Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Garrard Conley · Capítulo 16 de 20

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Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Diagnóstico

 

 

Como haviam anunciado que aconteceria, o cinema estava lotado. Todos os ingressos vendidos. Um sussurrar percorreu a multidão enquanto um homem de cabelos brancos começou a andar pelo corredor. Ele pigarreou, ficou de costas para a tela e esperou o sussurro se tornar silêncio. Nas duas horas seguintes, aquele seria o estado mais silencioso que a plateia conseguiria atingir: uma sucessão incansável de choro abafado, tosses, fungadas e gemidos, como uma trilha sonora alternativa às cenas de tortura tão vitais para o sucesso de A Paixão de Cristo, lançado em 2004...

Eu estava sentado no fundo da sala, entre Charles, meu novo colega de quarto, e Dominique. Os gêmeos costumavam andar em dupla, como fizeram na faculdade — uma dupla cantora, que cantava em quase todos os lugares aonde ia. No entanto, naquela sala cheia de evangélicos, eles evitavam aquilo ao máximo. Apenas uma semana antes, nos últimos dias de fevereiro, eu tinha ido a um dos recitais deles. Assistira a Dominique marchar pelo corredor do teatro em uma túnica e um cachecol florais e cantar “Summertime” em um tom que me parecera tanto extravagante quanto lindo. Eu havia ficado encantado com suas expressões exageradas de menestrel, sua imitação do que os brancos achavam que um negro deveria ser, porque ela parecia muito consciente de si mesma, muito politizada — algo que eu mal podia imaginar. Charles e Dominique eram bolsistas em virtude de seu talento, e por isso sempre ostracizados, senão de forma intencional, pelo menos por hábito. Era difícil, portanto, diferenciar uma performance deles da outra: os dois sempre muito pouco à vontade com todo o espetáculo. Assim como eu, ambos tiveram dificuldade de acompanhar a aula de Composição II e, apesar de sua quase total recusa em se abrir para outras pessoas, foram essas características em comum que tornaram nossa amizade possível, fazendo com que passássemos várias noites no lounge entulhado do alojamento escrevendo trabalhos, unindo nossas impressões crescentes do mundo.

— Você acha que vai nevar enquanto a gente estiver aqui? — perguntou Charles.

Discutíamos aquilo havia uma semana, desde que o meteorologista havia mencionado a possibilidade. Tinha sido mais ou menos na mesma época que eu sugerira que fôssemos assistir A Paixão de Cristo.

— Ah — dissera eu, a voz calma, ensaiada —, é só para ver do que estão falando tanto.

Apesar de Charles e Dominique não serem muito religiosos, eles também haviam crescido em uma igreja batista e queriam entender o porquê de todo aquele escândalo. Eu sabia que seria impossível ignorar aquele filme, que meus pais logo me ligariam para perguntar se eu o havia visto, e achei que assisti-lo com Charles e Dominique me daria um pouco de perspectiva, permitiria que eu o ridicularizasse de algum jeito, que diminuísse o poder que Cristo parecia ter sobre minha vida. Se tudo acontecesse como planejado e a AEA aceitasse minha inscrição, eu entraria para a terapia de reorientação sexual no início de junho, dali a três meses. As sessões introdutórias de terapia no consultório próximo à AEA haviam sugerido a meus pais que a instituição era o melhor caminho a seguir. Eu havia visitado o terapeuta algumas vezes durante o recesso de Natal, e ele dissera à minha mãe que eu estava progredindo, que me encaixaria bem no programa — apesar de eu não conseguir ver o que havia de tão positivo em nossas conversas. Na maior parte do tempo, eu ficava simplesmente ouvindo discursos sobre autocontrole e sobriedade, tentando esconder minhas mãos trêmulas. Em algumas ocasiões eu repetira, como um papagaio, o jargão do terapeuta para encerrar longos silêncios desconfortáveis. Provavelmente ele havia interpretado isso como humildade, como uma forma de arrependimento. Apesar de quase nunca mencionarem a AEA na época, meus pais não estavam fazendo os habituais planos de ir à Flórida no verão, e o silêncio deles sobre o assunto só fazia meu ingresso na instituição parecer mais inevitável. Assistir A Paixão de Cristo com Charles e Dominique fortaleceria minha capacidade de lidar com o que quer que fosse enfrentar na terapia de reorientação sexual ou me ensinaria o quão mais forte eu precisaria me tornar nos meses seguintes.

— Talvez esteja calor demais — disse Dominique. — Mas aposto que vai ter pelo menos um pouco de neve.

— Claro que vai nevar — respondi.

Queria encerrar o debate. Estava cansado daquela discussão e acreditava que a probabilidade de a neve do fim da estação cair seria maior se nos isolássemos dela, como havíamos feito naquele auditório. Seria como nas vezes em que minha mãe me levava, ainda criança, para assistir a uma comédia romântica no centro da cidade. Assim que saíamos do cinema, encontrávamos uma camada fina de neve à nossa espera sob a luz dos postes, o chão recém-atapetado sob nossos pés. Então minha mãe nos levava de volta até nossa casa, passando por estradas salpicadas de neve, perigosas e ainda não protegidas com sal, rindo sem parar.

— Isso não é incrível? — dizia ela.

E era realmente incrível, já que meu pai estava em algum lugar de sua loja montando carros ou em casa, lendo as escrituras, alheio ao fato de que sua pequena família viajava pela neve. Podíamos fazer aquilo sem ele, pelo menos por alguns quilômetros.

— Acho que tem que nevar — disse Dominique, olhando para todas as pessoas de cabelo branco que passavam por nossas cadeiras, percorrendo a distância como pequenas ilhas de neve.

“É cabelo de pastor”, dizia minha mãe, muito antes de meu pai ter aceitado o chamado de Deus, muito antes de seu cabelo grisalho começar a se transformar no algodão macio que nos lembrava tanto as asas dos anjos.

— Não vai durar — afirmou Charles. — Está quente demais.

— Pessimista — respondeu Dominique.

— Pessimismo é coisa de branco.

— Pessimismo não tem cor — retrucou Dominique.

Quando fechava os olhos, eu não parecia estar no meio de uma multidão de evangélicos. Estava ali apenas para assistir a um filme com amigos. Era só uma noite normal de sexta-feira. Exatamente isso que eu queria, o que havia planejado: um milagre secular, meu pai e toda sua missão despidos diante de meus olhos, ridicularizados abertamente por aqueles novos amigos não crentes que não davam a mínima para nada, amigos que podiam cantar para se safar de qualquer tragédia. Nada naquele ano escolar horrível tinha que importar: nem as extensas sessões de terapia que fizera no recesso de Natal; nem a marcha lenta mas regular até o tratamento; nem o bairro chique do subúrbio que podia ser a chave para meu futuro como ex-gay. Ali, eu não tinha que pensar em ser hétero ou homossexual. Não precisava mais me preocupar com a possibilidade de decepcionar Deus. Em vez disso, eu podia rir do espetáculo da morte Dele com Charles e Dominique. Uma catarse, como havia aprendido pouco antes na aula de Literatura Ocidental. A neve chegaria e cobriria tudo, e nós sairíamos do cinema como pessoas novas, limpas e sem preocupações, como os hinos transcendentais da igreja haviam prometido muito tempo antes, branqueados no sangue do Cordeiro.

* * *

As sessões de terapia de reorientação sexual no consultório próximo à AEA, que haviam começado pouco depois de minha ida até a prisão, pareciam pertencer a uma vida diferente. Como minha mãe não parava de adiar a consulta, eu ainda não havia falado com a Dra. Julie sobre um possível problema na minha taxa de testosterona. No entanto, após minha primeira sessão, eu havia ficado sabendo que estava doente e talvez não pudesse ser curado. Nunca contei nada disso a Charles e Dominique, com medo de que pensassem a mesma coisa. Tudo que sabiam sobre minha família era que eu havia crescido na Igreja Batista Missionária e que meu pai ia se tornar pastor. Eu queria manter aquelas duas partes da minha vida separadas, uma decisão que dava uma sensação de atemporalidade à minha vida secreta. Parecia que eu podia fingir ser uma pessoa — um indivíduo complexo e bem-educado, em evolução — e, ao mesmo tempo, continuar sendo um pecador destinado ao Inferno. Aquela vida secreta pressionava minha vida acadêmica o tempo todo, estava sempre em um canto de minha mente e, no instante em que minha carreira na universidade começara a progredir (com melhores notas e mais amigos), fui lembrado, mais uma vez, que havia um mundo de pecado me esperando e que talvez ele ficasse ali para sempre.

Em minha vida secreta, eu estava sempre na Amor em Ação. Ali, o ar era mais frio e guirlandas de azevinho decoravam a porta de todas as casas chiques pelas quais passávamos a caminho da instituição. Em minha vida secreta, eu me pegava pensando na neve, sentado diante do conselheiro de sobrancelhas grossas, observando seus lábios se moverem sem emitir um som discernível. Então, aos poucos, os fonemas começavam a se misturar às palavras reais até eu não poder deixar de ouvi-las.

Desviei o olhar, analisando a janela em busca do menor dos flocos, de uma minúscula fração de esperança. Meus pais e eu havíamos alimentado aquela esperança mesmo quando eu parecia mais perdido, pois já estávamos acostumados aos hábitos da fé. Fora ela que nos lançara ao círculo fechado da indústria da reorientação sexual, ao centro de tudo, àquele lugar.

— Você não acha que está mascarando um problema maior? — perguntou o conselheiro, inclinando-se para a frente, me encarando, esperando. — Você não acha que toda essa história de homossexualidade está, na verdade, ligada à sua relação com seus pais? Não diria que você e sua mãe são muito próximos?

Ah, pensei, olhando nos olhos escuros dele, então o tempo todo o amor tinha sido um empréstimo. E este cara veio cobrar a dívida. Endireitei meu corpo na cadeira estofada, tremendo, assentindo, sorrindo, e disse algo como:

— É, minha mãe e eu éramos muito próximos, então desejei repetir essa proximidade em todas as minhas amizades.

Então, com aquela primeira afirmação de reorientação sexual, com aquela língua estranha ainda vibrando no ar ao meu redor, minha mãe se tornou algo inferior para mim. A ligação entre nós se tornou menos mágica, menos misteriosa, mais atada aos padrões estabelecidos, ao papel que ela devia ter em minha pequena produção do pecado.

Em minha vida secreta, quando saí do consultório pela segunda vez, com uma brochura brilhante na mão e uma nova consulta marcada para uma semana depois do Natal, não havia neve esperando para suavizar meus passos. Nos meses seguintes, a neve também não caiu. Disseram que aquelas coisas levavam tempo. Disseram que eu precisava ser paciente. Sentado com meus amigos em um cinema vários meses depois, já no meio da primavera, a neve parecia muito atrasada.

— Tem que nevar — falei.

Charles e Dominique se viraram para mim e sorriram. Naquele momento, pensei em dizer algo como: “É, vocês são mesmo a família que nunca tive. É, vocês são mesmo substitutos dela.” Mas aquela não era minha vida secreta. O conselheiro não estava ali, não naquele lugar, apesar de já ter moldado seus pensamentos à massa branca que minha mente se tornara.

* * *

— Onde foi que eu vim parar? — disse Charles, pegando pipoca do saco entre nós.

Era uma boa pergunta. Havia idosos de cabelos e rostos brancos. Havia grupos de jovens das igrejas locais reunidos em bandos coloridos, as camisetas idênticas iluminadas pelos spots como luzes de Natal. Outros homens de cabelo branco, provavelmente diáconos, estavam de pé, de costas para as paredes cobertas por cortinas vinho, as mãos pálidas cruzadas sobre a braguilha, as cortinas atrás deles tremendo com seus movimentos leves.

O homem de cabelos brancos à frente do cinema pigarreou outra vez, e a multidão ficou quieta.

— Alguns de vocês terão perguntas depois de assistir a este filme poderoso — disse. — Alguns de você vão se sentir emocionados com a mensagem.

Charles jogou uma pipoca em Dominique. A pipoca voou em um arco diante de meu peito e foi parar no ombro dela. Dominique a tirou da camisa como se fosse uma barata, levou o indicador aos lábios e pediu silêncio. Isso é sério, diziam seus olhos, mas o brilho neles sugeria o oposto.

Em apenas alguns meses, A Paixão de Cristo havia se tornado um dos filmes mais populares de todos os tempos, principalmente por causa dos evangélicos. Eu não havia dito a Charles e Dominique que meu pai era igual àqueles homens de cabelos brancos e que ficava de pé diante de plateias na minha cidade natal, pedindo que as pessoas fossem salvas. Também não dissera que minha mãe havia telefonado para contar do grande número de pessoas que meu pai estava levando para o Senhor após cada sessão de cinema.

“Você não ia acreditar”, dissera minha mãe. Estava sem fôlego, como às vezes acontecia, impressionada com o fato de meu pai ser capaz de inspirar outras pessoas, acreditando, talvez por algumas semanas, que havia algo de realmente milagroso em seu chamado a ser pastor. “É uma coisa de linda de se ver. Todas aquelas pessoas chorando, de joelhos.”

Quando ia para casa no final de semana, eu não dizia a Charles e Dominique aonde estava indo. Não discutíamos minha rápida perda de peso nem a queda repentina de minhas notas. A única nesga de preocupação que passou por nós — “Você está magro demais” — disse tudo que precisávamos dizer. O mundo fora de nosso pequeno círculo era um lugar assustador e sempre seria, mas a arrogância da juventude fazia tais problemas parecerem uma pele que podíamos descartar. Estávamos ali naquele momento, juntos, e todo o resto era só ruído branco.

Enquanto o inverno se estabelecia no campus, congelando as áreas triangulares de grama entre nossos prédios acadêmicos, nós três passávamos a maior parte do tempo juntos, assistindo a filmes no alojamento, uma pilha preguiçosa de calor protegendo-se do frio que assobiava pelas janelas com isolamento ruim. Éramos pernas e braços espalhados por todos os cantos; nós nos tornamos inseparáveis. Amigos em comum usavam a palavra “sinistro” para descrever o modo como nos dobrávamos uns sobre os outros, como terminávamos as frases uns dos outros, como íamos para a cafeteria apenas quando nós três estávamos com fome, nosso apetite surpreendentemente sincronizado. Mal falávamos de nossa famílias, que com certeza tomariam a outra como suspeita, já que meus pais nunca haviam posto o pé em qualquer lugar parecido com o lado deles da cidade. Mas não sentíamos necessidade daquilo para nos sentir próximos. Estávamos ali, juntos, nos protegendo sob o estrado do beliche, o brilho da tela.

— Depois do filme, vamos estar disponíveis para aconselhamento — continuou o homem de cabelos brancos, apontando para os homens nos dois corredores, os dedos traçando linhas invisíveis, um tipo de comissário de bordo se preparando para a decolagem. — Jesus pode lavar todos os seus pecados, deixar suas roupas impecáveis. Ele vai ajudar vocês a saírem daqui hoje com o coração tranquilo.

Baixei o olhar para o ponto em que meus pés se conectavam a uma escuridão em que eu queria mergulhar até o fim do filme.

Mantive a cabeça baixa. Charles, Dominique e eu conseguíamos ignorar quase tudo. Uma vez, quando estávamos em uma J. C. Penney comprando calças jeans, praticamente haviam pedido que fôssemos embora. A equipe toda formada por pessoas brancas nos lançara olhares irritados, nos encarando, nos seguindo por araras circulares de camisas coloridas. Por que você está aqui com eles?, pareciam dizer seus olhos. Nós saímos depressa da loja, mal nos falamos ao voltar para o campus e, quando voltamos a nosso quarto, bebemos meia garrafa de uísque e assistimos a uma das três fraternidades idiotas do campus recitar seu credo idiota no pátio idiota. Você está magro demais. Beba.

* * *

Em minha vida secreta, o conselheiro se virou para mim e disse:

— Você pode me contar um pouco sobre a sua primeira experiência sexual? A primeira mesmo?

A pergunta não foi tão chocante quanto poderia ter sido, dadas as circunstâncias. Mesmo assim, não pude deixar de achar que aquele homem estava ultrapassando um limite. Que bobagem, pensei de início. Isso é uma terapia. Não sou uma pessoa que precisa de terapia. Não sou uma pessoa que precisa contar minhas fantasias sexuais a outra para se sentir melhor. Além disso, aquele homem era conselheiro matrimonial, alguém que não parecia apto a oferecer a cura que eu precisava para deixar de ser gay. Mas, quando ele começou a fazer mais perguntas sobre minhas fantasias, quando continuou a assentir e sugerir que eu revelasse mais sobre meus interesses, meus sonhos e a frequência com que assistia pornografia, resolvi encarar a árdua tarefa. Ele não queria saber tudo aquilo por motivos pessoais. Era um profissional. Desinteressado, mas um profissional. Pude ver isso no modo muito casual como ele assentia. Pude ver aquilo na maneira como suas sobrancelhas se uniam com preocupação. Preocupação de verdade.

— Acho que minha primeira vez foi com o Brad — falei.

— E quem é o Brad?

— Ele era da equipe esportiva no início do ensino médio.

— Você fazia algum esporte?

Esperei um instante. Parecia haver alguma implicação nisso.

— Não, mas fiz tae kwon do por vários anos.

— Me conte o que aconteceu com o Brad — pediu o conselheiro. — Em detalhes não explícitos.

— Em detalhes não explícitos? Bom, Brad e eu éramos amigos próximos antes de isso acontecer. Eu estava dormindo na casa dele, como costumava fazer nos fins de semana, e lembro que a casa do Brad estava sendo reformada. Já era uma casa bonita, bem grande, de dois andares...

— O que aconteceu na casa?

— Bom, tinha uma parte da casa que não estava pronta, e nós entramos para ter uma ideia de como ia ficar. Os pais dele não estavam em casa, eu acho. Subimos a escada de madeira até uma área aberta, e o Brad estava com um olhar estranho. A gente puxou o plástico que cobria tudo, entrou no cômodo e nós dois meio que... Bom, nós dois sabíamos...

— Masturbação mútua?

Eu não podia acreditar que ele havia dito aquilo. A frase me soou com a frieza de um tapa. O estilo do comentário foi clínico, mas parecia haver um toque de nojo por trás das palavras.

— É.

Olhei pela janela para o terreno vazio que ficava do outro lado da rua. Apesar de não haver nevado e de saber que, provavelmente, não nevaria naquele ano (eu já havia percebido isso), me lembrei de como minha avó dançara comigo em seu longo corredor acarpetado, recitando falsos cânticos nativo-americanos, a mão enrugada cobrindo e descobrindo a boca. De como não havia parado de nevar na semana após toda aquela cantoria; de como, na verdade, aquela havia sido a maior nevasca que os dois tinham visto — por isso eu agora entendia como poderia haver certa verdade naquela mágica absurda da fé. O poder da semente de mostarda, o menor dos flocos de neve: era assim que a terapia continuava.

— Tente não pensar nisso como uma terapia — disse o conselheiro. — A gente está só conversando.

Acrescentados alguns termos — “dependência”, “aversão por si mesmo”, “mascarar”, “egoísmo” —, a história de minha infância e meu desenvolvimento sexual ganhou novas cores, novas associações. Sob a vergonha, sugeriu o conselheiro, um ecossistema secreto crescia. Era minha responsabilidade dar fim àquilo. Se observasse o que ocorria abaixo da superfície, eu encontraria uma bagunça agitada e inconsciente. Minhocas, pensei. Agitando-se na superfície de um solo molhado. Elas não estavam lá antes da chuva e, agora, de repente, estão.

— Você já preencheu sua ficha de inscrição? — perguntou ele.

— Ainda não — respondi.

— Vamos fazer isso. Acho que não há tempo a perder.

Ele se recostou na cadeira, fazendo as rodinhas de plástico rangerem.

Meu olhar pousou no braço de madeira da poltrona, nos redemoinhos de seus veios. Era uma representação dos anos de alguma árvore morta, de todas as estações molhadas e secas postas lado a lado. Quando o machado atingira sua casca, a árvore não tinha ideia de que eu faria uso de todos aqueles anos.

* * *

O chicote de nove pontas atingia as costas expostas e ensanguentadas de Jim Caviezel. O couro atingia a pele sem parar.

— Isso é besteira — sussurrou Charles.

— Não diga isso — respondeu Dominique, a voz cheia de falsa preocupação. — É Jesus.

— Isso aí não é Jesus.

— Como é que você sabe? — perguntou Dominique. — Você tem visões santas? Ele visita você nos seus sonhos?

— Eu estudo história. Antropologia. Sei lá. Jesus era mais negro do que isso.

— Você estuda música.

— Entre outras coisas.

Olhei em volta para ver se as pessoas estavam ouvindo. Uma mulher à minha direita segurava a bolsa contra o peito, sobressaltando-se a cada laceração na tela, os olhos úmidos. As pessoas ao fim da fila já estavam na ponta das cadeiras, como se não tivessem ideia do que aconteceria depois. Eis a magia da direção de Mel Gibson: ele conseguira gerar enorme suspense a partir de uma história conhecidíssima como o Evangelho. Toda vez que o chicote atingia Jesus, parte de mim acreditava que seria o seu fim, mesmo sabendo que não era o caso, que ainda havia muito por vir. Havia um detalhamento dos gestos de agressão, um close nos detalhes daquele horror que tornavam a violência em si fascinante, um universo de punições populado por gradações infinitas, tons infinitos de vermelho e cor-de-rosa que nunca me haviam ensinado a notar. Nos primeiros frames de violência repentina, eu não vira qualquer sutileza e achara que o sangue tinha tão poucas nuances quanto as gotas de um vermelho vivo que às vezes acompanhavam as estações da via crucis católica, ou as gotas que se espalhavam por todo o quadro da mão retorcida e sangrenta de Jesus que meu pai havia encomendado para seu ministério na cadeia e colado no fundo da caminhonete, com as palavras CRISTO MORREU POR NÓS, PECADORES escritas também em vermelho. Que besteira. Então, lentamente, o sangue se tornara outra coisa. Arte. Eu queria encontrar outros nomes para aquilo. Queria ver o filme de novo só para entender como aquele sangue de Jackson Pollock pingava na tela.

Charles e Dominique já haviam parado de brigar e passado a assistir, incrédulos, enquanto cada um dos traços de Jesus era sistematicamente reduzido a frangalhos sangrentos. A mensagem do filme era clara: a violência havia substituído todas as outras considerações. Não parecia mais importar se o homem na tela era branco ou negro. Ali estava um horror que parecia pertencer a pessoas de todos os credos e raças.

— Não consigo assistir a isso — disse Charles, cobrindo os olhos com as mãos. — É demais.

— Está quase acabando — respondeu Dominique, comendo outro punhado de pipoca. — A parte boa está chegando.

— “Pai, perdoa-lhes” — disse Jesus, a voz abafada pelo sangue, os dentes batendo, os olhos fixos em um futuro que ninguém à sua volta podia ver. — “Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”

Uma Maria com o rosto manchado de lágrimas enfiou ambas as mãos no chão e pegou dois punhados de terra, os traços distorcidos pela tristeza, pela descrença. Os críticos diziam que o filme era mais preciso que a Bíblia, que Gibson tinha gastado muito tempo e dinheiro fazendo a crucificação parecer real. Mas, ali, observando o torso chicoteado de Jesus lutar contra a gravidade, não consegui acreditar que o corpo humano era capaz de aguentar tanta violência. Tinha que haver um limite, um ponto em que as autoridades romanas conferiam o pulso dele. Ou talvez todos nós tivéssemos limites diferentes. Charles e Dominique haviam falado algumas vezes de seus antepassados, nascidos escravos, que tinham levado muitas chibatadas sem motivo algum e ainda assim haviam vivido longas vidas de servidão: as feridas cicatrizando, a pele se tornando mais dura, o pesadelo seguindo como planejado.

Comparada à dor na tela, a minha parecia sem sentido, uma coisa de pouca importância. Eu não tinha sido chicoteado nem espancado. Não sofrera por minha bondade. Desde o momento que David havia me denunciado, parte de mim estava deitada no banco de trás do carro de minha mãe, observando a faixa leitosa de estrelas, esperando que os golpes viessem — mas, apesar de saber que com certeza eles viriam, eu também sabia que nunca chegariam a ser o que estava vendo no cinema. Não tinha direito de reclamar. Podia passar pela terapia. Podia preencher a ficha de inscrição.

* * *

Não era a primeira vez que eu tomava uma decisão baseada apenas na culpa que sentia. Minha primeira fantasia de martírio acontecera no dia do meu aniversário de dezesseis anos. Chloe havia me dado de presente seu exemplar de Jesus Freaks: Martyrs e sugerido que, se eu o lesse, aquilo nos aproximaria.

— Esse livro mudou a minha vida — dissera ela. — Agora não tenho medo de seguir Cristo, não importa o que aconteça. Não vou ligar se alguém puser uma arma na minha cabeça.

Eu havia me sentido especial lendo aquelas histórias, uma série de mortes hediondas executadas pelas mãos de céticos que servia de exemplo para o tipo de devoção extrema exigida no Fim dos Tempos. Eu ficava horas lendo o livro em meu quarto, a porta trancada, e imaginava equipes armadas da SWAT destruindo todas as fechaduras e dobradiças para me interrogar. Eu imaginava que Chloe e meus pais ficariam orgulhosos se me vissem falando diante do cano de uma metralhadora, mordendo a ponta de metal com força, murmurando:

— Não vou renunciar a Jesus Cristo, meu salvador.

Mas, na verdade, eu temia o que realmente diria quando o Apocalipse chegasse. Temia sobretudo porque sentia que eu era mau no fundo da alma, no mesmo lugar em que guardava minhas fantasias sobre homens mais velhos — alguns deles funcionários da concessionária, outros da igreja, apesar de seus rostos não importarem muito. Pressionados com força entre o medo e a vergonha, seus rostos e corpos se misturavam em uma grande massa agourenta que ameaçava assumir uma posição de ataque e me expor.

Concentrei-me na violência, e até obter prazer através daquela fantasia, realmente fez com que eu e Chloe nos aproximássemos. Ficou mais fácil ignorar minhas tentações, me concentrar em fazer a coisa certa, imaginar um futuro como marido de uma linda e bondosa esposa cristã. Por alguns anos, estivéramos unidos em nosso amor por Cristo, nosso amor pelo martírio.

Senti essa corrente forte outra vez enquanto assistia à Paixão de Cristo. Eu tinha ido ao cinema ridicularizar algo que jamais poderia ser ridicularizado por alguém com um histórico como o meu. Eu queria fugir, esconder meu rosto na abertura da rocha como Moisés fizera na presença de Deus. Quando os spots de luz do cinema se iluminaram, eu desviei o olhar dos diáconos de cabelos brancos ajoelhados à frente da tela, mas só depois de lançar para trás um olhar hesitante.

* * *

O ar estava frio e um vento baixo e solitário nos acompanhou até o Explorer que meu pai havia comprado para mim pouco antes de eu ir para a faculdade. Alguns carros espalhados marcavam o estacionamento, alguns sem dúvida dos espectadores ajoelhados dentro do cinema. Era estranho vê-los ali, ver meu carro sozinho na outra ponta do estacionamento, todas aquelas construções e fábricas que haviam nos trazido até aquele ponto da História, a dois milênios de distância do mundo que tínhamos visto na tela. Como um dossel, a névoa havia baixado ao longe e parecia se espalhar sobre toda nossa pequena cidade. Em breve cobriria tudo, estenderia um cobertor entre nós e as estrelas. Qual será o objetivo disso tudo, pensei, quando tudo desaparecer?

— Aonde você está indo? — perguntou Charles.

Ele e Dominique já estavam parados diante do Explorer, esperando que eu destrancasse as portas. Eu havia passado por eles sem perceber, seguido para um lugar que eu não sabia dizer qual.

Minutos depois, estávamos no McDonald’s, a única construção iluminada de toda a região. Eu não sabia direito como havíamos chegado ali. Estava totalmente alheio desde que tínhamos saído do cinema. Era incrível que não tivesse batido com o carro. Dirigir naquelas condições era só outra coisa estúpida que eu estava fazendo naquela noite.

— Parece que você viu um fantasma — disse Dominique, mergulhando uma batata frita gordurosa em um copo de papel cheio de ketchup até a boca. O relógio acima de sua cabeça se aproximava da meia-noite, mas eu não tinha que ir a lugar algum. O dia seguinte era sábado, e todos estávamos um pouco inquietos.

— Não consigo esquecer — falei, desembrulhando meu Big Mac.

Esses hambúrgueres nunca são como a gente quer. Tentei empurrar a segunda carne para baixo do pão, mas o sanduíche começou a desmoronar, então dei uma mordida o mais rápido que pude.

— É só um filme — respondeu Dominique. — Nada daquilo é real.

Charles riu, fazendo barulho pelo nariz.

— Já vi coisa pior.

— Talvez tenha sido pior do que o que a gente viu — falei.

Senti o hambúrguer deslizar lentamente até meu estômago. Percebi que o pedaço era grande demais.

— Talvez a gente enlouquecesse se visse como uma crucificação realmente era — acrescentei.

— Talvez — disse Charles, ficando de pé. — Talvez a gente enlouquecesse se visse muitas coisas.

Dominique deu um tapa na mesa.

— Experimenta ver alguém levar um tiro no seu bairro.

— Vocês já viram isso? — perguntei.

O hambúrguer estava preso no meio do meu esôfago. Eu ia vomitar.

— Não — respondeu Dominique —, mas tenho certeza de que vou ver se voltar para casa. Vai acontecer uma hora ou outra.

— Acontece com todo mundo do nosso bairro — disse Charles, andando até o canto para encher vários outros copinhos de papel com ketchup.

Nunca havia copinhos suficientes. A impressão é que a intenção do criador daquelas coisas era nos obrigar a levantar para pegar mais ketchup depois de certo tempo. Essa necessidade fazia os condimentos parecerem preciosos, alinhados em fila em nossa mesa, uma corrente de rubis brilhando sob a luz fluorescente.

Tudo isso é tão falso, pensei de repente. Eu me imaginei andando pelo bairro de Charles e Dominique, vendo um pedestre levar um tiro, o sangue se espalhando pela superfície de uma camiseta branca. Será que tudo pareceria menos falso se eu fosse capaz de entender o motivo daquela violência?

— Não parece errado — falei, jogando o sanduíche de volta na mesa, o molho caindo por todos os lados — comer depois do que a gente viu?

— Para mim, parece natural — respondeu Charles, voltando com os copinhos. — A gente tem que comer.

— Olha só — disse Dominique, mergulhando outra batata frita no ketchup. — A gente só foi ver esse filme porque você quis e agora você está agindo como se tivéssemos feito alguma coisa errada. Foi um pouco mais intenso do que achamos que seria? Foi. Mas e daí? Estamos aqui, vivos e somos ótimos alunos. Deus ia querer que ficássemos gratos por isso.

— Deus quer que a gente tire notas boas? — perguntou Charles. — Ai, meu Deus.

— E Deus ia querer que você comesse esse Big Mac — acrescentou Dominique. — Falando nisso, você vai comer o seu? Se não...

Empurrei meu Big Mac para Dominique.

— Vocês não entendem — falei.

Aquilo não era culpa deles, claro. Eu não havia contado quase nada do que estava passando com minha família, e provavelmente parecia injusto para eles que apenas minutos antes eu agisse tão casualmente em relação ao fato de ser cristão e que agora parecesse um fanático como meu pai. Eu sabia que nunca poderia lhes contar o que estava acontecendo, que não importava quantos dias passássemos juntos: eu continuaria caminhando pela vida com um pé em um mundo que os dois nunca haviam visto, assim como eles tinham vivido com um pé em um bairro que eu nunca visitara.

— Sabe do que você precisa? — perguntou Dominique, batendo o pé no piso. — De uma música.

Eu já sentia o hambúrguer revirando em meu estômago. Precisei de toda minha energia para não fazer uma careta.

— Por favor, não — disse Charles, revirando os olhos. — A gente só faz isso.

O ketchup manchou seu lábio inferior com um ponto vermelho berrante. Pensei no artigo que havia lido sobre o novo tipo de sangue cenográfico desenvolvido para A Paixão de Cristo, algo extremamente doce — corante vermelho e gordura, tudo suspenso em glicerina — para que parecesse mais viscoso.

Dominique se levantou, limpou as mãos sujas de sal na blusa azul-marinho e pigarreou. Ela olhou em volta por alguns segundos. Só havia três ou quatro pessoas na lanchonete. Do lado de fora, uma névoa alaranjada cobria tudo, escondendo a estrada. Alguns flocos de neve se prenderam à janela, derreteram e traçaram linhas no vidro. Por um instante, senti como se estivéssemos em um globo de neve extravagante, que alguém havia nos sacudido e girado a chave da caixinha de música. Dominique puxou Charles pelas axilas e o forçou a ficar de pé, quase derrubando a fileira de copinhos de ketchup.

— Summertime — cantou ela, na afinação perfeita, mas na estação errada.

Algumas pessoas viraram a cabeça. O que você está fazendo andando com esses dois?

Charles a acompanhou. Eu fiquei quieto.

— There’s a’nothin can harm you — cantaram em harmonia. — with your daddy and mammy standing by.

Nada pode machucá-lo enquanto seus pais estiverem por perto.

Corri para o banheiro e fechei a porta para bloquear a canção. Encarei a água plácida e esperei, mas nada se seguiu. Vi apenas o reflexo de um rosto magro que mal pude reconhecer.

* * *

Em minha vida secreta, a terapia de reorientação sexual cresce em mim, estabelece uma casa sob meu excesso de pele, agarra a parte de dentro de meu estômago. Esse mesmo estômago revira com a onda de café e Egg McMuffin que minha mãe me forçou a comer no caminho para a sessão, a embalagem amarela fazendo barulho e os pneus do carro batendo ao percorrer a ponte Mississippi-Arkansas. Minha mãe tem feito muito isso nos últimos tempos: me forçado a comer coisas ricas em calorias e colocado maionese de verdade em meus sanduíches quando não estou olhando. É como se o trabalho que estive fazendo para me tornar invisível fosse em vão.

— Seus pensamentos magoam a Deus — diz o conselheiro da terapia.

Ele está com os olhos fixos na escrivaninha com tampo de vidro entre nós. Desse ângulo, suas sobrancelhas parecem duas grandes vírgulas pretas. Ele está aqui para me interromper.

— São nojentos, antinaturais. Uma abominação.

Não consigo parar de pensar que ele disse a palavra “masturbação”. Ela está em algum lugar da sala, se recusa a ir embora.

— Eu sei — falei. — Estou tentando.

— Sua mãe e eu achamos que você tem que participar da Fonte — diz ele, entregando-me uma folha de papel. — É um programa de duas semanas. Muito rápido, mas eficaz.

A Fonte. As histórias que agora escrevo quase diariamente também conseguem esconder a fonte da minha dor, disfarçar minha natureza pecaminosa. Quando não estou sentado diante do conselheiro, quando estou com Charles e Dominique em meu quarto no alojamento, rabiscando no diário, esqueço minhas aflições, sinto apenas a dor e a frustração da palavra escrita, o modo como ela se recusa a se encaixar no que minha cabeça vê. A escrita é maior e muito menor do que eu havia imaginado. Mas não posso fugir da minha dor, como o conselheiro já disse muitas vezes. Não posso fugir da minha natureza nojenta, não importa o quanto fique magro. No fim das contas, tenho que voltar à fonte.

* * *

O campus estava silencioso — apenas o bater abafado do alto-falantes da fraternidade dava vida ao ar da noite, uma vibração pacífica que dava a impressão de que os cantos escuros dos prédios acadêmicos continham uma promessa de alegria, um mundo exterior àquele. O último andar do prédio de Humanas brilhava a distância e, no terraço, ao lado da sala dos professores, havia uma figura solitária, algum aluno trabalhando até tarde em uma noite de sexta-feira, um cara magro que parecia viver dentro do prédio o tempo todo. Ele nunca deixava de me provocar um sentimento de culpa, um medo de que eu não tivesse lido o trecho pedido de A rainha das fadas tão bem quanto deveria. Ele podia ser eu, na verdade — um eu muito mais concentrado, alguém com ambos os pés plantados firmemente em algum lugar, olhos voltados para um futuro cheio de livros, salas com paredes cobertas por painéis de madeira e cafés tarde da noite. Anos depois, eu teria inveja de pessoas como ele, pessoas cujos cérebros nunca pareciam se revoltar, apesar de não saber o que ele pensava em todas aquelas noites solitárias.

Passei por mais alguns prédios, a grama morta quebrando à medida que eu caminhava, sentindo algum frio por estar usando apenas um casaco preto leve.

— Aonde você vai assim? — perguntara Charles.

Eu não dera a ele uma resposta de verdade, só dissera que estava inquieto e que precisava tomar um pouco de ar.

Cheguei a um pequeno jardim, chutei o cascalho em meu caminho e segui até um banco frio de pedra. Uma cerca alta me mantinha escondido, mas, pouco acima dos galhos nus, pude ver o campanário da capela do campus iluminado por todos os lados por três holofotes enormes. Em uma noite do início do ano letivo, eu havia subido até o campanário com um grupo de amigos, que incluía Charles e Dominique, e David. Tínhamos pulado as vigas do teto da capela, os grandes tubos de latão do órgão brilhando à luz refratada da Lua, e subido por uma escada enferrujada, o tempo todo tentando segurar o riso. Pouco antes de chegar ao topo, parados diante da escada escura que dava para uma varanda estreita que cercava o campanário, um veterano levara o indicador aos lábios e dissera que precisávamos saber a verdade sobre aquele lugar. Segundo ele, a faculdade era uma casa maçônica para órfãos que havia pegado fogo no início do século XVIII, matando várias crianças. Dizia-se que três delas ficavam toda noite na base do campanário, de mãos dadas. Três crianças sem nome, os traços apagados pelas chamas.

A história acrescentara um pouco mais de adrenalina à que já sentíamos enquanto subíamos os degraus na escuridão. Passamos por enormes teias de aranha, de mãos dadas com pessoas que mal conhecíamos, mas que já chamávamos de amigos, já confiando que nos puxariam para pular os espaços entre os degraus. A ideia de toda aquela pele queimada, de todas aquelas crianças solitárias presas ali, sem ninguém para sofrer por elas, se misturava a um tipo de superstição que só a escuridão total podia inspirar em um corpo discente tão cético quanto o nosso. Quando finalmente chegamos ao topo e o ar quente do verão nos atingiu, ficamos chocados por encontrar apenas concreto gasto e poeira. Todos demos as mãos em torno do campanário em memória daquelas crianças, sentindo — provavelmente todos ali, como eu me lembro de ter sentido com a mão quente de David agarrada à minha — que os laços que estávamos formando naquela noite se manteriam para sempre.

No jardim, a névoa caía sobre os prédios acadêmicos, sobre o garoto de Humanas que nunca parava de estudar. O banco em que estava sentado começou a parecer uma pequena ilha à deriva em um mar branco. O jardim de Getsêmane, pensei, lembrando-me de A Paixão de Cristo. Na noite anterior à crucificação Dele, Jesus havia tentado tranquilizar seus discípulos, mostrar a eles que toda a dor que logo sofreria valeria a pena, que a violência cumpriria Suas promessas. Eu me perguntei se os órfãos haviam sentido a mesma coisa. Será que houvera alguém por perto para confortá-los antes de o fogo começar a lamber seus braços?

Abracei a mim mesmo, envolvendo meu peito com toda a força que tinha. A sensação das minhas próprias costelas era prazerosa, a do frio também. Tudo aquilo seria bom, percebi, se confiasse que no final faria sentido. A neve ainda não se apresentara — a mais breve sugestão dela — , mas ela viria em algum momento, mesmo que bem mais tarde. E então cobriria tudo, construiria jardins estranhos sobre objetos escondidos, tornaria o mundo algo novo.

* * *

Em minha vida secreta, a terapia me engole, cresce sobre mim até eu estar respirando apenas ela, até ela ser meu ar. Só faz uma semana desde a última visita ao consultório do conselheiro e, talvez pela primeira vez em muitas semanas, não estou pensando na visita seguinte. Estou com a minha família. É tarde da noite. É Natal. O fogo crepita em um canto, um pinheiro gigante surge no outro e o saguão de piso de madeira se estende entre mim e uma imagem do lago semicongelado, polido e reluzindo com as luzes de Natal de um vizinho distante.

O corredor escuro boceja aos meus pés. Minha mãe surge da cozinha e para ao meu lado. Sinto o calor do forno irradiando de sua pele bronzeada artificialmente, um leve aroma de biscoito de gengibre acompanhando seus passos. Ela está usando um suéter de caxemira cuja imagem central é o rosto largo de um boneco de neve. O nariz de plástico do boneco bate em meu ombro quando ela se vira para falar comigo.

— E na semana que vem? Tudo bem na semana que vem? — pergunta ela.

Ela não pode evitar. A consulta com a médica está na cabeça dela, e só na dela, nas últimas semanas. Ninguém mais quer falar sobre esse assunto, especialmente meu pai. Mas alguém tem que manter tudo sob controle.

Olho para os sapatos dela. São pretos e bem lustrados, e em seus saltos de plástico transparente há Papais Noéis idênticos em miniatura e uma pequena pilha de neve reunida em torno de suas minibotas pretas. Toda vez que ela anda, os Papais Noéis andam com ela, atravessando nevascas iguais, presos em suas celas isoladas. Quando minha mãe me buscava na escola, meus colegas apostavam qual seria a coisa estranha que ela estaria usando daquela vez. Uma fita vermelha? Uma bolsa de poá igual aos sapatos? Aquelas apostas me deixavam orgulhoso, mas também envergonhado, como se parte de mim estivesse refletida no exagero físico dela.

— A Dra. Julie quer conferir sua testosterona.

— Ah — respondi, porque não havia mais nada a dizer.

— Vai ser rápido. E vai nos dar algumas respostas.

— Ótimo — falei.

Os dois Papais Noéis me encararam, a neve pousando a seus pés.

— Lembre-se de avisar aos professores de que você não vai estar na aula na quinta.

— Está bem.

— O que houve, meu amor?

Um dos Papai Noéis se aproximou.

— Nada — respondi. — É só estranho.

— Eu sei — disse ela. — Logo, logo isso vai acabar.

Os Papais Noéis dão as costas para mim, mais uma vez perdidos em suas nevascas particulares. Enquanto minha mãe anda de volta para a cozinha, a caxemira clara se torna uma faísca de chama branca na penumbra da casa.

Eu me viro para o corredor, para o lago cintilante emoldurado pela janela. É um presente sombrio esperando para ser aberto. É precioso e delicado, coberto por todas aquelas luzes de Natal. Talvez seja apenas minha testosterona baixa falando. Talvez eu perca essa imagem preciosa no instante em que a Dra. Julie conseguir elevar minha taxa de hormônios. Quando finalmente me consultar com ela, talvez eu perca todas as minhas lembranças mais preciosas, aqueles momentos de beleza que transcendem. Talvez seja um pequeno preço a pagar por uma vida normal. Fico no corredor e tento fazer meus níveis de testosterona aumentarem. Se eu pudesse pelo menos impedir meu pensamento... Mão esquerda, palma da mão para baixo. Não diga para si mesmo: “Vire a mão esquerda.” Fecho a mão com força e enfio as unhas no lago macio de minha palma até ficar ofegante. Quero socar a parede, rasgar os nós dos dedos com as farpas da madeira, tirar sangue — mas não consigo. Não consigo me fazer sentir algo que não está ali. Só posso sentir o que queria que não estivesse. O que será que vou fazer quando não conseguir fingir mais? Será que as pessoas vão notar? Talvez a testosterona realmente resolva todos esses problemas, sequestre meu cérebro de um jeito que a meditação e as orações nunca conseguiram. Talvez tudo realmente dependa da fisiologia.

Eu me lembro do sabor do pão ázimo, das palavras Isto é o corpo de Cristo ecoando pelo santuário. Isto é meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim. Eu me lembro do choque do suco de uva, o sangue de Cristo, do medo de que aquele suco realmente se tornasse sangue em meu estômago, apesar de os batistas não acharem que tal coisa seja possível. Lembro-me da única vez que me senti culpado por observar os gêmeos Brewer no primeiro banco enquanto bebia suco e ouvia todo aquele pão ázimo sendo moído por centenas de molares. As costas dos Brewer eram tão retas e perfeitamente esculpidas que eu não conseguia evitar. Então corri para o banheiro depois da comunhão e me forcei a vomitar o corpo e o sangue de Cristo, temendo ser punido por blasfêmia se O mantivesse dentro de mim, a imagem dos restos flutuantes do Cristo similar ao da carne em frangalhos que mais tarde veria na tela do cinema. Agora percebo que aquilo tinha sido um sinal. Agora vejo como o corpo controla o espírito.

Foi o corpo de Cristo que finalmente transformou as ideias Dele em realidade, a prova de sua ausência o fato que, por fim, convencera tantos incrédulos a se converterem ao cristianismo. Foi o corpo de David que me levou à terapia. Foi a falta de contato com o corpo de Chloe que começou tudo isso. Se eu conseguisse aprender a afiar meu corpo e torná-lo uma lâmina, talvez pudesse coletar esse poder físico, o mesmo que vou sentir de novo ao assistir à Paixão de Cristo, o mesmo que meu pai sabe dispensar tão bem em seus sermões. Só preciso de um pouco de ajuda da Dra. Julie. Começo a sentir uma esperança. Sinto o calor da cozinha em minha pele, me dando força, me incentivando a avançar.

Ainda estou parado no corredor, observando as luzes de Natal dançarem pelo lago congelado. Em algum lugar, alguém está ouvindo Nat King Cole. Eu me lembro de Dominique dizendo que odeia Nat King Cole.

— A voz dele não tem vida — disse ela, apesar de eu não concordar.

Penso em Charles e Dominique cantando o feriado todo em um bairro muito diferente do meu. Charles me contou uma vez que uma bala perdida abriu um buraco na parede da casa deles e quase chegou até onde ele estava sentado no sofá. Um centímetro a mais e Charles talvez não tivesse sobrevivido para contar a história. Penso na dor dele, nas coisas que já enfrentou, de onde veio e onde está agora, cantando tão lindamente no teatro fechado da faculdade. E, antes que consiga me impedir, sinto que tenho sorte por estar vivo naquele momento — aquecido e feliz — com aquela família que, apesar da estranheza com que vem me tratando desde que descobriu meu problema, que apesar de ter lidado comigo como uma porcelana indesejada, ainda faz parte de mim, ainda compartilha do mesmo sangue quente que pulsa em minhas veias enquanto ando descalço pelo corredor, suas vozes se expandindo atrás de mim, transformando-se num ritmo agradável e familiar de palavras indistintas, não as palavras de raiva, nojo, pena ou amor que imagino que tenham a postos no fundo da garganta. Então ando devagar, pé ante pé, para longe da luz dourada e em direção ao lago brilhante. Posso assegurar que tudo é bonito demais para uma vida só, que eu devia conseguir me dividir em várias versões de mim para provar dos muitos sabores deste momento, sabendo que esse tipo de sentimento pode me deixar quando for ao consultório da médica, pensando: Como eu jamais poderia retribuir esse presente? Como vou retribuir a essas pessoas, ao deus que elas idolatram e ao deus que eu ainda pareço idolatrar?

A cadela, Daisy, esbarra em minha perna, ofegante. Ela olha para mim, os olhos úmidos. Sua confiança nua é demais para mim. Desvio o olhar, grato por senti-la ao meu lado ali no escuro, com toda aquela luz atrás de nós, como se a claridade estivesse pronta para nos levar direto para a janela, para nos erguer até o céu noturno sobre o lago. Como dizer “não” para tudo isso?, penso. Muitas pessoas me trouxeram até este momento, e eu confiei nelas. Será que não podem haver outros momentos incríveis pela frente se eu voltar a confiar nelas?

A terça-feira chega e nada de Dra. Julie.

— Houve um problema — diz minha mãe.

Nada mais. Estou muito confuso. Eu me pergunto se meus pais perderam a esperança, se talvez tudo isso vá acabar aos poucos. Minha mãe e eu passamos uma semana sem conversar. O silêncio me preocupa.

E é só meses depois que entendo o pacto que fiz comigo mesmo na noite de Natal que passei com minha família. É só meses depois, após passar horas sentado em um banco frio de pedra do jardim diante do prédio de Humanas, depois de caminhar em transe pela trilha do lago e encarar minha silhueta escura na água plácida com o luar às minhas costas, minha vida acadêmica bem embrulhada atrás de mim, que começo a perceber como estou disposto a ir longe. Vou pegar esse corpo magro, batizá-lo na água gelada e voltar com as roupas molhadas, quase congelado, entretanto mais vivo do que nunca. E, com o corpo exausto sendo aquecido sob o fluxo escaldante de água, os olhos fixos em uma gota que percorre o chuveiro, entre o bater de dentes, vou murmurar uma oração muito simples para o Grande Médico: Senhor, torne-me puro.

Ao sair do chuveiro, vou pegar meu telefone e mandar uma mensagem para minha mãe, fazendo-a acordar de um sonho. “Estou pronto”, escreverei. “Dra. Julie.”

* * *

Menos de uma semana depois de assistir à Paixão de Cristo com Charles e Dominique, minha mãe e eu estávamos sentados na sala de exames da Dra. Julie.

— Quase todo consultório de médico tem esse quadro — disse minha mãe. — Acho muito bonito.

Ela não conseguia parar de falar.

— É?

O quadro era uma cópia de uma famosa obra fotorrealista de Rockwell: um menininho tirando a calça para o médico anônimo de jaleco branco, a luz entrando pela persiana fechada atrás dele. O gesto do garoto parecia muito simples, parte de um passado inocente que Rockwell havia capturado com talento: um momento de medo pouco antes do alívio, ainda mais sentimental porque a dor em questão era uma coisa menor, nada preocupante de fato, e a criança logo aprenderia isso, após mais algumas visitas ao consultório médico. O medo do garoto era um medo que a maioria das pessoas superava ainda na infância. Era engraçado — daquela maneira que os adultos costumavam achar a infância engraçada — ver o medo daquele menino como algo trivial, como uma fase que ele apenas tinha que superar: uma espetada de agulha e tudo acabaria.

— Será que a Dra. Julie vai demorar? — perguntou minha mãe.

— Daqui a pouco ela chama — falei, como um bobo. — Ela está sempre ocupada.

Não havia mais nada a dizer.

A Dra. Julie sempre me parecia uma mulher ocupada — mexendo o tempo todo em exames, consultando históricos, prescrevendo remédios em folhas quadradas de receituário e as arrancando do bloco com um floreio digno —, mas sempre fazia parecer que não gostava tanto dessa parte do trabalho quanto gostava da companhia dos pacientes.

— Vamos direto ao assunto, está bem? — disse ela quando entramos.

Ao entrar na sala de exame, era como se ela se esquecesse da parte técnica de sua vida, da parte antisséptica e cheia de jargões; era como se fechasse a porta para toda aquela bobagem necessária para finalmente poder estalar seus dedos limpos, dobrar as mangas e se sentar no banco que rangia. Então poderia se inclinar para a frente e olhar nos olhos das pessoas que faziam seu trabalho valer a pena, tornar-se, naquele instante, não uma médica propriamente dita, mas também a menininha dos arredores de Salem, Arkansas, que costumava acordar de manhã cedo e alimentar as galinhas antes da escola. Havia momentos em que a menininha e a médica compartilhavam os mesmos traços, mas eram raras as ocasiões. Ela havia frequentado a minha faculdade, um fato que me pareceu mais evidente na manhã em que decidi unir minha vida na faculdade à minha vida familiar.

— O que traz vocês dois aqui hoje?

Como se ela não soubesse. Seu rosto de fazendeira parecia plácido, relaxado das preocupações do dia. Sentada na outra ponta da sala, vestida toda de renda, minha mãe mal era capaz de esconder os tremores que a dominavam desde que havia ficado sabendo da minha sexualidade.

— Não sei por onde começar — disse minha mãe, segurando a bolsa contra o peito, como se não houvesse outro modo de começar a não ser pela verdade feia: a mancha secreta que havia sujado nossa família.

Eu sabia que ela já havia conversado com a Dra. Julie sobre a minha sexualidade, que as duas eram próximas, que a Dra. Julie queria proteger minha mãe da realidade dura de ter um filho gay em uma rígida comunidade religiosa do Sul. Eu sabia de tudo isso apenas pelo modo com que as duas conversavam: a pena passava como uma corrente pela sala, e eu mantinha os olhos concentrados no piso manchado sob meus pés. Tive a sensação de que, se olhasse para elas, seria levado por aquela corrente no mesmo instante, então mantive a cabeça baixa.

— Por que a gente não começa pelo óbvio? — perguntou a Dra. Julie. — Você está preocupada com o seu filho.

Minha mãe se remexeu. O esfregar das peças de renda. Apesar de tudo, minha mãe tinha ido até meu quarto de manhã perguntar se eu achava que ela estava bonita, ficara ali parada à minha porta como um tipo de rainha do gelo, camadas de renda Point de Gaze amarelada sobre seu peito, repetidas em uma saia de cintura alta, marcada por um cinto preto. Não, tinha pensado, parece mais uma fura-neve, uma galanthus, em toda sua beleza murcha. Mesmo triste e com medo, minha mãe sabia como andar na moda. Era o que a tirava daquela situação, aquele amor por texturas, tecidos e mínimos detalhes. Ela havia se embrulhado com a beleza mais exagerada possível, evocado os espíritos da angústia do pós-guerra para defendê-la do que tinha que enfrentar sob a luz do consultório médico. Não era uma Dolly Parton, como muitos moradores do norte supunham erroneamente; tinha o otimismo superproduzido e maquiado de um Sul que ninguém reconheceria no dia a dia. Na verdade, se abstraíssemos o sorriso e a renda, veríamos uma mulher forte e determinada, como muitas sulistas, uma mulher cuja situação havia piorado na década anterior — primeiro, porque perdera os pais, depois porque se tornara esposa de um pastor e agora porque havia descoberto uma mancha em sua família que devia ter estado o tempo todo bem embaixo do nariz que ela havia herdado da família da mãe. Mesmo assim, minha mãe fora ensinada a perseverar, a esperar que aquilo passasse mantendo toda a dignidade que fosse capaz de reunir. O que ela poderia dizer naquele momento, ali diante da Dra. Julie, se nem havia admitido para si mesma que as palavras “gay” ou “homossexual” talvez tivessem que fazer parte de seu vocabulário?

— Acho que ele não está comendo o suficiente — disse ela, por fim. — Ele perdeu pelo menos quatro quilos no mês passado.

Mexi a perna esquerda para deixar a circulação fluir, os dedos do pé já dormentes. O papel que cobria a maca fez barulho sob minhas coxas. Independentemente de como eu me sentasse, sempre acabava rasgando o papel. Era vergonhoso, aquele som no meio de uma sala de exames silenciosa, cada movimento ampliado — e um pouco abaixo do papel, o ranger do plástico —, como se parte do exame fosse criada para medir a capacidade do paciente de ficar imóvel, de se manter calmo diante de qualquer diagnóstico que pudesse receber. Não pude deixar de sentir que cada maneirismo meu estava sendo gravado, marcado em um gráfico que podia ser usado para determinar meu nível de homossexualidade.

— Você está mesmo um pouco mais magro — disse a Dra. Julie, fazendo seu banquinho ranger diante de mim.

— Estou comendo as mesmas coisas — respondi. — Só estou correndo mais.

As árvores do campus passando por mim no escuro, vários postes amarelos me guiando por suas pocinhas de luz, o lago brilhante, a lua branca e o vento soprando a distância: essa parte era verdade. Eu não havia parado de correr desde que meus pais tinham me dito que precisávamos considerar a terapia. No entanto, mentir sobre a comida era inútil. Nos três sabíamos, no entanto, que eu precisava dizer alguma coisa para justificar a perda de peso repentina, o modo como minhas roupas estavam largas, como meu suéter de algodão passara a tocar minha pele apenas na clavícula, nos ombros e nos braços magros. Eu não estava comendo, e isso estava claro para todos naquela sala, algo tão facilmente identificável a olho nu quanto uma boa batida no joelho mede os reflexos — apesar de a Dra. Julie normalmente esquecer essas apresentações formais e pular direto para a doença em questão.

— Estou preocupada — disse minha mãe. — Tudo fica largo nele agora.

Cada vez que outro ponto de contato perdia seu domínio sobre mim me parecia uma pequena vitória. Eu controlava a rapidez com que perdia peso. Era bom não apenas sentir o passado deixando meu corpo — toda aquela gordura como anéis de uma árvore, se estreitando, desaparecendo —, mas também ver o choque no rosto das pessoas, o não reconhecimento à primeira vista, o susto. Eu era um menino diferente.

— Acho que ele está tentando se torturar — disse minha mãe, virando-se para me encarar, os saltos batendo no piso frio.

Eu me lembrei do chicote batendo nas costas cobertas de sangue do Cristo. Não, aquilo não era tortura. Era controle. E, quando a Dra. Julie me ajudasse a aumentar meu nível de testosterona, eu ganharia ainda mais controle.

— Meu amor, acho que você está tentando se torturar.

— Eu acho que sei o que está acontecendo, Garrard — disse a Dra. Julie, pronunciando meu nome como se algo delicado tivesse ficado preso em seu leve sotaque de fazendeira.

Era de fato uma coisa delicada. Parte de um histórico familiar que se orgulhava de homens que herdavam tal nome, passado de tataravô a bisavô, a avô e, por fim, a mim. Minha mãe, a Dra. Julie e eu sabíamos que, se não passasse no teste de masculinidade, eu nunca incluiria outra pessoa com aquele nome na família. Em vez disso, o nome talvez ficasse associado ao momento em que nossa família havia sido destruída, inscrevendo um grande espaço vazio abaixo de meu nome na árvore genealógica.

— Você ouviu? — perguntou a Dra. Julie. — Achamos que será melhor se eu e você conversarmos a sós.

Minha mãe saiu da sala, a renda fazendo barulho. A porta se fechou. As luzes se enevoaram no piso, ressurgindo como lâmpada claras.

— Muito bem — disse a Dra. Julie, a sala repentinamente silenciosa demais para sua voz alta.

Tudo aquilo devia ser novidade para ela também. Falar abertamente sobre sexualidade não era opção na maioria das cidades do Arkansas parecidas com aquela, mesmo — mesmo não, especialmente — em um consultório médico, suspeitava eu. A ideia de um pecado ter origem biológica teria chocado a maior parte da minha congregação, mas era isso que muitas igrejas começavam a pensar, enquanto enchiam seus saguões com brochuras da Amor em Ação. A maioria das pessoas não se dava ao trabalho de ler e passava pelas capas de plástico sem olhar duas vezes.

Tirei os olhos do piso e vi que a Dra. Julie estava a centímetros de mim, um olhar de verdadeira preocupação no rosto.

— Escute — começou ela. — Eu sei o que é se torturar. Já fiz isso.

— Não é o que estou fazendo — menti.

— Está, sim — continuou ela, cruzando os braços sobre o peito. — E tudo bem, contanto que seja só uma fase. Eu sempre tive problemas com peso e, até fazer uma cirurgia de redução do estômago, costumava me entupir de comida. Se achasse que era só uma questão de peso, eu me contentaria em pesar você de vez em quando, em fazer alguns check-ups. Mas não é só uma questão de peso, é?

Eu não queria responder à pergunta retórica dela, então fiquei quieto.

— Não, é uma questão de sexualidade. E sua mãe está preocupada com o modo como isso vai afetar seu futuro. Você já está minguando. Imagine como vai ficar quando mais pessoas descobrirem. Agora, minha pergunta é a seguinte: você quer mudar? Porque conheço muitas pessoas que aceitaram essa parte de si mesmas e conseguiram ter uma vida boa. É difícil, mas elas conseguiram. Enfrentam muita fofoca, comentários assim que dão as costas, oportunidades de emprego perdidas por causa de vinganças pessoais, mas elas dão conta. É isso que você quer?

— Eu quero mudar — falei. — Estou cansado de me sentir assim.

— Fica mais fácil — disse ela. — Você pode ir morar em outro lugar, uma cidade maior, de repente.

— Não quero fugir. Eu amo minha família.

Eu me senti ridículo ao dizer aquilo. Era muito simples, muito infantil. Mas não pude deixar de falar. Era verdade.

— Olha — continuou a Dra. Julie, virando-se para a porta, fazendo o banquinho ranger. — Vou pedir para alguém coletar seu sangue para testarmos o nível de testosterona, fazer uma contagem de leucócitos, coisas do tipo. Não acho que vou achar nada errado. Não acho que isso vá adiantar, mas vai satisfazer sua mãe. Ela só quer saber que fez tudo que podia.

A médica deixou que eu absorvesse a informação por alguns segundos. Era o equivalente a Vamos dizer que fizemos e não fazer, só que íamos realmente fazer o exame por formalidade e, semanas depois, veríamos que tudo estava perfeitamente normal. Não haveria um diagnóstico claro.

— Se precisar conversar com alguém, você sabe que estou aqui, não é?

— Eu sei — falei.

— Espere aqui. Vou chamar a enfermeira — disse ela, saindo da sala.

Pesquei o celular que vibrava do bolso da calça, o papel rasgando sob minhas coxas. Era Charles. Fazia mais de uma semana que não conversávamos. Eu havia entrado e saído do quarto para pegar minhas coisas, mas basicamente ficara na biblioteca todas as noites até meia-noite. “Quando você vai voltar? Você está bem?”, dizia a mensagem. “Você sumiu.”

Mandei uma resposta rápida para que ele não ficasse preocupado e eu não precisasse pensar demais no que iria dizer. “Sou um fantasma”, escrevi. “Nunca estive melhor.”

Mais tarde, naquela manhã, enquanto saía do consultório com minha mãe, um pedaço de algodão preso à dobra do cotovelo, concordei em ficar alguns dias em casa para o bem dela, sabendo que as semanas seguintes seriam mais difíceis para ela do que para mim.

— Vamos ao cinema — disse minha mãe. — Eu pago.

Ao fim da comédia romântica, a neve ainda não havia caído. Eu ansiaria pela neve pelo resto do inverno, por duas semanas. Eu nos imaginaria caindo em um monte de neve e criando asas tão grandes quanto a envergadura de nossos braços pudesse alcançar sem quebrar.