Boy Erased: Uma Verdade Anulada
O cinema do prisioneiro
Meu pai e eu mal nos falamos em nossa ida até a penitenciária. Fazia um mês que meus pais haviam descoberto que eu era gay e já era quase Dia de Ação de Graças, a semana em que eu praticamente só ficaria em casa, sentindo que havia muito pouco para agradecer. Eu me sentei ao lado dele no banco do carona de seu F-150 Lariat vermelho, observando as árvores avançarem e recuarem às margens da estrada sinuosa, as montanhas se revelando à nossa volta enquanto seguíamos para o centro do local que, segundo um governador, um dia se tornaria a “Meca das Ozark”...
Fechei os olhos, mas a imagem se manteve: picos cobertos de pinheiros, pinhões amarronzados, o sol da manhã pairando sobre tudo como uma lâmpada de aquecimento.
Minha família fez a peregrinação até aquela cidade em 1999, pouco depois de perder a processadora de algodão para um concorrente maior, muito depois de a cidade ter se transformado em destino para os aposentados de Chicago e para fundamentalistas do sul, que comprovam propriedades por valores baixos onde seria seguro guardar e usar armas e se vangloriar disso. Desde que havíamos nos mudado, cinco anos antes, meus pais tinham aprendido a se dar bem com algumas das pessoas vindas do norte, a falar com um sotaque levemente nasal, a sorrir menos. As pessoas iam para lá para viver uma vida melhor, em um ritmo diferente — mais tarde, no entanto, eu descobriria que uma simples mudança de paisagem não mudaria nada em alguém como eu, que nenhuma camuflagem era capaz de esconder as fantasias homossexuais que eu vinha tendo desde o sétimo ano da escola.
— Está pronto? — perguntou meu pai, tirando os olhos da estrada e fixando o olhar nas mãos nervosas que eu não parava de retorcer sobre meu colo.
— Estou — respondi, os dedos congelando na forma de um campanário.
Lembrei-me de um verso que os professores haviam ensinado na colônia de férias da igreja: aqui está a igreja, o campanário aqui está. Abra todas as portas e muitas pessoas verá.
— Vai ser uma educação diferente da que você está acostumado — disse meu pai. — Seus professores da faculdade não vão ensinar isso.
Grande parte do trabalho do meu pai passara a envolver a educação de pessoas fora do ambiente da igreja. Sua ambição crescente o fizera pregar para um número cada vez maior de clientes da concessionária e andar pelas ruas próximas de nossa casa para bater à porta dos vizinhos em busca de almas perdidas. Agora, sua maior missão era pregar para os esquecidos, os oprimidos, os detentos da prisão local. Era a primeira vez que eu acompanhava uma das visitas matinais que ele fazia aos sábados. Eu nunca tinha ido até a penitenciária, embora ele já a tivesse visitado muitas vezes. Eu estava sonolento, desacostumado aos horários que meus pais haviam proposto depois que David tinha me denunciado — horários que exigiam que eu voltasse da faculdade na sexta à tarde e acordasse cedo no sábado para passar mais tempo com a minha família.
Depois de vários minutos de silêncio, meu pai apertou o botão para ligar o rádio. Creedence Clearwater Revival rompeu nosso silêncio com notas leves, alegres e nostálgicas de uma Louisiana onde nenhum dos membros da banda realmente tinha vivido. Qualquer pessoa que passasse por nós provavelmente teria pensado que estávamos felizes, indo ver alguma atração de beira de estrada.
Fechei os olhos de novo, pressionando a base da palma da mão contra as pálpebras até fracionar e destruir as imagens gravadas: uma plataforma de gelo caindo na água ártica escura.
* * *
As imagens do que havia acontecido na noite do meu estupro também tinham ficado comigo, abrindo caminho por praticamente todos os minutos de minha vida: um desenho borrado do garoto mais novo que David disse ter estuprado, aquela cena de David acima de mim, forçando minha cabeça para baixo. Em um segundo eu estava calmo; no segundo seguinte, acessava algum bolsão de memórias esquecidas e uma raiva incontrolável me tomava, direcionada a mim e a todos à minha volta, um desejo de destruir tudo que via.
Depois que David ligara para meus pais, me denunciando, minha mãe tinha me levado embora, avançando sinais amarelos para chegar à nossa casa em tempo recorde. Enquanto ela vomitava no banheiro adjacente, meu pai me levara até seu quarto, fechara a porta e explicara que o que eu sentia era errado, que eu estava simplesmente confuso.
— Você não sabe como é estar com uma mulher. Não há nada no mundo como o prazer entre um homem e sua mulher.
Eu não sabia o que dizer. Traçara o desenho da colcha com o indicador, seguira a costura em torno do bulbo amarelo-amarronzado de um junquilho. Se eu simplesmente pudesse continuar movendo as mãos... Meu professor de estudos religiosos havia notado minhas mãos inquietas um dia e me convidara à sua sala para me ensinar algumas técnicas de meditação.
— Mão esquerda, palma da mão para baixo. Vire a palma esquerda para cima. Não diga para si mesmo: “Vire a mão esquerda.” Consciência é tudo.
Apesar de não ter conseguido usar aquelas técnicas direito, ter algo para fazer com as mãos parecia melhor do que ceder ao tremor.
— É muito caloroso, muito natural — dissera meu pai —, estar com uma mulher.
Eu havia sentido uma vontade repentina de me juntar à minha mãe diante da privada, o nojo nos unindo por um instante, por motivos diferentes. Nenhum de nós queria saber sobre a vida sexual do outro, mas ali estávamos nós.
Quando minha mãe voltou ao quarto, limpando a boca com as costas da mão, meus pais se sentaram na beira da cama e explicaram que encontrariam uma maneira de me curar. Conversariam com nosso pastor para ver quais eram as opções possíveis. Havia vários modos, disseram. Tinham ouvido um pastor visitante dar uma palestra sobre opções de aconselhamento. Enquanto isso, eu passaria os finais de semana em casa, a duas horas de distância das influências pecaminosas da faculdade que haviam me levado até aquela situação.
Sentado ali como uma criança, os tênis pairando acima do carpete, traçando o desenho da colcha enquanto observava o rosa do batom de minha mãe se espalhar pelas costas da mão, não tive coragem de contar o que meu amigo fizera. David tinha vencido: saber da minha homossexualidade seria mais chocante que saber do meu estupro; ou pior, seria como se um ato tivesse se seguido ao outro de forma inevitável, como se eu merecesse aquilo. De ambas as formas, a vergonha de nossa família continuaria a mesma.
— Você nunca mais vai pisar nesta casa se agir de acordo com o que sente. Nunca vai terminar a faculdade — dissera meu pai.
Naquela noite, tomei em silêncio a decisão de concordar com tudo que eles tinham em mente, a vergonha e a raiva se acomodando em meu peito, preenchendo espaços que eu havia reservado para o amor, espalhando-se sob minha pele como um hematoma invisível. Ao contrário da minha mãe, eu não tinha como expurgar nada, não tinha como encarar meu reflexo aquoso e obliterar meu rosto com vômito. Em vez disso, eu só podia juntar as mãos em oração e prometer a Deus que tentaria com mais afinco, o carpete queimando seu padrão pontilista em meus joelhos. Só me restava ficar diante do espelho do banheiro e esfregar a ponta afiada de uma tesoura contra meu pomo de Adão, para cima e para baixo, até a lâmina começar a deixar marcas leves que acabariam sendo difíceis de explicar. Só me restava ser como o Narciso pecaminoso sobre o qual havia lido em A mitologia, de Edith Hamilton, um livro que ficara guardado em minha mochila: apaixonado demais por minha própria imagem refletida no corpo de outros homens, assombrado demais pelo que via para desviar o olhar. Para não me afogar, concordei com o plano dos meus pais. Enquanto as semanas passavam e os passos seguintes se consolidavam, decidiríamos se eu permaneceria na faculdade ou se medidas mais drásticas teriam que ser tomadas.
Toda noite, as imagens chegavam a mim completamente formadas, como que geradas por engrenagens: David e o garoto; David pairando acima de mim; os lábios do meu pai em um movimento desconectado do som que ele fazia; o olhar de medo que rompia a pele do rosto dos meus pais em fractais de rugas de preocupação cada vez menores.
Havia decidido acompanhar meu pai à prisão para tentar acabar com essas imagens, uma alternativa ao suicídio que eu contemplava quase toda noite, à tesoura que eu tinha começado a procurar durante a madrugada, minhas mãos inquietas percorrendo o espaço entre o colchão e o estrado até chegar às línguas gêmeas de metal.
Talvez, se soubesse como estava próximo do suicídio, eu tivesse ficado longe da prisão e de suas celas úmidas, da vitrine de vidas destruídas por escolhas ruins e azar, de pessoas que não conseguiram se transformar quando a necessidade era urgente. No entanto, talvez meu maior desejo fosse saber como meu pai fazia o impossível, como ele recuperava aqueles homens, dava esperança a eles, fazia-os voltar à sua melhor versão diante de Deus.
— Nenhum pecado é grande demais para ser perdoado — costumava dizer meu pai, parafraseando o Êxodo.
Talvez isso pudesse se aplicar a mim também.
* * *
Enquanto meu pai acelerava nas curvas da estrada, por um instante me imaginei abrindo a porta e caindo da caminhonete como havia visto caubóis fazerem. Mas para onde eu iria? Onde encontraria uma nova personalidade? Eu havia percorrido muitas daquelas trilhas nas tardes livres do ensino médio; algumas davam em penhascos de granito branco, outras seguiam até a represa de um lago artificial, mas todas retornavam ao centro da cidade em floreios labirínticos que sempre me deixavam sem fôlego. Em A mitologia, eu havia lido sobre Ariadne e o modo como ela usara o fio vermelho para libertar Teseu do abraço do Minotauro. No entanto, naquela cidade, todo caminho levava à mesma velha rua comercial. Naquela cidade, o Minotauro sempre nos encontrava.
* * *
Eu já sabia que não havia estradas simples e retas que levassem para fora da cidade. Na noite em que fora denunciado, depois de ouvir o ultimato de meus pais, eu estava no meu quarto fazendo algumas buscas na internet, o tempo todo me esforçando para ouvir passos no corredor. Acessando minha conta bancária, descobri que estava quase sem nada. Entrei em alguns fóruns para tentar descobrir como poderia pedir emancipação, mas todas as respostas pareceram complicadas demais. Havia formulários demais a preencher, assinaturas demais, esforço demais. Na época, meus pais pagavam por mais da metade da faculdade e, se eu não pudesse mudar quem eu era, eles tirariam isso de mim.
No entanto, a ideia de abandoná-los, de me juntar a uma comunidade que aceitasse gays e continuar a vida de modo independente em alguma medida parecia ainda pior que o suicídio. Cortar as raízes e excluir as pessoas que eu amava me transformaria na casca da pessoa que um dia eu fora, em um autômato despojado de todas as engrenagens. De certa forma, eu sabia que deixar minha família para trás destruiria o restante do amor que eu ainda não havia deixado de lado para abrir espaço para a vergonha.
Durante o mês anterior na faculdade, professores de literatura, cientes de que eu estava passando por algum problema familiar, deram-se ao trabalho de me convidar para jantares, me incentivaram a entrar em debates sobre a teoria crítica, Foucault e a terceira onda do feminismo, os neoconstitucionalistas que estavam roubando o país. Naquela época, Bush filho sentia-se inspirado por Deus e tentava achar armas de destruição em massa no Iraque. Graças a isso, todo jantar a que eu comparecia parecia incluir uma dose generosa de crítica ao fundamentalismo.
Meus amigos, Charles e Dominique, dois dos poucos estudantes negros de nossa faculdade, estavam sempre me provocando, dizendo que todos os batistas tinham sido senhores de escravos, que toda minha árvore genealógica era repleta de supremacistas brancos.
— Sua família usa a Bíblia para manter nosso povo sob controle — dizia Charles.
— Eles provavelmente bateriam na gente com todas aquelas Bíblias que têm jogadas em casa — acrescentava Dominique.
Pensar no que a empresa de algodão da minha família havia feito com os antepassados de Charles e Dominique me deixava com vergonha. Num segundo, eu morria de medo de que meus ancestrais estivessem todos sentados no Céu, julgando minha atração pelo mesmo sexo, e, no seguinte, eu os julgava pelo que supostamente haviam feito com os negros. Menos de um ano depois, na AEA, eu me perguntaria por que a legenda do genograma não incluía os pecados da escravidão e do racismo, por que uma parte tão grande da História tinha sido deixada de lado.
Em meio à conversa inteligente dos professores, eu me sentira tanto um impostor quanto um traidor. Eu sorria nos momentos certos, fazia comentários espirituosos sobre minha criação, ridicularizava as opiniões políticas de quase todos em minha cidade natal. No entanto, também era verdade que ir para casa muitas vezes fazia com que me sentisse, se não orgulhoso de minha herança, ao menos agradecido por sua familiaridade. Em casa, eu era capaz de fazer uma oração elegante, demonstrar um pouco de conhecimento sobre a graça de Deus, recitar as escrituras em momentos apropriados, abrir meu melhor sorriso. Era um alívio retornar a um mundo conhecido, lidar com situações corriqueiras, acalmar minha cabeça. A cada peregrinação entre a faculdade e minha casa, as fronteiras entre os dois territórios se tornavam menos nítidas e aumentava minha preocupação com o que aconteceria quando finalmente eu misturasse ambos.
Os dois lados pareciam sugerir a mesma solução eficiente: cortar laços. Abandonar minha família e tudo que vivi até ali ou abandonar o que estava aprendendo sobre a vida e novas ideias. Comecei a ver fortes indícios a favor da segunda opção, apesar de não achar que seria fácil esquecer o assombro experimentado na aula de Literatura Ocidental, quando aprendi o que a igreja considerava um passado pagão pecaminoso. Em determinado momento no meio de nossa discussão sobre a Odisseia — quando Ulisses tampava os ouvidos para não ouvir o canto das sereias —, eu havia me endireitado na carteira, aberto os ouvidos, levantado a mão e pedido que me desamarrassem do mastro.
* * *
— A gente nunca se cansa, não é? — perguntou meu pai.
A caminhonete havia entrado em um túnel de folhas amareladas.
— Da criação de Deus.
— Não — respondi, pressionando a mão contra o vidro, observando as folhas claras passarem pelos espaços entre meus dedos.
— Vamos superar — disse ele. — Já falei com o Irmão Stevens. Ele tem algumas sugestões.
O Irmão Stevens era o pastor da nossa igreja. Depois que meu pai decidira se tornar pastor, os dois haviam ficado muito próximos e passavam bastante tempo livre nas cadeiras estampadas do escritório do Irmão Stevens, na igreja. Apesar de meu pai ainda não ter sido ordenado pastor oficialmente, ele sempre substituía o Irmão Stevens quando ele estava doente.
Eu não vira o Irmão Stevens muitas vezes desde que me mudara para a faculdade, e isso era ótimo. Havia algo em seus olhos pequenos e muito juntos que me deixava nervoso. No ensino médio, quando comandava o projetor da igreja para ele nas manhãs de domingo, sempre sentia que ele direcionava todas as condenações para mim, como se eu fosse o Diabo do qual ele falava, sentado em minha cabine alta, acima do restante da congregação, rindo de Deus com minhas fantasias sobre os gêmeos Brewer, sentados com as costas eretas na primeira fila. Durante os sermões, ele às vezes falava da filha pródiga que tornava a vida dele continuamente mais complicada: as overdoses, os namorados que moravam com ela, o uso casual que fazia do santo nome de Deus, as prisões frequentes. A típica filha de pastor que se rebela. Por causa disso, o Irmão Stevens havia criado uma política de amor bruto. Deixara a filha se virar sozinha muitas vezes, mas costumava ajudá-la a pagar a clínica de reabilitação.
Eu sabia que qualquer conselho que ele tivesse oferecido a meu pai seria duro. Desconfiava que o convite para acompanhar meu pai até a prisão tivesse sido ideia do pastor. Fazia parte de uma rotina de medo que a igreja usava quando, por exemplo, convidava ex-viciados em drogas para contar suas histórias de terror em testemunhos prolixos que ocupavam a maior parte do culto, deixando quase toda a congregação com lágrimas nos olhos, se sentindo sortudos por estarem vivos e serem como são ao sair da igreja. Mas, apesar de minha desconfiança, eu ainda acreditava que o Irmão Stevens podia estar certo. Uma nova perspectiva rígida e sombria podia ser exatamente o que eu precisava.
* * *
Paramos no início da estrada principal e meu pai ligou o pisca-alerta.
— É a diferença entre o que é natural e o que não é natural — disse ele, o freio assobiando sob nós. — Você sempre foi um bom cristão, mas agora misturou as duas coisas. Vamos achar o conselheiro certo para você.
Eu não me sentia natural desde o ensino fundamental, quando vira meu vizinho bonito passeando com o cachorro pela rua: um momento que secretamente me deixara implorando por uma coleira.
— Não quero falar sobre isso — disse.
— Aquele seu amigo não teve problema em falar sobre isso.
Amigo. A palavra soou displicente, sem nenhum vestígio de ironia, pousando com arrogância entre as passadas do limpador de para-brisa como um fato concreto. Aquilo me fez querer girar o volante para a direção errada, pisar no acelerador até tocá-lo no piso de plástico do carro e nos enfiar na lateral do prédio mais próximo.
— Provavelmente ele já contou para metade da cidade — continuou meu pai.
Era exatamente por isso que eu vinha evitando lugares públicos. David morava em uma cidade não muito longe da nossa, e a possibilidade de ele já ter contado que eu era gay para nossos amigos em comum, em um esforço para se salvar, era enorme. Eu havia descoberto, por um desses amigos, que ele estava suspenso, que ninguém o via no campus havia um mês e que provavelmente tinha se mudado de volta para a casa dos pais. Ele devia ter exagerado os fatos, feito parecer que eu era o pedófilo. Devia ter contado às pessoas que eu havia tentado dormir com ele (meu colega de quarto, Sam, já tinha arrumado outro quarto. Eu dividia o alojamento com meu amigo Charles e suspeitava que o motivo para a partida repentina de Sam fossem esses boatos). Não havia nada a fazer a não ser me esconder, esperar a poeira baixar e tentar achar uma cura.
— Não me importo com o que ele disse para os outros — respondi. — Ele não é cristão.
— Achei que ele frequentasse a igreja — disse meu pai, entrando na rodovia. — Achei que você tivesse dito que ele era um cara legal.
— É uma igreja pentecostal — falei, lembrando-me da velha agência de correio com suas vigas enferrujadas de metal, seu palco iluminado e seu óleo de motor. — Não é a mesma coisa.
As palavras saíram da minha boca sem permissão. Culposas e arrogantes por natureza, pareceram naturais, contudo, vindas de um lugar entre a verdade e a mentira, movidas exclusivamente pela raiva. Combinavam com um senso de convicção, de propósito. Fizeram tudo à nossa volta ganhar foco: as faixas duplas amarelas, as lojas ao longo da estrada, os rostos que observavam por trás de janelas sujas. Carregavam em si o tom e a lógica preguiçosa dos jantares de alguns dos meus professores, mas bem pouco do mesmo conteúdo.
Meses depois, ao encontrar a equipe da AEA pela primeira vez, eu reconheceria instantaneamente aquelas palavras híbridas, apesar de não saber o tamanho da força delas até serem usadas contra mim.
— Eles falam em línguas estranhas e usam óleo para unção — continuei. — É nojento.
— Não julgueis — disse meu pai, a seta voltando ao lugar enquanto ele girava o volante — para que não sejais julgados.
— Não dirás falso testemunho — falei.
Depois de mais de uma década de aulas na escola dominical, eu sabia recitar as escrituras quase tão bem quanto meu pai, usá-las com a mesma facilidade para justificar meus meios.
— Honrai pai e mãe — respondeu meu pai, usando o trunfo que sempre encerrava nossas discussões.
Cruzei os braços. É isso que estou fazendo, pensei. É por isso que estou aqui. Mas não sabia se isso era verdade. Eu estava ali, pelo menos em parte, porque não parecia haver alternativa.
Meu pai nos guiou por uma estrada secundária ladeada por bordos. As folhas murchando raspavam no teto da caminhonete, um farfalhar seco seguido pelo leve bater de um galho. Palma da mão direita para cima. Gire. Repita. Palma da mão esquerda para cima. Gire. Fixei o olhar em um tronco de árvore distante e o mantive ali até passarmos por ele, até sua casca se tornar indistinguível, algo facilmente esquecido na floresta.
* * *
Quando eu estava no ensino fundamental, um dia meu pai me levou para a floresta para caçar. Eu afastei os galhos dos pinheiros em meio à névoa silenciosa da manhã, meu hálito condensando ao lado do dele, nossas nuvens se juntando por um instante, nos cegando ao refletir o sol. Meu pai bateu em meu ombro para chamar minha atenção, e eu ergui o rifle e mirei perto da pata de uma grande corça. Com um dos olhos na mira e piscando o outro, observei o bicho pelo que pareceram vários minutos — apesar de não terem sido mais de alguns segundos.
A corça apareceu para mim como uma imagem da própria floresta, de sua graça tranquila, selvagem e não calculada, parte de um mundo natural que não havia necessidade de se questionar. Ela não parecia se importar com a possibilidade de viver ou morrer. A corça simplesmente era. Sua consciência era tudo. A bala que acabei disparando parou em algum lugar no caminho à nossa frente, errando a corça por vários metros. Meu pai passou o resto da manhã me convencendo de que eu havia atingido a corça — de que estávamos ali para procurar o fino rastro vermelho de sangue no chão da floresta. Mas eu sabia que era mentira. Sabia que ele estava tentando não me deixar chateado.
Eu me perguntei se aquela experiência seria assim também. Eu miraria em algum ponto da prisão, em alguma verdade fora de alcance, talvez situada atrás de uma parede de barras pretas grossas, e meu pai passaria a vida tentando me convencer de que eu havia atingido o alvo. Quanto mais entrássemos naquele labirinto, mais perdidos ficaríamos, de nós mesmos e um do outro. Voltar ao ponto em que tudo havia começado seria impossível; nossas origens, a matéria bruta de mitos.
* * *
— Você fez muitos amigos legais na faculdade? — perguntou meu pai, ultrapassando um sinal amarelo.
Pensei em Charles e Dominique, os estudantes de música gêmeos que cantavam canções de escravos no alojamento e que haviam me pedido para assistir a Imitação da Vida, que descreviam como “uma introdução amigável para brancos” da experiência de ser negro.
— Se não chorar depois, tem alguma coisa errada com você — dissera Charles. — Os brancos sempre choram com esse filme.
Charles, Dominique e eu estávamos nos tornando amigos próximos, mas fiquei com medo do que meu pai diria se eu os descrevesse. Apesar de ele sempre dizer que “não tinha problema nenhum com negros”, eu não queria falar de raça quando os mencionasse, não queria exibi-los como meus amigos negros, não queria remexer demais na história dos meus antepassados processadores de algodão por medo de herdar uma vergonha ainda maior do que a que já sentia. E havia também outra questão: minha vida na faculdade e minha vida em casa estavam se tornando entidades cada vez mais díspares. Depois da ligação de David, eu tinha medo de que outros segredos pudessem vir à tona se começasse a falar demais de minha outra vida.
— A maioria nem é tão legal — falei, batendo no vidro com o indicador. — A gente tem que avaliar com cuidado.
O pecado original era um conceito que eu e meu pai conhecíamos bem.
Pensei em meus professores e na aula de Literatura Ocidental, em como me sentia feliz por poder debater ideias e opiniões como se não fossem nada além de poeira ou pedrinhas que podíamos peneirar entre os dedos. Lembrei que ideias que antes pareciam absurdas e inatingíveis tinham se aberto diante de meus olhos, perdido suas muitas associações com o Deus irritado e amoroso em que eu aprendera a acreditar, se tornado material para outras religiões, outras filosofias, outros estilos de vida.
Depois de mais alguns minutos de silêncio, meu pai aumentou o Creedence até a música arrebentar meus tímpanos e os vidros tremerem com o baixo.
I see earthquakes and lightning, cantava a banda. I see bad times today. Terremotos e relâmpagos. Tempos ruins surgindo.
Eu me ajeitei no banco, apoiei os pés no painel. O cinto de segurança estava travado, me prendendo ao couro do assento. Não disse mais nada por todo o trajeto. Tinha entrado no território de meu pai, um Cinturão da Bíblia mais real do que o cinto que apertava meu peito.
* * *
Na faculdade, o homem do subsolo de Dostoiévski ainda me dominava às vezes, me convidando a recuar, a me misturar aos móveis, a observar. A única diferença pós-David era uma necessidade mais profunda de me esconder. Ela às vezes dominava meus dias, me mantinha no alojamento por tanto tempo que eu mijava em garrafas d’água vazias, as enfiava embaixo da cama e me esquecia delas. Quando mais tarde eu as encontrava, durante um de meus momentos mais sociáveis, cumprimentava as garrafas como falaria com um estranho, chocado por sua aparição repentina, vendo meu eu anterior como um impostor horrível. Quem faria uma coisa dessas?, pensava eu. Quem estaria tão desesperado a esse ponto?
Quando aprendi sobre a teoria freudiana em meu primeiro semestre, fiquei ainda mais preocupado. Isso deve ser alguma questão infantil mal resolvida, pensei, lembrando-me dos hieróglifos no carpete do meu quarto. Deve ser outro sinal da minha deficiência. Não, corrigi, mudando de repente para uma perspectiva do Antigo Testamento, do meu pecado.
Não parecia haver qualquer ramo da psicologia, da filosofia ou da literatura que eu lesse que não pudesse ser distorcido para atestar minha culpa. Nesse mesmo sentido, não havia qualquer ideia que não complicasse minha compreensão do cristianismo, que não questionasse o direito divino de meus pais ditarem minhas crenças. Decidi que aquilo era estar verdadeiramente louco, que só gente maluca se agarrava aos dois lados com tanto afinco, se recusava a deixar que seguissem seu caminho, deixava-os brigar dentro da própria cabeça.
* * *
As árvores deram lugar a campos pontuados por vacas e depois a prédios retangulares que faziam as vezes de centro administrativo para a cidade. Tudo era unido pelo asfalto escuro cujos buracos profundos eram facilmente ultrapassados pela caminhonete de meu pai. Pela janela entreaberta veio um cheiro forte de esterco aquecido pelo sol quente da manhã, e de alguma outra coisa — uma mistura típica de gasolina e metal enferrujado, característica de comunidades agrícolas em que os meios de produção industrializados avançam de forma tão impiedosa e rápida que é necessário ceder grandes terrenos para ferros-velhos e enchê-los de carcaças de velhas máquinas.
A prisão ficava nos arredores da cidade, escondida atrás de um conjunto de construções de telhado branco e um posto de gasolina vermelho da Conoco, que servia também de loja de pneus e de lubrificantes. Ao lado da penitenciária, ficava o tribunal, um prédio idêntico, com apenas algumas janelas voltadas para a rua, acréscimos de última hora, um alívio temporário da fachada uniforme de tijolos.
Eu me sentei direito para ver melhor, o couro quente descolando das costas de minha camisa suada com um sibilar baixo. Eu estava esperando encontrar arame farpado, torres de vigia e guardas de uniforme azul se revezando. E também uma série de guaritas, uma mais rígida que a outra. Algum cenário hollywoodiano de milhares de dólares. Em vez disso, ao me aproximar daqueles prédios baixos, tive a sensação de que o local que a cidade mais queria esconder podia ser considerado seu local de trânsito mais pesado, já que havia muitos carros entrando e saindo livremente do estacionamento.
Meu pai estacionou perto dos fundos, dando um tapa no câmbio entre nós e pondo o carro em pronto morto.
— O que achou? — perguntou ele, virando-se para mim, o couro rangendo embaixo de seu corpo.
I fear rivers overflowing, cantou o Creedence. I hear the voice of rage and ruin. Rios transbordando. A voz da raiva e da ruína.
Meu pai desligou o motor, silenciando a banda bem no meio da música.
— É diferente do que eu esperava — falei, olhando para o teto de metal branco que refletia o sol em um ângulo ruim e o mandava diretamente para meus olhos.
Ao ver aquilo, achei que fazia sentido que as pessoas da cidade não quisessem gastar todo seu dinheiro em uma prisão supermoderna. Seus impostos poderiam ser usados para manter belo o que era belo, feio o que era feio e permitir assim que os tijolos escuros da instituição ficassem escondidos sob a Meca de montanhas que a cercava.
Eu já havia aprendido que a beleza tinha um efeito cumulativo. Quando as pessoas consideravam algo bonito, o objeto da afeição delas continuava a receber todos os elogios e toda a atenção possíveis. Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa, brincara Gertrude Stein, minha nova poeta favorita. Nomear algo bonito o torna bonito. Eu via isso na maneira como a igreja falava do casamento como uma instituição sagrada e nos adesivos UM HOMEM + UMA MULHER que as pessoas colocavam nos carros, os mesmos que meu pai entregava a qualquer cliente que passasse pelo lava a jato de sua concessionária.
Nomear algo feio tem um efeito parecido. O som da minha mãe vomitando na noite em que me trouxe para casa me ensinou essa lição melhor do que qualquer outra coisa. Eu era gay e recebera esse nome — um fato que, depois de ingerido, devia ser expelido imediatamente.
Meu pai e eu ficamos sentados em silêncio por mais alguns segundos.
— Não vamos mais falar sobre a sua situação — disse ele. — Pelo menos até a gente saber mais.
Eu me perguntei se meus pais já haviam marcado uma sessão de terapia, se estavam apenas esperando para me contar depois da prisão. Por mais irracional que isso me parecesse na época, eu via aquela visita como um teste. Um teste para minha convicção, para minha coragem, para o amor que sentia pela minha família.
Sem perder o ritmo, meu pai abriu o porta-luvas e pegou um enorme saco de M&M’s de amendoim. Aquele gesto me pareceu mágico. Um segundo antes, havia apenas o couro marrom, o plástico escuro do painel e as cores escuras de nossas roupas. De repente, um saco amarelo de doces surgira nas mãos de meu pai e começara a refletir a luz da manhã.
— Pense rápido — disse ele, jogando o saco em minha direção.
Minhas mãos se atrapalharam, errando a mira, e o saco caiu em meu colo com o barulho de cem bolinhas de gude batendo umas nas outras.
— O que é isso? — perguntei.
— M&M’s.
Chacoalhei o saco amarelo com ambas as mãos.
— Eu queria saber por que você trouxe isso.
— Você vai fazer o seguinte — disse meu pai, abrindo a porta do motorista e deixando uma rajada de ar absurdamente quente tomar conta do carro. — Você vai dar um punhado de M&M’s para qualquer detento que conseguir recitar pelo menos dois versículos da Bíblia.
— Esse é o plano? — eu quis saber. — Distribuir chocolate?
— Esses doces podem parecer pouco para você, mas essas pessoas não têm muita coisa. Eles adoram quando eu venho fazer uma visita.
Os membros da congregação costumavam dizer que os planos do meu pai eram inspirados, e tinham um bom motivo para isso: quase sempre surgiam do nada, nos pegavam desprevenidos, chegavam perto o bastante do limite do absurdo para gerar um arrepio pelo corpo, faziam a gente questionar o que poderia acontecer depois. Apesar de achar que já as havia superado, tinha que admitir que as táticas do meu pai eram criadas por um tipo peculiar de genialidade. Ele entendia o que as pessoas queriam e construía sua missão a partir disso.
Apesar de não ter perguntado nada, entendi a lógica proposta por ele. Bastava dar aos prisioneiros algo que desejassem, um objetivo pelo qual trabalhar a semana toda. Desse modo seria possível levá-los a uma compreensão mais profunda das escrituras, o corpo cedendo à alma. Era uma variação do que Jesus havia feito perto de Betsaida, ao transformar sete pães e alguns peixes em comida suficiente para cinco mil homens. O milagre do meu pai seria o da magnificação, como o de Jesus: ele plantaria alguns M&M’s de amendoim nos estômagos daqueles homens e eles ficariam satisfeitos com o choque do sabor quase esquecido. Então, e só então, estariam preparados para receber o corpo de Cristo.
Esse mesmo sistema de recompensas havia funcionado para mim quando eu era mais novo. Na colônia de férias da igreja, eu recitava o nome dos livros da Bíblia em ordem — Deuteronômio, Josué, Juízes —, aqueles nomes estranhos e pesados em minha língua, conjurando imagens de pergaminhos empoeirados e de velhos homens barbados sentados em tronos dourados. Eu havia decorado o máximo de nomes possível porque sabia que o pastor ia me recompensar com doces depois. Deixai os pequeninos, diz a Bíblia. Eu tinha ouvido meu pai explicar uma vez que os detentos eram, de certa forma, iguais a crianças pequenas pegas com a boca em várias botijas — e que todos nós éramos como crianças, perdidos até encontrar Jesus. Ou seja, ensinaríamos aos detentos que a recompensa dos doces, e um dia do Céu, só seria recebida depois de muita dedicação.
— Temos que apelar para os desejos mais básicos desses homens — disse meu pai —, antes de apelar para os mais sofisticados.
No ano anterior, meu pai havia aprendido que não podia ofertar aos presos nada que não fosse produzido em escala industrial. Ele depois me contou que, uma vez, havia enchido um isopor com uvas e gelo e passado punhados de fruta pelas grades, mas depois descobrira que os homens haviam tentado fazer vinho com elas. Tinham enchido sacos Ziploc com as uvas, misturado pedaços de pão velho e colocado os sacos embaixo de suas camas para fermentar.
Deitado na cama à noite, eu imaginava aqueles homens reunidos em torno dos saquinhos, sussurrando palavras gentis e acariciando o plástico frio com os dedos calejados. Imaginava todos eles, os braços tatuados em volta dos ombros dos companheiros, sendo doces e carinhosos quando ninguém estava olhando. Eu os imaginava atrás das grades, deitados nos catres, apertando a parte de baixo do plástico e bebendo o vinho quente. Então, quando a culpa começava a inundar meu peito e minha respiração ficava ofegante, eu tentava esquecer aquela ideia, fechava os olhos com tanta força que manchas alaranjadas dominavam meu campo de visão. As imagens então se dissipavam, perdiam a cor atrás de uma parede de pontos rodopiantes, já feias para mim.
* * *
Antes de concordar em ir até a penitenciária, eu não havia perguntado a meu pai o que ele fazia lá dentro. Só sabia que precisava segui-lo, me esforçar ao máximo por ele e por Deus, fazer tudo que pudesse me tornar merecedor aos olhos dos dois.
Aos nove anos, enquanto assistia à versão da Disney de Peter Pan, eu ficara hipnotizado, diante da TV da sala de estar, com a cena em que Peter sacode a sombra para que ela seque. Era a essa noção que eu precisava voltar aos dezoito anos. Tinha que me tornar uma sombra, me costurar às solas dos pés de meu pai até não correr mais risco de ser perdido ou pisoteado. Eu já havia crescido tanto naquele primeiro semestre de faculdade, já havia passado por tanta coisa, que a ideia de voltar à infância eterna, de me tornar criança de novo aos olhos de Deus, parecia impossível. Eu voara para um território novo, mas, ao contrário de Peter, o território havia me alterado completamente, me tornado em uma espécie de estranho em minha própria casa.
Imaginei que o menino de David também havia se sentido desse jeito logo depois do estupro, um estranho para si e para as pessoas que o cercavam. Perguntei-me se ele havia encontrado alguém para guiá-lo para fora do labirinto em que David o dilacerara e abandonara — e torci para que sim. Inconscientemente, aquele garoto sem nome havia de algum modo se tornado Brandon. Eu tinha pesadelos com aquilo, momentos de transfiguração nos quais o garoto se erguia de uma pilha de lençóis sujos e atravessava o porão de Chloe até meu saco de dormir. O bater de pés no concreto frio. Sob a luz azulada da TV, o rosto dele se tornava o de Brandon e ele me perguntava se eu queria mesmo ser gay. Quando eu não respondia, ele me perguntava se eu queria mesmo me matar e, quando mais uma vez eu ficava em silêncio, ele se deitava ao meu lado no saco de dormir e, de olhos arregalados, me encarava, como Janet Leigh em Psicose, até o sonho acabar.
Apesar desse sonho, eu não havia ligado para saber como Brandon estava. Tinha medo de ouvir algo que não queria e estava despreparado para o que quer que Chloe pudesse dizer se atendesse. Eu não falava com ela desde o nosso término e não queria enfrentar suas críticas quando ela descobrisse o que estava acontecendo comigo. Como eu podia começar a explicar uma situação que, para todos os efeitos, não existia?
No caminho até a cadeia, eu havia me preparado para a aparição repentina de David toda vez que a caminhonete entrava em uma curva. Sabia que era uma ideia irracional, que não havia motivo para David estar naquela estrada, mas a simples menção do nome dele tinha o poder de conjurá-lo. Eu havia examinado cada veículo que nos ultrapassara em busca de vestígios de seu rosto pálido, passando os olhos rapidamente de um passageiro para o outro a fim de evitar qualquer contato visual prolongado. No entanto, considerando minha situação na época, a prisão parecia o lugar mais seguro para evitá-lo. Eu já sabia que ninguém o puniria pelo que ele havia feito. A pastora presbiteriana da faculdade tinha me aconselhado a manter a cabeça baixa e a evitar um escândalo, já que seria apenas minha palavra contra a dele.
David me ensinou melhor do que ninguém a manter a cabeça baixa, mas foram os outros — as pessoas para quem contei depois — que insistiram em um reajuste permanente da minha postura corcunda. O que David havia feito comigo e com aquele garoto era invisível, algo que as pessoas que me cercavam simplesmente não queriam discutir. Ao escolher o poder da invisibilidade, eu também tinha desistido da minha voz.
* * *
— Não tenha medo — disse meu pai, me olhando. — Esses homens são iguais a todo mundo. Só foram pegos.
Nós dois saímos da caminhonete. Segurei o saco de M&M’s com força.
— Não estou com medo — falei, as sílabas se abrindo.
Mé-ê-do.
Meu pai apertou o controle remoto da chave e a caminhonete buzinou ao meu lado, piscando os faróis inúteis. Ele havia se vestido de maneira mais desleixada para a ocasião. Estava de calça jeans clara, tênis branco e uma camisa de botão azul-escura para fora da calça, o cabelo grisalho bagunçado pela brisa ocasional que passava entre as montanhas às nossas costas. Como muitos dos presos eram pobres coitados, ele não queria usar nada muito caro nem passar a impressão errada. Meu pai não era Jim Bakker. Não queria o dinheiro deles. Queria que suas almas estivessem seguras no Céu.
Eu usava uma camiseta preta do jogo Legend of Zelda, calça jeans rasgada e chinelo. Tinha redescoberto a camiseta na noite anterior, no fundo da minha antiga cômoda, depois das duas horas de viagem de volta para casa. Apesar de fazer mais de um ano que não tocava em um videogame, Zelda pareceu a escolha apropriada. Link, o protagonista silencioso do jogo, era um especialista em invasões de calabouços e na resolução de quebra-cabeças. Eu precisava mais dele do que nunca.
Segui meu pai pelo asfalto preto. Entramos na sombra parcial da cadeia e ele girou o relógio prata até o mostrador brilhar, queimando uma meia-lua branca em seu rosto.
— O Indomável já devia estar aqui — disse ele, a meia-lua deslizando para o furo em seu queixo.
“Indomável” era o apelido que meu pai dera a Jeff, um funcionário que lavava carros para ele em tempo integral e um dos membros do círculo de oração da concessionária. Eu havia trabalhado com ele todos os verões desde que meu pai assumira a loja, e foi ele quem me ensinou a fazer todas as etapas de limpeza de carros. Indomável me ensinou a notar os menores defeitos em automóveis usados: o espaço empoeirado entre o mostrador do velocímetro e sua tampa de vidro, as beiradas cobertas de migalhas entre os bancos da frente e o painel, os forros internos gosmentos dos suportes dos bancos traseiros. Ele me ensinou que são os detalhes que mais importam. As pessoas querem crer que alguém está prestando atenção, que alguém se importa o bastante para mergulhar fundo.
Quando meu pai o conheceu, o cabelo de Indomável era comprido e oleoso, penteado para trás como os pelos de um roedor, e suas palavras saíam encadeadas em uma única frase arrastada. Depois que meu pai levou Indomável para o Senhor, fazendo-o ajoelhar-se com ele em seu escritório, o apelido pegou, uma espécie de equívoco irônico. Indomável não era mais nem um pouco indomável.
Nós formávamos uma boa equipe. Quando trabalhávamos juntos, ele preferia os produtos químicos, já eu gostava de usar a mangueira de pressão. Quando achávamos uma mancha impossível de ser retirada, nos revezávamos e a esfregávamos com um pano, continuando o trabalho do ponto em que o outro havia parado. No entanto, ao contrário de mim, Indomável tinha conseguido limpar a si mesmo, tinha usado seu talento para domar o passado. Tinha achado um jeito de sair da escuridão — cortado o cabelo, escondido as tatuagens com mangas longas, aprendido a enunciar as sílabas — e isso o levara a ensinar aqueles presos a seguir o mesmo caminho.
Ele apareceu alguns minutos depois, o cabelo curto penteado para o lado com uma quantidade generosa de gel.
— Desculpem o atraso — disse, a respiração ofegante, o rosto suado. — Tive que voltar para pegar minha Bíblia.
Ele ergueu uma Bíblia clássica preta e a usou para abanar o rosto. Nunca ia a lugar algum sem ela, um novo cristão “sedento pela Palavra de Deus”, como dizia meu pai. Pelo que pude perceber, ele não sabia nada sobre a minha situação. Meu pai pareceu confirmar isso com um olhar que dizia: você pode estar aqui por causa do seu pecado, mas não precisa declará-lo, não precisa deixar mais ninguém saber da nossa vergonha.
— Deus não perdeu tempo hoje — disse Indomável, esticando o pescoço para olhar para o céu, o pomo de Adão se movendo. — O dia acabou ficando bonito.
Acompanhei o olhar dele. Uma camada de nuvens finas se desfazia sobre o pico das montanhas, caindo lentamente pela troposfera. Era um daqueles dias em que a escuridão do espaço parece pressionar ainda mais a atmosfera, dando ao céu uma saturação maior, despercebida até os olhos decidirem revelar sua profundidade.
— É a imagem de Deus descansando — disse meu pai. — “E Ele descansou no sétimo dia.”
— Mas nós não podemos descansar — disse Indomável, apontando para a porta da cadeia. — Deus fez este mundo e agora temos que garantir que não vamos estragar tudo com o nosso pecado.
Nós três andamos até a porta de metal da prisão. Meu pai pressionou um pequeno botão vermelho no centro de uma caixa metálica e disse seu nome. Então se virou de novo para nós, pigarreando.
— Prontos para salvar algumas almas? — perguntou.
— Esperei a manhã toda por isso — disse o Indomável.
De algum lugar acima de nossas cabeças, veio o som de uma câmera girando para nos encarar. Nós três olhamos para cima e observamos a lente se aproximar. Vistos daquela altura, nossos rostos possivelmente formavam um triângulo e o meu devia ser o vértice posterior.
A porta zumbiu, ganhando vida, o barulho de uma campainha de game show. Meu pai a empurrou. Segui Indomável e ele até uma antessala, sentindo o choque do ar-condicionado na pele, e esperei que a outra porta abrisse. Ficamos parados na pequena caixa metálica como se estivéssemos em um elevador, a janelinha dando para uma recepção vazia.
— Só quero conferir uma coisa — disse meu pai, sua voz ecoando repentinamente. — Qual é o único versículo que não vale doce nenhum?
Endireitei as costas. Daquela vez, não ia hesitar antes de tentar adivinhar.
— João 11:35.
Era o versículo que toda criança batista missionária tentava “decorar” pelo menos uma vez, normalmente quando tinha que recitar algo na colônia de férias da igreja e normalmente porque é um versículo muito curto. Meu pai não queria que os presos fossem negligentes ao ler a Bíblia e estudassem um versículo tão simples. Queria que o máximo possível de palavras de Deus entrasse na cabeça deles. Jesus chorou: duas palavras simples que haviam me assombrado. Eu não chorava desde a noite em que minha mãe havia me buscado na faculdade — desde que havia observado os fios de alta tensão mergulharem entre as estrelas pálidas, pensando apenas no que meu pai diria quando descobrisse, os fios unindo constelações que eu não sabia identificar. Não planejava chorar tão cedo. Quando via um homem chorar na igreja, sentia que ele ia arrancar a pele do rosto, descascá-la para que todos vissem sua segunda personalidade secreta. Nas semanas seguintes ao estupro, sempre que pensava em chorar, eu me beliscava com força para me concentrar apenas na dor. Não daria a mais ninguém a oportunidade de ver minha fraqueza.
Meu pai se virou para mim, os olhos cor de mel esverdeados sob a luz fluorescente. A porta se abriu à nossa frente, mas ele não se mexeu.
— Isso mesmo — disse, erguendo a mão para bater em minhas costas.
Eu me encolhi involuntariamente, e a mão dele ficou paralisada.
— Isso mesmo — repetiu ele, abrindo a porta.
Indomável e eu fomos com ele até a recepção. Um policial com um charuto semimastigado pendurado no canto da boca assentiu e abriu a porta seguinte. Era uma pequena prisão em uma pequena cidade das montanhas Ozark, por isso os carcereiros conheciam bem meu pai. Não era preciso apresentar a identidade, não era preciso revistar ninguém.
— Lembre-se de ficar a pelo menos um metro e meio das celas — disse meu pai. — E não ligue se alguém xingar você.
Ele fez um gesto para que eu entrasse primeiro. Assenti. Queria provar que era tão corajoso quanto ele. Queria provar que era capaz de mudar. Abra todas as portas e muitas pessoas verá.
* * *
O corredor estava escuro. Ou talvez parecesse assim porque tínhamos acabado de sair do sol. Focos de luz neon formaram um arco sobre o caminho, encaixados nas laterais das celas escuras.
“Fosfeno”, explicara a professora de biologia da escola quando eu havia adormecido na aula dela. “Estava boa essa sua viagem de fosfeno?”
Na noite em que David me forçou a deitar em sua cama, eu vi centenas deles, redemoinhos cor-de-rosa, amarelos e laranja deslizando como patinadores sob minhas pálpebras.
“Às vezes isso é chamado de ‘cinema do prisioneiro’”, continuara a professora.
Era um fenômeno associado à observação demorada de uma parede nua — em meu caso, à observação da parede nua do meu quarto com uma tesoura na mão, enquanto esperava que a solução se apresentasse, que Deus escrevesse a resposta com sua mão sem corpo, como fizera com o rei Belsazar no Antigo Testamento.
Mantive-me próximo à parede, o ombro entrando e saindo dos espaços entre os blocos de concreto branco. De tempos em tempos, eu conseguia distinguir o brilho fraco de um rosto sorridente listrado por barras de metal escuras. Nenhum dos presos pareceu se mexer. Nenhum deles disse nada além de alguns “Oi” ou “É bom ver você”. Mantive minhas mãos cheias de doces longe deles, com medo de que tentassem pegá-los através das grades, apesar de todos parecerem extremamente educados.
Pude ouvir os passos de meu pai ecoando atrás de mim, mas não me virei, temendo que ele detectasse o medo em meus olhos. No final de semana anterior, quando o visitara na concessionária, meu pai havia erguido o punho para me bater. Fora no momento em que nossos medos mútuos da minha sexualidade haviam se conhecido. Eu havia feito algum tipo de brincadeira no showroom enquanto todos observavam, algo sobre ele não querer parecer fraco diante dos clientes, algo do qual não conseguira lembrar no instante em que ele me levara para o escritório e me ameaçara com o punho fechado. No instante seguinte, seu rosto se enchera de terror ao reconhecer o que estava fazendo, o que seu pai fizera com ele. Então ele abrira o punho e se desculpara, olhando para o carpete o tempo todo. Me bata, pensei. Me bata e vou ganhar um passe livre. Me bata e eu não vou mais precisar amar você. Mas ele não havia feito nada. Uma lágrima se formara no canto do olho, correra pela bochecha até o furo em seu queixo e pronto. Se a lágrima era pelo filho gay ou por ele mesmo, eu não soube dizer. Apenas me senti grato por ele não ter começado a chorar de verdade.
— Vamos dar um jeito — dissera ele, a voz trêmula. — Vamos levar você a um especialista.
Lembrei a mim mesmo que ele não me faria qualquer mal intencionalmente — que, apesar de tudo, ele decidira abrir o punho fechado — e relaxei um pouco no corredor escuro. Meu pai era a única pessoa em uma multidão que com certeza reagiria imediatamente caso uma emergência acontecesse. Quando eu era mais novo, ele analisava cada brinquedo do parque de diversões antes de permitir que eu andasse em algum deles. Enquanto passava por ele no rotor, as pernas balançando, o ar do verão fazendo cócegas atrás dos joelhos, eu via seu rosto sério como um ponto fixo em um mundo em movimento, seus olhos vidrados no parafuso acima da minha cabeça. Ele sempre parecia estar bem atrás de mim, me observando. A faculdade havia me levado para longe dele e dos ensinamentos da igreja, e eu tinha sido punido com severidade. O parafuso havia se soltado, e eu tinha caído no lugar ideal para que David me agarrasse.
— Com licença — disse o policial mastigador de charuto, passando por mim.
Ele cuspiu pedaços de tabaco em um copinho de isopor que tinha na mão. Catapultados de seus lábios, pareciam minúsculos pedacinhos de confete negro. Na outra mão, ele trazia um grande chaveiro de latão que parecia conter centenas de chaves. Seus dedos passaram rápido por várias delas até acharem a certa, a qual enfiou na fechadura da porta ao fim do corredor, sacudindo-a para abri-la.
— Espere aqui — pediu meu pai, passando por mim e seguindo com o policial até onde um grande grupo de detentos nos esperava em uma cela enorme.
O policial e meu pai andavam diante de mim e Indomável para garantir que tudo estava certo para o culto. Toda vez que meu pai visitava os presos, precisava passar pelo menos dez minutos acalmando todos, pedindo que baixassem o volume da televisão do canto da cela, parassem de xingar um ao outro.
Pela porta aberta, pude ver também a ala feminina na outra ponta da grande sala, as várias mulheres mais velhas afastando-se das grades quando meu pai passava, caretas envergonhadas tomando seus rostos, mechas de cabelos compridos caindo sobre seus ombros.
— Seu pai costumava pregar para as mulheres também — disse Indomável, apoiando-se na parede.
A porta grunhiu e se fechou diante de nós, seguida pelo barulho da trava deslizando para a fechadura.
— O que aconteceu? — perguntei. — Por que ele parou?
— Elas começaram a se comportar de modo muito nojento — disse ele. — Ofereceram alguns favores, se é que você me entende.
Você não sabe como é estar com uma mulher.
— E o que ele fez depois disso? — quis saber.
— Você sabe como seu pai é — respondeu Indomável, olhando para a cela diante de nós.
O homem dentro dela não parecia estar nos ouvindo. Estava deitado de costas, as feições escondidas pelo antebraço que pousara no rosto. Descobri depois que aquele corredor era reservado para alguns dos casos mais extremos.
— Ele tentou ainda mais depois disso — continuou Indomável. — Pregou com mais afinco.
— Ele conseguiu fazê-las mudar?
Indomável balançou a cabeça.
— As coisas que aquelas mulheres disseram para ele depois disso... — respondeu. — Eu não conseguiria repetir em sã consciência.
Eu me perguntei quando meu pai havia contado aquilo a Indomável. Será que tinham trocado olhares de êxtase momentâneo, histórias das mulheres com quem haviam estado, de erros de cálculo que quase haviam resultado em uma saída dos trilhos? Na única ocasião em que meu pai me levou ao Hooters, perto da época em que cheguei à puberdade, eu fui tão educado com as garçonetes e olhei tanto para os sapatos delas, que ele deve ter confundido isso com um fetiche por pés.
— Existem muitas partes para se admirar em uma mulher — disse ele, como se estivéssemos falando dos carros antigos dele.
Nunca voltamos lá.
— Mas, no fim, ele desistiu — disse Indomável. — Às vezes não dá para curar as pessoas.
Meses depois, em um gesto que chocaria nossa igreja, meu pai receberia permissão da prisão para casar dois detentos que se conheciam desde antes da cadeia, provando que ainda conseguia afetar as mulheres até certo ponto, que aquela cerimônia sagrada podia levar algumas delas ao caminho da retidão. Ele ficaria de pé, de costas para um grande bordo, recitaria a primeira epístola aos Coríntios — O amor é sofredor, é benigno —, permitiria que os outros prisioneiros dessem uma pequena festa na cela grande e organizaria uma visita conjugal naquela noite. O casamento não vê limites, parecia dizer aquele gesto, contanto que seja abençoado aos olhos de Deus. A cerimônia daria a ele ainda mais respeito do que já tinha e levaria muitas prisioneiras a se ajoelharem no chão de concreto de suas celas e pedirem que Jesus entrasse em seus corações.
Indomável enfiou a mão no bolso traseiro da calça jeans. Tirou dali vários panfletos coloridos e me entregou um bolo.
— Então passamos apenas a entregar um bolo desses aqui e esperar que elas aprendam alguma coisa da mensagem de Cristo.
Posicionei o saco de M&M’s embaixo de um dos braços, peguei o bolo e folheei as páginas grossas, a fonte Comic Sans vermelha e dourada brilhando sob a luz fraca. Abri um livreto no fim. Havia uma aquarela de uma mansão celestial com uma grande rua de ouro cintilante estendendo-se reta a partir dela. SÓ HÁ UMA MANEIRA DE ENTRAR NO REINO DOS CÉUS, dizia o livreto. J-E-S-U-S.
Eu via aqueles folhetos largados por toda a parte sempre que voltava para casa, um número cada vez maior deles preenchendo nossos balcões, mesas e cadeiras. Quando voltava para a faculdade, meu pai me incentivava a levar alguns para o caso de ter a oportunidade de pregar para um aluno perdido. O máximo que eu havia feito tinha sido deixar alguns dos folhetos sobre um suporte de papel higiênico do banheiro da biblioteca. No entanto, ao sair da cabine, eu imaginara estranhos folheando as páginas, as digitais se misturando às minhas. Eu ficava animado com a ideia de que isso aconteceria em seus momentos mais vulneráveis, a calça amontoada na altura dos tornozelos. Como meu pai, eu conhecia bem as tentações. A melhor opção, naqueles casos, parecia ser jogar os folhetos e continuar andando. Depois de certo tempo, uma solução talvez se apresentasse.
— Quer saber? — disse Indomável, passando a mão pelo cabelo fantasma, esquecendo, como sempre, que o antigo emaranhado oleoso não cobria mais sua cabeça. — A gente devia entregar alguns desses folhetos enquanto esperamos seu pai.
— Tudo bem — falei, pondo os folhetos no bolso.
As palavras soaram vazias, mas eu tinha me comprometido.
— Ótimo — afirmou Indomável. — A gente pode seguir em direções diferentes, conversar com alguns homens e se encontrar aqui de novo.
— Beleza.
Ele me deu as costas. Sua fé em mim foi instantânea: eu era filho do meu pai. O caminho fora disposto diante dos meus pés e se desenrolava até a beira do trono dourado de Deus. Indomável devia pensar que era eu que tinha sorte por ter pulado tantos passos.
Eu o vi andar pelo corredor na direção da entrada e depois seguir por um corredor paralelo. Então fiquei sozinho.
Voltei ao início do livreto. Você está perdido?, dizia. O livreto trazia o desenho de um pequeno garoto de cabelo castanho parado no meio de uma rua mal iluminada. A distância, apoiada em um poste, estava uma figura coberta por uma capa escura, o próprio Diabo, caricatamente maldoso, com uma bengala torta e um rabo vermelho e afiado saindo por trás da capa. Apesar de ser ameaçador, o Diabo parecia solitário, parado ali sozinho naquela área escura e isolada.
* * *
Eu só não me sentira sozinho durante um ano da minha vida. Eu tinha doze anos, uma época em que os batistas missionários diziam que eu havia nascido de novo, o momento da vida em que todo crente verdadeiro aceita Jesus Cristo como seu salvador e jura ser cristão pelo resto da vida. Apesar de a sensação ter esmorecido desde que eu era pequeno, ainda conseguia sentir o amor de Deus, que a tudo abrange, emanando de um lugar profundo do meu plexo solar. A sensação se instalara ali em uma noite em que eu estava deitado na cama de baixo do beliche, sentindo que não merecia viver. Isso havia sido depois de nosso pastor ter feito um discurso fervoroso sobre como os cristãos deviam ser humildes diante do Senhor, sobre como devíamos perceber como somos maus e pequenos a partir do minuto que deixamos o útero de nossas mães. Naquela noite, dentro da câmera acústica vazia de minha mente, um lugar que costumava reservar para considerações bobas sobre o dia, eu me perguntei:
— Será que eu sou amado?
A resposta veio na forma de uma queimação que percorrera todo o meu corpo e fizera meus membros tremerem. Naquele instante, eu amei a sensação dos lençóis em minhas costas. Amei a frieza do carpete do quarto sob meus dedos quando ficava de pé. Amei cada rosto que já vira, cada ferida e ruga de preocupação. Então cobri o rosto com as mãos e chorei de alegria. Ao questionar o amor, descobri que o dera a mim e a outros. E, na época, acreditei que Deus havia me emprestado aquela capacidade. No entanto, à medida que fui envelhecendo e que passei a receber amor com menos facilidade, comecei a me perguntar se aquela sensação não teria sido apenas uma alucinação. Afinal, aquilo era um amor não testado. O amor, com o tempo, podia florescer ou morrer, tornar-se uma fonte de encantamento ou a lembrança de uma dor.
* * *
Olhei para cima e vi o prisioneiro da cela à minha frente sentando-se na cama. Estava me observando. Devia ter nos escutado o tempo todo. Era mais velho e tinha pelos grisalhos cobrindo a ponta das orelhas. Rugas em meia-lua marcavam a pele em torno de seus olhos e seus longos braços caíam entre os joelhos como cipós.
— Oi — falei. — Qual é o seu nome?
O homem fez que sim com a cabeça, os olhos ainda me observando. Tentei não acompanhar seus braços, tentei não olhar para a pequena elevação entre suas pernas. Era tudo familiar demais, o modo como estava sentado no beliche. Senti algo se revirar em meu peito, um bolsão secreto de raiva que havia esquecido.
— De onde você é? — perguntei.
Era uma pergunta boba. Os prisioneiros eram todos da região. A maioria havia nascido e crescido na cidade.
O homem tossiu, piscou.
— O que você tem aí? — quis saber ele, sua voz um chacoalhar seco. — Chocolate?
— É — falei, segurando o saco de M&M’s diante do corpo.
As pequenas bolinhas balançaram de um lado para outro.
— Mas também tenho isto aqui.
Pus a mão no bolso da calça e saquei um bolo de folhetos amassados, me aproximando, exibindo-os para que o homem examinasse. Não toquei na grade, com medo de elas se desfazerem com a menor pressão.
Ele olhou do meu rosto para minhas mãos, de um para o outro, como se tentasse decidir qual era mais perigoso. Um olhar de medo passou por nós dois. Enquanto os olhos estavam sobre mim, pensei em todas as portas que impediam que aquele homem visse as montanhas Ozark, visse a névoa surgindo dos picos toda manhã em faixas rosadas. Era fácil entender por que os folhetos do meu pai funcionavam tão bem, suas ruas iluminadas eram como um sonho estilizado do mundo exterior.
— Eu sei o que são — disse o homem, por fim. — O seu pai está tentando me dar um há um tempão.
— Ah — falei.
Desviei o olhar, passando os olhos mais uma vez pelo beliche. Não consegui evitar.
— Seu pai é engraçado com essas coisas — afirmou ele. Então fez uma pausa. — Se eu pegar um, você poderia me dar os M&M’s?
Meus olhos se ajustaram à luz fraca. Consegui começar a discernir a breve tentativa daquele homem de decorar sua cela: alguns desenhos de lápis de cera vermelho na parede, que pareciam ter sido feitos por uma criança; um calendário desbotado aberto no mês errado, uma pilha de cartas no canto da escrivaninha. Ao contrário da cela grande em que meu pai e eu íamos distribuir doces, não havia televisão ali para distraí-lo. Talvez ele tivesse feito algo violento. Talvez tivesse matado um homem, estuprado uma mulher.
— Se você souber recitar dois versículos da Bíblia — falei —, vai ganhar alguns.
As rugas do rosto do homem ficaram mais pronunciadas, ele estreitou os olhos de modo que quase ficaram encobertos pelas sobrancelhas grossas.
— Não tenho uma Bíblia — disse ele.
— Meu pai provavelmente tem uma aqui do lado — falei. — Posso conseguir uma bem rápido e você pode encontrar dois versículos curtos. Vai ser fácil.
— E se eu dissesse que não sei ler?
Olhei para a pilha de cartas na mesa dele. Será que alguém lia para ele ou o sujeito simplesmente estava contando uma mentira e nem havia se dado ao trabalho de esconder evidências contrárias?
— Talvez eu possa ler os versículos para você — respondi — e você pode repeti-los.
— E se eu disser que tenho memória ruim?
Minha garganta travou. Fechei os olhos. Palma da mão esquerda para cima. Respire. Vire a palma. O homem continuava a me observar do beliche. Respire. Tudo que tinha que fazer era entregar um folheto e me afastar. Era o mínimo que podia fazer. Não diga para si mesmo “Vire a mão esquerda” . Consciência é tudo.
— Por que você simplesmente não pega um dos folhetos e a gente pode conversar de novo semana que vem? — falei.
— Não — disse o homem.
A palavra soou mais dura que aço. Eu não o pressionei mais.
Foi o melhor que pude fazer. Quando meu pai voltasse alguns minutos depois, eu esconderia meu fracasso com um sorriso.
* * *
Havia detalhes que eu às vezes esquecia sobre a noite do ultimato de meu pai. A lembrança se dissolvia e então voltava em momentos inesperados. No corredor da cadeia, esperando meu pai voltar, folhetos grudando em minhas mãos suadas enquanto encarava um pedaço de concreto acima da saída, eu me lembrei do pior momento daquela noite.
Tinha sido pouco depois da meia-noite. Eu estava andando até a cozinha para pegar um copo d’água, mas parara diante da faixa de luz entre o batente e a porta do quarto de meu pai.
— E o médico? — sussurrara minha mãe, as mãos envolvendo o telefone sem fio.
Meu pai estava sentado ao lado dela na ponta da cama, observando o carpete. Eu não tinha ideia de quem poderia estar do outro lado da linha, com quem eles podiam estar falando de mim.
— Você acha que podem ser os hormônios? — perguntara minha mãe.
— É claro que não — dissera meu pai. — O garoto não precisa de médico. Ele só precisa ler mais a Bíblia.
— Como você sabe? — perguntara minha mãe, cobrindo o bocal do telefone. — Como você sabe do que ele precisa? Talvez ele precise de um médico.
Minha mãe havia olhado em minha direção naquele momento. Não dava para saber se tinha me visto, mas com um movimento na cama, ela saíra do meu campo de visão.
Eu então seguira até a cozinha, encarara a lua minguante acima da janela, seu reflexo pairando sobre o lago levemente ondulado, despreparado para o que viria depois.
* * *
Depois da ida à prisão, depois de me afastar do homem cético e de caminhar pelos corredores com o saco de M&M’s fechado, comecei a ansiar pelo médico misterioso que meus pais haviam mencionado. Apesar de não saber o que ele poderia fazer por mim e de não ter perguntado se meus pais haviam marcado uma consulta, torci para que aquele exame fosse mais fácil do que os que haviam vindo antes. Comecei a ansiar pela ideia de uma agulha furando minha pele, do sangue entrando em frascos etiquetados, de alguma coisa concreta que pudesse me dizer o que havia de errado comigo ou por que eu não conseguia realizar o que me parecia a tarefa mais simples: passar humildemente algo de mão para mão, realizar uma troca da palavra de Jesus entre duas pessoas. Talvez minha mãe estivesse certa. Talvez houvesse algo errado com meus hormônios. Talvez eles me fizessem ser menos homem. Eu não tinha passado no teste do meu pai na penitenciária — apesar de ele não ter me perguntado sobre os folhetos, apesar de não sabermos, nem de longe, qual poderia ser a nota mínima para passar nesse teste. Talvez fosse como o rosto sorridente de Indomável, que voltou de mãos vazias, mas armado com histórias de homens que haviam aceitado os folhetos com educação e dito que leriam tudo antes da visita seguinte. Eu não havia aprendido nada ali.
* * *
Uma semana se passou. Enquanto eu estava na faculdade, meus pais conversaram com o Irmão Stevens sobre o fato de haver ou não uma cura para minha doença. Ele sabia surpreendentemente pouco sobre como a Amor em Ação funcionava, mas parecia crer que se tratava da melhor organização daquele tipo. Um grupo de apoio para ex-gays, o Exodus International, a recomendara para ele e, com um forte apoio do grupo fundamentalista cristão Focus on the Family, meus pais foram convencidos. A AEA era a maior e mais antiga instituição de terapia de reorientação sexual do país. Se não conseguissem me tornar hétero, ninguém poderia.
Para me preparar para a terapia de reorientação sexual, a AEA queria que eu fizesse algumas sessões introdutórias com um terapeuta aprovado pela equipe. Minha mãe me levou a Memphis no início do feriado do Dia de Ação de Graças para uma dessas sessões. O consultório ficava ao lado da AEA, mas só poderíamos entrar na instituição quando eu tivesse terminado o processo de inscrição, que levaria meses até a aprovação final. Dentro do consultório do conselheiro, fiz o que mais tarde saberia se tratar do meu primeiro Inventário Moral, detalhando minha atração pelo mesmo sexo em linguagem vaga e não sexualizada, deixando de fora todos os detalhes sobre David, mas incluindo todas as fantasias sexuais das quais me lembrava. Quando o conselheiro perguntou se eu já havia tido alguma relação, falei sobre Chloe, sobre como me sentira culpado por ser omisso com ela.
— Ela podia ter ajudado você a superar suas dificuldades — disse o conselheiro. — Se tivesse contado a verdade a ela e vocês dois tivessem se confessado a Deus, talvez pudessem ter tido um futuro juntos.
Não consegui responder. Quis contar a ele sobre a pressão que sentia, que Chloe e eu quase havíamos transado para curar minha condição, mas fiquei com medo de que ele apenas me falasse mais sobre o que eu fizera de errado. Fiquei em silêncio, oportunidade que o conselheiro usou para pregar sobre a necessidade de eu me arrepender de verdade. Terminada a sessão, minha mãe perguntou se podia conversar com ele e, quando saiu do consultório, estava com os olhos úmidos e vermelhos. Eu sabia que ele havia contado algo a ela e esse algo finalmente a convencera.
Quando entramos no carro, ela disse:
— Vamos dar um passo de cada vez. Vamos tentar todas as opções.
Ficamos em silêncio durante toda a volta para casa.
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No domingo antes do fim do feriado, meu pai estava com um humor estranho. A manhã já chegava ao fim, mas ele ainda estava na poltrona de couro, de cueca boxer camuflada e uma camiseta branca de gola V, uma perna branca apoiada na mesinha de vidro. Tinha o olhar fixo na TV, na qual um jovem Clint Eastwood estreitava os olhos enrugados para uma paisagem desértica e se preparava para viajar rumo ao desconhecido. Atirador de elite, Clint nunca errava o alvo. Dava para ver no olhar dele.
Esbarrei em meu pai para pegar a chave do carro na mesa. Embora não estivesse mais incumbido do projetor, eu costumava sair cedo para espairecer antes do culto.
— Ele não tem medo de nada — disse meu pai.
— O quê?
— Clint — respondeu ele. — Ele vai direto para a linha de fogo.
Duas semanas antes, na prisão, meu pai havia pregado sobre a importância da coragem. Homens de verdade, dissera ele, não tinham medo de demonstrar emoção. Homens de verdade seguiam Jesus. Ao lado dele, passando os M&M’s pelas grades, eu pensara: Jesus chorou. O único versículo que ele pedira que os presos não decorassem, embora pudesse ter se encaixado muito bem naquele exato sermão. Um versículo muito simples e breve à primeira vista, mas tão difícil de interpretar quanto qualquer outro.
— A gente deve ter notícias do médico essa semana — disse ele. — Não se preocupe.
Fui até a cozinha e vi minha mãe varrendo o piso perto da porta.
— Oi, meu amor — falou ela. — Pode passar.
Eu não podia sair sem perguntar a ela o que meu pai quisera dizer ao falar do médico.
— O que a gente vai ficar sabendo no fim dessa semana? — perguntei.
Ela tirou os olhos da vassoura.
— A Dra. Julie vai fazer uns exames em você no Natal — disse. — Tem alguma coisa a ver com seu nível de testosterona. E a gente vai agir a partir disso.
A Dra. Julie, nossa médica de família, era a mulher com quem vinha me consultando havia cinco anos. Ela já sabia como me deixar à vontade quando lia meus exames, recitando casualmente sua litania de causa e efeito. Eu me sentia melhor só de saber que aquela “alguma coisa” pelo menos seria feita por ela.
Saí de casa naquela manhã entorpecido. Mal notei quando meus pais entraram na igreja. Mal ouvi uma palavra da mensagem do Irmão Stevens.
E, quando voltei para a faculdade naquela tarde, com a barriga cheia de carne assada com molho e purê de batata do almoço da igreja, as montanhas se tornando um planalto de ambos os lados da estrada, quase não notei o borrão avermelhado que abriu caminho pelos pinheiros, registrado pela visão periférica como uma mancha de luz escura. Não me preparei, mas o impacto nunca aconteceu. Se eu tivesse passado um segundo antes, a corça teria feito com que eu capotasse até a mureta de granito que margeava a estrada. Ainda assim, a imagem se manteve: a corça hesitante, uma pata pairando sobre o asfalto inclemente, um animal perdido, saindo de seu habitat natural, com medo de onde seus passos o haviam trazido.