Brilhante
Capítulo 14
– Com licença, chegou uma mensagem para milady.
Belle levantou os olhos assim que o criado entrou na sala. Estava sentada, devaneando, relembrando a noite com John – pela quinquagésima vez, mais ou menos. Ela pegou o bilhete, abriu-o com cuidado e leu o que estava escrito.
Belle,
Peço perdão por avisá-la com tão pouca antecedência, mas não
posso acompanhar você e Persephone ao teatro esta noite.
Atenciosamente,
John Blackwood
Belle cou olhando para o texto por cerca de um minuto, confusa com o tom formal. Mas acabou por dar de ombros, concluindo que algumas pessoas sempre escreviam de maneira formal e que não deveria car aborrecida por ele ter se despedido com um “atenciosamente” no lugar de “com amor”. Tampouco importava o fato de ele ter sentido a necessidade de assinar o sobrenome em vez de apenas o nome. Deixou o bilhete de lado, dizendo a si mesma para não car imaginando coisas.
Belle deu de ombros mais uma vez. Talvez Dunford estivesse interessado em acompanhá-las ao teatro.
Dunford quis mesmo ir ao teatro e se divertiu muito acompanhando Belle e Persephone. No entanto, durante a apresentação, os pensamentos de Belle com frequência se desviaram para o homem que havia se esgueirado para dentro do quarto dela na noite da véspera. Ela se perguntava o que o impedira de acompanhá-la naquela noite, mas imaginou que John lhe explicaria tudo no dia seguinte.
Só que ele não apareceu no dia seguinte. Nem no outro.
Belle cou muito confusa. E muito irritada. Fora alertada sobre homens que usavam as mulheres para o próprio prazer e as descartavam a seguir, mas não conseguia se convencer a colocar John naquela categoria. Antes de tudo, ela se recusava a acreditar que poderia ter se apaixonado por um homem tão desonesto. Além disso, fora ela que gemera de prazer naquela noite, não ele.
Depois de dois dias de espera, torcendo para ter notícias de John, Belle decidiu tomar as rédeas da situação e mandou um bilhete para ele, pedindo que passasse na mansão Blydon.
Não houve resposta.
Belle cou resmungando, irritada. John sabia muito bem que ela não poderia visitá-lo, já que ele estava hospedado com o irmão também solteiro. Era inapropriado que uma dama fosse sozinha a um lugar assim. Ainda mais em Londres. A mãe arrancaria a cabeça dela se descobrisse isso, o que era muito provável, levando-se em consideração que a condessa estaria de volta a qualquer momento.
Belle mandou outra mensagem a John, escolhendo cuidadosamente as palavras dessa vez, perguntando se zera algo que o desagradara e se ele poderia fazer a gentileza de responder ao bilhete. Ela sorriu com ironia para si mesma enquanto escrevia aquilo. Não era muito boa em esconder o sarcasmo.
A poucas ruas de distância, John gemeu ao ler o bilhete de Belle. Ela estava
cando aborrecida, não restava dúvida. E como poderia culpá-la? Depois de duas semanas de ores, chocolates, poesia e, por m, uma noite apaixonada, a jovem tinha o direito de querer vê-lo.
Mas o que mais ele poderia fazer? Recebera outro bilhete anônimo no dia seguinte ao do ataque que sofrera, onde se lia apenas: “Na próxima vez, não vou errar.” John tinha certeza de que Belle assumiria para si o papel de protegê-lo caso soubesse que alguém tentava matá-lo. E, levando-se em consideração que John não tinha a menor ideia de como Belle seria capaz dessa façanha, uma empreitada dessas só causaria danos a ela.
John suspirou, a ito, e apoiou a cabeça nas mãos. Agora que a felicidade
nalmente estava ao seu alcance, como poderia passar o resto da vida
temendo que uma bala o pegasse desprevenido? Fez uma careta. As palavras “o resto da vida” subitamente haviam ganhado um novo signi cado. Se aquele assassino continuasse a tentar, mais cedo ou mais tarde teria sucesso. John precisava de um plano.
Contudo, naquele meio-tempo, tinha que manter Belle a distância – dele e da arma que vinham lhe apontando. Com o coração terrivelmente pesado, John pegou uma pena e molhou no tinteiro.
Cara Belle,
Não poderei vê-la por algum tempo. Não posso explicar o motivo.
Por favor, seja paciente comigo.
Atenciosamente,
John Blackwood
Ele sabia que deveria romper qualquer relacionamento com ela, mas não conseguia. Belle era a única coisa que lhe dera verdadeira alegria na vida; não estava disposto a perdê-la. John desceu a escada segurando o bilhete como se carregasse uma doença contagiosa e o entregou a um criado. Belle o receberia em no máximo uma hora.
Ele não queria nem pensar a respeito.
Belle leu o bilhete curto e piscou. Aquilo não podia ser verdade. Piscou de novo. As palavras não desapareceram.
Havia algo terrivelmente errado. John estava tentando afastá-la de novo. Ela não sabia o motivo, tampouco imaginava por que ele achava que conseguiria, só não acreditava que John de fato não a quisesse.
Como era possível, se ela o queria tanto? Deu não seria tão cruel.
Belle afastou aqueles pensamentos depressivos. Tinha que con ar em seus instintos, e eles lhe diziam que John gostava dela. Muito. Tanto quanto ela gostava dele. Ele havia pedido que ela, por favor, fosse paciente. Aquilo parecia indicar que tentava resolver algum problema. E não queria envolvê-la. Bem típico dele.
Belle grunhiu. Quando John iria aprender que amar signi cava compartilhar os fardos um com o outro? Ela amassou o papel até que virasse uma bolinha e o segurou com força. Pois bem, John teria a primeira lição a respeito disso naquela tarde, porque ela iria vê-lo. O decoro que se danasse!
E aquilo era outra coisa. Ela passara a praguejar mentalmente em proporções épicas nos últimos dias. Começava a car estarrecida consigo mesma. Belle deixou o bilhete de lado e esfregou as mãos. Sentia certo prazer em culpar John por sua linguagem chula.
Sem se dar o trabalho de vestir uma roupa mais elegante, ela pegou uma capa quente e saiu pisando rme em busca da camareira. Encontrou-a no quarto de vestir avaliando os vestidos em busca de algum pequeno conserto necessário.
– Ah, olá, milady – apressou-se a dizer Mary. – Já sabe que vestido deseja usar esta noite? Precisarei passá-lo.
– Isso não importa – retrucou Belle bruscamente. – Acho que não vou nem sair esta noite. Mas quero dar uma breve caminhada agora à tarde e gostaria que me acompanhasse.
– Agora mesmo, milady.
Mary pegou o casaco e desceu a escada com Belle.
– Aonde vamos?
– Bem, não muito longe – respondeu Belle, enigmática.
Ela abriu a porta e desceu os degraus da frente da casa com os lábios cerrados em uma expressão determinada.
Mary precisou acelerar o passo para acompanhá-la.
– Nunca a vi caminhar tão rápido, milady.
– Sempre ando depressa quando estou irritada.
Mary não tinha resposta para aquilo, por isso apenas suspirou e continuou a andar a um passo acelerado. Depois de terem percorrido alguns quarteirões, Belle se deteve subitamente. Mary quase esbarrou nela.
– Hummm – disse Belle.
– Hummm?
– É aqui.
– O que é aqui?
– A casa do conde de Westborough.
– Que conde?
– O irmão de John.
– Ah.
Mary vira John várias vezes ao longo das últimas semanas.
– Por que estamos aqui?
Belle respirou fundo e ergueu o queixo em uma atitude decidida.
– Vamos fazer uma visita.
Sem esperar pela resposta de Mary, ela subiu os degraus e bateu com a aldrava três vezes na porta.
– O quê? – guinchou Mary. – A senhorita não pode visitar essa casa.
– Não só posso como vou.
Impaciente, Belle voltou a bater com a aldrava na porta.
– Mas... mas... só moram homens nessa casa.
Belle revirou os olhos.
– Sinceramente, Mary, não precisa falar deles como se fossem de uma espécie diferente. Homens são como você e eu – retrucou Belle, e enrubesceu. – Bem, quase.
Belle havia acabado de levar a mão mais uma vez à aldrava quando o mordomo atendeu a porta. Ela lhe entregou um cartão de visita e disse que estava ali para ver lorde Blackwood. Mary estava tão constrangida que não conseguiu erguer os olhos acima do nível dos joelhos de Belle.
O mordomo levou as duas até uma pequena sala junto ao saguão de entrada.
– Persephone vai me jogar na rua – sussurrou Mary, balançando a cabeça.
– Não vai, não. Além do mais, você trabalha para mim, portanto ela não pode demiti-la.
– Mas ela não vai car nada satisfeita com isso.
– Não vejo por que Persephone precise saber a respeito disso – falou Belle com determinação.
Por dentro, contudo, ela tremia. O que estava fazendo era muito fora das normas e, se havia algo para que a mãe dela não a criara, era quebrar regras. Sim, ela visitara John sozinha quando estavam no campo, mas as regras de etiqueta não são tão rígidas lá.
Quando Belle já começava a achar que seus nervos não aguentariam mais nem um minuto de espera, o mordomo retornou.
– Lorde Blackwood não receberá visitas, milady.
Belle arquejou diante do insulto. John havia se recusado a vê-la. Levantou-se e saiu da sala com a cabeça erguida, exibindo a dignidade que fora instilada nela desde o nascimento. E não parou até ter percorrido um bom trecho da rua. Então, incapaz de se conter, olhou para trás.
John estava parado diante de uma janela no terceiro andar da casa do irmão, olhando para ela.
Assim que ele a viu se virar, recuou e soltou as cortinas.
– Hum – murmurou Belle, ainda olhando para a janela.
– O que foi?
Mary seguiu o olhar dela, mas não encontrou nada que lhe chamasse a atenção.
– É uma bela árvore essa diante da casa.
Mary ergueu as sobrancelhas, certa de que a patroa enlouquecera.
Belle passou a mão pelo queixo.
– É incomumente próxima da parede externa – comentou com um sorriso. – Venha, Mary, temos trabalho a fazer.
– Temos?
Mas a pergunta se perdeu, uma vez que Belle já havia se afastado da camareira, apressada.
Quando entrou em casa, Belle foi direto para o quarto, pegou papel na escrivaninha e escreveu um bilhete para Emma, que fora uma menina muito mais moleca do que ela.
Caríssima Emma,
Como se sobe em árvores?
Carinhosamente,
Belle
Depois de mandar o bilhete para a prima, Belle se dedicou a lidar com a raiva e a tristeza da melhor maneira que conhecia: foi às compras.
Para aquela saída, ela levou Persephone como companhia. A dama mais velha nunca se cansava de passear pelas lojas elegantes de Londres. Havia muito mais variedades do que em Yorkshire, explicara ela. Além do mais, era divertido gastar o dinheiro de Alex.
Nenhuma das duas mulheres precisava de roupas novas depois da última saída delas, mas as festas de m de ano estavam chegando, então passearam por lojas diversas em busca de presentes. Belle encontrou um pequeno telescópio muito interessante para o irmão e uma caixinha de música encantadora para a mãe, mas não conseguiu impedir que o próprio coração ansiasse por comprar algo para John. Belle suspirou. Só o que tinha a fazer era acreditar que tudo daria certo no nal. Não poderia se permitir acreditar em outra possibilidade. Seria doloroso demais.
Provavelmente por estar tão perdida em pensamentos, Belle não reparou em dois homens de aparência bastante desagradável espreitando em um beco quando ela passou. Antes que se desse conta, um dos homens a agarrou pelo braço e começou a puxá-la para o fundo do beco.
Belle gritou e se debateu com todas as forças. O bandido a arrastou o bastante para que ninguém que passasse pela rua principal pudesse vê-la. E Londres se tornara uma cidade tão barulhenta que era compreensível que as pessoas não prestassem muita atenção aos gritos dela.
– Me solte, seu patife! – gritou Belle.
Parecia que seu braço estava prestes a ser arrancado, mas ela ignorou a dor, concentrada apenas em escapar.
– É ela, estou lhe dizendo – falou um dos bandidos. – Era essa que o camarada elegante queria.
– Cale a boca e traga a mulher aqui.
O outro homem se adiantou e o terror de Belle aumentou exponencialmente. Não havia como reagir à força dos dois.
Entretanto, quando tudo parecia perdido, o socorro improvável surgiu na gura de Persephone. A mulher mais velha estivera distraída olhando uma linda vitrine quando Belle desapareceu no beco. Ficou desconcertada ao se virar e ver que sua pupila havia desaparecido. Quando chamou pelo nome de Belle e não teve resposta, Persephone cou preocupada e começou a procurar freneticamente pela jovem.
– Belle! – chamou mais uma vez, agora mais alto.
Ela seguiu às pressas pela calçada, virando a cabeça em todas as direções. Então, ao passar pelo beco, notou um movimento indistinto e os cabelos loiros familiares de Belle.
– Bom Deus! – gritou Persephone, alto o bastante para chamar a atenção da maior parte das pessoas na calçada. – Soltem a moça, seus animais.
Persephone entrou correndo no beco, brandindo furiosamente a sombrinha acima da cabeça.
– Soltem, estou mandando!
E, com isso, Persephone acertou a sombrinha com força na cabeça de um dos bandidos.
– Cale a boca, velha idiota! – gritou o homem, uivando de dor.
A resposta de Persephone foi um golpe horizontal que o acertou em cheio na barriga. Ele ofegou e caiu no chão.
O outro bandido estava dividido entre um pânico profundo e a mais pura cobiça pelo dinheiro prometido caso capturassem a dama de cabelos loiros. Ele fez uma última tentativa desesperada, mal se dando conta de que várias pessoas haviam entrado correndo no beco, atraídas pelos gritos nervosos de Persephone.
– Eu disse para soltá-la! – bradou Persephone.
Ela mudou suas táticas de ataque e começou a cutucar o homem com força com a sombrinha. Quando o acertou direto no ventre, ele nalmente soltou Belle e saiu correndo, o corpo dobrado de dor.
– Persephone, muito obrigada! – disse Belle, com lágrimas de terror marejando seus olhos.
Contudo Persephone não estava ouvindo. Toda a sua atenção estava voltada para o homem que ainda jazia no chão. Ele fez menção de se levantar, mas ela o atingiu de novo na barriga com a sombrinha.
– Não tão rápido, senhor – disse ela.
Belle arregalou os olhos. Quem teria sonhado que a doce Persephone poderia ser tão ameaçadora?
O bandido viu a aglomeração que se formava ao redor dele e fechou os olhos, dando-se conta de que seria impossível fugir. Para o grande alívio de Belle, um policial chegou logo e ela lhe relatou o que acontecera. O policial começou a interrogar o bandido, mas o homem manteve a boca fechada. Ao menos até o policial lembrar a ele das possíveis consequências de atacar uma dama da posição de Belle.
Então o homem não parou de falar.
Ele havia sido contratado para raptá-la. Sim, só ela. Não era para raptar qualquer dama bela e loira, mas aquela em particular. O cavalheiro que o contratara falava com um sotaque elegante, com certeza era bem-nascido. Não, ele não sabia o nome do homem e nunca o vira antes, mas tinha cabelos loiros lisos e olhos azuis, se aquilo fosse de alguma ajuda, e seu braço estava em uma tipoia.
Depois de terminar o interrogatório, o policial levou o homem embora e orientou Belle a ser cautelosa. Talvez ela devesse contratar um daqueles patrulheiros da Bow Street para garantir proteção extra.
Belle estremeceu de medo. Tinha um inimigo. Alguém que provavelmente a queria morta.
Conforme as pessoas que assistiam à cena se dispersavam, Persephone se virou para Belle e perguntou, solícita:
– Você está bem, querida?
– Sim, sim. Estou bem.
Ela baixou os olhos para examinar o braço que aquele homem horrível agarrara. Apesar do vestido e do casaco que cobriam sua pele, Belle ainda se sentia suja.
– Mas acho que gostaria de um banho.
Persephone assentiu.
– Eu não teria ideia melhor.
No nal da manhã seguinte, um criado entregou a Belle uma carta de Emma em resposta à que ela enviara.
Caríssima Belle,
Não consigo imaginar por que você subitamente quer aprender a
subir em árvores, já que nunca demonstrou nenhum apreço por essa
atividade quando éramos pequenas.
O primeiro passo é encontrar uma árvore com galhos baixos. Se
você não conseguir alcançar o primeiro galho, não vai chegar a lugar
algum...
A carta continuava por duas páginas. Emma era muito apegada aos detalhes. Ela também estava um pouco descon ada, como cava claro no
m do texto.
Espero que essas instruções a ajudem, embora eu me pergunte que
árvores você pretende escalar em Londres. Devo dizer que acho que
isso tem alguma relação com John Blackwood. O amor faz coisas
estranhas com as mulheres, como eu bem sei. Tenha cuidado, não
importa o que você faça, e neste momento estou suspirando de alívio
por já não ser a sua acompanhante. Deus abençoe Persephone.
Carinhosamente,
Emma
Belle deixou escapar uma risadinha zombeteira. Se Emma ainda fosse sua acompanhante, provavelmente insistiria em subir na árvore com ela. A prima nunca fora conhecida por sua prudência.
Belle releu a carta, detendo-se com atenção na parte que respondia à sua pergunta. Ia mesmo fazer aquilo? Quando parara do lado de fora da casa de Damien e vira a árvore, não pensara que chegaria a escalá-la. Não era o tipo de dama ousada que subiria em uma árvore para invadir a casa de um conde por uma janela no terceiro andar. Além do mais, tinha medo de altura.
Todavia, como Emma tão sabiamente enfatizara, o amor fazia coisas estranhas com uma mulher. O amor e o perigo, pois a experiência terrível que vivera nas mãos daqueles dois bandidos no beco a convencera de que era hora de agir com determinação.
Ou talvez com temeridade.
Belle balançou a cabeça. Não importava. Já decidira. Estava assustada e precisava de John.
Porém aqueles bandidos haviam complicado um pouco seus planos. Ela não poderia simplesmente ir sozinha até a casa de Damien no meio da noite, quando alguém desejava raptá-la. E Mary, é claro, não seria proteção su ciente. Persephone e sua sombrinha perigosa eram outra história, mas Belle duvidava que a acompanhante concordasse em ir com ela. Persephone podia ser um tanto permissiva no que se referia a acompanhantes, mas certamente não deixaria Belle invadir o quarto de um homem.
O que fazer, o que fazer?
Belle deu um sorriso travesso.
Depois pegou uma pena e escreveu um bilhete para Dunford.
– De jeito nenhum!
– Não seja antiquado, Dunford – disse Belle. – Preciso da sua ajuda.
– Você não precisa de ajuda, precisa de um freio. E não estou sendo antiquado, mas sensato. Uma palavra que você parece ter esquecido.
Belle cruzou teimosamente os braços e afundou na cadeira. Dunford estava de pé, andando de um lado para o outro, agitando os braços enquanto falava. Ela nunca o vira tão aborrecido.
– Isso que você está pensando em fazer é uma insanidade, Belle. Se não quebrar o pescoço... e há uma grande possibilidade de que isso aconteça, já que toda a sua experiência em escalar árvores se resume a uma carta da sua prima... Bem, caso não quebre o pescoço, provavelmente será presa por invadir a casa dos outros.
– Não serei presa.
– É mesmo? E como sabe que vai entrar no quarto certo? Com a sua sorte, vai acabar caindo no quarto do conde. E já vi como ele olha para você. Acho que caria muito satisfeito com a boa sorte.
– Não caria, não. O conde sabe que estou interessada no irmão dele. E não vou “cair no quarto dele”, como você colocou de forma tão delicada. Sei qual é o quarto de John.
– Não vou nem perguntar como sabe disso.
Estava na ponta da língua de Belle defender sua reputação, mas ela preferiu não dizer nada. Se Dunford achasse que ela já estivera no quarto de John, talvez se sentisse menos relutante em ajudá-la a voltar lá.
– Escute, Belle, minha resposta ainda é não. De jeito nenhum! Com três pontos de exclamação – acrescentou ele.
– Se você fosse meu amigo... – murmurou Belle.
– Essa é a questão. Sou seu amigo exatamente por não permitir que faça isso. Um ótimo amigo. Não há nada que você possa dizer que me faça ajudá-la.
Belle se levantou.
– Ora, muito obrigada, então, Dunford. Estava contando com a sua ajuda, mas vejo que terei que fazer isso sozinha.
Dunford gemeu.
– De jeito nenhum. Belle, você não iria até lá sozinha.
– Não tenho escolha. Preciso vê-lo com urgência e ele não me recebe. Acho que vou chamar um coche de aluguel para me deixar perto da casa, assim não terei que caminhar uma longa distância sozinha tão tarde da noite, mas...
– Está certo, está certo – cedeu Dunford com uma expressão exasperada. – Vou ajudá-la, mas quero que saiba que desaprovo completamente.
– Não se preocupe, você já deixou isso bem claro.
Dunford afundou na cadeira e fechou os olhos em agonia.
– Que Deus nos ajude – falou com um gemido. – Que Deus ajude todos nós.
Belle sorriu.
– Ah, acho que Ele vai ajudar.