Brilhante

Julia Quinn · Capítulo 4 de 26

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Brilhante

Capítulo 2

 

Belle acordou na manhã seguinte com o som nada agradável de Emma vomitando. Ela se virou na cama, abriu os olhos e viu a prima debruçada sobre um urinol. Belle fez uma careta diante da cena.

– Que maneira deliciosa de despertar – resmungou.

– Bom dia para você também – retrucou Emma.

Ela se levantou, foi até a jarra de água deixada sobre uma mesa próxima, serviu-se de um copo e tomou um gole.

Belle se sentou e cou olhando a prima bochechar a água.

– Imagino que você não tenha como fazer esse tipo de coisa no seu quarto – comentou por m.

Emma lhe lançou um olhar zangado enquanto gargarejava.

– Enjoo matinal é algo comum na gravidez, sabia? – continuou Belle em um tom prático. – Não acho que Alex caria aborrecido se você vomitasse no seu quarto.

A expressão de Emma se tornou de nitivamente furiosa enquanto ela cuspia a água no urinol.

– Não vim até aqui para evitar meu marido. Pode acreditar que ele já me viu vomitando muitas vezes nas últimas semanas – contou ela, depois suspirou. – Acho que vomitei no pé dele outro dia.

Belle enrubesceu em solidariedade ao constrangimento da prima.

– Que horror – murmurou.

– Pois é, mas o fato é que vim até aqui para ver se você já havia acordado e acabei cando enjoada.

Emma cou um pouco pálida e teve que se sentar. Belle se levantou depressa e vestiu um roupão.

– Quer que eu vá buscar alguma coisa para você?

Emma balançou a cabeça e respirou fundo, tentando bravamente manter o que ainda lhe restava no estômago.

– O panorama que você está me mostrando do que devo esperar do casamento não é nada bom – brincou Belle.

Emma deu um sorriso fraco.

– É melhor do que isso na maior parte do tempo.

– Espero sinceramente que sim.

– Achei que conseguiria manter no estômago o chá com biscoitos do café da manhã – comentou Emma com um suspiro. – Mas estava errada.

– É fácil esquecer que você está grávida – comentou Belle com carinho. – Ainda está tão esguia.

Emma a brindou com um sorriso.

– É muito gentil da sua parte dizer isso. Esta experiência é nova para mim, e é tudo muito estranho.

– Você está nervosa? Não mencionou nada a respeito.

– Não estou exatamente nervosa, é mais... hum... não sei bem como descrever. Mas a irmã de Alex deve ter um bebê dentro de três semanas, e estamos planejando visitá-la daqui a duas semanas. Espero estar lá para o parto. Sophie me garantiu que somos bem-vindos. Tenho certeza de que não vou me sentir tão nervosa depois que souber o que me espera.

A voz de Emma carregava mais esperança do que certeza.

A experiência de Belle com partos se limitava aos cachorrinhos que ela vira o irmão ajudar a trazer ao mundo quando tinha 12 anos. Ainda assim, não tinha certeza de que, depois de assistir ao parto de Sophie, Emma se sentiria mais calma sobre o que a aguardava. Belle deu um sorrisinho sem jeito para a prima, murmurou algumas palavras ininteligíveis para demonstrar que concordava e se calou.

Depois de alguns segundos, a pele de Emma recuperou seu tom normal e ela suspirou.

– Pronto. Me sinto muito melhor agora. É impressionante como passa rápido. Isso é a única coisa que torna os enjoos suportáveis.

Naquele instante, uma criada entrou carregando uma bandeja com chocolate quente e pãezinhos. A mulher pousou a bandeja na cama e as duas damas se posicionaram uma de cada lado.

Belle viu Emma tomar, hesitante, um gole do chocolate.

– Emma, posso lhe fazer uma pergunta?

– É claro.

– Vai me responder com franqueza?

Emma ergueu um dos cantos da boca.

– Quando me viu não ser franca?

– É difícil as pessoas gostarem de mim?

Emma conseguiu pegar o guardanapo bem a tempo de evitar cuspir todo o chocolate nos lençóis da cama de Belle.

– O que foi que disse?

– Não me acho uma pessoa desagradável. Quer dizer, acho que a maior parte das pessoas gosta de mim.

– Sim – garantiu Emma. – A maior parte. Todo mundo gosta. Acho que nunca conheci ninguém que não gostasse de você.

– Isso mesmo – concordou Belle. – Provavelmente há pessoas que não se interessam muito por mim, mas acho difícil que alguém não goste de mim.

– Quem não gostou de você, Belle?

– Seu novo vizinho. John Blackwood.

– Ah, por favor. Você não conversou nem cinco minutos com o homem, conversou?

– Não, mas...

– Então ele não pode ter desgostado de você tão depressa.

– Não sei. Acho que foi o modo como tudo aconteceu.

– Tenho certeza de que está enganada.

Belle balançou a cabeça com uma expressão perplexa.

– Acho que não.

– Seria assim tão terrível se ele não gostasse de você?

– Só não me agrada a ideia de alguém não gostar de mim. Isso me torna terrivelmente egocêntrica?

– Não, mas...

– Costumo ser considerada uma pessoa agradável.

– Sim, você é, mas...

Belle endireitou os ombros.

– Isso é inaceitável.

Emma conteve uma risada.

– O que planeja fazer?

– Acho que preciso fazer com que ele goste de mim.

– Escute, Belle, você está interessada nesse John Blackwood?

– Não, é claro que não – respondeu Belle, um pouco rápido demais. – Só não compreendo por que ele me acha tão repulsiva.

Emma balançou a cabeça, sem conseguir acreditar no rumo bizarro que a conversa havia tomado.

– Ora, você logo vai ter a chance de mudar a opinião dele. Depois de todos os homens que se apaixonaram por você em Londres sem qualquer incentivo da sua parte, não consigo imaginar que você não consiga fazer com que esse Blackwood ao menos goste de você.

– Hum... – murmurou Belle, e levantou a cabeça. – Quando você disse que ele viria jantar?

 

Era verdade que lorde Blackwood não nascera um lorde, mas vinha de uma família aristocrática, embora empobrecida. O problema era que tivera a falta de sorte de ser o caçula de sete lhos, uma posição em que era quase garantido que nenhum dos favores da vida o alcançasse. Seus pais, os sétimos conde e condessa de Westborough, com certeza não tiveram a intenção de negligenciar o caçula, mas é que havia muitos outros à frente dele.

Damien era o primogênito e, por ser herdeiro do título, era paparicado e recebia todas as vantagens com que os pais podiam arcar. Um ano depois nasceu Sebastian, que, sendo muito próximo de Damien em idade, pôde compartilhar da maior parte dos privilégios garantidos ao herdeiro de um condado. O conde e a condessa eram muito práticos e, dada a alta taxa de mortalidade infantil, tinham consciência de que havia uma boa chance de Sebastian se tornar o oitavo conde de Westborough. Logo depois vieram em rápida sucessão Julianna, Christina e Ariana e, como cou claro quando ainda eram muito jovens que as três se tornariam beldades, elas também receberam muita atenção. Bons arranjos matrimoniais poderiam favorecer os cofres da família.

Alguns anos depois, a condessa deu à luz um natimorto. Ninguém cou contente com a perda, mas também não houve um grande luto. Ter cinco

lhos belos e razoavelmente inteligentes parecia uma abundância de

bênçãos e, para dizer a verdade, outro bebê teria sido apenas mais uma boca para alimentar. Os Blackwoods viviam, sim, em uma magní ca casa antiga, mas pagar as contas todo mês era um desa o. E nunca, jamais lhes ocorrera a possibilidade de o conde tentar ganhar a vida trabalhando.

Foi então que a tragédia se abateu sobre a família: o conde morreu quando sua carruagem tombou em uma tempestade. Na tenra idade de 10 anos, Damien se viu com um título. A família mal teve tempo de prantear o conde quando, para a surpresa de todos, lady Westborough descobriu que estava grávida de novo. Assim, na primavera de 1787, ela deu à luz o último

lho. O parto foi exaustivo e a condessa viúva nunca mais recuperou as

forças por completo. Naquele dia, cansada e irritadiça, para não mencionar bastante preocupada com as nanças da família, ela olhou para o sétimo

lho, suspirou e disse: “Acho que vamos chamá-lo simplesmente de John.

Estou cansada demais para pensar em um nome melhor.”

Depois dessa entrada pouco auspiciosa no mundo, John foi – na ausência de uma palavra melhor – esquecido.

A família tinha pouca paciência com ele, que acabava passando mais tempo na companhia dos tutores do que com a mãe e os irmãos. John foi mandado para estudar em Eton, depois em Oxford, não por se preocuparem com sua educação, apenas porque era isso que as famílias faziam com os

lhos homens, mesmo os mais novos – e, por consequência, irrelevantes

para a linhagem da dinastia.

Em 1808, no entanto, quando John estava em seu último ano em Oxford, surgiu uma oportunidade. A Inglaterra se viu envolvida nas questões políticas e militares da península Ibérica, e homens de todas as origens correram para se juntar ao exército. John viu a carreira militar como uma possibilidade de garantir seu futuro e apresentou a ideia ao irmão. Damien concordou, percebendo que seria um modo honrado de tirar o destino do caçula dos próprios ombros, e comprou uma patente para John.

Tinha sido fácil se adaptar à vida no Exército. John era um excelente cavaleiro e muito hábil com espadas e armas de fogo. Corria alguns riscos que sabia que deveria evitar, mas, em meio ao horror da guerra, cou claro que não havia chance de ele sobreviver à carni cina. E se, por algum capricho do destino, conseguisse atravessar o con ito com o corpo intacto, sabia que sua alma não teria tanta sorte.

Quatro anos se passaram e John continuou a surpreender a si mesmo ao escapar da morte. Então levou um tiro no joelho e se viu em um barco de volta à Inglaterra. À doce, verde e tranquila Inglaterra. De alguma forma aquilo não pareceu real. O tempo correu enquanto sua perna se curava, mas – verdade seja dita – John se lembrava muito pouco de seu período de convalescença. Passou a maior parte do tempo bêbado, incapaz de lidar com a ideia de ser um aleijado.

Então, para sua imensa surpresa, recebeu o título de barão por sua bravura – o que era irônico, depois de ter passado tantos anos sendo lembrado pela família de que não era um cavalheiro com um título de nobreza. Aquele foi o ponto de virada para John, e ele percebeu que, a partir daquele momento, teria algo para passar a uma futura geração. Com um propósito renovado, John decidiu colocar a vida nos trilhos.

Quatro anos depois, ele ainda mancava, mas ao menos mancava pelas próprias terras. O m da guerra chegara um pouco mais cedo do que o esperado para ele, que pegara o valor da sua patente e começara a investir. Suas escolhas acabaram se provando muito rentáveis e, depois de apenas cinco anos, John havia poupado o necessário para comprar uma pequena propriedade no campo.

Ele nalmente havia decidido caminhar pelo perímetro da propriedade na véspera, quando esbarrara com lady Arabella Blydon. John vinha pensando naquele encontro com ela fazia algum tempo. Provavelmente deveria ir até Westonbirt e se desculpar com a jovem por ter sido rude. Deus sabia que ela não iria até a mansão Bletchford depois do modo como ele a tratara.

John fez uma careta. Sem dúvida teria que arrumar um nome novo para aquele lugar.

Era uma bela casa. Confortável. Elegante, porém sem ostentação, e facilmente mantida por um pequeno grupo de criados – o que era uma sorte, já que ele não poderia arcar com os custos de contratar um grande número deles.

Assim, ali estava ele. Tinha uma casa só dele – não um lugar que jamais lhe pertenceria por ter cinco irmãos mais velhos. Tinha uma bela renda – um pouco reduzida agora que comprara a casa, mas seu sucesso inicial lhe dera con ança em suas habilidades nanceiras.

Ele checou o relógio de bolso. Eram duas e meia da tarde, uma boa hora para dar uma olhada em seus campos a oeste e avaliar a possibilidade de cultivo. Ele queria tornar a mansão Bletchford – que logo seria renomeada – o mais rentável possível.

Uma rápida olhada pela janela e John teve certeza de que a chuva forte do dia anterior não se repetiria. Saiu do escritório e subiu a escada para pegar seu chapéu. Ele não chegara muito longe quando Buxton, o mordomo idoso que já trabalhava na casa quando John a comprara, o deteve.

– O senhor tem visita, milorde – anunciou.

John estacou, surpreso.

– Quem é, Buxton?

– O duque de Ashbourne, milorde. Tomei a liberdade de levá-lo ao salão azul.

John abriu um sorriso.

– Ashbourne está aqui. Que esplêndido!

Quando comprara a mansão Bletchford, ele não se dera conta de que o antigo amigo do exército morava tão perto, mas isso sem dúvida era um bônus. John deu meia-volta para descer a escada. De repente, estacou no saguão, atônito.

– Que inferno, Buxton! – gemeu. – Onde ca o salão azul?

– A segunda porta à sua esquerda, milorde.

John desceu o corredor e abriu a porta indicada. Como imaginara, não havia uma única peça de mobília azul no cômodo. Alex estava de pé perto da janela, os olhos perdidos nos campos que faziam limite com a propriedade dele.

– Tentando pensar em um modo de me convencer de que aquele pomar de maçãs está do seu lado das terras? – brincou John.

Alex se virou.

– Blackwood. Como é bom vê-lo! E o pomar de maçãs está do meu lado das terras.

John ergueu uma sobrancelha.

– Talvez eu venha tentando descobrir uma forma de convencer você.

Alex sorriu.

– Como tem passado? E por que não apareceu para dizer um olá? Eu nem sabia que você havia comprado esta propriedade até Belle me contar, na tarde de ontem.

Então eles a chamavam de Belle. Combinava com ela. E ela falara sobre ele. John cou contente com isso, embora duvidasse que a jovem houvesse contado algo agradável.

– Você parece esquecer que não se deve visitar um duque a menos que o duque o visite primeiro.

– Sinceramente, Blackwood, imaginei que, a esta altura, estaríamos além das trivialidades da etiqueta. Qualquer homem que tenha salvado minha vida é bem-vindo a me visitar sempre que quiser.

John enrubesceu de leve, lembrando-se da ocasião em que atirara no homem que se preparava para esfaquear Alex pelas costas.

– Qualquer um teria feito o mesmo – comentou baixinho.

Alex deu um sorriso torto ao recordar o homem que se lançara na direção de John enquanto ele mirava. Como consequência da bravura, John sofrera um ferimento à faca no braço.

– Não – disse Alex por m. – Não acho que qualquer um teria feito o mesmo.

Ele endireitou o corpo.

– Mas basta de falar da guerra. Pre ro não me estender no assunto. Como você está?

John indicou uma cadeira e Alex se sentou.

– Como qualquer um, imagino. Aceita um drinque?

Alex assentiu e John pegou uma garrafa de uísque.

– Obviamente não como qualquer um, lorde Blackwood.

– Ah, isso. Consegui um baronato. Barão Blackwood – contou John e abriu um sorriso jovial. – Até que soa bem, não acha?

– Soa muito bem.

– E quais são as novidades na sua vida nos últimos quatro anos?

– Nada mudou muito, eu acho, até seis meses atrás.

– É mesmo?

– Eu me casei – contou Alex, com um sorriso tímido.

– Verdade?

John ergueu o copo de uísque em um brinde silencioso.

– O nome dela é Emma. E Belle é prima de Emma.

John se perguntou se a esposa de Alex teria alguma semelhança com a prima. Se fosse o caso, era fácil imaginar por que chamara a atenção do duque.

– Não me diga que ela também já leu a obra completa de Shakespeare.

Alex deixou escapar uma risadinha.

– Na verdade, começou a ler, mas venho mantendo-a ocupada ultimamente.

John ergueu as sobrancelhas diante do duplo sentido do comentário.

Alex compreendeu a expressão do amigo na mesma hora.

– Ela está administrando minhas propriedades. Emma é muito habilidosa com os números. É capaz de somar e subtrair mais rápido do que eu.

– Vejo então que a inteligência é um traço de família.

Alex se perguntou como John descobrira tanto sobre Belle em tão pouco tempo, mas não comentou nada.

– Sim, bem, essa talvez seja a única coisa que as duas têm em comum, além da capacidade excepcional de conseguir o que querem sem que você sequer se dê conta.

– É mesmo?

– Emma é obstinada – contou Alex com um suspiro, mas um suspiro confortável e feliz.

– E a prima não é assim? – perguntou John. – Ela me pareceu bastante determinada.

– Não, não, Belle também é muito determinada, não me entenda mal. Mas não tanto quanto Emma. Minha esposa é tão obstinada que é capaz de se colocar em certas situações sem pensar. Belle não é assim. Ela é muito prática. Muito objetiva. E tem uma curiosidade insaciável. É muito difícil guardar um segredo quando se está perto dela, mas devo dizer que a adoro. Depois de ver algumas situações tenebrosas em que se encontram alguns amigos, eu me considero muito sortudo por agora também fazer parte da família da minha esposa.

Alex percebeu que estava falando bem mais abertamente do que faria com um amigo que não via fazia anos, mas imaginou que algo em relação a terem ido juntos para a guerra forjava um vínculo indestrutível entre os homens. Devia ser por isso que ele conversava com John como se quatro anos não tivessem se passado.

Ou talvez aquilo se devesse ao fato de John ser um ótimo ouvinte. Sempre fora, lembrou Alex.

– Mas chega de falar da minha nova família – disse subitamente. – Você logo as conhecerá. Como tem passado? Conseguiu evitar minhas perguntas com muita habilidade.

John riu.

– Continua tudo igual, eu acho, a não ser pelo fato de que agora eu tenho um título.

– E uma casa.

– E uma casa. Comprei este lugar investindo e reinvestindo o valor da minha patente.

Alex deixou escapar um assovio baixo.

– Você deve levar muito jeito para questões nanceiras. Vamos conversar sobre isso algum dia. Seria bom aprender uma coisa ou outra com você.

– Na verdade, não há nenhum grande segredo por trás do sucesso

nanceiro.

– É mesmo? Por favor, me conte: o que há, então?

– Bom senso.

Alex soltou uma gargalhada.

– Algo que temo ter me faltado nos últimos meses, mas acho que é isso que o amor faz com um homem. Escute, por que não vai jantar conosco em breve? Contei sobre você para minha esposa, e ela está ansiosa para conhecê-lo. E, é claro, você já conhece Belle.

– Eu gostaria muito – falou John e, em uma rara demonstração de emoção, acrescentou: – Acho que será muito bom ter amigos por perto. Obrigado pela visita.

Alex tou o velho amigo com atenção e, em um relance, se deu conta de como John era solitário. Um segundo depois, entretanto, a vulnerabilidade desapareceu dos olhos dele e sua expressão voltou a ser inescrutável.

– Muito bem, então – disse Alex de modo educado. – Que tal daqui a dois dias? Não seguimos os horários de Londres aqui, então devemos jantar por volta das sete horas.

John assentiu.

– Excelente – comemorou Alex. – Nos vemos lá, então.

Alex se levantou e apertou a mão de John.

– Fico feliz por nossos caminhos terem voltado a se cruzar – declarou Alex.

– Eu também.

John acompanhou Alex até os estábulos, onde o cavalo dele cara. Com um aceno de cabeça amistoso, Alex subiu em sua montaria e partiu.

John voltou caminhando devagar e sorriu para si mesmo quando olhou para a casa. Ao adentrar o saguão, Buxton o interceptou de novo.

– Isso chegou para o senhor, milorde, enquanto conversava com Sua Graça.

Ele apresentou a John um envelope em uma bandeja de prata.

John ergueu as sobrancelhas enquanto desdobrava o bilhete.

Estou na Inglaterra.

Que estranho. John virou o envelope na mão. O nome dele não estava escrito em lugar nenhum.

– Buxton? – chamou.

O mordomo, que já estava a caminho da cozinha, se virou e voltou para onde estava o patrão.

– O que o mensageiro disse quando entregou isto?

– Apenas que trazia um bilhete para o dono da casa.

– Ele não mencionou meu nome?

– Não, milorde, creio que não. Na verdade, foi um menino quem entregou. Acho que não devia ter mais do que 8 ou 9 anos.

John examinou o papel com curiosidade uma última vez, então deu de ombros.

– Provavelmente era para os antigos donos – concluiu, amassando o bilhete e deixando-o de lado. – Não tenho ideia do que se trata.

 

No jantar daquela noite, John pensou em Belle. Enquanto tomava um copo de uísque e lia O conto do inverno, ele pensou nela. E quando se deitou para dormir, pensou nela.

Belle era linda. Aquilo era inegável, mas John não achava que fosse o motivo de ela estar invadindo seus pensamentos. Havia um brilho especial naqueles olhos de um azul intenso. Um brilho de inteligência e de... compaixão. Ela tentara fazer amizade e ele frustrara completamente a tentativa.

John balançou a cabeça, como se para afastá-la dos pensamentos. Sabia muito bem que não deveria pensar em mulheres antes de dormir. Fechou os olhos e fez uma prece por uma noite sem sonhos.

Ele estava na Espanha. Era um dia quente, mas seu batalhão estava de

bom humor – sem confrontos na última semana.

Eles haviam se baseado em uma cidade pequena fazia quase um

mês. A maioria dos moradores estava satisfeita por tê-los ali. Os

soldados gastavam dinheiro, a maior parte na taberna, e todos se

sentiam um pouco mais prósperos tendo os ingleses no local.

Como sempre, John estava bêbado. Valia qualquer coisa para

tentar calar os gritos que soavam em seus ouvidos e apagar o sangue

que parecia estar sempre grudado em suas mãos, não importava

quanto as lavasse. Mais alguns drinques, imaginou, e ele estaria a

caminho do esquecimento.

– Blackwood.

John levantou a cabeça e assentiu para o homem que acabara de

sentar diante dele à mesa.

– Spencer.

George Spencer pegou a garrafa.

– Se importa?

John deu de ombros.

Spencer serviu a bebida em um copo que levara consigo. – Tem alguma ideia de quando vamos sair deste buraco? – Pre ro este buraco, como você o chama, a qualquer lugar no

campo de batalha.

Spencer olhou de relance para a garçonete do outro lado do salão e

passou a língua pelos lábios. Depois se voltou de novo para John.

– Jamais o teria tomado por um covarde, Blackwood. John virou outra dose de uísque.

– Covarde não, Spencer. Apenas humano.

– Não somos todos?

A atenção de Spencer ainda estava concentrada na jovem, que não

devia ter mais que 13 anos.

– O que acha daquela ali, hein?

John deu de ombros de novo. Não se sentia particularmente

comunicativo.

A jovem, que se chamava Ana, como ele descobrira ao longo do

último mês, colocou um prato de comida diante dele. John agradeceu

em espanhol. Ela assentiu e sorriu. Antes que pudesse se afastar,

porém, Spencer a puxou para o colo.

– Que coisinha bonita você é! – falou, a voz arrastada, enquanto a

mão subia pelo corpo da jovem e cobria o seio que mal amadurecera.

– Não – pediu Ana em um inglês ruim. – Eu...

– Deixe-a em paz – ordenou John, irritado.

– Pelo amor de Deus, Blackwood, ela é só uma... – Deixe-a em paz.

– Você às vezes é um cretino, sabia?

Spencer empurrou Ana para fora do colo, mas não antes de

beliscá-la com força no traseiro.

John en ou uma garfada de arroz na boca, mastigou, engoliu,

então disse:

– Ela é uma criança, Spencer.

O outro homem exionou a mão.

– Não onde eu peguei.

John balançou a cabeça, pois não queria ter que lidar com Spencer. – Deixe-a em paz, só isso.

Spencer se levantou abruptamente.

– Preciso urinar.

John o viu se afastar e voltou a se dedicar ao prato à sua frente. Ele

não dera mais de três garfadas quando a mãe de Ana apareceu ao lado

da mesa.

– Señor Blackwood – disse ela, ciente de que ele a compreenderia

apesar de algumas palavras em espanhol. – Aquele homem... ele toca a

minha Ana. Isso precisa parar.

John a encarou surpreso, tentando afastar a bruma alcoólica da

mente.

– Faz muito tempo que ele a importuna?

– A semana toda, señor. Aconteceu a semana toda. Ela não gosta.

Está assustada.

John sentiu o asco revirar seu estômago.

– Não se preocupe, señora. Vou me certi car de que ele a deixe em

paz – garantiu. – Ela cará a salvo do meu batalhão.

A mulher meneou a cabeça.

– Obrigada, señor Blackwood. Suas palavras me confortam. Ela retornou para a cozinha, onde, John presumia, passaria o resto

da noite diante do fogão.

Ele voltou a se dedicar à refeição e virou mais um copo de uísque

para acompanhar. Cada vez mais perto do esquecimento. Ansiava por

isso. Qualquer coisa para livrar sua mente da morte e dos mortos.

Spencer voltou e secou as mãos na toalha.

– Ainda comendo, Blackwood? – perguntou.

– Você sempre teve uma tendência a declarar o óbvio. Spencer fechou a cara.

– Coma a sua gororoba, então, se é o que quer fazer. Vou procurar

alguma diversão.

John ergueu uma sobrancelha, como se dissesse “Aqui?”. – Pra mim, este lugar serve.

Os olhos de Spencer reluziram enquanto ele subia a escada

cambaleando e sumia de vista.

John suspirou, feliz por se livrar daquele homem que era sempre

tão inconveniente. Nunca gostara de Spencer, mas ele era um soldado

razoável, e a Inglaterra precisava de todos que pudessem lutar por ela.

Ele terminou a refeição e empurrou o prato. A comida estava

saborosa, mas nada parecia satisfazê-lo. Talvez outro copo de uísque.

Ah, agora estava bêbado. Realmente bêbado. Ainda havia algumas

coisas a agradecer ao Senhor, pensou.

John deixou a cabeça pender sobre a mesa. A mãe de Ana estava

bastante nervosa, não estava? O rosto dela, marcado pela preocupação

e pelo medo, voltou à sua mente enevoada. E Ana, a pobre menina,

não gostava de ter todos aqueles homens ao seu redor. Ainda mais um

homem como Spencer.

Ele ouviu um baque vindo do andar de cima. Nada fora do

comum.

Spencer. Ah, sim, era nele que estava pensando. Era um cretino, ah,

era. Sempre incomodando os moradores locais, sem se importar com

nada além do próprio divertimento.

Outro baque.

O que ele dissera...? Que iria procurar diversão. Era bem típico de

Spencer.

Outro barulho estranho – como um grito de mulher. John olhou ao

redor. Ninguém mais ouvira? Ninguém pareceu reagir. Talvez fosse

porque ele estava mais perto da escada.

Pra mim, este lugar serve.

John esfregou os olhos. Havia alguma coisa errada. Ele levantou e se apoiou na mesa para tentar conter a náusea que

dominou seu corpo. Por que tinha a estranha sensação de algo estar

errado?

Outro baque. Outro grito.

John caminhou devagar em direção à escada. O que estava

acontecendo? O barulho foi cando mais alto conforme ele seguia pelo

corredor do segundo andar.

Então ouviu novamente. Dessa vez, cou claro.

– Nããããoooo!

Era a voz de Ana.

John cou sóbrio na mesma hora. Irrompeu pela porta,

arrancando-a das dobradiças.

– Ah, meu Deus, não! – gritou.

Mal conseguia ver Ana, o corpo pequeno coberto pelo de Spencer,

que a penetrava sem piedade.

Mas conseguiu ouvi-la chorando.

– Nãããooo, nãããooo, por favor, nãããooo!

John nem parou para pensar. Enlouquecido, arrancou Spencer de

cima da moça e o jogou na parede.

– Que diabo... Blackwood?

O rosto de Spencer estava tão vermelho quanto seu membro. – Seu desgraçado! – murmurou John, a mão pousada no revólver. – Pelo amor de Deus, ela é só uma prostituta espanhola. – Ela é uma criança, Spencer!

– Agora é uma prostituta – rebateu Spencer, e se virou para pegar o

calção.

John apertou a arma com mais força.

– É o que ela ia acabar sendo, de qualquer modo. John ergueu a arma.

– Os soldados de Sua Majestade não estupram – falou John, e deu

um tiro no traseiro do outro.

Spencer urrou de dor e caiu no chão, soltando uma série de

palavrões. John foi até Ana na mesma hora, como se houvesse algo que

pudesse fazer para apagar a dor e a humilhação da menina.

O rosto dela estava petri cado. Completamente sem expressão... Até que ela o viu.

Então Ana se encolheu e deu as costas a John, apavorada. Ele

cambaleou para trás ao ver o terror no rosto da menina. Ele não... Não

fora ele... Ele tentara pro...

A mãe de Ana entrou às pressas no quarto.

– Santa Mãe de Deus! – gritou. – O que é...? Ah, minha Ana!

Minha Ana!

Ela correu até a lha, que agora chorava descontroladamente. John cou parado no meio do cômodo, zonzo, em choque e ainda

bêbado.

– Eu não... – sussurrou. – Não fui eu.

Havia tanto barulho. Spencer gritava e praguejava de dor. Ana

chorava. A mãe gritava por Deus. John parecia não conseguir se

mexer.

A mãe de Ana se virou para ele, o rosto mais carregado de ódio que

ele já vira.

– A culpa é sua – sussurrou ela, e cuspiu no rosto de John. – Não. Não fui eu. Eu não...

– Você jurou protegê-la – lembrou a mulher, que parecia tentar se

conter para não agredi-lo. – Portanto, é como se tivesse sido você.

John a encarou, confuso.

– Não.

É como se tivesse sido você.

É como se tivesse sido você.

É como se tivesse...

John se sentou na cama, encharcado de suor. Tinham mesmo se passado cinco anos? Ele se deitou novamente, tentando esquecer que Ana se matara três dias depois.