Brilhante

Julia Quinn · Capítulo 15 de 26

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Brilhante

Capítulo 13

 

– O que está fazendo aqui? – indagou Belle em um arquejo.

– Abaixe essa coisa!

Belle abaixou o castiçal e estendeu a mão para John. Ele a aceitou e cou de pé.

– O que está fazendo aqui? – repetiu ela, o coração começando a bater de um modo estranho por tê-lo ali, em seu quarto.

– Não é óbvio?

Ora, talvez ele estivesse ali para raptá-la e levá-la para Gretna Green, na Escócia, onde as leis permitiam casamentos mais rápidos. Ou talvez estivesse ali para violá-la. Ou só para dizer boa-noite.

– Não – disse ela devagar. – Não é óbvio.

– Não percebe que na última semana eu a vi quatro vezes com Persephone ao nosso lado, duas vezes com meu irmão por perto, uma vez com seu amigo Dunford e três vezes em eventos sociais onde eu só tinha permissão para conversar com você na presença de mulheres com mais de 60 anos?

Belle conteve um sorriso.

– Passamos algum tempo juntos quando você veio me visitar.

– Não conto isso como estar sozinho com você, já que preciso me preocupar com a possibilidade de a Srta. Não Se Apaixone aparecer a qualquer momento.

A expressão de John era tão petulante que Belle conseguiu imaginá-lo perfeitamente aos 8 anos batendo o pé por causa de alguma terrível injustiça.

– Ah, não! – disse Belle, rindo. – Persephone não é tão má assim.

– Ela é maravilhosa no que diz respeito a acompanhantes, mas isso não elimina o fato de que aparece sempre nas piores horas. Passo metade do tempo com medo de beijar você.

– Não reparei em uma diminuição na frequência das suas tentativas.

John a tou com uma expressão que deixava bem claro que ele não apreciava muito o humor dela.

– Estou dizendo que estou cansado de ter que dividir você com outras pessoas.

– Ah.

Belle achou que aquela devia ser uma das frases mais doces que já ouvira.

– Acabei de subir em uma árvore, me equilibrar ao longo de um galho nada rme e depois pular por uma janela a uma altura nem um pouco segura. Tudo isso, devo acrescentar, com uma perna ruim – falou John, tirando as luvas e limpando a poeira da roupa. – Só para estar a sós com você.

Belle engoliu em seco enquanto o encarava, emocionada, percebendo apenas por alto que ele acabara de se referir ao problema na perna sem amargura ou desespero.

– Você queria um pedido de casamento romântico – continuou ele. – Acredite em mim, nunca vou conseguir fazer nada mais romântico do que isso.

John tirou do bolso uma rosa vermelha amassada.

– Quer se casar comigo?

Belle se viu dominada pela emoção e teve que piscar várias vezes para afastar as lágrimas dos olhos. Ela abriu a boca para falar, mas não emitiu nenhuma palavra.

John se adiantou e pegou as mãos dela.

– Por favor – pediu.

Aquela única expressão guardava tantas promessas que Belle começou a assentir sem parar.

– Sim, ah, sim!

Ela se jogou nos braços de John e afundou a cabeça no peito dele. John a abraçou com força por um longo tempo, saboreando a sensação do corpo quente de Belle junto ao dele.

– Eu deveria tê-la pedido em casamento há muito tempo – murmurou ele nos cabelos dela. – Quando ainda estava em Westonbirt. Eu me esforcei tanto para afastá-la de mim...

– Mas por quê?

John sentiu um bolo se formar na garganta.

– John, você está bem? Parece que comeu algo que lhe fez mal.

– Não, Belle, eu...

Ele se esforçou para encontrar as palavras. Não a enganaria. Não entraria em um casamento baseado em mentiras.

– Quando eu disse que não era o homem que você achava que eu fosse...

– Eu me lembro – interrompeu Belle. – E ainda não consigo entender o que você quis dizer. Eu...

– Shhh.

John pousou um dedo sobre os lábios dela.

– Há algo do meu passado que preciso lhe contar. Aconteceu durante a guerra.

Sem dizer nada, Belle pegou a mão dele e o levou até a cama. Ela se sentou e indicou a John que zesse o mesmo, mas ele estava inquieto demais.

John se virou abruptamente, foi até a janela e apoiou os braços no peitoril.

– Uma moça foi violentada – disse ele de repente, aliviado por não conseguir ver a expressão dela. – E a culpa foi minha.

Belle empalideceu.

– O q-que você quer dizer com isso?

John contou tudo em detalhes a ela, terminando com:

– E foi assim que aconteceu. Ao menos é como me lembro. Eu estava bêbado.

Ele deixou escapar uma risada baixa e sem humor.

– John, não foi culpa sua.

As palavras de Belle foram ditas em um tom suave, mas carregado de amor e lealdade.

Ele não se virou para dizer:

– Você não estava lá.

– Eu o conheço. Você não teria deixado que nada daquilo acontecesse se tivesse podido evitar.

John se virou para encará-la.

– Você não me escutou? Eu estava bêbado. Se estivesse sóbrio, teria sido capaz de cumprir a promessa que z à mãe de Ana.

– Ele teria encontrado um modo de abordá-la. Você não teria como vigiar a moça todos os minutos do dia.

– Eu poderia... eu...

Ele se interrompeu.

– Não quero falar sobre isso.

Belle se levantou, atravessou o quarto e pousou a mão no ombro dele com gentileza.

– Talvez você deva.

– Não – apressou-se a retrucar John. – Não quero falar sobre isso. Não quero pensar sobre isso. Eu...

Ele se engasgou com as palavras.

– Você ainda vai me querer?

– Como pode me perguntar uma coisa dessas? – retrucou Belle em um sussurro. – Eu am...

Ela se deteve, assustada demais com a possibilidade de alterar o precioso equilíbrio que haviam conquistado caso declarasse seus verdadeiros sentimentos.

– Eu gosto demais de você. Sei que é um homem bom e honrado, mesmo que você não saiba.

John a puxou com força para os braços e se agarrou a ela, cobrindo seu rosto de beijos.

– Ah, Belle, preciso tanto de você! Não sei como sobrevivi sem você.

– Nem eu, sem você.

– Você é um tesouro, Belle. Um enorme presente para mim.

De repente ele a girou e saiu dançando com ela em uma valsa estonteante. Eles rodopiaram e rodopiaram até caírem na cama, rindo, ofegantes.

– Olhe para mim – pediu John em um arquejo. – Não consigo me lembrar da última vez que me permiti ser tão feliz. Eu sorrio o dia todo sem saber por quê. Subi em uma árvore, meu Deus! Invadi seu quarto pela janela. E estou aqui... rindo.

Ele se pôs de pé de um pulo, puxando Belle junto.

– Estamos no meio da noite, e aqui estou eu, com você. Dançando à meia-noite, segurando a perfeição em meus braços.

– Ah, John – disse Belle com um suspiro, incapaz de pensar em qualquer outra palavra para expressar seus sentimentos.

Ele tocou o queixo dela e a puxou para mais perto, e um pouco mais.

Belle prendeu a respiração quando sentiu os lábios dele se colarem aos dela. Era um beijo diferente de qualquer outro que já tivessem trocado. Havia uma ferocidade que não estava ali antes, uma sensação de posse. E Belle teve que admitir que a vontade de possuir o outro era mútua. O modo como ela o beijou, agarrando-se aos músculos sinuosos das costas dele – aquilo tinha o propósito de mostrar a John que ele pertencia a ela e a mais ninguém.

As mãos de John desceram pelas costas dela, espalhando um calor tão intenso que penetrou através do tecido no da camisola. Ele deixou as mãos descerem até o traseiro dela e o segurou com força, colando Belle tão junto ao corpo que ela pôde sentir a evidência rígida do desejo dele.

– Tem noção de quanto a desejo? – perguntou John, a voz rouca. – Tem?

Belle não conseguiu responder, porque os lábios dele já haviam capturado os dela. Também não conseguiu assentir, porque uma das mãos dele a segurava pela nuca, mantendo sua cabeça imóvel. Ela respondeu da única maneira que pôde – levando as mãos ao traseiro dele e puxando-o ainda mais para junto de si. A reação de John foi um gemido profundo, e Belle cou exultante com o poder que exercia sobre ele.

John se ajoelhou diante dela e seus lábios começaram a traçar uma trilha ardente através da camisola de Belle, descendo pelo vale dos seios até chegar ao umbigo.

– John? – disse Belle, ofegante. – O que...?

– Shh, deixe tudo por minha conta.

Ele abaixou mais o corpo até suas mãos envolverem os tornozelos dela.

– Tão macios... – murmurou. – Sua pele é como a luz do luar.

– A luz do luar? – repetiu Belle em uma voz estrangulada.

A força das sensações que disparavam por seu corpo mal a deixava falar.

– Delicada e suave, mas com um toque de mistério.

As mãos dele subiram devagar pela panturrilha dela enquanto levantavam a camisola. Quando estava a meio caminho, John virou Belle de costas para dar dois beijos na parte de trás dos joelhos dela. Belle deixou escapar um gritinho de prazer e precisou se apoiar para não cair.

– Você gostou, não foi? Tenho que me lembrar disso no futuro.

Ele deixou as mãos subirem um pouco mais, encantado com a delicadeza da pele das coxas dela. Então, com uma risadinha travessa, en ou a cabeça por baixo da barra erguida da camisola e beijou o ponto exato onde a perna dela encontrava o quadril.

Belle achou que fosse desmaiar.

A camisola foi levantada ainda mais, acima do quadril dela, e Belle sentiu um vago alívio por ele ter passado direto das coxas dela para a barriga, evitando sua área mais íntima.

John continuou a erguer a camisola e cou de pé, parando brevemente diante dos seios nus de Belle.

– Eu me lembrei de dizer a você naquele outro dia que eles são perfeitos? – murmurou em voz rouca junto à orelha dela.

Belle balançou a cabeça, sem conseguir dizer nada.

– Redondos e cheios, com dois botões rosados preciosos. Eu poderia chupá-los o dia todo.

– Ah, meu Deus...

Ela sentiu as pernas bambas de novo.

– Ainda não terminei, meu bem.

John segurou a barra da camisola logo abaixo dos seios de Belle e pressionou o tecido contra a pele dela. Quando ele ergueu mais a camisola, Belle sentiu a pressão subindo por seus seios. Espasmos de prazer dispararam por seu corpo quando a barra cou presa em seus mamilos e se esfregou neles antes de libertá-los. Então, antes que Belle se desse conta do que estava acontecendo, ela se viu completamente nua, a pele muito clara e suave reluzindo sob a luz difusa das velas.

John prendeu a respiração.

– Em toda a minha vida, nunca tive uma visão tão gloriosa – sussurrou em um tom reverente.

Belle enrubesceu de prazer com as palavras dele, então, de repente, pareceu perceber que estava nua.

– Ah, meu Deus – disse com a voz aguda.

Uma onda de timidez se abateu sobre ela como um vento frio, e ela tentou se cobrir com as mãos o melhor que pôde – o que, no m das contas, não era muito.

John deu uma risadinha e a pegou no colo.

– Você é perfeita, meu bem. Não deveria se sentir envergonhada.

– Não me sinto – respondeu ela, baixinho. – Não com você. Mas é muito estranho. Não estou... acostumada com isso.

– Claro que não.

John afastou os livros que estavam em cima da cama e a deitou sobre os lençóis brancos e macios. Belle parou de respirar por um instante ao ver que ele começava a se despir. Primeiro a camisa, deixando à mostra o peito de músculos rmes que denunciava anos de exercícios físicos rigorosos. A visão do corpo dele provocou um calor intenso no ventre de Belle. Sem pensar, ela esticou a mão, embora ele estivesse longe demais para que o alcançasse.

John sorriu e gemeu ao mesmo tempo diante da curiosidade dela. Estava se tornando cada vez mais difícil manter o controle, ainda mais com Belle deitada diante dele, tando-o com aqueles enormes olhos azuis. John se sentou na beira da cama, tirou as botas e voltou a se levantar para despir a calça.

Belle arquejou ao ver o membro dele, muito grande e... Não, aquilo não ia dar certo. John devia ser maior do que o normal, ou talvez ela fosse menor do que o normal, mas... Belle voltou a arquejar.

O joelho dele.

– Santo Deus – sussurrou ela.

O joelho de John era coberto de cicatrizes, e parecia que um pedaço grande da carne fora removido logo acima da junta. A mera visão da pele esticada, descolorida e sem pelos era uma lembrança furiosa dos horrores da guerra.

John torceu os lábios.

– Não precisa olhar para isso.

Belle desviou os olhos para o rosto dele.

– Não é isso – garantiu. – Não é feio de forma alguma.

E para provar isso, ela se ajoelhou diante dele e beijou as cicatrizes.

– Só me deixa angustiada pensar na dor que você deve ter sentido – sussurrou ela. – E em como chegou perto de perder a perna. Você é tão cheio de vida, tão forte... Não consigo imaginar o efeito que isso teria tido em você.

Ela voltou a beijá-lo, deixando um rastro delicado de amor na pele dele.

John se viu dominado por emoções que nunca esperara sentir, que nunca sonhara ser capaz de sentir, e a colocou de pé.

– Ah, Belle, quero tanto você...

Eles caíram na cama, o corpo forte de John cobrindo o de Belle. Ela se viu sem ar sob o peso dele, mas a sensação era deliciosa, diferente de qualquer coisa que já tivesse experimentado. John a beijou e beijou até ela ter certeza de que estava prestes a derreter, então, subitamente, ele olhou bem fundo nos olhos dela.

– Vou lhe dar prazer primeiro – falou. – Para que você saiba que não há nada a temer, que só o que a espera é beleza e encantamento.

– Não estou com medo – sussurrou Belle, mas então se lembrou de como ele parecera grande. – Bem, talvez um pouco nervosa.

John deu um sorriso tranquilizador.

– Não tenho experiência com mulheres inocentes, mas quero que este momento seja perfeito para você. Acho que pode ser mais fácil se eu a zer chegar ao clímax primeiro.

Belle não tinha ideia do que ele estava falando, mas assentiu.

– Você parece já ter pensado bastante a respeito.

– Acredite em mim: praticamente não pensei em outra coisa.

John deixou a mão descer suavemente por toda a extensão do corpo dela.

Belle acariciou o rosto dele e disse baixinho:

– Con o em você.

Ele roçou os lábios nos dela para distraí-la enquanto seus dedos buscavam o ponto mais íntimo do corpo feminino. Belle estava nervosa, e ele não queria que aquilo lhe causasse espanto.

Mas causou. Ela quase saltou da cama.

– Tem certeza de que é isso que deve fazer? – perguntou Belle, ofegante.

– Tenho.

A boca de John se juntou aos seus dedos. Belle teve certeza de que havia morrido. Nada poderia provocar uma sensação tão depravada... ou tão boa.

– Ah, John! – disse em um arquejo, sem conseguir controlar a sensação de que sua alma estava saindo do corpo, fora de controle. – Acho que não... não consigo...

Então aconteceu. Foi como se cada terminação nervosa do corpo dela subitamente convergisse para o abdômen. Todo o corpo dela cou tenso... e explodiu. Belle levou alguns minutos para voltar à terra e, mesmo assim, só conseguiu dizer:

– Meu Deus...

Ela ouviu John rir e, quando abriu os olhos, o pegou tando-a com uma expressão divertida. Ele deu um beijinho no nariz dela.

– É sempre assim? – perguntou ela em um apo de voz.

Ele assentiu.

– Melhor.

– É mesmo?

Ele assentiu de novo.

– Você...?

Ela não completou a frase. Era novata naquilo e não tinha ideia de como acontecia.

John balançou a cabeça devagar.

– Quando eu atingir o clímax, você vai saber.

– Vai ser tão bom quanto o que eu...?

Os olhos de John escureceram de desejo e ele assentiu.

– Ótimo – comemorou Belle num suspiro. – Eu não gostaria que você fosse privado do prazer que senti. Mas, se não se importar, queria me aconchegar ao seu corpo por uns minutinhos.

– Não há nada que eu deseje mais – assegurou John, ainda que seu membro rígido discordasse.

Ele havia acabado de aconchegá-la junto ao corpo quando ouviram um som terrível.

A voz de Persephone.

Seguida de uma batida à porta.

– Belle? – chamou a mulher. – Belle?

Belle se sentou na cama, assustada.

– Persephone?

– Posso entrar?

Uma onda de pânico dominou a jovem.

– Hum, só um momento.

Graças a Deus a porta estava trancada.

– Esconda-se! – sussurrou para John.

– Estou tentando – sussurrou ele em resposta.

John saiu da cama amaldiçoando o ar frio da noite. Recolheu todas as suas roupas e rezou para não ter esquecido nenhuma, depois entrou, cambaleando, no quarto de vestir de Belle.

Ela pegou o roupão, o vestiu e foi até a porta. Enquanto girava a chave, viu-se impressionada com a capacidade de suas pernas trêmulas ainda a sustentarem.

– Boa noite, Persephone.

– Desculpe incomodá-la, mas não consigo dormir, e sei que você foi até a livraria hoje. Será que poderia me emprestar algo para ler?

– É claro.

Belle entrou rapidamente no quarto e pegou alguns livros.

– São todos de poesia, mas já terminei de ler por hoje.

Persephone percebeu as pernas descobertas de Belle por baixo do roupão.

– Você não dorme de camisola?

Belle enrubesceu e agradeceu em silêncio ao manto escuro da noite por esconder seu embaraço.

– Eu estava com calor.

– Não consigo imaginar por quê. A janela está toda aberta. Vai pegar um resfriado.

– Acho que não.

Belle en ou os livros nos braços de Persephone.

– Obrigada.

Persephone franziu o nariz como se estivesse farejando.

– Que cheiro é esse? É tão peculiar...

Belle rezou para que a condição de tia solteirona da mulher mais velha fosse indiscutível, porque o quarto recendia a sexo. E só podia torcer para que Persephone não reconhecesse o cheiro.

– Hum, acho que está vindo lá de fora – sugeriu Belle.

– Ora, não consigo imaginar o que possa ser, mas você precisa se lembrar de fechar a janela antes de dormir. E, se quiser, posso lhe emprestar o meu perfume de violetas. Tenho certeza de que esse cheiro irá embora se borrifar um pouco pelo quarto.

– Talvez pela manhã.

Belle guiou Persephone em direção à porta.

– Boa noite, então. Até amanhã – despediu-se a acompanhante.

– Boa noite.

Belle fechou a porta e a trancou às pressas, depois se recostou nela e deixou escapar um suspiro.

A porta do quarto de vestir foi aberta na mesma hora e John saiu, a parte superior do corpo enrolada nos vestidos de Belle.

– Santo Deus, mulher, você tem muitos vestidos.

Belle o ignorou.

– Fiquei com tanto medo!

– E eu me senti um tolo. Estou lhe avisando, não vou tolerar isso por muito tempo.

Ele en ou a perna ruim com força na calça.

– Não? – perguntou Belle em um tom fraco.

– De jeito nenhum. Sou um homem adulto. Lutei em uma guerra, quase perdi a perna, investi meu dinheiro por cinco anos e consegui economizar o bastante para comprar uma casa. Acha que gosto de car me escondendo dentro de quartos de vestir?

Belle achou que não era necessário responder.

– Bem, eu lhe adianto que não. Não gosto nem um pouco.

John se sentou em uma cadeira que estava perto para en ar a perna boa na calça. Belle deduziu que a perna que fora ferida não era forte o bastante para sustentar sozinha o peso dele por muito tempo.

– E vou lhe dizer mais uma coisa – acrescentou John, cada vez mais irritado. – No que me diz respeito, você é minha. Entendeu? E não gosto da sensação de ser um ladrão roubando o que é meu.

– O que você vai fazer?

Ele pegou a camisa.

– Vou me casar com você imediatamente. Então a levarei para a mansão Bletchford, a jogarei na cama e a manterei lá por uma semana. Tudo isso sem ter que me preocupar com a Srta. Não Se Apaixone surgindo de repente para estragar tudo.

– Você realmente precisa arrumar um nome novo para a sua casa.

– A nossa casa – corrigiu ele, irritado com a tentativa de mudar de assunto. – E estive ocupado demais correndo atrás de você para pensar no assunto.

– Eu o ajudarei.

Belle sorriu. Ele a amava. Podia não ter dito aquilo em voz alta ainda, mas era visível em seus olhos.

– Ótimo. Agora, se me der licença, preciso pular da sua janela, descer por aquela árvore, voltar para a casa de Damien e dormir um pouco. E depois preciso descobrir como conseguir uma licença especial.

– Licença especial?

– Não vou continuar com essa perda de tempo além do necessário. Com alguma sorte, estaremos casados até o m da semana.

– Até o m da semana? – repetiu Belle. – Você enlouqueceu? Não posso me casar esta semana. Não posso nem mesmo car o cialmente noiva antes de os meus pais retornarem.

John gemeu enquanto pegava as botas e soltou um palavrão que Belle desconhecia.

– Quando eles retornam? – perguntou muito baixo.

– Não sei bem.

– Seria possível me dar uma estimativa?

– Não mais do que duas semanas, imagino.

Belle preferiu não mencionar que, depois que os pais dela voltassem, eles teriam que esperar mais um ou dois meses para se casarem. A mãe insistiria em um grande evento. Tinha certeza disso.

John praguejou de novo.

– Se eles não estiverem em casa em duas semanas, Alex pode levá-la ao altar. Ou você pode chamar seu irmão em Oxford. Não me importo.

– Mas...

– Sem “mas”. Se os seus pais perguntarem, diga a eles simplesmente que nós tivemos que nos casar.

Belle engoliu em seco e assentiu. O que mais poderia fazer?

– Eu am...

Ela perdeu a coragem antes que o restante da frase saísse.

John se virou para ela.

– Sim?

– N-nada. Tome cuidado quando descer da árvore. Ela é bem alta.

– Três andares, para ser preciso.

O sorrisinho dele era contagioso, e Belle sentiu que seus lábios se curvavam enquanto o seguia até a janela.

Ele parou na frente dela e murmurou:

– Um beijo de despedida.

John colou os lábios aos dela em um último beijo apaixonado.

Belle mal teve tempo de retribuir antes que ele se afastasse, calçasse as luvas e desaparecesse do lado de fora. Ela correu até o peitoril e observou John com um sorriso enquanto ele descia pela árvore.

– Ele poderia simplesmente ter saído pela porta – murmurou para si mesma. – O quarto de Persephone ca na direção oposta.

Ah, bem, era mais divertido daquela maneira – e mais romântico. Desde que ele não quebrasse o pescoço na descida...

Belle se inclinou um pouco mais para fora da janela e suspirou de alívio ao vê-lo chegar ao chão. John se abaixou para esfregar o joelho ruim, e ela franziu o cenho em solidariedade.

Inclinada sobre o peitoril da janela com uma expressão sonhadora no rosto, Belle cou observando até ele desaparecer de vista. Londres era linda de vez em quando, pensou. Como naquele momento, com as ruas desertas e...

Um movimento capturou sua atenção. Era um homem? Era difícil dizer. Belle se perguntou brevemente o que alguém estaria fazendo andando pela rua àquela hora.

Deu um risinho. Talvez todos os cavalheiros de Londres tivessem decidido fazer a corte de modo pouco convencional naquela noite.

Belle respirou fundo, fechou a janela e voltou para a cama. Só quando já estava aconchegada embaixo das cobertas ela lembrou que John acabara não chegando ao clímax.

Ela abriu um sorrisinho irônico. Não era de espantar que estivesse tão rabugento.

 

John voltou para a casa do irmão com a mão na pistola o tempo todo. Londres estava cada vez mais perigosa, e todo cuidado era pouco. Mesmo assim, ele não quisera ir de carruagem até a casa de Belle. Alguém poderia tê-lo visto, e ele não queria dar motivo para rumores maliciosos sobre ela. Além do mais, eram apenas uns poucos quarteirões de distância até a casa de Damien. Parecia que toda a aristocracia se espremia em uma minúscula área de Londres. Ele duvidava que a maior parte deles soubesse que a cidade continuava além dos limites da Grosvenor Square.

John estava a meio caminho de casa quando ouviu passos.

Ele se virou. Alguém o seguia?

Nada além de sombras. John continuou seu caminho. Com certeza fora apenas sua imaginação. Ele ainda estava paranoico por causa da guerra, onde cada som poderia signi car a morte.

John havia dobrado a última esquina quando ouviu de novo o som de passos. Então uma bala passou zunindo perto do seu ouvido.

– Que diabo é isso?

Outra bala zuniu, mas dessa vez raspou no braço dele, fazendo-o sangrar. John sacou a própria pistola e se virou. Então viu uma silhueta sombria do outro lado da rua recarregando o revólver às pressas. John não perdeu tempo e atirou, fazendo o agressor cair com um tiro no ombro.

Maldição! A mira dele estava destreinada. Ainda com o revólver na mão, John começou a caminhar na direção do agressor. O homem o avistou, segurou o próprio ombro e cou de pé. Ele lançou um olhar apreensivo na direção de John, mas metade de seu rosto estava coberta por uma máscara, por isso não foi possível reconhecê-lo. O bandido lhe lançou um último olhar rápido e saiu correndo.

Quando John chegou do outro lado da rua, estava amaldiçoando a perna ruim por diminuir sua velocidade. Nunca se sentira tão furioso com o destino por mutilá-lo daquele jeito. Não havia como perseguir seu agressor. Ele aceitou a derrota, suspirou e se virou. Aquilo era um problema.

E ele não tinha o direito de arrastar Belle para aquela situação.

John levou a mão ao braço quando nalmente se deu conta de que sangrava. No entanto, mal conseguia sentir a dor. A fúria bloqueava todas as outras sensações. Alguém estava atrás dele, e John não sabia por quê. Algum lunático mandara bilhetes misteriosos para ele e o queria morto.

E, quem quer que fosse, o homem provavelmente não hesitaria em envolver Belle se percebesse quanto ela era importante para John. E se ele

cara à espreita ao longo da semana, já sabia que John passara cada minuto

livre na companhia dela.

John praguejou enquanto subia os degraus da frente da casa de Damien. Não colocaria Belle em perigo, mesmo que isso signi casse adiar seus planos de casamento.

Maldição.