Brilhante
Capítulo 6
No dia seguinte, Belle decidiu que talvez tivesse sido precipitada em desprezar a leitura da poesia. Depois do almoço, vestiu um traje de montaria azul-escuro e seguiu na direção dos estábulos. Inspirada pela declamação de John na noite da véspera, ela levava consigo um volume no de poesias de Wordsworth. Seu plano era encontrar um espaço gramado na encosta da colina e se acomodar para ler, mas Belle tinha a sensação de que não conseguiria se impedir de conduzir a égua na direção do parque Blemwood, não, mansão Brinstead... Céus! Por que não conseguia se lembrar do nome daquele lugar? Qualquer que fosse o nome, era onde John morava, e Belle queria ir até lá.
Ela conduziu a égua em passo de trote e inspirou o ar fresco de outono enquanto seguia para leste, na direção da propriedade de John. Não tinha a menor ideia do que diria caso esbarrasse com ele. Provavelmente alguma tolice... ela parecia falar de forma cada vez menos coerente quando estava com ele.
– Bom dia, lorde Blackwood – ensaiou.
Não. Formal demais.
– Por acaso me vi seguindo para o leste...
Óbvio demais. E ela já não usara uma desculpa parecida no outro dia?
Belle suspirou e decidiu recorrer à simplicidade.
– Olá, John.
– Olá para a senhorita também.
Belle arquejou. Estivera tão ocupada ensaiando o que dizer a John que nem percebera que ele estava diante dela.
John ergueu as sobrancelhas ao ver a expressão estupefata da jovem.
– Não é possível que a senhorita esteja tão surpresa ao me ver. A nal, disse “olá”.
– Sim, eu disse – concordou Belle com um sorriso nervoso.
Será que John a ouvira falando sozinha a respeito dele? Ela o encarou, engoliu em seco e disse a primeira coisa que lhe veio à mente:
– É uma graça de cavalo.
John se permitiu um sorrisinho diante da agitação dela.
– Obrigado. Embora eu imagine que or talvez não que muito
satisfeito em ser considerado “uma graça”.
Belle cou confusa em um primeiro momento, então observou o animal com mais atenção. John na verdade estava montando um garanhão que parecia vibrar de tanto vigor.
– Um belíssimo cavalo, então – corrigiu ela.
John deu uma palmadinha no pescoço do cavalo.
– Tenho certeza de que or se sente muito melhor agora.
– O que o traz por aqui? – perguntou Belle, sem saber muito bem se ainda estava na propriedade do primo ou já na de John.
– Por acaso me vi seguindo para o oeste...
Belle disfarçou uma risada.
– Entendo.
– E o que a traz por aqui?
– Por acaso me vi seguindo para o leste.
– Entendo.
– Ah, deve saber que esperava encontrá-lo – deixou escapar ela.
– Agora que me encontrou, o que pretende fazer comigo?
– Eu não tinha avançado até esse ponto nos meus planos, na verdade – admitiu Belle. – O que o senhor gostaria de fazer comigo?
Ocorreu a John que seus pensamentos a respeito disso não seriam adequados a uma conversa educada. Ele permaneceu em silêncio, mas não conseguiu conter um olhar apreciativo para a mulher diante dele.
Belle interpretou corretamente a expressão de John e enrubesceu.
– Ah, seu traquinas – balbuciou. – Não era a isso que eu me referia.
– Não tenho ideia do que está falando – defendeu-se John, com uma expressão no rosto que era a imagem da inocência.
– Sabe muito bem e não vai me obrigar a dizer, seu... Ah, não importa! Gostaria de tomar chá conosco?
John deu uma risada.
– Como eu amo os ingleses. Qualquer coisa pode ser curada com um bule de chá.
Belle abriu um sorriso insolente.
– O senhor também é inglês, John. E, só para registrar, qualquer coisa pode ser curada com um bule de chá.
– Gostaria que alguém tivesse dito isso para o médico que quase serrou a minha perna – comentou ele com um sorriso irônico.
Belle cou séria na mesma hora. Como deveria responder àquilo? Ela levantou os olhos para o céu, que começava a nublar. Sabia que a perna era um assunto muito sensível para John e que provavelmente deveria evitar comentários a respeito dela. Ainda assim, fora ele quem a mencionara, e pareceu a Belle que a melhor forma de mostrar que não se importava com a lesão dele era brincar a respeito.
– Muito bem, então, milorde – disse ela, rezando para não estar cometendo um erro terrível. – Vou dar um jeito de derramar um pouco de chá na sua perna esta tarde. Se isso não resolver o problema, nada mais o fará.
John pareceu hesitar por um momento antes de dizer:
– Imagino que precise de um acompanhante para voltar a Westonbirt. Vejo que saiu sozinha de novo.
– Algum dia, o senhor será um ótimo pai – retrucou Belle em um tom exasperado.
Uma gota pesada de chuva aterrissou no nariz de John, que levantou os braços, entrando na brincadeira e ngindo render-se.
– Vá na frente, milady.
Belle deu a volta com a égua e eles seguiram em direção a Westonbirt. Depois de alguns momentos de um silêncio amistoso, ela se virou para John e perguntou:
– O que estava fazendo por aqui esta tarde? E não me diga que por acaso se viu seguindo para o oeste.
– Acreditaria se eu dissesse que tinha a esperança de vê-la?
Belle se virou no mesmo instante para avaliar o rosto de John e saber se ele estava brincando. Os olhos castanhos a encaravam com uma expressão cálida que fez o coração dela bater descompassado.
– Talvez eu acredite... mas precisa ser muito gentil comigo esta tarde – brincou ela.
– Serei especialmente gentil – disse John, travesso. – Se isso me garantir uma xícara extra de chá.
– O que quiser!
Eles continuaram por mais alguns minutos, até Amber empacar de repente, erguendo as orelhas em um movimento nervoso.
– Algum problema? – indagou John.
– Provavelmente um coelho no bosque. Amber sempre foi muito sensível a qualquer movimento. É estranho, na verdade. Ela trota com tranquilidade pelas ruas movimentadas de Londres, mas basta colocá-la em uma trilha calma no campo e Amber se assusta a cada barulhinho.
– Eu não ouvi nada.
– Nem eu.
Belle puxou as rédeas com gentileza.
– Vamos, menina. Vai chover.
Amber se moveu por alguns metros, hesitante, e parou de novo, virando a cabeça para a direita bem depressa.
– Não consigo imaginar qual é o problema com ela – disse, encabulada.
Pow!
Belle ouviu a explosão de um tiro vindo do bosque próximo, então sentiu uma lufada de ar quando uma bala passou por entre ela e John.
– Isso foi... – começou ela.
Contudo não chegou a completar a frase, porque Amber, já nervosa, empinou ao ouvir o estrondo. Belle teve que concentrar toda a sua atenção em se manter na sela.
Passou os braços ao redor do pescoço da égua.
– Calma, menina. Firme, agora – murmurou.
Sua voz saiu tão assustada que Belle não saberia explicar se as palavras eram para acalmar a égua ou a si mesma.
No momento em que achou que não conseguiria mais se manter na sela, Belle sentiu John enlaçar sua cintura. Com braços rmes, ele a tirou de cima de Amber e, sem a menor cerimônia, a colocou junto dele, sobre or.
– A senhorita está bem? – perguntou ele.
Belle assentiu.
– Acho que sim. Preciso recuperar o fôlego. Foi apenas um susto.
John a puxou mais para junto do corpo, sem conseguir acreditar no medo que sentira ao vê-la agarrando-se ao pescoço de Amber como se sua vida dependesse daquilo. A égua agora descrevia círculos ao redor deles, bufando alto, mas parecendo acalmar-se.
Quando Belle sentiu que já recuperara parte da compostura, afastou-se de John o su ciente para olhar no rosto dele.
– Ouvi um tiro.
John assentiu, as feições severas. Não conseguia imaginar por que alguém iria querer atirar neles, mas lhe ocorreu que não deveriam permanecer onde estavam, como alvos imóveis.
– Se eu a mantiver comigo enquanto vamos para sua casa, Amber nos seguirá?
Ela assentiu, e logo eles estavam galopando de volta para Westonbirt.
– Acho que foi um acidente – comentou Belle quando eles diminuíram um pouco a velocidade.
– O tiro?
– Sim. Outro dia, Alex comentou que vem tendo problemas com caçadores ilegais. Tenho certeza de que foi uma bala perdida que assustou Amber.
– Foi um pouco perto demais para o meu gosto.
– Eu sei, mas o que mais poderia ter sido? Por que alguém iria querer atirar em nós?
John deu de ombros. Não tinha inimigos.
– Falarei sobre isso com Alex – continuou Belle. – Estou certa de que ele vai querer garantir que as regras sejam cumpridas com mais rigor. Alguém poderia ter se machucado. Escapamos por pouco.
John assentiu, puxou-a mais para si e fez com que or seguisse mais
rápido. Alguns minutos depois, eles entravam nos estábulos de Westonbirt bem a tempo, quando a chuva começava a car mais pesada.
– Pronto, milady – disse ele, pousando-a no chão. – Consegue chegar à casa sem di culdades?
– Ah, não vem comigo?
A decepção cou clara no rosto dela. Ele engoliu em seco e um músculo saltou em seu pescoço.
– Não, realmente não posso. Eu...
– Mas vai car encharcado se tentar voltar para casa agora. Com certeza precisa entrar para tomar um pouco de chá, nem que seja apenas para aquecê-lo.
– Belle, eu...
– Por favor.
John encarou os maravilhosos olhos azuis e se perguntou como alguém teria forças para negar algo a ela. Ele olhou de relance para as portas do estábulo.
– Acho que a chuva está mesmo forte.
Belle assentiu.
– Sem dúvida teria uma febre se tentasse voltar para casa. Venha.
Ela pegou a mão dele e, juntos, os dois correram para a casa.
Quando nalmente entraram no saguão da frente, ambos estavam bem molhados, e Belle conseguia sentir as mechas de cabelo colando no rosto.
– Minha aparência deve estar um desastre – comentou, constrangida. – Preciso me trocar.
– Tolice – disse John, prendendo uma mecha de cabelo molhada atrás da orelha dela. – Está encantadora... muito brumosa.
Belle prendeu a respiração, sentindo o rosto vibrar com o toque dele.
– Com certeza quis dizer “muito rançosa”. Estou me sentindo um pano de chão.
– Eu lhe garanto, lady Arabella, que não se parece em nada com um pano de chão – assegurou-lhe John e abaixou o braço. – Embora eu não consiga imaginar que a senhorita já tenha visto um.
Belle enrijeceu o corpo.
– Não sou a criança mimada que parece acreditar que eu seja.
John tou com um olhar voraz a mulher adorável e deslumbrante parada à sua frente. Os cabelos de Belle haviam se soltado parcialmente e cachos louros encaracolados pela umidade beijavam as faces dela. Os cílios longos brilhavam com gotas de chuva, emoldurando os olhos de um indescritível tom de azul. John respirou fundo e não permitiu que seu olhar encontrasse a boca macia da jovem.
– Acredite em mim, não acho que seja uma criança – disse ele por m.
Belle engoliu em seco com di culdade, nervosa e incapaz de afastar a decepção do rosto. Aquelas não eram as palavras que esperava ouvir.
– Talvez devêssemos continuar nossa conversa no salão de estar.
Ela se virou e atravessou o saguão muito ereta.
John suspirou e a seguiu. Sempre conseguia dizer a coisa errada quando estava perto de Belle. Tinha vontade de segurá-la pelos braços e contar que a achava simplesmente maravilhosa – linda, inteligente, gentil, tudo o que um homem poderia desejar em uma mulher.
Se esse homem merecesse uma mulher. E John sabia que nunca poderia se casar, nunca poderia aceitar o amor de uma companheira. Não depois de Ana.
Ao entrar no salão de estar, John viu Belle parada diante da janela, observando a chuva cair contra o vidro. Ele já se preparava para fechar a porta quando pensou melhor e a deixou entreaberta. Então caminhou até Belle, com a intenção de pousar as mãos em seus ombros. Contudo, quando estava a menos de meio metro de distância, ela se virou subitamente.
– Não sou mimada – disse ela, obstinada. – Sei que não tive uma vida difícil, mas não sou mimada.
– Sei que não é – retrucou John com suavidade.
– Ser mimada signi ca ser voluntariosa e manipuladora – continuou Belle. – E não sou nenhuma dessas coisas.
Ele assentiu.
– E não sei por que sempre precisa fazer comentários horríveis sobre a minha origem. O seu pai também é um conde. Alex me contou.
– Era um conde – corrigiu John, aliviado por ela achar que ele a estava afastando por sentir-se socialmente inferior.
Aquilo sem dúvida era um fator a considerar, mas era a última das preocupações dele.
– E um conde empobrecido, que não conseguia sustentar sete lhos, sendo que o último desses lhos, nascido depois do falecimento dele, sou eu.
– Sete lhos? – repetiu Belle, arregalando os olhos. – É mesmo?
– Um nasceu morto – admitiu John.
– Deve ter tido uma infância deliciosa, com tantas crianças com quem brincar.
– Na verdade, eu não passava muito tempo com meus irmãos. Eles se ocupavam com os próprios assuntos.
– Ah.
Belle franziu o cenho. Não estava gostando nada do retrato que ele pintava da família.
– Sua mãe devia viver ocupada, com todos esses lhos.
John deu um sorriso malicioso.
– Imagino que meu pai também.
Ela enrubesceu.
– Acha que poderíamos recomeçar esta tarde? – perguntou ele, pegando a mão dela e dando um beijo suave em seus dedos. – Peço desculpas por presumir que nunca tivesse visto um pano de chão.
Belle deu uma risadinha.
– Esse é o pedido de desculpas mais absurdo que já ouvi.
– Acha mesmo? Pensei ter sido bastante eloquente, sobretudo no que se refere ao beijo na sua mão.
– O beijo foi maravilhoso e o pedido de desculpas foi muito doce. O que soou engraçado foi a parte do pano de chão.
– Esqueça o pano de chão – disse John, levando-a até um sofá próximo.
– Já nem me lembro mais disso – garantiu ela.
Ele se sentou no outro extremo do sofá.
– Percebi que está com um livro de poesias de Wordsworth.
Belle abaixou os olhos para o livro esquecido.
– Ah, sim. Acho que o senhor me inspirou. Mas quero saber quando vai se dedicar à tarefa de escrever alguns versos seus. Sei que seriam brilhantes.
John sorriu diante do comentário elogioso.
– Veja o que aconteceu quando tentei ser poético hoje. Eu lhe chamei de “brumosa”. Por algum motivo, “brumosa” não me vem à mente quando penso em grandes poesias.
– Não seja tolo. Alguém que ama poesia tanto quanto o senhor deve ser também um poeta. Precisa apenas se dedicar.
John olhou para aquele rosto luminoso. Belle tinha tanta con ança nele. Era uma sensação que ele nunca havia experimentado – a nal, a família jamais demonstrara grande interesse em qualquer uma das suas atividades. John não suportaria dizer a Belle que aquela con ança não era merecida e
cava apavorado ao imaginar a reação dela ao descobrir que tipo de homem
ele era.
Entretanto John não queria pensar nisso. Só queria pensar naquela mulher. A mulher que cheirava a primavera. Ele se perguntou por quanto tempo poderia afastar da mente o próprio passado. Seria capaz de fazer isso por mais do que alguns minutos? Poderia se presentear com uma tarde inteira na companhia de Belle?
– Ah, céus! – exclamou ela, interrompendo os pensamentos torturados de John. – Esqueci de pedir o chá.
Belle se levantou e atravessou a sala para puxar o cordão da campainha.
John se levantou junto com ela, apoiando a maior parte do peso na perna boa. Antes que Belle tivesse tempo de voltar a se sentar, Norwood entrou no cômodo a passos rápidos e silenciosos. Ela pediu chá e biscoitos e o mordomo saiu tão silenciosamente quanto entrara, fechando a porta ao passar.
Os olhos de Belle o seguiram até ele desaparecer, então ela se virou e olhou para onde John estava parado, perto do sofá. Ao tá-lo do outro lado do cômodo, teve certeza de que o próprio coração parara. John estava tão belo e forte usando o traje de montaria... E Belle não pôde deixar de reparar o apreço nos olhos dele ao retribuir seu olhar. Ela se lembrou das palavras dele na véspera.
Não sou o homem que pensa que sou.
Aquilo seria verdade? Ou era possível que John não fosse o homem que ele achava? Tudo parecia tão óbvio para Belle. Estava no modo como ele recitara o poema, na força com que a abraçara ao montarem juntos o cavalo. John precisava que alguém lhe mostrasse que ele era bom e forte. Deveria ela ousar ter a esperança de que... ele precisava dela?
Belle atravessou a sala com nervosismo e parou a menos de meio metro de John.
– Acho que o senhor é um homem muito bom – disse com carinho.
Ele prendeu a respiração ao sentir uma onda de desejo percorrer o corpo.
– Belle, eu não sou. Na hora em que se levantou para pedir o chá, eu estava tentando lhe dizer...
Deus do céu, como conseguiria contar a ela?
– Eu queria lhe dizer...
– O quê, John? – instigou ela numa voz muito gentil. – O que queria me dizer?
– Belle, eu...
– Foi o beijo?
Aquilo era um pesadelo erótico. Ela estava parada diante dele, mostrando-se tão disponível, e cada vez cava mais difícil ouvir a própria consciência e fazer a coisa certa.
– Ah, meu Deus, Belle – disse John em um gemido estrangulado. – Você não sabe o que está dizendo.
– Sim, eu sei. Eu me lembro de cada momento do nosso beijo perto do lago.
Que Deus o ajudasse...
John se inclinou um pouco mais para perto de Belle. Sua mão pareceu ter vida própria ao envolver a dela.
– Ah, John... – suspirou Belle, baixando os olhos para a mão dele, como se ela tivesse o poder de curar todos os males do mundo.
Tamanha devoção, tamanha fé, uma beleza tão pura... tudo aquilo foi demais para John. Com um gemido, um som que misturava agonia e prazer, ele a puxou com força para si. Seus lábios encontraram os dela em um beijo desesperado, e ele a sorveu como faria um homem que passara anos sem nada para nutri-lo. John en ou as mãos nos cabelos de Belle, deliciando-se com o toque macio e sedoso, enquanto seus lábios roçavam toda a extensão do rosto dela, venerando seus olhos, seu nariz, a linha das maçãs do rosto.
E, em algum ponto durante o beijo, John começou a sentir que se curava. A escuridão em seu coração não desapareceu, mas começou a rachar e se desintegrar. O peso em seus ombros não cedeu por completo, mas pareceu mais leve de algum modo.
Será que Belle conseguiria fazer aquilo por ele? Ela era tão pura e tão boa que seria capaz de apagar a mancha na alma dele? John começou a se sentir zonzo de euforia e a puxou para mais perto, para deixar um rastro de beijinhos junto aos cabelos dela.
Então Belle suspirou.
– Ah, John, isso é tão bom...
E ele soube que ela estava feliz.
– Bom quanto? – murmurou, mordiscando o canto da boca delicada.
– Muito, muito bom – respondeu Belle com uma risada, retribuindo os beijos com fervor.
Os lábios de John foram do rosto até a orelha dela e ele mordiscou de leve o lóbulo macio.
– Você tem orelhas pequenas e doces – falou ele, a voz rouca. – Como abricós.
Belle recuou, um sorriso surpreso no rosto.
– Abricós?
– Eu lhe disse que não sou um grande poeta.
– Adoro abricós – declarou ela.
– Volte aqui – disse John com um grunhido misturado a uma risada.
Ele se sentou no sofá e a puxou junto.
– Oooh, como desejar, milorde.
Belle fez o melhor que pôde para simular um olhar malicioso.
– Que moçoila vigorosa você é.
– Moçoila vigorosa? Isso com certeza não é muito poético.
– Ora, que quieta!
E, para garantir que ela casse em silêncio, ele lhe deu outro beijo, se recostou nas almofadas do sofá e puxou Belle para cima dele.
– Eu já lhe disse que é a mulher mais linda que já conheci? – perguntou entre beijos.
– Não.
– Bem, você é. E a mais inteligente, a mais gentil e...
A mão de John desceu pelo corpo dela, segurou seu traseiro e apertou.
– ... tem o traseiro mais bonito que eu já vi.
Belle se afastou, chocada, então se deixou cair em cima dele, rindo.
– Ninguém me contou que beijar era tão divertido.
– É claro que não. A nal, seus pais não queriam que saísse por aí beijando qualquer um.
Belle tocou o maxilar dele e roçou a aspereza dos pelos que começavam a crescer.
– Não, só você.
John não achava que os pais dela iriam desejar que ela o beijasse tampouco, mas afastou essa ideia, já que não queria estragar a perfeição do momento.
– A maior parte das pessoas não ri tanto enquanto beija.
Ele deu um sorriso travesso e beliscou o nariz dela.
Ela fez o mesmo.
– Não? Coitadas delas.
John a puxou para um abraço apertado, como se pudesse colá-la a si. Talvez parte da bondade dela se in ltrasse nele de alguma forma, limpando sua alma e... John fechou os olhos. Estava começando a fantasiar.
– Não tem ideia de como me sinto perfeito neste momento – murmurou contra os cabelos dela.
Belle se aconchegou mais a ele.
– Sei exatamente.
– Infelizmente, o bule de chá vai chegar a qualquer instante, e não acho que os criados precisem saber quanto nos sentimos perfeitos.
– Ah, meu Deus! – arquejou Belle, quase voando para o outro lado da sala. – Estou arrumada? É possível perceber que eu... que nós...?
– Eu percebo – disse John, tentando ignorar o desejo não saciado que pulsava por todo o corpo. – Porém, se passar a mão pelos cabelos, acho que ninguém mais vai perceber.
– Está chovendo – falou Belle, trêmula. – Norwood vai presumir que é por isso que estou um pouco desarrumada.
Apesar do seu comportamento ousado naquela tarde, Belle não estava preparada para ser pega pelo mordomo dos primos em uma situação comprometedora.
– Sente-se novamente – orientou John. – Vamos conversar como dois adultos razoáveis, assim Norwood não suspeitará de nada.
– Acha mesmo? Eu caria tão envergo...
– Sente-se logo, por favor, e vamos conversar de forma educada até o mordomo chegar.
– Acho que não consigo – confessou Belle, a voz saindo em um sussurro muito baixo.
– Por que não?
Ela afundou em uma cadeira e manteve os olhos baixos.
– Porque toda vez que eu olhar para você me lembrarei do seu abraço.
O coração de John acelerou. Ele respirou fundo, lutando contra a necessidade dolorosa de se levantar do sofá em um pulo, agarrar Belle e violá-la ali mesmo. Felizmente, uma discreta batida à porta o salvou de ter que responder ao comentário dela.
Norwood entrou com uma bandeja de chá e biscoitos. Depois de agradecer ao mordomo, Belle pegou o bule e começou a servir a bebida. John percebeu que as mãos dela tremiam. Ele aceitou em silêncio a xícara e tomou um gole de chá.
Belle fez o mesmo, controlando as mãos para que parassem de tremer. Não estava envergonhada do próprio comportamento, mas atônita com a intensidade de sua reação a John. Nunca sonhara que seu corpo pudesse
car tão quente de dentro para fora.
– Dou uma moeda pelos seus pensamentos – ofereceu John de repente.
Ela levantou os olhos da xícara de chá e sorriu.
– Ah, eles valem muito mais.
– Que tal cem moedas, então?
Por cerca de um segundo, Belle brincou com a ideia de contar a ele o que estava pensando. Porém só por um segundo. A mãe não a criara para ser tão atrevida.
– Estava me perguntando se gostaria que eu derramasse chá na sua perna agora ou se devo esperar até que esfrie um pouco mais.
John estendeu o máximo possível a perna machucada e a examinou com atenção, ngindo levar o assunto a sério.
– Hum, acho que é melhor quente, concorda?
Belle pegou o bule com um sorriso travesso.
– Se funcionar, revolucionaremos a medicina.
Ela se inclinou por cima dele e, por um instante, John achou que a jovem de fato derramaria o chá na perna dele. No último instante, ela endireitou o bule e voltou a pousá-lo na mesa.
– A chuva está caindo com bastante força agora – comentou Belle, olhando de relance para a janela. – Não vai conseguir voltar para casa por algum tempo.
– Acredito que vamos conseguir nos manter ocupados.
Bastou um olhar para o rosto de John para que Belle compreendesse como ele pretendia mantê-la ocupada. Ela não negou para si mesma que também ansiava por passar a tarde nos braços dele, mas havia uma boa chance de que Alex ou Emma os encontrassem ali, e a última coisa de que ela precisava era ser pega pelos primos em uma situação comprometedora.
– Acho que talvez tenhamos que nos dedicar a uma atividade diferente – disse Belle por m.
John pareceu tão decepcionado que Belle mal conseguiu conter uma risada.
– O que sugere que façamos? – perguntou ele.
Ela pousou a xícara de chá.
– Você dança?