Catarina de Bragança
Portsmouth, 14 de Maio de 1662
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Mas estas eram as «suas» damas, aquelas que o rei tentava atrair a si mas resistiam. Helen, Susan, Marie eram outra conversa completamente diferente, que só a ela parecia admirar.
O confessor pedia-lhe que ingisse nada ver, que a virtude icava com quem não tingia a alma com estas imagens, mas Catarina, apesar dos pais-nossos e ave-marias rezados, tinha a certeza que nem à sua Virgem das Candeias lhe podia pedir tanto.
Catarina não dizia, também, que temia ser como a outra Catarina, a que vivera neste mesmo palácio há anos, Catarina de Aragão, que o marido, Henrique VIII, repudiara por lhe dar apenas uma ilha, trocando-a por Anne Boleyn's, que tinha até direito a um azulejo pintado com o seu nome na escadaria que dava passagem para os aposentos do rei - Anne Boleyn's Gateway -, e que acabara por ser decapitada. O que lhe aconteceria se Ali tivesse razão, se não fosse capaz de conceber um ilho, o varão que Charles e Inglaterra inteira esperavam de si, a única arma que roubaria argumentos aos seus inimigos antipapistas, o selo inal que tornaria poderosos os dois C entrelaçados? Pousou de novo a caneta, e levou instintivamente a mão ao ventre, que todos os dias esperava que crescesse. Mas não crescia.
Abanando a sua farta cabeleira, levantou-se decidida: não se iria entregar a melancolias num dia de sol. Dobrou o papel, colocou-o no sobrescrito e selou-o. Tocou a sineta, colocada em cima da sua secretária, e pediu ao criado que chamasse Edward Montagu: estava fascinada com o novo desporto que o estribeiro-mor lhe ensinava, e ansiava por praticá-lo. Tinha a certeza que Teodósio, com quem aprendera a montar e a empunhar uma espada, estaria lá em cima, louco de orgulho ao ver a força e determinação com que a sua mana, quase do tamanho do arco que Montagu lhe colocava nas mãos, acertava invariavelmente no centro do alvo. Descon iava que a arte lhe seria útil um dia. Sorrindo, pensou: «Quando for mesmo boa nisto, desa io algumas das minhas damas mais dedicadas ao rei para uma competição. E vão ser elas o alvo!»
Hampton Court, 20 de Junho de 1662
odia jurar: este fora o mês mais longo da sua vida. Um mês de casada
e uma roleta de emoções. Nunca fora tão feliz, mas também nunca se sentira igualmente tão abandonada, assustada, perplexa, perturbada, e os adjectivos poderiam continuar por ali fora. Conhecera o homem que amava e tornara-o seu marido, mas não fora feliz para sempre, como nos contos que Carminho lhe contava ao adormecer. Convencia-se de que tudo fazia parte de um plano divino e que lhe cabia transportar, de boa cara, a cruz que Deus Nosso Senhor decidisse colocar-lhe nos ombros, mas se as orações, os rituais religiosos e o canto dos frades lhe sossegavam a alma, não a conseguiam pacificar nem sempre, nem por muito tempo.
Conhecera mais gente nestas semanas do que em toda a sua vida. Os salões e os jardins estavam sempre cheios de pessoas que, tanto quanto percebia, não faziam nada: não tinham terras para gerir, casas para governar, ilhos para criar, e nem sequer pareciam interessados nos assuntos do reino, indiferentes ao que se passava em Portugal, ou em Castela, escutando-a com desinteresse quando tentava perceber a opinião deles sobre o futuro da Europa. Em Lisboa sentira-se sempre diminuída ao lado do saber da mãe, da sua estratégia política, da forma como dominava as pastas e estava a par de todos os passos do seu exército; aqui, para ser franca, nem o rei parecia incomodar-se com aquilo que parecia tratar como assuntos menores. Edward Montagu explicava-lhe que faltava uma guerra. Rira, chocada: uma guerra, como é que uma guerra podia fazer falta? Mas aos poucos entendia que a disciplina exigida a uma nação em guerra, como era a sua desde que nascera, tornava os súbditos mais rigorosos, mais empenhados, os valores mais claros.
- A nobreza quando não está montada em cima de um cavalo, de armadura vestida, e espada à cintura, perde o sentido para a vida, e o deboche é o resultado - murmurava-lhe, indignado, Montagu.
O estribeiro-mor conhecera tempos de maior exigência, dizia ele, e se Charles continuasse a dar esta ideia de que a vida eram festas, bailes e peças de teatro, em breve o povo sonharia de novo com Cromwell e a sua exigência.
Catarina tinha medo pelo rei. Montagu não se enganava: tanto luxo, tantos gastos, tanta roupa nova, tantos homens e mulheres desocupados, eram um insulto para todos aqueles que trabalhavam de sol a sol, simplesmente para pôr uma refeição na mesa.
Um dia encontrou coragem para o dizer a Charles, que olhou a mulher rindo:
- Minha perigosa inimiga, que me quer tirar tudo o que me faz feliz e obrigar-me a passar enfadonhos dias fechado num escritório ou, quem sabe, a acompanhar sessões do Parlamento.
Catarina estava em Inglaterra havia um mês, mas já não tinha dúvidas: por aqui o rei cortava cabeças e inaugurava salas de música, o Parlamento governava.
Em Hampton, todos os minutos do dia pareciam ter agenda, e quando somava a dela à do rei, não se podia dizer dona de um segundo que fosse, mas naquele dia dera ordens de que queria icar sozinha na sua capela, e ordenara que todos a deixassem. Estranhamente, obedeceram-lhe, e quando percebeu que icara subitamente livre subiu as escadinhas de acesso ao patamar que conduzia aos aposentos do rei. Pela primeira vez percorria sem companhia os longos corredores do imenso palácio, como uma menina pequenina em busca de um sótão cheio de tesouros, desejosa de abrir cada porta e descobrir o que se escondia por detrás dela.
Acelerou o passo quando percebeu que estava no famoso «corredor do desespero», como ouvira as criadas chamar-lhe. Segundo lhe tinham contado, era naquele sítio que aparecia o fantasma de Catherine Howard, que aos 19 anos fora obrigada a casar com Henrique VIII, trinta anos mais velho, consumido pela doença. Apaixonada por outro, fora apanhada com ele e condenada à morte. Enquanto esperava que a levassem para a Torre, soltara-se das mãos dos guardas e correra, correra, procurando chegar à capela a tempo de implorar ao rei o seu perdão - mas quando estava quase a chegar às escadas que levavam à capela os guardas tinham-na alcançado, arrastandos-a aos gritos para a sua morte.
Catarina estremeceu, olhando para os quadros decorados com retratos a óleo e pensando se algum deles seria o da pobre rapariga, mais uma Catarina que não tinha sido feliz...
Afastou os pensamentos negros da cabeça, e decidiu continuar com a sua «missão». Sabia que os aposentos do rei eram para aquele lado e, apesar do olhar surpreendido dos soldados que a reconheciam e se dobravam numa vénia, sem saberem se deviam abandonar o seu posto para a escoltar, continuava a andar.
Era cedo e queria apanhar o rei ainda «em casa» e perguntar-lhe se almoçava sozinho com ela, para celebrar aquela data. Finalmente encontrou a porta certa, fácil de descobrir pela guarda reforçada à entrada, e pediu licença para entrar. Abriram-lhe as portas e anunciaram a sua presença, mas a antecâmara parecia estranhamente silenciosa e vazia. Pé ante pé, aproximou-se da porta do quarto e bateu. Como ninguém lhe respondeu, entrou. Olhou à volta e subitamente o olhar estacou numa pequena miniatura, pendurada junto da cama do rei, de um prego de onde nitidamente tinha sido tirado outro quadro. As lágrimas acorreram-lhe aos olhos, como um rio, como o seu Tejo: era o seu retrato, o retrato que Nocret há tantos anos pintara no Paço da Ribeira, aquele que nunca mostrara à sua mãe, o que fora um segredo delicioso entre eles.
Aproximou-se para con irmar: como é que Charles o podia ter? Sabia bem que pertencia a Luís de França, que fora feito para que o herdeiro do trono francês escolhesse mulher.
Estava de costas para a porta, absorta no que via, o coração num sobressalto, talvez Charles a amasse de verdade! Afinal, conseguira obter o seu retrato mais bonito e guardava-o junto da sua própria cama. Tão absorta que nem reparou que o rei tinha entrado. Charles icara na ombreira da porta a olhá-la, enternecido. Os mais pequenos pormenores eram capazes de fazer a sua mulher feliz, e isso comovia-o, numa corte onde só jóias e malabarismos pareciam ser capazes de levar uma dama a voltar a cara. Catarina parecia esperar muito pouco da vida, muito pouco dele e, mesmo assim, Charles temia desiludi-la. Era um poço de contradições, sabia-o bem. Quando via a rainha assim percebia como eram hipócritas estes acessos de arrependimento, porque na prática não podia, nem queria, mudar nada em si...
Suspirou com tanta força que a rainha deu um salto. Quando percebeu que era Charles, aproximou-se como uma adolescente apaixonada e beijou-o, pondo-se em bicos de pés para o fazer:
- O rei tem o meu quadro, o retrato que Nocret me fez.
O rei desatou a rir.
- Bem pode olhar para ele, minha rainha, porque foi esse retrato que me levou a decidir-me por si.
Levantando-a do chão, beijou-a com força na boca, e passou-lhe a mão descaradamente pelo peito:
- Felizmente, a verdadeira Catarina não desmerece em nada o que o senhor Nocret apanhou na tela.
Catarina, corada até à ponta dos cabelos, gaguejou:
- Mas não lho mandaram, os portugueses...
- Ah, pois não, por isso é que aqui está. Sua Alteza que me desculpe, mas um rei tem de ser cuidadoso, e tudo o que me era enviado pelo embaixador Sande poderia ser falsi icado, uma tentativa de me impingir aquilo que eu não estava interessado em ter, daí que tenha pedido ao meu primo que me mandasse o quadro pintado pelo seu próprio pintor... porque julga que a corte francesa se deu ao trabalho de mandar Nocret a Lisboa? Também eles queriam que um dos seus lhes desse notícias fidedignas.
Catarina olhou-o, agora zangada:
- Fala de mim como se eu fosse alguma mercadoria...
- Mercadoria preciosa - disse Charles, rindo às gargalhadas, enquanto a fazia rodopiar nos seus braços -, mas mercadoria, sim - disse, enquanto a pousava com cuidado no chão. - Quer saber o que canta sobre si o povo de Londres?
Catarina parou, apanhada de surpresa:
- Ainda não fui a Londres, não me conhecem - protestou.
- Acha Sua Alteza que isso é suficiente para calar as bocas do mundo?
- Diga-me então o que dizem - indagou a rainha, angustiada. Queria tanto ser amada por quem amava Charles...
- Cantam nas ruas «What are little girls made of? Sugar and spice and all things nice, that's what little girls are made o f» - entoou o rei, naquela voz capaz de fazer estremecer o coração mais empedernido.
Catarina interrompeu:
- Faz troça de mim, sabe que não consigo perceber o que me diz. Por favor, estou a esforçar-me, tenho aulas com o bispo Russel todos os dias, lady Suffolk, Meg e Nan ajudam-me, mas só passou um mês...
Charles pôs-lhe o braço em redor do pescoço e caminhou com ela em direcção às janelas que davam para o jardim.
- Não ique triste, Catarina. Não me faz diferença nenhuma que não entenda ainda inglês, há tempo, todo o tempo.
- Mas o que é que cantam acerca de mim? Por favor, traduza para castelhano.
- Ora, vamos ver se sou capaz - disse o rei, coçando a cabeleira negra.
- Qualquer coisa como «De que são feitas as meninas pequeninas?».
- Que disparate, mas isso não é comigo, não sou uma criança.
Charles riu:
- Não leve tudo à letra. Veja pelo lado bom, para eles é jovem, fresca e pequenina. De estatura.
Catarina lembrou-se dos chapins que o embaixador a mandara usar.
- E mais? De que é que sou feita, então?
- De açúcar e especiarias e de todas as coisas boas...
Catarina sorriu, um sorriso suave, comovido.
- Isso é bom, não é? As pessoas gostam de açúcar e de coisas boas... Mas porque é que me associam a elas? Só por causa do meu dote?
- Por causa do seu dote, sim, mas se ouvir tudo de seguida percebe que lhe atribuem a si essas qualidades. Gostam de si, dona Catarina de Bragança Stuart. Perceberam logo que é suave, e doce, e teve a infelicidade de casar...
- Faz hoje um mês...
- Faz hoje um mês, teve a infelicidade de casar com um brutamontes, insensível, que não tem nada, nem de canela...
Catarina entrou no jogo e riu:
- De facto, Sua Alteza é mais caril.
Charles riu:
- Mais picante, portanto - comentou, divertido.
- Mais capaz de fazer chorar os olhos - respondeu, muito séria, Catarina.
Hampton Court, 20 de Julho de 1662
eg e Nan entrançavam o cabelo de Sua Majestade. Os músicos
tocavam, na sala grande, e as outras damas entretinham-se a bichanar os seus amores, escondendo os risinhos por detrás dos panos que bordavam para o altar, ou das camisas para os pobres.
- «Comb, I want a comb», Sua Alteza, se quer pedir um pente, diga «I want a comb» - insistia Meg que, para dizer a verdade, se impacientava com a lentidão com que a rainha aprendia a língua.
Catarina encolhia os ombros.
- Prefiro aprender a dizer: «Como está hoje o meu marido?».
A criadinha inglesa que segurava o cesto com os ganchos conteve uma gargalhada, mas Nan levou o desa io a sério. Deixando cair os ganchos, sentou-se num banquinho em frente da rainha e começou a traduzir-lhe para inglês a frase.
Deu um salto quando sentiu umas mãos fortes e quentes sobre os seus ombros.
- My lady Anne, comove-me o seu empenho. Quer fazer-me directamente a pergunta? - Nan corou, envergonhada, e levantou-se para lhe fazer uma vénia:
- Desculpe, Sua Alteza, não me apercebi da sua entrada.
Catarina continuava silenciosa e serena, os cabelos nas mãos de Meg, e com todo o descaramento repetiu a frase que aprendera:
- And how is my husband, today?
Charles sorriu e beijou-lhe a mão:
- Very well, thank you, my Queen.
A sala mergulhara em silêncio ao ver o rei de Inglaterra entrar, mas Charles apontou para os músicos e ordenou-lhes que tocassem.
- Continuem, por favor. Vim falar com a minha mulher...
Ao ouvir esta frase, todas as damas se levantaram e com uma vénia saíram da sala. Meg deixou cair o cabelo da rainha e, com Nan, apressou o passo para a porta.
Quando icaram sozinhos, Catarina icou pela primeira vez preocupada. O marido tinha ar de quem só pensava no momento de partir, ansioso, agitado, nada o seu Charles, sempre tão seguro de si. As notícias não podiam ser boas.
- A minha mãe? - perguntou, com a voz a tremer.
Charles acenou vigorosamente que não com a cabeça:
- Não aconteceu nada à minha querida sogra, tanto quanto eu saiba, pelo menos. Não se passa nada, de facto, apenas assuntos pendentes que temos de tratar com urgência.
- Vamos sentar-nos na mesa grande?
- Não, também não é caso para tal. Venho apenas entregar-lhe a lista das senhoras que desejo que façam parte da Casa da Rainha.
Catarina franziu o sobrolho, o que muito o espantou - sempre tão meiga, tinha naquele momento ar de uma negociadora feroz, nada disposta a confundir cantigas de amor com direitos.
- Julgo que está enganado, Sua Alteza, está bem claro no acordo que regula o nosso casamento que essa escolha me cabe a mim, e só a mim...
Charles, apanhado de surpresa, impacientou-se, como sempre fazia quando lhe faltavam argumentos:
- Se nos fôssemos reger por tudo o que está escrito, então Sua Alteza teria ficado em Lisboa, porque só metade do dote partiu nos meus barcos.
Catarina sentiu que lhe davam um murro no estômago. Como é que o seu amor, um homem sempre tão sensível e meigo, usava, de repente, armas tão baixas? Cerrou os dentes e continuou, como se nada fosse:
- Penso que Sua Majestade deve saber que o seu almirante chegou a acordo com a minha mãe sobre esse assunto, que não me diz respeito. Quanto à Casa da Rainha, que interesse pode ter Sua Alteza em incluir neste rancho, que a mim já me parece verdadeiramente excessivo, senhoras escolhidas pelo rei?
A pergunta não lhe parecia difícil, esperava pior...
- Porque o rei quer assim distinguir e agradecer a alguns dos seus súbditos que mais se destacaram, dando às ilhas oportunidade de singrarem na corte, de aqui fazerem um bom casamento.
Catarina estendeu a mão para o papel que Charles só agora retirara de trás das costas:
- Terei todo o gosto em aceitar referências do meu marido e indicações. Lerei atentamente a lista e depois farei os meus comentários.
Quem é afinal esta mulher?, pensava Charles. Bem devia ter desconfiado que, sendo filha de quem é, não poderia ser tão melíflua como a queriam pintar.
Quem é, a inal, este homem?, pensava Catarina, bem devia ter descon iado que uma ovelha negra não se torna branca, nem perde o hábito, adquirido no exílio, de satisfazer a seu belo contento os prazeres da carne.
Charles entregou-lhe a lista, e ia na porta quando um grito estridente o fez parar:
- Barbara Palmer, como dama da MINHA Casa?
Então ela sabe tudo, percebeu, repentinamente aterrorizado, Charles. Que coscuvilheiras eram as mulheres, quem o tinha traído? Pensou em fingir que não a ouvia, mas a voz de Catarina enchia o salão:
- Sua Alteza pode levar consigo a lista que me propôs. Excepto o nome que acabo de riscar, todos os outros são bem-vindos.
Charles voltou-se e olhou-a espantado. Não estava habituado a ser tão irmemente contrariado. Muito menos por esta mulher que, aos seus olhos, era apenas uma boneca decorativa, alguém que não deveria interferir na sua vida.
Segurando na lista que lhe estendia, foi a vez de a voz do rei trovejar:
- Pois eu faço questão que aprove esse nome. É uma mulher estimável, desejosa de a servir, cujo marido me tem prestado muitos serviços...
- Pare, pare, por favor. Não faça de mim estúpida, por favor. Quer que ponha dentro de casa, da minha casa, ao meu lado, a mulher que há semanas deu à luz um outro ilho seu? Avisaram-me da sua existência, mas nunca, mas nunca mesmo, julguei que tivesse o descaramento de a trazer sequer à corte, quanto mais aos meus aposentos.
Soltando uma gargalhada histérica, Catarina pôs-se de pé:
- A alma de Sua Majestade é assunto que lhe diz respeito, mas a minha, senhor, diz-me respeito a mim, e não vou conspurcá-la, con sentindo que a sua concubina tinja a honra da minha casa, ou das damas de honor, raparigas novas e sérias, que estão ao meu cuidado. Faça com a Palmer o que quiser, mas longe de mim.
Charles estava já de cabeça perdida. Por um lado tinha a Palmer a massacrá-lo todos os dias, a todas as horas, exigindo ser colocada em lugar de destaque na Casa da Rainha, de onde poderia controlar o seu relacionamento com Catarina, sabia bem que era essa a sua intenção, e agora o cordeirinho que escolhera por mulher tinha o desplante de se opor a uma ordem sua? Colocado entre a espada e a parede, reagiu como sempre reagia nestas situações, ou seja, transformando-se numa criança mimada que agira como se fosse a vítima. Reagiu ao ataque:
- Descon ia de mim, senhora minha mulher? Não lhe jurei idelidade no altar? O que passou, passou, não era casado com ninguém, não lhe diz respeito, mas agora ordeno-lhe que aceite esta mulher entre as suas.
- O meu marido tem todo o poder do mundo, mas preferia embarcar de novo no Royal Charles para Lisboa do que tomar parte no escândalo que propõe....
- São in luências dessa gente que a rodeia, e não a deixam, sequer, dançar comigo no salão. Quem vai seguir para Lisboa é toda a sua comitiva, que lhe enche a cabeça de disparates, e ainda por cima me sai cara -ripostou Charles. - E é já hoje que vou tratar do repatriamento da sua gente - gritou, com a voz alterada.
Catarina fez-lhe uma pequena vénia de circunstância e, virando as costas, saiu do salão para o seu quarto, fechando a porta com estrondo. Pela brecha da porta, Meg e Nan assistiam à cena. Meu Deus, não havia ninguém em Hampton Court que não fosse comentar a história, ainda antes de o sol se pôr, pensou lady Suffolk, enquanto se esforçava por desvalorizar o episódio junto de D. Elvira e D. Maria e das damas portuguesas.
No quarto, Catarina soluçava descontrolada, de joelhos, junto da sua imagem da Virgem das Candeias:
- Senhora, senhora minha mãe, dá-me luz, ajuda-me a ver... - repetia sem cessar.
Charles deixou de vir ao seu quarto, de aparecer para beber um chá, ou sequer de a mandar convidar para um passeio no jardim. Catarina via-o da janela, sorridente e bem-disposto, rodeado de amigos, como se nada fosse. Como poderia querer que vendesse assim a alma ao Diabo, perguntara ao seu confessor, que lhe garantira que izera bem em recusar tal afronta, que tudo começava com um pequeno «sim», e rapidamente perderia o controlo da sua dignidade.
As damas portuguesas estavam chocadas. Nenhum pretexto poderia ser melhor para a procurarem catequizar contra os hereges, explicando-lhe que era por esta e por outras que insistiam em que icasse com elas nos seus aposentos e não participasse nas festas.
O marquês de Sande izera já a sua aparição, cavalgando de Londres, mal soubera das notícias, para tentar reparar a crise política que se desencadeara. Charles reabria agora a questão do dote e da falta de dinheiro para sustentar todas aquelas damas, clérigos, músicos, criados e cozinheiros, justi icando-se com isso para os devolver à procedência. Não se referia ao episódio da Palmer, queixando-se apenas da falta de verba para manter os luxos da rainha.
O marquês apresentou-se a pretexto de ter vindo para o baile de Verão de Hampton Court que aconteceria nessa noite, e a que a rainha se recusava a ir.
- Não pode fazer uma coisa dessas, Sua Majestade, por muito magoada que esteja. É preciso que faça parte destas festas, que forme aliança com as mulheres destes nobres, que proteja a sua posição.
- Mas, e a minha alma, senhor embaixador?
Sande considerava inadmissível a proposta que Charles, à socapa, fizera à rainha, mas não o podia admitir. Tinha de servir de advogado do Diabo, ele e o chanceler, na tentativa de não deitar tudo a perder, e de facto a impaciência começava a crescer contra uma corte portuguesa que insistia em velar pelos seus próprios interesses, esquecida da fragilidade da posição de D. Catarina, que ainda nem sequer engravidara.
- A sua alma, minha rainha, está salva, garanto-lhe eu. Não se pode recusar a fazer parte da vida do seu marido. É a rainha de Inglaterra, de um povo que espera vê-la, tocar-lhe, saber como influencia o rei a favor dos pobres e dos oprimidos. Não vai deitar tudo isso fora por causa de um romance passado. Que Deus lhe perdoasse!, pensou. - Não jurou o rei fidelidade?
Continuou a explicar-lhe que o importante era deixar naquele dia o amuo e apresentar-se como se nada fosse. Só assim ganharia força para conseguir que Charles aceitasse a sua recusa.
D. Maria acenou-lhe que sim com a cabeça:
- Dona Catarina, não vai deixar o trono ao lado do seu legítimo marido vazio, pois não? - disse a pobre senhora, fazendo das tripas coração e sabendo o que teria de ouvir de D. Elvira e das restantes.
Subitamente Catarina sorriu. Talvez tivessem razão, talvez se jogasse o jogo de Charles ele aceitasse fazer-lhe a vontade e tudo não passasse de um mal-entendido.
Sande suspirou de alívio. Fazendo sinal para as ilhas de Fanshawe, disse-lhes:
- Lady Nan e lady Margaret, espero ver a rainha mais bonita do que alguma vez a vi.
As duas damas retribuíram-lhe o sorriso, e o marquês percebeu que os seus olhos pousavam mais tempo do que era habitual em Nan, na sua expressão suave, na sua graça rápida. Estaria a icar contagiado pelos vapores da corte de Inglaterra, disse a si mesmo, ligeiramente irritado. Mas Nan já lhe chamava de novo a atenção:
- Não será di ícil, vamos já tratar disso - respondera-lhe, como quem aceita uma missão.
Catarina começava a achar graça a estes preparativos para as festas. Crescera quase sozinha, e aos 23 anos sentia que rejuvenescia entre estas adolescentes que colocavam todos os seus sonhos e desejos nessas noites.
- Lembra-te que não podes dançar com o irmão do odioso Buckingham, odeio aquele homem sinuoso, que tem olhos e língua de serpente - dizia Nan à irmã.
- E tu vê lá se Balmoral não te morre nos braços - respondia, a rir, Meg.
Uma das damas confessou-lhes que esperava encontrar por lá o seu cadete da Guarda da Rainha - sentia que havia alguma coisa entre eles. Para divertimento das mais velhas, a mais nova de todas as damas acreditava que os brincos de pérola que Sua Alteza oferecia a todas as raparigas que entravam para a sua Casa seriam su icientes para o enfeitiçar.
- Põe-me rouge - pedia ela a Nan, que se desdobrava a procurar ajudar toda a gente, com isto e com aquilo, atando laços, fazendo tranças, pintando olhos:
- Rouge? - A gargalhada estendeu-se a toda a sala, e até a rainha se divertiu. Num esforço para se exprimir em inglês, Catarina chamou-a para perto de si e fingiu repreendê-la:
- Rouge só casadas - disse em inglês.
- Mas, e elas? - retorquiu a rapariga, apontando para as bochechas das outras damas pouco mais velhas.
- Cala-te, queixinhas. Não é rouge, é um produto que uma das criadas nos deu, feito de ervas, que chama o sangue à cara.
A dama fez um ar enojado:
- Sanguessugas?
- Se não é isso, é parecido - disse Meg, em frente do espelho, desesperadamente a tentar prender em carrapito o seu cabelo loiro cheio de volume.
Quando acabaram o seu «trabalho», Catarina estava linda: pintada, muito além do que D. Elvira achava decente, os seus olhos sobressaíam da sua pele escura, que metia inveja às inglesas que se queixavam de ser demasiado descoloradas. O cabelo, obra de Meg e lady Suffolk, estava penteado num estilo francês, preso atrás com diamantes, um único e suave cacho de cada lado da cara e um pequeno caracol ao centro. O vestido era preto, com um decote que lhe deixava os ombros a nu, o peito discretamente saliente. Os colchetes que fechavam o vestido pela frente davam-lhe sensualidade, como se pudessem ser abertos facilmente, ao sabor do desejo. Em redor do seu pescoço esguio, apenas uma corrente de ouro, sem mais adereços.
- Se o rei preferir a velha da Palmer à sua mulher legítima, nem sei o que lhe faço - dizia Meg.
- Sei lá do que é que ele é capaz - murmurava Nan. - Ouviste as coisas horríveis que ele lhe disse? Tão falinhas mansas connosco, sempre pronto a passar-nos a mão pelos ombros, mas foi logo dizer-lhe que ou aceitava que tivesse uma amante, ou devolvia todos os seus súbditos a Portugal... Se fosse a rainha, nunca mais acreditava numa palavra dele.
- E se não acreditar, minhas meninas que falam do que não devem, se não acreditar icará fechada neste ou noutro palácio, enquanto o rei faz a sua vida, absolutamente indiferente à mulher que encarcerou em vida -surpreendeu-se a dizer, num tom gélido, lady Suffolk. Nan e Meg baixaram os olhos e rezaram para que os seus homens nunca lhes izessem o mesmo.
Catarina entrou na sala, rodeada das suas damas, e sentiu um enorme prazer quando percebeu a surpresa que causara nos convidados. Vinham de longe, a maioria deles com o propósito de beijar a mão à rainha e de lhe jurar a sua lealdade. James acorreu a dar-lhe o braço, já que Charles se parecia ter eclipsado, e Anne estava junto do enorme cadeirão dourado, já tão elegante como antes de ter o bebé. Catarina sorriu-lhe, pedindo ao cunhado para traduzir:
- Anne, ainda bem que voltou, tem-me feito muita falta. Deixa-me brincar às mães com a pequenina Mary? Acredite que me treinei muito com os meus dois irmãos mais novos...
Anne apertou-lhe o braço e respondeu:
- Quero que seja madrinha de Mary, e vai ter todo o tempo do mundo para a encher de mimos, Sua Majestade. Está tão bonita, sabia?
Catarina agradeceu-lhe, e baixou os olhos. Porque é que Charles não aparecia?, seria tudo tão mais fácil se estivesse ao seu lado. Mas James e o marquês de Sande faziam o seu papel.
Um lautista, um violinista e um harpista enchiam a sala de música, e umas senhoras, ligeiramente indecorosas, na opinião da rainha, dançavam como ninfas em torno de uma fonte arti icial, criada na ponta da sala cujas janelas abriam para o jardim. Quem inventaria estas coisas?, pensou.
Os convidados formaram uma ila e iam-se aproximando do trono. Catarina sorria, dava a mão a beijar e fazia um imenso esforço para decorar os nomes que ora Sande, ora James lhe murmuravam. Por várias vezes conseguiu fazer um brilharete, provavelmente porque os nomes que ouvia já eram seus conhecidos, como o da mulher do chanceler Hyde, a mãe da sua cunhada Anne:
- Lady Hyde, que prazer em conhecê-la. Parabéns pela sua neta - disse, e James traduziu rapidamente as palavras da rainha dirigidas à sogra.
A senhora, comovida com o tratamento tão directo, dobrou o joelho e beijou-lhe de novo a mão, agradecida. Bem lhe dizia a ilha que a rainha era simples, sem os artifícios de outras muito menos do que ela. Haveria de escrever à sua mãe, Luísa de Gusmão, a elogiá-la pela educação que dera à filha.
James teve de a ajudar a levantar, e o chanceler, igualmente bem impressionado, levou a mulher para o outro lado da sala, enquanto o lord seguinte apresentava os seus cumprimentos. Catarina gostou também de Balmoral. Já ouvira o nome na boca das manas Fanshawe e por isso foi-lhe mais fácil identi icá-lo. Sim, compreendia o que Nan via nele, cabelo loiro encaracolado, uns olhos azuis penetrantes, com a sua farda de almirante impecavelmente vincada e uma dezena de condecorações no peito. Sem cabeleiras, nem artefactos, um militar, suspirou Catarina, que achava as fatiotas dos homens da corte demasiado artificiais e efeminadas.
Subitamente, lá do outro lado da sala, a entrar pela porta, vinha Charles, com uma senhora pelo braço, mas Catarina só o via a ele. Os convidados abriram alas para o deixar passar, e se a rainha não estivesse tão hipnotizada pelo marido teria percebido que o súbito silêncio signi icava mais do que uma homenagem ao rei que chegava.
Charles aproximou-se da rainha, beijou-a na testa e, puxando para a frente de si a dama que o acompanhava, uma mulher francamente bonita e cheia de glamour, fez as apresentações:
- Sua Alteza, apresento-lhe lady Castlemaine.
Catarina estendeu a mão, que a senhora beijou respeitosamente, deixando depois a ila, enquanto o rei, com um sorriso triunfante, se sentava ao lado da rainha.
Mas as palavras singravam lentamente. «Lady Castelmaine», o título dizia-lhe alguma coisa. Puxando pela manga de um petri icado Sande, perguntou:
- Senhor embaixador, o nome desta senhora não me era estranho, deveria tê-lo reconhecido, dito alguma coisa?
O embaixador, sempre verdadeiro, respondeu, tentando retirar toda a emoção da sua voz:
- Talvez a conheça melhor pelo nome próprio: Barbara Palmer.
Catarina estremeceu. O sangue fugiu-lhe da cabeça, sentia o cabelo picar-lhe como se lhe espetassem al inetes, e de repente o tecto da sala começou a rodopiar mais depressa, e cada vez mais depressa, a música a acelerar, como se os músicos tivessem enlouquecido, e caiu, absolutamente pálida, no chão. Nem as mãos de Anne, nem as de James, nem tão-pouco as de Charles chegaram a tempo de evitar que o seu corpo delicado caísse com estrondo no chão.
James empurrou o irmão com uma força desmedida, impedindo-o de chegar mais perto da rainha:
- Seu idiota - disse-lhe, em absoluto descontrolo.
O marquês de Sande, rodeado da guarda real, pegou ao colo no corpo desmaiado de Catarina, e num tom seco, e sem olhar o rei, que parecia um menino aflito, ordenou à guarda:
- Cerrem fileiras atrás de mim.
Quando o marquês, acompanhado de lady Suffolk, chegou aos aposentos da rainha, a cama já estava aberta. Nan e Meg estavam a postos, depois de terem atravessado a correr dois claustros e subido pela escada de serviço que dava acesso directo à antecâmara da rainha. Encurtaram caminho e ganharam tempo, porque queriam lá estar quando Catarina chegasse. Nan, procurando controlar as mãos que tremiam, tirava do baú a camisa de noite da rainha e chamava as criadas para a virem despir; Meg ordenara uma infusão de laranjeira, que já sabia ser o calmante favorito da rainha, e um tijolo quente, para lhe servir de botija. Uma das criadas fora enviada a chamar o Dr. António Ferreira, certamente já retirado no seu quarto. Minutos depois, Sande agradeceu-lhes com os olhos e, pousando o corpo de Catarina na cama aberta, disse:
- A rainha tem o sangue da realeza portuguesa nas veias. Não se vai deixar abater por um gesto impensado de Sua Alteza. Sabe bem que o que está aqui em causa vai muito além dos sentimentos...
Catarina, que readquiria consciência, olhou-o, os olhos parados e tristes, e Sande percebeu que não era altura de tratar um coração despedaçado e humilhado, com sermões de patriotismo ou de dever. Dobrando a cabeça respeitosamente, saiu, na esperança de encontrar o Dr. Ferreira e o confessor de Catarina. Não podia deixar sair o chanceler sem combinar com ele uma estratégia. Àquela hora Charles estaria a conduzir a festa como se nada fosse, mesmo que os remorsos o consumissem por dentro, e no dia seguinte haveria mais teimosia. O marquês já se preparava para o ouvir dizer que afinal o casara com uma criança mal preparada para o lugar de rainha de Inglaterra, que, como toda a gente sabia, não podia ter um chilique de cada vez que era apresentada a uma mulher com quem o marido já tivesse dormido!
James e Anne também se tinham mantido nos seus lugares, num acordo tácito entre eles, de que o pior que podiam fazer aos inimigos de Catarina era dar a ideia de que a Palmer era capaz de dividir a família real, ou de que atribuíam qualquer importância a um episódio que, obviamente, era apenas uma indisposição da rainha.
O marquês de Sande fez o mesmo, sorrindo e trocando cumprimentos, informando quem perguntava que não fora nada, apenas um pequeno desmaio, talvez estivesse demasiado calor na sala, era preciso abrir as janelas, que afinal era Agosto, e nem uma brisa corria.
Enquanto falava ia procurando com os olhos Edward Hyde, que se vira obrigado a refugiar-se numa sala contígua, na tentativa, também ele, de arrastar a mulher para longe da cena do crime.
Quando Sande os surpreendeu, lady Clarendon ainda vociferava:
- Quero lá saber se me mandam para a Torre, Edward. És como um pai para Charles, viveu connosco como um filho, tens de lhe chamar a atenção, não pode fazer uma coisa destas à rainha de Inglaterra. A uma mulher tão simpática, delicada e frágil, mas que assumiu o seu lugar com toda a determinação.
Edward Hyde implorava-lhe apenas que falasse mais baixo:
- Mulher, cala-te, por favor, falamos em casa. Não sabes que isto está enxameado dos amigos de Buckingham, que é ele e a sua tribo que incitam a Palmer a usar o rei. Charles não percebe, mas é uma marioneta neste jogo, a sua infantilidade e a sua generosidade são aproveitados, e sabes como ele é, acredita em quem está a falar com ele no momento.
Sande conseguiu arrastar Hyde para o jardim iluminado por tochas, pedindo licença de passagem a casais que ostensivamente se amavam sob a sombra dos arbustos, ou brincavam ao gato e ao rato entre as colunas do claustro adjacente:
- Amanhã o rei vai insistir em que dona Catarina aceite a Palmer na sua Casa, julgando que assim nos deita areia para os olhos. Vai ser ainda mais
irme para provar a todos, sobretudo a ele próprio, que o seu
comportamento foi perfeitamente legítimo, que aquela mulher não lhe é nada, e que tudo não passa de fantasias histéricas de uma rainha imatura -disse de uma assentada o marquês.
- Ainda bem, meu caro, que tem consciência do que está para acontecer. Sabe o que é pior, vamos ser os emissários escolhidos para tentar o impossível, o que agora mais impossível ficou...
- Aceitamos o papel? Podemos pedir a dona Catarina uma coisa dessas, depois do que aqui se passou?
- Sem a sua comitiva já vai icar. Charles é generoso, gentil, mas para aqueles que fazem o que ele quer. Quem não o faz, e nós estamos incluídos, sofrerá as consequências. Não mandará que nos cortem a cabeça, porque não é o seu estilo, mas seremos colocados em posições onde não teremos qualquer possibilidade de ajudar a rainha, seja de que maneira for. É preciso levá-la a ceder...
O marquês de Sande abanou a cabeça. Há quantos anos estava ele metido neste drama, que se desenvolvia em vários capítulos?
- Duvido. Dona Catarina nunca aceitará que eu lhe peça tal coisa, sou o seu aliado, o seu embaixador, se o izer serei acusado de estar do lado da Palmer, contra Roma, um defensor de um comportamento imoral. O rei terá de compreender que não me pode pedir, a mim, uma coisa dessas...
- Não vai compreender, pode estar descansado, marquês. Mas prometo-lhe que o tentarei proteger, oferecendo-me eu para me encarregar do encontro com a rainha...
Separaram-se assim. O marquês tropeçou em mais uns corpos desnudados e desapareceu na escuridão do jardim. Ainda bem que os seus aposentos eram do outro lado daquele pátio, longe dali.
Catarina voltou a abrir os olhos, devagar. Há muito tempo que estava perfeitamente lúcida, e já tinha tido tempo para recapitular a cena na cabeça. Fizera uma triste igura, que Luísa de Gusmão nunca tomasse conhecimento de que a sua ilha desfalecera por conhecer uma amante do marido, que Luísa de Gusmão nunca soubesse que fora tão mal preparada para aquele beija-mão, que nem sequer consultara previamente a lista de convidados, que nem tão-pouco reconhecera à primeira o nome daquela odiosa mulher - deixara que lhe beijasse a mão, aceitara-a perante toda a sua corte, não podia voltar atrás naquele gesto. Quando, se tivesse sido avisada, poderia ter-se recusado a comparecer, deixando Charles e a sua trupe sem protagonista principal para a sua charada, poderia ter feito uma cena, logo ali, recusando-se a cumprimentá-la. Não era preciso mais do que isso, um gesto digno e sereno. Sem desmaios. Charles, Charles porque lhe
izera ele isto? Porque fora contrariado, queria medir forças com a mulher
que dizia amar, com quem casara?
Já o conhecia o su iciente para saber que não viria ter consigo a pedir-lhe desculpas. A noite ia longa, e ninguém batera à porta, o rei não viera a correr, nem sequer para saber se estava bem. Charles faria tudo para sentir que a razão estava do seu lado. Amanhã, viria ele, ou o chanceler, ou Sande, ou alguma outra personagem pedir-lhe que reconsiderasse, que pensasse melhor, que talvez fosse mais sensato ter Barbara no seio da sua casa, onde a podia controlar, do que à solta, pronta a deitar mão ao seu marido, a controlá-lo.
Mas a Senhora das Candeias não lho permitia, não lho permitia D. Elvira, nem D. Maria, nem os confessores, nem, sobretudo, a mãe, a mãe que a avisara que é mais perigosa uma mulher constante do que muitas galdérias encontradas fora do paço.
Nan pedia licença para lhe pôr um braço em redor do pescoço, para a puxar para cima e lhe dar a beber a infusão e o medicamento que o Dr. António deixara para a ajudar a dormir. Que vontade tinha de se agarrar a ela, como se fosse Joana, como se fosse Carminho, e chorar no seu ombro todas as mágoas, todas as desilusões, toda a vergonha. Mas não o fez.
Agradeceu a ajuda, mas disse que estava bem, obrigou-se a subir nas almofadas, que a dama lhe colocou atrás das costas para a suportar, e ia entornando o chá, quando ouviu bater à porta.
Seria ele? Teria vindo?
Ninguém se atreveu a abri-la, mas a rainha, com uma voz mais forte, ordenou:
- Entre!
Não era Charles que batia, mas Edward Montagu. Sem olhar para D. Catarina, chamou Meg.
- Trouxe este presente para Sua Majestade.
E, virando as costas, fugiu.
Meg trouxe até ao lado da cama uma raposinha pequenina, embrulhada numa pequena manta de xadrez, com um biberão de leite, e colocou-a no colo da rainha. Catarina sentiu que o coração ia rebentar - como era di ícil aceitar o amor dos outros, como era insuportável este sentimento de gratidão para com esta sua gente, que fazia os possíveis e os impossíveis por remendar um sofrimento que não tinha provocado.
- Cenoura - disse, numa voz firme e clara. - Vou chamá-la Cenoura.
- Carrot - repetiu Nan, sorridente.
- Carrot - soletrou D. Catarina, logo acrescentando:
- Cenoura, lady Nan. Charles que aprenda a dizê-lo em português!
Hampton Court, 2 de Agosto de 1662
joelhada frente ao oratório, Catarina perdia-se em pensamentos.
As orações eram o único pretexto para a deixarem sozinha, nesta vida em que nenhuma hora do dia estava livre.
Não falava ao rei há mais de um mês. Charles ignorava-a ou, pior do que isso, exibia a sua indiferença, mantendo as suas rotinas, os seus desa ios de ténis, as cavalgadas, os passeios e os piqueniques, e à noite as festas no salão principal, para onde tinha a distinta lata de convidar as damas da Casa da Rainha. Catarina fora irme nas ordens que dera a lady Suffolk: ela não compareceria a nenhuma dessas fantochadas, como lhes chamava, mas as damas teriam de ir, porque não era justo cortar-lhes as pernas, boicotar o seu futuro, sabendo que o rei as marcaria como aliadas da rainha nesta guerra absurda.
Apesar dos apelos de Edward Hyde e dos discretos pedidos de sensatez por parte do marquês de Sande, a rainha fora irme: não cederia, fosse qual fosse a chantagem, a integrar na sua casa uma mulher de pouca virtude.