Brilhante
Capítulo 12
John chegou à casa de Belle na manhã seguinte com os braços carregados de ores e chocolates. Ficou impressionado ao se dar conta de como aquilo era fácil – simplesmente permitir que ela lhe iluminasse o coração. John passara a manhã toda sorrindo.
Belle foi incapaz de disfarçar o prazer que brilhava em seus olhos quando desceu a escada para recebê-lo.
– A que devo o prazer da sua companhia? – perguntou com um sorriso animado.
– Eu disse que iria cortejá-la, não disse? – respondeu John, colocando as
ores nos braços dela. – Considere-se cortejada.
– Que romântico! – falou Belle, com uma ponta de sarcasmo.
– Espero que goste de chocolate.
Ela conteve um sorriso. Ele estava se esforçando.
– Adoro.
– Excelente! – comemorou John com um sorriso jovial. – Importa-se se eu comer um?
– De forma nenhuma.
Persephone escolheu aquele momento para descer a escada.
– Bom dia, Belle – falou ela. – Não vai me apresentar ao seu convidado?
Belle fez as honras e, enquanto John escolhia um chocolate, Persephone se inclinou e sussurrou:
– Ele é muito bonito.
Belle assentiu.
– E parece bastante viril.
Belle arregalou os olhos.
– Persephone! – sussurrou. – Acho que preciso lhe informar que esse não é o tipo de conversa que uma acompanhante costuma ter com sua pupila.
– Não? Pois acho que deveria ser. Ah, bem, creio que nunca vou entender direito quais são as funções de uma acompanhante. Por favor, não conte a Alex sobre meus defeitos nesse quesito.
– Gosto da senhora do jeito que é – declarou Belle com sinceridade.
– Isso é muito gentil da sua parte, minha querida. Bem, estou de saída. O cocheiro prometeu me levar para um passeio por Londres. Quero garantir que já teremos passado por todas as partes perigosas da cidade antes que escureça.
Levando-se em consideração que ainda não era nem meio-dia, Belle mal podia imaginar a extensão da rota que Persephone seguiria, mas não fez nenhum comentário quando a mulher mais velha saiu às pressas pela porta.
– Ela não é exatamente a acompanhante mais severa – comentou John.
– Não.
– Devemos passar à sala de estar? Estou desesperado para beijá-la e pre ro não fazer isso no saguão de entrada.
Belle enrubesceu e o levou para uma sala próxima.
John fechou a porta com um chute e a puxou para seus braços.
– Sem acompanhante o dia inteiro – murmurou ele. – Já houve homem mais afortunado?
– Já houve mulher mais afortunada? – devolveu Belle.
– Acho que não. Venha até o sofá para que eu possa enchê-la de chocolates e ores.
John pegou a mão dela e atravessou a sala.
Belle riu baixinho quando ele a levou para o sofá. Nunca o vira tão jovial, tão despreocupado. Ainda havia um no véu de tristeza e hesitação em seus olhos, mas não era nada em comparação com o olhar sombrio que ela vira em Oxfordshire.
– A única pessoa que você vai encher de chocolates é a si mesmo. Já comeu três.
John se sentou e a puxou mais para perto.
– Não há motivo para trazer um presente comestível para uma dama se o cavalheiro em questão também não gostar do que trouxe. Tome, coma um. São muito bons.
Ele pegou um chocolate e colocou na frente da boca de Belle.
Ela sorriu, comeu metade do chocolate com uma mordida e lambeu os lábios de forma sedutora enquanto mastigava.
– Que delícia! – murmurou.
– Sim.
John não estava se referindo ao chocolate.
Belle se inclinou para a frente para comer o resto do chocolate e lambeu os dedos dele.
– Havia um pouco de chocolate derretido nos seus dedos – comentou ela com inocência.
– Também há um pouco de chocolate derretido na sua boca.
Ele lambeu o canto da boca de Belle, fazendo com que um arrepio de desejo percorresse o corpo dela. John se aproximou mais e correu a língua pela borda do lábio superior dela.
– Ainda há um pouquinho aqui – murmurou ele. – E aqui.
John passou para o lábio inferior e o capturou entre os dentes.
Belle havia se esquecido completamente de respirar.
– Acho que gosto de ser cortejada – sussurrou ela.
– Nunca foi cortejada antes?
John deu uma mordidinha na orelha dela.
– Não assim.
– Ótimo! – comemorou ele com um sorriso possessivo.
Belle arqueou o pescoço enquanto John deixava os lábios correrem ao longo da pele macia.
– Espero que você também não tenha feito a corte a mais ninguém com esse tipo de atitude, hum, persuasiva.
– Nunca – a rmou ele.
– Ótimo.
O sorriso de Belle foi igualmente possessivo.
– Mas, quer saber – disse ela, arquejando ao sentir a mão dele envolver seu seio –, há mais em fazer a corte do que oferecer ores e chocolates.
– Sim. Também é preciso beijar.
John apertou o seio dela através do vestido, fazendo com que Belle soltasse um gritinho de prazer.
– É claro – concordou ela com um suspiro. – Não me esqueci disso.
– Farei o melhor possível para que você tenha sempre isso em mente.
John estava ocupado tentando descobrir a melhor forma de libertar os seios pequenos e perfeitos dela do con namento do vestido.
– Isso é ótimo. Mas quero alertá-lo de que não vou deixar que se esqueça que me deve um poema.
– Você é uma mocinha obstinada, não é mesmo?
John por m decidiu que o melhor curso de ação era puxar o vestido para baixo. Deu graças a Deus por a moda daquele tempo não exigir uma in nidade de botões.
– Não tanto – falou Belle, rindo baixinho. – Mas ainda quero o poema.
John a distraiu temporariamente levando adiante outros planos. Ele sorriu e gemeu com o mais puro prazer masculino ao ver o mamilo rosado dela rígido de desejo. E passou a língua pelos lábios.
– John... você vai...?
Ele assentiu e partiu para a ação.
Belle sentiu as pernas bambas e se deixou cair no sofá, puxando John junto. Ele se dedicou a um dos seios dela por um longo minuto, depois passou para o outro. Belle se viu impotente contra aquele ataque sensual e não conseguiu controlar os gritinhos baixos de desejo que lhe escapavam dos lábios.
– Diga alguma coisa – pediu ela em um gemido, por m.
– “Devo igualar-te a um dia de verão?” – citou ele. – “Mais afável...”
– Ah, por favor, John – disse Belle, afastando a cabeça dele para poder olhar dentro dos olhos castanhos risonhos. – Se vai plagiar, ao menos tenha o bom senso de escolher alguém menos famoso.
– Se não parar de falar neste instante, Belle, terei que tomar uma atitude drástica.
– Atitude drástica? Isso parece muito interessante.
Ela colou de novo a boca à de John em um beijo intenso.
Naquele momento, eles ouviram uma voz terrivelmente familiar vindo do corredor.
– Que tola sou eu, me esqueci de pegar um par de luvas mais quente – disse Persephone. – Está gelado lá fora.
Belle e John se afastaram às pressas na mesma hora. E, como Belle não estava sendo rápida o bastante em se arrumar, John assumiu o encargo para si, só que subiu o vestido dela quase até o queixo. Enquanto os dois tentavam consertar a aparência desalinhada, ouviram o murmúrio suave de outra voz, provavelmente do criado com quem Persephone falava.
– Que gentileza da sua parte! – disse ela. – Vou esperar na sala de visitas com Belle e o amigo dela enquanto pega as luvas para mim.
Belle havia acabado de se jogar em uma cadeira de frente para o sofá quando a acompanhante entrou.
– Persephone, que surpresa!
A mulher mais velha lançou um olhar astuto para a pupila. Apesar de parecer avoada, ela não era tola.
– Tenho certeza disso.
John se levantou educadamente quando Persephone entrou.
– Aceita um chocolate? – perguntou, oferecendo a caixa a ela.
– Na verdade, aceito.
Belle lembrou o que havia acontecido quando John lhe oferecera um chocolate e teve que se esforçar para conter o rubor que ameaçou se espalhar por seu rosto. Por sorte, Persephone não reparou, porque estava ocupada demais escolhendo um chocolate.
– Gosto desses com nozes – comentou ela, pegando um da caixa.
– Está tão frio assim lá fora? – perguntou Belle. – Eu a ouvi dizendo que precisava de luvas mais quentes.
– Ah, com certeza esfriou desde ontem. Embora eu deva dizer que está bem quente aqui dentro.
Belle conteve um sorriso. Quando olhou para John, reparou que ele havia começado a tossir.
– Suas luvas, madame.
– Excelente.
Persephone se levantou e foi até o criado que acabara de entrar na sala.
– Já vou, então.
– Divirta-se – desejou-lhe Belle.
– Ah, farei isso, minha cara. Com certeza.
Persephone saiu e já começava a fechar a porta quando se deteve.
– Na verdade – disse, enrubescendo de leve – acho que vou deixar a porta, hum, aberta, se não se importam. Para que o ar circule melhor, sabem?
– É claro – falou John.
Depois que Persephone se foi, ele se inclinou para a frente e sussurrou:
– Vou fechar a porta assim que ela sair de casa.
– Shhh – repreendeu-o Belle.
No instante em que ouviram a porta da frente ser fechada, John se levantou e fechou a porta da sala de visitas.
– Isso é um absurdo – resmungou. – Tenho quase 30 anos. Tenho coisas melhores a fazer do que car me esgueirando pelas costas de uma acompanhante.
– Tem?
– Devo lhe dizer que isso é muito indigno.
Ele voltou para o sofá e se sentou.
– A sua perna está incomodando? – perguntou Belle, preocupada. – Você parece estar mancando um pouco mais do que o normal.
John cou confuso por um instante com a mudança de assunto e baixou os olhos para a perna.
– Creio que sim. Não havia percebido. Acho que acabei me acostumando com a dor.
Belle foi até o sofá e se sentou.
– Ajudaria se eu a massageasse?
Ela pousou as mãos na perna dele e começou a massagear o músculo logo acima do joelho.
John fechou os olhos e se recostou.
– Isso é uma delícia.
Ele deixou que ela continuasse a massagem por alguns minutos antes de dizer:
– Belle... sobre a noite passada...
– Sim?
Ela continuou a massagem. John abriu os olhos e segurou a mão dela. Belle cou surpresa diante da expressão séria dele.
– Ninguém jamais... – começou ele, e fechou a boca enquanto buscava as palavras certas. – Ninguém jamais me defendeu daquela forma.
– E quanto à sua família?
– Não os via muito quando ainda morava com eles. Eram todos muito ocupados.
– É mesmo? – falou Belle, a desaprovação evidente na voz.
– Eles sempre deixaram bem claro para mim que eu teria que abrir o meu próprio caminho no mundo.
Belle se levantou, foi até um vaso e se pôs a rearrumar nervosamente as
ores.
– Eu jamais diria uma coisa dessas para um lho meu – falou ela, tensa. – Jamais. Acho que um lho deve ser amado, cuidado e...
Ela se virou.
– Não acha?
Ele assentiu solenemente, arrebatado pela paixão, pelo ardor nos olhos dela. Belle era tão... boa. Nenhuma palavra rebuscada poderia descrevê-la melhor.
Ele jamais estaria à altura dela. Sabia disso. Mas poderia amá-la, protegê-la e tentar dar a ela a vida que merecia. John pigarreou.
– Quando seus pais estarão de volta?
Belle inclinou a cabeça, surpresa com a súbita mudança de assunto.
– Eles já deveriam estar a caminho, mas Emma me encaminhou uma carta deles em que dizem que estão se divertindo tanto que vão estender um pouco a viagem. Por que pergunta?
Ele sorriu para ela.
– Poderia massagear a minha perna de novo? Há anos não tenho uma sensação tão boa nela.
– É claro.
Belle voltou a massagear a perna dele. Como John não retomou o assunto, ela o instou a continuar.
– Meus pais...
– Ah, sim. Só quero saber quando posso pedir sua mão em casamento ao seu pai e acabar logo com isso.
Ele deu um sorrisinho atrevido.
– Atacar você em cantos escuros é excitante, mas preferiria muito mais tê-la só para mim e poder fazer o que quero com você na privacidade da minha casa.
– Fazer o que quer comigo? – perguntou Belle, incrédula.
John abriu os olhos e seus lábios voltaram a se curvar em um sorriso malicioso.
– Você sabe o que quero dizer, meu bem.
Ele a puxou para mais perto e afundou o nariz no pescoço dela.
– Só quero passar algum tempo sozinho com você sem medo de que alguém nos surpreenda.
Ele voltou a beijá-la.
– Quero poder terminar o que comecei.
Belle não aceitaria aquilo. Desvencilhou-se dele.
– John Blackwood, isso foi um pedido de casamento?
Ainda recostado no sofá, ele entreabriu os olhos e sorriu.
– Acho que foi. O que me diz?
– “Acho que foi. O que me diz?” – arremedou Belle. – Digo que é o pedido de casamento menos romântico que já recebi.
– Então já recebeu muitos pedidos de casamento?
– Para falar a verdade, já.
Aquilo não era exatamente o que John esperava ouvir.
– Achei que você fosse a pessoa prática da sua família. E que não iria querer palavras melosas de amor e tudo o mais.
Ela deu um tapinha no ombro dele.
– É claro que quero! Toda mulher quer. Ainda mais do homem cujo pedido ela quer aceitar. Portanto, arrume algumas palavras melosas e eu...
– Arrá! Então você aceita!
John sorriu, vitorioso, e a puxou para cima dele.
– Eu disse que quero aceitar. Não disse que já aceitei.
– Um mero detalhe.
Ele começou a beijá-la de novo, mal conseguindo acreditar que logo Belle seria dele de verdade e de nitivamente.
– Um detalhe muito importante – falou Belle em um tom aborrecido. – Não posso acreditar que você acabou de me dizer isso. Quer se casar comigo e acabar logo com isso? Santo Deus, que coisa horrível!
John percebeu que cometera um erro, mas estava aliviado demais para se desculpar.
– Ora, se meu pedido de casamento não foi elegante, ao menos foi muito sincero.
– É melhor que tenha sido sincero.
Ela o encarou com uma expressão de decepção.
– Aceitarei seu pedido assim que o zer da forma devida.
John encolheu os ombros e a apertou junto ao corpo.
– Quero beijá-la um pouco mais.
– Não quer me fazer um determinado pedido primeiro?
– Não.
– Não?
– Não.
– Como não?
Belle tentou se desvencilhar, mas ele a manteve rme no lugar.
– Quero beijar você.
– Sei disso, seu tonto. O que estou perguntando é por que você não quer fazer um determinado pedido primeiro.
– Ah, mulheres! – ralhou John, suspirando de modo dramático. – Se não é uma coisa, é outra. Se...
Ela deu um soco no braço dele.
– Belle – disse John em um tom paciente. – Você precisa entender que me propôs um desa o. Não vai aceitar meu pedido até que eu o faça da maneira certa, não é?
Belle assentiu.
– Então ao menos me permita um curto período de tolerância. Essas coisas tomam tempo quando queremos ser criativos.
– Entendo – disse Belle, curvando os lábios em um sorriso.
– Se quer romance... romance de verdade, vai ter que esperar alguns dias.
– Acho que consigo fazer isso.
– Ótimo. Agora pode vir aqui e me beijar de novo?
Foi o que ela fez.
John voltou à casa dela no nal da semana. Assim que cou a sós com Belle, puxou-a para seus braços e disse:
– “Tinha te amado duas ou três vezes,/ Antes de conhecer o teu rosto e nome;/ Igual a uma voz, ou uma chama sem forma...”
– “Os anjos muitas vezes vêm ao nosso encontro e são adorados” – concluiu Belle. – Lamento, mas foi falta de sorte sua que minha governanta fosse louca por John Donne. Sei de cor a maior parte da obra dele.
A expressão de descontentamento de John levou Belle a acrescentar:
– Mas preciso parabenizá-lo por sua declamação apaixonada. Foi muito comovente.
– Está claro que não foi comovente o bastante. Saia do meu caminho, por favor, tenho trabalho a fazer.
Ele saiu às pressas do cômodo, a cabeça baixa.
– E que longe de Donne! – gritou Belle. – Nunca vai me enganar com poemas dele.
Ela não poderia jurar, mas pensou ter ouvido John resmungar uma palavra nada elegante antes de fechar a porta atrás de si.
Durante uma semana inteira, John não fez nenhuma menção ao iminente pedido de casamento, embora tivesse acompanhado Belle em algumas saídas e a visitado quase todas as manhãs. Ela também não puxou o assunto. Sabia que John negaria, mas ele estava se divertindo com os planos que elaborava, e ela não queria estragar seu prazer. De vez em quando ele lhe lançava um longo olhar de relance, e Belle tinha certeza de que ele estava aprontando algo.
Suas suspeitas se provaram corretas certa manhã quando ele chegou à mansão Blydon com três dúzias de rosas vermelhas perfeitas, que colocou prontamente aos pés dela, bem no meio do grande saguão da casa. Então John se apoiou em um dos joelhos e disse:
– “Bebe por mim com teus olhos,/ Retribuirei com os meus;/ Ou deixa um beijo na taça,/ – vinho melhor, nem nos céus./ A sede que nasce n’alma/ Requer divina ambrosia:/ Mas nem o néctar de Jove,/ Ao pé desse tem valia.”
Ele quase conseguiu. Os olhos de Belle caram marejados e, quando ele recitou a parte do beijo na taça, ela levou involuntariamente a mão ao coração.
– Ah, John – falou Belle com um suspiro.
Então o desastre se abateu sobre ele.
Persephone desceu a escada.
– John! – falou ela, encantada. – Esse é o meu poema favorito! Como adivinhou?
Ele abaixou a cabeça e cerrou os punhos junto ao corpo. Belle levou a mão do coração à cintura.
– Meu pai costumava recitar esse poema para a minha mãe o tempo todo – continuou Persephone, ruborizada. – Ela sempre desmaiava de felicidade.
– Posso imaginar – murmurou Belle.
Envergonhado, John levantou os olhos para ela.
– E era muito apropriado, vejam só – acrescentou Persephone –, já que o nome dela era Celia, que Deus guarde sua alma.
– Apropriado? – perguntou Belle, os olhos xos nos de John o tempo todo.
Ele, por sua vez, teve o bom senso de manter a boca fechada.
– O poema se chama “Canção para Celia”. É de Ben Jonson – explicou Persephone com um sorriso.
– É mesmo? – indagou Belle com ironia. – John, quem é Celia?
– Ora, a mãe de Persephone, é claro.
Belle teve que admirá-lo por manter o rosto impassível.
– Ora, co feliz por esse poema ser de Jonson. Odiaria pensar que anda escrevendo poemas para alguma Celia, John.
– Ah, não sei, acho Celia um belo nome.
Belle lhe dirigiu um sorriso falsamente doce.
– Acho que vai descobrir que é muito mais fácil encontrar uma rima para Belle.
– Tenho certeza disso, mas gosto de um desa o. Já Persephone... esse seria um poema digno do meu intelecto.
– Ah, pare com isso – falou Persephone, rindo.
– Persephone... Hum, vamos ver. Gostaria de achar algo elegante. Vamos ver...
Mesmo contra a vontade, Belle se viu envolvida pelo bom humor de John.
– Que tal “apaixone”? – sugeriu.
– As possibilidades são distintas. Preciso começar a trabalhar nisso imediatamente.
– Chega de provocações, meu caro rapaz – sentenciou Persephone e deu o braço a John de modo maternal. – Não tinha ideia de que você era admirador de Ben Jonson. É um dos meus autores favoritos. Também gosta das peças dele? Adoro Volpone, embora seja um pouco ferina.
– Venho me sentindo bastante ferino ultimamente.
Persephone levou a mão à boca para esconder uma risadinha.
– Ah, ótimo. Porque vi o anúncio de uma montagem dela e tinha esperança de encontrar alguém que me acompanhasse.
– Eu caria encantado, é claro.
– Embora talvez não devêssemos levar Belle. Não sei se é adequada para damas solteiras, e Belle me disse que não sou uma acompanhante rígida o bastante.
– Belle lhe disse isso?
– Não com essas palavras, é claro. Duvido que ela queira mudar algo tão bom. Mas tenho uma boa sensibilidade.
– Vocês não vão ao teatro sem mim – avisou Belle.
– Acho que teremos que levá-la – murmurou John com um suspiro exagerado. – Belle pode ser muito teimosa quando quer.
– Ah, que quieto – retrucou Belle. – E vá trabalhar. Você tem um poema para escrever.
– Acho que tenho mesmo – concordou John.
Ele se despediu de Persephone, que já sumia no m do corredor.
– “Persephone, não se apaixone” certamente será a minha obra-prima.
– Se não for trabalhar no poema logo, o nome dele vai acabar sendo “Belle arrancou sua pele”.
– Estou tremendo de medo.
– Deveria estar mesmo.
John se despediu dela, então deu um passo adiante e esticou o braço, assumindo uma postura dramática.
– Persephone, não se apaixone... Tenho medo que se decepcione – declamou, com um sorriso travesso. – O que acha?
– Acho você maravilhoso.
John se inclinou e deu um beijo no nariz dela.
– Já lhe disse que ri mais nas últimas semanas do que em toda a minha vida?
Sem palavras, Belle apenas balançou a cabeça.
– É verdade. Você provoca isso em mim. Não sei como fez isso, mas a verdade é que levou embora a minha raiva. Anos de mágoa, dor e cinismo me tornaram duro, mas agora consigo sentir o sol de novo.
Antes que Belle pudesse dizer que aquele poema lhe bastava, John a beijou de novo e partiu.
Algumas noites mais tarde, Belle estava aconchegada na cama, com várias antologias de poemas espalhadas ao seu redor.
– John não vai me fazer de boba outra vez – disse para si mesma. – Estarei pronta para ele.
Belle vinha imaginando a possibilidade de John conseguir enganá-la com um dos poetas mais novos. A governanta só lera com ela os clássicos, e Belle só conhecia “Ela caminha em beleza” porque lorde Byron era muito famoso.
Em uma rápida passada na livraria naquela tarde, ela se abastecera com Baladas líricas, de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, e Canções da inocência e da experiência, de um poeta desconhecido chamado William Blake. O proprietário da livraria lhe garantira que Blake algum dia alcançaria a fama e tentara lhe vender também O casamento do céu e do inferno, mas Belle recusara, já que não haveria como John encontrar algo romântico naquilo.
Com um sorriso no rosto, Belle abriu Canções da inocência e da experiência e começou a folheá-lo, lendo alguns poemas em voz alta.
– “Tigre, Tigre, fogo ativo,/ Nas orestas da noite vivo;/ Que olho imortal tramaria/ Tua temível simetria?”
Ela torceu os lábios e levantou os olhos.
– Esses poemas modernos são muito estranhos.
Balançou a cabeça e voltou a ler.
Tum!
Belle prendeu a respiração. O que era aquilo?
Tum!
Sem dúvida havia alguém do lado de fora da janela. Ela saiu apavorada da cama e engatinhou até a penteadeira, do outro lado do quarto. Depois de uma rápida olhada na direção do barulho, pegou o castiçal de estanho que Emma comprara em Boston e lhe dera de presente de aniversário fazia alguns anos.
Ela permaneceu perto do chão e se arrastou até a janela. Tendo o cuidado de car fora do campo de visão do intruso, subiu em uma cadeira posicionada contra a parede ao lado da janela. E esperou ali, tremendo de medo.
O invasor abriu uma fresta e a ergueu aos poucos. Uma mão calçada com uma luva preta surgiu no parapeito.
Belle prendeu a respiração.
Uma segunda mão apareceu ao lado da primeira, então um corpo rme se jogou para dentro do quarto silenciosamente e rolou ao atingir o chão.
Belle ergueu o castiçal e mirou na cabeça do invasor, quando ele subitamente se virou e levantou os olhos para ela.
– Santo Deus, mulher! Está tentando me matar?
– John?