Brilhante

Julia Quinn · Capítulo 22 de 26

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Brilhante

Capítulo 20

 

Belle não imaginava aonde iria quando saiu da sala de visitas, mas, assim que esbarrou em Mary, sua camareira, no corredor, percebeu o que precisava fazer.

– Vista sua capa, Mary – falou, incomumente ríspida. – Preciso sair.

Mary desviou os olhos para a janela.

– O céu está muito escuro, milady. Tem certeza de que não pode esperar até amanhã para resolver o que precisa na rua?

– Não tenho nada para resolver na rua. Só quero sair.

Mary percebeu o soluço engasgado na voz da patroa e assentiu.

– Volto em um instante.

Belle envolveu mais o corpo na própria capa. Nem tivera chance de tirá-la depois que ela e John entraram tempestuosamente em casa.

Mary voltou correndo pela escada em um instante. Belle nem esperou que ela chegasse ao último degrau para abrir a porta da frente. Precisava de ar fresco. Precisava sair.

Elas andaram pela Upper Brook Street em direção à Park Lane. Mary automaticamente fez menção de ir para o sul.

– Não quer pegar a Rotten Row? – perguntou quando Belle continuou seguindo para o oeste sem ela.

Belle balançou a cabeça.

– Quero car longe de aglomerações.

– Eu não me preocuparia com isso, milady.

Mary olhou ao redor. Toda a aristocracia de Londres se apressava a deixar o Hyde Park. O céu parecia estar prestes a se abrir a qualquer momento.

– Acho mesmo que a senhora deveria considerar a possibilidade de voltar para casa. Tenho certeza de que logo vai chover. E está cando escuro. Sua mãe vai pedir a minha cabeça. Ou seu marido.

Belle se virou na mesma hora para a camareira.

– Não o mencione.

Mary recuou um passo.

– Está certo, milady.

Belle deixou escapar um suspiro contrito.

– Desculpe, Mary. Não tive a intenção de ser tão rude com você.

A camareira pousou a mão no braço dela em um gesto de consolo. As duas já estavam juntas havia muitos anos, e Mary conhecia bem a patroa.

– Está tudo bem, milady. Ele a ama demais.

– É esse o problema – murmurou Belle.

Ela respirou fundo e adentrou mais o parque. Não tinha ideia da distância que haviam percorrido. Provavelmente não muito grande, mas o vento e o frio a cansaram. Por m, Belle voltou a falar:

– Vamos para casa, Mary.

A jovem deixou escapar um suspiro alto de alívio. Elas caminharam por algum tempo até que de repente Belle estendeu o braço na frente da camareira.

– Espere – sussurrou.

– O que houve?

Belle estreitou os olhos para o homem loiro a cerca de trinta metros delas. Seria Spencer? Como a visão dela era ruim, era impossível ter certeza. Maldição, por que tinha sido tão tola? Se estivesse pensando direito, jamais teria ido até o parque apenas com uma camareira como acompanhante. Uma gota pesada de chuva aterrissou em seu nariz, arrancando-a da imobilidade.

– Para trás – sussurrou para Mary. – Bem devagar. Não quero chamar atenção.

Elas recuaram pé ante pé na direção das árvores. Belle achava que o homem loiro não as vira, mas seus nervos ainda estavam em alerta. Provavelmente não era Spencer, tentou se convencer. Contudo, se fosse, com certeza seria muita coincidência que ele também estivesse caminhando no Hyde Park em um dia frio e de muito vento, apenas para tomar um pouco de ar fresco. A única razão para Spencer estar ali seria segui-la, e o homem loiro não parecia estar seguindo-a.

Ainda assim, precisava ser cuidadosa. Belle entrou mais fundo no bosque.

O ar vibrou com um trovão e a chuva começou a cair com fúria. Em segundos, tanto Belle quanto Mary estavam encharcadas.

– Precisamos voltar – gritou Mary acima do barulho da tempestade.

– Não até o homem loiro...

– Ele se foi!

Mary a puxou pelo braço e começou a arrastá-la na direção da clareira.

Belle se desvencilhou da camareira.

– Não! Eu não posso! Não se ele...

Ela olhou para a frente. Nenhum sinal do homem. Não que conseguisse ver muita coisa. Já estava cando escuro e a chuva completara o serviço.

Um estampido súbito soou nos ouvidos de Belle. Ela arquejou e deu um pulo para trás. Um trovão? Ou um tiro?

Ela começou a correr.

– Milady, nããão! – gritou Mary, disparando atrás de Belle.

Dominada pelo pânico, Belle atravessou correndo o bosque, o vestido se prendendo nos galhos, os cabelos cobrindo os olhos. Ela tropeçou, caiu e se levantou. Estava ofegante, desorientada. Obviamente não viu o galho baixo à sua frente.

O galho a atingiu na testa.

Ela caiu.

– Ah, meu bom Deus! – gritou Mary.

Ela se ajoelhou e sacudiu Belle.

– Acorde, milady, acorde!

A cabeça de Belle rolou de um lado para o outro.

– Ah, não. Ah, não – repetia Mary sem parar.

Ela tentou arrastar a patroa pelo caminho, mas a roupa de Belle estava ensopada pela chuva, tornando-a pesada demais para a camareira.

Com um grito de frustração, Mary apoiou Belle no tronco de uma árvore. Precisava decidir se cava ali com ela ou voltava para casa em busca de ajuda. Não gostava da ideia de deixar a patroa sozinha, mas a alternativa... Mary olhou ao redor. Estavam cercadas por árvores. Ninguém jamais as veria ali.

Decisão tomada, Mary endireitou o corpo, ergueu as saias e começou a correr.

 

John estava sentado na biblioteca com um copo de uísque na mão. Havia alcançado aquele estado de angústia em que nem mesmo o álcool garante o esquecimento, por isso a bebida permanecia intocada.

Ele estava absolutamente imóvel, vendo o sol desaparecer no horizonte, ouvindo as gotas de chuva caírem no vidro, a princípio leves, mas logo se transformando em grossos pingos.

Deveria ir até Belle. Deveria se desculpar. Deveria permitir que ela dissesse que o amava. Ele sabia que não merecia aquele amor, mas se a aborrecia ouvir a verdade... Nada doía mais em seu coração do que uma lágrima nos olhos de Belle.

Ele suspirou. Havia tantas coisas que deveria fazer. Mas era um cretino, um covarde, e estava apavorado com a possibilidade de afastar ainda mais a esposa se tentasse tomá-la nos braços.

John nalmente pousou o copo e se levantou com um suspiro resignado. Iria até ela. E, se a esposa o mandasse embora... Ele balançou a cabeça. Era doloroso demais considerar aquela possibilidade.

John foi até o quarto deles, mas não havia sinal de que Belle estivera ali depois da briga. Confuso, ele começou a descer a escada e passou pelo mordomo.

– Com licença – disse John. – Por acaso viu lady Blackwood?

– Não, lamento, milorde – respondeu ornton. – Achei que ela

estivesse com o senhor.

– Não – murmurou John. – Lady Worth está em casa?

Com certeza Caroline saberia do paradeiro da lha.

– Lady e lorde Worth foram jantar com Suas Graças, o duque e a duquesa de Ashbourne, esta noite. Eles saíram há mais de uma hora.

John ponderou as informações por um instante.

– Muito bem. Obrigado. Estou certo de que encontrarei minha esposa.

Ele desceu os últimos degraus e estava prestes a procurar no salão favorito de lady Worth quando a porta da frente foi aberta de supetão.

Mary estava ofegante, os cabelos castanhos colados ao rosto, o corpo pesado de exaustão. Ela arregalou os olhos ao vê-lo.

– Ah, milorde!

As garras geladas do medo apertaram o coração de John.

– Mary? Onde está Belle?

– Ela caiu – falou a jovem, arquejante. – Caiu. Bateu com a cabeça. Tentei arrastá-la. Tentei. Juro que tentei.

John já vestia o casaco.

– Onde ela está?

– No Hyde Park. Ela... eu...

Ele agarrou a camareira pelos ombros e a sacudiu.

– Onde, Mary?

– No bosque. Ela...

Mary apertou o estômago e tossiu violentamente.

– O senhor não vai conseguir encontrá-la. Eu vou junto.

John assentiu, pegou a mão da moça e a puxou para a noite.

Minutos depois, ele estava montado em seu garanhão. Mary e um cavalariço o seguiam montados em Amber, a égua de Belle. John atravessou as ruas a galope, com o vento fustigando suas roupas. A chuva caía com força agora, muito fria, e a ideia de Belle sozinha em uma tempestade tão violenta o deixava entorpecido de medo.

Eles logo chegaram aos arredores do Hyde Park. John fez sinal para que o cavalariço se aproximasse com Amber.

– Por onde? – perguntou.

Ele mal conseguiu ouvir as palavras de Mary acima do vento uivante. Ela apontou para o oeste, na direção do bosque. John colocou or a galope.

A lua fora obscurecida pelas nuvens pesadas de chuva, por isso ele teve que contar com o lampião que levara e que tremulava com o vento. John desacelerou o cavalo enquanto procurava pelo bosque, dolorosamente consciente de como seria difícil encontrar a esposa na oresta escura.

– Belle! – gritou, torcendo para que sua voz conseguisse ser ouvida acima da tempestade.

Não houve resposta.

 

Belle permaneceu inconsciente por quase uma hora. Quando acordou, estava escuro e ela tremia incontrolavelmente, a roupa antes tão elegante agora estava encharcada. Ela tentou se sentar, mas foi dominada pela vertigem.

– Santo Deus! – gemeu.

Segurou com força a cabeça para afastar a dor na têmpora que quase a cegava. Então olhou ao redor. Mary não estava à vista e Belle se sentia completamente desorientada. Para que lado cava Mayfair?

– Inferno, maldição... – praguejou.

Dessa vez, não sentiu culpa pela linguagem vulgar.

Ela se agarrou ao tronco de uma árvore próxima para se apoiar, esforçando-se para car de pé, mas a vertigem a atingiu de novo e ela caiu no chão. Lágrimas de frustração marejaram seus olhos e escorreram pelo rosto, misturando-se à chuva inclemente. Ciente de que não tinha opção, Belle começou a rastejar. Então, pedindo perdão em silêncio por todas as vezes que arrumara uma desculpa para não ir à igreja, rezou.

– Por favor, Deus, por favor, Deus, permita que eu volte para casa. Permita que eu volte para casa antes que congele. Antes que desmaie de novo, porque minha cabeça está doendo demais. Ah, por favor. Prometo que vou começar a prestar atenção nos sermões. Não vou me distrair olhando para os vitrais. Não vou praguejar, vou ouvir os meus pais e vou até tentar perdoar John, embora ache que o Senhor saiba como isso vai ser difícil.

A ladainha fervorosa de Belle continuou enquanto ela se arrastava por entre as árvores, guiada pelo instinto agora, já que o sol havia se posto. A chuva caía muito gelada e as roupas se colavam ao corpo dela, envolvendo-a em um impiedoso abraço de gelo. Belle tremia cada vez mais e seus dentes começaram a tilintar. Suas preces se intensi caram, e ela parou de pedir a Deus que a guiasse para casa e começou a rezar apenas para permanecer viva.

Suas mãos estavam enrugadas da lama da trilha. Então ela ouviu o som de alguma coisa se rasgando e viu que o vestido cara preso em um arbusto espinhoso que surgira no caminho. Belle se esforçou para se desvencilhar, mas já estava quase sem forças. Seu rosto se franziu por causa da dor latejante na cabeça e ela reuniu o pouco de energia que lhe sobrava para arrancar o vestido dos espinhos.

Belle mal voltara a rastejar lentamente quando um relâmpago iluminou o céu. O terror a dominou e ela se perguntou, desesperada, onde o raio caíra. Um trovão se seguiu rapidamente, sobressaltando-a e fazendo-a tombar para trás, em pânico.

Belle cou sentada no meio da trilha enlameada por alguns segundos, tentando recuperar o controle do corpo que tremia sem parar. Em um movimento hesitante, ela afastou do rosto alguns cachos de cabelo e os prendeu atrás da orelha. Mas a chuva e o vento impiedosos logo os jogaram de volta no rosto. Sentia-se tão absurdamente cansada... com tanto frio, tão fraca...

Outro relâmpago riscou o céu, mas dessa vez iluminou a silhueta de um cavalo e um cavaleiro que se aproximavam.

Seria possível?

Belle prendeu o ar e se esqueceu da raiva que sentira pelo homem que vinha em sua direção.

– John! – gritou, rezando para que ele conseguisse ouvi-la acima das rajadas de vento, porque, se não conseguisse, ela logo seria pisoteada pelos cascos de or.

O coração de John quase parou de bater quando ele ouviu um grito. Em seguida, seus batimentos dispararam. Ele mal conseguia ver a silhueta de Belle no caminho, cerca de dez metros à frente, mas os cabelos dela eram tão claros que capturavam até o menor raio de luar, iluminando-a como um halo. John atravessou depressa a distância que os separava e desmontou do cavalo.

– John? – disse Belle, a voz falhando.

Mal conseguia acreditar que o marido estivesse ali, na frente dela.

– Shh, meu amor, estou aqui agora.

Ele se ajoelhou na lama e segurou o rosto dela entre as mãos.

– Onde dói?

– Estou com tanto frio...

– Eu sei, meu bem. Vou levá-la para casa.

O alívio de John por encontrá-la logo se transformou em medo quando ele a ergueu nos braços e percebeu que ela tremia violentamente. Santo Deus, Belle passara pelo menos uma hora exposta àquela chuva fria, e suas roupas estavam ensopadas.

– Eu estava... estava tentando me ar-arrastar para casa – conseguiu dizer Belle. – Estou com tanto frio...

– Eu sei, eu sei – falou ele, tentando acalmá-la.

Diabo, por que ela se arrastara pela lama? Mas John não tinha tempo para pensar naquilo. Os lábios de Belle ganhavam um perigoso tom azulado, e ele sabia que precisava aquecê-la imediatamente.

– Consegue se sentar na sela, meu bem? – perguntou, pondo-a em cima do cavalo.

– Não sei. Estou com tanto frio...

Belle começou a deslizar pela sela enquanto John montava e ele teve que colocá-la de volta.

– Segure no pescoço de or até eu estar atrás de você. Prometo que a

manterei rme durante todo o caminho até em casa.

Belle assentiu, ainda batendo os dentes, e se agarrou ao pescoço do garanhão com todas as suas forças. John montou e passou o braço forte ao redor da cintura da esposa. Belle se aconchegou a ele e fechou os olhos.

– N-não consigo p-parar de tremer – disse ela, a voz débil, sentindo-se como uma criança que precisava se explicar. – Estou com tanto frio.

– Eu sei que está, meu bem.

Mary e o cavalariço surgiram à vista.

– Sigam-me de volta – gritou John.

Ele não tinha tempo para repassar a eles os detalhes sobre a condição de Belle. John instigou or a pleno galope e eles passaram em alta velocidade

entre as árvores.

Aninhada com rmeza contra o torso de John, Belle permitiu que a determinação que a levara até ali se esvaísse pouco a pouco. Ela sentiu a mente se distanciando do corpo e, na verdade, estava tão cansada, com tanto frio, tão dolorida, que essa sensação foi uma bênção. Ela foi cando entorpecida, estranhamente satisfeita por suas dores e seus incômodos parecerem ceder.

– Não estou mais com tanto frio – murmurou em uma voz assustadora.

– Jesus Cristo! – disse John, torcendo para ter escutado mal.

Ele sacudiu a esposa com força.

– Faça o que zer, não adormeça. Está me ouvindo, Belle? Não adormeça!

Como Belle não respondeu de imediato, John voltou a sacudi-la.

Belle nem sequer abriu os olhos.

– Mas estou tão cansada...

– Não importa – disse John com severidade. – Você vai permanecer acordada. Está me entendendo?

Belle demorou alguns segundos para processar a ordem.

– Se você está dizendo – falou por m.

Pelo resto do caminho, John se dividiu entre atiçar or para que o

cavalo continuasse em alta velocidade e sacudir Belle para evitar que ela adormecesse. Precisava chegar logo em casa e aquecê-la. Estava apavorado com a possibilidade de ela adormecer e não ter energia para acordar.

Depois do que pareceram horas, eles saíram das árvores e ganharam velocidade através dos gramados do Hyde Park e então pelas ruas de Londres. Os cavalos pararam diante dos degraus da frente da casa Blydon, e John desmontou depressa, carregando Belle. O cavalariço que montara Amber com Mary pegou as rédeas e levou or de volta para os estábulos.

Depois de gritar um agradecimento rápido, John entrou apressado no saguão com a esposa nos braços.

– ornton! – gritou.

Em segundos, o mordomo se materializou diante dele.

– Prepare imediatamente um banho morno. No meu quarto.

– Sim, milorde. Imediatamente, milorde.

ornton se virou para a Sra. Crane, a governanta, que o seguira até o

saguão. Antes que pudesse dizer uma palavra, ela assentiu e subiu correndo a escada.

John a seguiu o mais rápido que pôde, a perna boa eliminando dois degraus por vez. Ele disparou pelo corredor, com Belle delicadamente aconchegada ao seu peito.

– Estamos quase lá, meu bem – murmurou. – Prometo que vamos aquecê-la.

A cabeça de Belle se moveu ligeiramente. John torceu para que ela o tivesse escutado e estivesse assentindo, mas tinha a terrível sensação de que o movimento fora apenas por causa da rapidez com que ele subira a escada. Quando eles chegaram ao quarto, duas criadas já estavam atarefadas enchendo uma banheira.

– Estamos aquecendo a água o mais rápido possível, milorde – disse uma delas, inclinando-se em uma cortesia.

John assentiu e deitou Belle sobre uma toalha que tinha sido aberta em cima da cama. Os cabelos dela se espalharam pela toalha, revelando o hematoma feio na testa. John prendeu a respiração e sentiu uma raiva profunda dominá-lo. Não sabia de que sentia raiva... provavelmente de si mesmo.

– John? – chamou Belle, a voz muito fraca, querendo abrir os olhos.

– Estou aqui, meu amor. Estou aqui.

– Estou me sentindo estranha, muito estranha. Estou com frio, mas não estou. Acho que estou... acho que estou...

Belle estava prestes a dizer “morrendo”, mas seu último pensamento racional antes de perder a consciência foi que não queria preocupá-lo.

John praguejou baixinho ao perceber que ela desmaiara. Mesmo com os dedos entorpecidos de frio, ele começou a abrir rapidamente os botões congelados do traje dela.

– Não me deixe, Belle! – gritou. – Está me ouvindo? Você não pode me deixar agora!

A Sra. Crane entrou apressada no quarto, carregando mais dois baldes de água bem quente.

– Milorde – chamou ela. – Tem certeza de que quer fazer isso? Quer dizer, talvez uma mulher...

Ele se virou para a governanta e disse em um tom seco:

– Ela é minha esposa. Eu cuidarei dela.

A Sra. Crane assentiu e saiu do quarto.

John voltou novamente a atenção para os botões do traje de Belle. Quando terminou, abriu as laterais do casaquinho e tirou os braços dela das mangas. Depois de murmurar um pedido de desculpas baixinho, ele rasgou a frente da camisa de baixo. Do modo como estava colada ao corpo dela, demoraria demais para despi-la sem rasgar. Além do mais, daquela forma ela poderia permanecer deitada. John passou a mão silenciosamente pelo torso de Belle. A pele dela estava pálida, fria e úmida. O medo de John se tornou mais profundo. Ele redobrou seus esforços e acabou de despi-la das roupas encharcadas.

Quando Belle estava nua em seus braços, ele a carregou até a banheira, que àquela altura estava quase cheia. John se ajoelhou, colocou o dedo na água e franziu o cenho. Estava um pouco quente demais, mas ele não sabia se tinha tempo para esperar que esfriasse. Rezando pelo melhor, colocou Belle dentro da banheira.

– Pronto, amor. Prometi que iria aquecê-la.

Ela não reagiu ao calor.

– Acorde, Belle – gritou ele, sacudindo-a pelos ombros delgados. – Você não pode dormir até estar aquecida.

Belle murmurou algo ininteligível e o afastou com a mão.

John encarou a irritabilidade dela como um bom sinal, mas ainda assim achou que precisava despertá-la. Ele a sacudiu de novo e, como aquilo não funcionou, fez a única coisa em que conseguiu pensar: afundou a cabeça dela na água.

Belle voltou à tona cuspindo água e, por um instante, John viu uma expressão de absoluta clareza nos olhos dela.

– Que diabo?! – gritou.

– Só estou aquecendo você, meu bem – explicou John com um sorriso.

– Ora, não está se saindo muito bem. Estou congelando.

– Estou indo o mais rápido que posso.

– A água me machuca.

– Lamento, mas não há nada que eu possa fazer a respeito disso. Vai incomodar um pouco até você car aquecida.

– Está quente demais.

– Não, meu bem, você é que está fria demais.

Belle resmungou com a voz cansada, como uma criança. Então ela olhou para baixo, viu as mãos grandes de John esfregando gentilmente sua pele nua e desmaiou.

– Cristo Todo-Poderoso! – exclamou John.

Belle voltara a ser um peso morto. Caso ele a soltasse por um momento sequer, ela com certeza afundaria.

– ornton! – gritou.

O mordomo, que já esperava do lado de fora da porta fechada do quarto, apareceu na mesma hora. Ele olhou de relance para a jovem aristocrata nua na banheira, engoliu nervosamente e desviou os olhos.

– Sim, senhor?

– Peça a alguém que acenda a lareira aqui. Este quarto está frio como um maldito necrotério.

– Sim, senhor, eu mesmo cuidarei disso.

Na mesma hora ornton correu para a lareira e começou a acender o

fogo, tendo o cuidado de se manter sempre de costas para a banheira.

Depois de alguns minutos, John cou satisfeito ao notar que a pele de Belle não estava mais gelada, mas não duvidou nem por um momento que ela ainda se sentisse congelada por dentro. Ele a tirou da água, a secou carinhosamente e a deitou na cama. Então a cobriu, prendendo bem as cobertas ao seu redor, como se ela fosse uma criança. Depois de um momento, no entanto, Belle começou a tremer de novo. John pousou a mão em sua testa. Estava quente, mas, se ele não estava enganado, em uma hora estaria quente demais.

Ele suspirou e afundou em uma cadeira. Aquela seria uma noite terrivelmente longa.

 

Estava com tanto frio. Por que não conseguia se aquecer? Belle se debateu e se virou na cama grande, instintivamente roçando o corpo contra os lençóis para gerar calor.

Que sensação terrível! A dor voltara. Todos os músculos e juntas de seu corpo pareciam latejar. E o que era aquele som estranho? Seria possível que fossem seus dentes batendo? E por que sentia tanto frio?

Belle cerrou os dentes à força e se forçou a abrir os olhos. Um fogo forte ardia na lareira. Fogo. O fogo deveria ser quente. Ela afastou as cobertas e rastejou até o pé da cama. Ainda estava longe demais. Com uma lentidão agoniante, jogou as cobertas para o lado da cama. E olhou para o próprio corpo, confusa. Por que não estava vestida? Não importava, decidiu Belle, deixando a questão de lado. Só precisava se concentrar naquele fogo. Ela deixou os pés tocarem o chão, sentiu imediatamente as pernas bambas e caiu sobre o carpete com um baque doloroso.

John, que havia cochilado na cadeira que puxara para perto da cama, acordou na mesma hora. Ele viu a cama vazia e cou de pé em um pulo.

– Belle?

John olhou ao redor, ansioso. Onde ela poderia ter ido na condição em que estava? E nua.

Ele ouviu um gemido de dor do outro lado cama e correu até lá. Belle caíra no chão. John se abaixou e a pegou no colo.

– O que você está fazendo no chão, pelo amor de Deus, meu bem?

– Fogo – disse ela, com di culdade.

John a encarou sem entender.

– Fogo! – repetiu Belle com um pouco mais de urgência, empurrando-o em um movimento débil.

– O que tem o fogo?

– Estou com frio.

– Estava tentando se aquecer?

Belle suspirou e assentiu.

– Acho melhor você car na cama. Vou pegar mais mantas.

– Não! – gritou Belle.

John foi pego de surpresa pela intensidade do grito.

– Quero o fogo.

– Vamos fazer o seguinte, então: vou colocá-la na cama e trarei uma vela para perto de você.

– Estúpido.

Que Deus o ajudasse, mas ele quase riu.

– Venha, meu bem. Vamos voltar para a cama.

John a deitou e puxou as cobertas, engolindo em seco nervosamente enquanto a aconchegava de novo na cama. Belle parecera tão engraçada e adorável que, por um momento, ele tinha esquecido como o estado dela era grave.

Porém não conseguiu se enganar por mais tempo. Só um milagre impediria a febre de dominar o corpo exausto dela, e John não tinha muita fé em milagres. Ela com certeza pioraria antes de melhorar.

Belle ainda estava inquieta.

– Água – pediu, meio rouca.

John levou o copo aos lábios dela e usou uma toalha para secar a água que escorreu por seu queixo.

– Está melhor assim?

Belle umedeceu os lábios ressecados.

– Não me deixe.

– Não vou deixá-la.

– Estou com medo, John.

– Sei que está, mas não há nada com que se preocupar – mentiu John. – Você vai ver.

– Não está mais tão frio.

– Isso é bom – disse ele, tentando encorajá-la.

– Minha pele ainda está um pouco fria, mas por dentro...

Belle tossiu e seu corpo se sacudiu com espasmos. Quando ela

nalmente se acalmou, completou o pensamento.

– Por dentro estou quente.

John tentou conter o desespero. Precisava ser forte por Belle. Precisava lutar aquela batalha ao lado da esposa. Não tinha certeza de que ela conseguiria sair daquela situação sozinha.

– Shh, meu bem – falou ele, tranquilizador, passando a palma da mão de modo suave na testa dela. – Agora durma. Precisa descansar um pouco.

Belle começou a cochilar.

– Esqueci de lhe dizer – murmurou. – Esqueci de lhe dizer esta tarde.

Naquela tarde? Deus, pensou John, aquilo tudo parecia ter acontecido havia uma eternidade.

– Esqueci de lhe dizer – insistiu Belle.

– O quê? – perguntou John baixinho.

– Sempre amarei você. Tanto faz se você também me ama ou não.

E, ao menos dessa vez, John não sentiu aquela estranha sensação sufocante.