Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Garrard Conley · Capítulo 17 de 20

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Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Segunda-feira, 14 de junho de 2004

 

A suíte do Hampton Inn onde eu e minha mãe ficamos durante meu tempo na AEA era grande, mas parecia muito pequena. Embora estivéssemos em quarto separados, a única privacidade que tínhamos era uma pequena porta de compensado que dava para a sala de estar compartilhada. Depois da primeira semana de terapia, detalhes sobre o quarto que nunca teríamos notado em outras circunstâncias começaram a parecer ameaçadores. À noite, uma única lâmpada brilhava para nós no canto da sala, sua gêmea morta e escura no canto oposto. A luz do teto era conectada a um ventilador e não podia ser ligada sem que as pás girassem sob nossas cabeças, formando rajadas de vento rápidas e desagradáveis. A corrente pesada da tranca de metal da porta parecia repentinamente inadequada à luz fraca. Era fácil imaginar um alicate prendendo a corrente justa em seus dentes. Em qualquer outro momento de nossas vidas, teria sido um quarto ótimo e seguro — apesar disso, toda noite, eu empurrava a mesa de centro contra a porta, torcendo para pelo menos ouvir o arrastar dela no pequeno pedaço de linóleo antes que um intruso pudesse invadir o quarto. Diante do espelho do banheiro, eu imaginava câmeras escondidas voltadas para meu corpo nu. Enquanto tomava banho, pensava em Hitchcock e na faca brilhante de Psicose. Pensava em Janet Leigh fugindo da cidade a toda, com uma pilha de dinheiro roubado no banco do carona, parando em um hotel aleatório onde talvez pudesse encontrar um abrigo temporário.

Como eu estava dizendo, minha mãe e eu nunca pedimos que ninguém consertasse aqueles pequenos problemas. Apesar de não ter notado na época, eram justamente eles que me tranquilizavam. O espaço que ocupavam em minha mente era uma proteção contra os intrusos mais ameaçadores, que se agachavam e esperavam em algum lugar além da perspectiva limitada que eu tinha na época. Cada centímetro do quarto era palpável no escuro, tinha sido decorado: o quarto. Um objeto fora de lugar, qualquer mudança boba teria tido o poder de me alertar para as mudanças mais drásticas que aconteciam fora dele. Se as melhorias começassem ali, naquele quarto, então teriam força para continuar ad infinitum no mundo lá fora. E aí, o que me impediria de agir de acordo com meu plano?

* * *

No domingo à noite, saí escondido do hotel outra vez, pouco depois da meia-noite, para correr pelas ruas do bairro. Corri por tanto tempo e a tal velocidade que comecei a perder a noção da hora e, naquele espaço não catalogado de tempo, observei a Lua se pôr no céu noturno. Imaginei como devia parecer pequeno visto de cima. Deus era um valentão, decidi, que provocava pessoas muito pequenas. Por que havia feito isso conosco, com nossa família?

— Foda-se Deus — disse para a Lua.

Mais uma vez eu estava à espera de ser atingindo por um raio inexplicável. Quando nada aconteceu, repeti o xingamento, cada vez mais alto, as palavras ecoando pela vizinhança vazia.

— Foda-se Deus foda-se Deus foda-se Deus.

Voltei para o quarto de hotel e dobrei o corpo para a frente perto da cama, quase vomitando de exaustão e medo. Quem era eu? Quem era aquele homem que xingava Deus? Melhor, quem era Deus? Ele havia me abandonado ou nunca tinha existido?

Ali sentado, tentando controlar minha respiração, decidi que fingiria durante toda a segunda semana, que travaria os dentes e fingiria que estava tudo bem. A terapia estava me transformando em alguém que eu não reconhecia, e eu precisava sair daquele lugar com o coração relativamente intacto. A logo da AEA, o coração recortado, me encarava do manual todos os dias, me ameaçando com uma amputação. Eu temia que, do outro lado, no pós-operatório, houvesse apenas T e seus muitos cardigãs.

Uma coisa era certa: eu não queria agir muito rápido, alertar a equipe da AEA sobre minhas intenções. Sabia que eles informariam meus pais imediatamente, e que meus pais então seriam forçados a sugerir que eu ficasse mais tempo, fizesse a residência de três meses, depois de um ano, depois de dois anos — até estar na posição dos conselheiros, preso em um ciclo de progressão e regressão, sem saber quem eu era de verdade. À sua maneira, o garoto louro já havia me avisado sobre isso. Ao analisar a lista de contatos em meu celular na manhã seguinte, ele me olhou rapidamente e disse:

— Espero que você esteja levando seu tempo aqui a sério. As pessoas estão achando que você pode não estar.

Não soube dizer se ele havia visto o telefone de Mark, do banheiro, se mais tarde usaria isso como prova contra mim, mas não parecia importar. A mensagem era clara: o importante era manter as coisas exatamente iguais à semana anterior.

E, enquanto Smid nos guiava por nossa sessão matinal de Autoridade e Confiança, enquanto falava sobre os males e as ilusões da autossuficiência, o sol criando uma auréola em seu cabelo louro grisalho, eu assenti com os outros, sorri, fiz cara de preocupação, o rosto de alguém que contemplava as palavras de um grande líder. Quando pediram, abri a página 33 do Caderno de Vícios e li as palavras ditas em voz alta por Smid: “Concluímos com bastante convicção que a autossuficiência nos dará a segurança e o conforto que tanto desejamos. Começamos a procurar um modo de evitar ou diminuir nossa dor.” Eu fingia crer que a autossuficiência me levaria apenas a um beco sem saída, que eu havia entregado minha vida à autoridade dos conselheiros e, por consequência, a um Deus que se recusava a responder às minhas orações desde que eu havia chegado à instituição. Eu fingia não confiar em mim mesmo, Foda-se Deus ecoando sempre em meus pensamentos quando as palavras de Smid pareciam me arrastar de volta para a explosão de ódio da qual havia escapado por pouco durante a ordenação do meu pai. Fingia ser devoto, mas com uma pitada de esforço. Para me inspirar, consultei minhas lembranças de infância, mas nunca confundi o ódio de mim mesmo que desenterrei dessa fase da vida pelo real, que sentia na AEA. O amor que um dia eu sentira continuava emanando de algum lugar de meu peito enquanto estava no palco do santuário com minha família, impossível de esquecer.

— Nós aprendemos a manipular — acrescentou Smid. — Aprendemos a ser sedutores, a não explicar claramente nossas motivações durante nossos relacionamentos para nos protegermos.

Tirei os olhos do caderno. As palavras não pareciam tão nuas, tão insípidas, quando ele as dizia.

Era mais fácil mentir quando acreditávamos na mentira.

* * *

— Está abafado aqui — disse minha mãe naquela noite, fechando a porta de compensado.

Ela entrou na parte da suíte em que eu dormia toda noite no sofá-cama. Antes de a porta fechar, vi sua cama desarrumada. Era raro que minha mãe deixasse a cama bagunçada e, de onde eu estava sentado, vi que ela nem sequer havia tentado prender as pontas frouxas dos lençóis brancos nos cantos.

Eu estava sentado no canto do quarto, tentando inventar outra transgressão pecaminosa para meu Inventário Moral. Estava ficando tarde, mas eu queria terminar o dever antes de pedirmos o jantar e, apesar de ainda ser doloroso olhar diretamente para cada um dos meus pecados, eu começava a ficar feliz com o simples ato de escrever, de passar tudo para o papel. Minha letra cursiva se enrolava, formando arabescos, quase mergulhando nas beiradas das folhas. Eu tentava deixar cada linha perfeita. Olhando para a caderneta amarela, estreitava os olhos até as palavras se tornarem uma única tapeçaria cor de chumbo. As frases padrão da AEA — Somos afetados por um sistema de mundo pecaminoso, por nossa carne pecaminosa e pelos ataques manipuladores do Diabo — se tornaram um exercício de encaixar meus f sempre muito inclinados nas palavras em que essa letra aparecia.

Minha mãe se sentou no sofá e uniu as mãos no colo, assentindo para um monólogo inaudível e interno. O delineador em seus olhos havia sido reduzido a uma faixa fina, e seu cabelo não tinha mais os cachos vibrantes. As mechas estavam soltas, penduradas sobre os ombros. Ela havia parado de ir ao salão de bronzeamento durante as longas tardes livres que tinha até me pegar na instituição, mas sua pele ainda estava mais escura do que o normal, como se ela tivesse adormecido em um campo e voltado para a civilização sem se preocupar com o próprio reflexo. Parecia pelo menos dez anos mais velha do que quando tínhamos chegado a Memphis.

— Seu pai perguntou como a gente está — disse ela.

Vi que segurava um celular cor-de-rosa em uma das mãos, que devia estar conversando com meu pai no outro quarto.

— Falei que estamos bem.

— Aham.

— Temos mais alguns dias — continuou ela, conferindo o celular pela décima vez, a luz branca se acedendo na palma de sua mão.

Apesar de não ter dito nada, eu sabia como completar aquela frase: até você estar curado.

Bati a lapiseira na caderneta amarela. Estava na metade do dever de casa, mas não conseguia pensar em nada de novo. Tentei vasculhar minhas lembranças em busca de uma fantasia sexual mais longa, algo que completasse toda a folha, mas já havia esgotado a maioria delas, e o que sobrara parecia pequeno demais para ser registrado. As muitas vezes no ensino médio em que meus olhos haviam acompanhado a curva da perna de um menino, subindo e subindo até que o interior escuro de seus shorts de ginástica engolissem o mistério. As propagandas de cueca pelas quais passava no setor de roupas do Walmart, fingindo estar apenas levemente interessado no corte e no tamanho das boxers, apertando o material abaixo da barriga do modelo como se estivesse testando a força dele. Esse era um problema que eu estava disposto a enfrentar — já que estava longe de ser pecado —, mas ainda assim era um problema. Eu havia confessado aquilo para J naquela manhã, buscando seus meses a mais na AEA como guia, e ele tinha admitido que passara a inventar a maioria das histórias.

— Fiquei sem coisas para contar na primeira semana que cheguei — dissera ele.

Estávamos sozinhos no pátio, sem ninguém por perto que pudesse nos ouvir.

— Então achei que era melhor tentar imaginar coisas novas.

Os demais pacientes estavam reunidos perto da cozinha, seguros no ar-condicionado. Eu já conseguia sentir o suor se formando no alto de minha testa, o sol queimando meu cabelo.

— Sério?

Eu quase sempre dava respostas de uma palavra para J. Sentia-me burro perto da inteligência, da dor dele. Havia coisas que eu queria que ele soubesse a meu respeito, mas não conseguia dizê-las. Que, em outras circunstâncias, eu podia ser muito inteligente. Que lia bons livros. Que ia ser um escritor um dia. Mas nunca sabia como introduzir isso na conversa sem soar estranho e egocêntrico.

— Se me arrepender de pecados que nem cometi — dissera J, enfiando uma mecha longa de cabelo atrás da orelha —, acho que Deus pode me levar direto para o Quinto Passo.

De acordo com J, o Quinto Passo exigia muito tempo. E o Quinto Passo ainda vinha sete etapas antes do final. Entre o passo que ele estava, o Quarto — fazer um inventário moral extenso e corajoso de nós mesmos — e o Quinto — admitir para nosso Pai Celestial, para nós mesmos e para outro ser humano a natureza exata de nossos erros —, havia a vastidão do abismo, havia o fogo do Inferno. Uma coisa era admitir a natureza aproximada dos nossos erros, mas a natureza exata? Nós mal conseguíamos entender nossos próprios impulsos pecaminosos. Até Smid dissera que não havia conseguido passar por todos os passos sem tropeçar de vez em quando.

— A maioria de nós aprende a se perdoar pelos nossos deslizes — dissera J.

Ele esbarrou em meu ombro enquanto se virava para olhar de volta para nosso grupo, a surpresa do toque deixando um gosto metálico sob a língua.

— Tudo isso faz parte do processo. Nós constatamos, esquecemos e passamos para o passo seguinte.

* * *

Eu já podia imaginar os olhares enojados dos membros da equipe quando dissesse:

— Tive uma fantasia.

Um deles diria:

— Sem descrever muitos detalhes pecaminosos, você poderia explicar a situação?

Seria ainda pior durante minha sessão de terapia particular com Cosby. Ele me pediria para descrever os contornos de minha fantasia, o modo como ela havia me mantido nas mãos maldosas do Diabo, como agora era objeto de nojo para mim. A expressão em seu rosto se contorceria, e eu teria de imitar seu olhar de repugnância se quisesse convencê-lo de meu progresso.

Reli o IM de exemplo no manual ao meu lado, buscando uma inspiração.

Não preciso de sexo nem de outra coisa para me medicar, mesmo que

ainda o deseje às vezes. Tenho muito a dizer e escolho compartilhar isso

de forma apropriada. Tenho valor. Sou inteligente, engraçado, carinhoso

e forte. Sou masculino.

Minha mãe e eu ficamos em silêncio por vários minutos, meu lápis pairando sobre a página. “Masculino.” A palavra parecia muito gananciosa, postada ali ao final da linha, resumindo tudo que vinha antes dela. Mas não era mesmo esse o objetivo final? Masculino significava forte. Masculino significava heterossexual. Se ao menos aprendêssemos a essência do que significava ser masculino, então aprenderíamos o resto. Arranquei a página escrita e fiz dela uma bola que atirei ao lixo. Feminino demais. O melhor que podia fazer, naquele momento, era copiar tudo, escrever em uma letra feia, parecer o mais masculino possível no papel e em pessoa. Comecei a escrever em outra folha. Minhas frases se tornaram mais curtas, meus verbos, mais ríspidos. Antes de os conselheiros tirarem meu diário, eu vinha criando versões péssimas da escrita de Faulkner. Agora tentava imitar Tchekhov, Hemingway, Carver. Escrevi sobre minhas fantasias com uma frieza que nem sabia ser possível.

Quando o conheci, tive pensamentos impuros. Ele era atraente para mim.

Tinha uma visão da masculinidade que eu desejava porque me fora

negada na infância. Eu estava irritado comigo mesmo por gostar dele.

Sabia que era errado. Sabia que tinha que pedir ajuda a Deus.

Eu nem sabia quem era o objeto daquela fantasia. Podia ser qualquer garoto pelo qual fui apaixonado. Podia ser J. Acrescentei alguns detalhes para garantir que ninguém do grupo soubesse que era ele: “Era um cara muito mais velho. Dirigia uma picape. Fumava cigarros Marlboro”.

Tinha tomado muito cuidado naquela manhã e me distanciado de J para garantir que ninguém notasse minha atração crescente por ele. Parado no pátio durante o intervalo, apenas eu e ele, o sol quente em meus braços, eu fizera questão de manter uma quantidade generosa de concreto entre nós. E concordara quando J dissera:

— A gente não devia estar sozinho aqui.

Por isso, andara até a porta sem hesitar, a puxara e pusera um painel de vidro entre nós. Regra número dois: SE ESTIVER EM DÚVIDA, NÃO FAÇA.

* * *

Olhei para cima. A imagem das palavras do manual flutuou como uma faixa vermelha na sala escura. O rosto da minha mãe estava semiescondido pela sombra. Depois de alguns segundos, interrompi o silêncio. Queria explicar a linguagem da terapia para ela, testar tudo nela e ver qual seria sua reação.

— Meu pai já foi alcoólatra? — perguntei.

Nós observamos nossos reflexos no mundo sombrio da TV desligada, onde a distância entre nós era ainda maior.

— Por que você está me perguntando isso? — quis saber ela.

— É para um projeto — expliquei. — Um genograma que lista os pecados dos nossos pais. Só quero ter certeza de que pus tudo direitinho.

O silêncio voltou a se estabelecer. Achei que seríamos levados para o mundo sombrio, que nunca mais falaríamos de novo.

— E os pecados das mães? — perguntou ela, por fim.

Acho que ficamos sentados daquele jeito, olhando um para o outro pela TV desligada, por muito tempo.

— Isso também, eu acho.

— Seu pai teve algumas experiências com álcool, mas seu avô era o verdadeiro alcoólatra. Seja como for, faz muito tempo.

Pensei em meu avô, o pai do meu pai, o bêbado. Nas raras ocasiões em que o havia visitado, ele mal me reconhecera e, mesmo nos momentos em que conseguiu distinguir quem eu era, tinha me chamado por meu nome do meio — Clayton, Clay —, como se o nome herdado de meu avô materno fosse parte de uma identidade que ele não reconhecia. Meu avô era um homem pequeno, de braços curtos e rosto estreito e envelhecido: a face de alguém que havia trocado todos os seus bons sorrisos por uma última gota de álcool. Era difícil imaginar que ele tivera força suficiente para chicotear alguém, que conseguira causar medo com aqueles músculos pequenos. Parado ao lado do meu pai, meu avô parecia um homem minúsculo, o oposto do masculino — no entanto, de algum modo, meu pai havia conseguido pegar aquele material bruto e formar sua própria versão do sulista ideal. O que me faltava então? Qual era o defeito? Quanto mais eu pensava naquelas coisas, mais a lógica da AEA começava a se desfazer e eu queria que minha mãe estivesse ali quando isso acontecesse.

— Não entendo por que você precisa me perguntar isso — disse minha mãe.

Ela havia se levantado. A luz da luminária a atingia em um ângulo agudo e as sardas de seu rosto e de seu braço pareciam resultado das pinceladas aleatórias e experientes de um pintor.

— Bom — falei, estendendo as palavras —, eles precisam saber de onde vêm meus impulsos sexuais.

— Não estou entendendo nada — repetiu ela. — Por que eles precisam saber tanto sobre a nossa família? O que nossa família tem a ver com seus impulsos sexuais?

— Eles dizem que muitos deles são causados por traumas na infância.

— Em que passo você está?

— Ainda estou no primeiro.

— Quanto tempo leva cada um?

— Não sei. Meses. Anos.

— Anos?

— Alguns dos conselheiros estão lá há mais de dois anos. Os mais velhos estão lá há uma década.

Minha mãe ajeitava a blusa amassada. Ela olhou para o espelho pendurado na parede oposta, mexeu no cabelo. Depois de alguns segundos, pegou as chaves do carro na mesinha de centro. Eu me perguntei se íamos embora naquele instante. Perguntei se ela ia marchar para a AEA e exigir uma explicação.

Antes que o silêncio recaísse sobre nós, ela disse:

— Vamos sair hoje. Esqueça as regras. Vamos comer comida de verdade.

A AEA era muito clara em relação às regras das “zonas seguras”. Havia um mapa em uma das paredes da instituição que listava as poucas áreas da cidade sem shoppings, restaurantes, cinemas, livrarias seculares e lojas de pornografia. Na verdade, toda a cidade era proibida, a não ser por lugares com a palavra “Cristo” no nome. Nosso hotel ficava bem no meio do mapa da AEA, o mais distante possível de toda influência pecaminosa. A ideia de sair dali, mesmo que por apenas um instante, era tentadora. Algo diferente de um frango velho do KFC, molho frio, uma pilha de ossos roídos em uma caixa de papel. Algo diferente dos estacionamentos meio vazios e dos centros comerciais padrão. Fechei o manual, a capa de plástico quebrando na lombada. Imaginei o estalar do cinto de meu avô e meu pai no canto de um cômodo, com o braço erguido para proteger o rosto.

— Ele revidou alguma vez? — perguntei. — Meu pai. Ele alguma vez tentou sair de casa?

Minha mãe passou por mim e foi até a porta. Passou a corrente pela base e destrancou-a: um ruído oco de corte.

— Tem algumas perguntas que eu não faço.

* * *

Lá fora, o ar estava ainda mais quente e úmido do que eu me lembrava, mas uma leve brisa nos seguiu até o carro, nos incentivando a seguir em frente. Depois de ficar horas sob a luz antisséptica da instituição, a promessa de um jantar elegante em um bom restaurante era como esperar pelo maná no deserto. Imaginei que os membros da AEA nos interceptariam na saída do estacionamento do hotel, que acenariam os braços freneticamente em nossa direção, mas o estacionamento continuou vazio quando seguimos para a estrada interestadual. O rosto de minha mãe logo adquiriu a doçura que eu via quando íamos fazer compras na cidade. E, à medida que seguíamos para mais longe do hotel, fomos conseguindo nos livrar do presente, entrar em um futuro alternativo que apenas alguns meses antes havia parecido impossível.

Não que ela tivesse desistido da terapia. Na hora que se seguiu, minha mãe me perguntou pelo menos dez vezes se eu achava que ia ser curado. Tínhamos apenas decidido ignorar os detalhes por um instante.

— Aonde nós vamos? — perguntei, observando a barreira de som da rodovia e suas faixas sujas de fuligem passarem pela janela.

Minha mãe ligou o limpador de para-brisa.

— É uma surpresa.

Enquanto saíamos da rodovia e fazíamos uma curva, a fachada espelhada do Adam’s Mark Hotel pairou sobre nós, um diamante raro e brilhante no centro da cidade. Minha mãe disse a mesma coisa que sempre dizia quando passávamos por ele.

— Seu pai e eu costumávamos passar toda noite de Ano-Novo lá. Era tão bonito lá dentro. Tudo era tão bonito...

Mas nós não íamos ao Adam’s Mark. Íamos a outro lugar criar lembranças próprias.

* * *

Eu costumava pensar muito na vida que meus pais haviam compartilhado antes de mim, em como tudo havia parecido inevitável. Meu pai era zagueiro da equipe de futebol americano. Minha mãe, animadora de torcida. Todos na cidade torciam pelo sucesso deles. Os dois erguiam taças de champanhe todos os anos no Réveillon, a única noite em que podiam beber algo alcoólico: um brinde ao ano seguinte, ao seguinte, ao seguinte, até, por fim, minha mãe abrir mão da taça diante de um grupo de amigos no último andar do Adam’s Mark Hotel, brindando um novo nascimento que não chegaria da primeira vez. Até que então cheguei eu, o garoto que realizaria todos os seus sonhos. Era difícil imaginar o tamanho do amor que tinham por mim, a fé fácil que deviam ter posto em Deus no momento de meu nascimento tranquilo. Era difícil imaginar como devia ter sido decepcionante para eles descobrir que eu não era exatamente tudo que desejavam, que era uma mancha em sua união perfeita.

Naquela manhã, eu havia lido o testemunho de Smid na contracapa do manual. O texto sugeria que todos podíamos seguir o caminho que muitos de nossos pais haviam tomado. Em “Jornada para longe da homossexualidade”, Smid escreveu que havia conhecido a segunda esposa, Vileen, cuidando do jardim. “Muito romântico!”, disse ele. Eu a imaginei com um chapéu de abas flexíveis, um vestido longo na altura dos joelhos e sandálias de dedo nos pés bem-cuidados. Ela deve ter visto as covinhas de Smid quando ele se aproximou da erva daninha ou do galho mais próximo com o sorriso simples de uma criança, um sorriso que havia atraído muitos homens para seu estilo de vida sexualmente reorientado. “Ela provavelmente percebeu que minha atração por homens não havia mudado de forma geral, mas que eu a amava muito e que escolheria diariamente me manter fiel a nosso casamento. Ainda não me arrependi dessa decisão.”

Assim como meu pai, Smid era excelente em converter pessoas, em justificar os humores repentinos que o dominavam. Em seu testemunho ele havia omitido a maior parte de sua vida pregressa, sem jamais mencioná-la de forma explícita em nossas sessões. Era difícil imaginar que havia sido casado quando sabíamos que ele já havia estado com muitos homens. Até ler o testemunho, eu não tinha ideia de como sua jornada havia sido vasta. “Eu havia criado um costume viciante de me masturbar, que levei para meu casamento”, escreveu Smid. Assim como meu pai havia condenado tudo que viera antes de seu chamado, visto tudo como destroços, forragem para o objetivo maior de Deus para sua vida, Smid havia restringido cada erro de seu primeiro casamento como sinal do pecado do vício. Por ter conseguido se afastar daquele mal, Smid acreditava que um poder maior o havia elegido para guiar outros gays para longe do vício e para dentro de casamentos bem-sucedidos. Ele acreditava ser capaz de fazê-lo porque detinha certo conhecimento sobre as circunstâncias familiares que haviam contribuído para a formação do vício da homossexualidade. A história do meu pai tinha um paralelo óbvio: trabalhar com criminosos — “delinquentes”, dizia ele — o incentivara a começar o ministério na cadeia de nossa cidadezinha do Arkansas. Como homens bons se tornavam delinquentes? Porque vinham de circunstâncias como a dele, famílias em que pais alcoólatras haviam feito algo brutal.

Mas o que havia mantido suas vidas unidas antes da conversão, antes que a lógica descritiva do pecado reduzisse a complexidade humana a um silogismo? Que forma tivera a fé deles, mesmo que limitada, em suas longas vidas de pré-convertidos? O cristianismo é, entre outras coisas, repleto de convertidos. Pedro renunciou ao ateísmo para se tornar pescador de homens. Saulo se tornou Paulo na estrada para Damasco, expurgou um passado em que a execução de bons cristãos era seu trabalho. Mas a Bíblia nunca nos mostra como era o coração pulsante de um pré-convertido. Amasse a primeira metade da história e a jogue no lixo. Todo o resto é distração.

E quem era eu antes da Amor em Ação? Um garoto de dezenove anos cuja segunda pele era a escrita, a terceira era seu senso de humor e a quarta, a quinta e a sexta eram as várias formas de sarcasmo e irreverência que havia conseguido pilhar de seu contato limitado com professores de Inglês durante o primeiro ano em uma faculdade de belas-artes a duas horas de casa. Removida a minha pele, eu não estaria mais a salvo do suicídio do que T. Removida a minha pele, não haveria nada além de uma vontade de me encaixar na linhagem do meu pai, em minha família. De acordo com a lógica da AEA, minha única opção era me converter, sufocar minha antiga personalidade com os galhos da árvore genealógica, e emergir, piscando, em um nascer do sol damasceno.

* * *

Minha mãe e eu estávamos no Peabody Hotel, onde a grande atração turística era um bando de patos-reais que viviam na fonte do saguão. Os patos passavam metade da vida voando em formação até o teto e devia ser lá que estavam, já que a fonte estava vazia a não ser por centenas de moedas brilhando, douradas, à luz fraca. Minha mãe e eu observamos a água bater nelas até ser impossível distingui-las.

— Quer fazer um pedido? — perguntou minha mãe.

Eu me imaginei pegando um punhado de moedas e jogando os pedidos de estranhos para cima.

— Na verdade, não — falei.

Naquele momento, sob a luz do saguão, percebi como todas aquelas moedas pareciam exatamente iguais. A maioria de nos não ia conseguir o que queria.

O saguão estava silencioso, mas era um silêncio que eu e minha mãe conseguíamos aguentar: o murmúrio de vozes alegres em meio à luz baixa dos candelabros, o bater da água da fonte, o eco de sapatos caros contra o mármore polido. Acrescentamos ao eco o som de nossos sapatos menos caros e seguimos para um pequeno restaurante italiano à luz de velas, nos fundos do saguão.

— Que graça — disse minha mãe.

Ela corria na frente e eu tentava acompanhar.

O restaurante estava basicamente vazio, com alguns casais de meia-idade sentados em mesas próximas à parede. Minha mãe e eu escolhemos uma nos fundos, esperando obter uma boa vista da sala e das pessoas. O garçom nos entregou dois cardápios, sorriu e desapareceu atrás da porta da cozinha antes que eu pudesse vê-lo direito.

— Como você acha que é a história deles? — perguntou minha mãe, lançando um olhar para o casal bem à nossa frente.

Braços misturados às bases das taças, velas iluminando as abotoaduras do homem, pratos parcialmente consumidos: a comida parecia ser a última coisa com a qual se preocupavam no momento. De tempos em tempos, a mulher inclinava a cabeça para trás e sorria.

— Acha que são amantes?

— Não sei.

Olhei para minha mãe. Tinha as costas retas e uma postura imponente, exatamente igual à da foto do recorte de jornal que mantínhamos preso à geladeira em casa. Ela fora fotografada em um vestido de baile coberto de lantejoulas no Peabody Hotel, na estreia de A firma, de Sydney Pollack. O evento todo havia sido o presente de 25 anos de casamento dado a ela por meu pai. Na legenda sob o artigo, minha mãe havia sido considerada uma figurante do filme, um erro que sempre conseguia deixá-la feliz. O mundo parecia misterioso para mim: alguém de fora, mas também um pouco extraordinário. Muitas vezes eu havia me perguntado se essas pessoas cujas vidas criávamos também faziam o mesmo conosco, se podíamos ser figurantes em seus dramas. Era reconfortante pensar que o que estávamos passando podia ser uma parte menos relevante na produção de outra pessoa.

— A mulher tem pelo menos vinte anos a menos — disse minha mãe.

— Vinte e cinco — falei.

— Trinta.

Nós abrimos o cardápio e minha mãe apoiou o dela na mesa e se aproximou de mim para proteger parte da nossa conversa.

— Quer saber qual é a minha grande ideia?

— O quê?

— Nós vamos ganhar um monte de dinheiro com ela.

— Qual é?

Era divertido voltar a dar um toque de dramaticidade à nossa conversa, manchar a cena com algumas palavras selecionadas, experimentar a sensação de sermos personagens em um filme. Depois de ouvir a liturgia simples das várias tentativas de suicídio, dos prognósticos de HIV e das hermenêuticas ajustadas da Bíblia na terapia de grupo, eu estava pronto para fazer algo divertido.

— E aí? — perguntei.

Ela estava aumentando o suspense. Meu olhar passeou pelo bar. Homens de terno, alguns deles com pastas de couro pousadas perto de sapatos encerados. Pensei em A firma. Parte do algodão usado nas cenas de fuga de Tom Cruise viera da nossa processadora e, apesar de nossos nomes não terem sido listados nos créditos, ainda assim havíamos nos sentido importantes, envolvidos naquele projeto ao ver Cruise cair em uma cama branca feita por nós. Fui dominado por uma familiar onda de orgulho.

— Minha ideia brilhante — disse ela, contendo as palavras por alguns segundos dramáticos — é fazer um Preacher’s Wives Gone Wild.

— Tipo um Girls Gone Wild com mulheres de pastores?

Imaginei dezenas de mulheres de meia-idade puxando a blusa para cima, permanentes se misturando com o tecido, os seios pálidos sacudindo para a câmera.

— Não ia ser incrível? — perguntou ela. — Seu pai ia surtar.

— Isso é loucura.

— Não sei por que não posso ganhar um pouco de dinheiro com o trabalho feito para Deus.

Aquela era minha mãe, a mulher que devia apoiar meu pai em tudo que ele fazia. O que ela estava pensando?

— Mas isso é blasfêmia.

— É? Às vezes, não sei qual é a diferença entre blasfêmia e diversão.

— Ai, meu Deus.

— Acho que você também sabe blasfemar um pouco.

O garçom chegou para anotar nosso pedido e nós escolhemos os primeiros pratos que vimos, sem nos dar ao trabalho de ouvir os especiais do dia, felizes com qualquer coisa que pudessem nos trazer. Por um instante, os olhos da minha mãe perderam a alegria enquanto ela examinava meu rosto para ver quanta atenção eu estava prestando a nosso belo garçom. Tentei não olhar para ele, mesmo enquanto sentia seu sorriso quente ao meu lado. Eu sabia que ela estaria procurando sinais.

Depois que o garçom foi embora, nós dois nos inclinamos para o meio da mesa.

— Seu pai e eu estamos casados há tempo demais para ele achar que vou virar uma dessas velhas esposas de pastor — disse ela. — Do tipo que usa saia jeans feia, lança sorrisos para todos e fica fazendo charme para as outras mulheres.

Iluminada por aquela imitação de luz do Velho Mundo, minha mãe tinha voltado a ser bonita. Seu cabelo louro ganhara um brilho dourado, e as veias que atravessavam seus olhos azuis haviam recuado para dar lugar a um brilho mais quente.

Eu não a via tão empolgada havia muito tempo. Minha mãe parecia mais ela mesma, e eu estava começando a me sentir mais eu mesmo. Queria me agarrar àquele momento: o glamour secular, o brilho em nossos olhos. A AEA me dizia diariamente que perder minha própria identidade significava ganhar virtude e que ganhar virtude significava se aproximar mais de Deus e, por consequência, de meu verdadeiro eu celestial. Mas os meios para aquele fim — o ódio de si, a ideação suicida, os anos de falsos começos — podiam fazer com que nos sentíssemos mais solitários e mais distantes de nós mesmos do que nunca. No processo de purificação, corríamos o risco de apagar cada detalhe que já havia sido importante para nós. Nos transformávamos em discursos e perdíamos a ação: não éramos o figurante extraordinário, mas o cantor comum de uma missa normal. Fui para a terapia achando que minha sexualidade não importava, mas percebi que cada parte de minha personalidade estava intimamente ligada. Cortar um pedaço danificava o resto. Em minhas orações eu pedira para ser purificado, mas, no minuto em que sentira as geladas águas batismais queimando tudo que eu já havia amado, tinha começado a me abrir para uma possibilidade anterior: o amor incondicional, a chama original que me levara para mais perto de Deus, minha família e o resto do mundo. Eu contava e não contava. Era parte de um mistério muito maior — e minha mãe tinha me dado tudo aquilo no instante em que eu nascera.

— Ah, olha só — disse minha mãe.

Ela deu um tapa na mesa com uma das mãos e apontou para o saguão com a outra.

Alguém baixou as luzes do restaurante e os patos-reais do Peabody começaram seu voo do saguão para o telhado, deixando para trás poças de água clorada da fonte. O grasnar deles reverberou por todo o corredor de mármore até o restaurante silencioso e nossa mesa.

— Eles fazem isso desde que eu sou pequena — explicou ela, a voz embargada com as lembranças do passado.

Aqueles patos-reais eram parte de uma linhagem familiar originária de algum lugar das florestas do Arkansas. Alguém os havia convertido. Em algum momento, eles haviam se esquecido da sensação de nadar em água sem cloro.