Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Garrard Conley · Capítulo 11 de 20

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Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Sexta-feira, 11 de junho de 2004

 

Acordar. Tomar banho. Tomar café. Pegar o carro. Chegar à AEA.

No terceiro Inventário Moral, no quinto dia de terapia, eu já havia revelado ao meu grupo da AEA basicamente todos os meus pecados carnais, apesar de não ter contado a eles o que David fizera comigo por medo que Deus me punisse ainda mais se eu revelasse o segredo. Eu me sentia vazio. Com certeza não curado, mas não mais repleto dos pecados que havia mantido em segredo por tanto tempo. No entanto, em vez de alívio, eu sentia... O quê, exatamente? Minha culpa e meu medo tinham quase desaparecido em questão de dias, substituídos por algo que eu só podia descrever como Nada. Era o Nada que me levava pelos corredores brancos da instituição. Era o Nada que levava o garfo à minha boca durante as pausas para o almoço. O Nada deixava minha voz firme enquanto lia em voz alta a lista de pecados para o grupo. E era o Nada que me mandava para o banheiro, para encarar no espelho o rosto magro e de olhos fundos de um garoto que, apenas uma semana antes, eu teria visto como alguém à beira de uma situação vaga e horrível. Era o rosto de um viciado recente, de um estranho que eu poderia ver em uma calçada da cidade, carregando o aparelho de som da infância para uma loja de penhores, adesivos de arco-íris ainda no lugar. Só que, em vez da camiseta suja que costumava acompanhar um rosto assim, havia ali uma camisa de botão branca e uma calça cáqui perfeitamente passada. O sorriso que o rosto formava era, apesar da falta de emoção por trás dele, tão real quanto o de qualquer pessoa que esperava do lado de fora da porta de compensado. Nos breves instantes em que o Nada me deixava, eu sentia uma espécie de orgulho, algo que surgia de um redemoinho de dor sem fonte definida. Eu posso fazer isso, pensava. Posso fazer isso melhor do que qualquer pessoa aqui.

Em momentos mais sãos, eu me perguntava por que tamanha arrogância me satisfazia. Via J, devotado a Deus como um servo a seu mestre, como um escravo a seu senhor, como nosso Cadernos de Vícios nos instruía a ser. Ali estava ele, me dizendo que havia praticamente gabaritado as provas do vestibular, obtendo acesso tranquilo em qualquer universidade que escolhesse, e o que ele havia feito com isso?

— Eu sei que Deus pode usar este cérebro — dissera ele, um dia. — Só tenho que consertar as partes fracas, estudar mais.

E ali estava S, que lutara contra a própria sexualidade por tantos anos e fora repentinamente descoberta por causa de um ato em uma tarde solitária em seu trailer, uma experiência espalhada por todas as rodas de fofoca adolescentes — Você soube o que aquela menina estranha fez com o cachorro? Ali estava S, tentando retorcer a própria alma para se encaixar na imagem de corrupção que os pais viam nela.

E T, o homem cuja luta era mais aparente, que assumia todas as nossas cicatrizes, como Cristo, e sofria quase diariamente com seus estigmas e estigmatas, parado diante de nosso grupo. Como eu podia competir? Todos eles estavam na instituição havia mais tempo, sabiam como era a luta diária. Eles tinham passado pelo Nada e saído do outro lado com Algo, mesmo que aquele Algo fosse a vontade de continuar lutando, de continuar brigando, de continuar negando o pecado. Só que eu não tinha a mesma certeza do que faria com a minha dúvida. Um ano de faculdade resultou exatamente no cenário previsto por meu pai e pela igreja: eu tinha me transformado em um cético, um herege, alguém que questionava tudo o que sentia ou via.

— Quanto mais confuso você se sentir, mais próximo vai chegar à fonte do seu trauma da infância — dissera Smid naquela manhã.

A Fonte: ao contrário do que o nome do meu programa supunha, eu estava sendo levado por uma corrente submarina para o mar aberto, perdido naquele constante questionamento do meu passado. Na noite anterior, enquanto preenchia meu Caderno de Vícios, eu ficara tão confuso com as perguntas que havia saído escondido do quarto do hotel logo depois da meia-noite para dar algumas voltas pela vizinhança. Piscinas amarelas de luz dos postes me conduziram cada vez mais para ruas sem saída, os tênis rangendo, endorfina surgindo no meio da corrida, permitindo que eu me concentrasse por tempo suficiente em minha confusão para questioná-la. Descreva como é conhecer plenamente os outros e o fato de eles conhecerem você plenamente. Será que eu já havia conhecido alguém plenamente? Alguém já havia me conhecido plenamente? O que isso significava?

Quis correr até o breu do Mississippi e apostar comigo mesmo que conseguiria pular, me entregar à correnteza. Apesar de não ser suicida como T, eu gostava de flertar com a morte. O glamour de acabar com tudo de forma tão repentina não era muito diferente do Fim dos Tempos sensacionalista da igreja de nossa família. Também havia certo prazer em saber que o fim poderia chegar a qualquer momento, sem aviso. Podíamos estar seguindo a nossa rotina, pensando que estava tudo bem, quando de repente — bum! — a represa se romperia, a água subiria e todo objeto odioso que conhecíamos se tornaria um tesouro agora pertencente ao Reino Perdido: artefatos a serem examinados por futuros arqueólogos, mais esclarecidos. A vida ganharia um sentido maior depois disso. Toda aquela dor sem sentido seria compreensível no fim das contas.

Mas, como o suicídio é um dos pecados imperdoáveis, eu me mantive no circuito do bairro, coberto pela luz âmbar vaporosa. Tentei rezar — Senhor, torne-me puro —, mas tudo que senti foi um eco em minha mente. Naquele momento, pareceu que Deus havia me abandonado. Como o homem do subsolo, eu estava preso na estática, no Nada.

* * *

A sensação me lembrava uma história que ouvi quando minha família foi passar férias perto do lago Norfork, aos pés das montanhas Ozark. Um morador da região nos contou que uma cidade inteira havia sido coberta pela água. Fazendeiros da época da Depressão e suas famílias haviam tido que se mudar quando a represa de Norfork começara a ser construída. Escolas, igrejas e agências do correio, tudo tinha sido abandonado. Corpos em velhos túmulos haviam sido exumados e realocados em terrenos mais altos. Histórias apócrifas logo acompanharam o movimento: uma moto boiando na água — o peso dos objetos deixara de ser importante naquele mundo subaquático, tudo fora libertado de seu status na vida — havia parado sobre uma ponte de aço. Nomes de antigas cidades como Henderson, Jordan, Herron, Hand. Quase tudo desaparecera, corroído pela água, todos os vestígios apagados em nome do progresso.

— Não deixe isso assustar você — dissera minha mãe.

Ela tinha visto medo em meus olhos enquanto eu andava pela água ao lado de nosso barco alugado. Imaginei campanários raspando em meus tornozelos. Uma mão da cidade de Hand me puxando para baixo.

— As cidades estão bem lá no fundo — acrescentou.

Minha mãe passava bronzeador Banana Boat nos braços sardentos, espalhava-o sobre os ombros avermelhados. Naquele momento, senti que ela era uma criatura da terra, resistindo à inevitável atração da água que um dia enterraria todos nós. Essa ideia era fonte de tranquilidade e ansiedade. Nada daquilo importava de verdade, mas ainda assim nada daquilo importava de verdade, o que era uma ideia também apavorante. A não ser, é claro, quando eu pensava no que a Bíblia tinha a dizer sobre nossas vidas breves na Terra, então tudo aquilo importava de verdade.

Pilares de fogo e areia, gafanhotos devorando cidades inteiras: a história do cristianismo era cheia de demolições rápidas que levavam, no fim, à satisfação. Sodoma. Gomorra. Mas o que acontecia quando nunca ficávamos satisfeitos? O que acontecia quando nunca nos ajustávamos à perda do que um dia fora tão familiar? Só podemos caminhar pela água, como Pedro, se não questionarmos essa ideia. As pessoas costumavam erguer as cabeças em oração para o exato local em que as solas dos meus pés agora pisam, poderíamos pensar. As pessoas costumavam acreditar, lutar e viver — e agora isso foi esquecido. Quando começamos a questionar, afundamos rapidamente, a não ser que alguém como Jesus nos puxe de volta e nos dê uma bronca pela falta de fé, pela falta de visão.

Mas onde estava Jesus durante todo o tempo que passei na AEA? Onde estava a mão firme e ferida Dele? As orações que eu continuava recitando todas as noites se tornavam cada vez mais desesperadas e sem sentido. Por favor, me ajude a ser puro. Porfavor, meajudeaserpuro. Porfavormeajudeaserpuro.

Em lugar algum. A resposta não estava em lugar algum.

* * *

Eu havia conseguido voltar para o quarto de hotel uma hora depois de minha corrida noturna. Ainda conseguira me sentar à mesa sem me mexer demais e escrever as respostas para as perguntas do Caderno de Vícios do melhor modo possível: “Nunca conheci ninguém plenamente. Só achei que sabia quem eu era. E então a coisa com David aconteceu, e eu percebi, de repente, que vinha fingindo a vida toda. Porque eu não me conhecia, porque eu estava fingindo, porque eu não conhecia David. E foi esse um dos motivos pelos quais não consegui me proteger dele. Eu havia permitido que o Diabo me convencesse de que era um guerreiro de Cristo forte, mas, na verdade, estava vivendo uma vida de pecado. Preciso da força de Deus para me tornar verdadeiramente forte, para obter pleno conhecimento de quem sou e de quem verdadeiramente são as pessoas que me cercam.”

Eu já não sabia se aquilo era verdade, se havia alguma resposta para o que acontecera e nem se Deus continuava se importando comigo. Mas, mesmo que me faltasse a convicção de meus colegas, talvez eu ainda fosse o melhor em me confessar publicamente.

* * *

Almoço. Inventário Moral. Intervalo curto.

Fiquei a manhã toda encarando a faixa de pele branca em meu punho esquerdo, desejando que o tempo desse um salto para o futuro, esperando pelo momento em que minha mãe voltaria para me buscar. Um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos, como um dia. Meu pai havia citado esse versículo em um de seus famosos sermões, “Um décimo por dia”, ao pedir que os membros da congregação considerassem a brevidade de suas vidas.

— Façam a conta — dissera ele. — Vocês vão ver que nossas vidas são curtas demais.

Era a essa ideia que eu voltava enquanto o Nada me guiava por cada etapa da programação, enquanto rezava para o Nada quando os conselheiros nos pediam para baixar a cabeça diante das fatias grossas do ensopado de forno e agradecer a Deus pelo macarrão com carne instantâneo. Se eu simplesmente pudesse pensar naquelas duas semanas como alguns milissegundos... Quando aquilo tivesse acabado, quando minha cabeça parecesse menos cheia de coisas, talvez eu encontrasse Deus esperando por mim, pronto para ouvir minhas orações outra vez.

— É importante reconhecer as deficiências em nossa vida — dizia Danny Cosby, um dos conselheiros da equipe principal, parado no meio do grupo, o cabelo grisalho iluminado pelo brilho que entrava pela porta de vidro.

Smid não ia orientar nenhuma das oficinas naquela tarde, então Cosby tinha assumido seu lugar. A palestra dele era, outra vez, sobre a necessidade de praticar esportes. Ele nos dizia que a falta de esportes na infância podia levar a um comportamento efeminado. Dizia que era o homem perfeito para a tarefa. Um alcoólatra em recuperação com talento para esportes, ele era mais hétero do que qualquer homem que eu já havia visto. Ele nos contou que usava uma ética de trabalho que havia aprendido na prática de esportes em equipe para se afastar do alcoolismo — tudo com a ajuda de Deus, é claro. A vida de Cosby continha toda a matéria-prima necessária para gerar uma recuperação completa. Ele nunca havia sentido atração pelo mesmo sexo, ou AMS, na sigla da AEA. Nunca fizera o programa da AEA, já que seu único grande problema na vida havia sido o alcoolismo, mas a instituição o contratara como conselheiro porque acreditava que a experiência extensa com o AA era o único pré-requisito para curar todo e qualquer tipo de vício. Ele parecia não entender por que nenhum de nós havia chegado aos mesmos impulsos heterossexuais de maneira natural, mas estava disposto a nos convencer a fazer isso. Era tão bom quanto qualquer vendedor de carros que meu pai já havia contratado, senão melhor, apesar de eu não confiar muito em suas qualificações. Como um homem que não sabia como era conviver com nosso pecado podia saber o que era necessário para nos tirar dele?

— Homens, estou falando com vocês — disse.

As meninas do grupo tinham sido dispensadas para assistir a uma palestra separada, sobre feminilidade.

— Alguns de vocês não tiveram oportunidade de conviver com outros homens da sua idade.

A sombra do batente da porta caiu sobre ele como uma fita escura.

— Alguns de vocês idolatraram o corpo de outros homens porque não tiveram contato físico suficiente quando eram mais novos. Talvez tenham achado que não levavam jeito para esportes. Talvez tenham achado que eram diferentes.

J estava sentado diante de mim. Tentei não olhar para ele toda vez que Cosby repetia “contato físico”. Ele olhou para mim uma única vez e com tamanha frieza que fiquei sem saber se tinha apenas imaginado que havíamos estabelecido uma conexão antes. Mesmo assim, olhar nos olhos dele me pareceu um contato íntimo e aquela indiferença, uma indicação de algo compreendido e rapidamente escondido.

— O problema aqui é a forte influência dos rótulos — continuou Cosby. — Vocês se rotularam como pessoas que não praticam esportes. Infelizmente, nós nos acostumamos aos rótulos. Mas podemos nos livrar deles também.

Eu tinha medo de Cosby. Ele era um homem que havia lidado com viciados e alcoólatras durante grande parte da vida adulta, um homem que não via diferença entre ser gay e ser viciado em heroína. Tinha tomado LSD, cheirado gasolina, roubado uma loja de conveniência. Completara os Doze Passos do AA. Escrevera sobre tudo isso em seu testemunho e incluíra uma foto de si mesmo sorrindo em uma Harley, as palavras ”Uma vida transformada” escritas em letra cursiva ao lado da imagem. Eu não sabia como falar com ele. Apesar de toda minha vergonha e culpa, não conseguia achar que eu era igual a um viciado em drogas, a um ladrão de bancos. Meu pai sempre dizia que conhecíamos o caráter de um homem pelo jeito que ele tratava as pessoas “inferiores”, que um homem que se recusava a falar com alguém que está abaixo dele não valia nem um centavo. Mas ainda assim eu pensava que era melhor que tudo aquilo e temia que Cosby pudesse ver minha hipocrisia. Eu achava que ele já devia ter percebido que eu havia parado de realmente orar para Deus.

— É importante entrar em contato com essa parte de si mesmo — disse Cosby. — Essa parte masculina que está desaparecida há tanto tempo.

O recepcionista louro entrou na sala pela porta dos fundos, puxando a TV em um carrinho. Eu havia começado a odiar o sorriso presunçoso daquele garoto, o mesmo que eu via toda manhã quando ele vasculhava meus pertences em busca de IFs. Era um sorriso que parecia dizer: Já passei por isso e o que você está vivendo é só uma pequena fração do que vivi. O sorriso dele dizia: Só piora, mas sem a pena que eu via no rosto de Smid. O garoto tinha se graduado fazia pouco tempo, o status de ex-gay só lhe fora conferido recentemente, e ele parecia ter me notado, detectado em mim uma teimosia que já havia deixado para trás, algum tipo de racionalismo insistente que não podia existir em um lugar como a AEA.

— Espero que você esteja aqui pelos motivos certos — dissera ele naquela manhã, o dedo passando pelas dobras da minha carteira. — Porque se não estiver...

Foi estranho. Enquanto o garoto puxava a TV para o lado de Cosby, senti uma pontada de decepção e percebi, surpreso, que estava com saudade de Smid. Pelo menos Smid havia sido paciente comigo. Pelo menos Smid não olhara com nojo para mim. Cosby e o garoto louro compartilhavam uma expressão que me lembrava os olhares críticos que havia recebido de amigos e conhecidos no instante em que tinham descoberto, através da fofoca de David, que eu era gay. Era um olhar de: fique longe do meu filho, você é um pervertido, você é um monstro, tem alguma coisa errada em você.

— Todos aqueles pervertidos — dissera minha vizinha de porta uma semana depois de meus pais descobrirem.

Era uma velhinha de cabelos brancos, que estalava os lábios de um jeito que me fez pensar que ela ficara sabendo sobre mim. Mas, na verdade, ela estivera assistindo a um debate na Fox News sobre o casamento gay e me pegara para conversar enquanto eu caminhava perto de seu jardim.

— Alguém tem que examinar a cabeça deles. Ficam pondo as coisas onde não devem. Usando o encanamento errado, se é que você me entende.

Eu esperava que Cosby começasse a usar metáforas. Fiação malconectada? Marchas erradas? Parafusos soltos?

— Hoje vamos assistir a um documentário — disse Cosby, apertando o botão de ligar na base da TV.

Um assobio agudo eletrônico se espalhou pela sala e desapareceu no cenário, juntando-se ao zumbido das lâmpadas fluorescentes.

Não me lembro mais exatamente do assunto do filme, só que era sobre esportes. Lembro-me bem da satisfação no rosto de Cosby, de pé ao lado do grupo, os braços cruzados sobre o peito. Quase senti inveja de seu vício em drogas, da natureza masculina de seu sofrimento. Ele havia espancado homens em bares, entrado em brigas. Não precisava daquele documentário para ser hétero. Simplesmente era. A heterossexualidade exalava dele, habitava toda a sala. Ele era um animal exótico no meio de nós, um ser instintivo, sem nenhum pingo da vergonha que o restante de nós sentia. Quando não parecia enojado conosco, parecia achar aquilo divertido, como se não pudesse imaginar o que era conviver com uma cabeça tão dolorosamente distorcida.

Eu havia passado a vida toda me perguntado como era ter uma cabeça heterossexual — ou pelo menos desde que havia descoberto que era gay, quando, no terceiro ano do ensino fundamental, percebera que meu interesse pelo professor, o Sr. Smith, era muito maior que o dos meus outros colegas homens. Tivera uma série interminável de paixonites por homens, um incômodo constante que percorrera meu corpo por tanto tempo que acabei acreditando que a sensação era apenas parte do que significava estar vivo. O incômodo só se tornava uma dor aguda quando eu me permitia imaginar uma vida feliz com aquelas paixonites — o que era raro, logicamente. Enquanto Cosby falava, eu me perguntei como seria me ver refletido em todos os filmes, ter amigos e parentes constantemente fazendo piadinhas sobre minha vida amorosa, ter o mundo aberto para mim em todo seu esplendor. Como seria não ter que pensar em cada movimento, não ser analisado em tudo que fazia, não ter que mentir todos os dias? Em meus momentos de maior teimosia — momentos que deviam ter se acumulado tanto que o garoto louro não confiava mais em mim —, eu me dizia que devia ser chato ser hétero. Quando incorporava toda a minha teimosia, eu pensava: esse distúrbio é o que me faz ser mais inteligente. Essa desvantagem é o que gera minha ambição. Foi o que me inspirou a escrever.

Mas o manual era claro a esse respeito ao falar da atitude de superioridade que todos os homossexuais expressavam; basicamente o traço de uma mentira elaborada para esconder a verdadeira inferioridade deles: “Quando sua manipulação fracassa, eles ficam profundamente deprimidos, e a autoestima deles despenca. Muitas vezes o valor dessas pessoas está ligado à sua capacidade de controlar os outros.” É até verdade, eu pensara ao ler aquilo. Estava claro para todos que conviviam comigo que eu estava totalmente perdido, que não estava no controle da minha própria vida e que minha autoestima estava no fundo do poço. Afinal, era difícil não pensar que estava destruindo minha família, que o legado dela terminaria em mim, que eu era um caminho sem volta. Pior, era difícil não pensar em todo o dinheiro que meus pais estavam gastando, nos 1.500 dólares que haviam tido que pagar por apenas duas semanas de terapia. O mais difícil era pensar em ficar ao lado do meu pai no dia seguinte, durante a cerimônia de ordenação, e mentir para as duzentas e poucas pessoas que se reuniriam para celebrar a vocação dele, lançar meu sorriso falso para a multidão.

Mas seria mesmo errado pensar que eu poderia me sair melhor do que aquele garoto louro? Será que era errado pensar que Deus voltaria para mim, ouviria minhas preces de novo, se eu apenas me esforçasse mais? E, mesmo enquanto assistia ao documentário — sorrindo toda vez que via o brilho de uma pele branca, o movimento repentino de um jogador pulando em cima da bunda do oponente homem e derrubando o cara com a precisão desajeitada de uma jogada de defesa —, será que era errado pensar que sabia jogar aquele jogo melhor do que todos eles?

* * *

A Igreja Luterana da Palavra Viva era uma união chamativa de três molduras em forma de A construída em uma pequena vizinhança rica, com uma série de janelas estreitas abertas em ângulos de origami por ambos os lados, uma bem definida flor de lótus de vidro e concreto que parecia, pelo menos em parte, inspirada no brutalismo das velhas bibliotecas públicas e agências de correio dos anos 1960. Enquanto nos aproximávamos, o pequeno grupo de adolescentes da Fonte se uniu na van da AEA, todos virados para olhar para a fachada da igreja.

— A parte de dentro desta igreja é maravilhosa — disse um garoto atrás de mim, o adjetivo entrando na frase sem disfarces.

Perguntei-me se certas palavras podiam ser consideradas IFs.

— A gente tem que ver o santuário.

E certas entonações? No último intervalo, uma ex-lésbica se aproximara de mim e soltara um som de reprovação para minha postura. Eu estava perto da porta, com uma das mãos na parede e outra no quadril.

— Não vou denunciar você — dissera ela, como se eu tivesse que ficar feliz, agradecer a ela de algum modo —, mas você tem que mudar essa IF antes que outra pessoa veja.

Entramos no estacionamento asfaltado, linhas amarelas passando rápido, reduzindo a velocidade. Cosby abriu a porta lateral e pediu que saíssemos. Triângulos acima de nós, o brilho das janelas: uma geometria complexa que eu mal compreendia. Menos de um ano depois, aquele prédio se tornaria a nova sede da AEA: um espaço mais limpo e aberto, onde a longa série de janelas banharia os pacientes com uma luz mais santa. No entanto, naquela época, a AEA apenas alugava algumas salas da igreja para atividades vespertinas ocasionais, já que o espaço no shopping era pequeno demais para acomodar tanto os pacientes mais velhos como os novos. Era importante manter as atividades vespertinas separadas, principalmente porque os pacientes procuravam a AEA por motivos muito diferentes. Os programas Fonte e Refúgio, ambos grupos de jovens, que comportavam em grande parte pessoas de menos de vinte anos, compartilhavam as aulas da tarde e, como a maioria de nós estava lidando com a homossexualidade, fazia sentido que tivéssemos histórias parecidas para compartilhar durante as atividades.

— Vocês podem fazer um pequeno intervalo — disse Cosby, nos levando para dentro. — Deem uma olhada rápida se quiserem. Depois vamos nos encontrar no corredor.

Muitos entraram no santuário. Era silencioso ali dentro e o carpete abafava o som dos passos. Os genuflexórios de madeira, cerca de trinta fileiras, eram iluminados pelo sol e tinham pequenas bolsas de crochê na ponta, em três seções voltadas para o púlpito. Senti algo sombrio pairando em algum lugar atrás de mim e, quando me virei de repente, vi um mezanino baixo impressionante, já que eu nunca estivera em uma igreja com um mezanino. Imaginei ter que andar pela nave da igreja em um lugar como aquele, com todos os olhares voltados para você, inclusive de cima. Em meu batismo, todos os olhares tinham vindo de uma única direção, e eu pudera olhar acima da cabeça dos membros da congregação, para o espaço em branco do fundo da igreja, me dedicar a Deus o máximo possível mesmo em um momento de tamanha exposição. Mas, naquele lugar, ninguém poderia ficar sozinho com Deus. A pessoa sempre estaria sob o feitiço do olhar atento de alguém.

Andei pela nave central, arrastando lentamente os pés pelo carpete. Quantas vezes eu havia visto meu pai fazer o mesmo? Quantas vezes testemunhara seu rosto banhado de lágrimas enquanto caminhava trêmulo até o altar? Era estranho pensar na minha imagem naquele momento: andando diante do grupo, o rosto plácido, livre de emoções. O andar dos mortos-vivos, pensei, endireitando as costas. Eu não sentia. Não ia sentir. Não deixaria os outros me verem sentir. Não seria fraco como meu pai. Não daria àquela ex-lésbica outra chance de me “corrigir”. No fim da minha estadia, seria eu que a corrigiria. Eu era mais forte do que tudo aquilo e provaria isso, não importava quais fossem as consequências, não importava quanto sentimento eu tivesse que sacrificar no processo.

As janelas à frente não eram vitrais, como se o arquiteto tivesse tomado a ousada decisão de deixar a beleza do santuário para a natureza, para Deus. Nenhum vitral, nenhuma imagem fragmentada de cenas bíblicas, nenhuma luz colorida artificialmente. Às vezes é o que deixamos de dizer ou fazer que nos leva ao assombro. E, enquanto o Nada me levava para mais perto do altar, enquanto eu subia no palco e olhava para os bancos vazios, imaginando a multidão que teria de enfrentar na cerimônia do meu pai no dia seguinte, eu me perguntei se era isso que Deus estava fazendo. Perguntei-me se Deus estava me libertando por um breve período, interrompendo a conexão para que eu me tornasse mais forte e hétero sozinho. Embora me preocupasse com a ideia de que Deus decidisse parar de me visitar, de que eu tinha estragado nossa relação para sempre, também sabia que não havia como voltar atrás. Estava comprometido a me tornar mais forte, embora não fizesse ideia do que isso significava de verdade. Será que eu poderia me tornar inteiramente heterossexual? E, mesmo se pudesse, será que isso significaria que meu relacionamento com Deus seria o mesmo? Ou será que o processo de fortalecimento implicava a perda do meu estilo de vida anterior? Qualquer que fosse o tipo de força necessária, eu teria que aceitar. Teria que enfrentar a multidão do dia seguinte com o olhar pétreo que vira nos olhos de J — o olhar de um mártir —, mesmo que isso diferisse totalmente da pessoa que eu achava que era.

* * *

— Concentrem-se nos seus sentimentos — disse Cosby. — Quero que vocês se concentrem de verdade.

Estávamos em uma das salas de aula da igreja, a luz era diferente ali, mais escura, entrando apenas por uma janela que dava para o estacionamento. Cosby estava lá na frente, como um treinador esportivo fazendo as vezes de professor de matemática, a testa franzida como se pensasse em outra coisa: o jogo do dia seguinte, a próxima equação.

— Quero que vocês abram a seção de Ferramentas Gerais do manual.

O farfalhar de papel. Dedos lambidos. Achei a página: cinco colunas e seis fileiras de rostos desenhados, cada um com uma legenda. SATISFEITO, DEPRIMIDO, EXAUSTO, ASSUSTADO, FELIZ. DESPREOCUPADO, SONHADOR, ENOJADO, CHOCADO, IRRITADO. Todos os rostos uma representação simplista de cada emoção.

— Quero que vocês pensem em como se sentem agora — pediu Cosby. — Pode ser uma combinação de vários. Escolham com cuidado.

Na mesa à frente das carteiras, havia várias cartolinas brancas. Ao lado delas havia canetinhas coloridas e lápis. Também havia penas, miçangas e fios multicoloridos: vários materiais que um aluno de ensino fundamental poderia ter no estojo. Cosby explicou que tínhamos que criar máscaras que simbolizavam as duas metades da nossa personalidade: a que mostrávamos para o mundo exterior e a que mostrávamos apenas para nós mesmos — uma máscara de um lado e a outra no verso da cartolina.

Deslizei o dedo pela folha, tentando achar uma palavra para o que sentia. Morto por dentro, mas estranhamente determinado. “Apreensivo” era o que mais se aproximava. Ou talvez “desorientado”. Acompanhei os outros até a mesa lá na frente da sala, peguei uma cartolina, algumas canetinhas e umas bolas de algodão. Quando me sentei de novo para trabalhar no projeto, J se sentou ao meu lado. Nós dois nos ajoelhamos. Ajeitei a cartolina sobre a almofada da cadeira.

— Pode me passar o vermelho? — pediu J, a voz fria.

Vermelho, pensei. A cor da paixão. Eu logo veria essa paixão se transformar em gotas de sangue no cartaz dele — o sangue de Jesus. Não paixão, mas sacrifício.

Olhei em volta, em busca de ideias. S começou a colar algodão na cartolina, fazendo uma carinha sorridente e pálida. Eu a observei por muito tempo antes de me virar para trabalhar em minha cartolina. Ela criava nuvens pintadas de azul-escuro — nuvens de chuva —, uma faixa alaranjada de luz do sol pouco visível, sem sinais de pelo de cachorro nem manteiga de amendoim. Eu estava feliz por ela.

— Está ficando bom— disse Cosby, passando por mim, a cabeça baixa em reverência.

Ele parecia dizer a verdade. Soava como o tipo de pessoa que havia feito aquela atividade muitas vezes, que aprendera a forjar apenas um rosto a partir de seus diversos eus.

Tirei a tampa da canetinha azul e rabisquei algumas linhas. Depois, transformei-as em contornos de ondas e as conectei às bolas de algodão para que suas cristas parecessem quebrar. Um turbilhão violento. Uma grande bagunça agitada e sem direção. Do outro lado, a cidade destruída e havia muito esquecida embaixo d’água.