Boy Erased: Uma Verdade Anulada
Autorretrato
“É quase como uma morte na família”, diz Barbara Johnson em seu livro Where Does a Mother Go to Resign? “Mas, quando alguém morre, podemos enterrar a pessoa e continuar nossa vida. Com a homossexualidade, a dor parece nunca terminar.”
Minha mãe e eu havíamos começado a ler o livro de Johnson pouco depois do feriado do Dia de Ação de Graças, mais ou menos na mesma época em que também tínhamos começado a ler O retrato de Dorian Gray, mas não havíamos terminado nenhum dos dois. Já era março, apenas dois meses antes de eu frequentar a AEA, e parecia que nada em nossas vidas voltaria a ser completo até que tivéssemos com certeza de que a terapia de reorientação sexual seria realmente capaz de me transformar. Estávamos colocando o mundo na espera, deixando as coisas pela metade, até o verão.
O livro de Johnson estava sendo divulgado em círculos de reorientados, sobretudo para famílias cristãs fundamentalistas que haviam acabado de descobrir que tinham um filho gay, e era muito elogiado como uma história curativa. Johnson havia enfrentado o problema do filho heroicamente, se recusado a recuar até que ele admitisse que aquilo era um pecado. Nenhuma mãe devia ter que passar por isso, sugeria o livro. Nenhuma mãe devia ter que sentir a dor que ela sentira.
— Não consegui ler muito — admitiu minha mãe pelo telefone.
Andei até o sofá no canto do lounge vazio do alojamento, me sentei e encarei a parede branca que descascava. Eu usava a linha fixa do alojamento, o telefone amarelo entre os joelhos. Como sempre, estava ignorando meu dever de casa. Para que estudar se nem conseguia imaginar como minha vida ficaria? Talvez nem tivesse uma carreira se não conseguisse mudar quem eu era. Meus pais com certeza não pagariam pela minha educação e, pelo que eu sabia, empresa nenhuma contratava gays.
— É — respondi. — Eu também não.
Fez-se uma pausa longa. Uma brisa cheia de estática passou pela linha. Como costumava acontecer, imaginei o espaço virtual entre nós como uma paisagem desértica, um único fio preto formando um longo S pela areia brilhante. Era um tique mental meu, um dos muitos que usava nos momentos em que queria que a situação parecesse menos assustadora. Às vezes, para acalmar meus pensamentos à noite, eu imaginava meu colchão caindo rapidamente por um poço de elevador infinito, protegido mesmo enquanto caía.
— Temos que responder a mais algumas perguntas — disse minha mãe, por fim.
Já que eu tinha que entregar meus trabalhos complementares pela internet, ela havia decidido preencher por mim a ficha de inscrição inicial da AEA, em vez de mandá-la por e-mail. Eu deixara de ir para casa com frequência nos meses anteriores, alegando que tinha muito dever de casa. O motivo real, no entanto, tinha a ver com o fato de nossa família ter poucos assuntos que não fossem incômodos com a proximidade da AEA. Todo o processo seria mais rápido se minha mãe me ajudasse a preencher os formulários. Ela havia recebido algumas perguntas extras por e-mail, então estávamos na última etapa da inscrição. O processo parecia interminável. Agora tínhamos que anexar uma foto recente, junto com a taxa de oito dólares.
Enfiei o telefone amarelo na dobra do pescoço. Minha mãe inspirou profundamente.
— Eles querem saber se você já teve algum envolvimento físico com outras pessoas.
— Não — falei, rápido.
Eu tivera com Brad, claro, o garoto da equipe esportiva com quem me masturbara no início do ensino médio — mas não ia dizer as palavras “masturbação mútua” para minha mãe. E como o terapeuta com quem havia falado no Dia de Ação de Graças e no Natal mal fizera anotações durante as sessões, eu achava que havia uma boa chance de a AEA não saber a respeito disso. Pensei em Chloe. Nós dois mal tínhamos nos beijado e, mesmo quando havíamos feito isso, tínhamos ficado sem graça demais para manter o contato por muito tempo. Eu me lembrei do gosto enjoativo de sua boca, do chiclete enfiado nas dobras de sua língua, do tremor de medo que perpassava meu peito toda vez que minha língua tocava no aro de seu aparelho. Por que ninguém considerava pecado tratar uma menina legal como ela de forma tão horrível?
Fiquei feliz por minha mãe não ter perguntado sobre uma possível vontade de ter envolvimento físico com outras pessoas. Pouco antes, eu havia ido à exposição de um veterano do curso de Artes chamado Caleb. Ele era alto, forte, e usava uma calça jeans manchada de tinta que esculpia sua bunda de forma tão perfeita que não pude deixar de prestar atenção. Eu tinha observado Caleb circular pela galeria, segurando uma taça ilegal de champanhe, pensando nas coisas que queria fazer com ele. Aproximara-me de um de seus quadros e imaginara o pincel passando por seus dedos hábeis, os dedos limpando a tinta em excesso com uma espátula e espalhando as cores pelo jeans rasgado, e depois aquele mesmo jeans jogado ao lado da cama enquanto ele se deitava em lençóis manchados de tinta. Na ocasião em que nos esbarramos, eu dissera algo bobo sobre todas as cores vivas que ele tinha usado.
— Obrigado — respondera ele, sorrindo. — Você precisa de outra taça de champanhe.
— Estou bem.
Estávamos diante de um quadro chamado Jesus Edípico. Assim como todos os seus quadros, aquele era um autorretrato dramático: Caleb como um Jesus crucificado, e Maria, uma sósia de Tori Amos que enfiava uma faca na lateral já machucada do corpo de Jesus. Eu não entendia o verdadeiro tema daquelas obras, mas todas pareciam uma grande blasfêmia, como se apenas olhar para eles pudesse me fazer entrar em combustão.
— Tenho uma garrafa de champanhe no meu quarto — disse Caleb. — A gente pode ir lá pegar se você quiser.
Eu não havia respondido. Tinha apenas ido até o quadro seguinte e fingido estar muitíssimo interessado, mas pensara no que ele havia realmente insinuado com a oferta.
— Com que frequência você comete ou cometia pecado sexual com outra pessoa? — perguntou minha mãe.
Quando não respondi de cara, ela acrescentou:
— Tem umas caixinhas que tenho que marcar. “Todo dia, toda semana, todo mês, com menos frequência. Se com menos frequência, explique.”
— Com menos frequência — respondi.
Tentei achar um padrão na parede descascada do alojamento, mas tudo que pude ver eram flocos aleatórios sem significado.
— Tipo nunca.
— Entendi — disse minha mãe, a tensão sumindo de sua voz por um instante.
Por que eles não podiam ao menos pintar aquelas paredes? Parecia uma enorme displicência deixá-las tão feias. A visão nos fazia pensar em coisas feias, e essas coisas feias inevitavelmente penetravam no que quer que fizéssemos naquele lounge.
— Agora está escrito: “Eu já me envolvi nas seguintes atividades” — continuou ela — e tem mais caixinhas dessas. Você quer que eu leia todas?
— Pode ser.
Senti o bocal do telefone quente contra minha orelha. Eu o segurei longe de mim enquanto ela recitava a lista, mas pude ouvir as palavras, ainda que soassem minúsculas; coisa que nunca havia ouvido minha mãe dizer e nunca mais ouvi:
— “Pornografia, masturbação compulsiva, voyeurismo, masturbação mútua, sexo heterossexual, sexo homossexual...”
As sílabas se declaravam na saleta. Depois de algumas palavras eu cobri o bocal com a mão, com medo de Charles ou Dominique, que estavam em meu quarto, escutarem
— ... “exibicionismo, sadomasoquismo, zoofilia, prostituição, pedofilia, aparência masculina, drag, travestismo, sexo por telefone, sexo anônimo ou outro.”
Então ali estava. A prova de que eu era tão ruim quanto David, que podia molestar uma criança ou começar a transar com animais. Ouvir minha mãe dizer todas aquelas palavras juntas e ao mesmo tempo, ouvir o medo e a expectativa em sua voz, sua antecipação de uma revelação horrível, foi demais para mim. E, embora parte de nós soubesse que aquela lista era uma bobagem, que havia algo absurdamente errado em reunir todos aqueles atos sobre um único denominador comum, não podíamos lutar contra isso. Não sabíamos nada sobre como desfazer aquele enorme nó de pecado.
* * *
Abril passou, eu tive uma festa tranquila de dezenove anos em um restaurante mexicano com Charles, Dominique e alguns outros amigos, e maio chegou. O ano escolar terminava, e nós tínhamos menos de um mês até a data programada para minha entrada na Amor em Ação.
— Por que o Dorian tratava a Sibyl daquele jeito? — perguntou minha mãe uma vez pelo telefone, a voz distante. — Eu não entendo.
Eu segurava o telefone amarelo com uma das mãos e estava de pé à janela do lounge do alojamento, esperando a luz de Caleb se acender, o fio atravessando a sala. Meu exemplar de O retrato de Dorian Gray estava no sofá atrás de mim. Minha mãe e eu tínhamos desistido de tentar ler o resto de Where Does a Mother Go to Resign?, de Barbara Johnson. A ficha de inscrição preliminar fora preenchida, eu havia sido aceito e só precisava preencher mais alguns questionários. Minha mãe e eu fazíamos tudo que podíamos para não tocar no assunto.
— O Dorian só se importava com a arte dela — falei. — Ela não era interessante para ele como pessoa.
— Mas ela era tão legal...
— É, acho que sim. Mas eu também acho ela meio chata.
— Isso não faz diferença. Ser uma boa pessoa é tudo que importa.
Naquele instante, parecia que nós dois podíamos continuar vivendo daquela maneira para sempre, apenas para a literatura e um para o outro. Naquele instante, parecia que ser uma boa pessoa era a única coisa necessária. Mas o amor estava sempre se movendo, sempre nos empurrando para a frente — sempre em ação — e muitas vezes não tínhamos escolha a não ser nos submeter ao destino a que ele nos levava.
* * *
Passei muitas semanas o mais longe possível de Caleb, pegando o caminho mais longo para ir e voltar das aulas, apesar de passar por ele nos corredores de vez em quando. Toda vez que isso acontecia, ele lançava uma piscadela para mim. Então, uma noite no início de maio, por motivos dos quais não consigo me lembrar, algo me atraiu até seu alojamento. Talvez tenha sido a solidão esmagadora que me atingia naquela época da minha vida. Talvez tenha sido o acúmulo de todas aquelas noites andando sem destino pelos corredores do Walmart simplesmente porque a loja era o único lugar aberto 24 horas e onde ninguém me fazia muitas perguntas. Sentindo-me inquieto demais para voltar ao meu alojamento e dormir, eu havia tentado organizar meus pensamentos a partir das centenas de produtos brilhando à minha volta, havia tentado entender o que minha vida havia se tornado. Mas, o que quer que tenha finalmente me levado até ele, uma coisa era certa: eu estava parado no quarto de Caleb, olhando para Deus.
— É só um rascunho — disse ele. — Estou planejando fazer toda uma série.
Deus era um fio de pontinhos vermelhos e rosados em uma tela branca. Caleb planejava colar seis grandes telas para formar um cubo de Deus.
— O onisciente Olho da Providência — falei.
— O quê?
— A cada passo dado, este grande Olho está acordado — falei, recitando os versos de uma música que costumava cantar na igreja de nossa família. — A cada dia, cuidado com o caminho seguido.
— Essa porra é assustadora.
Caleb seguiu até uma cama de armar no canto do quarto, pegou um pequeno cachimbo de vidro marmorizado e jogou as cinzas no chão. Drogas, percebi, enquanto um arrepio corria em minhas costas. Era exatamente o que meus professores da escola dominical tinham dito que aconteceria. Mas, quando Caleb colocou o objeto em uma mesa próxima, a coisa toda pareceu muito menor do que eu havia imaginado: o pequeno cachimbo pousado com cuidado em uma pilha de papéis amassados, disposto para o pecado maior que eu logo seria tentado a cometer na cama. Caleb deu uma série de tapinhas a seu lado no colchão e eu me juntei a ele. Lembrei a mim mesmo que todos os pecados eram iguais aos olhos de Deus.
— Eles realmente foderam com a sua cabeça, não foi? — perguntou Caleb.
Ele percebeu que eu estava tremendo. Minha pele ia se abrir. Então é isso, pensei. Ali estava a pele que eu queria tanto trocar, vibrando de ansiedade. Um movimento rápido de Caleb e a superfície se desfaria, revelaria uma versão de mim que por muitos anos permanecera dormente sob minha personalidade religiosa. Nada teria me preparado para aquilo. Nem Chloe, nem David, nem qualquer um dos livros que eu havia lido.
— Eles disseram que isso é errado? — continuou Caleb, se aproximando.
Não consegui responder. Como eu podia começar a explicar o quanto meus amigos e parentes achavam que aquilo era errado? Os olhos dele estavam próximos de mim, eram de um azul tremeluzente. O pequeno quarto se contraiu até se tornar o espaço entre nós, e eu o observei por um túnel estreito e também de longe, vi nós dois nos aproximando um do outro. Deus também estava observando e, pela primeira vez, não me importei.
* * *
Caleb e eu nos beijamos naquela noite, mas não fizemos mais nada. Não viajamos além da superfície de nossos lábios. Em vez disso, ficamos deitados na cama dele, na escuridão do quarto, escutando “Pagan Poetry”, de Björk, em looping, os dedos entrelaçados. As luzes do gramado passavam pelas persianas de metal, iluminando nossos lábios e bochechas. Então, um nascer do sol alaranjado também conseguiu penetrar no quarto, deslizando pela parede oposta à cama, traçando uma série de escadas que não levava a nenhum lugar mais interessante do que aquele onde estávamos deitados. Já tínhamos chegado aonde queríamos. Quando a manhã surgiu, eu conhecia cada centímetro daquele quarto, cada folha de papel amarrotada, cada pedaço de grafite, cada pincelada aleatória da tela de Deus. Todo o quarto parecia ter esperado que eu me juntasse a ele, que visse o que realmente era: uma obra de arte.
— Nunca prestei muita atenção — disse Caleb, depois que fechei os olhos e recitei a lista de objetos presentes no quarto. — Você devia ser poeta.
— Não quero ser poeta — falei.
Eu queria escrever contos. Queria histórias que se espalhassem, ganhassem vida própria. Mesmo assim, eu havia escolhido me matricular na única aula de escrita criativa do semestre, uma oficina de poesia. Os trabalhos semanais tinham sido difíceis e me deixado sentado diante do computador por horas, encarando a tela branca até uma onda de frustração produzir os treze versos que meu professor exigira.
— É sério — disse Caleb.
Ele se virou de lado para me encarar. Em algum momento da noite, tinha tirado a calça manchada de tinta. O lençol branco caiu de seu quadril e revelou sua pele macia, o V firme de sua pélvis levando a uma escuridão intocada pelo sol da manhã. Eu ia me atrasar para a aula se não desviasse o olhar.
— Você tem uma mente poética — continuou ele.
Senti aquelas palavras entrarem em mim, instalarem-se em pequenos espaços que eu não sabia que estavam escondidos dentro da minha cabeça. Meu crânio latejava com o peso deles. Parecia que ninguém nunca havia me dito algo tão bondoso, tão verdadeiro. Estávamos inventando uma linguagem íntima e era melhor do que qualquer outra que eu já havia tentado usar nas histórias que coloquei em meu diário. Por um breve instante, lembrei-me da frustração que havia sentido tantas vezes em meu quarto de alojamento, momentos em que as palavras não haviam conseguido capturar a essência de uma ideia. Eu me perguntei se Caleb havia sentido o mesmo ao misturar as tintas a óleo, noite após noite, acrescentando um círculo após o outro em seu retrato de Deus. Buscávamos uma perfeição que não podia existir fora daquele momento e, quando não a encontrávamos — como inevitavelmente acontecia —, passávamos para a obra de arte seguinte, para a próxima face.
— Na verdade, não sou muito bom com palavras — respondi, jogando os lençóis para longe.
Eu tinha que ir para a aula e ainda estava com o pijama da noite anterior.
— Fico frustrado. Não consigo capturar o que quero.
— Apenas continue tentando — disse Caleb, ficando de pé. — Você precisa abrir espaço para a loucura. Nunca aceitar um “não” como resposta.
Ele andou até o canto do quarto, pegou o cachimbo de vidro da mesa e começou a mexer em alguma coisa com a ponta dos dedos. A luz alaranjada passava pelas persianas e brincava com suas coxas, incendiando seus pelos louros. Ele ergueu o calcanhar esquerdo e sua panturrilha se contraiu, ficando mais delineada. Como eu poderia capturar uma fração do que sentia naquele momento? Nunca seria um poeta.
Eu o observei selecionar o que supus serem pedaços de maconha seca. Não tinha a menor ideia de como as drogas funcionavam, e aquela história toda me assustava. Desviei o olhar. Havia outra coisa me incomodando. Cruzei as pernas, me inclinei para a frente e apoiei os cotovelos nas coxas.
— Você não acha que é meio hipócrita — perguntei — por tentar pintar Deus enquanto seduz calouros?
— Como assim?
Ele começou a empurrar algo para dentro do cachimbo com a ponta de madeira de um pincel aleatório.
Fez-se um longo silêncio. Eu estava tentando chegar a um ponto que não conseguia realmente explicar. Não estaria Caleb tentando fazer a mesma coisa que meu pai? Procurando um Deus que nunca conseguiria conhecer de verdade? No entanto, seu processo parecia bem diferente. Para Caleb, era a inspiração, não o sacrifício, que invocava seu Deus. Não parecia justo que alguém com uma forma tão diferente de ver o mundo pudesse fazer referência ao Deus raivoso que eu conhecia. E todos os sacrifícios que meu pai e eu havíamos feito só para parecermos puros aos olhos Dele? No entanto, ali estava Caleb, fazendo o que queria com Deus, pintando olhos e mais olhos Dele até considerá-los bons e passar para o projeto seguinte. Não parecia justo considerar o Deus de Caleb igual ao nosso. Pela primeira vez em meses, senti a necessidade de defender o Deus de meu pai.
— Você não acha que teria que ser perfeito aos olhos de Deus para pintá-Lo? — perguntei. — Quer dizer, e o fato de você ser gay?
Caleb acendeu o isqueiro. Imediatamente uma nuvem rápida de fumaça se ergueu, sinuosa, transpassada por um raio de sol.
— O que foi que ensinaram a você? Que Deus só quer que a gente fique sentado e O exalte o dia inteiro? Foda-se Deus, se isso for verdade. Eu prefiro ir para o Inferno com todas as pessoas interessantes.
— Como você sabe que não está representando Deus à sua imagem?
— Não sei.
Ele inspirou profundamente e prendeu a respiração. Fez uma pausa e então soltou a fumaça com um longo gemido. O cheiro era forte e pungente. Lembrava uma parte escura da floresta atrás da minha casa que eu havia explorado por tantas horas, algo almiscarado no meio.
— Mas eu sei que ser gay não tem nada a ver com isso.
O que Caleb defendia era perigoso, tão perigoso quanto o que a Dra. Julie havia dito, tão perigoso quanto a fumaça que agora preenchia o quarto e me cercava. Minha cabeça já estava zonza pela falta de sono. Agora a fumaça parecia entrar nas frestas de meu cérebro, encolher-se ao lado das palavras de Caleb. Eu precisava me proteger de tudo aquilo. Ainda acreditava, como meu pai, que o Inferno era real. Eu ainda acreditava que sentiria o fogo lambendo minha pele por toda a eternidade se seguisse por aquele caminho. Pensei nos órfãos maçons que haviam morado no campus, no incêndio que os dominou quando eles menos esperavam. Se tinha chegado para eles, com certeza chegaria para mim. Fiquei morrendo de medo da fumaça da maconha, do Inferno que ela significava e, naquele segundo de delírio, pensei em tentar converter Caleb. Eu ainda podia transformar um erro em uma oportunidade de pregação. Não era tarde demais. Minha mãe não teria que marcar mais nenhuma caixinha.
— Você tem certeza de que realmente analisou seu coração em busca de uma resposta? — perguntei. — E se você estiver errado?
— Ai, Meu Deus... — disse Caleb. — Os melhores são sempre malucos.
— Só estou perguntando.
— Meu coração não pode ser separado de mim — disse ele, dando outra tragada. — Isto sou eu. Eu por inteiro. Viu?
Eu admirei aquele eu por inteiro, o modo como aquele ser completo formava um ponto de interrogação contra o sol alaranjado, as costas inclinadas sobre a mesa.
— Por que Deus me daria esses sentimentos se não quisesse que eu os sentisse? Por que Deus seria tão filho da mãe?
— Preciso ir — falei, levantando-me.
As palavras de Caleb zumbiam em meus ouvidos. Eu queria muito acreditar nele, mas tinha medo do que aconteceria se fizesse isso.
— Por quê? Chegue atrasado.
Apesar de minha ousadia na noite anterior, eu ainda era um aluno certinho. Odiava a ideia de chegar atrasado à aula, de o professor ter que perguntar a meus colegas onde eu estava. A turma de poesia só tinha dez alunos, e minha ausência sem dúvida seria sentida na oficina daquele dia.
— Fique — pediu Caleb. — Eles não vão ensinar nada. Você pode escrever um poema bem aqui.
Achei que nunca iria embora se não saísse do quarto naquele instante. A fumaça estendia seus dedos tortos para dentro da minha garganta, prendendo-me.
— O que foi? — perguntou Caleb, soltando outra nuvem, balançando a cabeça ao ver que eu me contorcia.
Não era eu que ia convertê-lo. Eu já estava perdido.