Catarina de Bragança

Isabel Stilwell · Capítulo 8 de 12 · parte 2/4

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Catarina de Bragança

Hampton Court, 10 de Setembro de 1662

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

- Por menos do que isso já houve pessoas enforcadas, e nessas coisas, como o meu pai deixou bem claro, não se faz em Inglaterra distinções de classe - protestara Charles, que jurara a si mesmo que, enquanto fosse rei, não permitiria guerras religiosas entre os seus súbditos.

Mas mesmo essas discussões políticas davam à rainha a sensação de que Charles já não a via como uma criança, desprovida de beleza e interesse, e aprendia a perceber que casara com uma mulher que pensava pela sua cabeça. Quem sabe, suspirava, enquanto bordava mais um pano, talvez isto fosse o princípio de uma nova vida. Talvez Charles aprendesse a amá-la, e até a professar a religião, que a inal era a da sua mãe e dos seus irmãos. Talvez, se engravidasse em breve e lhe desse um herdeiro, o rei esqueceria Jemmy, a Palmer e todas as outras, tornando-se um homem de família. Com a raposinha aos pés, en iava a agulha no tecido e sonhava acordada.

O rei estava de novo enfeitiçado. Quando Charles se apaixonava assim, com esta força e determinação, não fazia o menor esforço para disfarçar a sua paixão.

Frances Stuart, ilha do médico de Henriette Marie, icara órfã e a rainha-mãe ordenara que se lhe juntasse em Somerset House. Quando a tímida criança se tornou uma adolescente invulgarmente bonita, a sogra pediu a Catarina que a acolhesse entre as suas damas, e Catarina izera-o com o seu habitual instinto maternal. Recomendara mesmo às Fanshawe que a protegessem e ensinassem, o que elas tinham feito, obedientes... e tontas, pensava agora Nan, com uma gargalhada de amargura.

Frances não era fácil de entender, e nem mesmo a perspicácia da mais velha das Fanshawe chegava para entender se era realmente tão estúpida quanto bonita, ou se utilizava essa estratégia para dar ao rei a sensação de que era uma quase criança desprotegida a que ninguém tinha coragem de repreender.

Hoje, ao vê-la a construir um castelo de cartas, numa das mesas de pano verde que o rei mandara colocar no salão, parecia apenas uma rapariga feliz por lhe permitirem estar acordada até à mesma hora do que os crescidos. Os seus cabelos caíam em cachos sobre os ombros, os olhos azuis eram absolutamente transparentes, e o corpo assumira formas de que os homens não conseguiam afastar os olhos.

A voz de Frances era ligeiramente aguda, mas simpática e meiga. Naquele momento pedia ao rei que lhe segurasse numa carta, e Charles aproveitava o gesto para lhe beijar a mão, retendo-a na sua.

Meg, do outro canto da sala, também não perdia nenhum pormenor, os olhos cruzando-se, indignados, com os de Nan.

- Nada passa despercebido nesta corte, meu Deus. Amanhã uma «santa alma» fará o distinto favor de colocar Catarina a par desta «cenazinha» -murmurara uma outra das damas queridas de D. Catarina.

Todos eles sabiam o que aí vinha: Charles rodearia a sua presa, que cobriria de jóias e presentes, comprados com dinheiro que não tinha, até que a dama cedesse. Ordenaria que se abrisse uma ala para a sua escolhida, deixaria que a dama escolhesse a decoração dos seus aposentos e manteria o seu amor por ela, mesmo que não o desejo. Era provável que a Palmer já cansasse, com as suas birras e caprichos constantes, e Frances fosse a nova Palmer, só Deus ou o Diabo poderiam, para já, dar resposta à pergunta que todos se faziam.

Por agora era oficial e público que a favorita era a «prima». Bastariam os olhares de ódio de uma Barbara muito grávida para não deixar quaisquer dúvidas de que assim era.

Nessa noite, Meg adormeceu com a almofada em cima da cabeça: tinha vontade de matar aquele triozinho diabólico que descaradamente ria da ingenuidade de Sua Majestade.

- A portuguesinha a esta hora está no melhor dos sonos. Sonha certamente que o rei a ama - diziam, com uma maldade que feria.

- Calem-se, idiotas! - gritou Nan, incapaz de se controlar.

Estranhamente, calaram-se. Nan olhou para a cama que Frances e Felícia partilhavam, e viu que ambas ingiam dormir. Esperaria mais uns dias, e depois, depois teria uma conversa séria com a rapariga. A inal, a rainha não mandara educá-la?

 

Meg subia as escadas de serviço, depois de mais um encontro clandestino com Francis, quando os viu. Lord Buckingham e a Palmer discutiam, furiosos um com o outro, num dos cantos mais escuros do corredor. As suas vozes contrastavam com o desejo de se esconderem na sombra, porque se ouviam à distância. Meg deu graças pelo seu capote escuro e deixou-se ficar escondida no patamar, «tenho de ouvir tudo, tenho de proteger a rainha» era o único pensamento que lhe ocorria.

A Palmer gritava:

- Percebi logo que era um golpe teu, George Villiers, duque de Buckingham. Estás preocupado com a rainha papista, que ainda por cima nem um herdeiro dá ao rei, e começas a preparar uma estratégia para a substituir... Frances é uma pateta!

- Uma pateta linda de morrer - acrescentou, provocador, Buckingham.

- Linda de morrer sou eu, e outras coisas mais, que o rei não sai da minha cama há quatro anos. Despacha-me essa miúda...

- Prima, prima, olha que a criança nasce aqui mesmo. Não gosto de ameaças, sou amigo de Charles, e duque de Inglaterra, defendo o meu rei e o meu país...

- Para isso vais meter a burra da Stuart na cama do rei, e depois o quê? Mais bastardos? Para isso já chegam os meus.

E de repente, estupefacta:

- Não acredito. Se julgas que vais conseguir que o rei renegue o seu casamento, não o conheces... Casaram há um ano, a rainha é nova, e Charles não gosta de se sentir colocado entre a espada e a parede...

- A ver vamos, e agora sossega, que ainda podemos precisar de um dos teus bastardos para o pôr no trono.

A Palmer sorriu. Se não fosse esta Frances, tão nova e fresca como ela fora quando o rei descobrira os seus dotes na cama, talvez um dia Charles casasse com ela.

As vozes começaram a afastar-se, e Meg, a tremer de raiva e de medo, correu pelo lado mais escuro do corredor até ao dormitório das damas. Ao ver Nan, puxou-a pela mão e, apesar dos protestos da irmã, arrastou-a até à pequena capelinha improvisada por Catarina.

- Meg, onde andavas a estas horas?... não respondas, não respondas. Diz-me antes porque é que estás tão branca. Foi ele que te fez mal? Tentou abusar de ti? - exclamou, exaltada.

- Chiuuu, Nan, cala-te, vim para aqui porque quero falar em segredo, não achas?

Apressou-se a contar-lhe tudo o que tinha ouvido no patamar das escadas. Nan ficou tão pálida como a irmã:

- Devemos contar à rainha, prepará-la? - perguntou.

- Já pensei nisso, mas acho que para já não. Vamos tentar meter algum juízo na cabeça de Frances. Será que ela sabe o sarilho em que se está a meter, coitada - disse Meg.

- Coitada, qual carapuça. Todas nós já vimos o rei namorar, beijar descaradamente damas na boca, abraçá-las quando menos esperam, trocar graças e galhardetes, e babar-se quando lhe respondem à letra -comentou Nan.

- Mas, como dizes, o rei faz isso tudo, e tudo ica por aí, tanto quanto sabemos. Frances pode gostar da admiração, a inal não tem pais, é natural que se deslumbre por ser o centro das atenções de Sua Alteza. Uma rapariga gosta que a olhem assim, como se não houvesse mais nenhuma no Mundo...

Nan, pela primeira vez naquela noite, riu:

- Tu sabes do que falas, mas que te livrasses de dar trela ao rei. Mas olha que cada vez que penso que estás apaixonada por um irmão deste Buckingham, por um Villiers... consegues beijá-lo, sabendo que tem sangue da Palmer?

- Bah, Nan, consegues estragar tudo. Francis é diferente, já te disse que é diferente. Mais ainda, o que vou fazer é contar-lhe o que ouvi e pedir-lhe para vigiar o irmão, e contar-me tudo, tudo, tudo...

- Lindo, mana, vais con iar a tua vida, e a da rainha, a um homem que conheces há meses. Quem te jura que ele não te usa a ti para espiar dona Catarina?

Meg abriu os olhos, horrorizada:

- Nan, que loucura. Nem sequer foi ele que se aproximou de mim, fui eu que o conquistei, que o convenci, que o seduzi...

- Ou ele é hábil e deu-te essa impressão - não resistiu Nan a dizer.

Meg levantou-se, zangada: pior do que insultar o seu Francis, era pôr em dúvida o seu poder de atracção.

Nan corrigiu-se rapidamente:

- Não te zangues. Tens razão. Vamos falar com Frances. Temos de proteger a rainha.

Catarina adorava as aulas de dança, e até D. Maria insistia em que não faltasse a nenhuma. Fazia-lhe bem, era preciso que aprendesse a dançar como estas inglesas, não podia icar sentada enquanto todas as outras rodopiavam nos braços dos nobres da corte.

Durante aquelas horas, em que seguia os passos de Mr. Spencer, esquecia tudo. A música enchia-lhe os ouvidos e o coração, e dançava como se dançasse com o pai, como se voltassem os dois à sala de música e se perdessem nela, como tantas e tantas vezes tinha acontecido. João, o duque aclamado rei, um marido tão diferente de Charles e, no entanto, nunca sentira que a sua mãe o amava com a paixão com que ela amava o seu marido - seria por ser tão esquecida por ele? Por o sentir sempre a escorregar-lhe entre os dedos?

- Sua Alteza, os seus olhos levam-na para muito longe. Volte aqui, e olhe para os meus pés, um, dois, três - clamava Mr. Spencer, e Catarina, com um sorriso encantador, como era o seu sempre que a alma se sentia leve, pediu-lhe desculpas.

- Mister Spencer, importa-se de repetir? Quero muito saber essa dança, mas às vezes a música é mais forte do que os pés.

Spencer dava ordens aos instrumentistas, e tudo começava de novo.

Frances estava sentada no parapeito da janela, os olhos postos no jardim, quando o rei entrou. Catarina sorriu-lhe, excitada:

- Que surpresa, Sua Alteza - declarou num inglês que começava a ficar mais fluente.

Charles fez-lhe uma pequena vénia e beijou-lhe a mão, mas a sua atenção estava naquela janela.

Catarina seguiu-lhe o olhar, espantada, e de repente sentiu toda a felicidade esfumar-se. Charles soltava-se do seu braço e caminhava a direito, indiferente ao escândalo que causava, para a pequena Stuart. Os músicos pararam de tocar, e Mr. Spencer pigarreou, embaraçado.

A voz de Charles ouviu-se, clara:

- Miss Stuart, porque é que não dança?

Frances, espantada, encarou-o, meio assustada, o olhar correndo da cara do rei para a cara da rainha: o que devia fazer? Não podia despachar Charles como se fosse um menino atrevido, não podia, não devia e não queria magoar a rainha. Nan atravessou a sala em seu auxílio, apesar de perceber bem a irritação que provocava no rei:

- Frances está adoentada, eu mesma ia agora acompanhá-la ao quarto, não era, Frances?

A francesinha sentiu-se apanhada numa rede. Por dentro tremia - e se o rei não me fala mais? Se volta para a Palmer ou se se fascina com Meg, que é quase tão bonita como eu? -, mas também não desejava desagradar a ninguém. Catarina permanecia junto do professor, com os olhos postos nela. Teria de ceder ao pedido de Nan, talvez depois, talvez à noite pudesse explicar ao rei que gostava muito dele, mas não suportava magoar a rainha.

Charles recuou. Percebendo que era o centro das atenções, disse duas graças, puxou o rabo-de-cavalo a uma dama, beijou uma outra, e saiu pela porta por onde tinha entrado. Frances deixou-se arrastar por Nan pelas escadas de serviço.

Catarina, pálida, mas fazendo uso de toda a sua coragem, insistiu com Mr. Spencer que precisava de ensaiar, mais uma vez, aquela valsa... Todas as damas na sala voltaram ao ensaio.

Terminada a aula de dança e de regresso ao quarto, Catarina gritou:

- Deixem-me sozinha.

Mas, de seguida, numa voz sumida, pediu:

- Por favor, deixem-me sozinha.

Deitada sobre a cama, chorou até adormecer. Lady Suffolk e D. Maria abanaram a cabeça, desgostosas. Quando é que acabaria o sofrimento da princesinha obrigada a crescer desta forma tão brutal? Quando Charles lhe mandou um ramo de lores, a camareira colocou-o numa jarrinha junto da Senhora das Candeias, mas não acordou a sua senhora. Assim que despertasse, dar-lhe ia uma infusão de laranja, e então dir-lhe-ia de quem eram. E o coração da rainha voltaria a encher-se de esperança.

Windsor, 26 de Fevereiro de 1663

 

harles insistira em partir para Windsor, o castelo de que mais

gostava. Catarina acreditava que uma mudança de ares lhes seria benéfica. A Palmer estava retida em Londres pela barriga, e a rainha pedira encarecidamente à sogra que chamasse Frances ao seu serviço por uns dias. Não precisara de explicar muito. Percebera, mal dissera o nome da rapariga, que as histórias já tinham chegado a Somerset House. Henriette tentou jurar pela inocência de Frances e Catarina generosamente aceitou que talvez a dama não tivesse consciência da força do desejo que despertava no rei.

Sentada agora no seu quarto, frente a uma lareira crepitante, pensava nas palavras que a órfã mais bonita que Deus colocara no Mundo lhe tinha dito:

- Acredite, Sua Majestade, que seria incapaz de fazer fosse o que fosse que a pudesse magoar...

Tinha de acreditar. Tinha de acreditar nela, e nele, no seu marido. Estava apenas a ser simpático, paternal, com uma miúda que tinha idade para ser sua filha.

As criadas entraram para a vestir para o jantar. Era um jantar de gala, com a assistência dos súbditos, que vinham ver o rei e a rainha cear, como quem assiste a um espectáculo, tradição a que Catarina já se começava a habituar.

O vestido de seda encarnada icava-lhe bem. A sua estatura pequena e a cintura delgada eram fáceis de vestir, diziam as costureiras, que adoravam a ternura de Catarina e se esforçavam por ajudá-la a conquistar o marido. Na cintura, uma faixa verde-escura atava nas costas com um laço enorme. Uma ita da mesma cor prendia-lhe os cabelos, que eram tão grossos que permitiam que as criadas «brincassem» aos penteados, como se queixava, sorridente, a rainha.

Quando entrou no salão aquecido, e os convidados se inclinaram numa respeitosa vénia, gostou da admiração que lhes suscitava. D. Luísa que lhe perdoasse, mas usaria qualquer vestido que levasse os olhos dos amigos do rei a brilhar assim.

Charles estava magní ico, num casaco de caça, em veludo castanho, uma camisa branca de folhos e umas botas que brilhavam como espelhos. Estendeu-lhe a mão e levou-a até à mesa. Os dois sentados, o rei e a rainha de Inglaterra. Catarina sentiu-se poderosa e feliz. Esforçou-se por mostrar o seu melhor inglês, e elogiou o castelo. Charles, um conversador nato, contou-lhe as histórias deste sítio, e de como ali tinham vivido os seus antepassados.

Os músicos tocavam num canto, e quando a refeição acabou o rei desejou boas-noites ao seu povo, e mandou que a guarda fechasse as portas do salão e se servisse os restos na porta de serviço.

Catarina espantava-se ainda com a dimensão de tudo. Com o número de pessoas, de salões, de quartos, de jardins. Sorrindo, contou a Charles como o irmão dela medira a fachada do Paço de Vila Viçosa aos passos. O rei divertiu-se com a história:

-Gostava de ter conhecido Teodósio.

Catarina suspirou. Charles gostaria de Teodósio, mas Teodósio suportaria Charles se o visse tratar assim a mulher? Tinha todas as dúvidas.

Montagu esperava-a com o cavalo pronto. Catarina desceu as escadas desconhecidas, um criado a mostrar-lhe o caminho, Nan e Meg uns metros atrás, tão divertidas como a rainha. Também para elas era um alívio deixar por alguns dias os dramas da corte, as cenas da Palmer versus Frances, a necessidade de proteger Catarina da maldade alheia. Meg, então, estava esfuziante: hoje conseguira que Francis Villiers se juntasse ao passeio. Montagu fora invulgarmente generoso, e Nan baixara a guarda: se Edward con iava no tal Francis, talvez então o amor não tivesse cegado a razão da irmã.

Montagu ajudou a rainha a subir para a sela, e Catarina implorou-lhe:

- Edward, venha connosco, não conhecemos nada destes sítios, nenhuma de nós. Lembra-se, como me prometeu, naqueles dias em que estávamos fechados no barco, que me mostraria o campo?

Montagu não resistia a nenhum pedido da rainha, como comentavam as damas, aos segredinhos. Há muito que comentavam a paixão do man o f the horse da rainha, mas achavam que toda a atenção que Catarina recebesse era bem merecida.

Meg, no entanto, parecia preocupada:

- Nan, temos de avisar a rainha para que tenha cuidado. Buckingham está à procura de qualquer coisa, do mais pequeno indício, para se virar contra dona Catarina - murmurou.

- Escuso de perguntar a fonte de tal informação - comentou Nan, vendo que Francis Villiers se aproximava.

- Exacto, escusas de perguntar, mas podes dar um toque à rainha, não podes?

- Não faço isso, não sou capaz. É o único amigo que tem, suspeito até que alimenta a esperança de provocar ciúmes ao rei.

Meg levantou os olhos ao céu, angustiada com tamanha ingenuidade:

- Nan, não me assustes, por amor de Deus. Lembra-te que o rei, embeiçado como está por Frances, pode estar mais susceptível do que nunca a pressões...

A irmã tremeu. A inocência da rainha podia mesmo levá-la a provocar uma cena, a contar a história de um encontro, a empolar um passeio, e era provável que a reacção do rei fosse oportunisticamente violenta. Não porque fosse capaz de exigir à mulher o que não exigia a si próprio -homem mais tolerante Nan nunca encontrara na vida -, mas porque era possível que icasse mais sensível à má-língua de Buckingham e dos seus amigos. Ou podia temer que, por despeito, a rainha fosse mais longe, e nunca poderia aceitar sentar no trono um ilho que não fosse seu. Ou que alguém insinuasse não ser.

Catarina sabia apenas que Montagu a amava respeitosa e silenciosamente, e que essa paixão tornava mais suportável a sua vida. Ajudava-a a sentir-se menos patinho feio. Se o rei tivesse ciúmes, tanto melhor. Dos planos de Buckingham nem sonhava.

Francis Villiers foi o primeiro a vê-los. Conhecia as cores da Guarda do Rei, a sua visão de falcão permitia aperceber-se da bandeira. Só podia ser Charles. Mas o que entendeu a seguir encheu-o de horror: ao lado do rei vinha Frances, ladeada do outro lado por lord Buckingham. Apressou o passo do seu cavalo para junto do de Meg e deu-lhe a notícia, explicando-lhe que tinha de desaparecer: se George o visse naquele local nunca mais poderia ser útil na defesa da rainha, era preciso todo o cuidado. Os seus lábios tocaram-se, e Francis partiu, o seu cabelo de um castanho-avelã a bater-lhe nos ombros, as costas direitas sobre a sela.

Meg saboreou por uns momentos o beijo, e depois caiu em si. Galopando até à frente, para espanto de todos, desafiou a rainha:

- Dona Catarina, a primeira a chegar àquele bosque é a rainha do dia!

Catarina icou perplexa, mas depois, tomada de um impulso, esporeou o cavalo e ambas partiram na direcção contrária à da comitiva do rei.

Quanto a Charles, quando reparou em Montagu, Nan e as damas da rainha, virou também no sentido contrário.

Montagu cerrou os lábios. Meg e Nan trocaram olhares angustiados:

- Esta manobra de diversão funcionou, mas a rainha vai ter de saber -murmurou Nan.

Catarina soube. Soube quando subiu a correr as escadas da cavalariça para os seus aposentos, o cabelo ao vento, as gargalhadas fáceis, liberta pelo vento da corrida que ganhara contra Meg.

- Hoje sou duas vezes rainha - comentou, fazendo uma pequena pirueta. Quando olhou em frente, não queria acreditar: no pátio, Frances falava com Charles. Frances em Windsor?

Nan segurou-lhe com força no braço:

- Vamos até ao quarto, Sua Alteza?

Catarina, uma sombra do que era há momentos, subiu com esforço cada um dos altos degraus de pedra.

- Nan?

- Majestade?

- Nan, vou fingir que não soube e não vi. Despreza-me por isso?

- Não, admiro-a.

Catarina acenou em agradecimento.

- Importa-se de dizer a Montagu que quero treinar o tiro ao arco esta tarde?

Nan assentiu. Mas tremeu por dentro. A lista de pessoas com que era urgente falar crescia: Frances, agora Montagu, talvez um destes dias o marquês de Sande - gostava daquele homem, da sua franqueza, da forma directa como falava, do cuidado que tinha com a rainha, mas sem ter medo de lhe dizer o que pensava. Era diferente de todos os outros homens que conhecia. Talvez Sande pudesse avisar a rainha do perigo em que a amizade com Montagu a poderia colocar.

Nessa tarde não houve tiro ao arco. Catarina recebeu uma carta da mãe, e sentou-se numa mesinha, aquecida por brasas de carvão, a lê-la. De repente, os amores de Charles pareciam-lhe brincadeiras de crianças, e tinha vontade de lhe dizer que um rei se ocupava da gestão do reino, e não de saias de mulheres. Em Portugal, contava-lhe Luísa de Gusmão, ninguém estava em festa. A Inquisição perseguia aqueles que lhes tinham sido mais queridos, Afonso com a ajuda de Castelo Melhor governava menos mal, mas os ódios e as divisões internas pareciam substituir as que durante tantos anos tinham mantido contra Castela e que, graças a Nossa Senhora da Conceição e à ajuda de Inglaterra, pareciam afastar-se das fronteiras portuguesas.

No resto da carta, Luísa gabava os progressos de Pedro e queixava-se do silêncio da ilha, e Catarina percebia nas entrelinhas a pergunta fatal. A mãe entendia mal fraquezas e fragilidades, dera ao marido sete ilhos, cinco vivos, três varões, e teria sempre a tentação de a acusar de não saber seduzir Charles, trazê-lo para a cama mais vezes, fazer frente com punho-de-ferro a todas as suas indiscrições amorosas, que talvez lhe roubassem a força anímica para engravidar a sua legítima esposa. Catarina ouvia as acusações não pronunciadas, e sentia-se paralisar. Como lhe podia escrever? Como lhe podia explicar que aquilo que um mouro da Praça do Comércio lhe dissera era verdade, que o seu ventre era liso, continuava liso? Como lhe podia contar que agora Charles tinha um novo amor, e ela assistia a tudo sem nada poder fazer?

Continuou a ler.

«O teu irmão agradece a forma como tu o criaste, minha ilha, que estiveste mais presente na infância e juventude dele do que eu, tão presa ao serviço deste reino.»

Subitamente teve vontade de chorar. Será que Afonso e Pedro seriam as únicas crianças que seguraria alguma vez nos braços? Ela, a quem os irmãos chamavam mãe, estava destinada a nunca o ser?

Se ao menos pudesse ser Frances, uma órfã francesa, capaz de estontear assim o rei. A que ponto chegara, para pedir a Deus uma coisa destas. Digna, levantou-se e chamou as damas para a missa. Na oração encontraria a força. Se o marido não apreciava a virtude, tanto pior para ele. Por momentos, Catarina acreditou que se conseguia convencer a si mesma. As lágrimas que lhe corriam por baixo do véu diziam outra coisa.

Whitehall Palace, 17 de Março de 1663

 

caminho da capela, Catarina percebeu que a agitação no torreão

de lady Castlemaine era grande. As suas criadas subiam e desciam as escadas com tinas de água quente e toalhas, e na porta cruzou-se com a parteira. A Palmer dava novamente à luz, e Catarina não queria saber.

Nan e Meg garantiam-lhe que o rei dizia alto, na sala, que este é que não era dele, e insinuava que o feitio acolhedor da amante já se estendia generosamente aos seus amigos, mas Catarina pedia que não lhe dissessem nada. Chocava-a profundamente que Charles falasse de coisas tão íntimas em público, não compreendia a falta de recato destas pessoas, chocava-a a forma como os maridos humilhavam as mulheres e as mulheres enganavam descaradamente os maridos.

- Diga-me, lady Suffolk, acha que os frequentadores da corte representam os nobres ingleses? - perguntou, com o máximo de delicadeza possível.

Lady Suffolk limitou-se a responder:

- Considero sinceramente que, como a minha família, muitas mais em Inglaterra morrem de vergonha quando ouvem contar o que aqui se passa.

Prosseguir a conversa seria culpar Charles pela escolha de quem o rodeava, e isso Catarina não se permitia fazer. Tentou outro caminho:

- Dizem que os costumes são como os pêndulos. Quando os puxamos muito para um lado, balouçam para o outro, e demoram muito a encontrar de novo o equilíbrio - disse.

- O exemplo é excelente - comentou, aliviada lady Suffolk, que não queria, por nada, que a rainha questionasse a mão demasiado suave que tinha sobre as suas damas, já que pelas outras não podia responder.

Mudando subitamente de assunto, Catarina perguntou, enquanto escovava o cabelo:

- Como se vai chamar a pobre da criança?

Lady Suffolk tinha vontade de dizer que pobre é que nunca seria, mas conteve-se, e respondeu com a naturalidade possível:

- Ao que me dizem, chamaram-lhe Henry.

- Não ser Charles, como o irmão, já muito me admira - disse, com um riso forçado, a rainha.

Lady Suffolk não lhe dera conta do nome todo: Henry Fitzroy, mais um «filho do rei».

Sentada agora, aconchegada com uma manta num cadeirão, com Cenoura nos braços, Catarina quis saber:

- Lady Suffolk, contaram-lhe também que abri o baile com Jemmy.

- Jemmy, dona Catarina, Jemmy Croft? - perguntou a senhora, que tinha em pouca conta o pomposo do ilho mais velho do rei, e que visivelmente ouvia a história pela primeira vez.

- Tem sido sempre muito simpático comigo, brinca com o meu inglês sem remédio, mas de forma gentil. Vem ter comigo se me vê sozinha - e o pai entretido com Frances -, tem graça, faz-me rir, mas...

- Volte atrás um bocadinho, dona Catarina. Jemmy abriu o baile com a rainha?

- Exactamente. Lord Monmouth, mais precisamente, porque foi esse o título que o rei lhe deu.

Lady Suffolk tentou esconder o seu desagrado:

- Isso já me disseram, mas continue...

- Dançava comigo, o chapéu, um chapéu de feltro azul, com uma magnífica pena de avestruz...

- Na mão, espero? Segurava o chapéu na mão, de cabeça descoberta perante a rainha, suponho - disse a camareira a medo.

- Pois é isso, lady Suffolk. Ele dançava assim, mas o rei, embevecido, veio ter connosco ao centro da sala, todos de olhos postos em nós...

- Porque formavam um par bonito, certamente - disse a camareira, aflita.

Catarina ignorou o comentário e prosseguiu:

- Enquanto dançávamos, Charles abraçou o ilho e, pegando no chapéu, colocou-o, ele mesmo, na cabeça destapada de Jemmy.

Catarina não precisava de contar mais nada. A palidez de lady Suffolk dizia tudo. Era o que pensava. Ao cobrir-lhe a cabeça, enquanto dançava com a rainha, Charles dizia à corte, a todo o reino, a inal, que equiparava o seu ilho bastardo a legítimo. Lord Monmouth em pé de igualdade com Sua Majestade.

- Julgo que o rei já desistiu de mim...

Lady Suffolk sentiu um impulso de indignação:

- Dona Catarina, com todo o respeito, penso que não pode icar sempre calada. Não pode viver aqui fechada, deixando passar estes gestos sem um remoque, uma chamada de atenção. Sua Alteza não tem consciência de que a magoa, o rei não tem - disse, pensando exactamente o contrário -, mas julgo que tem falta de que alguém lho diga. Cresceu sozinho e talvez Hyde seja o único capaz de lhe dizer umas verdades, porque todos os outros se limitam a abanar a cabeça que sim...

- Óptimos conselhos, não daria melhores a alguém que estivesse na minha situação, mas onde me levaram as minhas convicções, a minha

irmeza, a minha força de carácter? A viver na mesma casa com a mulher

que dá à luz um terceiro ilho do rei, e que talvez até hoje, dias depois do parto, já esteja de novo grávida do rei.

- Mas vai desistir? Vai deixar que alguém ocupe o seu lugar, o lugar do filho que vai nascer?

Catarina estremeceu: gostava de Jemmy, era simpática com ele, não queria que o rapazinho sentisse o peso da sua bastardia, mas tudo seria diferente quando tivesse um ilho seu. O seu Charles, porque seria certamente um rapaz, era o único legítimo herdeiro do trono, e sabia que, como mãe, seria como D. Luísa, feroz como uma leoa em defesa das suas crias.

Bath, 10 de Agosto de 1663

 

 

médico mandara-a para as termas. Precisava de ir a águas,

afirmara o Dr. Pierce, o físico do rei que agora a assistia. Catarina confiava nele. Rechonchudo, com as bochechas muito encarnadas e as olheiras sob os olhos papudos como se tivesse dormido mal na noite anterior, era um homem discreto, que percebia meias-palavras e sentia uma imensa pena da rainha. Não era preciso ser mulher para imaginar a dor de não engravidar, enquanto em redor o marido exibia os filhos, como se dissesse «como vêem, o problema não é meu».

Por isso, mandara a rainha a banhos. Quando fora recebido pelo rei para explicar a situação, fora incisivo: a rainha suportara um ano de um clima diferente, mil vezes mais húmido e mais frio do que o seu, um ano de tensão e adaptação, e acreditava que o sistema nervoso era frágil e fazia sentir a sua fragilidade no seu estado geral. Era preciso tirá-la dali, dar-lhe umas semanas nas termas de Bath, mas acompanhada pelo marido, insistia corajosamente Pierce, insinuando que de nada valeriam os efeitos das águas se Charles não izesse a sua parte de macho. Charles entendeu. Não lhe desagradava mudar de ares, o que Pierce não sabia é que Charles mudava de ares de boa vontade, desde que levasse consigo os amigos e as amigas que o mantinham perpetuamente animado, lisonjeado e divertido. O rei acompanharia a rainha, podiam publicar a notícia no jornal londrino, desde que não o obrigassem a prescindir de Frances e de Barbara.

Catarina sentiu-se mimada. O marido cedia ao pedido do médico, porque a queria ver bem, saudável, e não morta, como percebia que algumas más-línguas da corte insinuavam. 0 marido apostava na possibilidade de uma gravidez, de um herdeiro, em lugar de - e tremeu só com o pensamento - a devolver ao seu país como uma mulher infértil, ou de procurar o divórcio, como antepassados seus haviam feito. O marido, apesar de não abandonar a cansativa comitiva, fora su icientemente sensível para colocar toda aquela gente numa outra casa, guardando aposentos apenas para ele e para a mulher.

Pusera na arca a sua Senhora das Candeias - tinha a certeza de que a Virgem faria o resto, e partiu com um ânimo novo.

Nan e Meg tinham insistido em dizer-lhe logo à partida que Frances estava incluída na bagagem. Mais valia estar preparada para o que poderia acontecer do que sofrer uma outra imensa desilusão.

 

Bastava o céu azul para a fazer sentir mais con iante. O Inverno parecera-lhe horrivelmente longo. Mas depois havia muito mais. Charles montava com ela todos os dias, e Catarina confessava numa carta à mãe que nunca vira um campo tão verde, umas árvores tão antigas e frondosas, carvalhos ancestrais, à sombra dos quais se faziam piqueniques. Quando a vida lhe corria bem escrevia a Luísa, a Afonso, a Pedro, a Carminho, a todos os seus mais queridos, mas quando estava triste afastava-se, assustada, de qualquer papel, com medo de ali verter toda a sua desilusão. Ah, escrevera também a frei Pedro e pedira-lhe que visitasse a imagem original de Mourão, colocando na pequena ermida uma vela grande, «tão grande quanto a minha fé, tão grande quanto o meu desejo de que a Virgem responda às minhas orações e me dê um filho».

Os inimigos da rainha procuravam manter os sorrisos, mas a verdade é que entre eles não escondiam o seu desespero: Charles parecia estar de novo nas mãos da rainha, berrava Buckingham - a inal, que palerma era a Stuart, que não aprendera nada na corte francesa, que empilhava cartas, mas nunca mais jogava o trunfo.

Nan estava contentíssima por ver como a rainha se tornara mais solta, e abrira a boca de espanto, ainda ontem, ao ver que D. Catarina correra como uma adolescente até junto de Charles e colocara os braços em redor do seu pescoço - o rei icou surpreendido com a atitude da mulher, mas reagiu bem, como reagia sempre que se sentia capaz de fazer alguém feliz. Beijou-a na boca e atirou-a ao ar:

- Catarina de Bragança, minha mulher querida, amanhã vai beber o dobro dos copos de água milagrosa que bebeu hoje.

Catarina riu, e pendurou-se no seu braço, como fazia no do pai João, naqueles dias na Quinta de Alcântara.

Nunca Catarina viajara tanto, vira tantos sítios, falara a tanta gente. Charles aproveitava esta sua passagem por aquele condado para aceitar os convites dos nobres da região, dando-lhes a honra inesquecível de uma visita. Catarina conquistava-os sempre, sorridente, simpática, com um inglês que não parecia evoluir muito mas que era su iciente para agradecer e elogiar, afinal tudo o que os anfitriões desejavam dela.

O novo duque de Monmouth corria atrás de ambos. Jemmy fazia charme a Catarina, para fúria da Palmer, que ameaçara o pai de o meter na sua cama e convencê-lo por actos de que era bem melhor do que a mulher do rei. O sobrolho de Charles franziu-se de tal forma que até a Palmer não insistiu na provocação. Mas o rei não esqueceu a ameaça - sabia que a amante era perfeitamente capaz de cumpri-la. Era tempo de arranjar um bom partido ao ilho, uma mulher que lhe trouxesse prestígio e ajudasse a legitimá-lo de vez. Teria de o fazer em segredo: nem a mãe nem o irmão James concordariam com mais um banho de glória em cima daquele menino mimado, que quanto mais subisse, de mais alto cairia.

Mas Buckingham, Arlington e todos os outros compinchas apoiavam os seus planos: muito mais do que odiar Catarina, odiavam o duque de York, e se o trono balançasse entre o irmão do rei e o ilho de Lucy Walters, não teriam dúvidas em o dar a este último.

Hampton Court, 10 de Setembro de 1663

 

 

a manhã em que sentiu o sangue correr, Catarina não quis sair da

cama. Estavam de volta a Hampton Court há pouco mais de dois dias. Tivera um atraso de umas semanas, confiara, acreditara que era desta, tinha de ser. Agora o sangue corria, e Catarina chorava: quantas vezes levaria Charles a entrar no jogo, quando é que o rei consideraria que a rainha esgotara a sua paciência?

Lady Suffolk percebeu o que acontecera, mal entrou no quarto da rainha. Catarina, numa voz exaltada, uma voz que nunca usava, ordenou-lhe que não abrisse as cortinas. Disse que não queria ver ninguém. Que não queria comer. Que não ia à missa. Que não queria falar com o confessor.

A camareira nem se atreveu a abrir o reposteiro do dossel, de onde a rainha via o seu precioso oratório, a sua adorada imagem da Virgem. Catarina sentia-se traída, desolada, e a sua camareira-mor sofria com ela.

Naquela tarde, no entanto, insistiu:

- Dona Catarina, não pode continuar assim. Imagine quem está lá fora, vindo de longe, e ansioso por falar consigo?

Catarina tremeu. Não queria ver Charles, não suportava ver a sua expressão quando lhe perguntasse, e ela respondesse, de novo, «é mentira, não estou grávida. Mais uma vez? Sim, Charles. Até quando será assim? Não sei, para sempre, sei lá eu». Lady Suffolk percebeu e sossegou-a:

- Não é o rei, Dona Catarina. Quem ali está é o father Huddleston, e diz que tem uma mensagem para si, que quer que lhe faça um favor.

Catarina era curiosa. Lembrava-se de como Carminho a repreendia por bisbilhotar em todas as gavetas, por não suportar ver um presente embrulhado... Ordenou-lhe que o mandasse entrar, era velhinho, salvara Charles, aceitara os seus arrábidos, um santo homem...

Huddleston fez-lhe uma cruz na testa. Abençoou-a e sentou-se informalmente no fundo da sua cama.

- Quero que vá a Tilburg, em peregrinação à Virgem da Fertilidade, Senhora do ó, dizem-me os seus frades que é essa a tradução. Peço-lhe que vá discretamente, pobremente, em peregrinação.

Catarina entusiasmou-se com a ideia, e contou-lhe como, em pequena, peregrinara até à Senhora das Candeias, à ermida de Mourão, e, entusiasmada apontou-lhe a cópia da imagem.

O padre deixou-a mais feliz, e com um projecto. Partiria sozinha, apenas com duas damas e uma criada. Montagu trataria de toda a logística, não pesaria na bolsa de Charles, evitaria dar-lhe grandes explicações, pediria apenas que não deixasse de a procurar...

Quando solicitou ao marquês de Sande que lhe entregasse o dinheiro que lhe pertencia, percebeu que tocara num assunto sensível.

- Mas o acordo não previa que o Parlamento, ou o rei, me desse uma mesada? Nunca usei esse dinheiro, pois não?

- Não usou, de facto, dona Catarina, pelo menos não directamente, porque a sua Casa tem custos elevados que o rei suporta, mas a verdade é que já indaguei e esse dinheiro foi pago pelo Parlamento ao rei.

Catarina icou silenciosa. O que Sande não era capaz de lhe dizer é que Charles o gastara. Com o tom mais descontraído que conseguiu, disse:

- O rei teve necessidade de o utilizar, certamente.

- Certamente, dona Catarina, e tendo em conta que não pagámos ainda o resto do dote...

- Não podemos reivindicar aquilo que o rei vai dizer que lhe pertence -acrescentou Catarina.

- Exactamente - confirmou Sande.

- Tenho ainda algum dinheiro que a minha mãe me deu. Dona Francisco, acha que pode tratar de o trocar, de o entregar a Edward Montagu, para que possa viajar até ao santuário de Tilburg?

Sande icou silencioso. Catarina não tinha engravidado com as águas de Bath e a companhia do marido. Pobre infanta, mas sobraria para ele quando Charles se lamentasse de não ter ouvido os avisos dos castelhanos. Acusá-lo-ia de saber, também ele, da infertilidade da rainha, e de lha ter escondido. Catarina entendeu que ele entendia, mas D. Francisco não deixou que o silêncio se prolongasse:

- Se me quiser mandar entregar o dinheiro, tratarei de tudo.

Catarina agradeceu com um gesto da cabeça, e D. Francisco saiu.

O marquês não tinha vontade nenhuma de se cruzar com ninguém naquela noite. Não queria ver o chanceler Hyde, cada vez mais insistente na necessidade de um herdeiro, como se a pobre rainha não estivesse empenhada em consegui-lo, nem Buckingham e a sua trupe, e muito menos Charles. Não queria ver Frances, que o encantava com a sua beleza e o irritava com os seus esquemas, não queria ver Meg e Francis, porque a última coisa de que tinha vontade era de se ver obrigado a contar ao seu amigo Fanshawe a nova aliança da ilha; não desejava cruzar-se com D. Maria, porque estava cansado dos choradinhos de saudades de Portugal...

Decidiu tomar o caminho do jardim, que lhe permitiria chegar aos seus aposentos sem ver ninguém, quando ouviu uma voz que o chamava. Virou-se, e na balaustrada do claustro superior estava Nan. Acenou-lhe que descesse e divertiu-se ao vê-la saltar os degraus, como se fosse uma miúda da rua:

- Dom Francisco, Dom Francisco, espere, quero falar consigo.

Sande olhou-a como se a visse pela primeira vez: que olhos verdes magní icos, que pele sedosa, que sorriso encantador. A voz era ligeiramente rouca, sensual mesmo.

De repente, o marquês percebeu que não tinha vontade de ver ninguém, excepto Ann Fanshawe!

Nan icou subitamente mais tímida ao seu lado, como se os muitos anos que os separavam se tornassem subitamente intimidantes, mas não podia ficar calada:

- Posso pedir-lhe a sua ajuda?

D. Francisco não se sentia subitamente muito seguro de que a voz não lhe tremesse, mas respondeu com um aceno da cabeça. Começaram a andar pelos jardins, e Nan insistia que tinham de ir mais longe, porque não podiam ser ouvidos. Quando achou que a distância chegava, começou a falar. Falou-lhe do seu amor pela rainha, da sua preocupação, e inalmente, e sem citar o nome da irmã (também não era preciso, Sande sabia que só poderia ter vindo de Meg), contou-lhe a conversa entre os primos Villiers. Sande carregou o sobrolho:

- É muito grave o que me conta, lady Nan. Vou pensar na melhor forma de boicotarmos esses planos que põem em risco a felicidade da rainha e o acordo entre Portugal e Inglaterra.

- Mas há mais - disse Nan, agora já mais descontraída. Os seus olhos cruzaram-se, divertidos, mas subitamente viraram-se para as folhas caídas no chão. Não estou boa da cabeça, porque é que me deu esta súbita vergonha?, pensou, e, suspirando, continuou:

- O assunto é mesmo, mesmo delicado, senhor marquês.

- Diga, lady Ann...

Nan torceu o nariz, o que lhe dava um ar cómico, e pediu:

- Pode ser Nan.

D. Francisco sorriu.

- Diga, lady Nan.

Nan contou-lhe então que ela e a irmã achavam que Buckingham e os seus amigos poderiam usar contra a rainha a sua amizade com Montagu.

- Não se passa nada, dom Francisco.

O embaixador intimidou-a com o seu antigo ar altivo, e Nan retrocedeu:

- Desculpe, é evidente que não se passa nada, mas o que quero dizer é que a rainha pode ter a ingenuidade de falar nesta amizade ao rei, na esperança de lhe provocar ciúmes... e aí, se alguém já tiver semeado veneno...

D. Francisco parecia compreender bem, e não escondeu como o que lhe dizia o preocupava:

- Mas lady Nan, seria um aviso que as damas da rainha teriam mais facilidade em dar do que um embaixador...

- Dom Francisco, estamos sempre a trazer-lhe más notícias, pobre senhora. A avisá-la de que Frances escapou à guarda da sogra, que a Palmer está de novo grávida, e agora privá-la da única amizade profunda que tem por um homem, do bem que essa relação lhe faz, de como gosta de sentir que ele a olha com paixão.

D. Francisco sobressaltou-se:

- Mas Edward Montagu tem sentimentos pela rainha?

- Tem, claro que tem, mas nunca, nunca lhe faltaria ao respeito. Venera-a, é o único homem nesta corte, o único inglês que olha para ela daquela maneira, que se percebe que daria tudo para a proteger, para a proteger até do rei...

D. Francisco teve quase vontade de rir. Nan era completamente transparente e aberta. Não escondia os seus sentimentos, nem as suas interpretações românticas. Que pena este assunto ser tão sério. Teria de lhe responder de forma fria:

- Vou ver o que posso fazer, mas peço-lhe que se mantenha atenta e uma boa amiga da rainha.

- Mas depois diz-me, não diz? Diz-me se falar com ela, e diz-me se achar que devemos ser nós a falar-lhe de Montagu?

D. Francisco, subitamente cansado, murmurou, como que para si mesmo:

- Gostava muito de falar consigo muitas mais vezes, lady Nan, mas nos próximos dias terei de ir em peregrinação a Tilburg, está visto.

Nan entendeu, e teve até vontade de rir. O embaixador, face às in-formações que lhe dera, não podia deixar a rainha entregue ao seu estribeiro-mor. Quando D. Francisco se debruçou sobre a sua mão e a beijou, pareceu-lhe ter entendido qualquer coisa mais. Abanou a cabeça, como se a quisesse arrumar por dentro e murmurou: «Nan, tu e a tua imaginação.» E, de repente, sem saber porquê, regressou no tempo, àquela mesa de jogo, às folhas de chá onde Meg lera o seu futuro, ao S, aquele S para o qual não encontrara dono. Impossível, disse a si mesma. Seria?

Whitehall Palace, 20 de Outubro de 1663

 

 

ue dor de cabeça horrível. As mãos, uma de cada lado, procuravam

comprimi-la, evitar que rebentasse. Os olhos ardiam. Catarina sentia-se tão doente que nem coragem tinha de puxar o cordão da campainha. Tentou levantar-se nas almofadas, mas não foi capaz. Quando a criada, a mando de lady Suffolk, lhe trouxe o pequeno-almoço, soltou um grito:

- Socorro, ajudem, a rainha está morta.

Lady Suffolk, que preparava o vestido da rainha no roupeiro mesmo ao lado, largou tudo e veio a correr.

Catarina tinha os olhos abertos, imensos, mas vidrados, sem o menor sinal de vitalidade. Lady Suffolk tomou-lhe o pulso, a pele estava húmida e fria, mas a testa ardia em febre.

- Sally, que maneira histérica de gritar. A rainha está doente e precisa de um médico, chama-o já. E chama lady Nan, ou lady Margaret, e pede-lhes que venham depressa.

Nan, de um lado, e Meg, do outro, ajudaram o médico a abrir um pouco a camisa de noite de D. Catarina. Lady Suffolk supervisionava a consulta, e a pobre D. Maria chorava baixinho, a vela acesa frente ao oratório, a imagem da Senhora das Candeias colocada na mesa-de-cabeceira.

O médico lamentava ter sido ele o que se cruzara naquela manhã com a criada histérica da rainha - gostaria que fosse outro, que não ele, a dar as más notícias. Enchendo o peito de ar, respirou fundo e, virando-se para lady Suffolk, confirmou:

Continuar: parte 3 de 4