Brilhante
Capítulo 11
Aquilo atingiu John como um soco. O ar cou sufocante e o rosto de Damien ganhou uma expressão injustamente sinistra.
– Conheço lady Arabella – conseguiu dizer por m.
Ele experimentou um prazer amargo no fato de sua voz ter soado quase normal.
– Que bom! – falou Damien de modo indulgente. – Ela vai estar na festa.
– Será um prazer revê-la.
– Ótimo. Vou deixar que se acomode. Lightbody o levará ao seu quarto. Passarei por lá mais tarde para informá-lo dos detalhes da noite.
Damien deu um sorriso agradável e deixou a sala.
Rápido e silencioso, o e ciente mordomo se aproximou para informar a John que seus pertences haviam sido levados para um quarto de hóspedes no andar de cima.
Ainda zonzo, John seguiu o homem até o aposento que ocuparia. Assim que se viu sozinho, ele se deitou na cama e cou olhando para o teto, permitindo que a fúria o dominasse.
O irmão dele? O irmão dele? Nunca teria sido capaz de imaginar que Belle tivesse aquele traço maldoso de caráter. John fez um esforço para tirá-la da cabeça – estava cando aborrecido demais, e ela não valia tanta perturbação.
Contudo, não teve sucesso. Toda vez que conseguia desviar a mente para comida, cavalos ou qualquer outra coisa neutra, cabelos loiros e um sorriso cintilante já tão conhecidos se intrometiam em seus pensamentos. Então o sorriso se transformava em uma expressão de escárnio enquanto John a observava sair dançando, animada, com o irmão dele.
Maldita mulher!
Quando chegou a hora de se arrumar para a festa, John teve um cuidado excepcional com a aparência. Optou por um traje de noite de um preto intenso, suavizado apenas pelo branco engomado da camisa e da gravata. John e o irmão conversaram educadamente na carruagem, mas John estava obcecado demais com a ideia de rever Belle para prestar muita atenção em Damien. Ele não culpava o irmão por se interessar por ela – conhecia bem os encantos de Belle. Mas estava furioso com ela por buscar uma vingança tão cruel.
Quando chegaram à mansão Forthright, John entregou o sobretudo ao mordomo e, na mesma hora, examinou o salão em busca de Belle. Ela estava em um canto, conversando de forma animada com um homem alto e belo de olhos e cabelos escuros. Belle com certeza andara ocupada naquelas duas semanas desde o último encontro deles, pensou John com amargura. A atenção de Damien foi imediatamente capturada por um amigo e, como a an triã não estava à vista, John conseguiu evitar as apresentações longas e elaboradas. Ele foi até onde estava Belle, esforçando-se para manter a raiva sob controle.
– Boa noite, lady Arabella – disse, quando estava bem atrás dela.
Não conseguia con ar em si mesmo para dizer mais nada.
Belle se virou, tão animada por vê-lo que não reparou na frieza da voz dele.
– John! – falou, ofegante, os olhos brilhando com uma alegria indisfarçada. – Que surpresa.
Ele estava ali. Ele estava ali. Belle se viu inundada por uma onda de alívio e prazer que logo foram substituídos por irritação. Maldição, não usara o vestido azul ousado. Nunca sonhara que ele chegaria tão cedo a Londres.
– É mesmo?
Belle o encarou como uma expressão de dúvida.
– O que quer dizer?
– Talvez possa me apresentar ao seu amigo.
O que John mais queria era falar com ela a sós, mas não viu como ignorar o homem ao seu lado.
– Ah, é claro – disse Belle, atrapalhando-se com as palavras. – Lorde Blackwood, este é meu bom amigo, o Sr. William Dunford.
Dunford sorriu para ela de modo íntimo demais para o gosto de John.
– Não tinha ideia de que sabia o meu primeiro nome, Belle – brincou ele.
– Ah, que quieto, Dunford. Da próxima vez vou chamá-lo de Edward, só para contrariar.
Uma onda renovada de ciúmes atingiu John diante da familiaridade de Belle e Dunford. Ainda assim, ele estendeu a mão. Dunford retribuiu o gesto, murmurou um cumprimento e pediu licença. No entanto, assim que o outro homem partiu, John permitiu que suas verdadeiras emoções viessem à tona.
Belle arquejou e chegou mesmo a recuar alguns passos diante da fúria absoluta que viu irradiando dos olhos dele.
– John, o que houve?
– Como você foi capaz, Belle? – disse ele, furioso. – Como foi capaz?
Ela o encarou sem entender. Havia esperado ciúmes, não aquela raiva incontida.
– Como eu pude o quê?
– Não banque a inocente. Não combina com você.
– De que está falando? – repetiu Belle, a voz mais tensa agora.
John apenas a encarou com irritação.
Então ela se lembrou da mentira que Emma contara para forçá-lo a vir a Londres. Talvez ele estivesse achando que ela e Dunford...
– Está assim por causa de Dunford? – apressou-se a perguntar. – Porque, se é isso, não tem com que se preocupar. Ele é um amigo muito antigo, mas só isso. Dunford também é o melhor amigo de Alex.
– Não tem nada a ver com ele – sibilou John. – E sim com meu irmão.
– Quem?
– Você me ouviu.
– Seu irmão?
John assentiu.
– Nem conheço seu irmão.
– Se continuar com essas mentiras, Belle, elas vão acabar por derrubá-la. E, acredite em mim, não estarei por perto para segurá-la quando você cair.
Belle respirou fundo.
– Acho melhor continuarmos esta conversa em particular.
Ela manteve a cabeça erguida e saiu do salão em direção a uma das sacadas. Ao chegar lá, parte da confusão que sentia havia se transformado em raiva e, quando se virou para encarar John, seus olhos reluziam de fúria.
– Muito bem, então, lorde Blackwood. Agora que não estamos mais diante de uma audiência, espero que me diga qual foi exatamente o motivo daquela cena.
– Não está em posição de me fazer exigências, milady.
– Eu lhe garanto que não estava ciente dessa limitação ao meu comportamento.
John se sentia ferver de raiva. Tinha vontade de agarrar Belle pelos ombros e sacudi-la. Sacudi-la e sacudi-la e sacudi-la, e depois... Ah, Deus, queria beijá-la. Contudo, como não tinha o hábito de beijar pessoas quando estava com raiva, apenas a encarou e disse:
– Tenho consciência de que meu comportamento em relação a você nem sempre foi impecável, mas voltar as suas atenções para meu irmão é mesquinho e infantil. Para não mencionar que também é repulsivo... ele tem quase o dobro da sua idade.
Belle ainda não sabia muito bem de que ele estava falando, mas não estava com humor para lhe dar explicações, por isso levantou o queixo e respondeu:
– É bastante comum que mulheres da sociedade se casem com homens mais velhos. Acredito que as mulheres amadureçam mais rápido, por isso achamos homens da nossa idade ou, às vezes, até oito ou dez anos mais velhos – disse ela em um tom expressivo – infantis e entediantes.
– Está me chamando de infantil e entediante?
A voz dele saiu baixa e mortalmente séria.
– Não sei. Será que estou? Agora, se me der licença, esta conversa está muito infantil e entediante e tenho modos muito melhores de passar o tempo.
John a segurou com força pelo braço.
– Não lhe dou licença, muito obrigado, e não tenho um modo melhor de passar o tempo. Tenho uma pergunta para você e quero que responda.
Ele fez uma pausa e seu silêncio forçou Belle a levantar os olhos para encará-lo.
– Sempre foi tão cruel?
Belle se desvencilhou da mão dele.
– Eu seria capaz de esbofeteá-lo – disse, furiosa. – Mas tenho medo de que sua pele contamine a minha mão.
– Tenho certeza de que cará feliz em saber que me magoou. Mas, milady, foi só por um instante. Porque logo percebi que não queria ter nada a ver com uma mulher disposta a se envolver com meu irmão apenas para se vingar de mim.
Belle por m deixou sua exasperação clara.
– Pela última vez, John, não tenho ideia de quem seja seu irmão.
– Ora, isso é interessante, porque ele sabe muito bem quem você é.
– Muitas pessoas sabem quem eu sou.
John aproximou bem o rosto do dela.
– Ele está pensando em se casar com você.
– O quê?
– Você me ouviu.
Belle o encarou com surpresa enquanto parte da sua raiva se transformava em confusão.
– Ora, acho que vários homens já pensaram em se casar comigo – comentou em um tom pensativo. – Mas isso não signi ca que todos eles tenham me pedido em casamento. E com certeza também não signi ca que eu retribuo os sentimentos deles.
Por um momento John quis acreditar nela, mas então se lembrou das palavras de Emma. “Ela está pensando em se casar... Um conde, eu acho... Na verdade, Belle disse que ele lembra um pouco o senhor.”
– Não tente se safar dessa, mocinha – alertou ele.
– Mocinha? Mocinha! Que se dane a contaminação, acho que vou, sim, esbofeteá-lo.
Belle ergueu a mão, mas John a conteve com facilidade.
– Você não tem os meus instintos, Belle – falou ele, em uma voz suave. – Jamais conseguiria vencer uma batalha entre nós.
O ar de condescendência dele foi a fagulha que faltava para transformar a raiva de Belle em uma fúria incendiária.
– Deixe-me dizer uma coisa, lorde Blackwood – falou ela, soltando a mão. – Para começar, não sei quem é seu irmão e, em segundo lugar, mesmo que ele tivesse a intenção de se casar comigo, não consigo entender por que isso teria algo a ver com você, já que deixou bem claro que não queria nada comigo. Em terceiro lugar, não vejo motivo para ter que explicar minhas ações logo a você. E em quarto lugar...
– Pode parar em três – disse John em deboche. – Já perdi o interesse.
Belle o encarou com seu melhor olhar de desprezo e ergueu a mão como se fosse tentar esbofeteá-lo de novo. Quando já contava com a atenção dele, pisou com toda a força no seu pé. John nem se encolheu. Ela já esperava por isso – seus sapatos de festa não eram de um material rígido. Ainda assim, se sentiu satisfeita com a pequena vitória.
– Seus instintos já não são tão bons, John – debochou.
– Se quer me in igir algum dano real, use sapatos mais fortes, Belle. E talvez eles a protejam de outra bolha na próxima vez que sair para dar uma caminhada.
Belle engoliu em seco ao se lembrar da gentileza com que John cuidara do pé dela. Era difícil reconhecer aquele homem terno no lorde sardônico e ofensivo que estava parado na frente dela naquele momento. Com um suspiro exagerado de impaciência, Belle encarou John nos olhos e disse:
– Eu gostaria de voltar para a festa. Assim, se puder fazer a gentileza de chegar para o lado...
John não se mexeu.
– Com quem você está pensando em se casar?
Belle gemeu baixinho para si mesma ao ver suas mentiras surgindo para assombrá-la.
– Não é da sua conta – retrucou, irritada.
– Eu perguntei com quem você está pensando em se casar.
– E eu disse que não é da sua conta.
John se inclinou para a frente.
– Não seria, por acaso, com o conde de Westborough?
Belle arregalou os olhos.
– Ele é o seu irmão?
Então ela realmente não sabia do parentesco dos dois. Ninguém seria capaz de ngir aquela expressão de incredulidade. Porém John queria ter certeza, por isso perguntou:
– O sobrenome dele não lhe deu uma pista?
– Eu só o conheci na semana passada. Não sei o sobrenome dele. Foi apresentado a mim apenas como conde de Westborough. E, antes que me acuse de outro crime hediondo, deixe-me dizer que só sabia que seu pai era um conde porque Alex me contou. Não tinha ideia do sobrenome.
John não disse nada, cou só parado ali, julgando-a. Belle achou aquele silêncio inquietante.
– Embora, agora que mencionou isso, ele realmente se parece um pouco com você – ponderou ela. – Talvez um pouco mais bonito, e não manca.
John ignorou o insulto, reconhecendo-o pelo que era: um animal ferido provocando outro.
– Não sabia mesmo que ele é meu irmão?
– Não! Eu juro!
Belle se deu conta de que soava como se estivesse implorando pelo perdão dele, quando não havia feito nada de errado.
– Mas isso não muda em nada meus planos – disse.
– Planos? De se casar com ele?
– Eu o informarei dos meus planos quando achar necessário.
Espero informar a mim mesma dos meus planos quando achar necessário, pensou Belle, desesperada, porque não tenho a menor ideia do que estou dizendo.
John a segurou pelos ombros.
– Com quem planeja se casar?
– Não vou lhe dizer.
– Está parecendo uma criança de 3 anos.
– Está me tratando como se eu fosse uma criança de 3 anos.
– Só vou perguntar mais uma vez – avisou John em voz baixa, aproximando o rosto do dela.
– Você não tem o direito de falar assim comigo – sussurrou Belle. – Não depois de...
– Pelo amor de Deus, Belle, não jogue isso na minha cara de novo. Já admiti que a tratei mal. Mas tenho que saber. Você não entende? Tenho que saber!
Os olhos dele pareciam arder de paixão.
– Com quem planeja se casar?
Belle viu o desespero no rosto dele e toda a sua determinação foi por água abaixo.
– Com ninguém! – disse em um rompante. – Com ninguém! Foi uma mentira! Uma mentira para conseguir que você viesse para Londres. Porque sinto a sua falta.
O aperto de John no braço dela afrouxou com a surpresa diante daquelas palavras, e Belle se desvencilhou e lhe deu as costas.
– Agora estou completamente humilhada. Espero que esteja satisfeito.
John encarou as costas dela, boquiaberto, enquanto assimilava o que acabara de ouvir. Ela ainda gostava dele. Saber disso foi um bálsamo para seu coração. Mas não gostara nem um pouco da tortura a que Belle o submetera e tinha toda a intenção de lhe dizer isso.
– Não gosto de ser manipulado – falou John em voz baixa.
Belle se virou, furiosa.
– Você não gosta de ser manipulado? É tudo o que tem a dizer? Não gosta de ser manipulado. Ora, deixe que eu lhe diga uma coisa. Eu não gosto de ser insultada. E achei seu comportamento extremamente insultante.
Ela passou por ele com as costas muito retas, a cabeça erguida, ngindo uma dignidade que não sentia.
John ainda estava tão atônito com a con ssão inacreditável de Belle que o movimento dela o pegou de surpresa e ele mal conseguiu roçar a ponta dos dedos dela quando tentou detê-la.
– Belle – chamou com a voz embargada de emoção. – Por favor, não vá.
Belle poderia facilmente ter ido embora do terraço, já que ele segurava só de leve a mão dela. Mas algo na voz rouca de John fez com que ela se virasse e, ao mirar os olhos dele, cou impressionada com a força do sentimento que viu ali. Belle sentiu a boca car seca e se esqueceu de respirar. Ficou imóvel por um tempo inde nido, com o olhar preso no daquele homem que passara a signi car tanto para ela.
– John – sussurrou. – Não sei o que você quer.
– Quero você.
As palavras dele pesaram no ar enquanto o coração de Belle implorava à mente que acreditasse nele. O que John queria dizer com “quero você”? Queria apenas tocá-la, beijá-la? Belle já sabia que ele se sentia atraído por ela – John nunca conseguira esconder aquilo, assim como era óbvio que ela sentia o mesmo.
Ou ele a queria em sua vida? Como amiga, como companhia ou até mesmo como esposa? Belle tinha medo de perguntar. John já a magoara demais uma vez e ela não queria que ele voltasse a fazer isso.
John viu a hesitação nos olhos azul-claros e se odiou por tê-la deixado tão descon ada. Estava na hora de confessar quanto gostava dela, sabia disso. Contudo seus próprios medos o detiveram, e ele disse apenas, em um tom gentil:
– Posso beijá-la?
Belle assentiu devagar e se adiantou enquanto John pegava sua outra mão. Ela sentiu uma timidez profunda dominá-la e baixou os olhos.
– Não desvie os olhos – pediu John em um sussurro enquanto inclinava gentilmente o rosto dela para cima e se aproximava um pouco mais. – Você está tão, tão linda! E é tão boa, gentil, inteligente, divertida e...
– Pare!
O nariz dele já encostava no dela.
– Por quê?
– É demais – respondeu Belle, trêmula.
– Não. Não é. Nunca vai ser demais.
Ele deixou os lábios roçarem com delicadeza os de Belle, que sentiu um tremor de desejo percorrê-la. Eles continuaram daquele jeito por um longo instante, os lábios mal se tocando, até John não conseguir suportar e puxá-la com força para si.
– Ah, Deus, Belle, eu fui tão, tão estúpido! – disse ele com um gemido.
Não a beijou, apenas a manteve nos braços, como se pudesse imprimir o corpo dela ao dele. E a abraçou forte, na esperança de que parte da bondade e da coragem de Belle se impregnasse nele.
– Lamento tanto. Nunca tive a intenção de magoá-la – sussurrou John, emocionado. – É o que jamais desejei fazer.
– Shhh – interrompeu-o Belle, não suportando ouvi-lo torturar-se. – Apenas me beije. Por favor. Sabe, tenho pensado nisso há dias e...
John não precisava de mais encorajamento. O beijo que lhe deu foi tão intenso quanto o primeiro tinha sido gentil. Ele a devorou com voracidade, sorvendo-a enquanto murmurava palavras tolas de amor e desejo. Suas mãos estavam por toda parte, e Belle as queria por toda parte, queria John mais do que imaginara ser capaz, mais do que conseguia compreender. Ela en ou as mãos nos cabelos cheios dele, encantada com a textura dos os macios, enquanto os lábios de John desciam até a base do seu pescoço.
– Não consigo acreditar nisso – comentou Belle com um gemido.
– Em quê? – conseguiu perguntar John entre uma mordidinha e outra.
– Nisso. Em tudo. No modo como faz com que eu me sinta. No... Ah!
Belle deixou escapar um gritinho baixo quando a boca dele chegou à pele sensível bem atrás da orelha dela.
– Em que mais não consegue acreditar? – perguntou ele, provocador.
– Em como eu quero que continue a me beijar – respondeu Belle, em uma voz febril. – E ainda há uma festa acontecendo no salão ao lado.
As palavras de Belle tiveram um efeito que ela não previra: mesmo com esforço e praguejando baixinho, John se afastou.
– Quase esqueci – murmurou ele. – Alguém pode nos surpreender a qualquer instante.
Belle sentiu um frio absurdo longe dos braços dele e não conseguiu evitar estender a mão para puxá-lo para si.
– Por favor – pediu em um sussurro. – Senti tanto a sua falta.
Ela era uma tentação e tanto, mas John se manteve rme.
– Não vim de tão longe até Londres para arruinar sua reputação.
– Eu gostaria que tivesse feito isso – murmurou Belle.
– O que disse?
– Nada.
– Teremos que voltar separados para o salão.
Belle sorriu diante da preocupação dele.
– Não se preocupe. Tenho certeza de que Dunford está nos dando cobertura.
John ergueu uma sobrancelha.
– Falei um pouquinho de você para ele – acrescentou ela.
John lhe lançou um olhar que a fez se explicar melhor.
– Só um pouquinho. Não se preocupe, não contei a ele todos os seus segredos.
John afastou a culpa que fervilhou dentro dele. Belle não sabia de seu maior segredo, e ele teria que contá-lo. Mas não naquele instante. Não precisava contar naquele momento.
– Seus cabelos estão desalinhados – preferiu comentar. – Acho que você vai querer arrumá-los um pouco. Voltarei primeiro para a festa. Tenho certeza de que meu irmão está à minha procura.
Belle assentiu e eles voltaram juntos para o saguão escuro. No entanto, antes que seguissem por caminhos diferentes, ela pegou a mão de John.
– O que acontece agora? Preciso saber.
– O que acontece agora? – repetiu ele com um sorriso jovial. – Ora, vou cortejar você. Não é isso que deve acontecer?
Ela respondeu com um sorriso e se afastou rapidamente para se arrumar.
Quando John retornou ao salão, não cou surpreso ao encontrar a expressão de curiosidade do irmão.
– Onde você estava? – perguntou Damien.
– Só queria tomar um pouco de ar fresco.
Se Damien notara que lady Arabella havia deixado o salão no mesmo momento, não mencionou.
– Por que não me apresenta a alguns dos seus amigos? – sugeriu John.
Damien assentiu. Enquanto ele se ocupava em apresentar John a algumas pessoas, Belle reapareceu e foi direto até Dunford.
– Foi uma saída e tanto – comentou o amigo com um sorriso.
Belle enrubesceu.
– Ninguém percebeu, certo?
Dunford balançou a cabeça.
– Acho que não. Eu estava de olho em você, para o caso de precisar de algum tipo de resgate. No entanto, se eu fosse você, no futuro cuidaria para que minhas escapadas do salão não passassem de cinco minutos.
– Ah, Deus. Quanto tempo eu, bem, nós camos lá fora?
– Mais do que você pretendia, tenho certeza. Eu disse que você tinha tido um problema qualquer com o seu vestido. Todas as damas pareceram compreender.
– Você é um tesouro, Dunford – falou Belle, sorrindo.
– Ah, aqui está a senhorita, lady Arabella.
Belle se virou e viu lorde Westborough aproximando-se. John estava ao lado do irmão, com um sorriso malicioso no rosto.
– É um prazer voltar a vê-lo, milorde – murmurou ela educadamente.
– E acredito que já conheça meu irmão – acrescentou Damien. – Lorde Blackwood.
– Sim, é claro. Nós nos conhecemos muito bem.
Belle se encolheu por dentro ao perceber o duplo sentido do que dissera e se recusou a olhar para John, certa de que seria recompensada com um sorriso malicioso. Por sorte, a chegada da an triã, lady Forthright, a salvou de uma conversa potencialmente embaraçosa.
– Ah, Westborough – falou a mulher em um tom encantado. – Não o vi chegar. E, lady Arabella, é sempre um prazer.
Belle sorriu e se inclinou em uma cortesia educada.
– E esse deve ser o seu irmão – continuou lady Forthright.
Damien assentiu e os apresentou. Então ele viu outro amigo e pediu licença, deixando John e Belle nas garras da an triã nada gentil.
– Lorde Blackwood? Um barão? – perguntou. – Hum. Não estou me lembrando do título.
Belle sentiu uma onda de fúria. Lady Forthright sempre fora uma mulher intrometida que tentava esconder sua falta de autocon ança insultando os outros.
– É um título relativamente novo, milady – disse John, mantendo-se inexpressivo.
– “Relativamente” signi ca quanto?
A mulher deu um falso sorriso tímido diante da brincadeirinha, então olhou para Belle, para ver se a jovem também desdenhava daquele recém-chegado à nobreza. Belle respondeu com uma expressão sisuda que cou ainda mais severa quando ela percebeu que o salão cara um pouco mais silencioso nos últimos minutos. Santo Deus, ninguém tinha nada melhor para fazer do que ouvir as bobagens que lady Forthright falava? E onde estava Damien? Ele não ia defender o irmão?
– Alguns anos – respondeu John, calmo. – Recebi o título em reconhecimento por serviços militares prestados.
– Entendo.
Lady Forthright ergueu os ombros, exibindo-se para a audiência.
– Ora, tenho certeza de que o senhor foi muito corajoso, mas não consigo aprovar esse modo inconsequente de distribuir títulos. Não faz bem nenhum à aristocracia que isso seja feito de forma tão... podemos dizer... indiscriminada.
– Lorde Blackwood é lho de um conde – ressaltou Belle em voz baixa.
– Ah, não desconheço a linhagem dele – retrucou a an triã. – Mas não devemos fazer como aqueles russos, que distribuem títulos para todo mundo. Sabia que todos os lhos de um duque também se tornam duques? Não demora muito e todo o país estará cheio de duques. Será uma anarquia. Guarde as minhas palavras, aquele país vai entrar em colapso. E será por causa de todos aqueles duques.
– É uma suposição interessante – comentou Belle, gélida.
Lady Forthright não pareceu perceber a irritação da jovem.
– Acho todos esses novos títulos um pouco acintosos, não concorda?
Belle ouviu vários arquejos ao redor enquanto todos os que ouviam a conversa esperavam por sua resposta. Damien voltou para o lado dela, e Belle lhe dirigiu um sorriso tenso.
– Sinto muito, lady Forthright – disse ela em tom gentil. – Acho que não estou acompanhando seu raciocínio. Seu marido é o quinto visconde Forthright?
– O sexto – corrigiu a mulher, irritada. – E meu pai era o oitavo conde de Windemere.
– Entendo – voltou a falar Belle, pensativa. – Então nenhum deles fez nada para merecer os títulos que carregam além do simples fato de terem nascido, não é mesmo?
– Tenho certeza de que compreendi mal as suas insinuações, lady Arabella. E permita-me lembrá-la de que o condado da sua família remonta a vários séculos.
– Ah, estou bastante ciente desse fato, lady Forthright. E vemos o condado como uma honra para a família. Mas o meu pai é um bom homem apenas porque é um bom homem, não porque possui um título antigo. E quanto a lorde Blackwood, acho o título dele muito mais valioso exatamente porque representa a nobreza do homem que está diante da senhora, não de algum ancestral morto há tempos.
– Belo discurso, lady Arabella, ainda mais vindo de alguém que aproveita todos os privilégios da posição que tem. Porém não é uma fala muito apropriada para uma dama criada na nobreza. A senhorita se tornou uma dessas sabichonas intelectuais.
– Por m um elogio! Nunca pensei que ouviria isso dos seus lábios. Agora, se me der licença, estou cando cansada desta festa.
De propósito, Belle deu as costas à an triã, consciente do escândalo que seus péssimos modos causariam.
– John, foi um prazer voltar a vê-lo. Espero que apareça para me visitar logo, mas preciso encontrar Dunford e pedir que me acompanhe até minha casa. Boa noite!
Enquanto John ainda estava atordoado com a defesa apaixonada que ela
zera, Belle o honrou com seu sorriso mais radiante e passou ligeira por ele,
deixando-o diante de uma lady Forthright furiosa, que apenas bufou para ele e se afastou.
John não conseguiu se conter e começou a rir.
Mais tarde naquela noite, quando os irmãos Blackwood voltavam para casa, Damien levantou o assunto da óbvia amizade entre Belle e John.
– Não havia me dado conta de que você e lady Arabella se conheciam tão bem – comentou Damien com o cenho franzido.
A boca de John se curvou em um sorriso irônico.
– Ela disse que nos conhecíamos bem, não?
– A defesa apaixonada que lady Arabella fez do seu título deixou claro que vocês se conhecem muito bem.
– Sim, é verdade.
Damien cou em silêncio por alguns minutos, mas sua curiosidade acabou vencendo.
– Pretende cortejá-la?
– Já comuniquei isso à dama em questão.
– Entendo.
John suspirou. Estava se comportando de forma desagradável com o irmão, e Damien não merecia aquilo.
– Lamento se isso estraga seus planos. Asseguro-lhe que, até chegar aqui, desconhecia que você nutrisse sentimentos em relação a Belle. Se quer saber, foi ela a razão para eu ter vindo a Londres.
Damien pensou por algum tempo sobre o assunto.
– Não diria que tenho sentimentos por ela. Apenas achei que seria uma boa esposa.
John o encarou com ceticismo. Perguntava-se se as emoções do irmão em algum momento se aventuravam além da apreciação ou de um desprezo mediano.
– No entanto – continuou Damien –, é óbvio que não combinaríamos. Ela é uma beldade, sem dúvida, mas não posso ter uma esposa que expressa ideias tão radicais em público.
John torceu os lábios.
– Com certeza você também se ressente do meu título.
– É claro que não.
Damien pareceu ofendido com a acusação.
– Você mereceu o título. E o nosso pai era, é claro, um conde. Mas deve admitir que muitos na cidade têm conseguido títulos de nobreza, ou comprando-os ou por casamento. Só Deus sabe o que será de nós.
– Belle gosta de ler – comentou John em um rompante, só para garantir que o interesse do irmão não retornaria. – Ela leu a obra completa de Shakespeare.
Damien balançou a cabeça.
– Não sei o que eu estava pensando. Mulheres intelectuais são um aborrecimento, por mais belas que possam ser. São exigentes demais.
John sorriu.
– Ela não serviria para mim de jeito nenhum – continuou Damien. – Mas você deve tentar se casar com ela, se quiser. Seria uma grande conquista para um homem na sua posição. Embora eu deva alertá-lo de que os pais dela provavelmente não aprovariam o casamento. Acho que lady Arabella conseguiria se casar com um duque se quisesse.
– Imagino que sim – murmurou John. – Se fosse isso que ela quisesse, é claro.
A carruagem parou diante da casa de Damien. Quando eles entraram no saguão principal, Lightbody os cumprimentou e entregou a John um bilhete que disse ter sido deixado expressamente para lorde Blackwood. Curioso, John abriu o papel.
Estou em Londres.
John franziu o cenho ao se lembrar das duas mensagens semelhantes que recebera fazia algumas semanas. Ele pensara que eram dirigidas aos antigos proprietários da mansão Bletchford, mas agora se dava conta de que se enganara.
– É de alguém que você conheça? – perguntou Damien.
– Não sei – respondeu John devagar. – Realmente não sei.