Catarina de Bragança

Isabel Stilwell · Capítulo 7 de 12 · parte 2/4

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Catarina de Bragança

Portsmouth, 14 de Maio de 1662

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Charles sentia o seu impulso protector. Pobre criaturinha, longe de casa, doente, e nem uma palavra de recriminação. Não lhe apresentara imediatamente as contas do Deve e do Haver, como faziam tantas outras, e sorria, apesar da doença.

- Mas agora estou cá eu - disse, dando-lhe um pequeno piparote no nariz encarnado, que a pobre Catarina tentava impedir de pingar, acrescentando, divertido:

- Gosto de si, minha mulher. Vamos tratar do casamento já para amanhã, um bom motivo para a tirar da cama...

- Dos dois casamentos, Sua Alteza, do católico, o único que me importa se quer que seja sincera, e do outro - acrescentou Catarina subitamente a lita, com medo de ser obrigada a deitar-se com um homem, sem que a sua união tivesse sido abençoada pelo verdadeiro Deus.

Charles ia responder que tanto lhe fazia quem o iciava a cerimónia, porque para ele a religião pouco mais era do que uma maneira de levar os crentes à obediência, ideia que usava para chocar os clérigos que o rodeavam, mas hesitou. A pobre Catarina não precisava de conhecer já hoje todos os seus pensamentos...

- Claro, claro - sossegou-a. - Não me esqueci do acordado, embora a senhora sua mãe, e agora minha, se pareça ter esquecido de encher os porões dos navios como acordado...

Catarina corou de vergonha:

- As maiores desculpas, Sua Majestade, mas o que veio vale ouro. Açúcar, especiarias, remédios...

- E chá, ao que vejo - pela bebida que tem aí ao seu lado.

- Chá preto, arcas e arcas de chá, e serviços da porcelana mais ina para o bebermos na corte...

Charles olhou, interessado. O chá bebia-se há muito em canecas grandes, nas melhores tabernas. Era caro, mas não estava ligado a nenhum hábito sofisticado, e muito menos a uma bebida da corte...

Generoso, pegando-lhe na mão, disse-lhe:

- Tenho muito a aprender com a minha mulher.

Catarina sentiu de repente a língua desatar-se. Não sabia se era dos pós do Dr. António, ou do efeito inebriante de ter, sentado na borda da sua cama, a mão na sua, o homem com quem ia partilhar a vida. Contou-lhe da viagem, da confusão que lhe fazia o céu nublado de Portsmouth, falou-lhe do barco, do vento e das ondas, dos irmãos e das irmãs, da ânsia que tinha em ter um cavalo só seu, e Charles, embalado na sua voz doce, no seu contentamento e na facilidade com que a conseguia fazer rir, sentiu-se embevecido. Não, decididamente, não alegaria cansaço para se ir deitar mais cedo ou voltar de urgência à capital. Catarina estava doente, precisava dele, e o rei sentia-se disposto a mimá-la, guiá-la, protegê-la da língua viperina daquelas mulheres. Sabia que se mostrasse o seu gosto pela rainha, mesmo o seu amor por ela, nem um dos seus cortesãos se atreveria a magoá-la. Nenhum deles a torturaria, pelo menos pela frente, com as intrigas da Palmer, com os seus ilhos ilegítimos, ou as suas aventuras. Mas, sobretudo, sentia-se inundado pela felicidade que lhe provocavam sempre as boas acções. Ia ser o melhor dos maridos.

- Catarina, sinto que somos feitos um para o outro - exclamou, com o seu sentido dramático.

A pobre rainha quase desfaleceu de felicidade. Perdendo a vergonha, tirou de debaixo da almofada a pequena miniatura e, passando- -lhe suavemente o dedo pelas feições, disse-lhe:

- Charles, é preciso que um novo retratista o pinte. O rei é ainda mais belo do que neste quadro.

Charles sorriu. Eram tão ingénuas as palavras de Catarina, tão sinceras. Não criavam nele nenhum desejo de a possuir, de a arrebatar para a cama, mas antes de a proteger, como protegia a sua pequena Minette, a sua irmã mais nova, lá do outro lado do Canal, nas mãos do detestável Orleáns.

Catarina percebeu logo a sua mudança de humor, e fez perguntas. Charles deitou-se ao comprido na cama, a cabeça apoiada sobre um braço, e falou da irmã.

D. Maria, que do lado de fora continha o seu escândalo e impaciência -onde já se viu isto, juntos, no primeiro dia, a meio da tarde, sem uma dama ou alguém que assista a rainha -, não resistiu e empurrou a porta.

Ao ver o rei, vestido, as botas enlameadas em cima da colcha bordada pelas irmãs do Convento das Chagas, deu um grito, e as outras damas acudiram com sais.

Charles olhou para Catarina, e os dois desataram a rir numa mesma gargalhada.

 

Nan e Meg tinham estranhado os primeiros dias nesta casa tão fria. Tinham instruções claras para não se associarem demasiado às damas portuguesas, mas sinceramente, como dizia Nan a rir, não precisavam de avisos. Já em Lisboa, no tempo em que lá tinham vivido, se dizia que as damas da corte de D. Luísa eram escolhidas por ela, o que significava que a beatitude estava sempre à frente da beleza, não fossem desviar o marido e os ilhos do bom caminho. Mas as 15 damas inglesas, sob a supervisão de lady Suffolk, embora muito mais novas de idade, tinham quase todas transitado da Casa da Duquesa de York, e uniam-se como meninas de escola, desconfiando destas recém-chegadas.

- Ainda bem que nos temos uma à outra - murmurou Meg ao ouvido de Nan, quando se aconchegavam na cama comum que lhes fora atribuída.

- Graças a Deus. Acho que podemos sentir uma total empatia com a pobre da rainha, que deve estar tão perdida como nós. O pai deve ter contado com isto - murmurou Nan, que tinha di iculdade em adormecer sem que a mãe lhe aconchegasse os lençóis, mas não o podia confessar nesta camarata de raparigas que há muito pareciam ter cortado os laços com a família.

- Mas talvez venha a ser emocionante - entusiasmou-a Meg. - Há imensos homens bonitos, e tenho de confessar que estive distraída toda a missa a olhar para o irmão mais novo de lord Buckingham, que não é nada de se deitar fora.

- Estás louca - disse Nan, quase se sentando na cama, não fora a irmã a ter empurrado para debaixo dos cobertores...

- Louca estás tu, a gritar assim. Só estava a fazer um comentário, a ambientar-me, estas damas não falam de outra coisa senão dos bons casamentos que vão fazer, dos títulos que vão conquistar, pelos vistos é o objectivo de pertencer à Casa da Rainha.

- Não me oponho a que olhes para os rapazes, Meg, só que para o irmão de Buckingham é que nunca. Não ouviste nada do que o pai disse? Há dois partidos nesta história: os papistas, e os que detestam esta rainha e não a querem cá, os protestantes. Buckingham é um cínico, joga às cartas com o rei, elogia-o, mas está à espera da primeira oportunidade para envenenar a pobre dona Catarina. Amanhã, durante o casamento, olha mas é para o lord Balmoral, esse sim, ou mesmo para o marquês de Sande...

Meg bocejou de novo:

- Balmoral? Sande? Apanhaste sol de mais na cabeça, Nan, são mais velhos do que o pai!

Um «chiu» percorreu o dormitório. Lady Suffolk apagou as velas e, passando pela cama das irmãs Fanshawe, chegou-se mais perto e desejou-lhes um boa noite, numa voz suave. As irmãs pareciam merecer a sua confiança.

Great House, Portsmouth, 20 de Maio de 1662

 

harles acordou bem-disposto. O dia estava lindo, pela janela aberta

entrava o cheiro de frésias e glicínias que cresciam no jardim da casa mais imponente da vila. Chamou o criado, que lhe estendeu o roupão, e perguntou se a roupa estava pronta. E a cabeleira - Charles orgulhava-se de ter trazido com ele este costume francês, e ria de si mesmo quando se lembrava de que ordenara que todos usassem cabeleiras iguais às suas, ou seja, cabelos pretos, em cachos, abaixo dos ombros. Transformara um país de loiros num reino de morenos, contava, divertido, a quem o queria ouvir.

Casava dentro de uma hora, mas este era o seu casamento secreto, aquele que não podia atrair a atenção de ninguém, muito menos de Buckingham e daqueles que se sentiam ameaçados por uma rainha católica - pior ainda, de um rei enamorado por uma papista, que pudesse cair na tentação de, por amor, se deixar baptizar segundo o rito de Roma. Charles brincava com tudo, menos com a religião, dizia sempre o seu chanceler, porque sabia bem onde levavam essas guerras. Inglaterra já sofrera o su iciente com elas, e o rei queria um reinado de paz e sossego. Sem mais sangue a correr pela calçada.

Pouco lhe importava casar pela religião da sua mãe, aquela de que descon iava, ligeiramente assustado, a que o irmão e a cunhada já se tinham convertido. O que o preocupava, verdadeiramente, eram aqueles votos. «Juro ser-te iel, na saúde e na doença, até que a morte nos separe», eram palavras que lhe sairiam a custo. Mas Catarina merecia que as dissesse. E as cumprisse.

 

O oratório e um pequeno altar trazidos expressamente de Lisboa tinham sido montados nos aposentos da rainha, as portas vigiadas por guardas da con iança do duque de York. A lista de convidados incluía apenas a comitiva portuguesa, James e a mulher e lady Suffolk.

Catarina ainda tossia constantemente, e o nariz não parava de correr, mas estava tão excitada que nada a conseguiria reter na cama, e o Dr. António dera-lhe autorização de se levantar, desde que se agasalhasse bem:

- Doutor António, tenho de usar um vestido de noiva, não posso tapar-me com um cobertor, embora talvez o meu marido achasse a manta tecida e bordada pelas freiras mais bonita do que aquela roupa que as costureiras de Lisboa acharam convenientes para a ocasião.

António Ferreira ria, divertido. Quando estava bem-disposta e feliz, Catarina icava francamente encantadora. O seu corpo delicado e pequenino contrastava com os das damas inglesas, mas fora certamente a diferença e a sua elegância que tinham encantado Charles.

Confessara-se logo pela manhã. Pedira perdão pela impaciência, pela descon iança, pela intolerância, por ter julgado que Charles a evitava quando o pobre rei se limitava a cumprir as suas tarefas de soberano. Pedira perdão por ter julgado o marquês de Sande com demasiada acidez, por não ter escutado com tanta dedicação as palavras de D. Elvira. Queria casar com o coração limpo, mas o confessor acabou por pedir-lhe que parasse:

- Já me parece excesso, tanto pecado, numa rainha tão nova, dona Catarina. Julgue-se com mais brandura, que o pai do Céu é pai e faz o mesmo.

Catarina pediu ao padre que os casava que izesse uma pequena acção de graças por D. João IV, D. Luísa e os irmãos, os que já tinham partido e os que icavam, implorando-lhe que não se esquecesse de rezar por Portugal, e reforçar quão importante era o apoio que esta aliança lhe traria na luta contra Castela. Só para si rezaria por António Vieira e todos os outros que o irmão Afonso, finalmente no poder, perseguia agora.

Às nove horas em ponto, Charles entrou nos seus aposentos. Torceu o nariz, como um miúdo pequeno, ao cheiro de incenso que pai rava no ar e à quantidade de espectadores da cerimónia. O rei ainda perguntou a Sande se ficara algum clérigo em Portugal...

Havia apenas uma cara que a rainha não conhecia: a de um beneditino, de barba branca e ar sereno, já não muito novo, que comunicava por gestos com os frades portugueses.

- Quem é? - perguntou Catarina.

Charles sussurrou-lhe ao ouvido:

- O meu querido father Huddleston, o padre que me salvou a vida, escondendo-me por trás do alçapão secreto da sua igreja, depois da batalha que perdi contra Cromwell.

Catarina fez questão em ser apresentada: um padre católico, que ainda por cima salvara a vida ao seu marido, era um aliado para a vida. Fazendo uma pequena cortesia, dobrou o joelho e beijou-lhe a mão. Charles e o padre trocaram um olhar comovido. Não era todos os dias que se encontrava uma rainha assim.

Quando trocaram votos, Catarina não conteve um profundo suspiro. Acontecera, acontecera de verdade, como naquelas noites em que sonhava acordada ou fazia planos com Joana ao lado. Joana, poderia ser ela, a primogénita, no seu lugar, de joelho sobre o prie-Dieu coberto com uma maravilhosa colcha de Viana do Castelo, a jurar amar e servir Charles.

Quando a cerimónia terminou beijaram-se na cara, e Catarina sentiu, pela primeira vez, a pele de Charles junto da sua. As mãos não se largavam, e almoçaram os dois na varanda que dava para o mar. Catarina escreveu uma nota rápida à mãe. Tinha de lhe contar que o seu projecto se realizara.

O que não lhe podia confessar é que estava ansiosa pela cerimónia de amanhã, pelo casamento o icial. Envergonhava-se por desejar pompa e circunstância, um vestido de noiva a sério, Charles engalanado e de coroa na cabeça, os guardas em todas as portas com aquelas fardas encarnadas imponentes, os convidados a encherem a sala, mas seria pecado querer tudo isto? A sua fé dizia-lhe que só o casamento católico contava, este que acontecera há escassas horas no segredo dos seus aposentos, mas seria blasfémia sonhar com o outro, aquele que antecederia a primeira noite com Charles? Estremeceu com o pensamento, um misto de ansiedade e medo, como seria entregar o seu corpo a um homem, àquele homem?, mas obrigou-se disciplinadamente a afastar estes pensamentos e a olhar para o papel que tinha à frente. Suspirando fundo escreveu, já mais sóbria:

Mãe do meu coração,

Sou tão feliz como nunca fui. Se ao menos estivessem cá todos. Que Deus me dê a bênção de muitos dias assim.

Mas Luísa sabia, sabia-o desde que o sonho lhe enchera de horror as horas do parto, sabia que Catarina teria de pagar caro todos os dias de felicidade, que só o seu engenho e arte seriam capazes de retirar alegria do futuro que Deus lhe reservava. Felizmente, guardara sempre o segredo.

St. Thomas, Portsmouth, 21 de Maio de 1662

 

an entrou cedo no quarto. Puxou para trás o reposteiro da cama

da rainha e sussurrou o seu nome em português, um português com sotaque, mas suave e convidativo. Catarina abriu os olhos, encantada, e deparou com os olhos verdes da mais velha Fanshawe, sorrindo-lhe abertamente.

Nan fez-lhe um gesto que indicava um pedido de que falasse baixinho, que justificou:

- Lá fora as suas senhoras discutem o que vai vestir, e fazem horas para entrar no seu quarto, mas decidi vir primeiro, às escondidas, acordá-la, para lhe dar esta fitinha azul, tem de a prender na liga da perna.

Catarina rebolou nas almofadas, rindo:

- E que mais devo fazer, lady Nan?

- Tem de usar qualquer coisa nova, qualquer coisa velha, e qualquer coisa azul.

- A velha é fácil: a minha mãe pediu-me que escondesse no meu regaço o lencinho bordado que ela própria usou quando casou com o meu pai.

Os olhos de Nan brilharam:

- Que romântico!

- Novo? - ponderava Catarina, mas Nan não a deixou continuar:

- Não pense em nada de novo, porque já a tem, foi o rei que se encarregou de cumprir essa parte. Posso mostrar-lhe, não diz a ninguém, faz depois um ar de espanto quando lady Suffolk lho revelar, como se fosse a primeira vez que o visse, promete, promete, senão despedem-me?

Catarina já ria às gargalhadas.

- Calma, lady Nan. Mas encheu-me de curiosidade, mostre, que depois faço o teatro todo, não traio a sua confiança, prometo.

Nan pediu-lhe que fechasse os olhos.

- Sua Majestade, não vale abrir os olhos até que eu lhe diga que pode, está bem?

Catarina jurou, e Nan correu a abrir o reposteiro do fundo da cama de dossel.

- Olhe, olhe agora, Sua Majestade.

A rainha olhou, e deu um grito de alegria.

Sobre um manequim com as formas de mulher, com as suas exactas formas para ser precisa, descansava um vestido branco, debruado a pérolas, o decote em barco deixando ver os ombros, e coberto de pequeninos laços azuis, que lhe davam um ar delicado e único.

- É para mim ? - exclamou Catarina, que logo depois deixou que o sobrolho se franzisse e uma sombra cobrisse o rosto.

Nan assustou-se:

- Não gostou do presente do rei, Sua Majestade?

Margaret entrara suavemente no quarto, mantendo-se silenciosa por detrás do reposteiro da porta, com medo de estragar a magia que se criava entre a irmã e a rainha, mas naquele momento não resistiu, e entrou determinada no quarto.

Catarina sobressaltou-se ao vê-la, mas não teve tempo de protestar, porque a mais nova das Fanshawe, com o cabelo numa trança entrelaçada de pérolas e uma tiara de diamantes a impedir que a franja lhe caísse para os olhos, interveio, decidida:

- Permita-me, Sua Majestade, que lhe diga que não pode deixar que as questiúnculas das quadrilheiras que a rodeiam lhe estraguem o dia do seu casamento. É um momento único, que nunca mais se vai repetir - insistia, desesperada -, e não é um grupo de mulheres bem-intencionadas, mas já idosas, que podem ditar como vai vestida a sua rainha, muito menos quando o vestido de noiva é pensado e oferecido pelo próprio noivo.

Virando-se para Nan, acrescentou:

- Sabemos bem que poucos homens teriam o gosto ou a delicadeza de se preocuparem com pormenores que considerariam apenas de mulheres.

Catarina sentia o mesmo. Nunca o pai, Afonso ou Pedro, nem mesmo Teodósio, se haviam preocupado ou envolvido no guarda -fatos da rainha ou das infantas - Charles mostrava carinho, interesse, e, Catarina sabia-o, queria impedir a rainha de o envergonhar com uma moda que não se usava na corte inglesa. Protegendo-se a ele, protegia-a também a ela, que assim dava menos um motivo à língua viperina da corte.

- Margaret, o que lhe falta em anos tem em sabedoria. Nan, obrigada por este acordar tão suave. Acreditem que fez toda a diferença começar este longo dia assim, mas agora desapareçam depressa, desapareçam já, antes que dê ideia de que me ditaram a opinião. - Com um gesto da mão, pediu a Nan que corresse as cortinas em redor da cama e deu-lhes uns minutos para escaparem, antes de tocar a sineta que chamava as criadas.

A rainha dissera-o de forma determinada: o vestido de noiva seria aquele e mais nenhum. D. Elvira, mazinha, ainda tentara explicar-lhe que a escolha do vestido não era certamente a escolha do rei, mas de uma das suas damas favoritas - frisando bem o «favoritas» -, mas aí D. Maria protestou imediatamente, e lady Suffolk aliou-se a ela, dizendo-lhe que o bom gosto de Sua Majestade era conhecido, e que lhe bastavam os conselhos das costureiras da corte, que faziam os vestidos para a cunhada e para todas as senhoras importantes.

No momento em que se olhou ao espelho e viu os ombros descobertos e a sua cintura realçada, Catarina mordeu o lábio. Seria vaidade considerar-se bonita? Nan, parecendo ler-lhe os pensamentos, sussurrou-lhe ao ouvido, a pretexto de lhe fixar os brincos nas orelhas:

- Está linda. Acredite e deixe que os seus olhos brilhem.

Catarina sorriu-lhe. Não tinha sido educada a valorizar o corpo, e mesmo manter o olhar na sua imagem re lectida provocava-lhe um sentimento de culpa, o que fazia ela a adorar-se a si mesma? Mas o encorajamento de Nan dizia-lhe outra coisa, dizia-lhe que aqueles ombros despidos, aquele corte que realçava a sua igura, o corte do seu decote, podiam torná-la mais desejável aos olhos do homem que era seu marido. E agradar ao marido certamente não era falha de carácter.

Quando pouco depois atravessou a sala pelo braço do marquês de Sande e constatou o olhar de genuína admiração de Charles sentiu que a sua intuição não a enganara. O rei esperava-a junto do altar, na pequena capela de St.Thomas Becket, um santo que já entrara para o seu missal. Olhou-a, podia jurar que sim, com sincera admiração, como se Catarina fosse uma agradável surpresa, e estendeu-lhe a mão mal a viu chegar próximo de si. Tinha umas mãos enormes, que cobriam completamente as suas e eram tão confortáveis e protectoras que a rainha sentiu uma vertigem: se pudessem ficar sempre assim!

No altar, virados para a assistência, estavam dois tronos imponentes sob um dossel. Charles conduziu-a até lá, e Catarina sentiu, pela primeira vez, o que era ser rainha de Inglaterra. A aparente ausência de protocolo no dia-a-dia era compensada por um rigor imenso em todos os gestos, no pormenor dos uniformes da guarda do rei, nas vestes dos bispos, em todos os passos de uma longa cerimónia.

Percebia naquele momento, de forma clara, que não estava habituada ou preparada para enfrentar o olhar directo nem dos senhores, nem das multidões, os primeiros sentados em bancos corridos antes de um cordão dourado que os separava do povo que acorrera para assistir a tudo. O bispo de Londres, deão da capela real, com os seus paramentos de festa, presidia à celebração e foram as suas palavras que selaram as promessas feitas, as dela apenas com um aceno da cabeça, porque não se atrevia a dizer uma palavra no seu inglês ainda tão primário, logo em frente de tanta gente. Também pouco lhe importava, porque os votos verdadeiros fizera-os ontem, na sua língua, no coração dos seus aposentos, no casamento secreto, que ninguém podia conhecer mas que era o único que considerava válido.

Os seus olhos iam procurando um porto seguro nos do marquês de Sande, de Richard Fanshawe, e, mais distantes, nos de D. Maria, Nan e Margaret. Neste momento percebia que era em qualquer um deles, e apenas neles, que entregava o seu destino. A cunhada sorria-lhe sempre que a apanhava a olhar para si, e James, próximo do irmão, tinha sempre uma palavra simpática, ou uma mão que se estendia para a impedir de tropeçar, que a confortava. Tinha pena de que a rainha-mãe não tivesse vindo de França, mas a sogra prometia visitá-la em breve, e Charles lamentava-se amargamente pela ausência da sua querida Minette, que depressa Catarina percebeu, com alguma amargura, ser a única verdadeira con idente que ele tinha. Mas talvez com o tempo o rei aprendesse a con iar nela, era cedo, muito cedo ainda, como lhe dizia Russel nas suas aulas de inglês, que eram muito mais do que isso.

Subitamente, percebeu que Edward Montagu estava encostado a uma coluna, meio escondido, e teve a impressão de que os seus olhos estavam tão encarnados como o seu cabelo, como se tivesse estado a chorar. Tentou ver melhor, mas o estribeiro-mor escondeu-se mais um pouco, como se tivesse medo de denunciar alguma coisa. Praticamente não o vira desde que desembarcara, depois daquela conversa em que ele lhe prometera que convenceria o rei a comprar-lhe o mais bonito dos cavalos, e que seria ele próprio a mostrar-lhe o campo inglês, sempre tão verde, e nesta altura, os seus jardins sem igual. Mas tudo isso fora antes de Catarina conhecer o rei...

Nan e Margaret estavam junto dela, e diziam-lhe para arrancar os pequenos laços azuis do vestido e oferecê-los aos convidados mais importantes. Lady Suffolk aprovava com a cabeça. Catarina, exausta e ainda de nariz a pingar, só queria que aquele longo almoço no Great Hall terminasse. E agora, quando julgava poder escapar pela porta, passar a primeira noite com Charles, diziam-lhe que era preciso distribuir presentes a desconhecidos? Bocados do seu próprio vestido, como se de alguma maneira se desnudasse perante eles e lhes desse parte de si - do vestido lindo, que Charles lhe oferecera?

Nan e Meg, no entanto, começaram elas próprias a descoser os lacinhos que pelos vistos estavam preparados para este cerimonial, porque saíam com toda a facilidade. Com Charles sorridente ao seu lado, Catarina foi-os entregando às pessoas para quem o rei discretamente apontava.

Nan murmurou-lhe ao ouvido, a pretexto de lhe prender a ita de pérolas que lhe entrelaçava uma das suas grossas tranças:

- Sua Alteza está feliz com a rainha, veja como trabalham bem em equipa.

Catarina agradeceu-lhe o comentário, que lhe deu um novo ânimo. Entregou os laços que restavam, com o seu melhor sorriso, e o brilho nos olhos dizia tudo o que o seu inglês não era capaz de traduzir. As senhoras que recebiam a dádiva dobravam ligeiramente o joelho, e Catarina icou convencida de que seriam leais.

Na concha da mão guardou três, quase como se fosse uma criança a esconder chocolates para não a obrigarem a dá-los a outros: um enviaria à mãe, o outro a frei Pedro, e o terceiro a Carminho, a ama que mais vezes a tivera nos braços.

Charles era diferente de todos os homens que conhecera. Mesmo contando Teodósio, frei Pedro e António Vieira, que já eram excepções à legião de elementos do sexo masculino que povoava o Mundo. Charles alternava entre a pompa e o assumir de todo o seu estatuto real - que se traduziam na forma como dava ordens e exigia obediência a quem o rodeava - e a absoluta simplicidade, como se fosse um camponês. Nesse mesmo dia, mandando às urtigas os protocolos, insistiu que ele e a mulher jantariam sozinhos, nos aposentos da rainha, que precisava muito de descansar para recuperar de todas as emoções e se recompor da constipação que nitidamente ainda não a tinha abandonado.

Catarina não queria acreditar: sozinha com Charles, numa mesa elegantemente colocada na sua salinha privada, a lareira acesa apesar de já correr o mês de Maio, as velas acesas sobre a mesa, entre as tochas iluminadas em todos os quatro cantos da sala.

Não era di ícil icar à vontade com o rei, que fazia a despesa da maioria da conversa, e contava histórias fascinantes de quando fugira pelos campos, disfarçado de lavrador, ou como atravessara o Canal para fugir aos homens de Cromwell, tudo sempre tingido de tiradas divertidas e de um humor cáustico e irreverente que a rainha nunca escutara antes. Mas Charles estava a ser cauteloso, muito mais cauteloso do que era seu hábito, no relato das suas aventuras, que habitualmente vinham apimentadas de conquistas amorosas e noites inesquecíveis de copos e bordéis. O Charles que Catarina conhecia era o melhor de Charles que havia para conhecer.

Quando, segurando-lhe na mão, a levou para a cama e puxou os reposteiros em seu redor, como se fosse uma tenda onde acampassem os dois, como dizia a rir, Catarina já não tinha medo. O vinho tinto quente com que Carlos lhe enchera constantemente o copo explicava em parte esta sensação de que a vergonha não fazia qualquer sentido, que o prazer era desejado e merecido, que eram, afinal, marido e mulher, que se uniam, duplamente abençoados por Deus, pelo dela, e pelo dele, como dizia o rei sorrindo, enquanto lhe desapertava mais um colchete do vestido.

Catarina esqueceu o mundo. Esqueceu o sobrolho franzido de D. Elvira e de D. Maria, esqueceu a ira das suas damas que não tinham sido convidadas a preparar a rainha para a sua noite de núpcias, esqueceu-se de como temera aquele ritual de se deitarem perante a vista de toda a corte, e pensou só em Charles. No corpo musculado e forte do homem que, como nos seus sonhos mais proibidos, a tomava como sua. Finalmente.

Com uma gentileza extrema, de alguém que conhecia bem o corpo de uma mulher, e já não tinha a pressa de um jovem, nem sentia a insegurança de uma primeira vez, Charles conduziu a dança da forma mais sensual e gentil imaginável. Sentia uma satisfação imensa, mais do que um prazer sensual, de despertar numa rapariga virgem a cons ciência do próprio corpo e de todas as sensações que este lhe poderia dar. Catarina gemeu de prazer, mesmo apesar de todas as amigas lhe terem dito que ninguém tem prazer na primeira noite, gemeu sem vergonha, seguindo o seu instinto, e seguindo-o bem, pensou Charles, feliz por descobrir que a mulher respondia ao seu toque e se deixava despertar por ele. Mais ainda, que aprendia a retribuí-lo.

A noite foi longa, e Catarina adormeceu, absolutamente feliz, o corpo encostado ao do homem por quem esperava desde sempre. Charles icou mais tempo acordado, os olhos no tecto do dossel: a rainha merecia o melhor dos maridos. Iria sê-lo, não teria coragem de lhe quebrar o coração, teria de ir ao encontro das suas expectativas, superá-las até, porque ela merecia tudo isso e muito mais. As promessas que fazia em catadupa a si mesmo deixavam-no cada vez mais angustiado - o peso de tudo aquilo que teria e deveria ser, daquilo que queria ser, causava-lhe sempre esta inexplicável ansiedade. Porquê, mas porquê lhe custava tanto dar garantias, traçar um rumo? Zangado consigo mesmo, empurrou o corpo leve como uma pena da mulher para o lado, rodeou-a de almofadas, como se fosse um passarinho num ninho, e saltou da cama. Vestiu-se à pressa e saiu do quarto num passo largo, os guardas iam abrindo e fechando as portas à medida que se dirigia para os seus próprios aposentos.

Na sala ao lado ouviu gargalhadas e risos de mulheres alcoolizadas. Estacou. Mas só por alguns segundos. Depois a mão estendeu-se para a fechadura e abriu a porta.

Buckingham, Balmoral e todos os seus amigos olharam-no, preocupados. Vinha repreendê-los ou juntar-se a eles? As dúvidas dissiparam-se depressa, quando o rei se sentou a uma mesa de cartas e pediu o baralho...

 

Nan e Meg tiveram vontade de chorar quando perceberam tudo. A meio da noite foram acordadas pelo barulho de três das damas de honor, mais velhas e mais batidas, que regressavam ao quarto, entre gargalhadas e pedidos de silêncio mútuos, os vapores a álcool inundando o quarto. Acenderam-se velas, e as irmãs ouviram a voz zangada de lady Suffolk, que pelos vistos não adormecera até as ouvir regressar. Dizia-lhes que eram indignas do posto que ocupavam, onde a virtude era uma exigência e não uma opção, puxava-lhes as orelhas em sentido figurado e real.

Mas as damas estavam demasiado excitadas e fora de si para se lembrarem do seu lugar ou das virtudes do silêncio. Helen, a mais detestável de todas elas, atreveu-se a responder torto:

- Pois vá pedir satisfações ao rei, que foi ele que nos reteve até estas horas - disse entre risinhos parvos.

As duas amigas, menos seguras, baixaram os olhos. Sabiam bem que, por muito chocada que lady Suffolk icasse com Sua Majestade, nunca, por nada deste mundo, daria parte de fraca ou se mostraria intimidada.

- Pouco me importa com quem estiveram. Amanhã icam todo o dia fechadas no quarto. E agora que se livrem de fazer um barulhinho que seja, ou acender uma vela, com o vosso bafo ainda pegavam fogo à casa -disse batendo com a porta.

Um riso geral percorreu as camas onde ingiam dormir as damas mais jovens da Casa da Rainha. Nan sentiu as lágrimas saltarem-lhe: pobre rainha, ser abandonada assim na primeira noite de casada. Margaret, pelo contrário, rosnou zangada - Estes homens são todos iguais, com coroa ou sem coroa na cabeça.

 

Antes mesmo de abrir os olhos, Catarina já o sabia. Sabia, sem sombra de dúvida, que Charles já não estava naquela cama. Cerrou os olhos ainda com mais força, na certeza de que não queria acordar. Preferia mil vezes reviver dentro de si as emoções que tinha vivido pela primeira vez do que pensar. Charles não estava ao seu lado, e então? Estivera, e talvez o protocolo ordenasse que tudo se passasse assim, que o marido se ausentasse do leito antes de a rainha acordar, ninguém lhe explicara essas coisas. A quem podia perguntar? Apenas a Charles, pensou subitamente satisfeita. Conhecia-o apenas há uns dias, mas tinha a certeza de que era a única pessoa que lhe responderia sem rodeios, com aquela forma ligeira e despreocupada que tinha de falar dos temas mais delicados. Religião, costumes nupciais, qual a melhor forma de servir um vinho - sabia que qualquer que fosse a pergunta obteria uma resposta. Assustava-a um pouco este seu desprendimento, como se nada o pudesse tocar por dentro, mas era simultaneamente uma lufada de ar fresco.

Porquê duvidar já das suas próprias capacidades como mulher? Charles icara feliz, tinha a certeza disso. Satisfeito? Não sabia o su iciente para o dizer, mas acreditava com fervor que esta fora apenas a primeira de muitas e muitas noites.

Permitiu-se abrir os olhos e deixar entrar a luz. Se Charles não vinha ao seu encontro, iria ela ao encontro dele... Decidida, puxou o cordão da sineta e as criadas entraram como se estivessem atrás da porta, à espera do toque.

As lores que Nan e Meg lhe trouxeram, momentos depois, devolveram-lhe o sorriso. Tinha sido o rei a mandá-las?, perguntou, e sem ouvir a resposta quis acreditar que sim. Pouco depois chegara Charles, não izera um único comentário sobre o seu desaparecimento, mas dera-lhe animadamente o braço e levara-a a visitar uns estaleiros navais.

Desde aí os preparativos para a lua-de-mel aceleraram: era preciso providenciar transporte para toda aquela gente, e para a in inita bagagem pessoal da comitiva, enquanto Charles encarregava a sua guarda de vigiar o esvaziamento dos porões, a venda das especiarias e do açúcar. Era preciso transformar tudo em dinheiro líquido e colocá-lo nos cofres do Estado, e nos do rei, estando o conde de Sandwich encarregado de con irmar que uma dízima de tudo aquilo ia directamente para o bolso do rei. «Sandwich, acautele-se porque a bolsa não está vazia, está furada», exclamara Charles, deixando claro que os credores se atirariam a ele caso houvesse notícia de que alguma parte do dote, por ín ima que fosse, lhe tivesse ido parar às mãos.

Edward Montagu tornara-se, de novo, companhia constante. Era ele que tratava dos coches, dos cavalos, do transporte de tudo para Hampton Court. Charles e James tinham icado estarrecidos quando fora necessário encontrar duas carruagens extra, apenas para o transporte dos guarda-infantes. Catarina, olhando agora para a longa fila de coches e caleches que seguiam atrás da sua, não conseguia deixar de rir, ao recordar a di iculdade que tivera em explicar o que eram exactamente aquelas armaduras.

Russel estivera quase a desfazer-se em gargalhadas, e Fanshawe saíra mesmo do quarto não fosse desmanchar-se a rir, enquanto Charles perguntava:

- Porque querem as vossas senhoras usar essas armações de ferro em redor da cintura? - enquanto lord Buckingham, que Catarina aprendia a detestar a cada dia, se atrevia a pegar num dos «saiotes», examinando-o, trocista. Quando explicou que os guarda-infantes eram a forma encontrada para proteger as damas da corte de algum encontro sexual, que se tornaria impossível mesmo se as ditas senhoras decidissem colaborar na operação, o rei e os amigos não conseguiram esconder o gáudio. Os comentários brejeiros sucederam-se, e Catarina pela primeira vez agradeceu o facto de não entender nada do que se dizia, mas Charles não resistiu a tranquilizá-la, em castelhano:

- Minha adorada esposa, pode sossegar as suas damas. Os ingleses libertam-nas da necessidade do uso destes trajes arcaicos, não há um de entre nós capaz de violar ninguém na sua comitiva!

Todos desataram de novo a rir, desaparecendo pela porta, deixando-a completamente desconcertada.

Recordava-se de como Montagu se mantinha atento, e Catarina pressentiu que os seus olhos claros fulminavam até o rei, e preferiu virar a cara. Não queria que o seu querido amigo a visse embaraçada, e não podia aceitar que criticasse o soberano. O seu man of the horse, como agora insistia em ser chamado, cargo mais do que prestigiado nesta corte, rapidamente recuperou a compostura:

- Não se incomode, Majestade, colocamos os guarda-infantes em duas carroças, que demorarão apenas um pouco mais de tempo a chegar.

Montagu parecia ser o único «deles» que faria tudo para não ferir a rainha.

A caminho de Hampton Court, 4 de Junho de 1662

 

atarina não tirava os olhos da estrada. De mão dada com Charles,

num coche aberto com dossel e franjas bordadas, devorava a paisagem, palácios de mil chaminés, casas pequenas de tecto de colmo como nunca vira antes, as árvores que pareciam chegar ao céu, os campos tão verdes -quando os seus, de Vila Viçosa, por esta altura estariam amarelos, com a espiga ao vento -, as crianças ao colo das mães, de pele clara, sardas e olhos azuis, e que acenavam como se aquele momento também se inscrevesse para sempre nos diários das suas vidas. «Quando Catarina de Bragança, a rainha portuguesa, chegou a Inglaterra, passou aqui à porta de casa, e nós fomos cumprimentá-la», diriam, um dia mais tarde, aos filhos já crescidos.

Charles estava lindo. Insistira em usar o traje de gala da Ordem do Garter, da Jarreteira como se dizia no paço, e de que D. João 1 tinha sido o primeiro membro estrangeiro, contava-lhe ele, lembrando-lhe o Tratado de Windsor, e a aliança tão antiga que unia os dois países. O chapéu azul, com penas brancas de avestruz, sobre os seus cabelos negros, a capa de veludo azul, não deixavam dúvida de que ali ia o rei, e Catarina experimentava o orgulho de ver como o povo respondia ao seu aceno, como gritava o nome de ambos, com entusiasmo e alegria. De cabeça destapada, os cabelos escuros e brilhantes, as maçãs do rosto encarnadas de satisfação, Catarina, num vestido leve de Primavera, ficava na retina de quem a via passar.

 

Pegou várias vezes na caneta para descrever Hampton Court à mãe, mas acabava sempre por rasgar o papel e deitá-lo fora. Olhava para fora da janela e começava de novo.

O castelo de tijolo encarnado erguia-se no meio de campos verdes, imponente e simultaneamente acolhedor. O portão verde de ferro abria para um jardim de entrada imenso, os buxos ladeando os canteiros cheios de amores-perfeitos, e passado o arco da entrada principal sucedia-se um pátio, depois um novo arco, a seguir um outro pátio, e inalmente um terceiro arco, e um terceiro pátio, este, um claustro, como os portugueses, contava. Falava-lhe das chaminés ininhas em todos os telhados, e tantas, do relógio astronómico, e de como o seu toque das horas era suave, das escadas e das escadinhas, dos corredores imensos. Nunca estivera num lugar tão grande, comentava. Nunca vira tanta gente junta, os criados alinhados, no dia da sua chegada, os nobres em carruagens que provocavam um engarrafamento...

Depois contava mais, como os seus aposentos lhe davam uma sensação de opulência que nunca antes sentira. Deveria ser pecado, confessava à mãe, mas sabia-lhe tão bem olhar em redor e contemplar o quarto, a que acrescentara tudo o que trouxera de Portugal. O oratório, a imagem da sua Senhora das Candeias, pousada numa magní ica cómoda de pau-santo, e, surpresa das surpresas, uma cama de dossel em veludo verde, com penas de avestruz, uma obra exótica, mas que o rei mandara fazer pessoalmente para ela.

Subitamente parou de escrever e olhou em seu redor, para as colchas bordadas, e sobre o toucador as escovas de cabelo em ouro e o espelho de louça, com anjinhos em alto-relevo. No canto a sua cadeirinha alentejana, da qual se recusara separar, as lores brancas sobre o fundo encarnado, repositório de tantas e tantas memórias, e a arca, com embutidos chineses, onde guardava os seus bens mais preciosos, as jóias - as poucas com que

icara, porque as outras faziam parte do dote e estariam a esta hora numa

casa de penhores -, e as cartas da mãe e de Charles, a que se iam juntando as de António Vieira, agora tão só e desterrado, de Afonso e de Pedro. Maria do Carmo e Maria do Rosário escreviam apressadas notas nas missivas de D. Leonor, na última das quais anunciando que se iriam mudar para a corte do Palácio Corte Real, ou seja, do infante D. Pedro, onde intensi icariam a sua busca de marido, porque não queriam icar atrás de Catarina. Frei Pedro escrevera apenas uma vez, uma carta curta e que lhe apertava o coração: sentia que o deixara perdido, mas tinha esperanças de que voltasse a Vila Viçosa e entre as laranjeiras do jardim reencontrasse a paz.

Descreveu ainda o quarto, sabia que a mãe desejaria todos esses pormenores, a pequena balaustrada que separava a cama e o seu espaço mais íntimo do resto, onde cadeiras confortáveis, quase camas, eram abrigo para damas que insistiam em icar com ela até que adormecesse, ou simplesmente à conversa. Depois despediu-se, e icou a olhar para o «Catarina R», que tanto orgulho tinha em escrever.

Sorriu timidamente. O que não contava, porque os queria guardar só para si, eram os momentos que passava com Charles, os beijos que recebia, e dava, as mãos que se entrelaçavam por baixo de todas as mesas. Do que se passava na cama não falou - nunca falaria, nem sequer ao seu confessor, mas a verdade é que à medida que os dias passavam as visitas eram menos frequentes. Charles pedia-lhe desculpa, mas explicava que a noite no poker ou o serão de cantorias haviam sido mais longos, e que talvez por força do álcool encontrara com dificuldade o caminho para a cama, e, rindo, comentava que no estado em que estava também não lhe teria sido muito útil.

Mas Catarina pedia conselhos: deveria, ou não, frequentar aqueles serões que lhe pareciam tão estouvados, e onde depressa era esquecida, deixada ao canto, rodeada apenas de uma ou duas damas mais delicadas, que punham a felicidade dela à frente do desejo de agradar ao rei com umas piruetas ou, apenas, lisonjeando-o com as suas gargalhadas.

Catarina não dizia, nem sonhava dizer, que o marido namoriscava descaradamente com todas as mulheres. Ainda na véspera prendera o braço de Meg, com os seus inocentes 15 anos, e a puxara para si, para lhe beijar jocosamente uma face, apertando-lhe a outra num beliscão. Catarina sentira o sangue fugir-lhe da cabeça, e fechara os olhos com uma tontura: não podia acusar Margaret de absolutamente nada, era uma vítima do descaramento do rei. Nan fora a vítima da noite seguinte, quando, após ter perdido ao gamão, Charles a chamou para dançar, acabando por a sentar ao seu lado:

- Vou ler o futuro na palma da sua mão - dissera.

Nan, extrovertida e bem-disposta, estendera a mão aberta, e ouvira a voz profunda e irresistível do rei a descrever-lhe um futuro brilhante, de que ele nunca estaria longe. Catarina, que ingia conversar com a cunhada, ia percebendo o embaraço crescente da sua dama, e icou certa de que não se enganava quando Nan puxou bruscamente a cadeira para trás, fazendo-a cair com um estrondo, e se afastou num passo demasiado rápido. Tão rápido que metade dos cortesãos pararam o que estavam a fazer, e um riso trocista percorreu a sala de lés a lés.

Continuar: parte 3 de 4