Brilhante
Capítulo 3
Quando chegou à mesa do café no dia seguinte, Belle descobriu que Emma e Alex ainda não haviam se levantado. Aquilo era bastante surpreendente, porque Emma era uma pessoa matinal. Supôs que Alex a estivesse mantendo na cama e se perguntou se uma mulher poderia engravidar de novo enquanto ainda estivesse grávida.
– Para alguém que normalmente é considerada tão brilhante – murmurou para si mesma –, você sabe tão pouco sobre as coisas importantes que chega a ser patético.
– Disse alguma coisa, milady? – perguntou um criado na mesma hora.
– Não, não, eu só estava falando sozinha – respondeu ela, revirando os olhos, irritada com o próprio comportamento.
Se continuasse daquele jeito, metade de Westonbirt acharia que ela era louca.
Belle se serviu e relanceou os olhos para o jornal da véspera, que fora deixado sobre a mesa para que Alex o lesse.
Quando ela terminou de comer a omelete, os recém-casados ainda não haviam chegado. Ela suspirou, tentando decidir como se ocupar.
Poderia invadir a biblioteca de Alex, pensou, mas – por incrível que parecesse – não estava com vontade de ler. O sol brilhava lá fora, um presente raro naquele outono tão chuvoso, e de repente Belle desejou não estar ali sozinha, desejou que Alex ou Emma não estivessem dormindo até tarde, que ela tivesse alguém com quem compartilhar aquele dia lindo. Mas não havia ninguém. A não ser... Belle balançou a cabeça. Não podia simplesmente aparecer na casa de lorde Blackwood e dizer “olá”.
Mas... por que não?
Ora, em primeiro lugar, porque ele não gostava dela.
O que, em contraponto, era um ótimo motivo para lhe fazer uma visita. Jamais conseguiria consertar a situação entre os dois se eles não se vissem.
Belle ergueu as sobrancelhas enquanto avaliava a ideia. Se levasse uma criada como acompanhante, a visita não seria algo tão indecoroso. Bem, na verdade, seria, mas não havia ninguém por perto, e lorde Blackwood não lhe parecera muito pomposo.
Decidida, foi até a cozinha para ver se a Sra. Goode poderia embrulhar alguns pãezinhos. Dariam um belo café da manhã – que talvez lorde Blackwood ainda não tivesse tomado.
Ela caria bem. Não estava em Londres, a nal. Não haveria quarenta fofoqueiras usando suas línguas ferinas ao m do dia para comentar sobre o comportamento escandaloso de lady Arabella. E ela não faria nada repreensível. Só queria cumprimentar adequadamente o novo vizinho. E ver como era a casa dele, disse Belle a si mesma. Como se chamava? Alex comentara na noite anterior. Casa Bletchwood? Mansão Blumley? Burgo Blasphemous? Belle riu de si mesma. Só se lembrava de que era um nome horrível.
Foi até a cozinha, onde a Sra. Goode preparou uma cesta com todo o prazer. Belle partiu logo, levando geleias frescas e pãezinhos caseiros.
Ela caminhou com determinação até os estábulos, onde montou em Amber, sua égua. Não tinha certeza de onde cava a casa de John, mas sabia que era para o leste. Se pegasse a estrada e fosse sempre na direção do sol, acabaria chegando lá.
Seguiu em um trote leve pelo longo caminho que levava de Westonbirt até a estrada principal. A camareira de Emma era boa amazona e acompanhou seu ritmo. Elas viraram para o leste na estrada principal e, como Belle previra, depois de uns quinze minutos chegaram a uma entrada que parecia levar a uma casa. Pouco depois, Belle se viu em uma clareira ampla onde se erguia uma elegante construção de pedra.
Era pequena para os padrões da aristocracia, mas tinha estilo e era obviamente bem construída. Combinava com ela. Belle sorriu e instigou a égua a seguir em frente. Não viu sinal dos estábulos, por isso ela mesma amarrou Amber a uma árvore. A camareira de Emma fez o mesmo com a montaria dela.
– Desculpe, Amber – murmurou Belle antes de respirar fundo e subir os degraus da frente da casa.
Ela levantou a aldrava gigante na porta e deixou-a cair com um baque alto. Em pouco tempo, um senhor de cabelos brancos atendeu. Belle deduziu que era o mordomo.
– Bom dia – falou ela em um tom educado e altivo. – Esta é a casa de lorde Blackwood?
O mordomo ergueu a sobrancelha.
– Sim.
Belle abriu seu sorriso mais cativante para o homem.
– Excelente. Por favor, informe a ele que lady Arabella Blydon veio visitá-lo.
Diante das roupas elegantes e do modo de falar aristocrático da jovem à sua frente, Buxton não duvidou nem por um momento que ela fosse uma dama. Assentiu regiamente e a levou até um cômodo agradável, decorado em tons de creme e azul.
Belle observou em silêncio enquanto o mordomo subia a escada. Então voltou-se para a camareira de Emma.
– Talvez seja melhor você ir, bem... até a cozinha e ver se há.... hã... se há outros criados por lá.
A criada arregalou os olhos quando percebeu que estava sendo dispensada, mas assentiu e deixou o salão.
John ainda estava na cama quando o mordomo entrou no quarto, pois decidira se permitir um descanso muito merecido. Buxton entrou em silêncio e aproximou bem a boca do ouvido do patrão.
– O senhor tem visita, milorde.
John afastou o mordomo com um travesseiro e acordou com relutância.
– Tenho o quê? – perguntou ainda grogue.
– Visita.
– Santo Deus, que horas são?
– Nove horas, milorde.
John cambaleou para fora da cama e pegou o roupão para cobrir o corpo nu.
– Quem diabo veio me visitar às nove da manhã?
– Lady Arabella Blydon, milorde.
John se virou depressa, surpreso.
– Quem?
– Acredito que eu tenha dito lady...
– Eu ouvi o que disse – interrompeu John, irritado, de péssimo humor por ter sido acordado tão bruscamente. – Que raios ela está fazendo aqui?
– Não sei, milorde, mas pediu para vê-lo.
John suspirou. Quando Buxton se daria conta de que nem toda pergunta exigia uma resposta? Suspirou mais uma vez. Não duvidava nem por um momento de que o velho e astuto mordomo soubesse muito bem que os comentários do patrão eram retóricos.
– Imagino que eu tenha que me vestir – voltou a falar John, por m.
– Imagino que sim, milorde. Tomei a liberdade de informar a Wheatley que o senhor iria precisar dos serviços dele.
John foi até o quarto de vestir. Assim como Buxton, o valete também já trabalhava na casa, e John tinha que admitir que não fora difícil se acostumar àquele luxo. Em pouco tempo, ele já estava vestido com uma calça clara justa, camisa branca engomada e paletó azul-marinho. Ignorara a gravata de propósito. Se lady Arabella zesse tanta questão de gravatas, não deveria aparecer para visitá-lo às nove da manhã.
John jogou água no rosto e passou as mãos úmidas pelos cabelos desalinhados, tentando melhorar um pouco a aparência de quem acabara de sair da cama.
– Ah, que se dane – murmurou.
Ainda parecia com sono. Mas quem se importava? Ele desceu a escada.
Buxton o interceptou no térreo.
– Lady Arabella o espera no salão verde, milorde.
John respirou fundo, tentando não demonstrar exasperação.
– E qual deles é o salão verde, Buxton?
O mordomo deu um sorrisinho divertido e o indicou com um gesto.
– Bem ali, milorde.
John seguiu na direção apontada e entrou no salão, deixando a porta aberta por decoro. Belle estava de pé, perto de uma cadeira azul, examinando com atenção um vaso decorado. Ela parecia muito encantadora e irritantemente desperta no vestido cor-de-rosa.
– Que surpresa – comentou ele.
Belle levantou os olhos ao ouvir o som profundo da voz de John.
– Ah, olá, lorde Blackwood – falou ela e desviou os olhos por um breve instante para os cabelos desalinhados dele. – Espero não tê-lo acordado.
– De forma nenhuma – mentiu John.
– Acho que, quando nos conhecemos, não começamos com o pé direito.
Ele não disse nada.
Belle respirou fundo e continuou.
– Certo. Bem, pensei em lhe dar as boas-vindas à vizinhança. E lhe trouxe uma coisinha para acompanhar seu café da manhã. Espero que goste de pãezinhos frescos.
John abriu um largo sorriso.
– Adoro pãezinhos frescos. E chegaram bem a tempo do meu café da manhã.
Belle franziu o cenho diante do tom tão animado dele. Sabia que o havia acordado.
– E trouxe também um pouco de geleia para acompanhar.
Ela se sentou, enquanto se perguntava o que lhe dera na cabeça para aparecer tão cedo na casa do homem.
John pediu chá e café a um criado e sentou diante dela. Então olhou ao redor.
– Vejo que está sem acompanhante.
– Ah, não, eu trouxe uma camareira, mas ela foi conversar com os outros criados. Eu teria trazido Emma comigo, mas ela ainda não tinha se levantado. É cedo, sabe?
– Sei.
Belle engoliu em seco e continuou.
– Na verdade, não acho que a questão da acompanhante tenha grande importância. A nal, não estamos em Londres, onde cada movimento é um prato cheio para os fofoqueiros. Além disso, não estou correndo perigo.
Os olhos de John percorreram de forma apreciativa as formas muito femininas do corpo dela.
– Não?
Belle enrubesceu e endireitou o corpo no assento. Ela o encarou com
rmeza e viu a honra reluzindo por trás da expressão sarcástica.
– Não, acho que não corro risco – respondeu, decidida.
– A senhorita não deveria ter vindo até aqui sozinha.
– Eu lhe disse: não vim sozinha. Minha camareira...
– Sua camareira está na cozinha. E a senhorita está aqui, neste salão. Sozinha. Comigo.
Belle abriu e fechou a boca várias vezes antes de conseguir falar.
– Ora... sim, é claro... mas...
John a encarou, pensando que nada lhe daria mais prazer do que se inclinar um pouco e beijar aqueles lábios macios que se abriam e se fechavam com tamanha consternação. Balançou de leve a cabeça, como se para afastar aquela imagem. Controle-se, John, alertou sua consciência.
– Peço perdão – disse ele. – Não pretendia deixá-la desconfortável. Mas realmente é bastante incomum que uma jovem dama visite um cavalheiro solteiro sem acompanhante.
Belle abriu um sorriso travesso, a tensão cedendo diante do pedido de desculpas dele.
– Sou uma pessoa bastante incomum.
John não duvidava. Ele observou a expressão marota da jovem à sua frente e se perguntou se ela fora até ali com a intenção de torturá-lo.
– Além do mais – continuou Belle –, não achei que o senhor seria tão apegado às regras de etiqueta.
– Eu não sou – argumentou John. – No entanto, a maior parte das jovens damas é.
Um criado chegou com o chá e o café, e Belle se ofereceu para servir. Ela entregou a xícara de café a ele e se serviu de chá, tagarelando o tempo todo.
– O senhor cresceu nesta região?
– Não.
– Ora, então onde cresceu?
– Em Shropshire.
– Que agradável.
John deixou escapar um som que foi quase um grunhido. Belle ergueu as sobrancelhas e continuou.
– Sou de Londres.
– Que agradável.
Belle cerrou os lábios.
– Temos uma casa em Sussex, é claro, mas costumo pensar em Londres como meu lar.
O barão pegou um pãozinho e passou nele uma boa quantidade de geleia de morango.
– Lamento pela senhorita.
– Não gosta de Londres?
– Não muito.
– Ah.
E o que mais ela poderia dizer?, perguntou-se Belle. Um minuto inteiro se passou. Ela estava dolorosamente consciente dos olhares especulativos e divertidos que John lhe lançava.
– Bem – disse ela, por m –, vejo que o senhor não mentiu para mim ontem.
O comentário capturou a atenção de John e ele a encarou com uma expressão curiosa.
– O senhor de fato é péssimo em manter conversas educadas.
Ele deixou escapar uma gargalhada.
– Ninguém pode acusá-la de não ser astuta, milady.
Belle deixou o comentário passar, já que não tinha certeza se fora um elogio. Quando levantou os olhos para tá-lo, lembrou-se da conversa que tiveram na véspera. Por um momento, ao menos, eles haviam gostado da companhia um do outro. Conversaram sobre Shakespeare e, sim, até trocaram implicâncias.
Ele parecera diferente naquele breve momento, quase jovial. Até voltar a se colocar na defensiva. Belle tinha a sensação de que aquele homem já fora profundamente magoado. No entanto, aquilo não signi cava que ela permitiria que ele a magoasse também.
Belle via algo especial em John, algo elegante, luminoso e muito, muito bom. Talvez ele só precisasse de alguém para relembrá-lo disso. Ela não via motivo para não jogar a cautela pelos ares e tentar ser amiga dele, apesar de todos os obstáculos que ele colocava.
– Pode falar nesse tom arrogante quanto quiser que não vai adiantar – atalhou ela, cruzando os braços.
John ergueu uma sobrancelha.
– É melhor o senhor aceitar logo – declarou Belle sem rodeios. – O senhor gosta de mim.
Para desalento de John, ele deixou a xícara de café bater com força no pires.
– O que a senhorita disse?
– Que o senhor gosta de mim.
Belle inclinou a cabeça, parecendo muito um gato que começara a saborear uma grande tigela de nata.
– E posso perguntar como chegou a essa conclusão?
– Eu percebi.
Estava na ponta da língua de John perguntar se ela também percebia que ele a desejava. Será que lady Arabella se dava conta disso? Talvez. Ele mesmo estava bastante surpreso com a intensidade da própria reação a ela. Na véspera, lady Arabella parecera encantadora sentada embaixo da árvore nas terras dele, mas agora, diante de seus olhos ainda sonolentos, ela era uma deusa.
– O senhor não precisa car tão impressionado com a minha intuição – comentou Belle com ironia.
Uma deusa muito espirituosa.
– A senhorita deveria ser açoitada – sentenciou John.
– Espero que não tenha a intenção de procurar um chicote neste momento. Tenho muito apego às minhas costas.
Santo Deus, quando se tornara tão ousada?, perguntou-se Belle. Ela olhou de relance para o semblante furioso dele.
A mente traiçoeira de John decidira que também gostaria muito, muito de se apegar às costas dela. Então seu corpo ainda mais traiçoeiro reagiu com voracidade à ideia. O que aquela moça estava pensando? Havia limites quando se tratava de provocar um homem. Ainda assim, ele não podia negar que as palavras de lady Arabella tinham um toque de verdade. Gostava bastante dela, de fato. Então, na tentativa de afastar a conversa daquele assunto perigoso, ele declarou:
– A senhorita está certa. Não sou muito bom em manter conversas educadas.
Belle aproveitou a deixa. Abriu um belo sorriso e disse:
– Se eu fosse o senhor, não me preocuparia demais. Ainda tenho esperança em sua evolução nesse sentido.
– Imagine o meu alívio.
– Uma esperança que diminui a cada segundo – disse ela por entre os dentes.
John a encarou enquanto mastigava um pedaço de pão. De algum modo, lady Arabella conseguia parecer doce e desejável ao mesmo tempo. Que Deus o ajudasse, pois ela já estava conseguindo rachar o muro de proteção que ele erguera ao seu redor anos antes. Aquela jovem com certeza não merecia o tratamento que ele vinha lhe dispensando. John engoliu o pedaço de pão e limpou lenta e deliberadamente a boca com o guardanapo. Então se levantou e pegou a mão dela.
– Podemos começar de novo? – pediu ele com elegância e levou a mão dela aos lábios. – Talvez eu tenha me levantado da cama com o pé esquerdo hoje.
O coração de Belle deu uma breve cambalhota ao sentir os lábios dele roçarem os nós dos seus dedos.
– Sou eu que devo me desculpar. Acredito que a esta hora qualquer um dos pés seria o esquerdo.
John sorriu ao ouvir aquilo e voltou a se sentar, pegando outro pãozinho.
– Estão deliciosos – comentou ele.
– A mãe da nossa cozinheira era escocesa.
– Nossa cozinheira? – repetiu John, avaliando a escolha de palavras. – A senhorita se tornou moradora permanente da casa, então?
– Não, devo voltar a Londres quando meus pais chegarem da Itália. Mas tenho que admitir que Westonbirt começa a parecer um lar para mim.
John assentiu e ergueu seu pãozinho já pela metade.
– Já esteve na Escócia?
– Não. O senhor esteve?
– Não.
Houve um momento de silêncio, então John perguntou:
– Como estou me saindo?
– Com o quê? – indagou Belle, confusa.
– Manter uma conversa educada. Venho me esforçando muito nos últimos minutos.
Ele deu um sorriso travesso. Belle não conseguiu conter a risada que subiu por sua garganta.
– Ah, o senhor está evoluindo a passos largos!
– Então logo devo estar pronto para uma temporada de eventos sociais em Londres.
Ele colocou o último pedaço de pão na boca.
Belle se inclinou para a frente, animada.
– Então planeja ir à capital para aproveitar a temporada?
Aquela ideia a empolgara. Começara a se sentir entediada com o turbilhão social, e John com certeza animaria a temporada. Além disso, ela achava a possibilidade de dançar nos braços dele estranhamente atraente.
Belle sentiu um arrepio subir por sua coluna só de pensar em estar tão próxima a ele. Enrubesceu.
John reparou no rubor do rosto dela e cou profundamente curioso sobre o pensamento infame que a zera enrubescer depois de ter aparecido na casa dele às nove da manhã de forma tão ousada. No entanto, não queria deixá-la constrangida perguntando a respeito, por isso disse apenas:
– Não tenho o traquejo necessário.
Belle se recostou na cadeira, surpresa com a franqueza dele.
– Ora, isso não é problema – disse ela numa tentativa de diverti-lo. – Metade da aristocracia não tem traquejo social. A maior parte consegue convites para as festas que acontecem toda noite simplesmente para não precisar pagar o próprio jantar.
– Nunca fui do tipo que vai a festas todas as noites.
– Não, não achei que seria. Na verdade, também não sou.
– É mesmo? Eu teria imaginado que a senhorita seria a belle do baile, se me perdoa o trocadilho.
Belle deu um sorriso irônico.
– Seria falsa modéstia dizer que não aproveitei a minha cota de sucesso social...
John riu diante da escolha cuidadosa de palavras.
– Mas devo admitir que estou cando cansada da temporada de eventos sociais.
– É mesmo?
– Sim. Mas acho que serei forçada a participar de mais uma no ano que vem.
– Por que vai, se acha tão desinteressante?
Belle deu um sorriso sem graça.
– É preciso conseguir um marido, a nal.
– Ah – foi só o que disse John.
– Não é tão fácil como o senhor talvez imagine.
– Não consigo imaginar que conseguir um marido seja difícil para a senhorita, lady Arabella. Deve saber que é extremamente bela.
Belle enrubesceu de prazer diante do elogio.
– Já recebi alguns pedidos de casamento, mas nenhum deles foi adequado.
– Fortuna insu ciente?
Dessa vez, quando Belle voltou a enrubescer, foi de consternação.
– Isso me ofende, lorde Blackwood.
– Sinto muito, achei que fosse dessa forma que as coisas aconteciam.
Belle tinha que admitir que, para a maioria das mulheres, era daquela forma que as coisas aconteciam. Aceitou o pedido de desculpas com um breve aceno de cabeça.
– Alguns cavalheiros me informaram que estariam dispostos a ignorar minhas consternadoras tendências intelectuais graças à minha aparência e à minha fortuna.
– Acho suas tendências intelectuais bastante atraentes.
Belle deixou escapar um suspiro de satisfação.
– Que bom ouvir alguém... um homem... dizer isso.
John deu de ombros.
– Sempre me pareceu uma tolice desejar uma mulher que não é capaz de se comunicar melhor do que uma ovelha.
Belle se inclinou para a frente com um brilho travesso nos olhos.
– É mesmo? Eu teria imaginado que o senhor preferisse uma mulher assim, levando-se em conta sua di culdade em manter uma conversa educada.
– Touché, milady. Reconheço sua vitória nesta rodada.
Belle se sentiu absurdamente satisfeita e, de repente, muito, muito feliz por ter se aventurado a fazer aquela visita.
– Vou encarar isso como um grande elogio, na verdade.
– Era essa a intenção.
John indicou com um gesto os poucos pãezinhos que sobravam.
– Não vai querer um? Sou capaz de comer o prato inteiro se a senhorita
car aí de braços cruzados.
– Bem, eu já tomei café, mas... – ponderou Belle e olhou para os saborosos pãezinhos. – Acho que não faria mal.
– Ótimo, não tenho paciência para damas que tentam comer como passarinhos.
– Não, a nal o senhor prefere ovelhas.
– Touché mais uma vez, milady.
John olhou pela janela.
– São os seus cavalos lá fora?
Belle acompanhou o olhar dele, então se levantou e caminhou até a janela.
– Sim. A da esquerda é minha égua, Amber. Não vi os estábulos, por isso a amarrei na árvore. Ela parece satisfeita.
John se levantara logo depois de Belle. Juntou-se a ela à janela.
– Os estábulos cam nos fundos.
Belle estava consciente demais da proximidade dele, do aroma masculino. Ela pareceu perder o ar e, pela primeira vez naquela manhã, se viu sem fala. Enquanto John olhava para a égua, Belle examinou de relance seu per l. Ele tinha um nariz reto, aristocrático, e um queixo forte. Os lábios eram lindos, cheios e sensuais. Belle engoliu com di culdade e se forçou a olhar para os olhos dele. Pareciam tão desolados... Ela se pegou desejando desesperadamente poder apagar a dor e a solidão que viu neles.
John se virou e agrou Belle observando-o. Seus olhos encontraram os dela e, por um momento, as barreiras dele sumiram, permitindo que Belle enxergasse dentro de sua alma. Então ele forçou um sorriso, quebrando o encanto, e se virou.
– É uma bela égua – comentou.
Belle demorou alguns instantes para recuperar o fôlego.
– Sim, eu a tenho há muitos anos.
– Imagino que ela não consiga fazer muito exercício em Londres.
– Não.
Por que eles estavam conversando de forma tão insípida agora?, perguntou-se Belle. Por que ele se afastara dela? Belle achou que não suportaria passar mais um único momento com John se continuassem a trocar apenas amenidades e, que Deus não permitisse, mantivessem uma conversa educada.
– É melhor eu ir – atalhou ela. – Está cando tarde.
John riu ao ouvir aquilo. Ainda não eram nem dez da manhã.
Na pressa de se recompor e partir, Belle não ouviu a risadinha dele.
– Pode car com a cesta – falou ela. – É um presente, assim como a comida.
– Eu a guardarei como um tesouro.
Ele puxou a campainha para chamar a criada de Belle, que estava na cozinha.
Belle sorriu e, para seu horror e sua surpresa, sentiu os olhos marejarem.
– Obrigada pela companhia. Tive uma manhã adorável.
– Eu também.
John a acompanhou até o saguão da frente. Belle sorriu antes de se afastar, o que o abalou até a alma e levou uma nova onda de desejo a percorrer seu corpo.
– Lady Arabella – disse John, com voz rouca.
Ela se virou, a expressão preocupada.
– Algum problema?
– Não é sábio da sua parte buscar minha companhia.
– O que está querendo dizer?
– Não volte aqui.
– Mas o senhor acabou de falar...
– Eu disse para a senhorita não voltar. Ao menos não sozinha.
Ela piscou.
– Não seja tolo. Está soando como o herói de um romance gótico.
– Não sou herói – retrucou ele em um tom sombrio. – Seria bom que se lembrasse disso.
– Pare de fazer graça comigo – falou ela, sem muita convicção.
– Não estou fazendo isso, milady.
Ele fechou os olhos e, por uma fração de segundo, uma expressão de pura agonia dominou suas feições.
– Há perigos neste mundo que a senhorita desconhece. Perigos que nunca deve vir a conhecer – apressou-se a acrescentar.
A criada chegou ao saguão.
– É melhor eu ir embora – repetiu Belle, desanimada.
– Sim.
Ela se virou e desceu correndo os degraus, em direção à égua. Montou depressa e seguiu pelo caminho que levava à estrada principal, muito consciente do olhar de John nas suas costas o tempo todo.
O que havia acontecido com ele? Se Belle já se sentia intrigada pelo novo vizinho antes, agora estava profundamente curiosa. O humor dele mudava como o vento. Ela não conseguia compreender como lorde Blackwood fora capaz de brincar tão docemente com ela e parecer tão sombrio e hostil um instante depois.
E ela não conseguia afastar a ideia de que ele, por algum motivo, precisava dela. Lorde Blackwood precisava de alguém, isso cara muito claro. Alguém capaz de afastar a dor que nublava seus olhos quando ele achava que ninguém estava olhando.
Belle endireitou os ombros. Nunca fora do tipo que foge de um desa o.