Brilhante
Capítulo 5
John permaneceu imóvel por alguns minutos, vendo Belle desaparecer entre as árvores. Ele não se moveu até muito tempo depois, enojado consigo mesmo e com a forma como se comportara. Então lembrou a si mesmo que precisara fazer aquilo. Belle estava furiosa com ele agora, mas acabaria
cando grata. Bem, talvez não a ele, mas, quando estivesse acomodada em
um casamento confortável com algum marquês, agradeceria a alguém por tê-la salvado de John Blackwood.
Quando por m se virou para voltar para casa, ele se deu conta de que Belle esquecera sua bota. Abaixou-se e a pegou. Maldição! Agora teria que devolvê-la e não tinha ideia de como conseguiria encarar a jovem.
John suspirou e cou jogando a bota de uma mão para a outra enquanto voltava devagar para casa. Antes de mais nada, teria que arrumar uma desculpa para estar com a bota. Alex era um bom amigo, mas iria querer saber por que John estava de posse do calçado da prima dele. Imaginou que poderia passar por Westonbirt naquela noite...
Praguejou baixinho. Teria que ir a Westonbirt naquela noite. Já havia aceitado o convite de Alex para jantar. Ele praguejou com mais vontade enquanto imaginava a agonia que o aguardava. Teria que olhar para Belle naquela noite, e é claro que ela estaria arrebatadora em um vestido muito caro. Então, quando ele já não suportasse o sofrimento de vê-la, ela provavelmente diria algo encantador e inteligente que o faria desejá-la ainda mais.
E era muito, muito perigoso desejá-la.
A volta de Belle para casa foi em um passo quase tão lento quanto o de John. Não estava acostumada a caminhar descalça, e seu pé direito parecia capaz de encontrar todas as pedras pontudas e raízes protuberantes na trilha estreita. Também havia o pequeno problema de seu pé esquerdo estar calçado e a bota ter um saltinho, o que a deixava um pouco torta e a forçava a mancar.
E cada claudicar fazia com que se lembrasse de John Blackwood. O terrível John Blackwood.
Belle começou a proferir cada palavra vulgar que o irmão já deixara escapar na frente dela. O uxo de impropérios durou apenas alguns segundos, já que Ned costumava ser bastante cuidadoso com o que dizia perto da irmã. Já sem xingamentos a que recorrer, Belle começou a repetir “infeliz miserável”, mas não resolveu.
– Maldição! – praguejou ao pisar em uma pedra particularmente a ada.
O contratempo acabou sendo a gota-d’água, e Belle sentiu uma lágrima quente escorrer pelo rosto quando fechou os olhos com força por causa da dor.
– Você não vai chorar por causa de uma pedrinha – repreendeu a si mesma. – E com certeza não vai chorar por causa daquele homem horrível.
Todavia, estava chorando e não conseguia parar. Não compreendia como um homem conseguia ser tão encantador em um minuto e tão ofensivo no outro. John gostava dela – Belle percebia isso. Ficara claro no modo como ele a provocara e em como cuidara do seu pé. E, por mais que John não tivesse sido muito receptivo quando ela perguntara sobre a guerra, também não a ignorara. Ele não teria se aberto se não gostasse ao menos um pouco dela.
Belle se abaixou, pegou a pedra que a machucara e a atirou com força no meio das árvores. Era hora de parar de chorar, hora de pensar no problema de forma racional e descobrir por que a personalidade de John se transformara tão subitamente.
Não, decidiu Belle, pela primeira vez na vida não queria ser calma e racional. Não se importava em ser prática e objetiva. Só queria car furiosa.
E estava. Furiosa.
Quando Belle nalmente chegou a Westonbirt, suas lágrimas haviam secado e ela se alegrava em tramar vários planos de vingança contra John. Não esperava colocar nenhum deles em prática, mas o mero ato de tramá-los bastava para animá-la.
Belle atravessou a duras penas o grande saguão e estava perto da escadaria curva quando Emma a chamou de uma sala próxima.
– É você, Belle?
Belle voltou até a porta aberta, en ou a cabeça na sala e cumprimentou a prima.
Emma estava sentada no sofá com livros contábeis espalhados na mesa à sua frente. Ela ergueu as sobrancelhas diante da aparência desalinhada da prima.
– Por onde esteve?
– Saí para dar uma caminhada.
– Com apenas um sapato?
– É a última moda.
– Ou uma história muito longa.
– Não tão longa assim, mas pouco adequada a uma dama.
– Pés descalços de fato não são muito adequados a uma dama.
Belle revirou os olhos. Emma cara conhecida por cruzar um lamaçal que ia até a altura de seus joelhos para chegar a seu ponto favorito de pesca.
– Desde quando você se tornou o modelo de decoro e bom gosto?
– Desde que... Ah, não importa. Venha logo se sentar aqui comigo. Estou prestes a enlouquecer.
– É mesmo? Agora isso começou a parecer interessante.
Emma suspirou.
– Não implique comigo. Alex não me deixa sair desta maldita sala, porque ca preocupado com a minha saúde.
– Você pode olhar para o lado bom e ver isso como um sinal do amor e da devoção eternos dele – sugeriu Belle.
– Ou eu poderia simplesmente estrangulá-lo. Se fosse para seguir à risca o desejo dele, eu caria con nada à cama até o bebê nascer. Isso ele não conseguiu, só que me proibiu de sair a cavalo sozinha.
– Ele pode fazer isso?
– Fazer o quê?
– Proibi-la.
– Bem, não, Alex não tenta mandar em mim como a maior parte dos homens faz com a esposa, mas deixou bem claro que caria muitíssimo preocupado toda vez que eu saísse com Boston para um passeio e, maldito seja, eu o amo demais para perturbá-lo dessa forma. Às vezes, é melhor apenas fazer a vontade dele.
– Hum – murmurou Belle. – Aceita uma xícara de chá? Estou com um pouco de frio.
Ela se levantou e tocou a campainha para chamar uma criada.
– Não, obrigada, mas pediremos para você.
Uma criada entrou em silêncio e Emma pediu chá.
– Ah, e poderia, por favor, dizer à Sra. Goode que me encontrarei com ela em uma hora para conversarmos sobre o cardápio desta noite? Teremos um convidado, por isso acho que seria bom preparar algo especial.
A criada assentiu e deixou a sala.
– Quem vem jantar conosco hoje? – perguntou Belle.
– Aquele John Blackwood que você conheceu alguns dias atrás. Alex o convidou ontem. Não se lembra? Acho que comentamos a respeito durante o chá.
Belle sentiu o coração afundar no peito. Esquecera completamente os planos para o jantar.
– Acho que fugiu da minha cabeça – disse, desejando já estar tomando chá para poder esconder o rosto na xícara e disfarçar o rubor que sentia aquecer suas faces.
No entanto, se Emma reparou no rubor da prima, não fez qualquer menção a respeito. Na mesma hora Belle começou a falar sobre a última moda de Paris, e as duas damas permaneceram naquele assunto até bem depois de a bebida chegar.
Belle se vestiu com mais capricho do que o normal naquela noite, sabendo muito bem que era John a motivação para tal empenho. Escolheu um vestido de seda azul-claro de corte simples mas que realçava seus olhos. Prendeu o cabelo no alto da cabeça e deixou algumas mechas soltas ao redor do rosto. Depois de pôr um colar de pérolas e brincos combinando, se deu por satisfeita com a própria aparência e desceu.
Emma e Alex já estavam no salão de visitas esperando a chegada de John. Belle mal teve tempo de se sentar quando o mordomo entrou no salão.
– Lorde Blackwood – anunciou.
Belle ergueu os olhos assim que Norwood terminou de falar o nome de John. Alex se levantou e foi até a porta para receber o amigo.
– Blackwood, como é bom vê-lo de novo.
John assentiu e sorriu. Belle cou irritada ao ver como ele cara atraente em um traje formal.
– Permita-me apresentá-lo à minha esposa.
Alex levou John até o sofá onde Emma estava sentada.
– Como vai, Vossa Graça? – murmurou John de modo educado, depositando um beijo rápido nas costas da mão dela.
– Por favor, não suporto tanta formalidade na minha própria casa. Faça a gentileza de me chamar de Emma. Alex me garantiu que o senhor é um amigo especial para ele, por isso acho que não precisamos seguir o protocolo.
John sorriu para Emma, chegando à conclusão de que Alex tinha sido sortudo como sempre ao escolher uma esposa.
– Então deve me chamar de John.
– E é claro que já conhece Belle – continuou Alex.
John se virou para Belle e pegou a mão dela. Um calor intenso subiu por seu braço, mas ela se forçou a não puxar a mão. Ele não precisava saber como a afetava. Porém, quando John levou a mão dela aos lábios para um beijo suave, Belle não foi capaz de controlar o rubor que coloriu seu rosto.
– É um grande prazer vê-la de novo, lady Arabella – disse ele, ainda segurando a mão dela.
– Po-por favor, me chame de Belle – balbuciou ela, odiando-se por perder a compostura daquela forma.
John nalmente soltou a mão dela e sorriu.
– Eu lhe trouxe um presente.
Ele lhe estendeu uma caixa amarrada com uma ta.
– Ora, obrigada.
Curiosa, Belle desamarrou o laço e levantou a tampa. Dentro encontrou a bota meio enlameada que havia deixado para trás. Ela abafou uma risada e tirou o sapato da caixa.
– Fiquei com uma bolha – explicou, voltando-se para Alex e Emma. – Estava doendo muito e tirei a bota...
Ela se deteve.
John se voltou para Emma.
– Eu também teria lhe trazido um presente, mas não parece ter deixado nenhum sapato na minha propriedade recentemente.
Emma sorriu e abaixou a mão na direção dos pés.
– Preciso reti car logo esse problema.
John gostou bastante da duquesa de Alex. Era fácil e indolor gostar dela, pensou. Ao contrário da prima, Emma não fazia o coração dele disparar e a respiração parar cada vez que a via.
– Talvez eu pudesse simplesmente lhe dar uma das minhas sapatilhas agora – acrescentou Emma. – Poderia trazê-la de volta para mim na próxima vez que vier jantar conosco.
– Isso é um convite?
– É claro, Blackwood – adiantou-se Alex. – É sempre bem-vindo aqui.
O grupo trocou amabilidades por uns quinze minutos, à espera do anúncio do jantar. Belle cou sentada, quieta, examinando John
disfarçadamente, perguntando-se por que ele faria algo tão doce como embrulhar a bota dela como um presente depois de ter sido tão rude naquela tarde. Como ela deveria reagir? Ele voltara a desejar sua amizade? Belle manteve um sorriso fraco no rosto enquanto, por dentro, o amaldiçoava por deixá-la tão confusa.
Os pensamentos de John eram muito semelhantes, e ele se perguntava como Belle reagiria à presença dele naquela noite. A jovem não tinha como compreender por que ele precisava manter distância, e Deus sabia que John não podia explicar. A nal, estupro não era um tema aceitável em uma conversa educada.
Quando o jantar foi anunciado, Emma sussurrou algo no ouvido do marido. Então ele se levantou e a tomou pelo braço.
– Vão me perdoar por eu desa ar as convenções e acompanhar minha esposa até a sala de jantar – disse Alex, com um sorriso malicioso. – Belle,
caremos na sala de jantar menos formal. Emma acha que será mais
confortável.
John se levantou e ofereceu a mão a Belle enquanto o outro casal deixava rapidamente o salão.
– Parece que fomos deixados a sós – falou ele.
– Imagino que tenham feito isso de propósito.
– Acha mesmo?
Belle aceitou a mão de John e se levantou.
– Deve ver isso como um elogio. Signi ca que Emma gostou do senhor.
– E a senhorita gosta de mim?
Houve uma longa pausa, seguida por um decidido:
– Não.
– Creio que eu mereça isso.
Ele soltou a mão dela.
Belle se virou.
– Merece mesmo. Não consigo acreditar que tenha tido a coragem de aparecer aqui para jantar.
– Fui convidado, se bem me lembro.
– Deveria ter recusado. Deveria ter dito que estava doente, ou que a sua mãe estava doente, ou seu cachorro, seu cavalo, qualquer coisa para recusar o convite.
– Está certa, é claro – foi apenas o que disse John.
– Um homem não... um homem não beija uma dama e depois fala com ela da forma como falou comigo. Não é educado, não é gentil e...
– E a senhorita é sempre gentil?
A voz dele não tinha o menor traço de zombaria, o que a confundiu.
– Tento ser. Deus sabe que tentei ser gentil com o senhor hoje.
Ele inclinou a cabeça.
– Com certeza tentou.
– Eu... – começou Belle, mas se interrompeu e olhou para ele. – Não vai nem discutir comigo?
John ergueu os ombros em um gesto de cansaço.
– De que adiantaria? A senhorita obviamente está certa e eu, como sempre, estou errado.
Belle o encarou sem compreender, os lábios entreabertos.
– Não entendi.
– E provavelmente é melhor que nem tente. Peço perdão, é claro, pelo meu comportamento essa manhã. Foi imperdoável.
– O beijo ou as coisas horríveis que disse depois?
As palavras saíram da boca de Belle antes que ela tivesse tempo de contê-las.
– Ambos.
– Aceito suas desculpas pelos insultos.
– E pelo beijo?
Belle manteve os olhos xos na lua crescente que via através da janela.
– Não há necessidade de se desculpar pelo beijo.
O coração de John disparou no peito.
– Creio não ter compreendido o que quis dizer, milady – falou com cautela.
– Só tenho uma pergunta.
Belle desviou os olhos da lua e se forçou a olhar para ele.
– Eu z algo errado? Algo que o ofendeu?
John deixou escapar uma risada rouca, incapaz de acreditar no que acabara de ouvir.
– Ah, Deus, se ao menos você soubesse...
Ele correu os dedos pelos cabelos, depois levou as mãos à cintura.
– A senhorita não conseguiria me ofender nem se tentasse.
Centenas de emoções con ituosas dispararam pelo coração e pela mente de Belle no espaço de um segundo. Mesmo sabendo que não deveria, ela tocou o braço de John.
– Então o que aconteceu? Eu preciso saber.
John deixou escapar um suspiro tenso antes de encará-la.
– Quer mesmo a verdade?
Ela assentiu.
Ele abriu a boca, mas alguns segundos se passaram antes que alguma palavra saísse de seus lábios.
– Não sou o homem que você pensa que sou. Vi coisas...
John fechou os olhos e lutou para controlar as emoções que se sucediam em seu rosto.
– Fiz coisas. Estas mãos...
Ele baixou os olhos para as mãos, como se fossem objetos estranhos. Quando voltou a falar, sua voz saiu como um sussurro.
– Sou um desgraçado ganancioso, Belle, só por tê-la beijado essa manhã. Não sou digno nem de tocá-la.
Belle o tou, horrorizada com a dor que marcava suas feições. Como ele não conseguia ver o que estava tão claro para ela? Havia algo em John, algo tão bom... Parecia brilhar, vindo da alma dele. E ele se achava sem valor. Ela não sabia o que havia acontecido para motivar aquilo, mas a dor de John a devastava. Belle deu um passo à frente.
– Você está errado.
– Belle – sussurrou John –, está sendo tola.
Sem palavras, ela balançou a cabeça.
John olhou bem fundo nos olhos de um azul intenso e... que Deus o ajudasse, mas não conseguiu evitar que seus lábios buscassem os dela.
Pela segunda vez naquele dia, Belle sentiu aquela onda de desejo tão pouco familiar enquanto seu corpo se inclinava na direção do dele. A boca de John roçou de forma suave a dela e, em um arroubo de ousadia, Belle deixou a língua correr ao longo da pele macia da parte interna do lábio dele, exatamente como John zera com ela naquela manhã. A reação de John foi imediata: ele a puxou mais para junto de si, ansiando por sentir o calor do corpo dela contra o dele.
O contato íntimo disparou um alarme na mente de Belle e ela se afastou devagar de John. Seu rosto estava afogueado, os olhos, brilhantes, e havia uma quantidade bem maior de mechas de cabelo soltas ao redor do seu rosto do que alguns minutos antes.
– Alex e Emma estão nos esperando na sala de jantar – lembrou ela, ofegante. – Estamos demorando demais.
John fechou os olhos e soltou o fôlego, forçando o próprio corpo a esfriar. Depois de um instante, ofereceu o braço a Belle, com um sorrisinho que não combinava com seu olhar.
– Vamos culpar minha perna pelo atraso.
Belle sentiu uma onda imediata de empatia por ele. John era um homem orgulhoso e não gostaria de admitir que a perna defeituosa o tornara mais lento.
– Ah, não, não é necessário. Emma está sempre reclamando que eu ando devagar demais. Vou dizer a eles que estava lhe mostrando um dos quadros na galeria. Alex tem um Rembrandt maravilhoso.
John encostou o dedo nos lábios dela.
– Shhh, vamos culpar a minha perna. Já está na hora desta coisa me trazer algum benefício.
Eles saíram do salão de visitas, e Belle reparou que John andava bem rápido pelos longos corredores que levavam à sala de jantar.
– Avise quando estivermos quase chegando – sussurrou ele no ouvido dela.
– É assim que virarmos neste corredor.
John diminuiu o passo a tal ponto que Belle achou que eles fossem parar. Quando abaixou os olhos para a perna de John, percebeu que ele mancava bem mais visivelmente do que antes.
– Você é terrível – repreendeu-o Belle. – Sei que consegue dobrar mais a perna do que isso.
– Hoje ela está pior.
A expressão dele era angelical.
Alex se levantou quando eles entraram na sala de jantar.
– Achamos que haviam se perdido no caminho.
– Lamento, mas a minha perna está me incomodando um pouco hoje – explicou John. – Belle foi muito gentil e acompanhou meu passo lento.
Belle assentiu, perguntando-se como conseguiria não rir. Ela e John se juntaram a Emma e Alex ao redor da pequena mesa da sala de jantar informal. Os aspargos ao molho de mostarda foram servidos, e Emma, reconhecendo que o vizinho e a prima pareciam se conhecer melhor do que seria de imaginar no pouco tempo desde que haviam sido apresentados, começou o interrogatório de imediato.
– Fico tão feliz por ter podido vir jantar conosco esta noite, John. Mas conte-nos mais a seu respeito. De que parte da Inglaterra você é?
– Cresci em Shropshire.
– É mesmo? Nunca estive lá, porém ouvi dizer que é uma região adorável.
– Sim, muito.
– E sua família ainda mora lá?
– Acredito que sim.
– Ah.
Emma pareceu um pouco aturdida com a estranha escolha de palavras, contudo deu seguimento à conversa de qualquer modo.
– E os vê com frequência?
– Raramente.
– Emma, meu bem – interrompeu Alex de modo carinhoso. – Por favor, dê algum tempo entre as perguntas para que nosso convidado consiga comer.
Emma deu um sorriso envergonhado e espetou um pedaço de aspargo. Antes de colocá-lo na boca, no entanto, deixou escapar:
– Belle é uma leitora contumaz, sabia?
Belle engasgou com a comida, já que não esperava virar tema da conversa.
– Falando nisso – interrompeu John com gentileza –, já terminou de ler O conto do inverno? Percebi que estava quase no m no outro dia.
Belle tomou um gole de vinho.
– Sim, terminei. E esse livro marcou o nal do meu Grande Desa o de Leitura de Shakespeare.
– É mesmo? Quase temo perguntar de que se trata.
– Todas as peças.
– Impressionante – murmurou John.
– Em ordem alfabética de acordo com o título original.
– E é organizada, também. A dama é um prodígio.
Belle enrubesceu.
– Não implique comigo, seu traquinas.
Alex e Emma arregalaram os olhos ao ouvir os divertidos gracejos que se desenrolavam diante deles.
– Se me lembro bem, o desa o também envolve alguns poemas – comentou Alex.
– Abandonei a poesia por ora, eu acho. Poesia é tão, bem, poética, não acham? Ninguém fala daquela forma de verdade.
John ergueu uma sobrancelha.
– A senhorita acha que não?
Ele se virou para Belle e, quando voltou a falar, havia um ardor em seus olhos castanhos que ela nunca vira.
– “Apesar de a luminosidade outrora tão brilhante/ Estar agora para sempre afastada do meu olhar,/ Ainda que nada possa devolver o momento/ Do esplendor na relva, da glória/ na or;/ Não nos lamentaremos,/ Inspirados no que ca para trás.”
Todos na mesa permaneceram em silêncio até John voltar a falar, os olhos xos nos de Belle o tempo todo.
– Queria ter sempre tanta eloquência ao falar.
Belle se pegou estranhamente comovida pela breve declamação de John e pela entonação cálida de sua voz. Algo naquele tom a manteve enfeitiçada e a fez esquecer a presença dos primos.
– Foi lindo – disse ela, baixinho.
– Wordsworth. Um dos meus favoritos.
– Esse poema tem algum signi cado particular para o senhor? Ele o inspira?
Houve uma longa pausa.
– Não – disse John, objetivo. – Às vezes tento, porém, em geral, fracasso.
Belle engoliu em seco, sentindo-se desconfortável com a dor que via nos olhos dele, e procurou outro assunto.
– Também gosta de escrever poesia?
John riu, desviando por m o olhar de Belle e dirigindo-se a todos na mesa.
– Talvez gostasse de escrever poesia se algum dia já tivesse escrito alguma coisa que fosse minimamente decente.
– Mas recitou Wordsworth com tanta paixão – protestou Belle. – Está claro que tem um amor profundo por poesia.
– Gostar de poesia e ser capaz de escrever alguma que valha a pena são duas coisas muito diferentes. Imagino que seja por isso que pretensos poetas passam tanto tempo com uma garrafa de conhaque em cada mão.
– Estou certa de que tem a alma de um poeta – insistiu ela.
John apenas sorriu.
– Temo que essa sua certeza seja equivocada, mas vou encarar como um elogio.
– E deve mesmo. Não carei satisfeita até ter um volume de poemas seus na minha biblioteca – declarou Belle em um tom brejeiro.
– Então é melhor eu começar a trabalhar nele. Certamente não desejaria desapontá-la.
– Não mesmo – murmurou ela. – Tenho certeza disso.