Catarina de Bragança

Isabel Stilwell · Capítulo 4 de 12 · parte 4/4

Páginas do PDF

Catarina de Bragança

Paço da Ribeira, 21 de Agosto de 1657

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Catarina virou-se para as amigas, com o sobrolho franzido. Não gostava igualmente de as ver tratadas assim, mas também não era o momento -nem ela tinha a força, suspirou - de iniciar uma contenda com a rainha.

Maria do Rosário e Maria do Carmo lançaram-lhe um ar cúmplice, piscaram o olho e despediram-se com uma vénia solene. Mais tarde, dizia o seu olhar, mais tarde iriam saber tintim por tintim o que Catarina tinha escrito ao seu amado.

Luísa, de costas viradas para a porta, a sua igura a contraluz, lia a carta que Catarina escrevera, acenando a irmativamente com a cabeça. A infanta sentiu-se mais descansada, pelos vistos não desagradara à mãe, embora tivesse tido o arrojo de se lançar à escrita sem a consultar sobre o que deveria dizer.

Com a cabeça fez um sinal ao reposteiro-mor, para que chamasse o capitão da guarda. Segundos depois, o tempo de ter fechado e selado a carta, desta vez lacrada com as armas de Portugal, entregou-a ao capitão:

- Por favor, entregue esta carta ao conde da Ponte, que saberá por quem a deve enviar, para que chegue segura às mãos do rei de Inglaterra.

Paço da Ribeira, 6 de Dezembro de 1661

 

harles enviara um novo embaixador para Lisboa, o seu grande

amigo, que partilhava com ele o charme e o humor, sir Richard Fanshawe. Este apresentara-se no paço para uma audiência com a rainha-mãe, D. Luísa de Gusmão, e com a rainha de Inglaterra, como tinha ordens de chamar a Catarina. Chegou seguido de criados que transportavam caixas de todos os tamanhos, e Luísa e Catarina entreolharam-se, espantadas: parecia uma história daquelas que os viajantes regressados do Oriente contavam do reino da Índia, ou da passagem por alguma corte exótica.

Só faltava vir com um rinoceronte pela trela, pensou, nervosa mas divertida, a infanta-rainha. Mas sir Richard Fanshawe era tão simpático que rapidamente dissipou qualquer suspeita.

As caixas eram presentes, que o rei de Inglaterra enviara à sua noiva que, no entanto, tratava já por esposa para que se percebesse que era homem de palavra.

Para espanto do embaixador, Luísa, num tom cordial mas seco, mandou que os criados colocassem todos os embrulhos na Sala do Dossel, contígua àquela onde recebia os senhores de Inglaterra. Pelos vistos, o costume português não mandava que se abrissem os presentes à frente de quem os oferecia, tomou nota Fanshawe, para dar conta desse facto ao rei, não fosse ofender-se quando D. Catarina agisse assim na corte londrina.

Percebeu, no entanto, com divertimento, que se D. Catarina pudesse ter-se-ia precipitado imediatamente sobre as caixas, ansiosa por saber o que continham. Presentes? Para ela? Decididamente, o em baixador gostou da espontaneidade da princesa: se fosse outra, mais habituada a uma vida mundana, mais mimada, faria questão em ingir total indiferença, enquanto se percebia que esta nunca tinha sido o centro das atenções de ninguém e mostrava a sua gratidão com toda a naturalidade.

Já com os seus 50 anos, pai de seis ilhos, três deles raparigas um pouco mais novas do que Catarina, teve vontade de libertar a infanta daquele jugo materno e mandá-la brincar com as amigas, desapertando itas e laços, exclamando de entusiasmo com cada nova surpresa.

Não resistiu, talvez encorajado pelo olhar de um padre de cabelo e barbas brancas, decididamente um jesuíta, que parecia desejar exactamente o mesmo que ele, e comentou:

- Talvez pudéssemos deixar que a rainha de Inglaterra seguisse os presentes para a sala do lado e os abrisse de forma que se houver necessidade de devolver alguma coisa, ou ajustar algum dos vestidos, possa ter tempo de o fazer?

Luísa franziu o sobrolho, surpreendida. Vestidos? Arranjos nos vestidos feitos por outras costureiras que não as do paço? Que insinuava esta gente? Mas a ênfase que o embaixador colocara na frase «rainha de Inglaterra» fê-la guardar para si os seus pensamentos. Rainha de Inglaterra de facto, rumo ao país de que este senhor era o representante.

Quando levantou a cabeça para olhar para Catarina, percebeu que a ilha aguardava as suas ordens, os olhos brilhantes, mas absolutamente disposta a aceitar como boa qualquer decisão que a mãe tomasse. Comoveu-se:

- Que a rainha de Inglaterra siga então, que em breve me juntarei a ela para apreciar, também, os presentes do meu genro, Sua Majestade Charles II - disse, num tom absolutamente formal.

A rainha de Inglaterra, Maria do Rosário, Maria do Carmo, D. Leonor e até a ama passaram uma tarde inimaginável naquele paço austero: de cada caixa saía o vestido mais arrojado, o chapéu de plumas mais fascinante, as jóias mais coloridas. Luísa olhou para tudo aquilo e abanou a cabeça em protesto:

- Dona Catarina de Bragança, espero bem que não se esqueça da sua educação e não se deslumbre com esses trajes ordinários, esses decotes vergonhosos, porque só a sua consciência a pode proteger, pois eu estarei longe de mais para isso.

Virando as costas, saiu da sala. O silêncio caiu como uma sombra negra sobre a alegria de raparigas que abriam o armário de todas as surpresas.

Que raiva, porque é que a minha mãe consegue manchar sempre a minha alegria e deixar-me com esta sensação de que pequei?, pensou, num súbito acesso de revolta, a infanta-rainha. D. Leonor, apesar de partilhar a opinião da rainha-mãe sobre a pouca sobriedade de alguns daqueles vestidos, sentiu o mesmo. Catarina tinha bom senso que chegasse para poder gozar um dia de sonho, sem afastar os pés perigosamente da realidade.

Maria do Carmo disse baixo a Maria do Rosário:

- Não percebo esta gente! Se esta é a roupa que o marido lhe envia é porque naquela corte as mulheres se vestem assim. Querem insistir em que dona Catarina surja ao rei, e às damas, como uma provinciana que se veste como uma provinciana?

Catarina ouviu-as, e pensou que desta vez não cederia. Não podia esquecer, por um minuto, que este era o guarda-roupa que o seu amado marido, aquele que lhe escrevera as primeiras cartas de amor, queria que usasse.

Discretamente escondeu nos folhos do vestido uma miniatura de Charles muito jovem. Um pequeno retrato, com uma moldura de diamantes, embrulhado em papel de seda, que mesmo antes de observar com cuidado teve o instinto de esconder. Não queria que toda aquela gente partilhasse aquele retrato, o comentasse, e até o ridicularizasse. Charles era seu. À luz da vela, quando todos já dormissem, abriria de novo o embrulho e então percorreria com o dedo indicador cada uma das feições do seu rosto e do seu corpo, como numa viagem de reconhecimento. Sozinhos, ela e ele, para que quando se encontrassem não fosse bem a primeira vez.

No seu palácio, próximo de Santos-o-Velho, com uma vista maravilhosa sobre o Tejo, o embaixador inglês sentou-se à secretária, contemplou o rio e os barcos, e escreveu ao seu senhor:

Sua Alteza,

Sinto que seremos extremamente felizes com a rainha. É uma princesa de tão doce natureza que nenhuma outra igual ainda nasceu.

Depois desta introdução continuou a descrever o sorriso natural de Catarina, avisando, no entanto, Sua Majestade de que se tratava de uma menina recatada e austera, esperando que o mulherengo do seu rei entendesse que Catarina era bem diferente da maioria das mulheres da corte inglesa.

- Espero que lhe seja fiel e não fira os seus sentimentos. Percebe--se pelo brilho dos seus olhos que está tão apaixonada - disse nessa noite a Ann, a mulher com quem casara já há tantos anos e o acompanhava em todas as suas digressões, grávida e com os ilhos às costas, pouco lhe importava, desde que estivessem juntos.

- Apaixonada estará ou não, mas iludida está com toda a certeza, a pobrezinha - respondeu a senhora, preocupada, a imaginar já que poderia ser a sua Ann, ou a sua Meg, a partirem assim para longe. - Aviso já que serei eu a tratar do casamento das nossas filhas - disse de repente.

O marido riu-se:

- Não te preocupes, que outro igual, leia-se «mais in iel», do que o nosso rei, não há.

E dizendo isto, puxou-a para junto de si e abraçou-a ternamente, dizendo-lhe ao ouvido:

- Mesmo com essa barriga de seis meses, não te trocava por mais nenhuma.

Paço da Ribeira, 30 de Dezembro de 1661

 

 

eparou no seu cabelo ruivo, tão diferente de todas as cores que vira

até então, as sardas a cobrirem-lhe a pele muito clara, o sorriso encantador e um discurso ligeiro e bem-humorado. Mas se Catarina reparou em Edward Montagu, o estibeiro-mor que Charles lhe enviava, Edward Montagu nunca mais conseguiu afastar Catarina dos seus pensamentos. O primeiro a dar conta disso foi Charles, ao receber a carta em que o rapaz lhe dizia ter entregado a carta à rainha e se desfazia em elogios. Mas o que tinha Catarina que os parecia seduzir a todos?, pensou irritado, e a ideia provocou-lhe um estúpido arrepio de ciúmes. Que disparate, ciúmes de uma mulher que não conhecia, ele que partia corações mas nunca deixava que partissem o seu. Além do mais, como era possível que um cínico como ele se importasse com a admiração de um estribeiro por uma rainha, que ainda por cima estava provavelmente a tentar com tanta lisonja agradar apenas ao rei, julgando que lhe dizia o que o rei queria ouvir.

Quando desdobrou a carta de Catarina que só agora lhe chegava, acompanhada da nota do seu embaixador, dissiparam-se todas as dúvidas: tanta paixão comovia e assustava. Que experiência de vida tinha esta criança para revelar tanta dedicação a um homem com a fama dele? Ou será que não tinham chegado ao ponto mais ocidental da Europa relatos dos seus casos amorosos, da ilha de Palmer que acabara de nascer e que assumira descaradamente perante todos? Sentiu o sangue subir à cara, era vergonha, aquele sentimento que a mãe sempre lhe dissera que devia sentir mais vezes.

Releu-a de novo:

Meu caro marido e senhor meu,

Se o contentamento de me ver com carta de Vossa Majestade pudesse ser satisfação igual da pena que me havia custado a falta dela, não seria necessário dizer-lhe a estimação que dela iz, nem a alegria com que festejei a chegada de quem ma trouxe.

Depois saltou as descrições que não lhe interessavam, e voltou a concentrar-se:

Mas quererá Deus trazer a armada breve e levar-me à vossa presença, pois só ver-vos apaziguará as minhas saudades. Entretanto, rogo que Ele vos dê prosperidade, como aquela de que depende toda a minha felicidade.

De Vossa Majestade

Sua mulher que mais o ama e suas mãos beija,

Catarina R.

Quinta Real de Alcântara, 26 de janeiro de 1662

 

á ninguém sabia o que aconselhar. Todas as frases de D. Luísa

começavam por «Não sei o que fazer ao meu filho», ou «Aquele Afonso.» Catarina sentia que a mãe pela primeira vez estava realmente à beira de uma crise nervosa: não sabia como chamar o rei à razão, conseguir que não provocasse escândalo, dentro e fora do paço, com os seus amigos pouco aconselháveis, que ia colocando em lugares cada vez mais proeminentes. O facto de ter agora Casa, o que lhe permitia nomear os seus conselheiros, acentuara, como Luísa suspeitara, a gravidade da situação, já que tinha mais dinheiro, mais poder e mais autonomia.

As esperanças que Catarina e Luísa haviam depositado nas capacidades de argumentação do padre António Vieira tinham saído defraudadas. Afonso não o distinguia da mãe, e querendo afastar-se de um, afastava-se do outro, esforçando-se abertamente por chocá-lo com o seu comportamento, esquecido de que o padre já vira tudo.

Mas Catarina deitara as mãos à cabeça quando a rainha, como sempre impaciente e ansiosa por passar à acção, decidira que se Afonso não aproveitava os préstimos daquele que fora pregador do reino, então o melhor era nomeá-lo confessor de D. Pedro.

- Mãe, desculpe a franqueza com que lhe falo, mas não entende que Afonso está sempre a provocá-la, num comportamento infantil em que anseia que a mãe insista, em lugar de desistir? Ao tomar esta decisão está a mostrar-lhe, mais uma vez, que face aos primeiros protestos dele cede imediatamente. Pior, volta a apostar no seu irmão mais novo, pondo-o nas mãos do padre António Vieira, que ele sabe perfeitamente que é um dos grandes homens do reino, e alguém por quem o pai tinha a maior consideração.

Luísa odiava ser criticada e respondera imediatamente, agastada:

- Catarina, ilha, quando chegares a Inglaterra dás os conselhos que desejares ao teu marido, o rei, mas era o que faltava, uma mãe que tem feito tudo para levar o ilho ao bom caminho, cujo coração é todos os dias dilacerado pelo seu comportamento imoral, ter de ouvir críticas destas. É altura de Afonso merecer o lugar que lhe coube pela morte do teu pai, a responsabilidade para com o seu povo, em lugar de continuar a ser apaparicado, como tem sido até aqui.

Frei Pedro, que tinha vindo almoçar à quinta e assistia à conversa, recordou-se daquela festa de anos em que, naquele mesmo sítio, tanto ele como a infanta tinham visto a sombra do príncipe herdeiro à janela, enquanto os pais comunicavam ao mais novo da família, apenas com seis anos, a atribuição da Casa do Infantado. Há erros que não se esquece, feridas que não saram, pensou.

Catarina percebeu tudo no seu olhar - como lhe ia fazer falta o frade, menos dotado do que Vieira para a grande oratória, sem tantos projectos megalómanos de mudar o Mundo, mas tão sensível e tão profundo, tão atento à realidade dos corações.

Frei Pedro sentiu-se, mais uma vez, grato pela con iança e jurou a si mesmo que D. Catarina seria sempre a primeira na lista das suas orações. Quanto a Afonso, frei Pedro ainda era o único que conseguia ser ouvido pelo rei, e só ele sabia quantos sarilhos maiores as suas palavras sensatas tinham evitado. Mas essas histórias guardava--as para si, consciente de que a lealdade dependia da sua capacidade de guardar segredos, mesmo que não lhe chegassem através da confissão.

António Vieira tinha entrado discretamente na sala arejada, de tectos de madeira corrida pintados de branco que enchiam o espaço de luz, e icou junto da janela, com as mão entrelaçadas atrás das costas, os olhos postos na ribeira de Alcântara, que corria, fresca, para se juntar ao Tejo.

D. Luísa, mais uma vez, com coragem e determinação, salvara-o da Inquisição e dos seus inimigos. Estava-lhe grato, e mais consciente do que nunca que Afonso não herdara da mãe a força necessária para escolher entre o Bem e o Mal, nem era capaz de suportar as consequências que seguiam às escolhas di íceis. Estava certo, como Cata rina e frei Pedro, de que a doença do rei jogava um papel determinante nas suas falhas, mas, como eles, tinha também a certeza de que a educação do futuro rei não soubera encontrar aquela misteriosa fórmula de afecto e irmeza que torna as pessoas mais íntegras. Além do mais, estava informado. Sabia muito das noitadas de Afonso e da sua relação doentia com António Conti.

Concordava com a rainha-mãe: era preciso colocar um ponto inal em tudo isto. Portugal não se libertara com tanto esforço de Castela para icar subjugado a um menino mal-educado - e era com esta sobriedade, sem mitos, nem endeusamentos, que o padre António Vieira via o actual rei de Portugal.

Catarina e frei Pedro perceberam que estavam a mais. A infanta, a pretexto do enxoval, o frade alegando que ia ver em que estado estavam as flores da capela, saíram da sala.

Nessa tarde o plano icou delineado. O primeiro passo seria de boa vontade, e previa que a rainha convidasse António de Sousa Macedo para secretário de Estado, mostrando a sua disponibilidade para integrar no seu Governo homens da con iança de Afonso VI. Esperava que este gesto fosse su iciente para apaziguar os impulsos do partido do rei, como já lhe chamavam, adiando o con lito que ambos sabiam inevitável. Em seguida, toda a atenção seria pouca para continuar o esforço imenso que representava a tentativa de juntar o dote de Catarina a tempo e horas -procuravam que a rainha de Inglaterra não percebesse que longe estavam de o conseguir, poupando-lhe a angústia e simultaneamente o risco de que em algum gesto apaixonado comunicasse a Charles o que se passava, ou num momento de abnegação desistisse de tudo, com receio de pesar ainda mais sobre os ombros de uma mãe visivelmente cansada.

- Mas no dia a seguir ao embarque de Catarina para Inglaterra, jure-me, padre António, que encontra forma de tirar deste reino esses miseráveis Conti, que se aproveitam da debilidade do meu ilho. Segundo me diz o camareiro do rei, não há noite em que esse canalha, e desculpe-me o termo, mas não encontro outro para o descrever, tem o desplante de trazer mais um amigo para dentro do paço, dando ordens a torto e a direito, pedindo comida e doces para os aposentos do rei, que os criados encontram no dia seguinte em total desalinho. Nem quero pensar no que para ali vai - continuou a rainha, fazendo o sinal da cruz e contendo um soluço de raiva e desgosto.

- Estou em contacto com os comandantes de vários navios que partem para o Brasil e garanto-lhe que tudo se vai arranjar de forma que essa gente seja deportada para lá, sem bilhete de regresso.

- Precisa de dinheiro?

António Vieira percebeu a angústia da rainha: dinheiro era palavra que a fazia tremer porque vivia na angústia de não saber como enfrentar o almirante de Charles com a notícia de que não podia cumprir totalmente os requisitos do acordo.

É claro que António Vieira precisava de inanciamento para que tudo corresse sem escândalo e o esperto do italiano não desse com a língua nos dentes. Não chegariam a qualquer acordo se não lhe pudesse dar uma bolsa de moedas, para que começasse vida nova do outro lado do Atlântico, mas estava certo de que o conseguiria angariar junto dos seus amigos, partidários de D. Pedro, mesmo que talvez preferissem assistir à degradação do rei do que ajudar em alguma tentativa de o reabilitar. Dívidas, de qualquer modo, dívidas que sabia que um dia seria obrigado a pagar, mas não podia sobrecarregar a rainha, nem deixá-la com mais um problema por resolver. Por isso, serenamente acenou que não com a cabeça:

- Sua Alteza esteja descansada. Tratarei de tudo. Mas, se me é permitido perguntar, como pensa conseguir os milhões que os ingleses lhe pedem?

Luísa permaneceu calada. Para quê repetir-lhe aquilo que sabia que ele já sabia, que vendera muitas das suas jóias pessoais, alguns dos bens da Casa de Bragança - aqueles que a guerra com Castela não tinha obrigado a dispor anteriormente -, loiças e pratas da casa e tudo o que tivesse algum valor; que aumentara impostos, inclusivamente introduzindo o tributo do papel selado, que enraivecera ainda mais um povo castigado que encarava este «presente» aos ingleses como uma traição, um capricho de uma rainha que desejava ver a ilha bem casada, esquecidos já da necessidade de reforço das tropas.

A verdade é que, apesar deste esforço inanceiro gigantesco, continuava desesperada e sem saber mais onde procurar fundos para inanciar a promessa feita.

- Permita-me Sua Majestade que faça duas sugestões.

A rainha fez um sinal de assentimento, mas virou-se de costas para o padre, a pretexto de contemplar o rio: por muita afeição que tivesse ao jesuíta, desgostava-a ter de recorrer à sua ajuda ou a de qualquer outra pessoa. Ela, Luísa de Gusmão, ilha do oitavo duque de Me dina--Sidónia, vinda de um dos Estados mais antigos de Espanha, onde o sol brilhava sobre o mar e a areia das praias era branca e corria por quilómetros, numa costa tão bela como nunca vira outra igual, e que os seus antepassados haviam defendido de mouros e piratas, repetiu a si mesma, como fazia sempre nos momentos de insegurança e solidão. Mas manteve o silêncio e ouviu o padre:

- A proposta já foi feita há mais de um ano, mas talvez não seja de mais recordá-la, sublinhando a protecção que os ingleses podem dar aos nossos navios comerciais. O Brasil e os outros territórios de África e do Oriente são países riquíssimos, das pedras preciosas ao açúcar, que valem tanto como o ouro. Como na altura D. Luísa fez questão de deixar claro aos governadores, basta uma gota de água para que as necessidades do dote sejam preenchidas.

- Tem razão: sabem, mas precisam de ser lembrados, e sobretudo assegurados de que os ingleses não lhes vão roubar as praças! - suspirou Luísa, que não estava muito certa do impacto que a entrega de Tânger e Bombaim teria nesses países longínquos, que contavam com a coroa portuguesa para os proteger...

- Não se esqueça de que não pode falar em mim, do perigoso jesuíta, senão dos colonos não consegue nem um cruzado - comentou a sorrir António Vieira, mas logo mais sério sugeriu:

- Se sentir que me deve afastar um pouco, em sinal da boa vontade real para com os colonos, não hesite Sua Alteza... Neste momento há interesses mais importantes a ter em conta do que a manutenção de um título.

- Não concordo com cedências, nem jogadas de fraqueza - comentou, fria e directa, D. Luísa. - Quanto à segunda sugestão?

- Se me consentir, pedirei a Duarte da Silva que se encontre com Vossa Alteza...

- O judeu? - exclamou Luísa, assustada.

- Sabe que não me re iro às pessoas assim. O que importa neste caso é que é um homem rico, um comerciante honesto, com capacidade, se alguém ainda a tem, de nos ajudar a angariar o dinheiro de que precisa...

- A que juros, meu Deus? Padre, tenho muita consideração pelo seu sentimento de justiça, mas olhe que os juros que essa gente pede por cada empréstimo que faz explicam muita da animosidade que criou...

António Vieira soltou uma gargalhada:

- Senhora de Gusmão e Medina-Sidónia, a sabedoria corre-vos no sangue. De facto, a maioria dos altos dignitários da malé ica Inquisição, e que ninguém nos oiça senão vou directo para os calabouços, deve dinheiro a um judeu, e prefere queimar o seu credor na fogueira, do que pagar aquilo que lhe falta pagar, mas adiante, que a discussão política ica para depois. Duarte Silva é um patriota e nunca se aproveitaria da situação de aflição em que se encontra a rainha de Portugal.

- Terá de pedir alguma coisa em troca - comentou a rainha, com a voz subitamente entrecortada pela emoção.

- Talvez liberdades comerciais em Inglaterra, quem sabe, mas a inal, se as garantimos aos ingleses, com todo o descaramento, também eles podem facilitar a vida a Duarte Silva...

- Talvez. Talvez sir Richard Fanshawe, que parece ser um homem compreensivo, tem filhas, talvez entenda, e ajude...

- Dizem-me que o conde de Sandwich, que comanda a armada do rei, é um homem encantador, de um coração muito humano. Estou certo de que a própria princesa, com os seus olhos de azeitona, a «mourinha», como o nosso saudoso rei lhe chamava, será capaz de lhe provar que vale a pena ser paciente...

Luísa virou-se e olhou para António Vieira com severidade:

- Não gosto que fale assim de dona Catarina.

- Não entenda mal as minhas palavras, Sua Majestade. Elogio as grandes qualidades da infanta, que sabe que amo como uma ilha. Se não tem a determinação, nem muitas das capacidades da mãe, herdou dela a força para defender as suas convicções, a lealdade, um imenso sentido de justiça, a generosidade e uma transparência de menina que comove e prende, porque se sente que vem directamente de Deus, sem que a infanta tenha sequer consciência do poder que exerce sobre os outros... Vai sofrer, porque é demasiado fácil ferir as pessoas que, não sendo capaz de magoar os outros, não imaginam sequer que haja quem intencionalmente e sem razão retire prazer de as magoar a elas, mas acredito que vai vencer. Vai conquistar o coração do rei e dos ingleses e esta aliança trará a Portugal, como a de D. João 1 com Filipa de Lencastre trouxe ao reino, apoios que lhe permitam continuar a ser um Portugal livre e senhor dos seus destinos.

Luísa comoveu-se. Estava exausta, sentia a falta do marido, que tivera sempre o poder de a serenar com as suas notas musicais e a sua bondade desinteressada - se ao menos João aqui estivesse! Não ajudaria, provavelmente, a resolver o problema concreto de falta de liquidez que tinham entre mãos, mas a sua calma, a sua con iança na vontade de Deus, teriam o poder de lhe trazer o sono. Quantas vezes acabara por dormir presa nos seus braços, como se a toda-poderosa rainha de Portugal pudesse, por minutos apenas, e no segredo da câmara, ser de novo uma adolescente desejosa de ser amada e protegida.

Suspirou.

- Espero que tenha razão e desejo, acima de tudo, que Nosso Senhor e a Virgem das Candeias protejam a minha filha.

Pensou, por segundos, con idenciar ao jesuíta aquela visão que tivera no momento do parto e que se repetia desde aí, sob a forma de pesadelos; dizer-lhe que em todos eles Catarina, de ventre liso, gritava por ajuda, e ninguém a socorria...

De repente não resistiu e disse:

- Padre, acredita que os sonhos e os pesadelos falam verdade? António Vieira vivia da inspiração dos seus sonhos, acreditava irmemente que eram revelações da vontade de Deus, quantas e quantas homilias haviam nascido dessas noites em que dormia sem dormir e o Senhor lhe revelava aquilo que deveria dizer às suas ovelhas:

- Senhora, acredito, sim. Posso perguntar-lhe com o que tem sonhado?

Mas Luísa assustara-se com o tom veemente de António Vieira. Gostava dele, admirava a força com que defendia as suas causas mas, por vezes, tinha pena de que não fosse mais moderado. Decididamente, não precisava de videntes. Queria era esquecer o que lhe metia medo e que, sem precisar de conselhos, sabia ser certamente um aviso, uma premonição de uma mãe, que durante nove meses sentira crescer dentro de si a luz dos seus olhos.

 

Dias depois o dinheiro ia chegando, do Brasil e de todos os cantos do reino, mas, tal como os 20 mil cruzados que conseguiu obter por mais um lote das suas jóias pessoais, tudo parecia uma gota de água.

Também as igrejas e os conventos foram coagidos a dar o seu contributo, apesar de a ideia do casamento de uma princesa portuguesa com um herege não suscitar grande entusiasmo nas ileiras católicas. Mas D. Luísa de Gusmão insistia que era preciso que vendessem as pratas e entregassem as rendas à coroa, porque a situação era, no vamente, de urgência. Defendia-se a rainha com o argumento de que a ilha do rei que dedicara Portugal a Nossa Senhora da Conceição tinha direito a apelar à Senhora e às suas servas na Terra para que viessem em seu auxílio. Sem margem de manobra, entregaram devotamente o que não conseguiam esconder.

- Tanto dinheiro, tanto esforço, tanto empenho, e tanta raiva que criamos naqueles que deram o que tinham e o que não tinham - murmurava Luísa, que constantemente anunciava a chegada do exército inglês, na esperança de deixar bem visível as razões que haviam levado Portugal a este acordo.

Os dois milhões continuavam uma miragem. Era preciso ceder, e mandar chamar Duarte da Silva...

Whitehall Palace, Londres, 3 de Fevereiro de 1662

 

dward Hyde chegou aos seus aposentos em Whithehall Palace de

cabeça perdida. O chanceler tinha dias assim, dias em que desesperava de alguma vez conseguir que uma migalha de bom senso entrasse, e ficasse, na cabeça do seu rei.

Mal o viu entrar, a mulher, como sempre um poço de serenidade, mandou que lhe fosse servida uma caneca de sidra quente, levou-o gentilmente pelo braço até à sua cadeira favorita junto da lareira, e ela própria lhe descalçou as botas cardadas, que ainda vinham cheias da neve que lá fora cobria o terreiro.

- O que foi agora? - perguntou, sentando-se ao seu lado e fazendo sinal ao criado para que saísse e fechasse a porta atrás de si.

- Charles dá comigo em doido. Primeiro anunciou-me que Sandwich já tinha Tânger, apesar de algumas escaramuças. Fiquei feliz. Dali pode agora seguir rapidamente para Lisboa porque é preciso trazer Catarina e o dinheiro.

- Que a rainha venha depressa e dê à luz um rapazinho, para sossego desta corte - respondeu a mulher, sempre preocupada com os riscos que a sua própria ilha Anne corria estando casada com o irmão do rei, suspeito de ser um papista, e de lhe querer roubar o lugar, para virar Inglaterra para Roma.

- Já não sei nada...

- Mas o que é que te perturbou, então?

- Como te dizia, enquanto Charles, por um lado, regozijava com a vinda da mulher, e até lhe escrevia cartas de enamoramento, por outro teve o mau gosto de atribuir o título nobiliárquico de lord Castelmaine ao marido da Palmer.

A mulher deu um salto, a cara vermelha de indignação, e em pé começou a gesticular:

- Que falta de moralidade, como pode um rei dar um exemplo destes ao povo? Ainda por cima, um rei que está apenas há dias no trono, que viu o pai ser decapitado e tudo o que sucedeu a este reino depois disso? Fazer da sua amante lady, dar um título ao marido vergonhosamente enganado, um pobre diabo que se sujeita a que a sua mulher durma com o rei, ique prenha dele e dê à luz crianças que não sabem a quem chamar pai?

- Acalma-te e bebe um pouco desta sidra - disse-lhe o chanceler, preocupado que a pobre mulher tivesse mesmo uma apoplexia. Mas mesmo quando lhe pedia calma, morti icava-se por dentro: como podia ser chanceler do reino, num reino onde nada, nem ninguém, era respeitado?

Mais calma? A Sr.' Hyde sentiu a cara molhar-se de lágrimas:

- Que o nosso genro se atreva a fazer uma coisa destas à nossa filha, Edward, e acho que o mato com as minhas próprias mãos. Sofro por saber que essa princesa, que o conde da Ponte tantas vezes nos descreveu como inocente e reservada, sem conhecer nada destas imoralidades, caia neste antro, sem ninguém que a aconselhe e avise. Como reagirá quando souber que a sonsa da outra não só continua na cama do rei, como consegue manipulá-lo desta maneira? Não sabes como são estas criaturas, mas eu sei. Sei que a esta hora está feliz, a contar às amigas como acabou de humilhar a rainha, ainda a pobre nem chegou a Inglaterra; o que ela quer, conseguiu, que foi passar a mensagem à corte, inglesa, portuguesa, francesa, espanhola, a todas, meu Deus, de que a legítima nunca contará para nada, porque ela tem o rei na mão.

- Mas talvez deixe de ter, se Catarina for capaz de o conquistar...

- És um ingénuo, o que pode uma rapariga que, ao que nos disse o embaixador, nem a nossa língua fala contra aquelas bruxas que todas as noites jogam às cartas e cantam ao ouvido do rei? Tens de ser tu, Edward, tens de ser tu a protegê-la, a impedir que o rei a magoe. Charles, e que Deus seja louvado, que andei com ele ao colo, é incapaz de ferir um inocente, tens de lhe chamar a atenção, porque se vir que o seu comportamento a ofende tentará corrigir-se.

- Tentará, dizes bem. As promessas de Charles convencem qualquer um, até o próprio. No momento em que as faz está absolutamente certo de que as vai cumprir. Dez minutos depois, basta aliciá-lo com um desa io, uma conquista, um prazer novo, e não se recorda de uma palavra do que disse. Que Deus proteja a rainha, porque eu, mulher, suspeito que pouco vou poder fazer. Hoje não se falava em mais nada senão numa nova dama, «enviada» de França pela irmã do rei, não se sabe se numa tentativa de desviar a atenção de Charles para uma amante católica, espia de Luís XIV, sem dúvida nenhuma...

- Mas para que precisa ele de uma amante católica, se a mulher que já fez sua professa essa mesma religião? Marido, digo-te, que me desgosta que a nossa Anne conviva com tal gente, que se matam uns aos outros em nome de um Deus que não ouvem, nem respeitam.

O chanceler tinha adormecido, embalado pelo calor da lareira e o efeito da sidra. Pobre Ed, pensou a mulher, enquanto chamava um criado para a ajudar a deitá-lo. Era preciso que dormisse, porque muita coisa vinha aí que lhe tiraria de certo o sono, pensou ela, enquanto lhe aconchegava a roupa na cama larga.

 

A centenas de quilómetros dali, Catarina sentia-se a mais feliz de todas as mulheres, sem suspeitar que a mãe não dormia, preocupada com a possibilidade de se ver obrigada a anular o casamento. Acreditava que a mãe estava demasiado ocupada com assuntos de Estado para se preocupar com uma menina entusiasmada com o seu enxoval.

De facto, Luísa nunca a tinha deixado tão livre e Catarina aproveitava a porta da gaiola aberta. Visitava igrejas e ermidas, a pretexto de colocar velas a diferentes santos, andava na rua, como tanto gostava, ordenando à sua camareira-mor, nomeada pela rainha para a ajudar nos preparativos, que marcasse encontros com costureiras, joalheiros e tecelões nos seus ateliês, porque lhe dava um prazer imenso visitá-los em lugar de ser visitada por eles, cansada que estava de mais de vinte anos enclausurada naquele paço.

Maria do Rosário e Maria do Carmo acompanhavam-na na mesma roda-viva e, ignorando a situação inanceira com que a rainha se debatia, Catarina pela primeira vez dava largas aos seus desejos.

As costureiras a mando de D. Leonor queriam alargar cinturas, colocar mais roda nas saias e, sobretudo, cobrir os decotes com rendas e rendinhas. Catarina, no entanto, era irme: nos vestidos oferecidos pelo rei ninguém mexia. Quanto aos outros, teria de os usar na viagem e nos primeiros dias, mas se Charles manifestasse algum desa grado iam direitinhos para dentro da arca, para uma eternidade na companhia da cânfora.

O idílio ia sendo alimentado por cartas. Charles escrevia, e Catarina, cada vez mais ousada na descrição dos seus sentimentos, respondia. Embrulhadas numa ita de seda, iam-se amontoando junto da imagem da Senhora das Candeias no pequeno oratório do seu quarto.

Por vezes, Maria do Carmo levantava suspeitas:

- Se está tão ansioso por a ter junto dele, por que demora tanto o barco a chegar? - perguntava, com descaramento.

Catarina fazia para si a mesma exacta pergunta, mas nunca iria deixar que as damas pressentissem que por vezes duvidava deste amor em que entre as promessas e o seu cumprimento parecia haver uma imensa distância, e por isso respondia, zangada:

- Vá estudar o mapa, e meça a distância por mar, passando por Tânger, some-lhe ventos e tempestades, e aí tem a resposta.

Maria do Carmo, entretanto, já levara vinte cotoveladas das outras damas, e assentia que sim com a cabeça, como se estivesse convencida. A verdade é que já chegara a notícia da promoção da Palmer, e se nenhuma tinha coragem de estragar a felicidade da infanta, também nenhuma confiava de facto no mulherengo rei de Inglaterra.

Paço da Ribeira, 8 de Março de 1662

 

cavalo entrou a galope pelos portões abertos que davam acesso

às cavalariças do paço. Espumava da boca, tinha o pêlo coberto de suor que lhe escorria pelas patas abaixo, e estava manco de uma pata, porque a ferradura lhe saltara algures numa pedra desta calçada tão traiçoeira. O cavaleiro apeou-se ainda o cavalo trotava, correndo para as escadas que o levavam ao patamar onde tinha a certeza de encontrar o porteiro-mor: tinha um recado urgente para a rainha, a armada inglesa acabara de ser avistada em Cascais.

Feliz por ter uma mensagem deste valor para passar, o porteiro abandonou o seu posto, pedindo a um dos criados que icasse de guarda por momentos, e bateu pessoalmente à porta dos salões de D. Luísa. A notícia correu como uma lecha pelo paço até que chegou a Catarina e à rainha, que almoçavam.

Luísa deu ordens urgentes: convocou o Conselho de Estado e o Conselho de Guerra porque tudo tinha de ser planeado, passo a passo. Catarina, muito pálida, pediu licença para se retirar. A mãe ia protestar que não era hora de dormir sestas, quando percebeu a cor da ilha e sentiu, também ela, que alguma coisa morria dentro de si. Agora não havia volta a dar, o que não passara de um sonho romântico na cabeça da sua princesinha, aconchegada na casa onde sempre vivera, entre todos aqueles que a amavam incondicionalmente, tornava-se realidade. A sua ilha muito amada, a luz dos seus olhos, estava agora mais próxima do que nunca de a deixar. Para sempre, pensou, e o coração parou de bater, sentindo um desmaio. Catarina, vendo a mãe fraquejar, correu a puxar uma cadeira para a sentar e gritou a um dos criados que lhe trouxesse uma água de canela do armário de medicamentos.

Mas mal a mãe melhorou, saiu da sala em passo rápido, subiu as escadas já a correr, fechou à chave a porta do quarto e lançou-se sobre a cama.

De súbito, foi como se um terramoto tomasse o seu corpo frágil e delicado, que os soluços faziam tremer. Mordia a fronha da almofada com força, enquanto a voz embargada ia proferindo os nomes dos seus guardiões, misturando os seus santos pessoais com os da Santa Madre Igreja:

- Pai, paizinho, Nossa Senhora da Conceição, meu querido Teodósio, Joana, onde estás, Joana? Porque é que me deixaste sozinha? Como é que vou ser capaz de deixar a mãe e os manos, meu Deus, onde me meti, com que inconsciência disse que sim e iquei feliz com tudo. Não quero, não quero partir, não quero ver este emissário de Charles, não quero ser olhada e iscalizada por dom Francisco, não posso abandonar Afonso. Afonso, Nossa Senhora das Candeias, ilumina-o, toma conta dele, que sei que lhe vão fazer mal...

O som da sua própria ladainha surtia sobre si um efeito calmante, e aos poucos o peito deixou de ofegar, os olhos inchados fecharam--se, o choro e os gemidos diminuíram de intensidade, e Catarina adormeceu. Fechada no seu quarto, trancada por dentro, na esperança de que ninguém fosse capaz de a roubar à prisão que escolhera para si.

Acordou com o barulho de alguém que lhe batia incessantemente à porta. Acordou confusa, estranhou a luz que vinha da janela, perguntou a si mesma o que fazia deitada, em total desalinho, a meio da tarde, e de repente recordou tudo. Assustada, pôs-se de pé de um salto, e antes de abrir a porta, que se não abrisse em breve seria deitada abaixo pela guarda, olhou a medo para o rio: era dali que ia partir, era ali que já a esperavam.

Do outro lado da porta encontrou D. Leonor em pânico.

- Que ideia, dona Catarina, fechar-se assim por dentro, como uma criança pequena que não abria a porta por nada! Veja-me esse vestido, já absolutamente impróprio, e esses olhos, menina, o que vamos fazer a esses olhos, quando o almirante inglês a quiser conhecer?

- Hoje? Já? Não pode ser amanhã? Qual é a pressa? - As perguntas saíam nervosas e em catadupa.

D. Leonor fez sinal à criada que vinha com ela, para que fosse à cozinha fazer um chá:

- Não me tragas infusões. Um chá preto, do Oriente, bem forte, que dona Catarina precisa de se recompor depressa...

Fazia tudo para manter o tom de voz controlado e frio: o que seria delas se também ela se entregasse às lágrimas, deixando abrir a barragem que as continha com tanto esforço? Não era altura para abandonar a sua menina ao desespero. O que tinha de ser feito tinha de ser feito, e era cumprir ordens da rainha o que D. Leonor se dispunha a fazer.

 

Catarina não conseguia, nem meses, nem anos depois, descrever o misto de tristeza, esperança e confusão das semanas que anteciparam o seu embarque.

Sabia dizer que gostara de conde de Sandwich, o almirante que comandava o Royal Charles, o navio em que estava destinada a embarcar. Recordava-se que a tinha impressionado bem, no im de tarde em que viera ao Paço da Ribeira, num cortejo de 40 coches, prestar os seus cumprimentos a Sua Majestade D. Afonso e beijar as mãos às duas rainhas. Gostara de ver o almirante tratar o irmão com a deferência que toda a gente parecia esquecer, a elegância com que o olhara directo nos olhos, em lugar de se perder na observação mórbida dos seus óbvios defeitos físicos.

Recordava-se de como a presença de sir Richard Fanshawe e da sua rechonchuda, simpática e muito grávida mulher lhe tinha oferecido uma sensação de segurança, pela qual estava muito grata. Lembrava-se de o ter dito assim mesmo ao tradutor, que transmitira o seu comentário ao casal, e do sorriso meigo e maternal com que lady Fanshawe a recompensara, enquanto puxava de um lencinho bordado para secar os cantinhos dos olhos.

Recordava-se da felicidade na cara da mãe, nos últimos tempos tão marcadas de olheiras, quando chegara a notícia de que a frota do Brasil entrara pela barra com os porões a abarrotar. Percebeu, só então, a angústia de Luísa com o seu dote, proporcional à alegria que sentia quando sabia que aportava a Lisboa a sua redenção. Lembrava-se de como se emocionara ao perceber que a mãe escondia de si as angústias do dinheiro que não tinha, para a poupar a preocupações, sentindo--se invadir por uma onda de reconhecimento por ser ilha daquela mãe, tão exigente consigo mesma, mas tão generosa, tão mãe-galinha quando se tratava de proteger os seus pintainhos.

Tinha uma recordação vaga de festas, convites, cerimónias, e até de uma tourada em pleno terreiro, a que o almirante assistira de uma varanda, mesmo ao lado daquela que ela partilhava com Afonso e Pedro, e do divertimento que lhes provocara a perplexidade do inglês perante aquele ritual, que confessava corajoso, mas estranho: porque corriam atrás de um touro, em lugar de se enfrentarem em duelo, homem contra homem?

Tinha bem presente a conversa que tivera com Sandwich no corredor que ligava as varandas e em que o almirante parecia chocado com o facto de terem morto 13 touros, oferecendo a sua decapitação à rainha de Inglaterra. Perante os comentários do almirante, Catarina confessara-lhe que a obrigava a pensar pela primeira vez na vida no assunto, que, pelos vistos, quando se cresce entre as coisas há tendência para as aceitar sem as questionar. Recordava-se do silêncio que se seguira a essa troca de palavras: suspeitava que ele, tal como ela, tinha tomado consciência então de quanto a nova rainha teria de aprender os hábitos do seu país adoptivo, e quanto teria de explicar dos seus próprios.

Depois havia as missas. Ficara-lhe a impressão de que a sua devoção tinha sido posta à prova naqueles meses. Não havia padre, nem bispo, que não quisesse rezar uma em sua homenagem, para não deixar que os festejos lhe passassem ao lado. Marcara-a o Te Deum magní ico, celebrado na capela real, repleta de lores e de gente engalanada. Tudo isto por mim?, recordava-se de pensar constantemente, mas não esquecera também que a resposta nunca lhe tinha parecido óbvia.

Marcara-a o povo de Lisboa. Contagiado pela excitação, durante dias e noites celebrava a inal o casamento que tantas dúvidas parecia ter causado, com foguetes que cortavam os céus estrelados, e a música que invadia os bairros e as ruelas. Lembrava-se bem das descrições que lhe faziam das excursões de populares que iam até ao Mosteiro dos Jerónimos para observar os navios ingleses, as bandeiras ao vento, o maior de todos com o nome do rei Charles de Inglaterra, que fora remodelado para acolher com luxo D. Catarina. Coisas faladas pelos marinheiros que chegavam a terra para beber o vinho português, meter conversa com as raparigas e dançar nos bailaricos, onde se sentiam contagiados pela alegria dos portugueses.

Lembrava-se, ai como se lembrava, da voz colectiva que uma tarde lhe chegou do terreiro, e de como tentara guardar para sempre a imagem daquele espaço repleto de gente, de cores, de bandeiras. Tinham sabido, antes dela, que a data do casamento por procuração, aquele a que poderiam assistir, e que portanto faziam questão de viver como se fosse o único, estava marcada para dia 23 de Abril. Na Sé de Lisboa.

Ah, e gravara na memória o momento em que da janela vira a frota inglesa fundear, com pompa e circunstância, mesmo em frente do paço, onde fora recebida por uma salva de quarenta e cinco tiros dos canhões em terra. Se fechasse os olhos ainda via esvoaçar ao vento as bandeiras que cobriam as muralhas do terreiro, a maior de todas presa do torreão

ilipino, o torreão de todas as memórias - sempre a bandeira do pai, que

nunca conseguia recordar sem emoção.

Durante aqueles meses sentiu que agia como um autómato, marioneta nas mãos dos senhores do protocolo. Tudo estava pensado, preparado e ensaiado: Catarina de Bragança desceria a encosta do castelo na sua caleche real, de onde sairia no paço, para atravessar a pé uma pequena ponte construída nos jardins, passando ao bergantim que a levaria ao Royal Charles, ladeada pelos seus irmãos, o rei D. Afonso VI de Portugal à sua direita e o infante D. Pedro à sua esquerda. Se a maré e o tempo o permitissem, nesse mesmo dia o conde de Sandwich levantaria âncora, porque, como o mesmo lhe confessara, o regresso estava atrasado e o rei de Inglaterra era um homem impaciente.

Também lhe cabia ingir que não percebia porque é que se adiava o embarque.

Royal Charles, rio Tejo, 20 de Abril de 1662

 

andwich andava de um lado para o outro da cabina do seu navio, a

noite escura do lado de lá da escotilha. Raios, a rainha D. Luísa tinha mesmo conseguido contagiá-lo com suas insónias, porque desde que percebera que levava apenas metade do dote e uma promessa - de que a outra metade seria entregue em Londres dentro de um ano - também o almirante não pregava olho. Como explicar a um rei sedento de dinheiro líquido, pronto a gastar, que lhe trazia mercadorias, especiarias, canela, chá e açúcar, em lugar de ouro? Pior do que isso, que transportava apenas uma parte do acordado, quando o contrato que o rei lhe dera para ler estipulava de forma bem clara que ou o dote era o estipulado e entregue antes do embarque, ou não havia embarque, nem casamento...

Sandwich sabia que não era viável desocupar Tânger, dar todo este ano de manobras militares e de deslocação de uma frota até Lisboa como perdido. Era, pelo menos, esse o argumento de força com que tencionava justi icar a sua decisão de ignorar o que estava escrito e assinado pelo seu rei e pelo embaixador português, que insistia em levar quase como refém, e decididamente como bode expiatório, do acordo por cumprir. Mas a verdade é que o irritava a consciência de que ele, um o icial da marinha inglesa, um homem íntegro que servia o seu rei e fugia das intrigas da corte, tinha a inal um coração de sabão: não tinha coragem de humilhar a princesinha, que caso fosse deixada em terra seria imediatamente enviada para um convento, porque nenhuma outra casa real europeia aceitaria um enlace com uma mulher rejeitada pelo rei de Inglaterra.

Desesperado com o sono que não vinha, apesar dos pequenos goles de vinho do Porto com que o tentara induzir, sentou-se à sua secretária de bordo, abriu de novo o seu diário e releu o que tinha escrito: «A rainha tem 23 anos e meio e chama-se Catarina, Catherine. É morena, de faces rosadas, belos olhos negros e um ar de infantil inocência.»

Catarina, como o embaixador Fanshawe aliás já tinha previsto, tivera sobre Sandwich o mesmo efeito mágico do que sobre ele e a mulher: cativara-o irremediavelmente, mas não ao ponto de o fazer perder a razão. No dia seguinte jantou em casa do embaixador de Inglaterra e pediu a Fanshawe que lhe emprestasse uma secretária, um tinteiro, uma pena e uma folha de papel. Era obrigatório que escrevesse ao rei, na secreta esperança de que fosse o chanceler a ler a carta e a iltrar, passando a Charles e ao Parlamento apenas uma parte do seu conteúdo, como lhe pedia numa outra missiva particular e secreta. Contou tudo como queria que ouvissem a história, para garantir que já izera chegar os seus mais veementes protestos a Sande, que, embora concordando com ele, con irmava que as exigências eram impossíveis de cumprir. O almirante elogiava, pelo menos, a franqueza dos portugueses: aqui ninguém tentara enganar ninguém, não se escondendo dos aliados que os cofres estavam vazios e levariam tempo a voltar a encher. Dava conta ao seu rei de que um judeu, de nome Duarte da Silva, com excelentes contactos comerciais com Inglaterra e que, felizmente, dominava a língua, se preparava para lhe entregar «letras de câmbio, como garantia, mas que se recusara a aceitar. «Dessas temos muitos» respondi. Pre iro pedir à rainha-mãe que me dê a sua palavra de honra. Que deu, jurando pela saúde da filha, que sei que é o maior bem que tem nesta terra», escreveu Sandwich, sabendo da consideração do rei pelo pulso-de-ferro e a integridade da sogra.