem os olhos, se precisarem — pediu. — O Diabo quer manter essas lembranças reprimidas. O Diabo quer que vocês fiquem confusos. Mas não vamos deixar Satã vencer aqui hoje.

Mantive os olhos abertos e prestei atenção em Smid enquanto ele observava os outros pacientes. Vestia uma camisa branca sem amassados, com o botão superior aberto, mostrando uma pequena sugestão da camiseta branca por baixo e, sob ela, a cor pêssego da pele do torso. Havia rachaduras em todos os cantos da fundação se você soubesse onde procurar.

S ficou de joelhos ao meu lado, as mãos agarrando as pontas do assento acolchoado. Seu cabelo longo caía pelo rosto, escondendo suas feições. Eu me perguntei se ela estava se lembrando do dia em que seus pais a haviam encontrado com o cachorro. Mas, é claro, aquele instante não podia explicar tudo sobre sua natureza sexualmente distorcida. Uma das muitas suposições da AEA era de que todos estávamos ali por causa de algum tipo de abuso, algum tipo de negligência. “A influência é clara”, dizia nosso manual. Todos tínhamos ido parar ali porque ciclos pecaminosos de abuso continuavam em curso em nossas famílias. “Logicamente, pensaríamos que alguém que sofreu por causa desses pecados nunca seguiria o mesmo caminho. No entanto, descobrimos o oposto, fluxos de vícios correndo por muitas gerações de uma família.”

Tentei me lembrar do momento em que tudo mudou entre mim e meus pais.

— Alguém gostaria de falar? — continuou Smid. — Alguém aqui chegou a uma conclusão hoje?

* * *

No início da minha adolescência, quando trabalhava para meu pai na processadora de algodão, eu costumava andar até o limite da propriedade, até o local onde mantínhamos fileiras de módulos brancos empoeirados, pilhas retangulares de algodão que os fazendeiros colhiam do campo com enormes debulhadoras, e me escondia do mundo. Eu procurava um módulo longo do meio do campo, com pelo menos três metros de altura, então abria a lateral do algodão prensado, enfiava os dedos na sujeira, no limo, nos pedaços afiados de cápsulas até abrir um espaço para mim no meio dele. Enquanto entrava na pilha, o algodão ainda quente dos campos, o cheiro de pesticida e terra úmida inundando minhas narinas e o sabor amargo do campo em minha língua, pensava no aviso do meu pai: o algodão poderia cair a qualquer momento e me sufocar sem que eu notasse — e me sentia estranhamente seguro. Ali estava eu, encolhido no meio daquele algodão prensado, e as paredes ainda não haviam caído. Estava escondido de todos, em um lugar onde ninguém nunca ia me encontrar, e o algodão não havia me engolido por inteiro. Com o produto macio em minhas costas, eu fechava os olhos, adormecia e acordava ocasionalmente, observando o céu azul sumir até ficar escuro demais e eu perceber que meus pais iam começar a ficar preocupados.

Meu pai, é claro, ficava irritado quando encontrava os módulos esburacados.

— Você vai se matar fazendo isso — dizia.

Mas o que ele estava pensando, o que devia estar pensando era: por quê? Por que eu ia querer me esconder? Por que arriscaria minha vida por algo que não parecia valer a pena?

A resposta dele era explicar todo o processo de fabricação do algodão em uma linguagem cuidadosa e simples.

— Um dia, isso vai ser seu — afirmava ele. — Um dia você vai herdar isso.

Ele me explicava todo o processo passo a passo, fazendo-me perguntas para ver se eu me lembrava do que ele tinha dito. Eu nunca me lembrava, nunca me importava o bastante com o processamento de algodão para registrar o conhecimento, mas fingia vasculhar a memória em busca de respostas apenas para fazê-lo sentir-se melhor. Estava mais interessado no modo como as coisas eram do que em como funcionavam, no jeito como o algodão lutava contra os dentes de metal, as sementes caindo como uma cachoeira branca em um receptáculo que as separava para uso posterior, o fluxo embaçado em que caíam com tanta maciez e beleza em meio a toda aquela barulheira. Enquanto acompanhávamos cada passo do processo e passávamos pelas várias estações, meu pai gritava por cima do som das máquinas, guiando a mim com a mão áspera em meu ombro e pedindo que os funcionários acrescentassem alguns detalhes mais cheios de nuances à explicação. Eu assentia e fingia escutar, observando a poeira e o algodão voarem pelas faixas de luz que nos cercavam, farejando o ar em busca do aroma estranho e viciante de um campo mecanizado.

O produto final, o fim do processo, era uma bola de puro algodão branco enrolada em uma lona e mantida por várias faixas de metal. Eu achava aquilo lindo. Passava as mãos pela superfície do algodão quente e prensado e fechava os olhos, bloqueando tudo ao meu redor: as máquinas barulhentas, os funcionários apressados, até meu pai. Quando me deitava na cama à noite, imaginava que o travesseiro e os lençóis tinham saído de nossa processadora, uma sensação que carregaria comigo para toda cama em que já dormi, algo que nunca deixa de me tranquilizar quando sofro de insônia.

Isso era uma herança do meu pai: um grande apreço pelo isolamento, a noção do trabalho e do sacrifício que outras pessoas muitas vezes fazem para o meu conforto. O processo de acomodação leva tempo. Nunca esperei que meu pai aceitasse cada detalhe de minha vida de um dia para o outro, nem que eu aceitasse os dele. Nossos momentos de incompreensão, apesar de terem me prejudicado muitas vezes, ainda estavam longe de ser abusivos. E isso era algo que a AEA nunca ia entender.

— Quer dizer alguma coisa? — perguntou Smid, olhando para mim.

Desviei o olhar.

* * *

Naquela tarde, nosso grupo teve que se sentar em dois semicírculos no auditório da AEA. A luz do sol passava pelas finas persianas brancas, e um silêncio isolado nos cobriu a todos. J estava sentado ao meu lado. Eu me permitira passar aquela tarde ao lado dele. Podia sentir seu olhar em minha visão periférica.

— Essa semana foi difícil — disse Smid, trazendo uma cadeira de metal para o centro do palco do auditório. — Vocês estão muito emocionados. Mas é importante que a gente se force a ir o mais longe possível. Precisamos chegar ao fundo do nosso vício.

O resto da sessão matinal transcorreu com dificuldade: T admitira, mais uma vez, a vontade de se matar que tivera na noite anterior. Ali de pé diante do grupo, fazendo uma confissão, todos nós tínhamos repetido para ele:

— Nós amamos você, T.

Mas eu não estava muito convencido disso. Sentia pena de T e teria dito a ele se tivesse tido uma chance. Mas não o amava. Como eu podia amar alguém que agia como se estivesse destruído o tempo todo, que pedia minha compaixão a cada cicatriz, a cada confissão, alguém que eu não conhecia de verdade? Parecia patético, e um pouco egoísta, abrir-se ao amor daquela maneira. Pensar que Deus e as pessoas que o cercavam reconheceriam seu valor imediatamente se você fosse visto como algo danificado e admitisse isso. Essa era a moeda da AEA, trocar cicatrizes literais e teóricas, e eu odiava aquilo. Todo mundo estava tentando ser melhor do que o outro, fazer o relato mais doloroso. Afinal, Jesus era mais fácil de identificar por suas cicatrizes, e por isso todos tínhamos que pegar Sua cruz e segui-Lo. Um cinismo mais profundo ameaçava assumir o controle em minha cabeça.

Smid abriu a cadeira dobrável com um floreio rápido, as dobradiças rangendo como um corvo assustado.

— Vocês vão enfrentar seus medos hoje. Terão a chance de mostrar como são corajosos.

J pressionou a perna contra a minha.

— Isso sim é novidade — sussurrou.

Deixei meu olhar correr de seu peito até suas pernas, escondidas de Smid pela cadeira à sua frente, observando o modo como ele as fechava e as afastava. Pensei em Betsabé, a mulher que havia tentado o rei Davi ao se banhar na varanda do palácio, Davi um voyeur posicionado no telhado. Nos dias anteriores, eu começara a ver algo lindo em J. Era alguém que podia me entender. Ao contrário de Chloe, Caleb ou qualquer um dos conselheiros, J não pedira que eu fosse diferente do que era: a mesma bagunça confusa e agitada que colara em minha máscara. Em um instante, eu queria sair da instituição e pôr fim à terapia de reorientação sexual e, no segundo, queria que J me puxasse, me segurasse ali com ele, me forçasse a ler as passagens reparadoras sem parar, até eu finalmente entendê-las. Sua beleza me fazia pensar que talvez houvesse alguma verdade naquele experimento de cura gay.

Smid colocou outra cadeira dobrável diante da primeira. Limpou as mãos, virou-se para nós e sorriu até suas covinhas de Jeff Goldblum aparecerem.

— Quem quer ser o primeiro? — perguntou ele.

O semicírculo ficou tenso, a respiração de todos silenciou. Ainda não sabíamos qual seria a atividade, mas sabíamos que tinha algo a ver com o abuso infantil que tínhamos explorado na sessão matinal. Cadeira da Mentira, dizia nossa programação. Imaginei uma seringa cheia de soro da verdade, ou talvez um polígrafo, fios presos em meu peito. Senti um espasmo passar pela coxa de J quando ela se mexeu e pressionou a minha. Empurrei a perna dele para longe com força demais e ele escorregou, provocando um barulho das pernas da cadeira contra o piso.

— J — disse Smid, virando-se para encarar o barulho. — Você parece empolgado.

— Sim, senhor — respondeu J, passando por mim para chegar ao palco do auditório.

Pus as pernas para o lado e a coxa de J esbarrou em meu joelho. Ele me lançou um olhar sombrio quando passou.

— Quero que você se sente aqui — pediu Smid, apontando para a cadeira. — Quero que você se sente aqui e imagine seu pai sentado diante de você. Imagine seu pai sentado diante de você e diga tudo que sempre quis contar a ele, mas não conseguiu.

J se esforçou para sorrir, ajeitou-se na cadeira e cruzou os braços sobre o peito. Então pigarreou e encarou o local em que seu pai supostamente estava sentado. Olhei para trás para ver se os outros estavam acreditando. S roía as unhas, e T estava sentado ao lado dela com as mãos nos bolsos do cardigã preto. O garoto louro estava de pé nos fundos do auditório, as mãos cruzadas diante da calça azul-marinho e o rosto educadamente atento. Ele percebeu que eu o encarava e me lançou um olhar de “preste atenção, senão...” Virei-me de volta. Cosby não estava em lugar nenhum, e eu fiquei feliz com isso. A sala parecia mais relaxada sem seu olhar militar.

— A confissão tem que ser feita antes da cura acontecer — disse Smid, citando o manual.

O fato de ela ter que ser pública estava claro, já que tudo na AEA operava com base na filosofia do “conte tudo e seja salvo”. A Cadeira da Mentira era simples, explicou Smid: finja ver um pai que não está de fato presente e confesse tudo de negativo que já sentiu por ele diante de uma sala lotada.

— Não se preocupe se isso vai soar bem ou não. Só tente ser sincero.

Vi um feitiço dominar J. A longa franja caía em sua testa, e ele não parava de empurrá-la para trás, como se o gesto fosse verdadeiramente trazer o pai para aquela cadeira vazia. Ele se inclinou para a frente, pôs os cotovelos nos joelhos e apoiou o queixo nas mãos: parecia corcunda, um menino muito mais novo. Eu podia imaginá-lo sentado daquele jeito no sofá da sala, lendo um romance fantástico.

— Quer dizer alguma coisa a ele? — perguntou Smid.

J empurrou a franja para trás outra vez e endireitou as costas. Pareceu ver a promessa do próximo passo, então seus olhos ficaram menos tensos e úmidos. Aquele podia ser seu momento. Smid ficou de pé ao lado dele, os olhos concentrados na Cadeira da Mentira. De repente, ambos pareciam ver o mesmo tirano aterrorizante.

— Pai — começou J —, eu decorei todas as oito passagens reparadoras. Trabalhei duro para ser um bom cristão. Eu me responsabilizei por meus pecados, me torturei para cumprir cada um desses passos.

Smid deu a volta nas cadeiras, assentindo para as duas, como se estivesse se dirigindo tanto ao pai quanto ao filho. O mais importante era acreditar na ficção, tornar o pai um receptáculo de dor e medo em vez da complexidade viva, que respirava e andava, que o constituía quando o filho estava perto dele.

— A pessoa que eu mais quero beijar — continuou J.

A sala ficou em silêncio. Eu mal respirava. O auditório parecia ficar mais quente com cada uma de suas palavras. Não ousei olhar para ele.

— O calor nas entranhas que sinto quando estou perto dessa pessoa. O questionamento constante que vêm da leitura particular das escrituras. Agora eu entendo. Tudo isso foram tentações enviadas pelo Diabo, coisas feitas para me confundir, para me atrair para o vício.

— Amém — gritou T. — Diga!

Pude ouvir S se remexendo na cadeira ao meu lado. O garoto louro andou até o lado direito do palco, os olhos fixos no drama invisível.

— Jogo, alcoolismo, coabitação, abuso. Tudo isso foram presentes seus, pai. Mas não mais. Não aceito nada disso. Jogo seus presentes aos meus pés e piso neles.

Quando terminou, J desabou em uma pilha chorosa no chão.

Smid correu até ele e pôs uma das mãos em suas costas. Então ergueu a outra e orou para que Deus curasse aquele jovem. Depois de alguns segundos, levou J de volta para a cadeira ao meu lado. Ainda assim, não olhei para ele. Tinha medo do que aconteceria se olhasse. Ali estava uma pessoa disposta a desabar diante de mim enquanto eu usava toda a minha força para me manter inteiro. No segundo seguinte, Smid me pediu para ir para o palco.

— Acho que está na hora de você nos mostrar o que está acontecendo aí dentro — disse ele, levando-me para a cadeira de metal, a mão em meu cotovelo.

A cadeira ainda estava quente do calor de J. Tentei não olhar para ele, que naquele momento estava ao pé de sua cadeira, trêmulo. Não havia como saber se J estava sentindo algo real ou simplesmente fingindo — e, mesmo com os fusíveis estourados da extinta luz antisséptica, não consigo ter certeza de sua conversão, assim como não consigo ter certeza em relação a qualquer outro ex-gay.

— Está vendo seu pai? — perguntou Smid, de pé atrás de mim.

A poeira abafava a luz à minha frente, redemoinhos girando no lugar em que meu pai devia estar sentado. Tentei fundir os redemoinhos para que formassem sua calça, seu terno azul-marinho, seu cabelo grisalho penteado para o lado. Tentei me fazer chegar à irritação.

— Leve o tempo que precisar — disse Smid.

O silêncio era insuportável. Fiquei ali por vários minutos, esperando que alguém acabasse com aquilo. Pensei no jogo de números que eu e meu pai costumávamos jogar: nós dois escolhíamos um número de um a cem e depois o dizíamos em voz alta ao mesmo tempo. Pensei em como sempre dizíamos números com um ou dois dígitos de diferença, uma proeza que parecia um milagre. Eu queria contar ao grupo que havia coisas que nunca entenderia a respeito do meu pai. Coisas que nunca poderiam ser traduzidas em palavras. Mas que eu o amava.

Como ninguém quebrou o silêncio, fiquei de pé.

— Não estou irritado — falei. — Não entendo por que tenho que ficar irritado.

O garoto louro andou até o palco. Tinha o rosto vermelho e as mãos fechadas.

— Você está escondendo o que sente a semana toda — disse. — Está irritado, mas não está demonstrando. Está mantendo tudo escondido, mas a gente consegue ver.

— Não estou irritado — respondi.

Eu estava em exposição, de pé diante de um júri de colegas. O sol estava quente em minhas costas.

— É mais complicado do que isso.

— Não é complicado — disse o garoto louro, seu rosto ficando mais vermelho. — Você é quem está complicando. Você está com raiva porque seu pai não aceitou você e precisa admitir isso. Precisa gritar com ele, dizer como se sente.

— Não vou gritar — falei.

Estava me esforçando muito para não mostrar como estava nervoso.

— Você está tremendo — afirmou o garoto. — Está muito irritado. É óbvio.

Eu não ia chorar. Não ia deixar que me fizessem chorar. Mantive os olhos na porta do auditório e não olhei para J.

— Você devia colocar para fora — disse Smid.

Sua voz veio de trás de mim. Senti o choro surgir, mas me contive, e o engoli. Pisquei algumas vezes. O salão ficou embaçado.

— Não sei nem se você quer mudar — continuou o garoto. — Não sei nem se você está nos contando a verdade.

— Você é maluco — falei. — Vocês todos são completamente malucos.

Dei um passo para a frente e descobri que tinha força suficiente para dar outro.

— Achei que fosse mais complicado do que isso — disse o garoto.

Se continuasse me concentrando em cada passo, talvez tivesse força para chegar à porta.

— Você tem que querer passar do Primeiro Passo — disse Smid. — É o único jeito.

Não olhei para trás. Não olhei para os outros. Mantive os olhos na placa vermelha de saída.

— Se você sair — disse Smid —, nunca vai ser curado.

Cada passo me dava mais força, até eu estar correndo pelo corredor, até estar parado diante da recepção.

— Preciso do meu celular — falei.

— Não posso fazer isso — respondeu o recepcionista, sorrindo. — Você conhece as regras.

— É uma emergência — expliquei.

— Que tipo de emergência?

— Não importa.

As portas do auditório ainda estavam fechadas. Ninguém viria atrás de mim. O recepcionista sacou meu celular de uma pilha de celulares e me entregou o aparelho. Não estava mais sorrindo.

Liguei para minha mãe. Ela atendeu no primeiro toque.

— Mãe — falei —, preciso da sua ajuda.

* * *

Minha mãe e eu ficamos em silêncio na maior parte do caminho para casa. Ainda não havíamos ligado para meu pai para contar o que havia acontecido. Temíamos o que ele podia dizer. Não sabíamos como começar a explicar as coisas porque ainda não havíamos explicado nada um ao outro. Mas, quando as montanhas Ozark nos abraçaram de novo, comecei a sentir o aperto familiar da camisa de força no peito e nas costas. Sabia que tinha que fazer alguma coisa ou continuaríamos vivendo da mesma maneira que sempre havíamos vivido: cheios de segredos, de palavras não ditas.

— Nunca mais quero voltar para lá — disse.

— Eles disseram que você precisa de mais alguns meses — respondeu minha mãe. — Talvez até um ano.

Eu havia ouvido a conversa deles do banco do carona. Cosby se inclinara para a janela semiaberta do carro para avisá-la de meu comportamento errático.

“Eu nem sei se ele quer ajuda”, dissera ele. “Ele precisa de pelo menos três meses. Provavelmente precisa se afastar da faculdade por um tempo.”

Minha mãe nos guiou para a faixa lenta da estrada. Observei a grama do acostamento passar por nós, marrom por causa do calor e da seca.

— Você sabia que o único diploma universitário daquele cara é em aconselhamento matrimonial? — perguntou minha mãe. — Por que um conselheiro matrimonial está ensinando meu filho a ser hétero?

A grama se abriu para revelar uma área nua de argila vermelha e seca. O vermelho era uma ferida sangrenta me encarando.

— Foda-se — respondi.

— O que você disse? — falou minha mãe.

Tateei a cobertura do air bag diante de mim, enfiando as unhas nas reentrâncias do plástico, puxando. Queria que o mecanismo inflasse, me jogasse para trás o máximo que pudesse. Imaginei a cobertura como o peito de meu pai: seu coração pulando para fora, explodindo, esvaziando. Queria a dor de T, a vergonha de S, a raiva de J. Queria obliterar cada nervo ligado à minha pele.

Minha mãe parou no acostamento, criando uma trilha de poeira atrás de nós. Carros passaram voando, buzinando, dando guinadas para o lado, atravessando as grossas faixas amarelas duplas.

— O que está acontecendo?

Enfiei os dedos com mais força nas reentrâncias. Pisquei para afastar lágrimas, mas não ia chorar. Do lado de fora, a argila vermelha ria da minha cara. As montanhas queriam se jogar sobre o teto do carro. Depois de tentar por alguns minutos, por fim, desisti. Recostei-me no banco e fechei os olhos.

Minha mãe estava quieta ao meu lado, a respiração ofegante.

— Ai, meu Deus — disse ela. — Você vai se matar?

A pergunta era simples o bastante, mas o que saiu de minha boca foi um grito animal agudo. Puxei os joelhos contra o peito e pressionei a lateral do corpo contra a porta do carona, o rosto com força contra o vidro.

— Ai, meu Deus — repetiu ela. — Vamos parar isso tudo agora.

Ela aceitou aquilo como um “sim”, a única prova que precisava para se convencer a acabar com minhas sessões de terapia na Amor em Ação. Ela ouviu um sim, mas eu já havia recebido um presente que ninguém jamais poderia tirar de mim. Eu estava vivo e agora tinha a vantagem de saber disso. Eu estava vivo e era só disso que precisava.

* * *

Quando penso em tudo que aconteceu comigo, às vezes me pergunto se alguma coisa foi real. Às vezes me pergunto se a instituição conseguiu me enlouquecer no fim, se não mergulhei de fato em algum corredor abandonado como minha tia-avó Ellen e comecei a falar sozinho. Se não fosse pelo manual e pelos muitos conselheiros ex-gays com quem falei desde que saí de lá, eu talvez ainda estivesse duvidando da minha sanidade ao pensar no que realmente aconteceu naquelas poucas semanas. E, se meu pai tivesse conseguido que as coisas saíssem do modo que ele queria, nenhum de nós nunca mais teria falado sobre minha experiência na reorientação sexual. Apesar de ele não ter feito nenhuma pergunta no dia que voltei da AEA, apesar de nossas conversas desde então terem sido cheias de silêncios incômodos, ele pareceu aceitar tacitamente o fato de que a terapia nunca seria capaz de me transformar. Depois da AEA, ele continuou a financiar minha faculdade, sem nunca perguntar muito sobre o que estava aprendendo no curso de Inglês.

— Escritor — disse ele certa vez, depois que contei o que queria ser. — Que interessante, não?

Certos dias, acho difícil acreditar que vivi em um mundo baseado em noções tão extremas quanto a autoaniquilação. Então ligo a TV, leio alguns artigos e percebo que o que vivi pode ter sido singular, mas de modo algum desconectado da História. Minorias continuam a ser exploradas e manipuladas tanto por grupos nefastos quanto bem-intencionados, e ideias prejudiciais continuam a gerar novas linhagens políticas em todo o mundo. O que não consigo entender — e talvez nunca consiga — é como todos nós acabamos nos envolvendo com o movimento de reorientação sexual, o que levou cada um de nós às portas duplas da Amor em Ação. Não há fotos para me ajudar a procurar pistas, então eu mesmo as desenvolvo.

Imagino Smid se afastando da primeira mulher, deixando tudo para trás. Imagino J forjando uma nova identidade diante de um pai irritado. Imagino minha mãe, sua vida pregressa desaparecendo enquanto ela está de pé no palco, ao lado do novo marido pastor, talvez se lembrando do filho que um dia perdeu no hospital, talvez pensando em mim.

Muitas vezes imagino a Cadeira da Mentira. Vejo meu pai e a cadeira. Eu o imagino quando criança, vendo o pai amarrar a mãe à cadeira da sala de jantar para espancá-la. Vejo como ele deve ter se acovardado, se escondido do próprio pai. Então, décadas depois, vejo esse pai sentado em uma cadeira acolchoada do hospital ao lado da cama do meu avô, depois que o alcoolismo tirou tudo do corpo daquele homem, o único dos irmãos a visitar o velho moribundo.

Eu sempre volto a meu pai. Eu o imagino agarrando a mão inválida do meu avô. Eu o imagino chorando em silêncio, esperando para se despedir. Há um mistério nisso, um apocalipse em menor escala situado em algum ponto entre o que aqueles homens sabiam sobre si mesmos — um apego a algo que, por sua vez, recusava-se a soltá-los — e o que eu quero saber, como os velhos profetas.