Brilhante

Julia Quinn · Capítulo 23 de 26

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Brilhante

Capítulo 21

 

 

De onde estava, ao lado da cama, John baixou os olhos para Belle, o rosto marcado pela preocupação. Já haviam se passado várias horas desde que ela acordara e tentara se arrastar até o fogo. E Belle ainda tremia, a febre cada vez mais alta.

Ela estava mal.

Ele ouviu uma batida rápida à porta, que logo foi aberta. Caroline entrou, a preocupação evidente no rosto.

– O que aconteceu? – perguntou ela em um sussurro urgente. – Acabamos de chegar e ornton nos contou que Belle está doente.

John soltou a mão de Belle com relutância e acompanhou Caroline até o corredor.

– Belle saiu para uma caminhada e foi pega pela chuva. Ela bateu com a cabeça.

Ele resumiu os detalhes, deixando de fora a discussão que a zera sair correndo de casa. John conhecera os sogros na véspera. Se Belle quisesse contar aos pais sobre seus problemas no casamento, tudo bem. Ele ainda era quase um estranho, não faria isso.

Caroline levou a mão ao pescoço, nervosa.

– Você parece bastante cansado. Por que não dorme? Eu carei ao lado dela.

– Não.

– Mas John...

– A senhora pode car comigo no quarto, mas não sairei do lado de Belle.

Ele deu as costas e voltou para a cabeceira da cama da esposa. A respiração dela estava regular, o que era um bom sinal. John pousou a mão em sua testa. Maldição. Estava ainda mais quente do que antes. Ele duvidava que ela estaria respirando tão suavemente dali a uma hora.

Caroline o seguiu para dentro do quarto e parou ao lado dele.

– Ela está assim a noite toda? – perguntou em um sussurro.

John assentiu, depois pegou um pedaço de pano que colocara dentro da água fria e o torceu.

– Vamos, meu bem – sussurrou enquanto pousava o pano na testa quente de Belle.

Ela murmurou algo no sono e se agitou. Então se debateu mais um pouco e abriu os olhos com uma expressão de puro pânico.

– Shh, estou aqui – disse John, baixinho, e acariciou o rosto dela.

Belle pareceu se acalmar um pouco e deixou as pálpebras se fecharem devagar. John teve a impressão de que ela não o vira.

Caroline torceu as mãos, nervosa.

– Acho que devemos chamar um médico.

– A esta hora da noite?

Ela assentiu.

– Vou cuidar disso.

Enquanto permanecia sentado à cabeceira de Belle, observando-a com atenção e preocupação, John não conseguia evitar que sua cabeça voltasse ao comentário devastador que a esposa zera algumas horas antes.

Tanto faz se você também me ama ou não.

Seria possível que ela o amasse incondicionalmente? Mesmo com o passado dele?

Sempre amarei você.

Então ocorreu a John que ninguém jamais lhe dissera aquelas palavras.

Ele tirou o pano da testa dela e o esfriou de novo na bacia com água. Não tinha tempo para car sentado ali sentindo pena de si mesmo por causa de uma infância infeliz. Não tinha passado fome nem sofrido abusos. Só não fora amado, e descon ava que milhares de crianças por toda a Inglaterra compartilhavam sorte semelhante.

Na cama, Belle voltou a se inquietar. John focou toda a sua atenção nela na mesma hora.

– Pare – disse ela em um gemido.

– Pare o quê, meu bem?

– Pare!

Ele se inclinou sobre ela e a sacudiu com gentileza pelos ombros.

– Está tendo um pesadelo.

Santo Deus, era desesperador vê-la naquele estado. O rosto de Belle estava ruborizado e febril; o corpo, coberto por uma camada de transpiração. Ele tentou tirar os cabelos do rosto dela, mas Belle afastou a mão dele. John desejou saber como usar um daqueles malditos acessórios de cabelo que ela sempre tinha por perto. Ficaria mais confortável sem as mechas pesadas coladas ao rosto.

– Fogo – gemeu Belle.

– Não há fogo aqui a não ser o da lareira.

– Quente demais.

John se apressou em pegar o pano úmido.

– Não, não, pare... – gritou Belle, sentando-se de repente.

– Não, meu bem, deite-se de novo.

John começou a secar o suor do corpo dela, torcendo para que o gesto a acalmasse. Os olhos de Belle estavam abertos e ela o encarava, mas John não viu o mínimo lampejo de reconhecimento em seu olhar.

– Pare, pare! – gritou ela, afastando as mãos dele. – Não me toque! Está quente demais.

– Estou só tentando...

– Que diabo está acontecendo? – indagou Caroline, entrando, agitada, no quarto.

– Ela está delirando – explicou John, tentando cobrir Belle com o lençol.

– Mas ela estava gritando.

– Eu disse que ela está delirando – repetiu John com rispidez, tentando manter o lençol sobre o corpo agitado da esposa. – Veja se temos láudano. Precisamos acalmá-la.

Ele suspirou ao se lembrar de que estava falando com a sogra.

– Perdoe-me, lady Worth, é que...

Ela ergueu a mão.

– Eu compreendo. Vou procurar o láudano.

Belle começou a se debater com mais vigor, com a força ampliada pela febre. Mas ela não era páreo para John, cujo corpo de músculos rmes fora torneado por anos no exército.

– Acorde, pelo amor de Deus – disse ele com determinação. – Se acordar, o fogo vai embora. Eu lhe prometo.

A única resposta de Belle foi se debater ainda mais.

John não se afastou nem um milímetro.

– Belle – implorou ele, com a garganta muito apertada. – Por favor.

– Saia de perto de mim! – gritou Belle.

Caroline escolheu aquele momento inoportuno para entrar no quarto com um frasco de láudano.

– O que você está fazendo com ela?

John respondeu à pergunta dela com outra.

– Onde está o láudano?

Caroline derramou um pouco em um copo e entregou a ele.

– Vamos, Belle – disse ele baixinho, tentando colocá-la sentada e mantê-la parada ao mesmo tempo.

Levou o copo aos lábios da esposa.

– Só um pouquinho – pediu.

Os olhos de Belle se xaram em algo atrás dele e ela gritou de novo. Então levou as mãos à cabeça de repente, fazendo voar o copo das mãos dele e cair no chão, derramando o remédio.

– Eu darei o remédio dessa vez – determinou Caroline. – Segure-a.

Ela levou o copo aos lábios da lha e a forçou a tomar um gole.

Depois de alguns minutos, Belle se acalmou e tanto a mãe quanto o marido deixaram escapar um suspiro de cansaço.

– Shh – sussurrou John. – Pode dormir agora. O pesadelo foi embora. Descanse, meu amor.

Caroline afastou os cachos pesados do rosto da lha.

– Deve haver algum modo de deixá-la mais confortável.

John foi até a cômoda e pegou algo.

– É um dos acessórios de cabelo dela – explicou John. – Será que consegue prender as mechas longe do rosto?

Caroline sorriu.

– Isto é uma presilha, John.

Ela juntou os cabelos de Belle e os prendeu em um coque frouxo.

– Tem certeza de que não quer dormir por algumas horas?

– Não consigo – disse ele.

Caroline compreendia. Assentiu.

– Eu vou dormir, então. Você vai estar exausto pela manhã. Vai precisar de ajuda.

Ela foi em direção à porta.

– Obrigado – disse John antes que ela saísse.

– Ela é minha lha.

John engoliu em seco, lembrando-se de quando cava doente na infância. A mãe nunca aparecia para ver como ele estava. Abriu a boca para dizer algo, mas acabou por apenas fechá-la e assentir.

– Sou eu que devo lhe agradecer – continuou Caroline.

John levantou a cabeça depressa, a confusão clara em seu rosto.

– Por quê?

– Por amá-la. Eu não poderia pedir mais. Não poderia desejar mais.

Ela deixou o quarto.

Belle logo caiu em um sono profundo. John a passou para o outro lado da cama, onde os lençóis não estavam tão úmidos de suor. Ele se inclinou e beijou a têmpora da esposa.

– Você consegue vencer isso – sussurrou para ela. – Você consegue fazer qualquer coisa.

Ele voltou para a cadeira e se deixou afundar nela. Provavelmente cochilou, porque, quando abriu os olhos, já amanhecera, embora fosse difícil garantir isso, uma vez que chovia forte. O tempo estava muito fechado e a tempestade não dava o menor sinal de que iria diminuir. Os olhos de John observaram o cenário tentando encontrar alguma coisa do lado de fora que pudesse deixá-lo minimamente otimista. Então ele fez algo que não fazia havia muitos anos.

Começou a rezar.

 

Tanto a condição de saúde de Belle quanto o clima permaneceram inalterados por vários dias. John continuou vigilante ao lado da cama da doente, forçando-a a tomar água e caldo de carne sempre que possível e ministrando láudano quando ela cava histérica. No m do terceiro dia, ele soube que a situação da esposa se complicaria se a febre não baixasse logo. Ela não vinha ingerindo nada sólido e estava magra, magra demais. Na última vez que John a banhara com o pano úmido, percebera que suas costelas estavam proeminentes.

O médico a visitava todos os dias, mas não se mostrara de grande ajuda. Não havia nada que pudessem fazer a não ser esperar e rezar, dissera à família.

John engoliu a preocupação que sentia e estendeu a mão para tocar a testa de Belle. Ela parecia alheia à presença dele. Na verdade, parecia ignorar qualquer coisa que não fossem os pesadelos que atormentavam sua mente dominada pela febre. John se mantivera calmo e determinado quando começara a cuidar da esposa, mas agora até a raiva que sentia da situação começava a se dissolver. Ele mal dormira nos últimos três dias e não comera muito mais do que Belle. Seus olhos estavam injetados; o rosto, fundo. Bastava uma olhada no espelho para perceber que sua aparência estava quase tão ruim quanto a da paciente.

Estava cando desesperado. Se Belle não se curasse logo, John não sabia o que iria fazer. Ao longo de sua vigília, várias vezes ele apoiara a cabeça nas mãos sem nem ao menos tentar conter as lágrimas que escorriam por seu rosto. Ele não sabia como conseguiria seguir com a própria vida, dia após dia, se ela morresse.

Com uma expressão desolada no rosto, John contornou a cama e se deitou ao lado de Belle. Ela dormia tranquila, mas ele percebeu uma ligeira mudança em seu estado. Belle parecia imóvel demais, imóvel de forma pouco natural, e sua respiração se tornara super cial. O pânico o dominou como se uma mão apertasse seu coração, e ele se inclinou e a segurou pelos ombros.

– Você está desistindo de mim? – perguntou, a voz rouca de desespero. – Está?

A cabeça de Belle rolou para o lado e ela gemeu.

– Maldição! Você não pode desistir de mim!

John a sacudiu com mais força.

Belle ouviu a frase como se estivesse chegando através de um túnel muito longo. Parecia a voz de John, mas ela não conseguia imaginar por que ele estaria no quarto dela. E ele parecia zangado. Estava zangado com ela? Belle suspirou. Sentia-se cansada. Cansada demais para ter que lidar com um homem zangado.

– Está me ouvindo, Belle? – dizia ele. – Jamais vou perdoá-la se desistir de mim.

Belle se encolheu ao sentir as mãos grandes dele apertarem seus braços. Quis gemer de dor, mas não tinha energia para isso. Por que ele não a deixava em paz? Ela só queria dormir. Nunca se sentira tão cansada. Só queria se aconchegar e dormir para sempre. Belle reuniu todas as suas forças e conseguiu dizer:

– Vá embora.

– Isso! – John soltou um grito triunfante. – Você continua aqui comigo. Aguente rme, Belle. Está me ouvindo?

É claro que ouvia, pensou Belle, irritada.

– Vá embora – repetiu, com um pouco mais de determinação.

Ela se agitou, inquieta, debatendo-se sob as cobertas. Talvez ele a deixasse em paz se ela se escondesse embaixo das mantas. Se pudesse só

car ali e dormir, se sentiria tão melhor...

John percebeu que a determinação da esposa estava cedendo, embora ela tivesse conseguido falar. Ele já vira aquilo antes, no rosto de homens que conhecera durante a guerra. Não os sortudos, que haviam morrido em batalha, mas as pobres almas que combateram a febre e a infecção por semanas. Ver Belle abandonando lentamente a vida era mais do que John conseguia suportar, e algo dentro dele se partiu. A fúria cresceu e ele esqueceu todas as juras que zera de ser gentil e atencioso enquanto cuidava dela ao longo daquele tempo.

– Maldição, Belle! – gritou, furioso. – Não vou car sentado aqui, vendo você morrer. Isso não é justo! Você não pode me deixar agora. Não vou permitir.

Belle não respondeu. John tentou a chantagem.

– Sabe quão furioso vou car se você morrer? Vou odiá-la para sempre por me deixar. Você quer isso?

Ele examinou as feições de Belle, desesperado, em busca de algum sinal de que ela estivesse voltando a si, mas não encontrou nada. Toda a dor, a raiva e a preocupação que sentia foram de mais para John e ele acabou agarrando Belle com força, puxando-a para seus braços e aconchegando-a junto a si enquanto falava.

– Belle – disse com a voz embargada. – Não há esperança para mim sem você.

Ele fez uma pausa enquanto um tremor sacudia seu corpo.

– Quero vê-la sorrindo, Belle. Sorrindo, feliz, com seus olhos azuis cheios de luz e de bondade. Lendo um livro e rindo do que está escrito. Quero tanto que você seja feliz. Desculpe por eu não ter sido capaz de aceitar seu amor. Mas serei. Eu prometo. Se você, em suas in nitas bondade e sabedoria, encontrou algo em mim que vale a pena amar, ora, então... ora, então acho que não sou tão mau como eu pensava.

Era doloroso demais vê-la daquele jeito.

– Ah, Deus, Belle – falou John, a voz saindo como um apelo desesperado. – Por favor, por favor, aguente rme. Se não puder fazer isso por mim, faça pela sua família. Eles amam tanto você. Não iria querer magoá-los, não é mesmo? E pense em todos os livros que ainda não leu. Eu lhe prometo que conseguirei a próxima obra de Byron para você, se o livro não for vendido na sua livraria. Você ainda tem tanto para fazer, meu amor. Não pode partir agora.

Durante todo o discurso apaixonado de John, o corpo de Belle permaneceu ácido em seus braços, a respiração super cial. Finalmente, entregue ao desespero, ele perdeu o controle e desnudou a alma.

– Belle, por favor – implorou. – Por favor, por favor, não me deixe. Belle, eu amo você. Eu amo você e não conseguiria suportar se morresse. Que Deus me ajude, eu amo você demais.

A voz dele falhou e, como um homem que tivesse subitamente descoberto a inutilidade da sua situação, ele deixou escapar um suspiro entrecortado e a pousou com gentileza de volta na cama.

Incapaz de conter a lágrima solitária que correu por seu rosto, John puxou as mantas e cobriu a esposa com carinho. Então respirou fundo e se inclinou para a frente. Deus, era uma tortura estar tão perto dela. Ele roçou os lábios na orelha dela e sussurrou:

– Eu amo você, Belle. Lembre-se sempre disso.

Então John deixou o quarto rezando para que “sempre” durasse mais do que a próxima hora.

 

Algumas horas mais tarde, Belle estava deitada na cama quando sentiu um calor agradável envolver seu corpo. Era engraçado que os dedos dos seus pés tivessem cado frios por tanto tempo, mesmo quando o resto do corpo dela parecia arder em chamas. Mas agora seus dedos dos pés estavam com uma sensação quentinha, uma sensação... cor-de-rosa. Ela se perguntou se seria possível sentir os dedos dos pés cor-de-rosa, então decidiu que provavelmente sim, porque aquela era a palavra exata para descrever a sensação que experimentava nos dedos dos seus pés.

Na verdade, a sensação percorria todo o seu corpo. Cor-de-rosa, aconchegante e um pouco nebulosa. Mas, de modo geral, apenas se sentia bem. Pela primeira vez em... Belle franziu o cenho ao notar que não tinha ideia de quanto tempo se passara desde que adoecera.

Ela ergueu o corpo na cama com cuidado até conseguir se sentar, e a fraqueza de seus músculos a surpreendeu. Piscou algumas vezes e olhou ao redor. Estava na casa dos pais, no quarto que ela e John haviam ocupado na noite de núpcias. Como voltara para lá? Só conseguia se lembrar da chuva e do vento. Ah, e da briga. Da briga terrível com John.

Belle suspirou, exausta. Não se importava mais que ele não quisesse ouvi-la dizer que o amava. Estava disposta a aceitá-lo de qualquer forma, desde que pudesse tê-lo. Só queria dar um m àquele problema desagradável com George Spencer e voltar para o campo, voltar para a mansão Bunford.

Mansão Bunford? Não, aquilo não estava certo.

Inferno. Nunca conseguia lembrar o nome do lugar. Belle inclinou a cabeça para o lado. Dolorida. Flexionou os dedos das mãos. Doloridos. Esticou os dedos dos pés e gemeu. O corpo inteiro doía.

Enquanto ela estava sentada ali, testando o funcionamento de várias partes do corpo, a porta foi aberta em silêncio e John entrou no quarto. Ele

nalmente havia se forçado a fazer uma pausa de quinze minutos para poder

jogar um pouco de água no rosto e empurrar um pouco de comida garganta abaixo. Agora estava apavorado com a possibilidade de o tênue o que prendia Belle à vida ter arrebentado em sua ausência.

Para sua grande surpresa, quando ele chegou perto da cama, viu que o objeto do seu desespero estava sentado, movimentando os ombros. Para cima e para baixo, para cima e para baixo.

– Olá, John – disse Belle, com a voz fraca. – Qual é o nome da sua casa em Oxfordshire?

John cou tão surpreso, tão absolutamente perplexo com a pergunta absurda, que levou alguns instantes para responder.

– Mansão Bletchford – disse por m.

– É um nome horrível – retrucou Belle, com uma careta.

Ela bocejou, já que fora necessária muita energia para dizer a frase.

– Eu... tenho a intenção de mudar – comentou ele.

– Sim, bem, é melhor fazer isso logo. O nome não combina com você. Nem comigo, por sinal.

Belle bocejou de novo e voltou a se aconchegar na cama.

– Se me der licença, estou me sentindo muito cansada. Acho que gostaria de dormir um pouco.

John se lembrou das inúmeras vezes que implorara para que ela acordasse de algum pesadelo e se pegou assentindo.

– Sim – disse baixinho. – Sim, é melhor você dormir um pouco.

Ainda perplexo, ele se deixou afundar na cadeira que fora sua casa durante a longa e dedicada vigília à cabeceira da esposa.

A febre dela cedera. Estranhamente, felizmente, supreendentemente, a febre cedera. Ela caria bem.

John se pegou estupefato com a intensidade da emoção que o dominou. Ao menos daquela vez, as preces dele haviam sido respondidas.

Então algo estranho aconteceu. Uma sensação cálida e diferente surgiu em algum lugar próximo ao coração dele e começou a se espalhar.

Ele salvara a vida de Belle.

Conseguia sentir um peso saindo de seus ombros. Era uma sensação física.

Salvara a vida da esposa.

Uma voz ressoou no quarto. Você está perdoado.

John olhou rapidamente para Belle. Ela não parecia ter ouvido a voz. Que estranho. Parecera tão alta para ele... Uma voz feminina. Bastante parecida com a de Ana.

Ana. John fechou os olhos e, pela primeira vez em anos, não conseguiu se lembrar do rosto dela.

Teria nalmente expiado seus pecados? Ou talvez seus pecados nunca tivessem sido uma condenação eterna, como ele imaginara?

John voltou a olhar para Belle. A esposa sempre acreditara nele. Sempre.

Ele era tão mais forte tendo Belle a seu lado. E talvez ela também fosse. Juntos, eles haviam encarado o inimigo mais brutal de todos e venceram. Belle sobreviveria, e ele nunca mais teria que encarar o futuro sozinho.

John respirou fundo, pousou os cotovelos nas coxas e afundou o rosto nas mãos. Um sorriso insano se abriu em seu rosto, e ele começou a gargalhar. Todo o nervosismo e a angústia dos últimos dias acabaram se transformando naquela risada estranha que sacudia o seu corpo.

Belle se virou na cama e abriu os olhos ao ouvir a gargalhada do marido. Embora não conseguisse ver o rosto dele, ela percebeu que John estava com uma aparência cadavérica. A pele de seus braços parecia muito esticada, e alguns dos botões do alto da camisa estavam fora das casas.

John ergueu lentamente a cabeça e voltou a tar a esposa, os olhos castanhos cheios de uma emoção que ela não conseguiu nomear. Sem se intimidar, Belle continuou a examiná-lo. Os olhos de John estavam fundos, e o queixo, coberto por uma barba de vários dias. E os cabelos, normalmente cheios e brilhantes, pareciam sem vida. Ela franziu o cenho e cobriu a mão do marido.

– Você está com uma aparência péssima – comentou.

John demorou um longo tempo para conseguir responder:

– Ah, Belle – disse ele com a voz embargada. – E você está maravilhosa.

 

Dois dias depois, Belle já estava muito melhor. Ainda se sentia um pouco fraca, mas seu apetite voltara e ela vinha recebendo visitas frequentes que a entretinham.

Quanto a John, não o via fazia mais de um dia. Assim que se certi cara de que ela não corria mais perigo, ele tivera um colapso de exaustão. Caroline sempre dava notícias a Belle da condição dele, mas até ali os relatórios não iam além de:

– Ele ainda está dormindo.

Finalmente, no terceiro dia depois que a febre dela cedera, o marido entrou no quarto, com um sorriso meio envergonhado no rosto.

– Eu já havia perdido a esperança de vê-lo de novo – disse Belle.

John se sentou na beira da cama.

– Lamento, estava dormindo.

– Sim, eu soube.

Ela estendeu a mão e tocou o maxilar dele.

– É tão bom ver o seu rosto.

Ele sorriu.

– Você lavou os cabelos – comentou John.

– O quê?

Ela abaixou os olhos e pegou um cacho loiro entre os dedos.

– Ah, sim. Estava muito necessitada, eu acho. John, eu...

– Belle, eu...

As palavras saíram ao mesmo tempo que as dela.

– Você primeiro – pediu ele.

– Não, pode falar.

– Eu insisto.

– Ah, isso é tolice – falou Belle. – Estamos casados, a nal. Ainda assim, nos sentimos tão nervosos um com o outro.

– Em relação a que exatamente você se sente nervosa?

– Spencer.

O nome pairou no ar por alguns segundos antes que ela continuasse.

– Precisamos tirá-lo das nossas vidas. Você contou aos meus pais sobre a nossa situação?

– Não. Deixei isso ao seu critério.

– Não vou contar a eles. Só serviria para preocupá-los.

– Como você preferir.

– Tem algum plano?

– Não. Enquanto você estava doente...

Ele engoliu em seco várias vezes. Bastava a lembrança para aterrorizá-lo.

– Enquanto você estava doente, eu não consegui pensar em nada além de você. E depois eu dormi.

– Bem, andei pensando sobre ele.

John levantou a cabeça.

– Acho que devemos confrontá-lo na festa dos Tumbleys – disse ela.

– De jeito nenhum.

– Minha mãe insistiu que comparecêssemos. Ela quer aproveitar a ocasião para nos apresentar à sociedade.

– Belle, vai estar muito cheio. Como vou conseguir car de olho em você se...

– É a aglomeração que vai nos proteger. Alex, Emma e Dunford poderão permanecer ao nosso lado sem levantar suspeitas.

– Eu proíbo...

– Vai ao menos pensar a respeito? Vamos enfrentar isso juntos. Acho que... juntos... podemos fazer qualquer coisa.

Ela umedeceu os lábios, ciente de que se embaralhara nas palavras.

– Está certo – concordou John, porque queria mudar de assunto, mas principalmente porque ver a esposa umedecendo os lábios afastara qualquer pensamento racional da sua mente.

Belle pousou a mão sobre a dele.

– Obrigada por cuidar de mim.

– Belle, eu te amo – deixou escapar John.

Ela sorriu.

– Eu sei. Também amo você.

John pegou a mão dela, levou à boca e depositou um beijo demorado.

– Ainda não consigo acreditar nisso, mas...

Ao perceber que a esposa estava prestes a interrompê-lo, ele pousou a mão com carinho sobre a sua boca.

– Mas me dá mais alegria do que eu já imaginei ser possível – prosseguiu ele. – Mais alegria do que supus existir neste mundo.

– Ah, John.

– Você me ajudou a me perdoar. Foi quando eu vi que você não morreria, quando percebi que havia salvado sua vida.

Ele fez uma pausa, a expressão atordoada, como se ainda não conseguisse acreditar no milagre que acontecera exatamente naquele quarto.

– Foi então que eu soube.

– Soube o quê? – perguntou Belle.

– Que havia pagado minha dívida. Uma vida por outra. Não pude salvar Ana, mas salvei você.

– John – disse Belle com gentileza. – Salvar a minha vida não compensou o que aconteceu na Espanha.

Ele a encarou, horrorizado.

– Não era preciso compensar o que aconteceu na Espanha. Quando vai aceitar que aquilo não foi responsabilidade sua? Você vem se torturando há cinco anos, e tudo por causa das ações de outro homem.

Ele continuou a encará-la. Fitou com intensidade aqueles olhos azuis muito vivos e, pela primeira vez, as palavras de Belle começaram a fazer sentido.

Ela apertou a mão dele.

John nalmente despertou de seu devaneio.

– Talvez a verdade esteja em algum ponto entre o que eu penso e o que você pensa. Sim, eu deveria ter protegido Ana e fracassei nisso. Mas não a estuprei.

Ele balançou a cabeça e seu tom foi mais determinado quando disse:

– Não fui eu.

– Seu coração está livre agora.

– Não – sussurrou John. – Ele é seu.