Catarina de Bragança
Portsmouth, 14 de Maio de 1662
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Mordia o lábio quando pensava nisso: sabia que contribuíra para atirar o rei para os braços da Palmer e dos seus inimigos, e, segundo lhe diziam, para os de muitas outras mulheres também, mas era mais forte do que ela. Sentir-se-ia suja e indigna se pactuasse com este negócio só para conseguir a atenção do rei, ou privilégios que lhe pudesse dar. Inspirava-se em Catarina de Aragão e dispunha-se, como ela, a resistir passivamente, mas sempre, todos os dias, e a Senhora das Candeias sabia-o bem, implorava que Deus fosse misericordioso e encontrasse forma de a voltar a reunir ao homem que tanto amava.
Ouvira as damas a falar desse amor, e as irmãs Fanshawe tinham sido capazes de a fazer sorrir: Nan, sempre tão apaixonada, ora jurava que mataria o homem que a tratasse como o rei tratava Catarina, como argumentava que, en im, talvez cedendo não se perdesse tudo, e que de facto o charme do rei era incontornável. Margaret queria tratá-lo a ferro e fogo, com a determinação que punha em tudo na vida, e homens era o que não faltava por esse Mundo. Catarina sorria com o facto de a dama se esquecer que rei de Inglaterra havia só um. O problema era exactamente esse. Problema agravado, pensava, porque era também exactamente e apenas esse que ela desejava.
As notícias de Portugal serviam para a distrair, mas não para a animar. O castelo de cartas parecia ter-se desmoronado com a sua saída do reino, como se fosse, de alguma maneira, o seu imenso afecto por Afonso e Pedro que os tivesse impedido de se digladiarem como agora faziam.
A carta que recebera da mãe, datada de 26 de julho, dava conta de que nesse mesmo dia Afonso assumira o poder, nomeando Luís de Vasconcelos e Sousa, conde de Castelo Melhor, seu primeiro-ministro, escrivão da Puridade, como lhe chamara. Um golpe de Estado que terminara com a regência da sua mãe e mudara o centro de decisão para a Quinta de Alcântara - aquela de que o pai tanto gostava, e de que por isso mesmo Afonso fazia o seu quartel-general. Com a ajuda de Inglaterra, contava D. Luísa, fora possível derrotar os castelhanos, e o reino estava em paz... com Espanha, frisava a mãe, já que todos os nobres ligados ao seu Governo e à Casa do Infantado de D. Pedro tinham sido sistematicamente afastados. A mãe mencionava nome atrás de nome, entre eles o duque de Cadaval, e, mais grave ainda, o seu querido padre António Vieira, enviado para o Porto, recebendo a Inquisição carta branca para o questionar. Livre da protecção de Luísa de Gusmão, o antigo pregador do Reino passava um mau bocado - Catarina escrevera-lhe desesperada, esperando que na contenção das palavras que a rainha de Inglaterra tinha de ter Vieira percebesse a sua amizade e solidariedade. Preocupava-a, sobretudo, a mãe. Dizia que não se importara nada de deixar o governo do reino, que
inalmente tinha tempo para si, mas Catarina sabia que era impossível que
estivesse feliz - durante demasiados anos estivera ocupada de manhã à noite com os assuntos do Estado, e nem sequer tinha uma ilha em casa, ou netos, para lhe fazerem companhia. Anunciava que iria começar as obras de um convento onde tencionava passar o resto dos seus dias, talvez a organização da tarefa, o adjudicar dos projectos lhe trouxessem alguma ocupação. Mas Catarina conhecia-a, e sabia que não seria capaz de deixar de seguir atentamente a política, de se angustiar de cada vez que Afonso errasse, de se envolver nas ambições de D. Pedro e da sua gente.
Comovera-se com a carta que recebera do irmão, agora assumido rei português. Parecia entusiasmado, agradecia a cooperação do cunhado inglês, confessava-lhe:
«Tomei o poder que era meu, e sinto-me bem assim. Catarina, irmã que jurei proteger, nunca deixes que te ponham o pé em cima. Cedemos por gentileza, para fugir a conflitos, mas depois nunca mais conseguimos livrar-nos do jugo.»
Dar-lhe-ia razão se lhe contasse que no segundo mês de casada deixara de falar e ser visitada pelo seu marido o rei, por uma questão de orgulho? De dignidade, gostava mais de pensar, que era de princípios e de dignidade que tudo isto se tratava. Respirou fundo. Talvez a sorte mudasse
inalmente para Afonso, mesmo que o destino da sua irmã, aqui tão longe,
não parecesse promissor. Tinha esperanças de que Castelo Melhor fosse capaz de orientar Afonso, de lhe dar a segurança de que precisava para revelar as suas capacidades. Livre dos Conti, puxado para um círculo mais erudito e elevado, era provável que se interessasse pelos destinos do reino, e as boas ocupações lhe tirassem o tempo e o empenho nas más. Pedro dizia-lhe, inclusivamente, que os embaixadores tratavam de lhe encontrar uma mulher entre as princesas europeias, tomara que fosse carinhosa e sensata e pudesse desfazer os males que tanto o faziam sofrer.
Se ao menos pudesse falar com Charles sobre tudo isto, talvez ele tivesse uma ideia, uma sugestão, talvez a aconchegasse nos braços e afastasse esta ansiedade que não a deixava. Mas não podia. Pior do que isso, sabia que o marido estava determinado a fazer cumprir as suas instruções, e que à excepção de D. Maria, de que sempre gostara, quase todos os outros teriam de partir: dia após dia deixavam Hampton Court os membros da sua comitiva, mandados regressar a Lisboa. Partiam, a maioria deles, felizes por deixar para trás uma corte que os ofendia. Mas Charles queria lá saber se iam felizes ou infelizes, o seu objectivo era deixá-la isolada, pensava, amargurada. Catarina rezava que estes tivessem a hombridade de não contar à mãe a sua cena com Barbara Palmer, esperança vã, estava certa.
Catarina procurava reagir, porque sabia que a melancolia não a levaria a lado nenhum, e ainda não tinha desistido, embora não soubesse como, de reconquistar o marido.
Sentada num dos bancos de madeira das janelas, aqueles que em Portugal eram sempre de pedra, pensou, virou a cabeça para o lado da sala de onde vinham risinhos divertidos. Meg estava sentada a uma mesa de jogo, com Nan e uma das damas mais novas à sua volta, tão excitadas que pareciam meninas a brincar num jardim. Catarina, sorridente, aproximou-se devagarinho: num dos pratos de porcelana chinesa Meg espalhava as folhas do chá que tinham acabado de beber, e lia nelas o futuro de Nan.
- Vais apaixonar-te por um homem mais velho, muito mais velho - dizia Meg.
Nan gritava que não acreditava em nada daquilo, mas Meg protestava que tinha posto o dedo na ferida, abraçando a irmã, sem esconder a sua excitação.
- Vou ser feliz, pelo menos? - perguntava Nan, ingindo que se limitava a fazer a vontade das outras e a entrar no jogo.
Meg remexeu de novo as folhas de chá preto e repetiu: - Vejo um sol, e vejo, vejo...
- Meg, pára com isso, e diz-nos o que vês - insistia a recém-chegada.
- Vejo um S.
O silêncio caiu sobre a mesa. Se fosse um B, talvez soubessem de quem se tratava, mas um S?
- Nan, o que é que não me andas a contar?
A rainha estacou de repente: seria possível? Já por várias vezes sentira que havia entre eles uma força especial, mas não, ele era demasiado velho, demasiado formal. Tossiu e disse:
- Às vezes temos que olhar com olhos de ver, para perceber para onde nos aponta o coração.
As três damas sobressaltaram-se. Não a tinham sentido aproximar-se.
- Sua Majestade desculpe, não a ouvimos chegar-se a nós - desculparam-se, quase em coro.
- Não tem importância nenhuma, mas arranjem-me uma cadeira, quero que lady Meg me leia as «minhas» folhas de chá.
Nan correu a sentar a rainha, que por sua vez as mandou voltar aos seus postos.
- Lady Margaret, estou à espera.
As mãos de Meg tremiam:
- É só uma brincadeira, dona Catarina. Uma brincadeira para passar o tempo - insistia.
- Também nunca julguei que fosse outra coisa, que a nossa religião bem nos ensina que o futuro fazemo-lo nós, com a Graça Dele. Mais faltava que estivesse traçado em folhas de chá vindas do Oriente. - Ao dizê-lo o seu semblante tornou-se mais carregado. Lembrou-se de Ali, de Ali e das suas folhas de chá, da sua profecia do ventre liso, que agora ameaçava tornar-se realidade...
- Lady Meg, é uma ordem da rainha. Quero entrar no jogo.
Meg obedeceu-lhe e pegando em folhas frescas, tiradas com uma colher do bule, voltou a «lançá-las»:
- Vejo um barco...
- Eu também, perfeitamente - dizia Nan.
- Um barco que chega, ou que parte? - perguntou, grave, D. Catarina.
- Que chega - disse Nan -, acho que aporta, vejam como a proa está apontada para este montículo de folhas que parece um porto.
- Sim, julgo que aporta, mas vamos saber o resto da história - insistiu a rainha.
Meg voltou a espalhar as folhas:
- Uma mulher, uma senhora, já de idade... olhem aqui, não parece uma bengala?
- Será dona Luísa que a vem visitar? - exclamaram, entusiasmadas.
Catarina riu, um riso triste:
- Ainda ontem recebi uma carta, não me parece que a minha mãe volte a sair do convento onde se enclausurou...
Nan fez um gesto de compreensão com a cabeça:
- Então que outra senhora idosa, importante, pode surgir na vida de Sua Majestade?
- Eu sei! - disse a dama mais nova, as suas sardas incandescentes na pele branca, feliz por saber o que os outros não sabiam, por ir dar uma novidade, trazer sobre si um bocadinho de atenção, ela tão baixinha e desinteressante, a quem ninguém parecia ligar muito.
Catarina, que gostava da sua dama mais nova, incitou-a:
- Conte-nos o segredo.
- A sogra de Sua Alteza, a rainha-mãe Henriette Marie. Ouvi ontem à noite, quando atravessava o salão, contarem que chegara notícia de que vinha de visita a Inglaterra. Para a ver a si, Sua Majestade. - Depois, corando, acrescentou:
- Desculpe, julguei que por esta hora já o sabia. - Catarina não sabia. Também era di ícil que soubesse, porque não falava ao marido há semanas, nem se dava com ninguém da corte inglesa, e até o chanceler Hyde, que a podia ter informado, estava frio com ela, zangado pela situação em que o colocara ao recusar aceitar as suas propostas no caso da Palmer.
Acenou que não com a cabeça, e icou pensativa. Nenhuma das outras se atreveu a dizer nada, até que Meg, mais directa, comentou:
- Alegre-se, dona Catarina, desculpe-me falar assim, mas é a saída para o impasse em que se encontrava. A rainha-mãe tem imenso poder sobre o filho, professa a sua religião, acredita na santidade do casamento...
- Vai tomar o seu partido, vai fazer com que Sua Alteza veja a razão -continuou Nan.
A rainha sentiu que o coração se tornava mais leve:
- Acho que vou gostar de chá para sempre! E agora preparem-se para a missa, que são horas.
Nessa noite, o bilhete de Charles chegou. O primeiro desde há longas semanas e que vinha quebrar aquele silêncio terrível que caíra sobre eles. Anunciava a chegada da mãe, e dizia-lhe que teriam de ir os dois, ele e ela, ter com Henriette Marie a Whitehall. Acrescentava que depois era preciso ir a Londres, e preparar tudo, porque a primeira ida da nova rainha de Inglaterra à capital era um acontecimento de Estado. Não fazia menção nenhuma ao desentendimento, era como se quisesse começar de novo, uma folha em branco, em que poderiam voltar a escrever.
Catarina estava sozinha com D. Maria e lady Suffolk, e leu-lhes alto a missiva. Ambas sorriram, aliviadas:
- Que bom, que bom, tudo se vai compor. Vamos tratar do seu guarda-roupa de forma que a sua sogra a adore, e depois Londres se renda aos seus pés, Sua Alteza - dizia lady Suffolk, feliz com a possibilidade de reencontrar a sua querida amiga. Seria fácil dar-lhe o seu ponto de vista, pedir-lhe que injectasse algum bom senso na cabeça do seu primogénito.
Satisfeita, Catarina sentiu, no entanto, um impulso de saber mais. Todos murmuravam o nome da Palmer, sabia que era casada, mas a verdade é que nunca se atrevera a pedir pormenores, como se desejar informar-se fosse atribuir demasiada importância à personagem. Mas agora aqui, entre estas duas senhoras que gostavam tanto dela, tão mais velhas do que ela, atreveu-se a perguntar:
- Lady Suffolk, peço perdão se a incomodo, mas fale-me de Lady Castlemaine. Preciso de perceber melhor quem é... com que adversário me debato.
Lady Suffolk respondeu-lhe com serenidade:
- Também não sei muito... De nascimento tinha o apelido de Villiers. O pai, William, era um realista, e morreu de uma ferida feita em combate, deixando a mulher e a ilha pequena numa situação muito di ícil. A mãe de Charles e agora o próprio rei deram-lhe alguma protecção por sentirem que o visconde tinha morrido ao serviço da coroa. A criatura era, e peço agora eu desculpa, mas tenho de ser verdadeira, muito, muito bonita e mais não digo, e foi fazendo uso, desde cedo, dos seus dotes físicos.
Catarina recordava-se de ter icado impressionada com a dama que Charles trazia pelo braço ao atravessar a sala, antes daquela cena patética, lembrava-se do seu cabelo castanho-arruivado, dos seus olhos azul-violetas, da sua boca sensual e das suas formas voluptuosas. Se a visse de novo provavelmente não a reconheceria, mas icara com a impressão de que era francamente bonita, e pelos vistos a sua arte e a sua experiência faziam o resto.
- Conte mais, por favor - insistiu.
- É prima do duque de Buckingham...
- Mas isso explica tanta coisa! - comentou a rainha, com os olhos abertos de estupefacção.
- Se me permite, Sua Alteza, explica mesmo quase tudo... Mas voltando ao passado: encontrou um homem rico, Roger Palmer, e casou com ele, contra a vontade do sogro.
- Que ambicionava melhor para o filho?
- Deveria ser um bom avaliador de caracteres, e talvez estivesse bem informado. Barbara tinha apenas dezoito anos na altura, mas já era muito falada na corte no exílio.
- O pai avisou o filho contra a futura nora, portanto?
- Exactamente, disse-lhe que se casasse com Barbara, e cito, «Seria o homem mais infeliz à face da Terra.» Não se enganou.
- Coitado - suspirou Catarina, de repente sentindo-se uma alma gémea do pobre homem, enganado pela mulher com o próprio rei, há vários anos, coberto de dinheiro e títulos para esconder a vergonha. Ó meu Deus, protege-me de que me aconteça o mesmo, pensou Catarina.
- Vivem ainda juntos? - quis saber a medo, e questionava-se se desejava que lady Suffolk lhe respondesse que sim, ou que não.
Se vivessem juntos, quem sabe, talvez o marido pusesse im a esta pouca-vergonha, mas se já tivesse desistido dela, e Palmer depositasse todas as esperanças no rei, então...
- Separaram-se isicamente há uns anos, pouco depois do nascimento da primeira ilha, da primeira ilha dela, digo eu, porque pelos vistos Roger não acreditava que fosse sua.
Catarina não conseguiu perguntar se era do rei, mas lady Suffolk deu-lhe a resposta, poupando-a ao embaraço:
- Lady Anne Palmer tem um ano de idade, e há quem diga que é ilha do rei, e quem insinue que é de um outro homem a quem a mãe era afeiçoada. De qualquer maneira, e porque acho que deve saber tudo, para que não a possam magoar mais com a surpresa, o rei decidiu tratá-la como uma filha.
- Porque já tinha uma ligação com ela há mais tempo... há quanto tempo, lady Suffolk?
- Há dois anos, diz-se, ainda estava em Haia.
D. Maria de Portugal já se benzia, e Catarina sentia o nó na garganta apertar-se: e se esta mulher fosse como a mãe de Maria, a amante do seu pai João, que ele amara certamente muito, a ela e à ilha, de tal forma que insistira até em escrever uma carta na hora da morte? Não era altura de regressar ao passado. Enchendo o peito de ar, Catarina continuou o interrogatório:
- O bebé que nasceu agora, já depois do nosso casamento, é um rapaz, não é? Como é que se chama?
- Sei pouco disso, Sua Alteza, já estava aqui ao seu serviço, longe dos mexericos da corte, que também nunca fui de os ouvir, mas sim, é um rapaz, e ao que me dizem chama-se Charles, Charles Fitzroy.
- Fitzroy? Filho do rei? - perguntou Catarina, incrédula.
- Um apelido que Sua Majestade decidiu dar ao filho.
Catarina sentiu a cabeça andar à roda: tantos ilhos, tantos varões, que lhe podia ela dar, que as outras não tivessem dado antes.
Lady Suffolk percebeu a angústia da rainha, e estendeu a mão para cobrir a dela, gelada e húmida, e sossegou-a:
- Foram outros tempos, Alteza. O facto de o rei a querer na Casa da Rainha já é bom sinal, não o faria se pretendesse continuar a vê-la... dessa forma. Agora tudo vai mudar quando dona Catarina engravidar e lhe der aquilo que ele mais ambiciona, e que ainda ninguém lhe deu, note bem: um
ilho legítimo, que possa suceder-lhe no trono de Inglaterra. Essa é a sua
missão, não o esqueça.
D. Maria, que ouvira atenta, percebeu onde a camareira inglesa queria chegar. Com estes meses de convívio aprendera a gostar dela e a respeitar o seu juízo, o juízo de quem conhece os meandros destas casas, que nem ela, nem a pobre Catarina tinham conhecimentos para decifrar. Inclinando-se para a frente, também pousou a sua mão engelhada sobre a da «sua infanta», que afinal o seria sempre.
- Lady Suffolk tem razão, dona Catarina, e a sua mãe se aqui estivesse dir-lhe-ia o mesmo, acredite. Esta separação forçada do rei não é boa para ninguém, e pode servir apenas para o atirar para os braços dessa oportunista. Tem de dar o bene ício da dúvida, o seu marido talvez se queira emendar, e se ressinta de que a sua própria mulher não acredite nas suas palavras.
Agora a culpa era sua?, pensou ligeiramente indignada Catarina, mas percebeu, pela cara das duas senhoras que a olhavam com ternura, que queriam apenas pôr um fim a este drama.
Fingindo um sorriso, Catarina tranquilizou-as:
- Tenho a certeza de que lady Suffolk tem razão. A minha sogra será a ponte entre nós.
Ambas as damas acenaram, satisfeitas. Mas se o sorriso de Catarina era forçado, mais forçado ainda era o de lady Suffolk: não tinha tido coragem de dizer à rainha que a mulher que entraria para a sua Casa, que dominava neste momento a corte, e aparecia ao lado de Charles em todos os jantares e festas, já estava, de novo, grávida do rei.
Whitehall Palace, 23 de Agosto de 1662
ntraram para a mesma carruagem, silenciosos. Catarina
cumprimentou-o com um sorriso, e pouco depois começou a fazer perguntas, incapaz de suportar o peso daquela guerra fria. Charles, questionado sobre a mãe e os irmãos, não resistiu muito tempo ao amuo, e passada meia hora contava-lhe entusiasmado os pormenores da sua infância, o exílio da mãe grávida e dos irmãos mais pequenos que tinham morrido de sarampo e que nunca chegara a conhecer. A rainha aproveitou o filão, fazendo ainda mais perguntas sobre Henriquetta Anna, a Minette, que sabia ser a sua irmã favorita. Charles inflamou o discurso. Descreveu-a como a mais bonita, inteligente e divertida de todas as mulheres à face da Terra.
- Mas vem com a sua mãe? - perguntou Catarina, desejosa de conhecer esta irmã de Charles que o tinha sob um feitiço, que parecia arrumar num canto todos os outros elementos do sexo feminino.
Charles franziu o sobrolho, zangado.
- Se pudesse assassinava o meu cunhado. É cruel com a minha irmã, e nunca a deixa sair de casa, embora não lhe faça qualquer companhia.
Catarina procurou animá-lo:
- Mas a sua mãe certamente lhe traz uma carta dela.
Charles sorriu-lhe abertamente, e estendendo a mão segurou na sua. Catarina sentiu o coração parar por segundos: era possível que este homem se transformasse assim de um momento para o outro, e que o seu toque tivesse o poder de fazer com que lhe perdoassem tudo?
- Querida mulher, já me esquecia de como gosta de nos ver a todos felizes e como, se pudesse, acabava com qualquer conflito.
Catarina tremeu, estava a correr tudo tão bem, não queria mesmo voltar «àquele» assunto, mas Charles já nem se parecia lembrar da discussão, e começou a contar-lhe a história do Palácio de Whitehall, onde a mãe estava instalada, e para onde em breve se mudariam todos.
- Vai ser a sua próxima casa, Catarina, por isso veja se gosta. Há aposentos que já mandei remodelar, outros para os quais estou à espera dos seus conselhos. E a boa notícia é que a minha mãe usa a capelinha católica de St. James, que o meu pai mandou construir para ela, e que poderá utilizar se quiser...
Catarina agradeceu-lhe. É verdade que ele, no seu acesso de raiva, mandara para Lisboa uma parte dos seus clérigos, mas soubera há pouco que autorizara a carta em que lhe pedira para mandar vir um grupo de monges arrábidos, que tinham conhecido o seu pai - «e que cantam maravilhosamente bem», acrescentara, sabendo que o rei gostava de música. Se pudessem ter uma igreja, uma capela a sério, e talvez um pequeno convento, em lugar de viverem em anexos dos seus aposentos, seria magnífico.
Charles olhava pela janela, e de repente gritou:
- Catarina, veja! Whitehall.
O palácio era mais uma construção magní ica. O olhar de Catarina icou preso num torreão que se destacava, apontando:
- Aquele torreão é de alguém?
- Aquele torreão é seu, se gosta dele... Como é que adivinhei? São naqueles três andares os aposentos dos reis, e vai gostar das escadas e escadinhas, e das varandas e janelas voltadas para o rio.
Catarina fechou os olhos. À sua frente surgia o seu querido torreão filipino, a janela aberta de par em par sobre o Tejo, o cheiro a mar, o céu azul sem igual, e Teodósio, o seu Teodósio, e Joana, sentados nas carteiras, a olharem os mapas onde António Vieira apontava países como Inglaterra.
Quando um solavanco e o parar da carruagem a fez voltar à terra, reparou que Charles a olhava com ternura:
- Saudades de casa?
Catarina teve vontade de chorar de comoção. Faria tudo, tudo, para ter o seu marido de volta.
No cimo da escada Henriette Marie, uma senhora imponente, com cabelos claros como os de James mas a expressão de Charles, esperava pela nora.
Catarina e Charles subiram os degraus depressa, sorridentes. Anne, com a ama que trazia a pequenina Mary ao colo, subiram atrás deles, e James fechava o cortejo, os olhos presos nos da mãe, que tanto admirava.
A sogra abraçou a nora e deu-lhe três beijos, alternando as faces, como era costume em França, e depois de ter cumprimentado os ilhos, de uma forma informal e calorosa, puxou pela mão de Catarina e disse a Charles:
- Vai lá tratar da tua vida, que a tua mulher ica aqui comigo, que temos muito que conversar.
Virando-se para a rainha, acrescentou:
- E aquilo de que menos precisamos é de homens a ouvir a nossa conversa.
Levou-a para a sua salinha de costura, as janelas sobre o rio, e Catarina sentiu, de repente, que o Paço da Ribeira tinha duplicado de tamanho, mas era nele que estava esta senhora que faria, a partir de agora, o papel de sua mãe.
Para sua surpresa, Richard Russel estava sentado num canto.
- Precisávamos de um tradutor - disse a sogra, com o seu ar despachado e prático.
Catarina beijou a mão ao bispo e olhou-o timidamente: embaraçava-a tudo isto, temia perder o controlo, fazer queixas, expor a sua intimidade. Talvez não se falasse da Palmer, e só do tempo que fazia, da chuva que não parara todo o Verão. Russel lançou-lhe um olhar especial, como quem diz «o que aqui se falar será equivalente ao segredo da con issão», e Catarina respondeu com outro, de gratidão.
Mas se esperava que Henriette não fosse directa ao assunto da Palmer, enganava-se:
- Sei que não tem estado bem com o meu filho...
Catarina sentiu a cara incendiar-se, maldito temperamento, pensou, não resistindo, no entanto, a responder:
- Talvez fosse mais correcto dizer que o seu ilho não tem estado bem comigo!
Henriette apertou-lhe a mão, divertida:
- Ai, que bom, tinha medo que fosse um pãozinho sem sal, demasiado doce, demasiado subserviente. Ainda bem que não é, gosto de mulheres com garra, vou gostar muito mais de si assim.
Catarina já se arrependia de ter respondido de forma tão agressiva -qual é a mãe que gosta de ouvir mal do filho -, e atalhou:
- Julgo que se trata tudo de um mal-entendido...
A rainha-mãe soltou uma gargalhada:
- Diplomata, ainda por cima. Sim, senhora, uma rapariga muito completa, a minha nora. Mas não precisa de fazer jogos comigo, conheço os meus
ilhos, conheço os homens, e conheço, embora felizmente mal, esta nova
corte que Charles formou em seu redor.
Catarina ardia de vontade de perguntar «Conhece também a Palmer, muito mais bonita do que eu, mais nova, e já com netos seus?», mas ficou calada, a torcer as mãos no colo.
- Sei porque é que se desentenderam. Sei e dou-lhe toda a razão.
Catarina não queria acreditar, não ia ser repreendida, incitada à conciliação, não lhe iam dizer que era uma provinciana, que reagia como uma criança. Henriette observou-a cuidadosamente e leu-lhe todos estes pensamentos:
- Não, não vou dizer que é uma criança, apenas que é uma mulher com dignidade própria, uma infanta de Portugal, que foi educada num meio que pouco terá que ver com o da corte francesa ou inglesa.
- Mas Charles deixou de me falar porque me recusei a aceitar lady Castlemaine na Casa da Rainha, e depois, e depois foi horrível, levou-a até mim, e estendi-lhe a mão...
Catarina não conseguiu continuar, as lágrimas corriam-lhe pela cara. Envergonhada, tentou recuperar a compostura, e Henriette esperou, serenamente. A rainha concentrou-se na paisagem, e aos poucos Catarina recuperou o fôlego:
- Peço imensa desculpa...
- Não tem nada que pedir desculpa, mas temos de resolver esta ferida. O primeiro passo já o deu, vindo até aqui com Charles, e percebi que chegou feliz, o que signi ica que a viagem correu bem. Depois vamos viver aqui, lado a lado, e terá a minha companhia e vigilância mais próxima: vamos à missa juntas, lanchamos, bebemos o chá tão agradável que trouxe consigo, e tornamos a nossa família mais sólida, agora que James e Anne têm até uma filha com que nos podemos entreter.
Catarina, ainda demasiado distante dos segredos desta família para saber que a sogra odiava Anne Hyde, que acusava de ter estragado a vida ao seu filho favorito, sorriu:
- Gostava que assim fosse.
- Quanto a lady Castlemaine, acredite que percebo o seu sofrimento, não quero entrar em pormenores, mas já passei por ele, e confesso-lhe que a senhora não é do meu agrado. Quis muito que o meu ilho casasse consigo, e o vosso casamento é para mim sagrado, ou não tivesse sido abençoado por Deus. A questão é como contornar a teimosia do meu ilho, como «esvaziar o balão»...
- Esvaziar o balão?
- Sim, minha ilha. Os apoiantes da Palmer são aqueles que queriam uma rainha protestante. Por detrás desta mulher hábil na cama está um elemento inteligente que serve a causa de quem a apoia: Buckingham e outros como ele incitam Charles a manter a relação. Os ilhos e o feitio do meu ilho fazem o resto. Se vir o caso assim, vai perceber que ao recusar a presença da Palmer junto de si está a deitar achas para a fogueira. Já colocá-la sob as suas ordens, dentro de sua casa, poderia servir melhor os seus objectivos.
- Palmer já tem a corte toda do seu lado. As senhoras riem quando passo, e correm para ela para fazerem troça de mim, e...
- Charles vê e finge que não vê...
- Pois, é isso mesmo que sinto...
- Os seus sentimentos correspondem à realidade, não se recrimine. O meu ilho viu o pai ser assassinado, perdeu tudo, andou vinte anos à deriva, longe de mim e dos irmãos, e agora prefere tapar a vista a todos os problemas que possam gerar con litos, mesmo quando faz sofrer pessoas de quem gosta.
Aproximando-se mais de Catarina, passou-lhe a mão suavemente pelo cabelo e disse-lhe:
- Mas ele gosta de si, não duvide nunca disso. Conheço os defeitos do meu ilho, mas sei que em última instância defenderá sempre o seu casamento, os votos que assumiu.
Tem uma maneira original de os interpretar, pensou Catarina.
Depois de uns minutos de silêncio, Catarina concluiu a conversa:
- O que me diz é que tenho razão, que é a minha dignidade que está de facto em jogo, mas que tenho mais possibilidades de a guardar aceitando esta situação, e mantendo-a sob controlo, do que ar ranjando pretextos para que aqueles que lutam contra Roma, contra a nossa religião, tenham mais força, é isso?
- Exactamente - disse Henriette, erguendo-se da cadeira -, mas agora vamos juntar-nos aos outros, que devem estar na sala.
Puxando gentilmente a nora para o seu lado, acrescentou:
- Não precisa de dizer nada a Charles. Não volte a falar no assunto. Limite-se a cumprimentar friamente Castlemaine. Não ceda às suas provocações, ignore-a, sem a hostilizar. Prepare-se para que o seu confessor, e outros, inclusivamente o chanceler Hyde, a possam criticar, dizendo que cedeu a inal, que toda a batalha que travou estes meses foi em vão. Não se esqueça, procuram, também, defender-se a si mesmos, porque sabem que são igualmente alvo dos antipapistas...
- Dos anti-Catarina...
A sogra sorriu:
- Dos anti-Catarina, mas muito mais do que isso, minha querida. Lembre-se que o importante é que é, e vai continuar a ser, rainha de Inglaterra. Não há vingança mais dura para os seus opositores.
Russel, quando todos se tinham afastado, passou-lhe o braço discretamente pelos ombros:
- Coragem, dona Catarina, e acredite que Deus a quer ver feliz. Aproveite toda a felicidade que conseguir obter, não esteja tão preocupada com o que a sua mãe ou os outros possam pensar, até porque provavelmente se engana. Tenho a certeza que dona Luísa teria muito orgulho em si, na forma como se tem esforçado por se adaptar a uma realidade tão diferente da sua.
Catarina sentiu umas saudades imensas de frei Pedro. O que o bispo lhe tinha dito poderia ter saído da boca do seu frade favorito. Deus Pai era um Deus misericordioso e bom, um Deus de alegria, de crianças a correr nos campos, de casais que se amavam sem limites, de cedências que era necessário fazer em nome da manutenção de um sacramento. Abanou a sua farta cabeleira, como um dos poldros de Montagu, e concluiu: «Nada é simples, mas viver é isto.»
Jantaram em família, e James e Charles estavam mais próximos do que Catarina alguma vez os vira, como se a presença da mãe suavizasse as divergências. Ambos solícitos, traduziam o que Catarina dizia, ou para inglês ou para francês, e por várias vezes a rainha percebeu que Charles a elogiava. Anne, como sempre, tentara falar inglês devagar, incluí-la nas conversas, mostrar-lhe o seu apoio. Eram um casal simpático, pensou Catarina, gostava que ela e Charles tivessem aquela cumplicidade. James era mais parecido com ela, mais sério, mais ponderado, sendo visível que o protocolo lhe dizia bastante mais do que ao irmão, «criado na rua», como comentava constantemente a mãe. Diziam-lhe as damas, no entanto, que também James, embora mais discreto, não perdia a ocasião de cortejar uma dama bonita, e não punham as mãos no fogo que não levasse o assunto mais longe. Não tinha, no entanto, a segurança e o à-vontade do irmão, e preferia ser discreto a dar nas vistas.
De repente, percebeu que Charles falava dela à mãe, ouviu o seu nome várias vezes, e concentrou-se, na tentativa de seguir a conversa. Não queria acreditar, tal era o desejo do seu marido de agradar a quem o rodeava que era capaz de dizer a primeira coisa que lhe vinha à cabeça. Neste momento parecia comunicar à rainha-mãe que ela, Catarina, estava grávida e em breve daria à luz um herdeiro.
Com as bochechas vermelho-vivas, a indignação a faiscar-lhe nos olhos, virou-se para Charles e disse, alto:
- You lie!
As suas primeiras palavras em inglês e sem um «Sua Majestade» para adoçar a acusação. Henriette olhou para a nora com admiração, recusava a mentira, mesmo quando a mentira lhe convinha. Catarina visivelmente não tinha qualquer complacência com ela, ia ser di ícil a sua vida na corte, pobre portuguesinha. James, Anne e os criados que serviam à mesa pareciam ter tomado a forma de estátuas: a rainha chamara mentiroso ao rei.
De olhos marejados de lágrimas, só Deus sabia o quanto gostaria que aquela a irmação fosse verdadeira, preparava-se para pedir desculpas a Charles, quando o rei irrompeu numa gargalhada:
- Grande Catarina, chamar ao rei mentiroso em inglês é obra. Parabéns, querida - e segurando-lhe na mão, beijou-a, embevecido.
- Agora insisto que aprenda depressa a nossa língua, e de preferência palavras mais lisonjeadoras para dizer ao seu marido - disse-lhe, com um sorriso tão leve, tão genuíno, que Catarina sentia o coração apertar-se. Charles era tudo com que sonhara, um homem terno, generoso, com sentido de humor, sem sombra de prepotência ou de insegurança. E tudo aquilo com que também não sonhara!, pensou com um suspiro.
À sua volta toda a gente se sentira autorizada a rir, e o rei, que adorava troçar de si mesmo, sentindo sempre que se confessasse os seus pecados em público já ninguém lhos poderia levar a mal, nem tão-pouco exigir por eles uma compensação, acrescentou:
- Vê, mãe, casados há apenas uns meses e já percebeu a minha verdadeira natureza. O amor é isto, é amar-nos apesar dos nossos piores defeitos...
Toda a gente riu, excepto a rainha-mãe. O ilho mentira, mentira numa questão sensível, que qualquer pessoa com dois dedos de testa percebia que tinha consequências imensas; brincava com a maior ânsias e temor de uma mulher - se era ou não fértil, se seria ou não capaz de gerar um ilho -e lavava agora as mãos, com umas graças que não tinham outro objectivo senão lavar a sua culpa. Pior, aproveitava já para salvaguardar o futuro, avisando-a de que lhe podia chamar mentiroso à vontade, porque era o primeiro a confessar que assim era. Henriette, por vezes, sentia que Charles a desiludia, oxalá a jovem rainha mantivesse aquela paixão, que parecia resistir a todos estes embates.
Catarina reparou na impaciência, invulgar, com que Charles queria acabar aquela noite.
Catarina sorriu-lhe:
- Devia conhecer o meu irmão Afonso, são iguais, não conseguem suportar mais do que meia hora quietos... e ambos gostam de companhia e da noite.
Charles olhou-a, subitamente nostálgico:
- É verdade que me sinto melhor entre gente, barulho e confusão. Assim escapo melhor à melancolia e à tristeza que por vezes se abatem sobre mim.
Catarina olhou-o, curiosa. Nunca vira esta faceta triste do rei, parecia-lhe sempre entregue a um qualquer entusiasmo, de raquete de ténis debaixo do braço, ou com uma dama pela mão.
- Quer comover-me?
O rei olhou-a, afectuoso:
- Só a minha mulher é que se preocupa com as melancolias do rei. Mas são di íceis de suportar, é um pano escuro que desce sobre a minha cabeça, e consigo apenas ver uma imagem: o meu pai a ser levado, nesta mesma casa onde estamos hoje, por dois guardas, e depois... e depois nada. Não havia mais pai.
Catarina segurou-lhe com força a mão, e a perna deixou de tremer:
- Não consigo imaginar o horror desse dia, nem dos que se lhe seguiram, nem as aventuras que conta, como se fossem emocionantes, quando sei que deve ter tido tanto medo, tanto frio, uma sensação de abandono tão grande...
Charles, que começava a comover-se, usou a sua estratégia de diversão, a graça rápida, que repunha a ordem e o impedia de dar parte de fraco:
- Tenho tanto jeito para levar mulheres às lágrimas. Por isso é que elas não me resistem, sentem o seu instinto maternal despontar e querem tomar conta de mim - disse, rindo.
Catarina não conseguia saltar tão depressa de um humor para o outro, e respondeu, séria:
- Não me admira nada que assim seja. Mas hoje há qualquer coisa mais. Uma carta? - perguntou, vendo que Charles en iara num bolso um sobrescrito grosso.
- De Minette, escrevemo-nos sempre. Ela confia em mim, e eu confio nela. Diz-me todas as verdades, mesmo as mais cruéis. Esta é, certamente, uma lição de como ser bom marido...
- Fala de mim? - não resistiu Catarina a perguntar.
Charles recuou, não tinha qualquer intenção de dividir Minette com a mulher, nem com mais ninguém.
- Fala, certamente, gosta de si, a nossa mãe já lhe deve ter escrito sobre tudo isto, está louca por me ver assentar...
Pondo-se em pé, bruscamente, pediu licença para se ausentar. Tinha papéis que ler e assinar. - Uma boa noite para todos - disse.
Henriette trocou um olhar com Catarina que dizia qualquer coisa como «não te preocupes, é só uma carta de Minette». Mas Catarina preocupava-se: por uma ou outra razão, havia sempre uma mulher capaz de o atrair mais do que ela.
Charles despiu toda a roupa, com a ajuda do seu valido. Havia dias que detestava esta toilette in inita e se perguntava por que raio não se vestia como os criados, uma túnica simples e umas botas cardadas. Houvera tempo em que andava assim, e nunca se tinha queixado.
A camisa de noite vestida, umas pantufas quentes nos pés, mandou que saíssem todos, o deixassem em paz. Ficava com a vela e um chá quente, em que Catarina o viciara.
Aconchegando-se na cama, abriu inalmente a carta, como um menino que desembrulha o seu presente na madrugada de Natal.
Às primeiras linhas começou logo a sorrir:
«Meu adorado irmão,
Imagina que me contaram que alguém falara de certa pessoa à rainha, tua mulher. Valha-nos Deus, como é possível que coisas tão cruéis se façam. Eu, que conheço a tua inocência melhor do que ninguém, só posso admirar-me com o que para aí inventam!
Falando a sério, conta-me como reagiu a rainha. Aqui diz-se que sofre e vive num profundo desgosto. Muito francamente, penso que tem demasiadas e fortes razões para tal. Digo-te uma coisa, meu irmão: aqui em França quem costuma chorar são as amantes.»
Querida Minette, adorava-o e, no entanto, era capaz de lhe ver os defeitos e de o repreender com ironia. Para ela, o irmão não era rei de coisa nenhuma, apenas o seu irmão mais velho, aquele que daria a vida por ela mas que, estranhamente, também a fazia sentir mais viva, porque precisava das suas cartas, das suas palavras, da sua protecção. Charles percebia que a ela lhe permitia todas as críticas, mas mais do que isso, que quando era chamado à razão, a razão seguia, sem resistências, as suas palavras. Fora mau para Catarina, fora cruel. Porque seria que Buckingham e a trupe eram capazes de o levar a actos maldosos que não estavam no seu carácter? Catarina sofrera, não por ser teimosa, como ele quisera obrigar-se a si mesmo a acreditar, mas porque o amava, e quando se ama não se quer partilhar, nem perder. Sentia-o com Minette, reagia ao palerma do seu marido com fúria e indignação, porque a impedia de vir ter com ele. Sabia que não a tratava bem, os seus espiões contavam-lhe o su iciente, mas não era só isso - não gostava de dividir aquilo que considerava pertencer-lhe. Porque é que a pobre e generosa Catarina tinha de reagir de forma diferente quando a sua pureza era confrontada com comportamentos que a chocavam? Que chocariam qualquer pessoa, como era o primeiro a reconhecer.
«Aqui em França quem costuma chorar são as amantes», dizia a irmã. Realmente, porque não era a Palmer quem chorava? Que poder tinha sobre ele para o levar a ser tão bruto com aquela com quem casara, por escolha, por escolha livre, tanto quanto é livre a escolha de um rei?
Leu o resto, os relatos das intrigas da corte francesa, as últimas graças da sobrinha, e dobrou a carta com cuidado, colocando-a na mesa-de-cabeceira. Soprou a vela e jurou a si mesmo: vou ser melhor marido a partir de amanhã...
Charles ainda dormia quando Catarina, na companhia da sogra e da duquesa de York, assistiu ao raiar da madrugada à primeira missa católica pública desde que o pai de Charles fora decapitado. À cerimónia presidiam um dos seus frades capuchinhos e o father Huddleston, que pelos vistos Henriette Marie já tinha apadrinhado e nomeara capelão da capela da rainha no Palácio de St. James, mesmo ao lado.
Charles não estava, mas quem olhasse com cuidado veria a um canto James, uma capa com capucho sobre o cabelo loiro, como se também ele fosse um frade. Catarina teve medo de que o achassem seu cúmplice. Se considerassem que a rainha e o irmão do rei conspiravam para trazer de volta a Inglaterra a Igreja católica, apostólica e romana, o perigo poderia ser grande. O perigo já era grande, pensou, do altar, o father Huddleston, mas Cristo não enfrentara a cruz por se recusar a desmentir a sua divindade perante Herodes e Pilatos?