Boy Erased: Uma Verdade Anulada
Os menores detalhes
O feriado do Dia de Ação de Graças havia terminado, eu voltara para a faculdade e minha mãe ficara a tarde toda lavando louça. O correio tinha acabado de passar, mas ela estava com medo de mexer na pilha de cartas. Graças a um telefonema que o Irmão Stevens havia feito por eles, ela e meu pai esperavam uma resposta da Amor em Ação a qualquer momento. Eles também tinham marcado uma consulta com a Dra. Julie perto do Natal para analisar meu nível de testosterona. Estavam fazendo todo o possível para me curar, mas minha mãe achava que as coisas estavam indo rápido demais. Poucos meses antes, ela nem sabia que havia algo de errado. Seis meses antes, parecia que seu filho único havia encontrado a mulher de seus sonhos. Se ela simplesmente pudesse diminuir a velocidade das coisas, ter uma chance de respirar, pensar um pouco melhor... O Irmão Stevens colocara as coisas em ação rápido demais, dissera aos meus pais que precisavam agir o quanto antes ou eu podia mergulhar em um pecado ainda pior enquanto estivesse na faculdade.
Minha mãe deixou as mãos secarem, respirou fundo, andou até a pilha de envelopes e selecionou as cartas até achar a da AEA. Tirou do envelope uma brochura grossa, pousando o polegar molhado contra o rosto recém-barbeado de um garoto familiar. Quando afastou o polegar, o rosto do jovem pareceu estranhamente distorcido. Suas cores escaparam do contorno da foto. Seu pescoço se desgrenhou, ganhando caroços. Seu nariz dobrou de tamanho. Mas os olhos mantiveram o mesmo tom assombroso de verde.
— A primeira coisa que notei foram os olhos — dirá ela, nove anos depois de eu sair da AEA.
Serão necessários nove anos até ambos termos confiança suficiente para vasculhar nossas memórias em busca de tudo que decidimos deixar para trás. Nove anos até podermos conversar sobre o que aconteceu sem entrar em espirais de culpa e insegurança. Ela vai olhar para a superfície do gravador preto brilhante entre nós e pedir para ser compreendida, para suas palavras serem gravadas. Estarei sentado na outra ponta da mesa, com as mãos no colo, pensando: Nunca fiquei tão pouco à vontade na vida. Vou me forçar a ouvir o lado dela da história, escutar sua voz em meio ao zumbido das lembranças dolorosas que achei que havia enterrado para sempre.
— Os olhos dele eram tão tristes — dirá ela. — E me atingiram em cheio.
— Leve o tempo que precisar — vou pedir.
— Eu queria salvar o garoto da foto. Queria salvar você. Mas não sabia como.
Tantos anos atrás, parada na cozinha, no que devia ser uma tarde normal, ela imaginou que os olhos aprisionados daquele menino podiam ser seus olhos verdadeiros, capazes de enxergar fora da margem vermelha que emoldurava a fotografia. Os olhos de sua alma, o inverso de Dorian Gray, já que se tornavam mais gentis e não mais sinistros à medida que ela olhava para ele. Nos meses anteriores à AEA, ela havia lido O retrato de Dorian Gray a pedido meu, depois de ter encontrado na linguagem sedutora de Wilde uma justificativa para o lado sensível que descobria em meu primeiro ano de faculdade, anos antes de ficar sabendo que aquele era um livro importante para a história da literatura LGBT. Parada ali na cozinha, minha mãe imaginou aquele menino, o inverso de Dorian, olhando para um ponto atrás das linhas tortas de suas digitais, atrás de sua figura parada. Ele olhava para uma cozinha que ela havia preenchido com possíveis relíquias familiares do lar saudável de sua infância: uma pilha de louças em uma pia de cerâmica branca, a boca aberta de um lava-louça Frigidaire, o piso frio e recém-varrido emoldurado por ripas de carvalho, o carpete cor de creme na sala de estar adjacente. Ela imaginou que um garoto como aquele da brochura — costeletas aparadas pouco acima do lóbulo, camisa de botão engomada sobre uma camiseta branca de gola redonda, cílios sensíveis e curvos que evitavam que seus olhos vissem demais do mundo — encontraria naquela casa uma sensação de paz. Havia ordem ali, e limpeza. Havia suas mãos bem esfregadas, a água quente que ela deixara correr pelos dedos finos até o sangue chegar à pele. E do que mais esse garoto poderia precisar?, pensou ela. Depois de crescer em uma casa como aquela, como ele podia ter ido parar naquela brochura, como acabara cercado por retratos de pecadores, deficientes espirituais, viciados crônicos?
Ela andou até a mesa no canto da cozinha. Enquanto passava pela pia, uma bolha de sabão explodiu na superfície do prato superior, uma bolha que um segundo antes devia ter suportado o reflexo trêmulo de seu corpo coberto por uma camisola floral.
— Eu me lembro do sabão — dirá ela, olhando para o gravador entre nós. — Foi uma coisa estranha. Mas aquilo tudo foi estranho.
— Vá com calma — reforço.
— Eu me lembro dos menores detalhes.
Ela se lembrava de uma gota d’água escorrendo por seu braço nu, coberto de sardas. Da luz do sol da tarde batendo na gota no ângulo certo, um rastro dourado cintilante. Naquela tarde, minha mãe limpou a mancha fria de luz molhada do braço. Alisou as páginas da brochura sobre a mesa e sentou-se. Sim, os traços eram quase idênticos, os do garoto e os meus. Ela se sentiu zonza. Podia ver, em reflexos infinitos que serpenteavam por dois espelhos posicionados um de frente para o outro, uma mãe diferente olhando para aquele retrato de um menino conhecido, aquela mãe imaginando alguém como a minha mãe fazendo o mesmo e todas aquelas mães perguntando, em uma polifonia: Do que mais esse garoto poderia ter precisado? Ela esperou a tontura passar. Já havia sentido aquilo, quando alguém da igreja falava sobre a vida eterna, sobre viver para sempre em um Céu sem fim. Ela se sentia cansada só de pensar na eternidade, balançava a mão diante do rosto e dizia:
— Minha cabeça não consegue lidar com isso. É demais.
Os menores detalhes. O sol do fim da manhã pousando em metade da mesa. As partículas de pó caindo em espiral no que pareciam colunas de areia. Diante das janelas de vidro, águas cobertas de algas batiam na praia íngreme que separava nossa propriedade do lago Thunderbird. Nos verões lotados de turistas, minha mãe se sentava na varanda para observar as lanchas cortarem Vs na água, desafiando as ondas a se aproximarem. No entanto, em dias úteis do inverno, como aquele, o lago ficava imóvel e silencioso, e ela quase nunca saía de casa.
Ela olhou para os outros retratos inclinados — para a esquerda, para a direita, para a esquerda, para a direita — que cobriam a página. Uma das meninas parecia sua amiga de infância, Debbie, uma morena magrinha que sempre prendia o cabelo em um coque bagunçado quando as duas iam à piscina pública refrescar os pés na parte rasa e olhar os meninos. Um homem mais velho parecia nosso médico anterior, o Dr. Keaton, que sempre esquentava o diafragma de metal do estetoscópio antes de pressioná-lo contra as costas nuas de minha mãe. O que eles estão fazendo aqui?, pensou ela. O que deu errado?
Mas não eram as pessoas que ela conhecia, é claro. A diferença estava nos sorrisos. Aqueles rostos aprisionados na página sorriam de maneira diferente, os cantos da boca esticados além dos limites da normalidade. Mesmo em seus momentos mais felizes, mesmo aos dezesseis anos — quando amigos e parentes haviam se virado nos bancos da igreja para ver sua figura de véu rendado flutuar pelo corredor para encontrar meu pai —, ela nunca vira sorrisos como aqueles. Era o tipo de sorriso que ela viria a conhecer como o sorriso do ex-gay. Depois que entendesse o que o provocava, o sorriso a perseguiria por nove anos. Ela imaginaria vê-lo em quase todo lugar, mesmo no rosto de pessoas que encontrava toda semana, como se todos tivessem guardado por muito tempo vidas secretas de reorientação sexual sem que ela soubesse. Ao entrar em um corredor do supermercado, com o carrinho bambo fugindo de seu controle, ela ficaria paralisada — congelaria, as mãos agarradas à barra de plástico — no instante em que sentisse aquele sorriso passar por ela, como se um atirador acabasse de apontar uma pistola em sua direção. Seria esse o poder que o sorriso teria sobre ela, sobre nós.
Ela leu as palavras que flutuavam ao lado dos rostos.
Desde que vim para cá, Deus me ensinou muito sobre meu egoísmo e
meu medo, que usei para me manter preso em um ciclo de
homossexualidade.
Durante o tempo que passei aqui, aprendi que sou amado e aceito,
apesar de ter me envolvido com um vício sexual.
Estar na Amor em Ação me deu uma segunda chance com minha
família.
Todos aqueles rostos diziam algo que parecia estranho e familiar para ela. Estranho porque minha mãe não estava acostumada ao modo como o jargão institucional da AEA conseguia reorganizar os níveis de percepção até que as mais complexas emoções humanas fossem encaixotadas e rotuladas como “egoísmo”, “medo” ou “vício”. Familiar porque a igreja era feita para ser a família de Deus, Sua tribo perdida na Terra, as pessoas escolhidas por Ele para sobreviver ao Arrebatamento. Para ela, palavras como “amor” e “aceitação” eram digeridas com cada dose anual de pão ázimo, cada cálice minúsculo de suco de uva.
Ela empurrou a brochura para longe. O restante da mesa da cozinha estava coberto por folhas soltas do formulário de inscrição que tinha vindo no mesmo envelope. A folha de cima mostrava a logomarca da Amor em Ação, um triângulo vermelho invertido com um coração recortado no meio.
— Mesmo naquela época eu pude perceber que a logo era estranha — dirá ela mais tarde. — O coração era retirado da imagem, como se aquilo bastasse.
Eu senti isso, vou pensar, pressionando o botão de pausa do gravador e rebobinando alguns segundos para ver se tinha gravado todas as frases de minha mãe. A gente corta o que nos é caro, ignora a dor no fundo da garganta, apaga os detalhes que queremos esquecer. Jogamos a primeira metade da história no lixo, como os conselheiros haviam feito. Perdi muitos amigos nos anos após a AEA, fiquei sem falar com antigos namorados por anos só porque se tornou muito fácil ignorar algo que um dia havia sentido. Fui uma pessoa sem coração sem precisar me esforçar para isso. A verdade é que não ter coração se tornou tão fácil após a AEA que eu nem tinha que pensar nisso. O truque era acreditar que cortar pessoas de nossa vida era um passo necessário para o desenvolvimento pessoal. Era como os campos que, no fim do outono, passavam horas queimando diante da janela da casa de minha infância, uma parede laranja de fogo no limite da propriedade: era preciso cortar e queimar para abrir espaço para o plantio do ano seguinte.
Foi o que eu fiz. Chloe, Brandon, David, meus amigos de faculdade, Charles e Dominique — e Caleb, o veterano do curso de Artes por quem eu ficara fascinado em meu primeiro ano, o primeiro menino que beijara.
— Vamos parar um pouco — dirá minha mãe, levantando-se da mesa, empurrando o gravador em minha direção.
Ela ficará de pé no meio do campo em chamas se isso for necessário para que eu perceba sua dor. Nem sequer vai se mover quando o fogo se aproximar. E esperará meu pai se juntar a ela.