Catarina de Bragança
Paço da Ribeira, 21 de Agosto de 1657
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Catarina ignorou a palavra negócio.
- E depois...
- Depois diz - e passou a ler:
«Aguardarei com a maior impaciência aviso de Vossa Majestade para que a minha armada parta para transportar a este reino a sereníssima infanta, minha senhora bem-querida, assegurando-lhe todos os sentimentos que em mim cabem e que não posso ter maior felicidade do que a posse de tão ditosa esperança.»
- Mãe, acha mesmo que ele está assim tão feliz? Por casar com uma mulher que nem conhece?
- E tu não estás? O amor é uma invenção da alma, mas é bom, e pode transformar-se numa coisa verdadeira e forte - disse Luísa, de repente mais séria do que era seu costume.
- Cá para mim está a escrever à sogra e a dar-lhe uma grande cantiga -disse subitamente Catarina a rir.
- Não me admira nada! - respondeu Luísa, igualmente divertida.
- Mas mais vale um genro um pouco sonso, mas bem-educado e simpático, do que um muito genuíno mas frio, como dizem sempre que os ingleses são - acrescentou a princesa.
- Não podes ter mais razão, sobretudo para mim que não vou viver com ele - respondeu a mãe, invulgarmente bem-disposta.
- Agora vamos jantar.
Dando o braço à ilha, mandou que lhe abrissem as portas, e foram juntas até ao salão.
Paço da Ribeira, 15 de Junho de 1661
m mês, quase um mês sem notícias. Era mesmo estranho este
Charles, que tanto lhe dava para escrever pessoalmente à mãe uma carta de fazer chorar, como passava semanas sem dizer mais nada. Quanto a D. Francisco, nem sabia por onde andava, talvez a regressar de Inglaterra, pensou.
António Vieira preocupara-a mais nestes últimos tempos, para dizer a verdade: tivera notícias de que os jesuítas tinham sido expulsos do colégio no Maranhão de que Vieira era principal, e que acabara por ser preso quando protestara contra as investidas no sertão para fazer escravos. Tinha sido capturado numa igreja, fora devolvido ao Maranhão, e aí enfiado num barco, sabe-se lá em que condições, com destino a Lisboa. Não chegaria antes de Novembro, e até lá tinha de se conformar a rezar por ele e a esperar que tudo corresse bem. Só pedia que a mãe tivesse poder, mesmo que nem sempre genuína vontade, de o proteger quando desembarcasse do lado de cá do Mundo.
Um mês sem notícias, mas inalmente uma carta de D. Francisco, e a consciência de que continuava a haver muitos pormenores que a mãe lhe escondia.
Desta vez fora o próprio Afonso que se sentara com ela para lhe explicar tudo:
- São todos uns interesseiros, Catarina.
- Até aí, Afonso, acho eu que já cheguei, mas o que é que aconteceu agora? Porque é que tudo se atrasa? Não me leves a mal, quanto mais penso em partir, mais medo tenho, mas acordar de manhã todos os dias com esta incerteza, é hoje que me mandam ir, é hoje que desistem e me dizem para ficar, tira-me a fome, o sono e a vontade de fazer seja o que for.
- O teu Charles não parece querer desistir de nada, mas a questão é que Roma continua a não me reconhecer como rei de Portugal. Nem à mãe como regente, nem ao pai como tendo sido rei.
- Mas como é que, passados tantos anos, podem continuar tão teimosos, fechar os olhos à evidência? Será que Espanha ainda acha que vai reconquistar Portugal?
Afonso acenou que sim com a cabeça, e com a mais mordaz ironia disse:
- Se nem lhes chega terem uma andaluza, dos Grandes de Espanha, ilha do oitavo duque de Medina-Sidónia a governar o reino, onde esperas tu que parem?
- Afonso!!! Não deixes que a raiva à mãe te cegue. Não é espanhola, lutou contra Castela, sabes bem que os avós sofreram, lhes queimaram as terras, tudo porque a filha optou pelo marido e não pela terra de origem.
- Como tu farás em Inglaterra? - perguntou, olhando-a intensamente.
- Não, Afonso, não vou trair Portugal. Bolas - e usou o calão de propósito para marcar a sua irritação -, dou a minha vida para que o reino receba reforços militares que te ajudem a ser rei com mais segurança e poder, e ainda me vens perguntar se vou virar as costas à minha terra?
- Desculpa, mana, são os nervos. Claro que não vais. Serás a minha melhor aliada, mal a senhora Luísa de Gusmão seja obrigada a passar-me a governação, como já o devia ter feito há muito.
- Obrigada? - o tom de Catarina era de verdadeiro alarme.
Afonso não lhe respondeu à pergunta, preferiu continuar:
- Vamos ao que agora interessa: porque não és princesa de sangue real aos olhos da Europa, se o teu casamento se izer aqui, em Portugal, por procuração, precisamos de dispensas do papa, ora como ele só as dará para a ilha dos duques, perdemos força. Queremos que os ingleses te vejam como princesa de sangue real. Por outro lado, se casares lá, como eles são independentes de Roma, podem assumir-te como rainha sem mais demoras.
- É essa a solução? - perguntou Catarina no seu tom de voz mais prático.
- A solução que os embaixadores propõem é que se assine um contrato prévio em que Charles se compromete a declarar sobre «a sua real mão e selo», gostas da expressão?, que toma a ilustre senhora infanta de Portugal como sua legítima esposa antes de o acordo ser assinado pelo rei de Portugal, que sou eu, caso te tenhas esquecido! Porque se os acontecimentos não se dessem por esta ordem não te deixávamos sair daqui...
- Agora não estou a perceber...
- Imagina que eu assinava o acordo, o levavas contigo, e quando chegavas a Inglaterra o rei Charles tinha mudado de opinião. Não estava vinculado por contrato nenhum e podia devolver-te ao reino, uma virgem rejeitada...
Catarina torceu o nariz.
- Obrigada por me protegerem. Para além do desgosto, não havia mais ninguém no Mundo que quisesse casar comigo depois de ser exposta dessa maneira.
- Exactamente, daí as precauções, mas não te preocupes, porque Charles não é decididamente um homem calculista. Concordou imediatamente com todas as formas de te proteger e pareceu, dizem os embaixadores, horrorizado com a ideia de que pudesses sofrer de alguma maneira.
- Estás a fazer troça?
- Não estou, Catarina, juro que não estou. Lembras-te como naquele dia que, generosa, foste a primeira a ir ao torreão dizer-me que as Cortes me tinham jurado rei?
- Lembro.
- E o que te disse?
- Que me protegerias - disse Catarina, comovida.
- E é isso que estou a fazer. Por ti, até estou a colaborar com a mãe nisto tudo.
- Não há mais surpresas desagradáveis nesse contrato?
- Há, claro que há - disse Afonso, muito sério. - Se o dote não for entregue a tempo e horas, antes de embarcares no barco que te vier buscar, Inglaterra não se obriga a nada.
Catarina respirou fundo. Não iria perguntar se era uma possibilidade, porque sabia que a resposta era afirmativa.
Agradeceu a Afonso o seu cuidado e pediu-lhe licença para se retirar. Precisava de estar sozinha.
A parte da tarde não ia ser mais serena do que a da manhã. Dona Leonor chamou-a. O que seria agora? Porque não se juntavam todos e a convocavam para uma reunião de Estado, pondo todos as cartas na mesa? Ao mesmo tempo.
Mandou-a sentar na cadeira de baloiço da sua salinha particular, para onde Catarina raramente era convocada:
- Minha querida princesa - começou a senhora, e Catarina sentiu o corpo tenso. A uma introdução destas não corresponderiam boas notícias.
Leonor conhecia-a de cor e salteado, e procurou sossegá-la:
- Não tenho nada de grave para lhe dizer, princesa, só uma conversa de mulher para mulher, aquela que uma mãe tem com uma ilha - atreveu-se a dizer.
Catarina descontraiu-se. Talvez não passasse daquela «conversa» a que Maria do Rosário e Maria do Carmo se estavam sempre a referir. «Os factos da vida», como lhe chamavam, e elas riam, que já sabiam tudo aquilo de cor e salteado, ou não andassem de olhos nas outras raparigas da sua idade, muitas delas bem mais acordadas do que aquele trio pacato. Além do mais, aprendia-se muito com uma simples ida à copa ou às cozinhas e a observar os toques, os apalpões, quando não muito mais, entre criadas e criados, que não pareciam lidar com o corpo daquela maneira formal a que eram obrigadas as meninas de família.
Leonor sentiu-se encorajada pelo relaxar das linhas do rosto da sua menina. Podiam conversar.
- D. Catarina, em primeiro lugar, a sua mãe pediu-me para lhe dizer que o father Richard Russel, aquele padre inglesinho que esteve também nas negociações do seu enlace, virá ao paço todas as tardes para lhe dar umas lições rudimentares da língua inglesa. É preciso que saiba pelo menos algumas palavras, sob risco de se sentir muito perdida naquela terra.
Catarina olhou-a, serena. Gostava do father Russel, era um padre diferente de todos os outros, que viera estudar para o Convento dos Inglesinhos, em Lisboa, porque no seu país os católicos eram perseguidos.
- Tem outra vantagem, conheceu já o rei Charles, e quanto mais souber sobre ele mais fácil será lidar com o seu marido...
Catarina disse que sim. Fazia todo o sentido, e no entanto sabia que não abriria a boca, não seria capaz de cometer erros, de errar a pronúncia. Tinha vergonha, medo de desiludir Russel, escutaria, aprenderia, mas ele ficaria certamente com a sensação de que era burra. Paciência.
- Desejava dizer-me mais alguma coisa? - quis saber, ansiosa por sair dali.
- Quero, dona Catarina. Tenho ouvido gente idedigna descrever o carácter do seu futuro marido, sobretudo a sua relação com as mulheres...
Catarina pôs-se de pé, não suportava ouvir estas coisas e saber que D. Leonor lhe lia as reacções na cara. Começou a andar de um lado para o outro, enquanto com a mão lhe fazia sinal para continuar.
- Deveria ser a sua mãe a contar-lhe isto, mas tenho de ser eu, quero ser eu, não a desejo ver apanhada de surpresa por nada.
- D. Leonor, por favor, vá directa ao assunto. Que me pode dizer de muito mais extraordinário do que aquilo que já sei: Charles teve um caso com uma mulher e dela teve um ilho, que reconheceu e entregou a um dos seus validos iéis, nada que não se tenha visto neste paço! Em seguida teve um outro caso, de que nasceram mais dois rapazes, ao que me dizem pelo menos um morreu de doença. Mas agora vai casar, vai ser tudo diferente...
D. Leonor icou aliviada por Catarina não estar tão distante da realidade como fazia crer, mas o pior ainda estava por dizer. Decidiu que o diria de um fôlego só:
- Julgo que lhe deve ser dito que nesta altura, e apesar dos preparativos e do compromisso de casamento, o rei Charles tem uma amante, Barbara Palmer, de quem tem também alguns ilhos bastardos. Palmer é casada, mas isso não parece impedir a relação, muito pelo contrário.
Catarina começou a tremer como varas verdes, de tal forma que D. Leonor se pôs em pé para a ajudar a sentar.
- Disse-lhe que seria duro, mas seria ainda mais se lhe fosse contado por estranhos, num momento em que a apanhassem mais frágil. Assim pode pensar em que atitude deseja tomar e reagir com alguma calma, sem dar parte de fraca...
«Parte de fraca?», estava esta gente toda doida? Casava por amor, sonhava proteger, mimar e ajudar o marido, dar-lhe ilhos, educá-los para um dia subirem ao trono, e agora vinham dizer-lhe que Charles era um vulgar mulherengo, que não pensava duas vezes antes de sujeitar a mulher à humilhação de uma amante em permanência? Não era uma aventura passada e esquecida, mas uma realidade com que tinha de lidar.
Retorquiu de chofre:
- Aposto que quem lhe conta estas coisas não sabe do que fala. Quando chegar a Inglaterra certamente que tudo isso terá acabado. Nem admitirei que de outra forma seja. Pode ter a certeza, D. Leonora que não tenho feitio para bobo da corte, nem vou para tão longe do meu paço e da minha família para ser motivo de troça.
Virou-lhe as costas e saiu.
Sentou-se no chão, o vestido amarrotado erguia-se quase como uma fortaleza de seda em seu redor, e como um bicho que se esconde no seu casulo chorou até que a noite desceu sobre o paço. D. Leonor bateu incessantemente à porta, assustada, a ama Carminho tentou que a abrisse, mas Catarina limitou-se a pedir que a deixassem em paz. Estava bem, mas desejava icar sozinha. Por im, acabaram as pancadas, os pedidos e as súplicas, e Catarina ali icou, o pensamento vazio, exausto. A alma ixara-se lá em cima, no tecto, e recusava-se a descer.
Lisboa, 25 de Junho de 1661
cena com D. Leonor tinha deixado Catarina gelada por dentro e,
por muito que se esforçasse por esboçar sorrisos, aprender inglês ou entrar na conversa das damas, tudo lhe soava a falso.
Russel percebia que a infanta estava perturbada:
- Is your Royal Highness afraid?
- A parte da Alteza Real percebo, mas «afraid», o que quer dizer? -perguntou, mais por delicadeza por este pobre homem, do que por interesse.
- Medo, D. Catarina. Está tão abatida por ter medo de partir?
Catarina fez-lhe um sorriso triste:
- Como se diz «Mais medo do que vou encontrar»?
- «More afraid of what I will find.»
A infanta tentou repetir e Russel não conseguiu deixar de rir:
- Acho que primeiro temos de ir aos nomes dos objectos e das coisas e depois logo construímos frases tão profundas como essas. Mas quer que comente esse seu medo?
A infanta acenou que sim com a cabeça. Afinal, Richard Russel era inglês, conhecera Charles, talvez o que lhe pudesse dizer a deixasse mais feliz, mais segura.
- Não lhe escondo que não será fácil adaptar-se a uma corte tão diferente da portuguesa, mas acredito que tem garra para isso e para muito mais.
- E o rei?
Russel entendeu tudo. Alguém já tinha envenenado os ouvidos daquela rapariga tão inocente. Era pecado magoá-la assim, mas seria sensato esconder-lhe a verdade? Tentou ser diplomata e caridoso.
- The king, o rei, é muito simpático e generoso. Cometeu excessos, é verdade, mas parece determinado a mudar. Tenho a certeza de que se dona Catarina for igual a si mesma serão muito felizes.
- He change? - disse Catarina, numa tentativa de retribuir a simpatia do padre com o seu esforço.
- He will change, I am certain - respondeu, os olhos a brilharem de ternura.
Mas mesmo Russel não conseguiu afastar a melancolia que caíra sobre Catarina.
Luísa andava preocupadíssima e Leonor acabou por lhe confessar o que izera. A mãe quase despedira a pobre senhora, enfurecera-se com ela, mas acabara por lhe pedir desculpa: só tinha procurado evitar uma dor maior, quando num país estranho Catarina percebesse que os ideais construídos não passavam de castelos no ar.
Mas havia direito de fazer tal coisa?, pensava Luísa. Quem garantia que Catarina não o conquistaria? A inal, era um genro que escrevia palavras doces à sogra, um homem que tudo izera, no acordo escrito, para que a partir daquele minuto, mesmo antes de sair de Lisboa, Catarina já tivesse o estatuto de rainha.
Era preciso arrancar Catarina àquela tristeza, que já bastavam os habituais dramas de Afonso, que agora assumiam proporções de uma gravidade diferente: tinham deixado de ser um assunto caseiro, a resolver dentro das paredes do paço, para se tornarem uma questão política. D. Luísa fazia constantemente menção de deixar a regência, passando o poder - para o que desse e viesse - para as mãos do ilho, à medida que cresciam os rumores de que excedia em muito o seu tempo de governação, mas na prática deixava o tempo passar.
A tristeza de Catarina preocupava igualmente frei Pedro. Um dia entrou ele de rompante na igreja vindo da sacristia. A infanta rezava num dos bancos, aos pés de Jesus Cristo pregado na cruz, e levantou os olhos para ver quem entrava assim num lugar santo. Quando viu que se tratava de frei Pedro, do sereno frei Pedro, que se movia sempre silencioso como um gato, abriu a boca de espanto. Mais espantada icou quando o frade lhe pôs a mão no ombro e lhe indicou a porta de saída. Retirava-a da igreja, e das suas orações?, pensou, mas nem hesitou em segui-lo.
A porta pequenina que frei Pedro indicava dava para a rua, o que tornava tudo isto ainda mais inacreditável - estaria a sonhar, pensou, por momentos, Catarina. Mas os ruídos das vozes, do trote dos cava los, das rodas das carroças carregadas contra a calçada, não deixavam dúvidas. Frei Pedro continuava a andar a passo rápido, por uma quelha, em direcção ao rio, e Catarina correu atrás dele, o mais depressa que podia com aqueles malditos chapins que agora se obrigava a usar, para criar o hábito. Quando chegaram junto à água, nas escadinhas onde o bergantim real habitualmente desembarcava os seus passageiros, com o sol quente sobre as suas cabeças, o frade apontou o pequeno banco por baixo de uma enorme amoreira, os troncos frondosos, a sua sombra mais do que acolhedora. Catarina sentou-se ao seu lado, ofegante, e num gesto de ousadia, como quem perdida por cem prefere perder-se por mil, descalçou os sapatos, sentindo, pela primeira vezes em semanas, o prazer da brisa na cara corada pelo esforço, e nos pés, que dedilhava, livres. Olhando em seu redor, pensou que bonita era esta cidade, tão cheia de vida...
- De vidas - corrigiu o frade, que mantinha a capacidade de lhe ler os pensamentos. - De vidas, de gente que sabe o que é lutar realmente para ter o pão de cada dia, que batalha para que a doença e a fome não lhes leve os ilhos, que suporta a falta de dinheiro, de um bem--estar mínimo, que trabalha de sol a sol, tendo ainda tempo para dividir o pouco que tem com quem tem menos...
- E não se queixam, como eu, princesa com refeições de vários pratos, a quem nada falta - continuou Catarina, preparada, e ligeiramente irritada, com a ideia de que o frade lhe ia pregar um sermão.
- Não, infanta, isso era fácil de mais.
- O que é que era fácil de mais? - perguntou, sem perceber o rumo da conversa.
- Pregar-lhe um sermão, como está a pensar que tenciono fazer. Não sou ingénuo, nem tonto. Sei que não passa fome, não chove em cima da cama onde dorme, mas vivo no paço, vivo demasiado perto de si, e dos seus, para imaginar que não sofrem. Não a trouxe aqui para a castigar ou para lhe dizer que olhe para as dores dos outros, para relativizar as suas...
Catarina sorriu-lhe:
- Qualquer outro membro da Igreja o faria, teria até a homilia ensaiada, mas sinceramente desiludia-me se o izesse, e nunca me desiludiu até hoje. Mas além do passeio, que me faz bem...
- O passeio também conta, D. Catarina. Se tivesse um espelho poderia ver por si própria como os seus olhos já se encheram da luz da cidade, como o piar das gaivotas lhe fez saltar o coração, os ouvidos se estenderam e esticaram para apanhar o sotaque das vozes que sempre a divertiu tanto. Ver a vida, em lugar de contemplar a morte, faz--nos bem...
- Não vai criticar-me por rezar aos pés de Cristo cruci icado - indagou Catarina, com um largo sorriso.
- Mas é que vou mesmo! O Messias foi alegre, brincou, teve amigos, beijou as crianças, ajudou a samaritana a tirar água do poço, abraçou a mãe, trabalhou na o icina do pai José, sentiu a vida palpitante de todos os dias.
Catarina ouvia-o, feliz. Reparava agora quão cansada estava de, há anos, escutar apenas intrigas políticas, conversa iada de mazelas e doenças, da morte dos seus entes mais queridos, do seu casamento, como se fosse o
im, o objectivo último da sua existência. Como se deixara apanhar nessa
armadilha de reduzir toda a sua vida a Charles e ao seu destino?
Ficaram em silêncio, as ondas a bater contra as escadas de pedra polida que os pés dos homens limpavam todos os dias de musgos e limos.
- Frei Pedro, tenho andado tão triste, mas envergonho-me de lhe dizer que não pelos motivos grandiosos de que me falou. Não é a fome dos pobres nem a desigualdade dos índios que me têm tirado o sono, mas só, e apenas, o ciúme...
Frei Pedro sorriu-lhe, condescendente:
- Princesinha, devemos escutar os nossos sentimentos.
- Dominá-los, quer frei Pedro dizer. Eliminá-los com a oração e a penitência - prosseguiu, com os olhos nos pés descalços.
- Não, princesa, não é nada disso...
Catarina olhou-o, assustada:
- Não é?
- Sentir ciúme é natural. Se o eliminar, como diz, se o dominar pelo chicote, sabe o que é que acontece?
- Não - disse Catarina, surpreendida.
- Deixa de conseguir amar, só isso... Porque o ciúme é o outro lado da moeda do amor. Quando matar um dos sentimentos não terá o que apresentar ao padre na hora da con issão, mas também não poderá levar a Deus o outro, o do amor. Porque não há moedas só de uma face...
- Mas não é estúpido ter ciúmes de um homem que nem conheço? Ter vontade de esganar - e Catarina fez o gesto, rindo com o prazer que lhe dava fazê-lo, aqui ao ar livre, longe dos olhos e das críticas de todos - a mulher a que o rei está ligado, de quem tem filhos?
- Está disponível para amar o homem com que se vai casar. Desejar que ele lhe seja iel, retribua os seus sentimentos e só de si tenha os ilhos que Deus entender por bem enviar é absolutamente legítimo.
Catarina suspirou:
- Mas o que faço se tenho de casar com Charles, e ele continua a ter uma vida devassa. Perdoo-lhe, injo que não vejo, como me dizem D. Leonor e a minha mãe, meto-me num barco e volto para Portugal?
- D. Catarina, porquê pensar agora no que de pior pode acontecer? Acredite em si, na força do seu amor, no encanto dos seus olhos, na sua inteligência suave e gentil: tenho a certeza de que será capaz de operar milagres no coração do rei de Inglaterra. Em lugar de imaginar as vinganças - e, sorrindo, imitou o gesto do pescoço a ser partido como o de uma galinha, e ambos riram e Catarina sentiu-se livre, livre por dentro e por fora, como se bastasse afastar-se o comprimento de uma quelha da opressão do paço para reconquistar a alegria de viver.
Quando regressaram silenciosamente a casa, o horizonte de um laranja-forte a anunciar que o dia amanhã nasceria tão azul como o de hoje, Catarina olhou para frei Pedro e beijou-lhe a mão:
- Frei Pedro, é a segunda vez que lhe ico a dever a vida. Nem sabe o peso que me tirou de cima...
- Esse peso é que era obra do Diabo, D. Catarina.
Catarina sorriu-lhe agradecida e entraram pela mesma porta pequena por onde tinham saído.
Quando a viu entrar para o salão, antes do jantar, Luísa respirou fundo e, impulsiva, aproximou-se:
- Hija minha que tinhas partido antes de partir, e voltaste.
- Voltei, mãe, aqui estou! - respondeu-lhe sorrindo e, num gesto pouco habitual, passou-lhe um braço pelo pescoço. Disfarçado, mas sentido.
Londres, 26 de Julho de 1661
Francisco sentou-se na sua secretária, com um ar cansado. Há
anos que perseguia este acordo e hoje estava nas suas mãos, finalizado e assinado. Ergueu um copo de vinho quente à sua própria saúde, que não havia mais com quem celebrar. Não estava eufórico, como imaginava que ficaria quando esta missão chegasse ao fim. Era um trabalho ingrato, porque quem ficava em casa e não conhecia as circunstâncias em que era preciso discutir e regatear acreditava sempre que teria sido possível fazer melhor. Por vezes, nas reuniões dos conselhos em Lisboa tinha de controlar a irritação, porque havia sempre um conde ou um marquês que insinuava que se fosse ele a negociar os ingleses ainda teriam pago por cima!
Fechados sobre o seu país e os seus costumes, num enclave que a guerra com Espanha só agravara, deixavam-se impressionar com as naus que chegavam ao Terreiro do Paço e, com um certo provincianismo, acreditavam realmente que o Mundo continuava dependente das suas mercadorias, dos lugares descobertos pelos navegadores portugueses, quando, na realidade, há muito que os holandeses, os ingleses e mesmo os franceses já dominavam os mares, e inclusivamente autorizavam, ou proibiam, o movimento dos barcos portugueses.
D. Luísa implorara-lhe que dividisse a entrega dos dois milhões de cruzados do dote, em duas prestações, mas fora impossível. A Charles não faltavam nem candidatas, nem propostas fabulosas, e a nossa, embora de longe a melhor - ou não teria sido aceite -, estava cheia de incertezas, nomeadamente se teríamos a capacidade de entregar os territórios que oferecíamos, ou se, quando chegasse a hora, os ocupan tes já não seriam portugueses, e acabasse por ser preciso pedir a terra, o porto, ou a ilha, a holandeses mal-encarados. O total da dívida teria de ser pago de uma vez e o ouro e as mercadorias teriam de embarcar com a infanta, na esquadra que os ingleses enviariam a Lisboa para levar a rainha de Inglaterra, que partia de Portugal já com esse estatuto e com a pompa e circunstância que uma rainha do império britânico exigia.
D. Francisco bebeu mais um gole, ajustou a vela na secretária e voltou a folhear os papéis: ao contrário do que temera, a autorização para a prática do culto católico não tinha sido di ícil. A rainha teria a sua casa, nela a sua capela, um rendimento de trinta mil libras por ano, e o palácio que lhe serviria de residência icaria seu por toda a vida, mesmo que entretanto enviuvasse. O marquês de Sande estava orgulhoso dos seus conhecimentos históricos: recordava-se de ler o relato do sofrimento da rainha Catarina de Aragão e de como, apesar de desprezada por Henrique VIII, que voltara a casar, passando por cima da proibição de Roma, fora obrigada a icar em Inglaterra, anos a io, humilhada. Nunca tal aconteceria a Catarina de Bragança, decidira. Conseguira inscrever no contrato que caso Charles morresse antes da mulher esta poderia regressar livremente a Portugal, trazendo de volta todos os seus bens pessoais, incluindo as suas jóias e móveis. Não queria, decididamente, ver os bens dos Bragança, e de Portugal, dispersos nesta terra de nevoeiros, e a volubilidade de Charles em matéria de mulheres não conseguia deixá-lo absolutamente seguro de que algum episódio mais complicado não desencadeasse uma crise séria. Afinal, havia antecedentes...
Havia, ainda, a cláusula secreta, de que só ele e a rainha-mãe tinham conhecimento. Além de Charles e do seu chanceler, obviamente. Nela Portugal comprometia-se a não se aliar à Holanda, cujo poder no Mundo crescia. Dado que os «piratas» eram odiados pelos portugueses, nomeadamente pela forma descarada como se tinham tentado apoderar das nossas terras no Brasil, não lhe parecia que fosse um artigo di ícil de cumprir.
Agora era partir - fazer as malas e tratar de conseguir que Portugal não faltasse a nenhuma das suas promessas. Depois voltaria com Catarina e certi icar-se-ia de que os seus amigos ingleses cumpriam todos os pormenores do acordo e davam à princesa de Bragança o tratamento que merecia, sem fugirem ao apoio militar de que o seu país tanto precisava.
Cais de Alcântara, Lisboa, Novembro de 1661
uando D. Leonor, a medo, entrou no quarto para a despertar,
puxando para trás os grossos reposteiros e deixando ver, por detrás das janelas, o céu enevoado da cidade, vinha assustada. Porque lhe calhava sempre a ela, a missão de dar as más notícias. Desta vez, no entanto, não vinha sozinha, tendo arrastado consigo Maria do Carmo e Maria do Rosário, pois acreditava que as aias mais próximas de D. Catarina lhe valeriam melhor do que uma velha como ela.
Ao ver que D. Leonor vinha acompanhada, Catarina sentou-se na cama, de um ápice:
- Meu Deus, D. Leonor, que notícias me traz, para não se atrever a vir sozinha? - perguntou, assustada, e logo acrescentou: - A minha mãe está bem, os meus irmãos?
D. Leonor acenou que sim, satisfeita por as prioridades da princesa continuarem aqui no paço. Talvez o impacto do que tinha para lhe dizer não fosse tão dramático como isso.
Virando-se para as amigas, D. Catarina sorriu-lhes:
- Essas caras não vos assentam bem. Deixem-se de conversas, se não vos aconteceu nada a vocês, nem à minha família, só pode ser mais um boato sobre Charles... Não me digam que foi um dos emissários castelhanos que trouxe a notícia, os mesmos que vão ter com o rei de Inglaterra para lhe dizer que sou feia, doente e incapaz de ter filhos?
Maria do Rosário e Maria do Carmo sentiram-se imediatamente aliviadas: de facto, a infanta tinha razão, não era pior o que se dizia do tal Charles do que o que o inimigo contava acerca da princesa.
Sentando-se no fundo da cama, perante o olhar desaprovador de D. Leonor, que não achou, porém, que fosse aquele o momento de as chamar à ordem, riram:
- Tem toda a razão, dona Catarina. Vimos contar-lhe o último boato que corre sobre o rei Charles, porque saiu publicado no jornal, e como tal haverá certamente uma «boa alma» que se encarregará de lhe dar a «notícia», no momento mais inoportuno.
- Publicado no jornal? - perguntou a infanta, curiosa. - Agora os boatos já têm direito a sair na imprensa, como se fossem um decreto--lei. Espantoso. Contem, o que faz o rei Charles, come crianças ao pequeno-almoço?
As aias riram nervosamente, e Maria do Carmo, sempre a mais directa, avançou:
- Dizem que já é casado. Que não pode casar com a princesa de Portugal, porque terá contraído matrimónio com uma tal Lúcia, mãe do seu primeiro filho...
Catarina empalideceu. Esta era daquelas notícias que se fosse verdade, poderia mesmo impedir o seu futuro. Não era mais uma história de amores rocambolescos, que poderia optar por ignorar... Mas era mentira, certamente, o embaixador de Portugal saberia se tal fosse verdade, o chanceler Hyde, que todos diziam ter acompanhado Charles desde o primeiro dia da sua vida, teria informado o embaixador durante as negociações. Não fazia sentido que Charles tivesse encontrado um padre que o casasse. E daí...
Reagiu:
- Então basta mandar perguntar ao agora marquês de Sande se é verdade. E se for, é a cabeça dele que vai rolar, à moda de Inglaterra -rematou com ironia.
- Pois a questão é essa, o marquês já escreveu à rainha sua mãe a dizer que o Parlamento inglês está a averiguar a verdade destas afirmações, mas que o rei as nega.
Catarina suspirou fundo. Se Charles as negava era porque não passavam de manobras difamatórias. O seu futuro marido poderia ter muitos defeitos, mas o que todos aqueles que o conheciam garantiam era que tinha bebido o soro da verdade em criança: nunca mentia. Por maior que fosse o disparate feito, assumia-o sempre. Por vezes com uma ligeireza que irritava os demais, mas não se escondia atrás de enganos.
- Se Charles, que até quando o prejudica, diz sempre a verdade, nega tudo, então o Parlamento inglês que perca tempo em averiguações! Pela minha parte, tenho de me vestir, porque recebi mensagem que a nau Sacramento, que nos traz de volta o padre António Vieira, entrou ontem na barra e aporta hoje de manhã a Alcântara.
António Vieira estava novamente de volta, nesta vida de errante que escolhera, mas não devia vir nada feliz, expulso, como todos os jesuítas, pelos colonos que não suportavam mais a sua interferência na protecção dos direitos dos escravos, e muito menos o peso que tinha junto da família real em Lisboa e lhe permitia basear na lei essa defesa. Era importante que depois desta desilusão encontrasse à sua espera os amigos.
Frei Pedro aguardava-a já na escadaria para a entrada dos coches e Pedro insistira em vir também. De Afonso, nem sombra. Mas, para espanto de Catarina, a rainha estava preparada.
- A mãe também vai? - perguntou Catarina, surpreendida.
- Certamente, Catarina. O pregador do reino voltou, a rainha quer estar presente no momento da sua chegada para o convidar a pregar um sermão na capela real.
A infanta fez-lhe um enorme sorriso. A inabilidade política de Vieira e os seus sonhos por vezes demasiado efabulados, mas sobretudo a sua coragem e língua pronta - não havia sermões como os seus, ainda há pouco lera um sobre os peixes proferido no Brasil que a izera rir e chorar ao mesmo tempo -, rendiam-lhe tantos inimigos deste lado do oceano, como daquele.
Catarina suspeitava que D. Luísa encarava a sua chegada como uma bóia de salvação: con iava que o jesuíta, com a sua inteligência e determinação, saberia como lidar com Afonso, e com aquela cá ila de más companhias que o rodeavam - a verdade é que o rapaz precisava de uma autoridade masculina e tinha esperanças de que o tutor de Teodósio, com todo o ascendente que os anos lhe concediam, fosse capaz de encontrar uma forma de o trazer à razão, encontrando, simultaneamente, maneira de conseguir uma transição de poder pací ica. Luísa estava genuinamente cansada e passava momentos de imensa angústia - no dia em que Catarina partisse para Inglaterra ficaria mais sozinha do que nunca.
A morte recente do conde de Odemira, o aio de Afonso que, apesar de tudo, tinha sobre os movimentos do soberano algum controlo, tinha agravado imensamente a situação. Os irmãos Conti, e todos os outros, haviam respirado de alívio e festejado a «libertação», com comportamentos ainda mais arrojados, a que Afonso parecia achar a maior das graças.
Até hoje de manhã, até agora, e olhava para a direita e para a esquerda do corredor na esperança de o ver aparecer, ainda esperara que Afonso também entendesse que precisava de mudar de vida, que precisava de António Vieira. Mas a sua ausência dizia, sem palavras, aquilo que Catarina já suspeitava: já há muito tinha passado o dia em que a mãe, ou fosse quem fosse por ela indicado, teria algum poder sobre o rei de Portugal.
Quando se sentaram na carruagem, mãe e ilha trocaram apenas um olhar. Mas foi o suficiente.
O assunto foi debatido em Conselho de Guerra. D. Luísa explicou que o contrato de casamento previa que o rei assumiria o casamento como certo antes mesmo de ver Catarina, acedendo a que ela usasse desde já o título de rainha de Inglaterra, evitando assim a necessidade de pedir licenças a Roma. Em troca, o dote completo, as praças incluídas, tinha de ser pago antes de a rainha embarcar.
O Conselho reagiu - afinal de contas, era-lhe pedido um parecer a posteriori? Não passava de um pró-forma, protestara um dos membros, contando aos outros que seis barcos ingleses, comandados pelo conde de Sandwich, se dirigiam naquele preciso momento para o Mediterrâneo, para tomarem posse de Tânger. Ceder Tânger e Bombaim, portos conquistados com o sangue dos portugueses, onde viviam os nossos comerciantes, e ali tinham os seus interesses? Não seria fácil, suspiraram, mas não se atreveram a fazer mais do que protestar - afinal, estavam bem conscientes de que sem a ajuda militar dos ingleses Portugal teria dificuldade em manter a sua independência, e nesse caso Tânger e Bombaim seriam pertença de Castela. E isso ninguém queria.
Luísa saiu do encontro aliviada. Sentia-se sem forças para mais batalhas.
Paço da Ribeira, Dezembro de 1661
atarina subira ao torreão com António Vieira e frei Pedro. Aquele
canto ficaria para sempre um lugar de intimidade e conforto. As mesas de trabalho estavam cobertas de pó, os mapas amarelados, mas era como se lá no alto as conversas fossem imperscrutáveis pelos quadrilheiros da corte, e os corações se abrissem com mais facilidade. Era impossível subir aqui sem recordar os irmãos mais velhos, e nos primeiros minutos em que franquearam a porta, que rangia nos gonzos, os três mergulharam num silêncio pesado: tanta coisa que podia ter sido, e não fora, tantas esperanças goradas para sempre.
Frei Pedro quebrou o silêncio:
- Pois é, dona Catarina, crescer é di ícil, e manter a fé na sabedoria do Senhor, mesmo quando os seus caminhos parecem cruéis...
Catarina não conseguiu esconder o choro:
- É tudo tão estranho, tão confuso. Se a Joana estivesse viva, era ela que agora olhava por essas janelas à espera do barco que havia de trazer notícias sobre o seu casamento com Charles. Há momentos em que sinto que lhe roubei o lugar...
António Vieira, que Catarina e frei Pedro tinham achado muito envelhecido, passou-lhe uma mão pelo cabelo:
- Dona Catarina só há uma, e sossegue, Sua Alteza, porque dona Joana deve estar muito feliz por si. Não há ciúmes nem invejas no lugar onde agora ela mora.
Catarina suspirou, abriu a janela, apesar do vento frio que soprava do rio, e respirou fundo:
- Também não sei se há muito a invejar. Casar com um homem que nunca se viu e que é inclinado para tudo menos para a idelidade; partir para um país tão distante, onde se fala uma língua que não conhecemos e em que não vive um único amigo, deixando para trás aqueles que mais amamos...
- Não fale assim, Sua Alteza, rainha de Inglaterra, Portugal e Nosso Senhor esperam ainda muito de si. Vai conquistar com a sua bondade essa gente, rendê-la à fé cristã, e ser mãe de uma família numerosa... Vai ser a melhor das mães, dona Catarina - disse-lhe, num impulso, frei Pedro.
Os olhos de Catarina encheram-se de sombras: e se contasse a estes dois amigos a história de Ali e do chá, os sonhos, os rumores que os espanhóis tinham espalhado? Apesar das promessas que fizera a si mesma, duas ou três vezes voltara ao terreiro, procurara-o entre os comerciantes, Carminho nervosa ao seu lado, mas nunca o encontrara. Na maior parte dos dias, e das horas, desprezava-se por ter deixado que um homem que certamente pretendia apenas assustá-la lhe viesse tantas vezes ao pensamento; noutras recordava a cara bondosa de Ali, as folhas da Uncaria tormentosa que o boticário impiedosamente interrogado lhe confessara ser usado na Ásia e no Brasil «por gente de pouca fé», e tremia de medo. Mas não podia falar-lhes de nada disso. Julgá-la-iam uma criança supersticiosa.
António Vieira pegara no óculo e aproveitava a janela aberta para perscrutar os barcos que subiam o rio, aproveitando a maré. De repente exclamou:
- Dona Catarina, é tempo de ir esperar uma outra nau que não é a minha. E esta tem a bandeira de Inglaterra hasteada. Ou muito me engano, ou o marquês de Sande acaba de dar à costa. Trará notícias?
Catarina corou instantaneamente.
- Então vamos descer - disse, tentando falar no seu tom mais casual possível.
- Acompanhamo-la - respondeu, contido, frei Pedro. Separar-se de Catarina ia ser, talvez, a prova mais dura que alguma vez tivera de ultrapassar.
Horas depois, na antecâmara da sala de jantar, Luísa mandava abrir uma garrafa de vinho do Porto para celebrar a chegada do marquês, o embaixador glorioso que trazia o contrato assinado, o homem que aliara a sua persistência à dela para conseguir realizar um projecto estratégico imaginado há anos.
Sobressaltou-se quando ouviu a voz grave de Sande mesmo atrás de si:
- Sua Alteza. - Meu Deus, era rainha de Inglaterra?!? Ainda não tinha tomado consciência deste novo estatuto. - Sua Alteza...
Catarina voltou-se, com um sorriso gentil:
- Desculpe, dom Francisco, nem reparei que era comigo, julguei que falava com a minha mãe.
D. Francisco retribuiu-lhe o sorriso. Quando o rosto se iluminava Catarina até era quase bonita, e poucas damas da sua idade teriam ainda aquela frescura e aquela postura tão franca e transparente, pensou. Charles de Inglaterra tinha sorte, mas não estava certo de poder dizer o mesmo da sua infanta. De qualquer maneira, não era altura para voltar atrás no que estava decidido:
- Sua Alteza - repetiu com convicção -, o rei Charles envia-lhe uma carta, que tenho todo o prazer de lhe entregar agora.
Dizendo isto passou um sobrescrito grosso para as mãos trémulas de Catarina, que de repente se sentiu uma criança a quem tinha aparecido um fantasma, um sobrescrito pesado, com o lacre com as armas dos Stuart, da família real inglesa. Da sua família, pensou, aflita.
Olhou à sua volta, perplexa. Se ele lhe escrevia em inglês teria de pedir ao embaixador para lhe traduzir a primeira carta que o seu marido, pretendente a marido, lhe enviara. Seria mais fácil se pudesse recorrer ao father Russel, mas não aguentava esperar pela próxima lição de inglês. Sande percebeu o embaraço:
- Sugiro-lhe que a guarde e a leia quando estiver sozinha, dona Catarina.
- E se é em inglês, senhor marquês? A primeira carta que escreveu à minha mãe era em castelhano, acha que teve a bondade de fazer o mesmo, ou será que julga que domino a sua língua?
- Não li a carta, Sua Alteza, pode estar certa disso, nem sequer sei o que diz, mas quando ma entregou o rei disse-me que a escrevera em castelhano.
Imitando depois a voz do rei de Inglaterra, e num gesto de grande arrojo, repetiu:
- «Dom Francisco, este é o castelhano mais arrevesado que alguma vez alguém utilizou, mas acredito que ainda tem uma réstia de castelhano.»
Catarina riu.
Sentindo que o gelo se quebrava, suspirou de alívio:
- Dom Francisco, gosto desse sentido de humor constante do rei, mas será troça? - perguntou, directa e preocupada.
Sande engoliu em seco. Que Deus protegesse a princesinha: a ausência total de cinismo era preocupante, como se sentiria perdida na corte inglesa, onde a ironia e o nonsense constituíam quase um dialecto próprio. Recuperando a compostura, respondeu:
- Que pergunta desconcertante, dona Catarina. Sua Alteza é um homem optimista, que vê sempre tudo pelo seu lado mais alegre. Os ingleses tendem a ter uma postura mais informal nos seus encontros do dia-a-dia, a rir muito de si mesmos, com o mesmo à-vontade que riem dos outros, mas sem intenção de ofender. Vai aprender a conhecê-los, e ao im de um tempo é mesmo provável que se sinta mais leve, é o que me acontece quando ico períodos mais longos entre eles. No inal ando mais bem-disposto, mais descontraído...
Catarina, para ser sincera, gostou da ideia. Achava a nobreza portuguesa pesada, maçadora e por vezes muito hipócrita, e a ideia de ter um marido optimista era uma boa notícia.
Fazendo uma pequena vénia, pediu licença para subir ao quarto.
Tomou um longo banho, a carta na mesa-de-cabeceira, junto da vela. Deixou que as criadas a lavassem e vestissem e a ama Carminho lhe alisasse os caracóis com leite de cabra.
De tempos a tempos olhava o sobrescrito de papel grosso, o lacre a brilhar ao cintilar da luz.
- Já lá vou - dizia, como se adiar o prazer o tornasse ainda mais intenso.
Rezou as suas orações, pediu que corressem os reposteiros da sua cama de dossel e recebeu as recomendações assustadas da criada, quando percebeu que a infanta ia ler na cama, à luz da vela:
- Sua Alteza, veja o que faz, que se entorna a vela ainda deita fogo à cama e à casa toda. Não faça isso, peço-lhe: sente-se à secretária, que lhe arranjo uma outra vela, para ler melhor.
Não era assim que Catarina imaginara ler a primeira carta que recebia de Charles, a primeira carta verdadeira, genuína, não aquelas feitas de sonhos, mas concordou com a criada. Não servia a ninguém se morresse queimada e levasse consigo o paço atrás - aí não havia necessidade de dote, o que, pensando melhor, seria um alívio para todos.
Calçou os chinelos de carneira que Carminho lhe trouxera de Vila Viçosa, vestiu um roupão quente e sentou-se à secretária.
A criada, ao ver que era obedecida, aceitou deixá-la sozinha e foi--se embora mais descansada, deixando, no entanto, mil recomendações, para que apagasse bem a vela antes de se deitar.
Catarina não queria acreditar no que lia. Preparara-se para um bilhete formal, uma nota prática, um escrito seco e protocolar. Este Charles não era nem cínico, nem irónico, nem maldoso, nem insensível... nem infiel!
Deitada na cama, no escuro do quarto, fechou os olhos e, feliz como nunca se sentira, recitou baixinho, na sua voz serena e suave, a carta toda. Sabia-a de cor, palavra a palavra, vírgula a vírgula. Dizia assim:
Senhora e mulher minha,
Já a meu pedido partiu para Lisboa o conde da Ponte, de quem fiquei muito amigo, con irmando o casamento, e a seguir a ele irá um meu criado com um sinal da felicidade que me dá ter concluído esta negociação, bem como para apressar a vinda de Vossa Majestade. Procuro acima de tudo o sossego que me libertará desta ânsia de ver a vossa amada pessoa nestes reinos já seus, com as mesmas ânsias que depois de largo exílio senti quando voltei a Inglaterra. Por último, suplico a Vossa Majestade que me recomende à rainha sua mãe os interesses do conde da Ponte, que me tem servido extraordinariamente no sentido de obter o que mais queria no mundo que era casar com Vossa Majestade. Também não esqueço o bem que me tem trazido Richard Russel, pela ajuda que me tem dado no mesmo sentido.
De Londres.
De Vossa Majestade, o marido muito fiel que suas mãos beija
Charles R.
Quando se encontrou com a mãe na missa da manhã, Luísa recebeu-a com um sorriso rasgado. Catarina retribuiu do fundo do coração; depois da carta de ontem, que ainda nem sequer mostrara à mãe, estava-lhe eternamente agradecida por ter persistido em casá-la com Charles, em ter cumprido o que lhe prometera em criança.
Mas o sorriso da mãe fazia-a suspeitar que também ela fora alvo das palavras lisonjeiras do genro. Segundos antes de o capelão começar a pregação, não resistiu a perguntou:
- Mãe, o que lhe disse Charles?
Luísa repreendeu-a por estar a falar na cerimónia, mas não resistiu a responder: - Tratou-me por mãe e pediu-me para lhe mandar o mais rapidamente possível a «sua mulher». Despede-se como « ilho» -sussurrou, embevecida. Catarina fechou os olhos, e em lugar das palavras do padre só ouviu, mais uma vez, as que Charles lhe escrevera.
Não lhe deram um momento de paz. Maria do Rosário e Maria do Carmo tinham pedido a Catarina que lhes traduzisse a carta de Charles. Uma e outra vez, cheias de inveja, subitamente amarguradas por não serem elas a noiva, por não serem elas a partir para os braços de um homem que tão decididamente amava a mulher.
- Tem de lhe responder já, dona Catarina. Dom Francisco demorou meses, com as paragens todas que fez pelo caminho, para lhe trazer esta carta, o pobre rei por esta altura está com o coração despedaçado - dizia Maria do Carmo.
Maria do Rosário descon iava que talvez Charles não estivesse propriamente sentado nos degraus do seu palácio à espera da resposta, mulherengo como o diziam, mas de qualquer maneira não queria estragar o idílio à melhor amiga:
- Dona Catarina, Sua Majestade, escreva rapidamente, antes que a inspiração se vá. Uma carta dessas merece uma resposta calorosa. É preciso que lhe dê a entender que está tão feliz como ele.
- Se me deixassem em paz e estivessem caladas, talvez eu conseguisse articular dois pensamentos seguidos e não esborratasse isto tudo, que já deitei duas folhas para o caixote de lixo...
As damas calaram-se por segundos, mas logo se penduraram, uma por cima de cada ombro, deixando Catarina à beira de uma crise de nervos:
- Desapareçam!!! Sentem-se, bordem, cosam, rezem. Quando acabar, juro-vos que vos faço o favor de ler o que escrevi, mas até aí deixem-me sossegada.
A caneta corria rápida sobre a folha, e de segundos em segundos Catarina mordia o lábio e voltava a molhar a pena no tinteiro:
Meu senhor e marido,
A alegria com que recebi o conde da Ponte excede de longe a de toda a nação, porque, embora seja grande a minha parte no interesse comum tão felizmente servido por sua negociação, sinto-me gratíssima e reconheço muito maior o obséquio que Vossa Majestade me concedeu.
Eu própria me dou, reciprocamente convosco, a maior alegria e espero encontrá-la no meu coração para a dar cada vez maior a Vossa Majestade no zelo e na afeiçoada veneração com que me esforçarei para merecer o interesse que Vossa Majestade faz o favor de manifestar-me, considerando e confessando como meu dever tornar-me dele possível merecedora.
Deus traga o servidor de Vossa Majestade e a sua armada com a pressa e a segurança que desejo. Ele verá a diligência com que apressarei a minha viagem, e Vossa Majestade, pela minha curta demora, que a minha gratidão é activa de mais para consentir qualquer atraso e com que atormentada inquietação espero a felicidade que se aproxima.
Grande é a felicidade que esses reinos, que Vossa Majestade tem a bondade de fazer meus, possuem na vossa pessoa, segurando-lhes pela vossa presença as esperanças que os animam, com o ardente desejo de se darem todos ao seu legítimo rei.
Terei na maior conta a recomendação que Vossa Majestade se dignou fazer-me do conde da Ponte e não deixarei de a transmitir à rainha, minha mãe e senhora, para que ela o trate com todo o favor, como o fez com o padre Russel.
Acima de tudo, porém, o meu maior desejo é ver Vossa Majestade gozar aquela felicidade, com uma longa vida, em que tanto sou interessada.
De Vossa Majestade, mulher muito iel que vos beija a mão, Catarina R.
Escondeu a cara nas mãos. Não conseguia reler o que escrevera, tinha medo de se arrepender, receio de ter sido excessivamente melodramática, desconfiava que a sua escrita era demasiado formal, ou talvez o fosse de menos? E será que Charles teria paciência de a ler toda - deveria ser mais curta?
Maria do Rosário percebeu que o impasse se prolongaria se não interviesse, além de que Catarina corria o risco de num gesto impulsivo rasgar tudo, por isso aproximou-se e pediu licença para ler. No mesmo momento, Luísa entrou na sala e, zangada, tirou a carta da mão da dama:
- Dona Maria do Rosário, penso que estes são assuntos de Estado que não lhe dizem respeito. Catarina, talvez fosse melhor ficarmos a sós...
Desde que a ilha era alteza real, a própria mãe tratava-a com um respeito e uma deferência que, muito sinceramente, a incomodavam. Sabia que a rainha-mãe queria, por um lado, valorizar perante a corte a inteligência do acordo que o seu engenho tornara possível, e, por outro, dar o exemplo, para que ninguém ali julgasse que poderia continuar a tratar a infanta como uma mera menina, criada naquelas salas, mas não gostava daquele protocolo ridículo vindo da sua própria mãe.