Catarina de Bragança
Paço da Ribeira, 21 de Agosto de 1657
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
O embaixador percebeu inalmente o que ia na cabeça do monarca, e rapidamente acrescentou:
- Nunca será um empecilho na vida de Sua Majestade. E a infanta tem sentido de humor - acrescentou, jogando uma cartada mais forte.
O olhar de Charles tornou-se mais vivo:
- Pelo que me dizem, é preciso ter mesmo muito humor, e bom feitio, para me aturar - disse rindo, e ao perceber que ria sozinho, como tantas vezes acontecia quando só ele entendia ou achava piada às suas graças, ainda se riu mais.
Depois subitamente cansou-se. Levantando-se sem explicações, deu o encontro por terminado. Caramba, hoje era o dia em que recebera a notícia do regresso a Inglaterra, poderia deixar para mais tarde as decisões sobre com quem casaria!
Com um aperto de mão forte, despediu-se do embaixador:
- Em Londres teremos muito tempo para falar da vossa querida princesa. Envie-lhe, por favor, a ela e à mãe, os meus melhores cumprimentos.
Ao recolher os seus pertences para também partir, o embaixador notou que lhe faltava o pequeno quadro. Charles levara-o consigo. Foi a sua vez de sorrir: era um bom presságio.
Plymouth, 25 de Maio de 1660
harles sentia as lágrimas correrem-lhe pela cara, e nem sequer
tentava disfarçá-las: ali, à vista, estava terra, a sua terra. A terra onde nascera e crescera, de onde vira expulsar a mãe e os irmãos. Terra que suportava os alicerces do palácio onde o pai fora assassinado, que fora o chão por baixo dos pés de uma cambada que lhe roubara o trono, os bens e o direito a crescer rodeado pelos seus. Prometera perdoar os assassinos de Charles 1, prometera não se vingar de tudo o que haviam feito contra os Stuart, mas não tinha a menor intenção de cumprir a promessa -promessas feitas a carniceiros não contavam como tal, garantia a si mesmo.
Naquele barco que agora aportava a Plymouth estava rodeado das pessoas que tinham acreditado que este dia chegaria. Conselheiros, soldados, homens que por várias vezes tinham, ao seu lado, procurado reconquistar a coroa que lhe fora roubada - e alguns não podiam estar aqui neste dia de glória, porque tinham dado a vida por uma causa que não chegaram a ver ganha.
A sua amante, Barbara Palmer, viajava consigo. Substituíra Catherine Pegge e já gerara também dois ilhos seus - era uma mulher linda, forte e determinada, que o manipulava, e ao infeliz do marido, com uma arte que não podia deixar de admirar.
Terra, ia pisar de novo a sua terra. As vozes gritando o seu nome já se ouviam, à medida que o barco acostava - que sensação fabulosa a de ser «o desejado», aquele que regressava por vontade do povo, o mesmo povo, pensou com amargura, que há anos tinha permitido o im da monarquia. Mas a esses perdoava com facilidade, eram uns pobres coitados que se limitavam a seguir os profetas que lhes vendiam a possibilidade de uma vida melhor. Charles vivera com fome, em tendas e abrigos, entre eles, e sabia que não faziam mais do que ambicionar comida para pôr na mesa das suas famílias. Conhecia-lhes a lealdade, mas sabia que também eram capazes de o trair - o povo, dizia-lhe tantas vezes o pai, é a força de um rei, mas o primeiro a perceber se o rei se esqueceu dele.
A data, 29 de Maio de 1660, não poderia ter um simbolismo mais forte e fora por isso que Charles decidira adiar uns dias a sua entrada na capital. Hoje, sim, hoje marcharia em pompa, por uma cidade de Londres engalanada para o receber, hoje, o dia em que fazia 30 anos e voltava para assumir a coroa que lhe fora roubada.
James, o seu irmão mais próximo, cavalgava ao seu lado. Não era em nada parecido consigo, e suspeitava que se convertera já à fé católica da sua mãe, junto de quem fora educado. Mas após tantos anos sombrios, em que o prazer fora considerado pecado, e a alegria uma injúria aos Céus, chegava à capital do reino o homem mais determinado a viver e a deixar viver. Soltando uma gargalhada, virando a cara para o Sol que brilhava, prometeu a si mesmo que não moeria a cabeça a ninguém, desde que não lhe moessem a dele. Era essa a sua verdadeira religião.
Paço da Ribeira, 24 de Dezembro de 1660
om apenas dois dedos esticados, Catarina tentava arrancar o
Adeste Fidelis ao cravo do pai, que desde que o rei morrera estava praticamente abandonado. Começou de novo, irritada por a preguiça a ter impedido de aprender a tocar, como o pai tanto insistira. Ainda tivera algumas aulas, mas a professora desistira mais depressa do que a aluna, era uma dama nervosa que visivelmente temia ser repreendida por não ter os dotes de ensino que lhe eram exigidos. Quando Catarina, contagiada pelo seu nervosismo, desistiu, a mestra suspirou de alívio e voltou para as suas alunas de casas mais modestas.
O Presépio estava montado no canto da grande sala e a lareira ardia, vigiada constantemente por um criado, tal o medo de que o paço pegasse fogo, como acontecera a tantos, nestes dias de frio em que os toros icavam entregues a si mesmos.
Dedilhou de novo o cravo e entregou-se à aritmética: se Teodósio não tivesse morrido teria agora 27 anos, e Joana teria 25 anos. Era mais do que provável que já estivessem casados, e que nesta véspera de Natal os seus
ilhos corressem pela sala, ansiosos por ver o que o Menino Jesus lhes
deixara no sapatinho. Ela própria, com 22 anos acabadinhos de fazer, também já os poderia ter, pequeninos Bragança Stuart, pensou rindo, que viriam a Portugal passar as festas com a avó.
Como era infantil, disse para si mesma, ela e este mundo idílico com que sonhava. A mãe Luísa nunca mais voltara a ver a avó Joana, de quem a sua irmã herdara o nome, nem sequer o pai, nem tão-pouco o irmão, agora duque de Medina-Sidónia. Longe da vista, longe do coração, talvez fosse verdadeiro o ditado, e se um dia partisse para Inglaterra, como todos os dias lhe garantiam que aconteceria, nunca mais ninguém aqui no paço se lembraria dela.
Passou de novo os dedos pelo teclado. Estava preocupada com a família: Luísa estava cansada. As negociações para o casamento da ilha tinham-lhe embranquecido mais alguns cabelos e Catarina sabia porquê: o dote oferecido iria ser di ícil, se não impossível, de arranjar, e enquanto se comprometia com os ingleses, porque sentia que era assim que deveria ser, angustiava-se com o terror de passar por falsa, que prometia o que não podia pagar. Afonso não ajudava nada, com 17 anos continuava a provocar a família real o quanto podia, mas já havia indícios, e frei Pedro já lhe chamara a atenção para eles mais do que uma vez, de que alguns nobres, como o conde de Castelo Melhor, D. Luís de Vasconcelos e Sousa, haviam percebido que se rodeassem o rei com lisonja depressa o teriam na mão. Catarina até gostava do conde e, para ser sincera, depositava nele a sua esperança: se um grupo de gente inteligente e honesta se dispusesse a aconselhar Afonso e ajudá-lo a governar, seria uma franca melhoria em relação àqueles bandalhos, como Conti e os seus amigos, que não faziam mais do que aproveitar-se do que lhes podia dar, mas sem contribuírem, de forma alguma, para o ajudar a assumir as funções para as quais tinha sido escolhido. Por Deus, acreditava Catarina. É verdade que a mãe vivia dividida entre o seu genuíno amor ao poder - a ilha não era cega! - e o medo, sincero também, de que Afonso não fosse capaz de dar conta do recado. Pedro tinha apenas 13 anos e Catarina odiava aqueles que o adulavam. António Vieira ainda recentemente a avisara, numa das suas cartas, de que era preciso cuidado para que a Casa do Infantado, com os mais «puros» do reino, não virasse Pedro contra Afonso, tal a ambição dos que a constituíam.
Catarina deixou o cravo e sentou-se num banquinho bordado, junto da lareira. Precisava do calor do fogo para a aquecer por dentro e derreter tanta angústia...
Aos poucos a sala foi-se enchendo de convidados. A ceia de Natal chamava ao paço aqueles que naquele ano Luísa decidira distinguir. Catarina sentia-se feliz com Afonso, em traje de gala, ao lado («Estás lindo», disse-lhe a irmã ao ouvido, esperando que o elogio o estimulasse a vestir-se assim mais vezes), e Pedro, que apesar da dignidade forjada estava ainda demasiado excitado com os presentes para se lembrar de que era suposto ficar junto à porta, a cumprimentar quem chegava.
Ao ver D. Francisco, conde da Ponte, com passos largos a percorrer o corredor em sua direcção, Catarina olhou desesperadamente em redor, à procura de alguém com quem se pudesse envolver em conversa, para evitar o encontro. Frei Pedro ali estava, sempre certo, sempre à mão quando mais era preciso - sem cerimónias, Catarina pediu-lhe socorro, e de pé, num canto mais escuro da sala, não tiveram di iculdade nenhuma em encontrar tema de conversa.
Por azar, ou por maldade - Catarina descon iava sempre que fora por esta última razão - o conde envolveu-se a dois passos da princesa numa longa discussão sobre a sua última viagem a Londres. Sabia que ela ouvia tudo, e ela, por seu lado, era incapaz de sair dali, distanciar-se ou fazer ouvidos de mercador. Até frei Pedro deixou aos poucos de falar, percebendo que a infanta tentava apanhar todas as palavras que o embaixador dizia.
Francisco dava nota a um outro embaixador, de que Catarina não sabia o nome da situação em Inglaterra. De como Charles prometera não se vingar daqueles que tinham assassinado o rei, de como lhe parecia um homem generoso, embora descon iasse que olhava para o trono readquirido mais como um troféu de que pretendia gozar todas as vantagens, sem que fosse capaz de encarar o trabalho e a responsabilidade que envolvia.
- Julgo que na cabeça de Sua Alteza icou a ideia de que o Parlamento fará o trabalho enquanto ele reúne as mulheres mais bonitas do reino para o entreterem nos seus salões. Desde que chegou já foi vinte vezes ao teatro, e dizem as más-línguas que todas as casas de senhoras pouco virtuosas voltaram a abrir, depois de anos cobertas das teias de aranha que Cromwell sobre elas lançou...
O embaixador desconhecido parecia interessado:
- Sei que os espanhóis estão desesperados com as suas negociações, senhor conde, e que já prometem dotes maiores e até se oferecem para apadrinhar princesas protestantes, que Deus perdoe a hipocrisia do mundo diplomata.
Frei Pedro, lá do outro lado, acenou com a cabeça: arte do Diabo, em sua opinião, esta que levava a dizer e a fazer aquilo em que não se acreditava, traindo tudo e todos pelo caminho.
Catarina olhou-o, por segundos, e teve vergonha - vergonha de estar aqui, como que a escutar ao buraco da fechadura, vergonha de ser ela a «mercadoria» traficada.
Angustiada, murmurou a frei Pedro:
- Fico com a sensação de que o próprio embaixador negoceia o meu casamento, como se estivesse a vender gato por lebre - disse.
Frei Pedro protestou veementemente:
- Princesa, julgo que não está a escutar o que o senhor embaixador diz, porque senão concluiria que, Deus me perdoe, talvez esteja é a «comprar» uma mercadoria de muito menos valor do que aquele que lhe atribui.
Decididamente não era também isso o que Catarina queria ouvir, mas, percebendo as boas intenções de frei Pedro, ingiu não entender onde queria chegar, e pediu-lhe silêncio.
O conde lembrou que a mãe de Charles, Henriette Marie, tia do rei de França, favorecia a escolha de Catarina, uma princesa que professava a mesma religião que a delas, e teria uma forte in luência na sua aceitação. Sobretudo porque o rei estava, neste momento, particularmente sensível, já que tinha morrido um dos seus irmãos pequeninos, que nem chegara a conhecer, vítima de sarampo.
Catarina, sem querer, levou a mão à boca, chocada, e trocou olhares com frei Pedro. Charles passava por um sofrimento horrível e ela nem sequer sabia disso. Frei Pedro teve vontade de rir, que querida era esta sua menina, que em lugar de se chocar com os defeitos do futuro marido sentia este impulso de o consolar. Temia, sinceramente, que o seu coração fosse despedaçado por este senhor, que lhe parecia uma criança que ninguém obrigara a crescer. Suspirou fundo e, segurando no braço da infanta, sugeriu-lhe:
- Se fôssemos encher os nossos copos de ponche, D. Catarina?
A infanta sentia-se dividida: desejava ouvir mais, perceber tudo, conhecer todos os pormenores daquele que seria seu marido, mas concordava com frei Pedro, a situação estava a tornar-se ridícula. Daqui a dias pediria à mãe que convocasse o embaixador ao paço e, como futura noiva de Charles II de Inglaterra, solicitaria que respondesse às suas perguntas.
Pedro veio em sua direcção:
- Catarina, qual daqueles presentes é o meu? Vais dar-me mais um cão? -perguntou, entre o divertido e o desejoso. Catarina passou-lhe a mão pelos caracóis crespos:
- Vais ter de esperar para ver, meu mourinho - respondeu, usando a expressão que o pai tantas vezes empregava quando se lhe dirigia a ela.
Esperar para ver! Pedro saberia hoje o que aqueles embrulhos lhe reservavam, mas ela teria de aguardar muito mais tempo.
Soubera a notícia através de D. Leonor: Charles, a inal, não poupara os inimigos do pai. Fizera uma lista de 50 nomes, mandara executar nove da forma mais violenta imaginável, a outros prendera na famosa Torre de Londres, confiscando a fortuna a uma mão-cheia deles, que se tinham dado por felizes com uma pena proporcionalmente tão branda.
Catarina parecia ainda mais pequenina do que era, um pássaro ferido e encolhido, enquanto D. Leonor lhe dava pormenores que francamente talvez preferisse não saber, e daí, uma outra voz interior dizia-lhe, «queres tudo, queres saber mais...».
- Mas Cromwell estava já morto - disse baixinho.
- Isso julgava o assassino de Charles 1, porque o ilho mandou que o desenterrassem e decapitou-o depois da morte, a maior desonra a que alguém pode ser sujeito. A esse e a dois outros envolvidos directamente no homicídio.
Catarina tapou a cara com as mãos. O que pensar de um homem que uns descreviam como gentil e afável, e outros diziam capaz de coisas como estas? Um lado dentro de si admirava um ilho que fazia justiça, mesmo que póstuma, ao seu pai, mas outro indignava-se com a incapacidade de perdoar.
Nessa noite Catarina gritou em sonhos, tão alto que a ama Carminho acudiu assustada.
- Chá, Ali, não, não pode ser verdade, rumores, veneno - as palavras saíam aparentemente sem nexo, mas Carminho sabia o que assombrava, mais uma vez, o sono da infanta.
Na manhã seguinte, quando a ama decidiu que tinha que contar a D. Luísa os pesadelos da sua menina, a história do chá, as confusas palavras sobre «um ventre liso», a rainha-mãe icou pálida como a cal e teve de se apoiar contra a secretária. Como tudo aquilo lhe lembrava o seu próprio sonho, ou melhor, as alucinações que a tinham tomado naquela madrugada em que Catarina viera ao Mundo. Benzendo-se, murmurou uma oração, Deus havia de proteger a sua única ilha, sabia-o, tinha a certeza. A ama, assustada, não perguntou mais nada, mas passou a aconchegar-se e a dormir no cadeirão do quarto da sua menina. Catarina a princípio protestou, mas depois os seus protestos foram-se tornando cada vez mais suaves, tal o conforto que aquela presença lhe dava. Com a luz da Virgem das Candeias e o amor de Carminho estava segura.
Londres, 12 de janeiro de 1661
Luísa de Gusmão estava tão grata, tão grata ao embaixador que
prometeu nomear D. Francisco de Melo e Torre, marquês de Sande. Fê-lo por gratidão, mas também para que tivesse mais força e mais prestígio do que sendo apenas conde da Ponte, acreditava ela, frente ao chanceler e aos nobres ingleses que tinha de defrontar. D. Francisco agradeceu a distinção, mas realçou que, embora estivesse feliz com o reconhecimento, não era a promoção que o faria mais diligente: hoje, como ontem, era ao serviço da coroa portuguesa que dedicava todo o seu esforço. Luísa sentia, no entanto, que havia entre eles um entendimento especial que o levava a desejar, acima de tudo, agradar-lhe. Ao contrário de muitos, D. Francisco gostava muito mais da mãe, uma mulher poderosa e bela, do que da filha, de quem lhe cabia negociar o casamento, e sobretudo as vantagens que dele adviriam para o reino.
Levava cartas da rainha, assinadas a seu pedido pelo rei Afonso VI e que lhe davam todos os poderes para negociar o casamento da «minha muito amada e prezada irmã». Luísa insistira que fosse assim redigida e assinada, que era importante manter as aparências, e um homem respeita mais outro homem do que uma mulher, defendia, embora o conde da Ponte suspeitasse que nesta negociação em particular seriam sempre as mulheres a levar a melhor ao rei inglês.
As cartas, como não podia deixar de ser, passada a descrição afectuosa e breve da princesa, descreviam em muito maior pormenor o dote, um dote que, garantiam, nenhuma outra princesa alguma vez levara consigo. A lista era extensa: diamantes, jóias, pedraria, ouro, prata, azeite ino, especiarias, açúcar, e ainda Tânger e Bombaim.
Enquanto desdobrava todos estes documentos, na recepção que inalmente conseguiu com o monarca, Charles disfarçou o fascínio pelos bens materiais e perguntou, com a sua franqueza habitual:
- Dá-nos o que tem de melhor, o pequeno reino de Portugal. Mas o que quer em troca?
D. Francisco tossira, e quase se engasgara, mas logo recuperara a compostura:
- Nada comparado com o que oferecemos...
- Não me faça perder tempo, embaixador, diga o que pretende, porque se eu não puder corresponder às suas expectativas, também não posso aceitar as suas ofertas.
- Apoio militar, Sua Alteza, para que Portugal possa garantir a sua independência contra Espanha, apoio que, aliás, já os seus antepassados se comprometeram a dar aos reis de Portugal, desde o Tratado de Windsor. Também pediríamos a Inglaterra que nunca izesse as pazes com Castela, nem se aliasse a ela, ou aos seus aliados. Mais uma coisa: o nosso império, como sabe Sua Majestade, estende-se muito para lá de Portugal Continental, escuso de vos falar na riqueza do Brasil e de Angola, das possessões do Oriente.
- Constantemente ameaçadas, quando não apropriadas, pelos piratas dos holandeses - disse Charles, acompanhando o comentário com uma das suas habituais gargalhadas.
D. Francisco não conseguiu rir e o ar sério serenou a ironia de Charles:
- Não leve a mal, homem, quando não podemos chorar, o melhor remédio é rir. Mas percebo, esteja descansado, que quer a nossa ajuda para recuperar as possessões em risco de capitular...
- Com um pormenor - acrescentou, hábil, o marquês.
- Um pormenor?
- Inglaterra apoia Portugal nesse esforço militar, mas entrega as praças e as terras conquistadas ao seu proprietário legítimo, ou seja, à coroa portuguesa.
Charles sorriu de novo:
- Agora pergunto eu, e o que nos dá a coroa portuguesa em troca da vida dos homens que morrerão a reconquistar o que as vossas forças militares deixaram escapar entre os dedos?
- Não damos, já demos - respondeu rápido D. Francisco.
- Já deram?
- Evidentemente que sim, Sua Majestade: Tânger e a possibilidade de comércio no Mediterrâneo, a porta que os nossos reis conquistaram; Bombaim, com a sua imensa riqueza e a localização estratégica dos seus portos. É um destino imperial que se abre ao reino de Inglaterra - rematou com um toque de grandeza.
Charles assentiu com a cabeça:
- É assunto para pensar...
D. Francisco recordou-se que a carta de Afonso VI lhe permitia ir mais longe. Os conselheiros e a rainha-mãe tinham pressentido que seria complicado convencer os ingleses a entrarem numa guerra pela conquista de territórios com tanto potencial sem desejarem uma fatia dos lucros. Sendo assim, tinham prevenido, como cartada final, a possibilidade de o embaixador lhes oferecer as colónias que reconquistassem sozinhos, como no caso de Ceilão. Aceitaríamos que tomassem posse do porto da Galé, deixando a Portugal o de Colombo. Fora do baralho havia apenas uma localidade, dizia a carta, e essa era Muscate, que Portugal perdera para os árabes, mas que fazia questão em reconquistar para si. Um porto fulcral, que permitia controlar a passagem de todos os barcos que atravessavam o golfo Pérsico com destino à índia e a todos os territórios a oriente.
O chanceler Hyde aproveitou o aparente desinteresse do rei, que para seu espanto já dera muito do seu tempo a estas conversações, e avançou com perguntas mais práticas:
- O dote seria entregue de uma vez, no momento do casamento do rei com D. Catarina? - indagou, parecendo-lhe suspeito que um reino que vinha pedir ajuda militar, e se queixava, a cada duas palavras, do desgaste
inanceiro pudesse entregar tão facilmente uma quantia como a que
propunha.
D. Francisco estava preparado para a questão, sabia que não havia como evitá-la, e que não lhe restava outra opção que não a sinceridade, sob risco de passar por um comerciante sem escrúpulos ou princípios.
- Selaremos o valor do dote num primeiro momento, mas a entrega dos bens terá de ser dividida em duas prestações: uma, no momento do casamento, quando a frota inglesa chegar a Portugal para levar D. Catarina, e um segundo, um ano depois...
O chanceler franziu o sobrolho:
- Como diz Sua Alteza, tudo se pode discutir... Mas diga-me, D. Francisco, agora marquês de Sande, e temos que nos habituar a tratá-lo pelo título, como merece, que condições poderia fazer para os nossos mercadores?
«Se julgas que me apanhas, estás enganado», pensou o marquês, enquanto ingia vasculhar nos seus papéis. A questão fora levantada em todos os conselhos: abrir o comércio aos ingleses era dizer adeus a qualquer possibilidade de fazer dinheiro, mesmo mantendo a propriedade dos lugares. Com mais capital, depressa paralisariam o comércio a seu favor, fazendo subir os preços de forma que nenhum mercador português lhes chegasse.
Endireitando-se, com um papel na mão, como quem acaba de encontrar o documento certo, o embaixador sorriu ao chanceler Edward Hyde, que lhe devolveu o sorriso, e comentou:
- Teria de haver quotas...
- Quotas? - perguntou o chanceler surpreendido, e Charles, que andava de um lado para o outro, aparentemente distraído da conversa e dedicado a dar corda aos seus relógios, também parou, como que para escutar melhor a resposta.
- Sim, quotas, chanceler. A ideia deste acordo não é arruinar Portugal, situação que, julgo, não interessaria a ninguém, mas um acordo de mútua ajuda, onde a boa-fé prevalece, não será assim? - interrogou o rei.
Apanhado, Hyde voltou a acenar a irmativamente com a cabeça. D. Francisco não teve outra hipótese senão recuar:
- Pois assim sendo, Portugal poderia ceder, imagino eu, mas terei de con irmar esta ideia com Sua Alteza D. Afonso. Talvez pudéssemos acordar na presença de quatro mercadores por praça...
Estavam já todos exaustos, mas a verdade, pensou o marquês, é que não parecia haver, por enquanto, nenhum obstáculo intransponível. O pior estava para vir, pensou, e o melhor que tinha a fazer era dar este capítulo por encerrado, de forma que se entendesse bem que o seguinte, em que a religião de D. Catarina seria a trave-mestra, fosse visivelmente um assunto diverso. Mas antes que pudesse sugerir que o encontro continuasse no dia seguinte, Charles disse alegremente:
- Desculpe-me, senhor marquês, mas o ténis chama por mim!
Saindo da sala a passos largos, deixou de novo o pobre chanceler a tentar justificar a sua impulsividade e falta de cortesia.
- Acompanho-o - murmurou Hyde.
- Não se incomode, já conheço o caminho - respondeu, divertido, D. Francisco. Pobre Catarina, pensou, o que faria ela com um marido tão volátil e caprichoso como aquele? Encolhendo os ombros, pensou para com os seus botões que quem aturava D. Afonso, aparentemente com tanto gosto, acharia, apesar de tudo, que o temperamento de Charles de Inglaterra era uma lufada de ar fresco.
Ao seguir pelo corredor, olhou pelas janelas de Whitehall, e lá estava Charles, vestido de branco, com uma raquete na mão: que estranho desporto era aquele?
Londres, 13 de Fevereiro de 1661
Francisco enviara apenas uma breve nota a D. Luísa de Gusmão
dizendo-lhe que as negociações corriam aparentemente bem, mas que era cedo de mais para lhe dar notícias certas. Pedia calma e serenidade, e confirmava que os seus contactos na corte eram cada vez mais firmes, sendo convidado para todos os eventos, começando a ser encarado com menos desconfiança por conselheiros e ministros. Não escondia que o assunto «da capela» seria o tema mais melindroso - o embaixador de Inglaterra em Portugal não mentira quando lhes dissera que a religião era pólvora nesta ilha.
Durante algumas semanas Charles fugiu das insistências do seu chanceler. Não lhe apetecia falar de casamentos, e ponto inal. Edward Hyde, amargurado, percebia que Barbara Palmer, sentindo-se ameaçada por um possível matrimónio legítimo, reforçara o seu charme, organizando jogos de cartas, peças de teatro e de canto, e gastando o que restava da energia do rei com as suas tão afamadas «habilidades» de cortesã. Diziam, e Hyde corava só de pensar nisso, que não se coibia de nada, e que o rei, em lugar de se escandalizar, adorava que a sua amante não tivesse qualquer pudor entre os lençóis.
- Quem tem tão pouco fora deles, aos olhos da rainha-mãe e de toda a corte, não sei porque haveria de ser mais séria na intimidade - vociferava a senhora Hyde, que, agora que a sua querida ilha Anne ia viver na corte, desejava que Charles casasse com uma mulher séria, que pusesse ordem na licenciosidade que por lá reinava.
Hyde pensava o mesmo. Sentia, sobretudo, que o povo, com fome, se cansaria dos divertimentos de Sua Majestade, e passaria a encarar a sua vida sem moral como uma prova de que o puritanismo de Cromwell tinha a sua razão de ser.
Certa manhã, decidiu que era preciso que alguém tivesse a coragem de dizer umas verdades ao rei. Charles temia queimar a oportunidade que lhe fora dada de regressar a Inglaterra, era mesmo esse o seu único terror, e quando o chanceler lhe falou do escândalo que causava reagiu como um menino chamado à razão pelo confessor: prometeu emendar-se, rezar dois pais-nossos e três ave-marias, e ser melhor dali em diante. Percebendo que talvez uma mulher legítima sossegasse as vozes da insatisfação, e para espanto do seu chanceler, perguntou:
- Onde anda o embaixador?
Edward Hyde, que o acompanhava desde a morte do seu pai, levantou as sobrancelhas, espantado:
- Qual deles? - dado que todos os dias tentava convencer Charles a receber algum da longa lista dos que esperavam uma audiência.
- Aquele de que eu gosto, do português, que oferece ouro, uma mãe e uma filha - comentou a rir...
Hyde tentou instilar-lhe alguma compostura:
-Julgo que se refere ao marquês de Sande, Sua Alteza. Vem cá todos os dias, deve estar por aí a chegar. Posso mandá-lo entrar, quando o vir?
Charles abanou que sim com a cabeça:
- Que entre e que se discutam os últimos pormenores.
Sentando-se por trás da sua secretária, começou a escrever uma carta, enquanto comentava:
- Hyde, puxe lá pela cabeça, como é que vamos dar a volta ao facto de D. Catarina ser católica, e fervorosamente católica, ao que consta?
- Como a sua mãe e a sua irmã Minette - respondeu Hyde habilmente, não se atrevendo, no entanto, a incluir James nesta lista. As escolhas religiosas do segundo na linha da sucessão tinham, a todo o custo, de ser mantidas secretas.
- Nem me fale nisso que me desanima logo. Adoro as duas, como sabe, mas quando decidem dar-me lições de catequese ico verde, azul e roxo. Não suporto aquele discurso. De muito tem valido à pobre Minette que a besta do meu cunhado vá à missa todos os dias...
D. Francisco, quando entrou, teve a inteligência de fugir a qualquer discurso moralista, nem revelou a menor veleidade em «conver ter» o rei de Inglaterra fosse a que credo fosse. Para dizer a verdade, o marquês estava plenamente convencido de que os Estados ganhariam em deixar a religião de fora da sua política, ou vice-versa, que a posição de Roma em relação à dinastia de Bragança, a reconhecê--la, revelava bem como mais valia abrir o jogo francamente do que tentar benzê-lo com água-benta de hipocrisia.
- D. Catarina é católica, apostólica e romana, não há razão nenhuma para que o esconda de Sua Majestade, porque a infanta tem muito orgulho no credo que professa. Mas pretende apenas que a autorizem a praticá-lo, na sua capela pessoal, assim como à pequena corte portuguesa que trará certamente consigo, aos seus criados e cozinheiros.
A Charles já parecia gente a mais a franquear-lhe as portas, mas absteve-se de comentários, que depressa correria com os portugueses que a acompanhavam, se fosse caso disso.
- Mas se Catarina - o marquês quase saltou da cadeira perante este primeiro acesso de informalidade total no tratamento da sua princesa - não reconhece outra religião que não a sua, como poderá casar pelo rito protestante, ser coroada rainha, participar nas cerimónias inevitáveis, educar os meus filhos na religião deste país?
D. Francisco tossiu. A resposta não era, decididamente, simples, mas tentou:
- D. Catarina casará, em segredo, com Sua Alteza pelo rito católico, sem o qual, do seu ponto de vista, não há casamento, mas participará no protocolo de matrimónio que Vossa Majestade entender por conveniente. Quanto a ser coroada rainha, será rainha de facto, como Sua Alteza, a rainha-mãe, foi, mas, como ela, sem nenhuma cerimónia oficial.
Que falta de paciência, pensou Charles, muito gosta esta gente toda, estes portugueses, estes ingleses, a minha mãe e a dela, de complicar.
- Não terá a tentação de me converter, pois não? É que pode dizer--lhe, da minha parte, que é uma missão impossível, como a minha querida mãe e irmã já concluíram - replicou, logo acrescentando, de novo divertido:
- Precisarei de toda a Graça de Deus para aturar aquele trio...
A que a minha ilha e o irmão discretamente se juntarão, re lectiu o chanceler, mas nada disse.
D. Francisco saiu francamente animado do encontro. Apesar do frio que se fazia sentir nesta cidade, o céu estava azul e, quando se sentou para escrever à rainha, o que lhe disse era sério:
«O rei parece de acordo, mas temo que ainda hesite. Peço por isso a Vossa Majestade que o dinheiro esteja pronto, porque nesta corte há necessidade e os castelhanos a maior guerra que nos fazem é dizendo que prometemos o que não podemos e não havemos de dar.»
Paço da Ribeira, 6 de Março de 1661
uísa sentiu um peso no peito quando leu a carta de D. Francisco.
Contente, claro que sim, ou não estivesse ali a prova de que fora sábia em acalentar, contra tudo e contra todos, a esperança naquele casamento, mas o embaixador pedia-lhe o impossível: que tivesse o dinheiro pronto. Pronto, como? Se mesmo as poupanças que tinha feito haviam seguido directas para financiar a batalha das Linhas de Elvas, a reconquista de Mourão, todas aquelas medidas militares prioritárias, sem as quais não teria sequer condições de falar em alianças com Inglaterra. Não queria que Catarina fosse contagiada por este medo, logo ela que esperava tão pacientemente, sem exigências nem birras, o dia em que Charles se decidisse.
De qualquer forma, era preciso mandá-la chamar.
Catarina desceu os degraus um a um, respirando fundo e jurando que não se iria emocionar. Se tudo isto não passava de um negócio, tinha de ser tão fria como a mãe, era preciso que se moldasse nela, ou acabaria decapitada (e um arrepio de frio percorreu-a), como tantos outros naquela terra onde se cortavam cabeças com muita facilidade.
- Mãe, temos novidades? - perguntou.
Luísa não lhe estendeu a carta, mas comentou:
- Parece que há acordo, mas que o rei ainda hesita.
Que embaraço ouvir estas coisas, pensou Catarina. Ainda hesita - se ao menos Teodósio aqui estivesse, estava certa de que não permitira que Charles, que ainda nem fora coroado, usasse termos semelhantes. Luísa adiantou:
- Catarina, minha filha, pára de te torturar. O rei não te conhece, não é a ti que aceita ou rejeita, filha. É o acordo, o dinheiro do dote, os moldes de entrega, as terras com que fica ou quer ficar. Não leves este assunto tão a peito.
Catarina sentiu, como tantas outras vezes, as faces a corar:
- Não levo o assunto a peito? Já viu o meu retrato, já vinte pessoas lhe disseram como eu era, se quer, quer, se não quer que o diga logo.
Luísa sorriu:
- Anda D. Francisco a dizer que és dócil como um cordeirinho, chegas lá com um dos teus ataques de fúria, e quero ver...
- Volto para trás no mesmo barco, não tenha dúvida nenhuma disso, minha mãe...
Pela primeira vez, Luísa não teve: o sangue dos duques de Medina--Sidónia corria-lhe decididamente nas veias, aliado à gentileza do pai e àquele desapego ao poder que tornava possível pôr em prática ameaças como esta. A ilha não queria ser rainha, queria casar com o homem a quem romanticamente entregara o coração em pequena... Que Deus permitisse que Charles a viesse a amar, porque um amor assim merecia ser correspondido.
Mas não era altura de puxar ao sentimento.
- Não te chamei aqui para isto, Catarina. Queria só informar-te, antes que oiças por portas travessas, que o embaixador espanhol montou uma campanha contra ti junto de Charles.
Catarina olhou-a, pálida:
- Contra mim?
- Sim, ilha, por favor, não sejas tão ingénua. Não é contra ti pessoalmente, é contra a possibilidade de uma aliança entre Portugal e Inglaterra, que tu representas. Essa aliança é uma ameaça para Castela. E há mais: se França abrir guerra contra ela para recuperar territórios que considera seus nos Países Baixos, contará com a ajuda não só de Inglaterra, como também de Portugal, ficando presa entre dois fogos.
- De initivamente Castela tem boas razões para não desejar este casamento - suspirou Catarina. Enchendo o peito de ar, aventurou-se a fazer a pergunta para a qual não queria, no fundo, ouvir a resposta:
- 0 que dizem?
- Vou ser-te franca, Catarina. Até porque o espelho do teu quarto te pode provar como são apenas calúnias: dizem que és feia, doente e não podes ter filhos.
Catarina mordeu o lábio. Feia, sabia que não o era ao ponto de causar repugnância a alguém; doente, também não; mas como se atreviam a declará-la infértil, o maior atentado ao valor mais sagrado para uma mulher? Como se atreviam a usar o mais vil dos artifícios?
De repente estacou. O chá, o chá que Ali lhe dera. Será que alguém sabia mais do que ela?
- Mãe, mãezinha, é importante que a mãe me jure que responde com verdade a esta pergunta: tive alguma doença, algum mal que me possa impedir de conceber, de dar à luz filhos?
Luísa estremeceu. Não ia falar à ilha das alucinações de uma parturiente enlouquecida pelas dores. E de resto, nada, nada apontava para que Catarina não fosse tão fértil, tão capaz de ser mãe, como ela própria:
- Catarina, luz dos olhos meus, nem penses nisso. É veneno, é maldade. Pensa em mim, filha, pensa em Teodósio, em Joana, em Afonso, em Pedro e em ti própria. Gerados na minha barriga, nascidos de mim, fortes e saudáveis.
- Mas alguns dos manos morreram ao nascer, não morreram?
Luísa sentiu uma sombra toldar-lhe o olhar, era tão injusto que o primeiro nome que lhe vinha sempre à mente fosse o do pequenino Manuel, porque era a cara de Duarte, do seu querido Duarte. Engoliu, e respondeu:
- Perdi dois ilhos à nascença, Catarina, mas esse é o destino de todas as mulheres. Há alguns que não vingam e o Senhor leva-os logo para junto de si, sem dor, nem sofrimento. Mas os ísicos ingleses, as parteiras daquele país, têm conhecimentos avançados, até esse risco é lá menor... Não penses nisso, filha, que fazes a vontade ao inimigo.
Luísa dissera a frase certa. Catarina não ia fazer a vontade aos velhacos dos castelhanos, que lhe procuravam arruinar a vida, a dela, a dos pais, a dos portugueses, desde que se conhecia.
- Não se fala mais nisso, mãe. Que prossigam as negociações, que havemos de encontrar dinheiro para pagar o dote.
Luísa fez-lhe uma festa no cabelo:
- Que falta me farás, hija minha.
A carta seguinte de D. Francisco, trazida por um portador secreto, era preocupante. Queixava-se de que Charles, perturbado com a má--língua espanhola, enviara um espião a Lisboa, para que visse a princesa com os seus próprios olhos e se assegurasse de que não era doente, nem feia. D. Francisco tentava uma contra-ofensiva, tendo já pedido ao embaixador português em Paris que procurasse convencer o rei Luís XIV de França das vantagens desta aliança entre Portugal e Inglaterra, nomeadamente para que se recuperassem os territórios franceses que os castelhanos detinham em sua posse. Contava com a ajuda, também, do chanceler Hyde, que prometera falar de Catarina a Henriette Marie e a James e que, dizia na carta, chegara ao ponto de se oferecer para ir, ele próprio, buscar Catarina a Portugal.
Luísa teve uma súbita vontade de esganar o marquês quando leu o desplante com que escrevera:
«Peço a Sua Majestade que, por estes dias, recomende a Sua Alteza o uso de chapins, porque, ao que me dizem, o rei está inclinado para mulheres altas, como são algumas das que lhe têm sido propostas recentemente.»
Chapins? Para se fingir mais alta, a sua princesinha, tão delicada e frágil? Quem se achava o homem? Havia limites, já estava como Catarina, se não queria aquele casamento que o dissesse depressa, que aos 22 anos a ilha ainda teria outros partidos. Este impasse envelhecia-os a todos. Escreveu isso mesmo ao pobre embaixador, pedindo--lhe mais firmeza.
Depois chamou D. Leonor:
- Quero que mandes comprar uns chapins para D. Catarina e que redobres os cuidados na forma como anda vestida e adornada nas próximas semanas.
D. Leonor sabia que não lhe seriam dadas mais explicações. Fez uma larga vénia e saiu para dar as suas ordens. Nessa noite, com um ar ligeiro, estendeu à princesa uma caixa de madeira, como se fosse um presente:
- Chapins? - gritou a princesa, feliz. - Mas acha que a mãe mos deixa usar? Sabe como ela se zanga com adornos e sapatos altos, como chama vaidade a tudo isto?
D. Leonor encolheu os ombros, como se também ela se rebelasse:
- Mas lá para onde vai terá de os usar. É bom que se habitue. Temos é de lhe descer as bainhas dos vestidos.
Para espanto de Catarina, um grupo de costureiras entrou no quarto, de agulhas e tesouras na mão, e entre medidas e provas se passou a tarde.
- Os meus primeiros chapins - sussurrou Catarina, olhando-os pousados na cómoda do quarto e iluminados por uma vela. Nessa noite, os sonhos foram cor-de-rosa.
Os enviados de Charles trouxeram-lhe boas notícias, mas foi o embrulho que recebeu do primo Luís que o fez decidir-se definitivamente, tão definitivamente, pelo menos, tão definitivamente quanto era capaz.
Abriu o pacote, e lá dentro estava um quadro de uma mulher magní ica, com um vestido lindo, que deixava ver os seus ombros nus, o cabelo longo e negro solto sobre os ombros, as maçãs do rosto rosadas e saudáveis, e acima de tudo uns olhos imensos e brilhantes, que riam directamente para quem para eles olhava, com uma doçura e uma franqueza desarmantes.
- Catarina - murmurou Charles, espantado.
A carta que acompanhava o presente era breve:
Caro primo,
Acredita que quem tem pena de não desposar esta mulher sou eu! Nocret, que a pintou, diz que é de uma beleza única, diferente de todas as outras. Garante que a alma que se vê nos olhos não mente. Não acredites nas chantagens desses velhacos dos castelhanos, que querem apenas dominar um país pequeno e roubar ao rei o seu trono - sentimento que conheces bem! -, e dá-me o prazer de, um dia, poder dançar com a tua Catarina e chamar-lhe prima. Com toda a estima,
Luís, rei de França
O primo invejava-lhe a mulher? Era bom sinal. Só por isso valia a pena.
Westminster Abbey, Londres, 23 de Abril de 1661
ra o dia de glória por que tanto esperava, e que, no entanto, as
burocracias e os protocolos tinham atrasado. Há um ano que vivia em Inglaterra, dormia no seu palácio, dava ordens e animava a sua corte. Porque é que só agora o Parlamento consentira na data da coroação? Queriam pô-lo à prova?, pensou Charles, divertido. Então, as notícias eram boas, passara no teste, porque aqui estava ele, rodeado de criados e costureiros exasperados, que lhe tentavam vestir o mais faustoso traje alguma vez visto.
Mas os olhos de Charles só se voltavam para a capa: a capa com que o seu pai fora coroado, e o pai dele antes disso, de um encarnado tão vivo e tão rico que era impossível não ficar hipnotizado.
Com o ceptro, a espada, que só neste dia saía da Torre de Londres, o colar de rubis que lhe caía sobre o peito, e o anel, com um imenso diamante, no seu dedo mindinho, Charles estava preparado para montar o seu cavalo branco, descer as ruas engalanadas, ouvir de novo o povo de Londres e arredores gritar o seu nome. Será que gritariam com a mesma força e vontade como há um ano, ou a fome e a crise destes meses teriam diminuído a esperança naquele que regressava, para todos os efeitos, como salvador?
Charles abominava salvadores e não tinha a menor pretensão a ser um deles - dava imenso trabalho, e normalmente acabavam decapitados, mesmo que tivessem um lugar garantido no Céu e outro no altar de uma igreja qualquer.
Afastou os pensamentos do futuro. Hoje ia ser o protagonista de um acto que se repetia desde tempos imemoriais e gostava dessa sen sação de continuidade - era ele que a vinha retomar depois de um interregno inesperado que trocara as voltas à História.
Além do mais, tinha uma paixão por esta abadia onde o pai o levara tantas vezes em pequeno, onde tinham assistido, em família, a missas, casamentos e funerais.
Declarou alto: «Hoje, dia 23 de Abril de 1661, sou para sempre Charles II, rei de Inglaterra, da Irlanda e da Escócia. Até que a morte me separe do trono.»
James, que entrara no quarto de vestir, fez um esgar:
- O teu sentido de humor ainda dá cabo de ti - protestou.
- Meu querido irmão, acho que mais depressa morrerás dele do que eu. Descon io que já lhe sou imune. Se assim não fosse, onde estaria eu a estas horas...
James riu:
- És incorrigível - e depois baixinho repreendeu-o:
- Ouvi dizer que marcaste um lugar à Palmer na primeira ila da catedral, estás doido? Fala-se do teu casamento com uma princesinha virgem e inocente, e tu, na tua própria coroação, colocas a tua amante e os teus ilhos bastardos nos bancos da frente? Ao lado dos embaixadores de todo o Mundo, face aos teus inimigos que se pelam por má-língua, e logo uma história suculenta como esta? Vou mandar que a coloquem atrás, muito atrás...
- Ai isso é que não vais, James. Não te metas. Sou coroado rei e mesmo nesse dia vens decidir a minha vida? Deixa a Palmer onde está, é uma mulher linda, bem vestida, dá cor ao cenário da minha aclamação. Olha, se queres ser útil, despacha é o marido para um serviço qualquer. Que vá a casa buscar as alianças! Ah, é verdade, isto não é um casamento -terminou, às gargalhadas.
O costureiro implorou-lhe que estivesse quieto, e James, furioso, virou-lhe ostensivamente as costas.
No dia seguinte Charles recebeu vários grandes caixotes de madeira, acabados de desembarcar no Tamisa. Como uma criança excitada, mandou abrir imediatamente a encomenda e ordenou aos criados que mergulhassem na palha que rodeava os objectos e os fossem tirando, como quem tira rifas. Encontrou duas camas de pau-santo, de que só viu as cabeceiras, mas de que gostou francamente, caixotes de laranjas da China, que mandou logo preparar para o jantar porque não resistiu ao seu cheiro e lhe lembravam as viagens pela Europa, vários frascos de água perfumada, peças diversas em âmbar e uma secretária de prata. Numa outra caixa, provavelmente para que não se estragassem ou amolgassem pelo caminho, doces deliciosos, que nem deixou o camareiro levar:
- Esses vão directos para as minhas salas, que não os quero aí a correr as mãos e as bocas de todos.
Finalmente, estendeu a mão para o sobrescrito que um criado há horas lhe estendia, imóvel, numa bandeja de prata. Olhou para a caligrafia e riu:
- Esta mulher bate todas!
Era um presente de Sua Majestade, D. Luísa de Gusmão.
Paço da Ribeira, 26 de Maio de 1661
ueen Catherine, Queen Catherine», é assim que te aclamam
nas ruas de Londres - disse-lhe ofegante, Pedro, que subira as escadas todas de um fôlego para lhe vir dar a notícia.
Catarina estava com Maria do Carmo e Maria do Rosário a ler às escondidas um jornal acabado de publicar e foram surpreendidas pelo infante. A princesa habilmente lançou os escritos para trás de um cadeirão e recuperou rapidamente a compostura:
- Gritam o meu nome, nas ruas, Pedro? Mas porquê? - perguntou, assustada.
- Porque te querem como rainha. O mais depressa possível - e vendo que a irmã o olhava com incredulidade, descreveu-lhe com todo o rigor a conversa que ouvira, sem que ninguém desse por ele, ao embaixador que acabara de chegar:
- O rei Charles foi ao Parlamento anunciar que casa contigo. Estás a ver, é mesmo para casar. Depois passou a cavalo pelas ruas da cidade e as pessoas saíram à rua a gritar o teu nome. Chamaram-te Catherine, e não Catarina, como tu te chamas, mas não te importas, pois não?
As amigas de Catarina riram, divertidas. Era emocionante tudo isto, e tinham de tirar o chapéu à infanta que há anos, até antes de Joana ter morrido, mantinha a confiança de que tudo aconteceria como previsto.
Catarina agradeceu a Pedro o recado - deu-lhe mesmo um dos seus melhores doces, que trouxera para o lanche, e o infante partiu satisfeito por a ter feito feliz.
Sabendo que o marquês de Sande chegara e não tardaria a que a mãe a mandasse descer, foi mudar de vestido a correr.
- Os chapins, os chapins - lembrou Maria do Rosário, e Maria do Carmo correu a buscá-los. D. Leonor acudiu à confusão, mas quando percebeu que era a sério, fez de tudo para colaborar, enquanto Catarina, feliz, lhe contava das manifestações nas ruas de Londres.
- É bom sinal, infanta, é sinal de que esse povo de hereges ainda tem salvação.
Catarina sentiu o sangue gelar nas veias. Se fosse para Inglaterra acompanhada por gente que falava e pensava assim era mais do que certo criar inimigos em menos de nada. Inglaterra não era uma das colónias de Portugal, nem Londres uma das missões de indígenas do padre António Vieira. Reagiriam mal a quem fosse para lá convencido de que era melhor do que eles, estava certa disso.
- Dona Leonor, não fale assim. Lembra-se como o padre António Vieira prega que só há um Deus, o Deus dos índios, dos negros, dos ingleses, dos portugueses?
- Menina, deixe-se de heresias, senão daqui a nada tem, como esse senhor jesuíta, a Inquisição à porta. Quero ver como é que a sua mãezinha lhes vai explicar o seu casamento, eles que ainda há dias prenderam uma senhora protestante, escondida em casa do embaixador inglês em Portugal.
Aí Catarina gelou mesmo e quase abanou a senhora pelos colarinhos:
- Isso é verdade? Mas podem deitar tudo a perder, meu Deus. Será essa a razão que traz a Lisboa D. Francisco, que tanto pediu cautela no tratamento dos ingleses em Portugal?
- Descon io que esse senhor é capaz de vender a alma para conseguir o que quer. Que mal tem a Santa Inquisição prender uma herege que se esconde em Lisboa, seja lá em casa de quem for? - perguntou D. Leonor.
Maria do Rosário e Maria do Carmo permaneciam em silêncio.
Catarina olhou-as, preocupada - será que também pensavam assim? Tinha de escolher muito bem quem podia levar com ela nesta viagem, sob risco de que se assim não fosse Charles, o Charles que todos lhe diziam ser a favor da total tolerância entre credos e pro issões de fé, os embarcasse no primeiro navio de volta...
Quando Catarina entrou na sala da mãe só lhe viu a figura a contraluz. De estatura pequena, como ela, continuava a inspirar respeito e confiança com o seu ar austero, mas a que a riqueza das jóias que usava e o bom gosto com que se vestia davam um toque majestoso. Como uma figura de tinta-da-china pintada num vidro, segurava na mão uma carta, que lia atentamente.
Catarina tossiu, a mãe levantou os olhos, e ao vê-la sorriu:
- Não sei se este teu Charles é de facto o santo que se pinta, mas lá que escreve bem, escreve. E é inteligente o homem que manda uma carta à futura sogra, mesmo antes de escrever à mulher, porque a inal quem influencia a filha, senão a mãe?
- Mãe, mãe, leia alto. A sério que ele lhe escreveu a si? Um homem escrever a uma sogra, nunca tal ouvi, mas leia, leia.
- Não te leio tudo, mas resumo-te. Escreve em castelhano...
- Está a brincar? Ele fala e escreve castelhano? - O rosto de Catarina, que vivia atormentada com a di iculdade de se fazer entender pelo seu rei, exprimia o maior dos alívios.
- Pelos vistos sim, embora, hija minha, este castelhano tenha sido aprendido na bodega de alguma aldeia, porque os termos são os mais vulgares, e a ortogra ia, uma desgraça. Mas que importa, entende-se, e se fosse em inglês teria de pedir a D. Francisco que me traduzisse, e sabia-me menos bem do que ler assim uma carta do meu genro, do meu primeiro, e único, genro.
- Mãe, vá lá, leia.
- Pronto, diz que não pode deixar de esperar que este negócio nos traga a todos «muitas e mui grandes felicidades».