Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Garrard Conley · Capítulo 15 de 20

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Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Sábado, 12 de junho de 2004

 

Foram as balas de ursinho. Vermelhas, amarelas e verdes, cobertas de plástico, o plástico coberto por uma camada de poeira. Ninguém tocava naquele pacote havia meses. Eu estava paralisado no corredor do Conoco, tentando decidir entre as balas de ursinho e as de minhoca, a necessidade repentina e inesperada. Minha mãe esperava do lado de fora, no carro, mas não tínhamos pressa. Ainda faltavam duas horas até a cerimônia de ordenação, e parecia que havíamos planejado aquela parada sem dizer nada, como se fosse um tipo de estação onde podíamos realizar a transferência entre os dois mundos que agora habitávamos. Mas ali, olhando para as balas, sentia que as decisões mais simples haviam adquirido uma complexidade infinita, como se aquela fosse nossa última refeição ou um momento “pílula vermelha, pílula azul”, depois do qual nunca mais seríamos os mesmos. Eu queria voltar para o carro com o saco de balas certo, com uma escolha surpreendente que encantaria minha mãe, um salto intuitivo que faria sua voz subir para registros mais agudos:

— Nossa, faz anos que não como essas balas!

No entanto, eu não sabia mais se conhecia minha mãe bem o bastante para surpreendê-la.

Deixei as balas de ursinho penduradas nas varetas de metal do expositor e andei pelo corredor, o vidro refrigerado à minha direita tão frio que parecia quente, embalagens de cores vivas piscando no canto dos olhos, latas de metal iluminadas por uma fosforescência perolada. A caixa, uma senhora com um rabo de cavalo frisado, agia como sentinela, me observando desde que havia entrado no posto de gasolina. Eu devia estar parecendo deslocado naquela manhã: usava blazer azul-escuro e camisa de botão branca, os punhos basicamente escondidos; calça combinando; sapatos pretos sem cadarço. Um universitário indo para a igreja em uma manhã de sábado, quando devia estar vegetando no sofá, diante da TV, talvez até me recuperando de uma ressaca.

Havia uma câmera presa acima da cabeça da mulher. Por um momento breve e confuso, me perguntei o que aquela filmagem poderia provar depois. Se eu morresse em um futuro próximo, ou se fosse cúmplice de um crime horrível, será que um policial analisaria aquelas cenas em busca de uma breve aparição minha, será que tentaria decifrar o olhar de hesitação em meu rosto à procura de vestígios de medo ou malícia? Era bobagem pensar essas coisas, um melodrama desnecessário, mas eu não conseguia evitar. Vinha de cinco manhãs de terapia de grupo com suicidas, vidas que haviam sido destruídas em um instante e que nunca se recuperaram totalmente, e começara a esperar o inesperado. Um instante de graça ou terror — que talvez fossem a mesma coisa — podia acontecer de repente, e aquele parecia ser um momento tão apropriado quanto qualquer outro para Deus voltar a se comunicar comigo. Eu ia mentir sobre minha sexualidade diante de centenas de pessoas, de pé ao lado do meu pai enquanto ele fazia seus votos, e esse parecia o momento perfeito para o lançamento de raios, para o pilar de sal, para a coisa da qual não conseguia escapar.

Fui até o banheiro e me tranquei na última cabine. De acordo com as regras do manual, eu nem podia estar naquele banheiro sozinho: “Sempre que for a um banheiro público, você deve estar acompanhado por outros dois clientes, um dos quais deve estar na Fonte há pelo menos dois meses.” Na hora percebi por que os conselheiros haviam criado aquela regra. Reconheci os grafites costumeiros de banheiro, o tom casualmente sedutor rabiscado na porta laqueada da cabine. Havia um número de telefone ao lado da oferta e um nome, Mark. Sem saber direito por quê, saquei meu celular, digitei os números e salvei o contato como “Mark Banheiro”. Saí da cabine sem fazer xixi e ajeitei o blazer no espelho. Abri a torneira suja de terra, pus as mãos sob a água quente e usei a pele úmida para ajeitar os fios de cabelo de trás da cabeça. Queria garantir que nada estivesse fora do lugar. Eu podia, no mínimo, fazer o papel do Bom Filho.

Fechei a torneira e fiquei ouvindo o silêncio que se seguiu. Em meu bolso, havia um tipo de amuleto contra o que quer que pudesse acontecer naquele dia: um número para o qual eu podia ligar. E mesmo que não planejasse fazer nada com aquele Mark misterioso, o ato de discar seria meu segredo, algo que ninguém mais saberia. Era bom ter um segredo outra vez, estar livre do garoto louro e de suas mãos investigadoras. Era quase tão bom quanto teria sido receber meu diário de volta e entrar no mundo secreto das histórias que pertenciam apenas a mim. O telefone de Mark me preencheu, endireitou a postura dos ombros, estufou meu peito. Por que eu não havia notado isso antes? Contar a verdade às pessoas cria problemas.

* * *

Na tarde anterior na AEA, enquanto trabalhava no Caderno de Vícios, depois da atividade da máscara, nosso grupo havia recebido duas situações para testar a intensidade de nosso vício em sexo gay. Eu tinha muito pouca experiência nisso, mas todos esperavam que me arrependesse. A primeira situação era extremamente parecida com a que encontrei depois na parede do banheiro do posto de gasolina.

As duas situações que Cosby nos apresentou eram quase comicamente opostas, e tive que me controlar para não rir enquanto as lia naquela tarde, mesmo enquanto sentia o conhecido desejo pulsando sob o manual aberto, o sangue seguindo seu curso familiar até meu colo.

1. É sábado, você não precisa ir trabalhar e tem o dia todo de folga.

Você sabe, por ter lido os grafites das paredes de um banheiro masculino local, que um homem vai chegar às três da tarde e servir sexualmente qualquer pessoa que aparecer. Em menos de cinco minutos, você pode ter um orgasmo. Você pensou nisso a semana toda. Vai escolher estar lá às três horas?

2. Mais uma vez, as mesmas circunstâncias. É sábado e você está

de folga. Um amigo que você ama está vindo para a cidade hoje e chamou você para ir à praia. É um amigo muito próximo e vocês têm muito que conversar. Você resolve ir à praia com esse amigo?

— Vocês têm que ser sinceros consigo mesmos — disse Cosby, de pé diante da sala, os dedos das mãos ásperas de mecânico mal se tocando, canalizando uma versão de Zen e a arte da manutenção de motocicletas um pouco menos zen.

Observei os espaços entre as pontas de seus dedos e pensei em como as pessoas nunca realmente se tocavam, nem quando achavam que estavam se tocando. Na verdade, eram nossos elétrons que se tocavam, um fato que fez com que me sentisse um pouco menos culpado pela grande transgressão que havia descrito no IM daquela manhã — os beijos que dera em um aluno do curso de artes chamado Caleb —, mas também um pouco mais triste por viver em um mundo em que uma ilusão podia ditar de forma tão insistente o modo como eu via cada interação com as pessoas. Era um conceito que eu havia descoberto em uma de minhas maratonas noturnas de leitura, as palavras afiadas e satisfatórias saindo sem som dos meus lábios. “Osculação”: duas curvas que se tocam, mas não se intersecionam, nunca se intersecionam. Do latim osculationem: beijo. A intimidade era um truque, uma ilusão. Mas o que era mais uma ilusão em um mundo inteiro que parecia funcionar com base nelas? À medida que o tempo passava, eu sentia que me tornar heterossexual era simplesmente uma questão de boa iluminação, de ignorar o que não queria ver.

— Pensem no que vocês realmente fariam nessa situação — continuou Cosby. — Escrevam a situação que vocês escolheriam. Façam isso com calma. Pensem bem nisso.

Uma história no estilo “escolha sua aventura”, pensei. Só que, naquela situação, a escolha errada podia nos mandar direto para o Inferno. Sentado ao lado de J, olhando pela janela que as pernas dele formavam, encarei o carpete e pensei que qualquer escolha me mandaria para o fogo. E se aquele melhor amigo que “amava” e com quem queria ter um belo dia na praia tirasse a camisa e revelasse o corpo com o qual eu havia sonhado todos aqueles anos que passara longe dele? E se aquele dia inocente na praia se tornasse o começo de uma história de amor complicada, que repetiria para meus amigos décadas depois? Eu podia imaginar tudo aquilo acontecendo com alguém como J. Nós dois sentados em sofás em uma aconchegante casa de praia, com grossos romances russos apoiados no colo para esconder a ereção, lançando olhares sugestivos um para o outro, procurando por conchas na areia pouco antes do pôr do sol, reunindo-as em bolsos formados por nossas camisetas, a umidade fria tocando nossa barriga, a areia arranhando nossos pés.

O Caderno de Vícios deixava claro qual era a escolha certa: “A pessoa que escolhem [sic] ir à praia pode olhar para o relógio perto das três horas e fantasiar com o encontro sexual, mas sabe que fez a escolha certa.” Já a pessoa que escolhe ir ao banheiro pode se arrepender da decisão, “especialmente se, quando chegar ao banheiro masculino, a polícia estiver lá”.

Quando saí do banheiro do posto de gasolina com o número do misterioso Mark gravado no celular, meio que esperei sentir em meus pulsos o bater frio de algemas. Meio que quis isso. Uma ida à delegacia pelo menos me pouparia de ter que mentir para tantas pessoas — de ter que mentir, mais uma vez, para mim mesmo.

* * *

Voltei para o carro de mãos vazias. Se ficou decepcionada, minha mãe não demonstrou. Seus olhos cheios de rímel já estavam fixos nas montanhas cobertas de pinheiros entre as quais logo entraríamos. Desabei no banco, e ela deu partida no carro.

Um apito alto soou do painel.

— Ih — disse ela. — A gente está quase sem gasolina.

Tínhamos pensado em parar só para ir ao banheiro e comer alguma coisa. Havíamos ignorado o mostrador do tanque durante todo o caminho.

— Acha que dá para chegar?

Havia um desafio em sua voz: Será que vamos conseguir ou será que parar no meio da estrada é a melhor desculpa para não chegarmos? Ignorei. Era óbvio demais: o filho e a mulher do pastor parados no acostamento, o carro de um membro da congregação passando a caminho da igreja, encostando ao nosso lado para salvar o dia. Foi por pouco, diriam as pessoas. O Diabo estava tentando impedir vocês de chegarem. E eu e minha mãe ficaríamos sentados, conscientes de que éramos nós mesmos o Diabo da história de meu pai, que sempre havíamos sido.

— É muito pouco — falei, abrindo a porta. — Pode deixar que eu ponho.

Minha mãe apertou o botão do tanque.

— Você é mesmo filho do seu pai.

Ela queria dizer que, depois de tanto tempo na concessionária, eu e meu pai não corríamos esse tipo de risco. Que esses não eram os riscos que importavam para nós. Mas, na verdade, eu não era como meu pai nesse sentido. Ainda tinha que correr os riscos que ele havia corrido na minha idade. Aos dezenove anos, meu pai já tinha se casado com minha mãe e assumido a processadora de algodão da família, mudado toda a trajetória de sua vida. Agora, aos cinquenta e poucos, ele mudaria tudo outra vez. Eu estava ficando sem tempo para me transformar em alguém igual a ele. Ainda tinha que dar o salto para a vida heterossexual, fazer milagres com as próprias mãos, criar algo estável.

Pus a mangueira no tanque e apertei o botão. Eu sempre havia apreciado o correr da gasolina sob minha mão, a noção de que um gesto tão simples podia nos levar a grandes distâncias. O mito do progresso, do fornecimento infinito: eu ainda me agarrava a ele, assim como meus conselheiros. Todos os dias eu lia matérias suficientes para saber que Bush não parava de dizer ao país que era importante explorar nossas reservas de petróleo, reduzir a dependência de países estrangeiros. Por que a fé não podia funcionar da mesma maneira? O amor de Deus não podia voltar para mim em toda sua abundância se eu procurasse nos lugares certos? Eu não podia ser curado se cavasse um buraco fundo o bastante — se mergulhasse fundo na máscara — até chegar à fonte do meu verdadeiro eu heterossexual? Ou será que já havia me sujado demais ao gravar o número de Mark no celular, ao portar o inimigo em meu bolso? Torne-me puro, orei, enquanto litros de gasolina sem chumbo corriam sob meus dedos, em breve sendo convertidos em algo útil. Porfavor, torne mepuro. Porfavortornemepuro.

* * *

Filho dele. Mulher dele. Por um tempo, minha mãe e eu nos perdemos na abundância de tudo que meu pai passara a representar para as pessoas ali presentes. Não podíamos culpá-lo, mas ainda assim ele não fizera nada para impedir que isso acontecesse. Talvez ele nem sequer soubesse que isso estava acontecendo. Era natural para ele, e imagino que fosse natural para nós também, já que a Bíblia aconselha continuamente os membros inferiores de uma família a apoiarem o chefe da casa, a defenderem as crenças do pai.

Mas não houve momentos em que meu pai me incentivou a me tornar uma pessoa independente? Ele, mais do que todos, não havia aprendido a importância da individualidade? Seu pai, o bêbado, o havia levado a Deus e ensinado a importância da igreja, apesar de bater nele e em seus irmãos sempre que estava de mau humor. Estatisticamente, meu pai devia ter se tornado o mesmo bêbado violento que meu avô fora. Em vez disso, ele havia se rebelado contra o trauma infantil e assumido a fé radical do fundamentalista. Segundo o esquema da Amor em Ação, era meu pai que devia ter se tornado homossexual, não eu, já que fora ele quem sofrera todo o trauma enquanto minha infância havia sido relativamente tranquila. Segundo o esquema da Amor em Ação, a vida dele não fazia sentido.

* * *

Deslizei pelo assento, tirei os sapatos e pus os pés cobertos por meias pretas sobre a saída do ar-condicionado, os dedos imediatamente mergulhando no que parecia água gelada. Um raio de sol queimava a lateral de meu rosto.

— Como você está se sentindo? — perguntou minha mãe.

As mãos dela estavam firmes no volante, naquela mesma posição, como se indicassem dez para as duas. A vigilância, a ideia de não correr riscos desnecessários.

— Estou bem.

Estamos todos fingindo.

— A gente pode parar de novo, se você precisar.

— Tudo bem.

Alguns de nós percebem isso com mais facilidade, apenas.

Silêncio. Meu dedão do pé abria e fechava a saída do ar-condicionado. Com o número de Mark no celular em meu bolso, percebi que o que eu pensava era verdade. Manter um segredo, mentir por omissão, fazia com que fosse muito mais fácil ver todas as outras mentiras ao meu redor. Um especialista em mentiras não é especialista apenas nas próprias mentiras, mas também nas dos outros. Será que era por isso que os conselheiros da AEA eram tão bons em desafiar os pacientes, em chamar sua atenção? Por isso que Smid e o garoto louro não confiavam em mim?

— Está com fome?

— Não.

Posso contar tudo isso mais tarde, depois da cerimônia. Só tenho que esperar o momento certo.

— Tem certeza?

— Você está com fome?

É que estou com medo de você ficar com nojo de mim. Com medo de que você vomite de novo, bem aqui no carro.

— Um pouco.

Em uma curva fechada, uma caneta solitária caiu do porta-copos e rolou pelo piso, fazendo um barulhinho ao bater na barra de metal sob meus pés. Eu podia tê-la pegado, tirado a tampa e escrito minha confissão bem ali, se as regras da AEA permitissem.

— Vamos parar, então.

Agora percebo que tudo isso pode ter acontecido por causa do medo que eu sinto. Que toda essa suposta mudança é apenas para agradar a ele, para agradar a você.

— Vou parar no Sonic. O que você quer?

— Só uma batata frita.

Mas tenho medo de perder vocês. Tenho medo do que vou me tornar se perder vocês. Tenho medo porque acho que já perdi Deus. Deus parou de falar comigo, e o que posso fazer sem Ele? Depois de dezenove anos com a voz Dele zumbindo em minha cabeça 24 horas por dia, como posso andar por aí sem a segurança constante que Ele me oferecia?

— Uma batata frita e uma Coca-Cola, por favor.

Sob a estática do alto-falante, o bater de metais em uma pia invisível.

— E um Sonicburger.

— Na verdade, pode ser bolinho de batata?

Eu nem sei como seria ser gay. Não consigo imaginar uma vida em que meus amigos e minha família quisessem conversar comigo se eu fosse abertamente homossexual.

— Troque as fritas por bolinhos de batata.

— Não estou com muita fome.

Eu consigo fazer isso. Só tenho que fingir durante o processo, até poder correr um grande risco, seja ele qual for.

— Você vai ficar com fome depois — respondeu minha mãe.

Ela pressionou o botão da janela automática. O vidro deslizou atrás dela e bateu no isolamento de borracha.

— A cerimônia vai ser meio longa, e você vai ficar com fome. Vamos rezar para não termos que ficar para a recepção.

* * *

A igreja estava como eu lembrava. As paredes do santuário eram claras, de um branco casca de ovo, com belos bancos de madeira dispostos em intervalos regulares até o palco. Uma tela de projeção branca dominava o centro do palco e, atrás dela, ficava a parte de baixo de uma grande pomba de madeira, iluminada por trás por uma disposição de luzes difusas que o Irmão Stevens havia criado, inconscientemente, talvez, para imitar as flautas douradas de luz do grande artista católico romano Gian Lorenzo Bernini. Aquela disposição era uma falha no projeto do santuário, já que cobria o objeto mais bonito do salão, mas o Irmão Stevens compensava isso pedindo que quem quer que cuidasse do projetor erguesse a tela no fim do sermão, no exato momento em que ele começava a convocar as pessoas a percorrerem o corredor e aceitarem Jesus Cristo como seu salvador.

— Você vai fazer a coisa certa hoje? Vai seguir Jesus aonde Ele levar você?

Então a tela zumbia no auditório silencioso e a pomba era revelada em pleno voo, a ponta de suas asas em chamas, a luz refletindo na águas batismais sob ela, onde, em um dia bom, o Irmão Stevens batizava novos membros “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A revelação em câmera lenta era de tirar o fôlego, e a técnica havia funcionado muitas vezes, inspirado muitas pessoas a dar o primeiro passo para longe dos bancos e se aproximar daquela pomba santa, daquele único objeto extravagante em um santuário simples.

Mais tarde, eu perceberia que grande parte do sucesso da Igreja Batista naquela região do país podia ser atribuída ao uso elegante que ela fazia do contraste. Ao contrário da Igreja Católica, exageradamente decorada, a Igreja Batista tentava encantar com apenas um ou dois objetos de beleza — pois talvez sentisse que a maioria dos membros da congregação, oriundos de famílias humildes, se assustaria com ostentação. Pessoas como o Irmão Stevens e meu pai tinham orgulho da utilidade austera e espartana da igreja. Aquela simplicidade dava peso à história de vida de meu pai, que viera de uma família humilde. Essa sensibilidade estava refletida no modo como os membros falavam de posses mundanas, citando passagens sobre a influência corruptora do dinheiro — Porque é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus —, no modo como sempre brincavam com o fato de serem pobres, de suas circunstâncias terem se tornado abjetas. Era uma honra ir até o púlpito e revelar um testemunho que incluía pelo menos uma ocasião de perda total de poder aquisitivo. Todos acreditavam que esse tinha sido o início humilde da igreja de Cristo, levemente modernizado para as congregações atuais. Essas eram as circunstâncias necessárias e suficientes para a graça, o velho estábulo plantado, assim como a igreja, no meio de um campo vazio.

A mão de alguém em meu ombro, um beliscão em minha nuca.

— Você deve estar muito feliz pelo seu pai.

Dedos agarrando meu cotovelo, virando-me na direção do rosto enrugado de uma senhora, óculos grandes equilibrados na ponta do nariz.

— Você se lembra de mim?

Um homem de meia-idade ao meu lado, cutucando minhas costelas.

— Já leu O Código Da Vinci? É uma blasfêmia só, mas dá uma alfinetada muito boa nesses católicos. Essa devoção horrorosa a Maria.

Aquelas pessoas haviam se reunido ali para celebrar a vida do meu pai, para levar aquela nova família ao pastorado. Eram as mesmas pessoas boas que eu havia amado e em quem tinha confiado a vida toda. Mesmo assim, todos estamos mentindo para nós mesmos, pensei, a mão grudada no celular em meu bolso. Um aperto rápido em um botão e aquilo tudo terminaria. Por que ainda estamos mentindo para nós mesmos? Era confuso voltar àquela multidão de pessoas que gostavam de mim e só me desejavam o melhor — especialmente por saber que, se vissem o que eu tinha na mão, correriam direto para o Irmão Stevens e exigiriam a demissão imediata do meu pai. Em todos os cantos, havia sorrisos que, para mim, escondiam milhares de reprimendas inquietas. Já não havíamos ouvido as histórias, os boatos na igreja? O homem que traiu a esposa com dezenas de outras mulheres? O casal que filmou uma festa do pijama do grupo de jovens em sua casa, a câmera descoberta por uma menina que viu a luzinha vermelha piscando entre os livros de literatura evangélica. Eu sabia que o mundo era repleto dessas coisas, é claro. A única diferença ali, naquele santuário, era que aquelas pessoas estavam tentando se tornar algo maior que a soma das partes. Ou talvez estivessem tentando apagá-las, e aquele novo corpo repleto de Deus — aquele corpo batizado, limpo e não corpóreo — não tivesse espaço, não pudesse tolerar velhos estilos de vida.

Uma mão trêmula em minha lombar, o rosto enrugado do Irmão Nielson me encarando. O Irmão Hank a seu lado, segurando o fino cotovelo do velho para estabilizá-lo.

— Você finalmente voltou da sua faculdade chique? Aprendeu alguma coisa lá que não podia aprender aqui?

— Não muitas — respondi.

Aprendi que a sua filosofia “Vamos explodir todos” não vale nada. Entrei com tudo que tinha e aqui estou eu, mais perdido e confuso do que nunca.

Agarrei a mão fraca do Irmão Nielson. Ele havia ficado tão frágil no ano que passara desde o grupo de oração na concessionária que eu não quis dizer o que pensava de verdade. Como devia ter sido mais fácil para ele, um homem heterossexual, viver uma vida tão incrível e depois se sentar e observar os frutos de seu trabalho florescerem na forma de jovens diáconos, de jovens pastores como o meu pai — homens que ele havia inspirado com sua devoção firme, sua conexão permanente com Deus. Ele não tinha a menor ideia de como era ser extirpado de algo sem qualquer aviso. Porfavormeajudeaserpuro.

— Deixe o garoto em paz — pediu o Irmão Hank, sorrindo, os dentes ofuscantemente brancos.

Eu já o ouvira dizer que usava tiras de clareamento toda noite desde que havia se tornado vendedor de carros.

— Estou me mantendo puro, meninos — dissera ele. — Os clientes não conseguem resistir.

— Tudo bem — falei.

Não está nada.

Outras pessoas se aproximaram e apertaram minha mão. Vi um banco vazio e segui até ele, esperando chegar a uma parte menos lotada do santuário. O espaço era estreito, meus joelhos bateram na madeira polida e me vi em uma posição estranha, dando as costas para a maior parte dos membros da congregação só para conseguir passar. Senti os olhos em minhas costas e me perguntei, mais uma vez, quando viriam os raios. Será que Deus esperaria o momento em que eu estivesse no palco, mentindo descaradamente, ou será que faria isso em um momento tranquilo, na calmaria que precede a tempestade? O espaço tornava-se cada vez mais estreito e as luzes ficaram mais claras, ofuscantes.

— Onde você estava?

Uma voz familiar. Eu me virei e encarei um Indomável sorridente, a mão já estendida à espera da minha.

— Na faculdade, basicamente.

Cumprimentamo-nos. Perguntei-me se ele sabia onde eu havia estado na semana anterior.

— Eu sempre soube que você era mais inteligente do que eu — disse ele.

Indomável parecia ainda mais arrumado do que quando eu o vira pela última vez, na prisão. Usava as costeletas bem aparadas e uma camisa branca engomada.

— Já fez seu ph.D?

— Ainda não.

É fácil para você também. Viveu a vida do jeito que queria até alguém como meu pai aparecer e tentar purificá-lo. Agora você faz o mesmo pelos outros. Mas eu nunca cheguei a viver minha vida de pecado. Nunca soube como ela é, de modo que não sei a respeito do primeiro passo necessário para a conversão.

— Volto já.

Quando cheguei ao outro lado, uma nova multidão havia se formado e esperava ansiosa para me cumprimentar. Pude sentir a autopiedade crescer por trás de meu sorriso falso, mas não consegui impedir. Minha mão parecia quente ao tocar o celular. Comecei a ficar ofegante.

— Quanto tempo! — disse outra voz. — Onde você estava?

Lá estava a pergunta outra vez, feita por outro estranho conhecido. Eu nunca me lembrava dos nomes das pessoas, um defeito que fez uma onda de pânico tomar meu peito enquanto o santuário se enchia. Meu pai simplesmente conhecia gente demais, tinha feito favores demais para famílias demais. Por isso aquelas pessoas sabiam meu nome, rezavam por mim junto com o restante da minha família, se preocupavam com meu futuro — porque eu era filho Dele. Quantas vezes meu pai havia se sentado junto ao leito de hospital de alguém e rezado para que Deus abençoasse o enfermo com a cura? Quantas vezes tinha ido ao enterro de um parente distante de um amigo, normalmente uma pessoa que ele nunca havia visto, só para dar um pouco mais de apoio emocional? Para a maioria das pessoas da igreja, esse número parecia infinito.

Segui em linha reta até meu velho banco nos fundos do santuário. Precisava de espaço. Achei que meus pulmões entrariam em colapso. Não havia mais ar na sala. Subi os degraus estreitos que levavam à cabine vazia e me sentei diante do monitor. O projetor já havia sido montado para a cerimônia e exibia fotos felizes de nossa família parada diante das plantas falsas do saguão, todos sorrindo para a câmera. Meu pai com a mão no capô de seu Ford 1934 premiado, aquele que ele havia construído. Meu pai parado diante do descaroçador azul, faixas de algodão presas na camisa. ORDENAÇÃO DO IRMÃO CONLEY, dizia a tela. Marquei o texto e transformei as letras em minúsculas, um pequeno detalhe que sempre deixava os slides mais bonitos. Ter algo para fazer me acalmou um pouco, acalmou minha respiração. Mais tarde, eu reconheceria esses sintomas como princípio de um ataque de pânico. Na época, pareciam os primeiros sinais da morte.

— Obrigado por fazer isso.

Eu me virei e encarei meu pai pela primeira vez desde que voltara da AEA. Ele me olhava do primeiro degrau, a mão em ambos os corrimãos. Seu sorriso era genuíno, seus olhos brilhavam.

— Me deseje sorte.

Havia três degraus entre nós, mas mil sílabas entre o que eu queria dizer e o que disse no fim:

— Boa sorte.

* * *

Quando nasci, depois que meus pais me seguraram no colo e pouco antes de a enfermeira me levar para o berçário, meu pai havia usado a ponta afiada de sua faca de caça para marcar um pequeno zigue-zague na sola de meu pé esquerdo, uma pequena cicatriz para provar que eu era dele, um símbolo para garantir que as enfermeiras não haviam me confundido com outro bebê. Ele estava paranoico. Tinha acabado de testemunhar um milagre. Não queria perder o novo filho como havia perdido o primeiro.

Quando meus pais me contaram isso, perto dos meus oito ou nove anos, procurei o zigue-zague em meu pé, tentei ler nas leves linhas um sinal dele, mas a marca havia desaparecido alguns dias depois de meu pai provocá-la. Pensar nela me encheu de alegria. E, apesar de não conseguir vê-la na sola de meu pé, eu a sentia, assim como sentimos o amor em determinado ambiente sem necessariamente identificar sua fonte. Quando li Harry Potter pela primeira vez e fiquei sabendo da cicatriz em forma de raio na testa de Harry, pensei: Claro. Claro que o amor funcionava daquela maneira. Claro que deixava uma marca na pessoa amada. E essa marca secreta nos protegia, nos mantinha a salvo do perigo, nos lembrava de quem somos. Bastava um símbolo minúsculo para estarmos em segurança. À medida que cresci e descobri meu amor pela literatura, coloquei para fora essas marcas, passei-as para meu diário e sempre o mantive por perto — tanto que, anos depois, quando o tiraram de mim, os conselheiros da AEA levaram também grande parte dessa proteção. Mas não tudo. As folhas vazias ainda carregavam fantasmas.

Enquanto seguia para o palco do santuário para me juntar aos meus pais e a todos os membros da Associação Batista Missionária, pensei na marca secreta gravada em meu pé, imaginei que ela me fazia avançar, que me mantinha protegido enquanto subia ao palco. O raio de Deus não estava prestes a me atingir: ele já havia sido gravado em minha pele. Um talismã parecia ter ativado o outro: o telefone de Mark me ensinara que havia amores secretos e escondidos, esperando no último lugar em que imaginávamos procurar. O que era a compaixão de Jesus senão um grafite bem-desenhado nos corredores da História, um convite a segui-Lo aos lugares mais improváveis? O amor podia nos alcançar mesmo se estivéssemos em um lugar onde sua presença não era sentida.

A tela do projetor se ergueu e a pomba branca revelou sua luz difusa à la Bernini. Era tão linda quanto eu lembrava. O pastor fez uma série de perguntas sobre a vida de meu pai, sobre sua devoção ao Senhor, sobre o que o havia levado até aquele dia. Por fim, disse uma simples frase em tom de afirmação:

— Você fará tudo que puder para combater o pecado da homossexualidade na igreja?

A resposta clara e inequívoca de meu pai varreu toda a congregação. Ao ouvir aquilo, senti algo se partir em mim, um brilho quente que se espalhou pelos meus membros, uma sensação de amor que me cercou, que viajou por mim — a mesma que tivera deitado na cama, quando pedira que Jesus entrasse em meu corpo. E de repente percebi que nunca teria que aceitar a oferta de Mark. Eu já havia sido chamado. Não sabia se aquela sensação vinha de Deus, ou dos meus pais, ou de algum reservatório interno escondido, mas não parecia fazer diferença. Sabia que ainda tinha uma longa batalha pela frente, mas sabia ao menos mais uma coisa: eu não ia apagar aquele número do meu celular. Que os conselheiros fizessem o que quisessem com ele.

— Sim — respondeu meu pai. — Vou fazer o que puder.

Meus pais nunca haviam tido motivo para se preocupar com as enfermeiras. No fim das contas, tinham sido eles, e não a equipe do hospital, que haviam trocado minha identidade.