Brilhante
Capítulo 4
Belle não conseguiu parar de pensar em John pelo resto do dia. Foi para a cama cedo, na esperança de que uma boa noite de sono lhe desse uma nova perspectiva. Porém o sono lhe escapou por horas e, quando ela por m adormeceu, John assombrou seus sonhos com uma persistência impressionante.
Na manhã seguinte, Belle dormiu um pouco mais do que o habitual. Ainda assim, ao descer para o café da manhã, descobriu que Alex e Emma haviam cado até mais tarde no quarto de novo. Ela não se sentia disposta a procurar distrações, de modo que terminou logo o café e decidiu dar uma caminhada.
Belle avaliou as próprias botas e concluiu que eram resistentes o bastante para uma boa caminhada. Então, depois de deixar com Norwood um bilhete para os primos, saiu pela porta da frente.
O ar de outono estava fresco, mas não frio, e Belle cou feliz por não ter se dado ao trabalho de buscar uma capa. Seguiu a passos largos e rápidos e se pegou indo para leste. Leste. Onde cava a propriedade de John Blackwood.
Belle gemeu. Deveria ter imaginado que aquilo aconteceria. Ela parou, tentando se forçar a dar meia-volta e ir para oeste. Ou para norte, sul, noroeste... qualquer lugar, menos leste. Contudo seus pés se recusaram a obedecer e ela seguiu adiante, tentando desculpar o próprio comportamento dizendo a si mesma que só sabia chegar à mansão Blondwood pegando a estrada principal e, como agora ia pelo bosque, provavelmente jamais chegaria lá.
Ela franziu o cenho. O nome da propriedade não era Blondwood. Entretanto, por mais que se esforçasse, não conseguia lembrar como realmente se chamava. Balançou a cabeça e continuou a andar.
Uma hora se passou e Belle começou a se arrepender da decisão de não levar a égua. Era uma caminhada de cerca de três quilômetros até o limite da propriedade de Alex e, pelo que John lhe dissera na véspera, a casa dele
cava outros três quilômetros adiante. Suas botas não eram tão confortáveis
como ela esperara, e Belle descon ava de que ganharia uma bolha no calcanhar direito.
Ela tentou manter a animação, mas logo a dor se tornou irritante. Com um gemido alto, ela desistiu: a bolha vencera.
Belle se agachou e apalpou a relva para conferir se estava úmida. O orvalho da manhã já havia evaporado. Assim, ela se sentou no chão, desamarrou a bota e a puxou. Estava prestes a se levantar e retomar a caminhada quando percebeu que usava suas meias favoritas. Com um suspiro, en ou a mão sob a saia e tirou a meia direita.
De sua posição, a dez metros de distância, John não conseguia acreditar em seus olhos. Belle entrara de novo em sua propriedade e ele estava prestes a aparecer para a moça quando ela começara a resmungar e então sentara no chão de forma nada recatada.
Intrigado, John se escondera atrás de uma árvore. O que se seguira tinha sido a cena mais sedutora com que ele poderia ter sonhado. Depois de descalçar o sapato, Belle levantara as saias bem acima dos joelhos, dando a ele uma visão irresistível das pernas bem-feitas. John quase gemera. Em uma sociedade que considerava promíscuo exibir os tornozelos, aquilo era realmente ousado.
John sabia que não deveria olhar. Mas, parado ali enquanto Belle descalçava a meia, ele não conseguira encontrar alternativa melhor. A nal, se a chamasse, a constrangeria. Era melhor a jovem não saber que ele estava ali. John supôs que um verdadeiro cavalheiro teria a decência de virar as costas, só que ele já descobrira que, na maior parte, os homens que alardeavam ser cavalheiros não passavam de tolos.
Ele simplesmente não conseguia tirar os olhos de Belle. A inocência dela só a tornava mais sedutora – mais até do que a maioria das pro ssionais naquela arte. Aquele striptease não intencional cava ainda mais sensual porque ela descalçava a meia com toda a lentidão – não porque soubesse que tinha plateia, mas porque parecia se deleitar com a sensação da seda deslizando pela pele macia.
Então, cedo demais para o gosto de John, ela terminou de tirar a meia e resmungou novamente para si mesma. Ele sorriu. Nunca conhecera alguém que falasse sozinho com tanta frequência – ainda mais naquele tom tão divertido.
Belle se levantou e examinou algumas vezes a própria roupa, até seu olhar parar em um laço que enfeitava o vestido. Ela amarrou a meia com
rmeza ali, então se abaixou e pegou a bota. John quase riu quando a jovem
voltou a resmungar e olhar com raiva para o sapato – como se ele fosse um animalzinho agressivo – ao se dar conta de que teria sido mais fácil en ar a meia ali para não perdê-la.
John a ouviu suspirar bem alto, então encolher os ombros e começar a se afastar. Ele ergueu uma sobrancelha ao perceber que ela não voltava para casa; ia na direção da casa dele. Sozinha. Seria de imaginar que a jovem teria o bom senso de escutar o alerta dele. John acreditara que a havia assustado no dia anterior. Deus sabia que ele próprio cara assustado. Contudo não conseguiu conter um sorriso, porque, calçada com apenas uma das botas, Belle mancava quase tanto quanto ele.
John se virou depressa e voltou para o bosque. Depois do acidente, ele exercitava com frequência a perna atingida, de modo que já conseguia caminhar com velocidade, quase tão rápido quanto um homem sem de ciência. O único porém era que o esforço excessivo a levaria a doer mais tarde, como se ele tivesse caminhado – não, mancado – até o inferno e voltado.
Entretanto John não estava pensando nisso quando seguiu, apressado, pelo bosque. Seu foco era descobrir como passar por entre as árvores e interceptar Belle perto da mansão Bletchford sem que ela percebesse que ele a espiara.
Ele sabia que o caminho fazia uma curva subindo à direita mais à frente, por isso atravessou o bosque em diagonal, praguejando contra cada raiz de árvore que sua falta de agilidade não permitia pular. Quando por m alcançou a trilha que cava a menos de um quilômetro da casa, seu joelho latejava e ele ofegava de cansaço.
John apoiou as mãos nas coxas e se abaixou por um momento, tentando recuperar o fôlego. Pontadas de dor subiam e desciam pela perna mais fraca e o mero ato de esticá-la já era uma agonia. Ele franziu o rosto e esfregou o joelho até a dor aguda se tornar mais tolerável, apesar de ainda presente.
Ele se ergueu bem a tempo. Belle acabara de surgir mancando pela curva da trilha. Ele caminhou rapidamente na direção dela, querendo dar a impressão de que estivera passeando por ali a manhã toda.
Ela não o viu de imediato, porque estava com os olhos xos no chão, para tentar evitar pedrinhas que pudessem machucar seu pé descalço. Os dois estavam a cerca de apenas três metros um do outro quando Belle ouviu o som dos passos dele. Ela levantou os olhos e o viu aproximando-se. John exibia seu sorrisinho enigmático, como se soubesse de algo que ela desconhecia. Na verdade, pensou Belle, era mais como se ele soubesse de algo que ela nunca descobriria.
– Ah, olá, lorde Blackwood – disse Belle, tentando sorrir de forma tão enigmática quanto ele.
Porém julgou ter fracassado. Não conseguira ser misteriosa nem um único dia na vida. Além disso, seu tom soou animado demais.
Em meio à turbulência de pensamentos de Belle, John meneou a cabeça.
– Imagino que esteja se perguntando o que faço mais uma vez na sua propriedade – comentou ela.
John ergueu uma sobrancelha e Belle não conseguiu entender o que aquilo signi cava. Seria “Que invasorazinha irritante!”, ou “A senhorita é uma criatura tão insistente que chega a ser divertida”, ou “Não vale a pena perder meu tempo com você”? Assim, ela avançou devagar.
– Percebi que estava na sua propriedade, porém segui para leste de Westonbirt quando parti esta manhã. Não sei por que z isso, mas z, e a divisa a leste é bem mais perto da casa do que qualquer outra, por isso, como gosto de dar longas caminhadas, era natural que eu alcançasse o limite entre as duas propriedades, e achei que o senhor não se importaria.
Ela se calou por um momento. Estava falando compulsivamente. Não costumava fazer aquilo e cou muito aborrecida consigo mesma.
– Não me importo – declarou John com simplicidade.
– Ah. Ora, isso é bom, eu acho, porque não tenho o menor desejo de ser retirada à força da sua propriedade.
Aquilo soou muito tolo. Belle fechou a boca de novo.
– Seria mesmo preciso usar a força para retirá-la da minha propriedade? Não tinha ideia de que gostava tanto daqui.
Belle deu um sorriso travesso.
– O senhor está implicando comigo.
John deu outro de seus sorrisinhos, do tipo que seria profundamente expressivo caso o restante do rosto dele não permanecesse tão insondável.
– O senhor não fala muito, não é? – disse Belle sem pensar.
– Não acho que haja necessidade. A senhorita parece estar administrando admiravelmente bem os dois lados da conversa.
Belle franziu o cenho.
– Que coisa horrível de dizer.
Ela o encarou. Os olhos castanhos de John, sempre tão inescrutáveis, agora mostravam uma expressão divertida. Belle suspirou.
– Mas é verdade – admitiu ela. – Não costumo falar tanto, sabe?
– É mesmo?
– Sim. Acredito que, pelo fato de o senhor ser tão calado, eu sinta a necessidade de falar mais.
– Ah. Então agora a culpa cai sobre os meus ombros?
Belle lançou um olhar sedutor para os ombros dele, que eram um pouco mais largos do que ela se lembrava.
– Eles de fato me parecem um pouco mais capazes de sustentar uma carga tão pesada.
John sorriu para ela, sorriu de verdade – o que era um feito, já que não ocorria com frequência. De repente, ele se sentiu satisfeito por estar usando um de seus melhores paletós – costumava escolher um dos mais antigos para suas caminhadas matinais. Então se pegou irritado por dar importância àquilo.
– É uma nova moda? – perguntou ele, indicando a bota que ela carregava.
– Bolhas no pé – explicou Belle, erguendo o vestido alguns centímetros.
Ela sabia que aquilo ia contra as regras do decoro, mas não deu importância. Os dois já haviam tido conversas tão bizarras que a etiqueta vigente não parecia se aplicar.
No entanto, para surpresa de Belle, John se abaixou, apoiado em um dos joelhos, e pegou o pé dela.
– Se importa se eu der uma olhada? – perguntou.
Belle puxou o pé, a ita.
– Acho que não é necessário – apressou-se a dizer.
Ver o pé dela era uma coisa. Tocá-lo era outra completamente diferente.
John continuou a segurar o pé machucado de Belle.
– Não seja pudica, Belle. Pode acabar infeccionando, aí realmente se sentiria mal.
Ela piscou algumas vezes, surpresa pela ousadia dele de dirigir-se a ela pelo seu apelido.
– Como sabe que sou chamada de Belle? – perguntou por m.
– Ashbourne me disse – respondeu John, examinando os dedos pálidos do pé da moça. – Onde está essa maldita bolha?
– No meu calcanhar – disse ela e se virou de costas para que ele visse melhor.
John deixou escapar um assovio baixo.
– A bolha está bem feia. Talvez seja melhor adquirir um par de sapatos adequados para quando for fazer expedições pelo campo.
– Eu não estava em uma expedição. Estava dando uma simples caminhada. E tenho sapatos mais adequados. A verdade é que só me decidi a sair para caminhar esta manhã depois de já estar vestida, e não quis trocar de sapato.
Belle deixou escapar um suspiro de frustração. Por que sentia necessidade de se explicar para ele?
John se levantou, pegou um lenço branco e engomado e segurou Belle pelo braço.
– Há um lago não muito distante daqui. Posso pegar um pouco de água para limpar o machucado.
Belle soltou as saias.
– Não acho necessário, John.
Ele gostou de ouvi-la pronunciar seu nome daquela forma sugestiva e
cou feliz por tê-la chamado de Belle sem pedir permissão. Havia decidido
que gostava de lady Arabella, mesmo ela sendo um pouco aristocrata demais para ele. Não conseguia se lembrar da última vez que sorrira tanto. Belle era inteligente e divertida – um pouco bela demais para a paz de espírito de um homem, mas John tinha certeza de que, com um pouco de esforço, conseguiria controlar a atração que sentia por ela.
A jovem, no entanto, mostrava uma lamentável desatenção com o próprio bem-estar, como cava claro pela ausência de óculos para ler, pela bolha que facilmente infeccionaria e pela tendência àquelas caminhadas desacompanhada. Ela precisava que alguém colocasse um pouco de juízo em sua cabeça. Como não viu mais ninguém por perto, John decidiu que poderia muito bem ser ele essa pessoa, então começou a caminhar na direção do lago quase arrastando-a consigo.
– Jo-ohn! – protestou Belle.
– Be-elle! – retrucou ele, imitando o tom de reclamação.
– Sou perfeitamente capaz de cuidar de mim mesma – falou ela, apressando o passo para acompanhar o dele.
Para um homem com um claudicar tão pronunciado, John era capaz de se mover bem rápido.
– Obviamente não é, ou estaria com um par de óculos apoiado no nariz.
Belle estacou com tanta força que John chegou a cambalear.
– Só preciso deles para ler – a rmou.
– Aquece meu coração ouvi-la admitir isso.
– Achei que estava começando a gostar do senhor, mas agora tenho certeza de que não é o caso.
– Ainda gosta de mim – disse ele, sorrindo, enquanto voltava a puxá-la na direção do lago.
Belle cou boquiaberta.
– Não gosto, não.
– Sim, gosta.
– Não, eu... Está certo, talvez só um pouco – admitiu ela. – Mas acho que age de forma muito autoritária.
– E eu acho que há uma bolha horrível no seu calcanhar. Portanto, pare de reclamar.
– Eu não estava...
– Estava, sim.
Consciente de que tagarelava, Belle se calou. Com um suspiro,
nalmente cedeu e o deixou guiá-la até o lago. Quando chegaram lá, ela se
sentou na grama perto da margem enquanto John ia até a água e molhava o lenço.
– Está limpo? – perguntou ela.
– Meu lenço ou o lago?
– Os dois!
John voltou até onde ela estava e exibiu um lenço branco como a neve.
– Limpíssimos.
Belle suspirou diante da determinação dele de cuidar da bolha e lhe estendeu o pé descalço.
– Isso não vai funcionar – declarou ele.
– Por que não?
– Vai ter que se deitar de bruços.
– Não mesmo – retrucou Belle em um tom rme.
John inclinou a cabeça para o lado.
– Do meu ponto de vista – falou, pensativo –, temos duas opções.
Como ele não disse mais nada, Belle se viu forçada a perguntar:
– Temos?
– Sim. Ou se deita de bruços para que eu cuide da bolha ou eu posso me deitar de costas e car por baixo da sua perna para conseguir ver seu calcanhar. É claro que isso provavelmente exigiria que eu en asse a cabeça por debaixo das suas saias, e por mais que a ideia me pareça intrigante...
– Basta – resmungou Belle.
Ela se deitou de bruços.
John pegou o lenço e o encostou com toda a gentileza na bolha, limpando o sangue seco encrostado ao redor. Ardeu um pouco quando ele tocou a pele em carne viva, mas Belle percebeu que o toque dele era gentil, por isso não reclamou. No entanto, quando John tirou um canivete do bolso, ela mudou de ideia.
– Aaaaaca!
Para seu horror, a primeira palavra a sair de sua boca não foi muito coerente.
John pareceu surpreso.
– Algum problema?
– O que planeja fazer com esse canivete?
Ele deu um sorriso paciente.
– Só uma pequena incisão na sua bolha, para que eu consiga drená-la. Isso vai permitir que a pele morta seque.
Ele parecia saber o que estava fazendo, mas Belle achou que deveria fazer mais algumas perguntas. A nal, estava prestes a deixar aquele homem relativamente desconhecido encostar uma lâmina nela.
– Por que quer secá-la?
– Vai curar melhor assim. A pele morta vai cair e a pele por baixo cará mais grossa.
Ele estreitou os olhos.
– Nunca teve uma bolha antes, teve?
– Assim, não – admitiu Belle. – Não costumo caminhar por trechos tão longos. Estou mais acostumada a sair a cavalo.
– E quanto a dançar?
– O que que tem? – retrucou ela.
– Estou certo de que frequenta bailes elegantes quando está em Londres. Deve car de pé a noite inteira.
– Sempre uso sapatos confortáveis – rebateu ela com desdém.
John não entendeu bem por quê, mas a leve irritação dela o agradou.
– Ora, não se preocupe – disse ele por m. – Já cuidei de muitas bolhas, a maior parte delas bem pior do que essa.
– Na guerra? – perguntou Belle em um tom cauteloso.
A expressão nos olhos dele se tornou mais sombria.
– Sim.
– Imagino que tenha cuidado de ferimentos muito piores do que meras bolhas – comentou ela com suavidade.
– Suponho que sim.
Belle sabia que deveria parar de fazer perguntas, pois a guerra era um assunto doloroso para John, mas a curiosidade foi mais forte do que a prudência.
– Não eram os médicos e cirurgiões que faziam esse tipo de coisa?
Houve um momento de silêncio. Belle sentiu a pressão das mãos de John em seu pé enquanto a lâmina furava a bolha, até que por m ele respondeu.
– Às vezes não há médicos ou cirurgiões disponíveis. Às vezes é preciso fazer o que se pode, o que faz sentido. E então rezar.
A voz dele não deixava transparecer qualquer emoção.
– Mesmo quando já se deixou de acreditar em Deus.
Belle engoliu em seco, sentindo-se desconfortável. E pensou em dizer algo tranquilizante, como “Entendo”, mas a verdade é que ela não entendia. Não conseguia nem começar a imaginar os horrores da guerra, e parecia leviano sugerir que fosse capaz de compreender.
John voltou a pousar o pano úmido sobre a bolha.
– Isso deve resolver.
Ele se levantou e estendeu a mão para Belle, mas ela ignorou a oferta e rolou para poder se sentar na relva. John cou de pé, constrangido, até ela indicar com uma batidinha o espaço ao seu lado. Ele hesitou. Belle soltou um leve grunhido de irritação e bateu mais forte na grama.
– Ah, por favor – disse ela, meio zangada. – Eu não mordo.
John se sentou.
– Devo proteger o machucado com uma atadura? – perguntou Belle, virando-se para examinar o ferimento de que ele cuidara.
– Não, a menos que planeje usar outro par de sapatos apertados. Vai curar mais rápido se deixar descoberto.
Belle continuou a examinar o calcanhar fazendo o melhor possível para preservar o decoro.
– Não imagino que muitas pessoas andem descalças por Westonbirt, mas acho que sou bem-relacionada o bastante para me permitir isso, não acha?
Ela levantou o rosto de repente e abriu um sorriso luminoso.
John teve a sensação de levar um soco, tamanha a força do sorriso dela. Foram necessários vários segundos para que ele conseguisse afastar os olhos da boca de Belle e, quando conseguiu fazer isso, seu olhar encontrou o dela, o que foi um grande erro, porque os olhos de Belle eram azuis como o céu. Mais azuis, na verdade, e inteligentes e perspicazes. Ele sentiu o olhar dela quase sicamente, sentiu quase como se varresse seu corpo, embora ela não houvesse afastado os olhos dos dele nem por um instante.
John estremeceu.
Belle umedeceu os lábios em um gesto nervoso.
– Por que está me olhando assim?
– Assim como? – sussurrou ele, mal consciente do que dizia.
– Como se... como se...
Belle se atrapalhou com as palavras, sem saber ao certo como ele a olhava. Seus olhos se arregalaram de perplexidade quando ela se deu conta do que queria dizer.
– Como se estivesse com medo de mim.
John cou zonzo. Tinha medo dela? Temia que Belle abalasse o precioso equilíbrio interno que só conseguira conquistar recentemente? Talvez, mas temia ainda mais a si mesmo. As coisas que desejava fazer com ela...
Ele fechou os olhos para tentar afastar a visão não desejada de Spencer em cima de Ana. Não, aquilo não era o que queria fazer com Belle, era?
Precisava se controlar. Afastá-la. Ele voltou a si, lembrando-se da pergunta sobre entrar descalça na casa de Ashbourne.
– Suponho que uma pessoa possa fazer o que quiser sendo parente de um duque – respondeu por m, com certa rispidez.
Belle recuou, um pouco magoada com o tom dele. Mas decidiu pagar na mesma moeda.
– Sim, acredito que sim – retrucou ela, erguendo um pouco o queixo.
John se sentiu muito grosseiro, mas não se desculpou. Provavelmente era melhor que ela o achasse desagradável. Não deveria se envolver com Belle, e seria muito, muito fácil se permitir isso. Reconhecia um beco sem saída quando estava diante dele. Havia procurado por Belle no Debrett’s Peerage – o guia de quem era quem na aristocracia –, depois que ela o visitara na véspera. A jovem diante dele era lha de um conde muito rico e era parente de um grande número de membros importantes e in uentes da sociedade. Ela merecia alguém com um título que remontasse a mais do que apenas um ano, alguém que pudesse lhe oferecer confortos materiais aos quais ela sem dúvida estava acostumada, alguém inteiro, com pernas tão perfeitas quanto as dela.
Santo Deus, ele adoraria ver as pernas de Belle.
John gemeu.
– Está se sentindo mal?
Belle o encarava tentando não parecer preocupada.
– Estou bem – respondeu John.
Até o cheiro dela era bom, um perfume fresco e primaveril que parecia envolvê-lo. Ele não merecia nem pensar nela, não depois de cometer um crime tão imperdoável contra as mulheres de um modo geral.
– Bem, obrigada por ter cuidado da minha bolha – disse Belle do nada. – Foi muito gentil da sua parte.
– Não foi incômodo algum, eu lhe garanto.
– Para o senhor, talvez – disse Belle, soando o mais animada que conseguiu. – No meu caso, tive que me deitar de bruços ao lado de um homem que conheço há apenas três dias.
Por favor, por favor, não diga nada desagradável, implorou ela silenciosamente. Por favor, seja tão engraçado, brincalhão e tão docemente severo quanto foi há poucos minutos.
Como se os pensamentos dela tivessem atravessado o ar e aterrissado nele como um beijo, John sorriu.
– Pode car tranquila. Eu lhe garanto que foi um prazer vê-la pelas costas – provocou ele, o sorriso hesitante transformando-se em jovial.
Mesmo indo contra a própria determinação, John se viu incapaz de ser desagradável com Belle quando ela se esforçava tanto para ser amistosa com ele.
– Ora! – gemeu Belle, dando um soco brincalhão no ombro dele. – Que coisa terrível de dizer.
– Alguém já elogiou suas costas antes?
A mão dele cobriu a dela.
– Eu lhe garanto que ninguém jamais foi rude a ponto de mencionar isso.
A voz dela saiu ofegante.
John não a acariciou, apenas deixou a mão pousar de leve sobre a dela, mas o calor desse toque pareceu penetrar na pele de Belle, subir pelo braço e se aproximar perigosamente do coração.
John se inclinou para a frente.
– Não tive a intenção de ser rude – murmurou.
– Não?
Belle passou a língua pelo lábio inferior.
– Não, apenas honesto.
Ele estava próximo... a apenas um o de cabelo de distância.
– É mesmo?
John respondeu alguma coisa, mas Belle não conseguiu entender, porque os lábios dele já roçavam de leve os dela. Belle gemeu baixinho, pensando que queria que aquilo durasse para sempre, agradecendo em silêncio aos deuses e aos pais dela (embora não necessariamente nessa ordem) por terem permitido que ela não aceitasse nenhum dos homens que a haviam pedido em casamento nos últimos dois anos. Era por aquilo que ela esperara, era aquilo que mal ousara desejar. Era o que Emma e Alex tinham. Por isso os dois estavam sempre olhando um para o outro, sorrindo e dando risadinhas por trás de portas fechadas. Era o que...
John passou a língua de leve pelo lábio inferior dela, e Belle perdeu toda a capacidade de pensar. Só conseguia sentir, mas... nossa, como sentia. A pele dela vibrava – cada centímetro, embora John mal a tocasse. Belle suspirou, deixando-se perder nele, sabendo por instinto que ele saberia o que fazer para que aquela sensação durasse para sempre. Ela se derreteu, o corpo buscando o calor do dele. Então John se afastou de repente, praguejando baixinho, a respiração alterada.
Belle piscou, confusa, abalada e sem compreender a atitude dele. Engoliu a mágoa e puxou as pernas junto ao corpo, torcendo para que ele dissesse algo gentil ou engraçado ou que ao menos explicasse as suas ações. E, se não
zesse isso, Belle esperava que John percebesse que a rejeição dele a
magoara.
John se levantou e se afastou, levando as mãos à cintura. Ela o tou por entre os cílios e achou que havia algo extremamente desolador na postura dele. Depois de algum tempo, John se virou e ofereceu a mão a ela. Belle aceitou e se levantou, agradecendo baixinho.
Ele suspirou e passou a mão pelos cabelos cheios. Não tivera a intenção de beijá-la. Com certeza desejara fazer aquilo, mas isso não signi cava que tivesse o direito de tocá-la. E jamais imaginara que gostaria tanto daquela sensação ou que seria tão difícil parar.
Deus, como era fraco! Não era melhor do que Spencer, abusando de uma jovem dama inocente, e a verdade era que queria mais. Muito mais...
Ele queria a orelha de Belle, o ombro dela, a parte de baixo do queixo. Queria deixar a língua correr por toda a extensão do pescoço dela, traçando uma trilha úmida e ardente até o vale entre os seios. Queria segurá-la pelo traseiro, apertá-la, puxá-la junto ao corpo, usá-la como um ninho para seu desejo.
Queria possuir Belle. Cada centímetro dela. Uma vez, e outra, e outra.
Belle o tou em silêncio, mas John se virou ligeiramente e ela não conseguiu olhar dentro de seus olhos. No entanto, quando se voltou para ela, a expressão hostil em seu rosto a deixou perplexa. Ela recuou um passo e levou inconscientemente a mão ao rosto.
– Q-qual é o problema? – perguntou em um arquejo.
– É melhor pensar duas vezes antes de se atirar para cima dos homens, minha pequena aristocrata.
A voz dele saiu perigosamente próxima de um silvo.
Belle o encarou atônita, até que o horror, a mágoa e a fúria se ergueram ao mesmo tempo dentro dela.
– Pode car tranquilo – disse ela, em um tom gélido. – O próximo homem ao qual eu me “atirar” não será tão sem berço a ponto de me insultar como acabou de fazer.
– Lamento muito que meu sangue não seja azul o bastante para milady. Não se preocupe, tentarei não importuná-la de novo com minha presença.
Belle ergueu uma sobrancelha e o encarou com uma expressão dura de desdém.
– Sim, bem, nem todos temos a sorte de ter algum parentesco com um duque – atalhou ela de forma cruel.
Satisfeita com a própria atitude, Belle deu meia-volta e se afastou, caminhando com o máximo de dignidade que um claudicar permitia.