Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Garrard Conley · Capítulo 20 de 20

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Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Epílogo

 

A voz de Smid surge da escuridão, cercando-me de suas sílabas suaves e cheias de sotaque. Estou deitado em minha cama num pequeno apartamento em Auburn, Alabama, depois de dois anos de mestrado em escrita criativa, relaxando após uma noite de pesquisa sobre dramas da época da Restauração. Ouço um podcast de This American Life, a voz de Ira Glass um refúgio de pensamento liberal em um estado extremamente conservador, quando de repente — como se uma mão fria saísse do passado para agarrar meu pescoço — a voz de Smid me leva de volta para a Amor em Ação.

— John, você não precisa mais viver assim — diz a voz.

É uma gravação de uma das muitas participações de Smid em um programa de TV evangélico. Na entrevista, ele cita Deus, cuja voz um dia disse que ele precisava se tornar heterossexual, que isso só seria possível se ele seguisse as ordens celestiais.

Tateio a escuridão ao lado de minha cama em busca da luminária e a acendo. A luz queima meus olhos. Isso não pode estar acontecendo. Aquela vergonha pessoal trazida a público. Estranhamente, sinto que devo proteger a informação, como se ninguém além de mim tivesse o direito de ouvir aquele tipo de conversa. O tom da entrevista em The American Life é brincalhão, com frases feitas que traem a audiência liberal acostumada a rir de “um daqueles lugares cristãos que dizem que podem curar a homossexualidade”. É o tom de muitos dos meus professores, de pessoas tão distantes da perspectiva conservadora cristã que são incapazes de não soar petulantes, muitas de suas vidas protegidas por famílias que as apoiaram desde pequenas.

Fico de pé ao lado da cama, enquanto manchas passam por meus olhos e faixas laranja e amarelas formam redemoinhos pelas paredes brancas e nuas. Tachinhas marcam os lugares de onde acabei de retirar fotos de mim e de meu último namorado: lembranças de uma longa série de intimidades que foram murchando, de avanços feitos e aceitos, mas recusados quando as coisas ficavam sérias demais. Ninguém chegaria perto o bastante para me machucar.

Mas ali estava ela: a voz que tanto tentei esquecer, ultrapassando as barreiras que construí para declarar uma verdade que chega dez anos atrasada e resolver o que, em dado momento de minha vida, parecia impossível de ser resolvido.

— A transformação da maioria dos homossexuais não vai incluir uma mudança na orientação sexual.

Como se isso fosse a única coisa necessária — Smid admitir a mentira óbvia que vendeu para mim e minha família — para consertar os danos infligidos a todos nós. Como se isso pudesse compensar a década de confusão e dúvida que acompanhou o colapso da minha fé.

Este é o primeiro de muitos pedidos de desculpas. Com o passar dos anos, conselheiros de reorientação sexual continuaram admitindo seus erros, posando para fotos de revistas, aceitando prontamente oportunidades para dar entrevistas. A Exodus International, a instituição da qual a Amor em Ação era subsidiária, será fechada e, depois disso, apenas algumas instituições desse tipo continuarão operando — nenhuma delas tão grande ou dominante quanto a Amor em Ação, apesar de alguns evangélicos mais insistentes terem resolvido exportar a ideia para lugares como Uganda. O roteiro mais popular será o da redenção: o tirano que se tornou reformista. Esses ex-conselheiros até virarão autores. Smid escreverá um livro de memórias, Ex’d Out, o autopublicará e o venderá em muitas de suas entrevistas. Na ficha biográfica do livro, incluirá palavras que, apesar de serem parcialmente verdadeiras no momento em que serão escritas, farão todo meu corpo tremer de raiva.

Seja lidando com um indivíduo diretamente, com toda uma família ou

falando em igrejas ou seminários em todo o mundo, sua mensagem de

abertura e de honestidade ecoa entre todos que desejam ser aceitos,

amados e compreendidos.

Levarei anos até ter forças para terminar as páginas da minha própria história, até conseguir me aproximar das minhas lembranças. Regressarei à casa de meus pais de tempos em tempos, e lá agirei como um estranho. Nesses momentos, minha mãe vai me arrastar para todos os anos de Inferno que eles viveram desde que os abandonei em meio à insegurança, à dúvida e ao medo de que tivessem cometido um ato imperdoável do qual nunca poderiam se recuperar.

— Vocês dois têm que lidar com isso — dirá minha mãe, apontando primeiro para meu pai, depois para mim. — Eu me recuso a ficar no meio de novo.

Mas vou recusar o pedido dela. Vou me recusar a olhar para meu pai, o homem com quem, após a AEA, basicamente me comuniquei através de e-mails rápidos e respostas curtas. Vou correr para fora da sala, entrar em meu antigo quarto e bater a porta. Vou cair no colchão macio, encarar o teto de gesso empelotado e passar as mãos pelo lençol de muitos fios, enterrar o rosto na frieza de uma cama de lençóis recém-trocados. Meus pais continuarão sussurrando do outro lado da porta, mantendo o fluxo de culpa e aceitação que provavelmente se estabelecera de forma tão gradual ao longo dos anos que não era mais tão chocante para os dois quanto era para mim. Para bloquear o som, vou me levantar e começar a vasculhar meu armário em busca da coleção de Grandes Livros que comprei em minha fase clássica e extremamente zelosa.

Quando tocar nas bordas douradas das páginas, começarei a entender como cheguei perto de perder minha paixão, de perder minha vida. Desde que saí da AEA, gastei muita energia tentando recuperar o tempo perdido com as pessoas, aprendendo a acreditar em um mundo que não era mais repleto de anjos e demônios. Toda vez que lia um livro ou aprendia um novo fato histórico que minha educação batista me ensinara a rejeitar, precisava lutar contra a desconfiança de que estava sendo enganado pelo Diabo. Nos fóruns e grupos secretos de Facebook para ex-ex-gays a que vou me juntar, verei outras pessoas falando sobre suas tentativas de suicídio e, nessas confissões, encontrarei elementos tão incrivelmente parecidos com os meus que, por um instante, chegarei a crer que tinham vindo direto da minha mente. Verei pessoas falarem sobre como perderam suas famílias, sobre as provações anuais que enfrentam à medida que os feriados de fim de ano se aproximam e a solidão que ameaça engoli-los outra vez.

“Quando penso em como é difícil sobreviver a apenas um dia, como é difícil tentar agir normalmente, às vezes tudo que eu quero é morrer”, dirá um membro de um grupo ex-ex-gay.

“Esqueci como é ser eu mesmo”, escreverá outro homem. “Como eu agia antes da terapia de reorientação sexual? Quando tento me lembrar, não paro de pensar que talvez esteja errado. Eles fizeram isso comigo. Ele me fizeram questionar a minha sanidade.”

“Eu nem falo mais com a minha família”, vai escrever uma mulher. “Eles ainda acham que preciso de mais terapia. Acho que prefeririam que eu morresse.”

O coro de vozes vai aumentar a cada ano, revelando décadas de dor, décadas perdidas, famílias desfeitas, relacionamentos destruídos porque pessoas fora do mundo ex-gay não conseguirão nunca entender o que os pacientes passaram. No Beyond Ex-Gay, um site dedicado à observação de sobreviventes da terapia de reorientação sexual, os usuários descreverão em detalhes dolorosos os efeitos duradouros da terapia reparadora.

Ela fez a sexualidade deixar de ser uma parte da minha vida e se tornar o

centro dela. Tudo gira em torno do medo dela e do medo de ser

descoberto.

Várias tentativas de suicídio, duas hospitalizações psiquiátricas.

Diagnosticado com transtorno bipolar severo de grau dois e transtorno de

estresse pós-traumático por vários médicos em dois estados diferentes. O

terapeuta da reorientação sexual me disse que os sintomas dessas

doenças eram causados por minha “confusão sexual”.

Onze anos depois, eu às vezes ainda me sinto enjoado ao tocar em outro

homem. É difícil (talvez impossível) manter um relacionamento sexual

de longo prazo.

Eu de fato perdi contato comigo mesmo durante todos aqueles anos

porque estava muito ocupado tentando ser outra pessoa. Agora me sinto

confuso em relação a quase tudo — Deus, fé, o lugar a que pertenço, o

lugar aonde devo ir a partir daqui. Perdi amigos. Muitas vezes me sinto

desesperado. Estou tentando pôr a vida de volta nos trilhos.

Vou abrir o manual da AEA, ler algumas frases e sentir a velha vergonha me dominar até não conseguir me concentrar mais. Mais uma vez, a voz de Smid vai engolir a minha antes que eu tenha a chance de dizer qualquer coisa. Vou enfrentar a dúvida, desconfiar das minhas lembranças, passar horas tentando reconstruir cenas tão carregadas de emoção que parecerão impossíveis de definir. Vou ligar para minha mãe para pedir detalhes, me sentar com ela à mesa e gravar suas palavras — e, em quase todas as vezes, um de nós vai acabar chorando. Minha mãe vai pedir desculpas sem parar. Vou tentar tranquilizá-la, mas não vou conseguir, porque a experiência foi de fato tão horrível quanto nos lembramos e nada nunca será esquecido de verdade. Nós nunca ficaremos realmente bem. Nossa família nunca será o que poderia ter sido.

E Deus. Não vou rezar para Deus em nenhum momento dessa década de luta. Não porque queira manter Deus fora da minha vida, mas porque a voz Dele não está mais aqui. O que aconteceu comigo tornou impossível a nossa comunicação, impossível acreditar em uma versão Dele que não fosse carregada de ódio por mim mesmo. Meus terapeutas de reorientação sexual O tiraram de mim, e não importa quantas igrejas diferentes eu frequente, sempre sentirei o mesmo peso morto dentro de mim. Sempre sentirei a dor de um amor profundo ausente de minha vida. Vou continuar a experimentar diversas denominações e religiões. Vou continuar a procurar. E, mesmo que não acredite mais no Inferno, vou continuar a lutar contra o medo dele. Talvez um dia eu escute a voz Dele outra vez. Talvez não. É uma tristeza com a qual lido diariamente.

Um dia, quando pensarmos que a maior parte da dor chegou ao fim, minha mãe vai ligar e me dizer que um diácono de nossa antiga igreja se recusou a convidar meu pai para pregar em um culto porque um homem na congregação protestara contra a ideia durante uma reunião da igreja, alegando que ter um filho “abertamente homossexual” representava um lapso espiritual no ministério do meu pai. Meus pais vão me dizer que, se eu escrever este livro, ele poderá perder o emprego de pastor. Os pecados do pai. Cada passo do meu sucesso vai se tornar uma lembrança da ideologia de reorientação sexual. Cada passo do meu sucesso vai se tornar uma ameaça direta ao sucesso do meu pai.

Anos depois, vou ligar para ele uma tarde para avisar que este livro é o que tenho que escrever, que eu talvez nunca fique bem se não fizer isso, que não saberei quem sou até terminá-lo.

— Eu só quero que você seja feliz — dirá meu pai, a voz embargada com o peso de tudo o que ele recusa. — De verdade.

E eu vou acreditar nele.

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