Brilhante
Capítulo 16
A manhã chegou rápido demais, e Belle logo se deu conta de que teria que voltar para casa. Vestiu-se às pressas, ainda sem acreditar que havia se esgueirado para dentro do quarto de John na noite anterior. Ela com certeza nunca pensara em si mesma como uma pessoa ousada. Belle suspirou baixinho, imaginando que as mulheres realmente faziam coisas desesperadas quando estavam apaixonadas.
– Algum problema? – perguntou John, vestindo uma camisa branca.
– O quê? Ah, não é nada. Estava só pensando que nunca mais quero subir em uma árvore até a altura do terceiro andar de uma casa.
– Amém a isso.
– Não que tenha sido tão aterrorizante subir na árvore. Mas me arrastar pelo galho até a janela...
– Não importa – interrompeu-a John com rmeza. – Desde que não volte a fazer isso.
A preocupação dele com ela era tão óbvia que Belle se esqueceu de car indignada com o comportamento autoritário dele.
Ao saírem de forma sorrateira da casa de Damien, Belle se perguntou se seria prudente caminharem sozinhos enquanto o inimigo continuava à solta. Ela mencionou sua preocupação a John quando eles já chegavam aos degraus da frente da casa.
John balançou a cabeça.
– Ele me parece ser do tipo covarde. É mais provável que pre ra se mover sob o manto da escuridão.
– Ele me atacou durante o dia – lembrou Belle, mantendo-se teimosamente imóvel.
– Sim, mas usou bandidos contratados. Além disso, você é mulher.
John percebeu que Belle estava prestes a protestar por ter suas preocupações dispensadas daquela forma.
– Não que eu a ache menos capaz, mas deve saber que a maior parte dos homens não a veria como uma grande ameaça – acrescentou ele de forma diplomática. – Além do mais, não há motivo para que ele esteja à espreita tão cedo. Por que caria esperando por mim aqui, se provavelmente acha que continuarei na cama ainda por algumas horas?
– Só que ele pode ter me visto na noite passada. E, nesse caso, saberia que você teria que me levar para casa.
– Se ele a tivesse visto ontem à noite, a teria agarrado.
A ideia fez um arrepio de medo percorrer a espinha de John e renovou sua determinação de colocar m àquele episódio o mais rápido possível. Ele ergueu o queixo com determinação, pegou a mão de Belle e desceu os degraus com ela.
– Vamos seguir nosso caminho. Gostaria que você estivesse em casa antes do meio-dia.
Belle respirou fundo o ar fresco.
– Acho que nunca estive na rua de manhã tão cedo. Ao menos não de propósito.
John deu um sorriso provocante.
– E você diria que hoje foi de propósito?
– Ora, talvez não exatamente – falou ela e enrubesceu. – Mas tinha esperança...
– Sua desavergonhada.
– Talvez, mas você vai perceber que essa história tem um nal feliz.
Os pensamentos de John se voltaram para o homem misterioso que atacara ambos.
– Infelizmente, esse capítulo em particular não chegou ao m.
Belle cou séria.
– Ora, a um meio feliz, então. Ou seja como for que chamem a parte pouco antes do clímax.
– Pensei que havíamos chegado ao clímax na noite passada.
O rosto de Belle atingiu níveis de rubor nunca vistos.
– Estava falando em termos literários – murmurou ela.
John resolveu parar de torturá-la e se calou, ainda sorrindo. Depois de um intervalo adequado, perguntou:
– Você acha que Persephone já acordou?
Belle franziu o cenho e olhou para o céu, que ainda estava rosado e alaranjado com as últimas pinceladas da aurora.
– Não tenho certeza. Persephone é imprevisível. Nunca sei bem o que esperar dela. Além do mais, raramente estou acordada a esta hora, por isso não saberia dizer se ela acorda cedo.
– Ora, pelo seu bem, espero que ela ainda esteja na cama. Se bem que a única coisa que ela pode fazer é insistir que eu me case com você, o que não seria um problema, porque planejo fazer exatamente isso e com a maior rapidez possível. De qualquer modo, gostaria de evitar gritarias e desmaios e toda essa bobagem feminina.
Belle o encarou, irritada, diante do comentário “bobagem feminina”.
– Imagino que Persephone e eu seremos capazes de nos comportar de forma que não ofenda as suas suscetibilidades masculinas – murmurou ela.
John deu um sorrisinho.
– Conto com vocês.
Belle foi poupada de ter que fazer um novo comentário porque eles chegaram aos degraus da frente da mansão Blydon. Ela tivera o bom senso de levar consigo uma chave ao sair, e os dois entraram em silêncio na casa. John fez menção de partir na mesma hora, já que não queria provocar uma cena.
– Por favor, não vá ainda – apressou-se a dizer Belle e pousou a mão no braço dele.
Por mais surpreendente que fosse, nenhum dos criados presenciara a entrada clandestina deles.
– Espere por mim na biblioteca. Vou subir correndo e vestir algo mais adequado.
John observou o traje masculino de Belle com um sorriso e assentiu enquanto ela subia depressa a escada. Belle parou no patamar do segunda andar, olhou para baixo com um sorriso travesso e disse:
– Temos muito que conversar.
Ele assentiu mais uma vez e se encaminhou para a biblioteca. Lá, correu os dedos pelas lombadas dos livros até encontrar um com um título intrigante que o levou a tirá-lo da prateleira. John folheou o livro preguiçosamente, sem prestar muita atenção às palavras. Seus pensamentos permaneciam no anjo de cabelos loiros que estava no andar de cima naquele momento. Que diabo dera na cabeça de Belle para escalar uma árvore até uma janela do terceiro andar da casa do irmão dele? Não que John estivesse aborrecido com o resultado, mas, ainda assim, ele não permitiria que ela voltasse a tentar algo semelhante. Ele suspirou ao sentir o corpo se aquecer, não de desejo, mas de satisfação.
Ela era dele. John ainda não compreendia direito como aquilo acontecera, mas ela era dele.
Belle reapareceu usando um vestido rosa que realçava o tom corado natural de seu rosto. Os cabelos tinham sido presos em um coque frouxo que, embora não fosse considerado elegante, era ao menos apresentável.
John ergueu uma sobrancelha diante da rápida transformação.
– Apenas cinco minutos, milady. Estou surpreso... e impressionado.
– Ah, por favor, não é tão difícil assim trocar de roupa – argumentou Belle.
– Minhas irmãs jamais conseguiriam tal proeza em menos de duas horas.
– Suponho que tudo dependa de quanto a pessoa deseje chegar ao seu destino.
– E você queria muito chegar ao seu destino?
– Ah, sim – sussurrou Belle. – Muito.
Ela deu um passo na direção dele, então outro, e outro, até os dois estarem muito próximos.
– Acho que você me transformou em uma devassa.
– Espero ardentemente que sim.
Belle percebeu que a respiração dele havia se tornado irregular e sorriu. Era bom saber que tinha o poder de afetar John da mesma forma que ele a afetava.
– Ah, a propósito – disse em um tom casual. – Uma dama normalmente leva mais de cinco minutos para se trocar.
– O quê?
Os olhos de John estavam nublados de desejo e sua mente se recusava a compreender o que ela dissera.
Belle lhe deu as costas.
– Os botões.
Ele prendeu o ar ao tar a pele macia das costas dela à mostra no vestido aberto.
– Se importaria?
Sem dizer nada, John fechou os botões, deixando os dedos roçarem na pele morna sempre que possível. Quando chegou ao último botão, ele pousou um beijo terno na pele perfumada do pescoço dela.
– Obrigada – disse Belle baixinho, virando-se de novo para ele.
Cada terminação nervosa do seu pescoço e das suas costas parecia ter ganhado vida. Ciente de que teria que se comportar com um pouco mais de decoro – a nal, estavam na biblioteca do pai dela –, Belle foi até uma poltrona de couro macia e se sentou.
– Temos algumas questões para discutir – relembrou, depois de se colocar à vontade.
– Amanhã.
John se acomodou na poltrona que estava ao lado da dela.
– Como disse?
– Vamos nos casar amanhã.
Belle o encarou atordoada.
– Não acha um pouco cedo demais?
Ela havia se resignado ao fato de que não teria o casamento dos seus sonhos, mas achava sinceramente que merecia algo especial. Belle duvidava que algum de seus parentes conseguisse chegar a Londres a tempo de assistir às suas núpcias se John zesse como queria.
– Eu me casaria hoje, mas creio que uma dama precise de algum tempo para se preparar – falou ele.
Belle o tou com cautela, torcendo para que ele estivesse sendo sarcástico.
– Não precisamos nos apressar tanto.
As palavras dela não o preocuparam – John sabia que ela não estava tentando fugir do casamento. Ainda assim, ele não tinha o menor desejo de que tivessem um longo noivado. Não depois do que experimentara à noite.
– Acho que precisamos nos apressar o máximo possível. Quero você perto de mim, onde eu possa cuidar da sua segurança. Para não mencionar o fato de que você pode estar grávida.
Belle empalideceu. Deixara-se dominar de tal forma pela paixão que nem sequer pensara nas possíveis consequências. Ela supôs que era por isso que tantas pessoas acabavam se vendo diante de uma gravidez indesejada.
– Eu não estava propondo que esperássemos meses. Gostaria que tivéssemos ao menos cerca de uma semana. Além do mais, você vai precisar de tempo para conseguir uma licença especial.
– Já consegui.
– Já?
– Na semana passada. Quando lhe disse que esperaria duas semanas, até seus pais voltarem para casa.
– Ainda não se passaram duas semanas.
Belle deu um sorriso triunfante e se recostou no sofá. Ganhara ao menos alguns dias.
– Sinto muito, mas z essa concessão antes de saber que tínhamos um inimigo bastante inconveniente. Não estou mais disposto a esperar tanto. Vou repetir: eu a quero perto de mim, onde possa car de olho em você.
Belle suspirou. Ele estava sendo romântico, e ela com certeza não era imune a um pouco de romance. Ainda assim, Belle duvidava que fosse conseguir um vestido novo para o casamento se ele acontecesse no dia seguinte. A ideia de se casar usando um de seus vestidos antigos certamente não era romântica.
Ela levantou os olhos para John tentando deduzir se adiantaria defender seu ponto de vista. Ele parecia implacável.
– Muito bem. Que seja amanhã. À noite – acrescentou ela depressa.
– Achei que os casamentos acontecessem pela manhã.
– Este não – declarou ela.
John assentiu com boa vontade. Podia ceder naquilo. Ele se levantou e alisou o paletó.
– Se me der licença, preciso tomar algumas providências. Você tem algum vigário de preferência? Alguém que gostaria que conduzisse a cerimônia?
Belle cou comovida por ele ter pensado em lhe perguntar aquilo, mas respondeu que não era apegada a nenhum vigário em particular.
– É melhor levar um dos meus criados com você – acrescentou ela. – Não quero que ande por aí sozinho.
John assentiu. Ele achava que o inimigo escolheria atacar à noite, mas não faria mal tomar algumas precauções.
– E quero que você que aqui – alertou ele.
Belle sorriu diante da preocupação dele.
– Pode car tranquilo. Se eu sair, levarei ao menos oito pessoas comigo.
– Eu a punirei pessoalmente se não zer isso – resmungou John. – Passarei por aqui mais tarde, assim que encontrar um vigário disponível.
Belle o seguiu até o saguão e chamou dois criados para pedir que passassem o dia com ele. Então acompanhou John até a porta da frente, onde ele deu um beijo delicado na palma da mão dela.
– Ah, John – suspirou Belle. – Será que algum dia vou me saciar de você?
– Espero que não.
Ele deu um sorriso atrevido e saiu.
Belle balançou a cabeça e subiu devagar a escada. Santo Deus, iria mesmo se casar no dia seguinte?
Ela suspirou. Sim.
Belle entrou no quarto, foi até a escrivaninha e se sentou diante dela. Então pegou papel de carta e uma pena. Por onde começar? Decidiu escrever para o irmão.
Caríssimo Ned,
Vou me casar amanhã à noite.
Poderia vir?
Belle
Ela sorriu e guardou o bilhete enigmático em um envelope cor de mar m. Aquilo certamente faria o irmão se apressar a chegar a Londres. O bilhete que escreveu a seguir, para Dunford, era idêntico, a não ser pelo fato de que, no caso dele, Belle incluiu o nome de John. Não que o casamento fosse uma grande surpresa para ele.
Emma não aceitaria nada tão misterioso, por isso Belle decidiu ser franca. Além do mais, a prima já sabia do seu relacionamento com John.
Caríssima Emma,
Para minha grande alegria, John e eu decidimos nos casar.
Infelizmente, precisamos fazer isso com urgência.
Belle franziu o cenho ao escrever aquilo. Emma com certeza pensaria no pior. É claro que ela estaria certa, mas Belle não pensava nos eventos recentes em sua vida como “o pior”.
Ainda assim, continuou a escrever.
Percebo que estou avisando com pouquíssima antecedência, mas
espero que você e Alex consigam vir a Londres amanhã, para o meu
casamento. Infelizmente, ainda não sei a hora da cerimônia, mas
acontecerá
à noite.
O cenho franzido de Belle logo se transformou em uma careta. Havia “infelizmente” demais para o que deveria ser um evento feliz. Estava fazendo uma grande confusão. Belle resolveu deixar de lado qualquer pretensão de escrever com elegância e terminou logo o bilhete.
Imagino que esteja surpresa. Eu mesma também estou um pouco.
Explicarei tudo quando você chegar.
Com muito amor,
Belle
Ela estava prestes a descer com as cartas para pedir que um criado convocasse três mensageiros quando Persephone entrou pela porta aberta.
– Meu Deus, você acordou cedo! – exclamou a dama mais velha.
Belle sorriu e assentiu, reprimindo a vontade maldosa de comentar que não chegara exatamente a ir para cama.
– Alguma razão em particular? – insistiu Persephone.
– Vou me casar amanhã.
Não havia motivo para não ser direta.
Persephone arregalou os olhos como uma coruja.
– O quê?
– Vou me casar.
Os olhos continuaram arregalados. Belle reviu ligeiramente sua opinião e decidiu que a acompanhante não se parecia com uma coruja comum, mas com uma um tanto de ciente. Depois de alguns momentos, no entanto, a amiga recuperou a capacidade de falar.
– É com alguém que conhecemos?
– Ora, lorde Blackwood, é claro – retrucou Belle, irritada. – Com quem mais seria?
Persephone deu de ombros.
– Ele não aparece há algum tempo.
– Eu di cilmente chamaria alguns poucos dias de “há algum tempo” – disse Belle, na defensiva. – E, de qualquer modo, isso não vem ao caso, já que nos reconciliamos e vamos nos casar amanhã à noite.
– De fato.
– Não vai me dar os parabéns?
– É claro, meu bem. Sabe que considero lorde Blackwood um homem excelente, mas tenho a sensação de que, de algum modo, fracassei nos meus deveres como acompanhante. Como vou explicar isso aos seus pais?
– A senhora sequer conhece os meus pais. Além disso, eles não têm a menor ideia de que tenho uma acompanhante.
Belle olhou para Persephone e, na mesma hora, se deu conta de que dissera a coisa errada. A dama mais velha parecia ter se metamorfoseado de uma coruja doente em um furão agitado.
– Tente pensar na situação da seguinte forma – sugeriu Belle, esperançosa. – O objetivo de toda jovem dama é se casar, ou ao menos é o que nos dizem. Certo?
Persephone assentiu, mas parecia descon ada.
– Vou me casar. Portanto atingi esse nobre objetivo, e isso também é mérito seu como minha acompanhante.
Belle abriu um sorrisinho débil, incapaz de se lembrar da última vez que dissera uma tolice tão grande.
Persephone lhe lançou um olhar que parecia dizer “Sinceramente?” no mais sarcástico dos tons.
– Está certo – disse Belle, obrigada a ceder. – É uma situação incomum, admito. E as pessoas provavelmente vão falar a respeito por semanas. Vamos ter que lidar com isso da melhor maneira possível. Além do mais, estou feliz.
Os lábios de Persephone se curvaram em um sorrisinho romântico.
– Então isso é tudo que importa.
Belle estava certa de que não conseguiria dormir de forma alguma naquela noite, mas acordou na manhã seguinte sentindo-se renovada. John havia aparecido de novo na véspera para lhe dizer que encontrara um vigário que os casaria às sete da noite. Belle sorrira, insistira que ele mantivesse os criados ao seu lado pelo resto do dia e o expulsara educadamente da casa. Tinha coisas a fazer.
Determinada a não ter um casamento totalmente distante do tradicional, Belle encomendara dezenas de ores e arrastara Persephone para comprar um vestido com ela. Não era necessário dizer que levaram junto vários criados para protegê-las. Belle não gostava de pensar em si mesma como uma mulher apavorada, mas a verdade era que não desejava ser arrastada para outro beco sujo.
Madame Lambert dera um gritinho diante da ideia de fazer um vestido de noiva em tão pouco tempo, mas ainda assim conseguira encontrar para Belle um belo vestido de seda verde que precisaria só de pequenas alterações. O vestido tinha um corte império simples, com a saia uindo de uma faixa logo abaixo do busto até o chão. O decote deixava os ombros um pouco à mostra e o traje era adornado por camadas de um tecido diáfano branco. Era mais apropriado para um clima quente, mas Belle decidiu que, em suas circunstâncias, não poderia reclamar.
O resto do dia passara em uma lentidão surpreendente. Belle sempre achara que casamentos exigiam uma montanha de preparativos, mas logo descobrira que a montanha diminuía muito de tamanho quando a cerimônia acontecia na casa da noiva, com menos de meia dúzia de convidados.
E agora que o dia do casamento chegara, ela não tinha nada a fazer a não ser car sentada, esperando, nervosa. Ela se sentiria melhor quando Emma chegasse, decidiu. Persephone era um amor, mas nunca fora casada e não era de grande ajuda. Ela tentara ter uma “conversinha” com Belle à noite, mas logo se tornara claro que a mulher mais velha tinha muito menos compreensão dos assuntos nupciais do que a própria Belle. E Belle estava decidida a manter a boca fechada.
A conversa morreu rapidamente.
Infelizmente, Emma parecia não estar se apressando a chegar a Londres. Belle cou vagando sem rumo pela casa o dia todo, incapaz de se concentrar. Ela mal comeu no café da manhã, beliscou o almoço e, por m, se acomodou em um assento diante da janela na sala de visitas da mãe e
cou olhando para a rua.
Persephone en ou a cabeça na sala.
– Está tudo bem, querida?
Belle não se virou. Por algum motivo inexplicável, seu olhar estava xo em um cachorrinho preto que latia na calçada.
– Estou bem. Estava só pensando.
– Tem certeza? Você parece um pouco... estranha.
Belle afastou os olhos da rua e se virou para encarar Persephone.
– Estou bem, de verdade. É que não tenho nada para fazer, só isso. E, se tivesse, duvido que fosse capaz de me concentrar na tarefa.
Persephone sorriu e assentiu. Nervosismo de noiva. Ela deixou a sala.
Belle se virou de novo para a janela. O cachorro havia saído de cena, por isso ela decidiu observar as folhas das árvores do outro lado da rua. Quantas mais cairiam com um vento tão forte?
Santo Deus, quando se tornara tão melodramática? Agora ela sabia por que as pessoas faziam tanto estardalhaço sobre casamentos. Era para manter a cabeça da noiva ocupada e evitar que ela caísse em estranhos abismos mentais.
Estranhos abismos mentais? De onde tinha vindo aquilo? Belle teve certeza de que estava perturbada. Voltou para o quarto, deitou-se na cama e se obrigou a dormir.
Belle só percebeu que havia cochilado quando Persephone começou a sacudi-la pelos ombros.
– Meu santo Deus, menina – dizia a acompanhante. – Não acredito que tenha cochilado no dia do seu casamento.
Belle esfregou os olhos, encantada por ter conseguido realmente dormir.
– Parecia não haver nada melhor para fazer – disse, grogue.
– Ora, lorde Blackwood está no andar de baixo com o reverendo, Sr. Dawes, e parece bastante ansioso para começar a cerimônia.
– Que horas são? – perguntou Belle, totalmente desperta.
– Seis e meia da noite.
Santo Deus, por quanto tempo dormira?
– Algum dos meus parentes já chegou?
Os três que supostamente apareceriam, pensou, melancólica.
– Não, mas ouvi dizer que as estradas em direção à cidade estão cheias de lama.
Belle suspirou.
– Ora, suponho que não podemos esperar a noite toda por eles. Por favor, diga a lorde Blackwood que descerei assim que puder. Ah, e por favor, não comente com ele que eu estava dormindo.
Persephone assentiu e deixou o quarto.
Belle se levantou e foi até o quarto de vestir, onde seu vestido um pouco casual demais estava pendurado. Ela imaginou que deveria chamar a camareira para ajudá-la. Sempre sonhara em ter a mãe e Emma – e talvez algumas amigas – com ela para ajudá-la a se vestir no dia do seu casamento. Elas estariam sorrindo e brincando e dando risadas por qualquer tolice. Seria um grande evento e ela se sentiria como uma rainha.
Só que não havia ninguém. Estava sozinha. Sozinha no dia do próprio casamento. Que deprimente.
Seus pensamentos se voltaram para John, que sem dúvida a esperava, impaciente, no andar de baixo. Conseguia imaginá-lo andando de um lado para o outro no salão de visitas, o passo marcado pelo claudicar pelo qual Belle passara a sentir tanta ternura. Seus lábios se curvaram em um sorriso. Não estava sozinha. E jamais estaria.
Belle acabara de estender a mão para o vestido quando ouviu uma comoção no corredor. Virou a cabeça na direção da porta, que foi aberta com um movimento brusco. Emma entrou praticamente voando no quarto.
– Santo Deus, prima! – falou, afogueada e ofegante.
Belle não tinha dúvida de que Emma subira a escada dois degraus por vez.
– Não acha que poderia ter me avisado com um pouco mais de antecedência?
– Foi uma decisão meio súbita – falou Belle.
– Isso soa como um grande eufemismo.
A atenção delas foi distraída por uma comoção ainda maior no corredor.
– Ah, meu Deus! – murmurou Emma. – Deve ser Alex.
O homem em questão quase chutou a porta para entrar.
– Sem dúvida é ele – concordou Belle, com ironia.
Alex estava arfante. Belle imaginou que ele talvez tivesse subido as escadas três degraus por vez. Alex xou os olhos verdes na esposa com uma expressão letal, e Emma teve a elegância de parecer ao menos um pouco constrangida.
– Se algum dia eu a vir pular da carruagem daquele jeito de novo, que Deus me ajude, vou castigá-la.
Emma escolheu o caminho da menor resistência e simplesmente não respondeu ao marido.
– Ele anda um pouco superprotetor por causa do meu estado delicado – explicou a Belle.
– Emma... – falou Alex em tom de alerta.
John escolheu aquele momento para aparecer à porta.
– Que raios está acontecendo aqui?
Belle deu um gritinho e correu para o quarto de vestir.
– Você não pode me ver! – gritou.
– Ah, pelo amor de Deus, Belle. Este não é exatamente um casamento normal.
– Vai ser tão normal quanto eu quiser. Portanto, saia. Eu o verei no andar de baixo.
A voz dela saiu abafada, através de várias camadas de tecido e uma grossa porta de madeira.
Alex revirou os olhos.
– Mulheres – murmurou.
Aquilo fez com que a esposa o olhasse com profunda irritação.
– Preciso de um drinque – continuou ele e se apressou a sair do quarto.
John o seguiu sem olhar para trás.
Emma fechou a porta e correu para o quarto de vestir.
– Eles saíram – disse baixinho, sem saber muito bem por que sussurrava.
– Tem certeza?
– Pelo amor de Deus, Belle. Eu tenho olhos, não tenho? Estou lhe dizendo, eles foram embora.
Belle espiou o cômodo e, quando teve certeza de que não havia mais criaturas do sexo masculino, se arriscou a sair.
– Eu achava que você era a pessoa mais sensata que eu conhecia – murmurou Emma.
– Perdi a sensatez – declarou Belle, a sério.
– Tem certeza de que está pronta para fazer isso?
Belle assentiu e uma lágrima escorreu de seus olhos.
– Eu só achei que seria diferente. Minha mãe nem está aqui!
Ela fungou alto.
Comovida pelas lágrimas da prima, Emma tocou o braço dela.
– Você pode esperar, Belle. Não há motivo para seguir com esse casamento hoje.
Belle balançou a cabeça.
– Não posso esperar, Emma. Nem mais um dia.
E contou toda a história à prima.