Catarina de Bragança
Hampton Court, 10 de Setembro de 1662
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- A rainha está às portas da morte. O corpo enche-se de pintas. Preciso de mais umas horas para con irmar o diagnóstico, mas suspeito que é sarampo. Quero o rei e o embaixador de Portugal avisados...
Os soluços contidos de D. Maria contrastavam com o silêncio absoluto que se instalara no quarto, quebrado apenas pela voz, cheia de autoridade, de lady Suffolk:
- Quero discrição e serenidade, minhas meninas. Nan, escreve um bilhete ao marquês de Sande e pede-lhe que venha aos aposentos da rainha. Meg, trata de falar com o camareiro-mor do rei e de York. Por agora não é preciso falar nisto a mais ninguém, ouviram? E nem uma nem outra de vocês estão autorizadas a voltar a este quarto.
As irmãs começaram a protestar, mas o médico insistiu:
- Uma epidemia de sarampo poderia ser mortal para muita gente, era uma irresponsabilidade entrarem aqui. Peço-vos que obedeçam.
- Mas se lady Suffolk ica! - protestou Meg, mas logo se calou, quando a camareira-mor da rainha lhe apontou a porta.
Coberta de mantas para a manterem o mais quente possível, Catarina falava sozinha. De vez em quando percebia-se nomes, pronunciados mais alto e com clareza. Chorava pela mãe, por Carminho, e implorava por Charles. D. Maria chegou a cadeira mais perto da cama da sua senhora, e prendeu-lhe a mão entre as suas:
- Dona Catarina, sou eu, estou aqui!
- Charles, Sua Alteza, onde está Charles? - e gemendo, numa dor sentida, chorava:
- Não o mereço, não te mereço, o Ali tinha razão, o Ali tinha razão.
- Delira, com certeza, não conheço nenhum Ali - murmurava D. Maria, enquanto lady Suffolk aplicava pachos de água fria na testa da sua rainha, de quem já gostava como uma ilha. Era impossível não ter pena desta portuguesinha, sempre tão corajosa, sempre tão disposta a culpar-se a si mesma e a desculpar os outros. Que a cabeça lhe rolasse no cadafalso, mas como podia ela achar que não merecia um homem que tão ostensivamente se pavoneava à sua frente com os seus amores do momento. Mas agora que importava isso.
Nan escreveu uma pequena nota ao marquês de Sande. Percebeu, surpreendida, que a sua mão tremia, e que, estúpida, agradecia esta oportunidade de o voltar a ver - «Estás louca, Nan, agora agradeces o pretexto de a tua rainha estar a morrer», protestou furiosa consigo mesma. 0 bilhete pedia-lhe para vir depressa, mas Nan sentiu que tinha de acrescentar o motivo, não fosse o embaixador português pensar, pensar... pensar o quê, meu Deus, como podia ser tão infantil?
Meg partira disparada para os aposentos do rei. Não queria intermediários, nem perder tempo em bilhetes. O camareiro-mor começou por lhe fazer um enorme sorriso, mas a cara da dama depressa o deixou sério:
- Em que lhe posso ser útil?
- Preciso de falar com o rei, e agora! - respondeu Meg, com a sua firmeza habitual.
- Falar com o rei? - perguntou, trocista.
Meg levantou-lhe o selo da rainha, que lady Suffolk lhe tinha passado para as mãos mesmo à saída do quarto, e o camareiro percebeu que se excedera:
- Lamento, lady Margaret, mas Sua Alteza saiu de manhã para a corrida de cavalos de Newmarket.
Meg ficou branca.
- Dê-me, por favor, uma caneta e um papel, e mande vir o mensageiro mais rápido que tiver, e diga-lhe que é preciso levar este recado urgentemente ao rei.
Edward Montagu icou lívido quando recebeu a ordem de encontrar, entre os seus homens, um capaz de levar uma mensagem a Charles. Percebeu tudo. Iria ele próprio, não podia con iar em mais ninguém. Quando subiu aos aposentos de Charles, deparou com Meg, e as lágrimas começaram, pela primeira vez, a cair pela cara da dama. Acenou-lhe que sim com a cabeça, a notícia estava dada ao homem que, sentia, mais se importaria com a vida ou a morte da rainha de Inglaterra.
Fazendo um esforço para conter todas as emoções, Montagu estendeu a mão para receber a pequena nota, perante o silêncio do camareiro, que compreendera também a gravidade da notícia: a rainha estava às portas da morte.
O duque de York tinha ido com o irmão, mas a mulher estava nos seus aposentos. Meg estava tão branca, que a duquesa a mandou sentar e servir-lhe um chá:
- Lady Margaret, sarampo?
- Sarampo, e o médico insiste que tudo o que podemos fazer por ela é rezar...
- Mas quero vê-la, temos de avisar a minha sogra, é preciso que nos revezemos ao seu lado...
- Não podemos - insistiu Meg. - O médico diz que uma epidemia de sarampo seria dramática. Pense nas suas ilhas pequeninas, não pode de maneira nenhuma entrar no quarto...
- Mas, e se a minha cunhada recupera a consciência e percebe que não está ninguém com ela? Nem o marido...
- O rei foi avisado, ia a caminho de Newmarket. Estará ao lado da rainha em breve - disse, com convicção, a dama. Tinha a certeza absoluta que o rei voltaria. Gostava profundamente da mulher, embora não a desejasse, mas sobretudo sentia-se feliz no papel de protector de damas desvalidas. Viria e seria o melhor dos maridos. Depois, com a consciência apaziguada e a admiração de todos, voltaria a ser como sempre fora, e Catarina icaria de novo sozinha. Tinha a certeza absoluta de que o sofrimento deste último ano apresentava a sua conta - sarampo? Onde poderia a rainha ter apanhado sarampo, se nenhuma delas o tinha? Estava tão fraca e tão sofrida, tão desiludida com o sangue que voltava a correr e a incapacidade de ficar grávida, que o seu corpo frágil sucumbia perante tanta desilusão.
- Que seja feita a vontade de Deus - suspirou a duquesa, incomodada com o silêncio prolongado da dama.
Meg também já não suportava icar quieta, enquanto a rainha morria, e levantando-se agradeceu a hospitalidade, e saiu disparada pela porta fora.
Sande abriu o bilhete, e os olhos foram directos para a assinatura, Ann Fanshawe. Sentiu-se trémulo. Ficara louco, para o que lhe havia de dar nesta idade? Nan escrevia-lhe e isso aumentava os batimentos do seu coração, estava senil. Um milésimo de segundo depois já tinha esquecido a dama - para o chamarem assim é porque a sua rainha estava realmente muito doente. Deu ordens aos criados para lhe trazerem a capa e atravessou os pátios, bem embrulhado nela. Um vento frio gelava os ossos.
Nan esperava-o no patamar que abria para os aposentos da rainha. Estendeu-lhe a mão e ele beijou-a, esquecendo-a junto da sua, enquanto perguntava o que se passava.
- Sarampo? Já mandaram vir outros médicos? Precisamos do doutor Pierce, do cirurgião-mor, e do frei António, que tem sempre consigo as suas ervas...
Sem largar a mão de Nan, trouxe-a consigo para dentro da antecâmara. De repente, consciente do que fazia, corou de embaraço e, murmurando um «desculpe», afastou-se para ir falar com o médico que bebia uma caneca de sidra quente, junto de uma das janelas com vista para o rio.
Charles deu meia volta ao cavalo e começou a galopar na direcção de Londres. A sua guarda pessoal demorou uns minutos a perceber que Sua Majestade cavalgava agora de novo em direcção a Londres, mas depressa o apanharam, formando-se em quadrado em seu redor, a bandeira dos Stuart bem alta. Montagu saltou da sela e encostou-se a um castanheiro enorme. O recado estava dado, e era ele, logo ele, que dera a oportunidade ao rei de correr para o lado do leito da sua mulher, de lhe segurar na mão, de a consolar. Logo Sua Majestade, que Edward considerava o principal culpado pela doença de Catarina, da «sua» Catarina, como dizia baixinho.
Charles mergulhara instantaneamente no papel de salvador. Enquanto galopava, recordava-se de todas as memórias românticas da sua vida em comum com Catarina. Galopara uma vez, com esta mesma determinação, quando a fora buscar a Portsmouth e a levara para Hampton Court, onde tinham sido tão felizes. As imagens passavam- -lhe na cabeça, e icava cada vez mais comovido, e cheio de remorsos: é verdade que estivera com a rainha em Bath, onde tinham passeado juntos, e que dormira na sua cama, mas com que coragem a sua mulher aceitara a sua paixão por Frances, a forma descarada - reconhecia agora, por momentos - como que a cortejava; como suportava ela o facto de não engravidar, de não lhe dar o ilho que fora a razão última do seu casamento, enquanto a Palmer se reproduzia como uma gata, mesmo frente à sua janela?
Prometeu a si mesmo mudar. Nunca nenhuma mulher doente teria, ao seu lado, um marido tão dedicado. E se assim o disse, melhor o fez. Durante vinte dias velou ao lado da sua cama e Catarina, quando por momentos tomava consciência, iluminava o rosto com um sorriso que comovia os anjos:
- Charles, ainda aqui? Mas a caça, o ténis... Sua Alteza não pode perder tanto tempo...
Charles, de lágrimas nos olhos, sossegava-a, garantia-lhe que dali não saía até que icasse boa, passando-lhe a mão pelo cabelo, sentando-se mesmo ao seu lado sobre a cama, apesar dos protestos dos médicos, que exclamavam que o rei de Inglaterra não podia correr o risco de ser contagiado.
- Charles, os médicos. Vá-se embora, por favor.
Charles dava-lhe de beber, e ela bebia sofregamente e sem um queixume a infusão, os medicamentos, a poção mais azeda, desde que fosse ele que lhos desse.
O marquês de Sande via tudo, encostado discretamente aos reposteiros da janela, há dias e dias como uma estátua naquele quarto. Sem que ninguém desse por ela, Nan esgueirava-se pela porta de serviço e, no escuro do quarto iluminado apenas por duas ou três velas, trazia-lhe qualquer coisa para matar a fome e a sede. Levava-lhe recados e arrastava-o dali para fora quando os seus serviços diplomáticos eram necessários.
Subitamente, a rainha tornara-se a mulher mais popular da corte, e era preciso que os guardas do rei travassem a entrada nos seus aposentos, porque todos queriam vir saber da sua saúde e, se possível, demonstrar ao rei a sua preocupação.
- Senhor marquês, tem de escrever a dona Luísa de Gusmão, a rainha-mãe não lhe perdoa se não lhe dá uma oportunidade de, pelo menos, rezar pela filha - implorava Nan.
O marquês olhava-a com atenção, mas respondia:
- Já informei o conde de Castelo Melhor, ele decidirá o que fazer com o que lhe disse.
- Mas Portugal é um país católico, onde todos adoram a rainha, de certeza que as orações frente à Imaculada Conceição, as orações de um povo inteiro, farão a diferença. E mãe é mãe, dom Francisco. Além do mais, se não lhe der a notícia, alguém lha dará por si, e sabe que dona Luísa lhe confiou a si, e só a si, a filha...
Sande suspirou. Talvez Nan tivesse razão. Ligeiramente irritado consigo mesmo - «agora deixo que uma mulher decida a minha estratégia diplomática» -, sentou-se na mesa do canto e começou a escrever. Queria tanto dar boas notícias, mas não podia. Concentrou-se na sugestão de lady Nan: era preciso rezar, não havia mais nada a fazer senão confiar em Deus.
Frances, que há uma semana se sentava sozinha num canto da sala das damas, ocupada com os seus castelos de cartas que construía e destruía compulsivamente, sentia-se destroçada: com tudo o que a corte dizia sobre ela, mesmo inocente, sabia que seria apedrejada caso se tentasse aproximar do quarto da rainha. Mas que compensação tinha por ter entrado no jogo amoroso do rei? Nenhuma, porque Charles passava agora todos os dias por ela sem lhe dirigir a palavra.
De repente, a sua beleza parecia insigni icante, pensou enquanto passava as mãos pelo colar de pérolas que o rei lhe oferecera, o primeiro e único que possuía, ela, órfã de pai e mãe, sem fortuna - se não fossem os seus caracóis loiros, os seus olhos azuis e o seu vago parentesco com a Casa Real... Ann olhava-a com pena. Era tão fácil deixar-se enredar pelo charme do rei. Disse-lho. Mas como era complicado perceber que, no im das contas feitas, não era nada, e que Charles rapidamente passava as culpas do seu próprio comportamento para os olhos azuis de quem não tivera culpa nenhuma de o enfeitiçar.
Frances percebia que podia ser amada e descartada num abrir e fechar de olhos. Frances tinha medo que o seu comportamento fosse responsável pela doença da rainha, como o trio diabólico já lho dissera na cara - agora, também elas, instantaneamente transformadas nas damas mais dedicadas da rainha. Mas Frances, apesar de miúda e baralhada, percebia qualquer coisa de muito mais grave, pelo menos para ela: amava o rei. Amava-o a sério, ou pelo menos mais do que alguma vez nos seus 17 anos amara alguém. Ann já o percebera há muito, mas sabia que há segredos que devem ficar guardados.
Charles saiu do quarto para jantar. Foi primeiro aos seus aposentos, tomou um banho longo, vestiu roupa lavada e saiu. Subiu ao torreão e entrou nos aposentos da Palmer. Dirigiu-se à nursery, e foi recebido com gritos de alegria pelos ilhos, que lhe trepavam para o colo e procuravam rebuçados nos seus bolsos. Era sempre assim, e fazia questão de os encher até cima, para que chegassem para todos. Pôs-se de gatas e deixou que Charles e Henry lhe montassem às cavalitas. Quando se levantou, erguendo um ilho em cada braço, reparou em Barbara. Os seus olhos violetas estavam ainda mais violetas, o seu corpo sensual ainda mais sensual, o decote mostrando o peito farto. Charles pousou no chão as crianças e, como que enfeitiçado, aproximou-se dela, beijando-a com força na boca. Barbara transformou o beijo num beijo inesquecível, e, puxando-o pelo braço, disse-lhe:
- Um marido tão dedicado precisa de descansar...
Arrastando-o para o quarto, gritou aos criados que lhe servissem o jantar nos seus aposentos. Mas quando lhe bateram à porta para pôr a mesa ouviram apenas gemidos de prazer. Embaraçados, pousaram o tabuleiro e fugiram.
Francis contou-lhe, com a cara contorcida de dor e vergonha. Contou-lhe como o seu irmão mais velho reunira os amigos e celebrara a doença da rainha.
De braço dado caminhavam entre as roseiras e os arbustos, felizmente tão altos que quem olhasse das janelas do palácio não os veria - ou assim esperavam. Meg, aconchegada ao braço daquele que amava com mais decisão a cada dia, empurrou-o, zangada:
- Celebra a doença da rainha? Mas o teu irmão é doente mental, ou apenas o maior bandido à face da Terra? - gritou.
Francis, cabisbaixo, murmurou:
- Não escolhemos de quem somos irmãos, Meg. Julgas que não ico cheio de raiva, de ódio, fosse a rainha ou outra pessoa qualquer a quem alguém desejasse a morte?
- Desejar? O teu irmão e os seus amigos fazem muito mais do que desejar! Provocam-na. Quem é que promove a Palmer, e depois Frances Stuart? Quem é que é capaz de tudo para retirar a rainha do caminho, só porque ela é católica, e eles anglicanos. Que sentido faz odiar quem louva o mesmo Deus?
- Não é a rainha que odeiam, murmurou Francis, sentindo, apesar de tudo, um aperto na garganta por trair a verdade do seu irmão...
- Não é a rainha? - protestou Meg.
- Não, a rainha é apenas um bode expiatório... se fosse fértil.
- Não digas isso, Francis, já pareces um deles, suspeito mesmo que já tenha engravidado, mas com tanta ansiedade, tanta preocupação, perdeu o bebé. Dona Catarina não diz nada, mas acho que foi isso que aconteceu desta vez, o resto veio por acréscimo.
- Pouco importam esses pormenores. O que importa ao meu irmão é que não há um herdeiro legítimo da coroa inglesa. E se Charles não tiver herdeiros...
- Já percebi tudo - disse subitamente Meg, furiosa consigo mesma por ter levado tanto tempo a chegar lá.
- O que tu queres dizer - continuou - é que o ódio de lord Buckingham é todo ao duque de York? Se o rei morrer sem descendentes será ele o rei, se a rainha morrer Charles pode casar com a tontinha da Frances, por quem ainda por cima anda perdido de amores, e lá teremos um principezinho protestante.
- Um principezinho protestante é bastante melhor do que um rei papista- comentou, azedo, Francis.
- O que é que estás para aí a dizer? Quase parece que apoias o plano maquiavélico do teu irmão. «Um rei papista» - e imitou-lhe a voz. - Que mal tem um rei papista, dizes isso com rancor? - perguntou Meg, a voz subitamente gelada.
- Não quero um rei católico no trono, admito. Para recomeçar a chacina entre uns e outros? Já vimos demasiadas guerras em nome desta divisão religiosa. Acho que o meu país ganhava em manter-se protestante, longe de Roma.
Meg engoliu em seco. Fora educada como protestante, mas há dois anos que rezava entre católicos. Entendia mal as suas divisões, e pior ainda que fossem motivo para se desejar a morte de alguém. Pela primeira vez olhou para Francis como se o Mundo inteiro os separasse.
- Acho que é melhor deixarmos de nos ver durante uns tempos.
Francis foi apanhado de surpresa. Zangado com a frieza repentina de Meg, encolheu os ombros, como se de facto não se importasse mesmo:
- Se é isso que queres.
Virou-lhe as costas, e deixou a mais nova das Fanshawe tão petri icada como as estátuas que decoravam o jardim.
O rei passou por Meg quando, descendo os degraus dois a dois, se preparava para voltar aos aposentos da rainha. Meg olhou-o, chocada: seria possível que viesse dos aposentos da Palmer este homem que há dias estava ao lado da mulher, a murmurar-lhe palavras carinhosas, aparentemente consumido pela dor?
O rei sorriu-lhe. Gostava de Margaret Fanshawe, mas nunca se atrevera a aproximar-se muito. Era tão bonita, quase tão bonita como Frances, mas não era para brincadeiras - a sua lealdade estava escrita na cara. O rei sorriu-lhe, mas Meg não respondeu ao sorriso, e a vénia que fez pouco tinha de vénia.
O rei parou, e olhou-a divertido:
- A senhora quer agora fazer o papel de minha consciência? Deixe lá, que a minha mãe já está nos aposentos da rainha, e terá todo o gosto em fazer-me um sermão.
- A mãe de Sua Alteza talvez acredite que se tenha ausentado do lado da rainha apenas para jantar - disse, com toda a impertinência, a pobre Meg, de coração destroçado, e com todo o ódio que sentia naquele momento pelos homens que partiam os corações às mulheres.
Charles deu uma gargalhada, e ao passar tocou-lhe gentilmente no cabelo:
- Lady Meg fica ainda mais bonita zangada.
Que raiva, que raiva, pensou a dama, cerrando os punhos: este homem era irresistivelmente insuportável. Devia ser primo do palerma do Francis Villiers!
O sorriso optimista de Charles desapareceu quando, minutos depois, entrou no quarto da rainha. Durante aquelas duas horas lady Suffolk e o marquês de Sande tinham-se ausentado também, e os aposentos estavam cheios de gente. Damas, padres, frades, pessoas e mais pessoas, um calor as ixiante, o tremelicar das velas a indicar que o ar estava já irrespirável. Deitada na cama, com as cortinas completamente abertas estava D. Catarina, coberta em suor, de mão dada com a pobre da D. Maria, que, cega e patareca, não percebia o que se passava em seu redor.
Charles falou alto, como raramente falava. Levantou a voz zangada e deu dois minutos para que todos, e quando dizia todos incluía na lista os senhores padres e frades, frisou, desaparecessem dali.
- Isto não é um velório, por amor de Deus. A rainha precisa de ar para respirar. Precisa de paz e silêncio, e não dessas cantilenas deprimentes, desses pregões supersticiosos. Tirem daqui as imagens, as velas, e o que é isto? Animais em sangue? Saiam já, que é o rei que o ordena.
Sande, que chegava de jantar, olhou o rei com admiração. Tinha de reconhecer que não havia ninguém melhor do que ele a gerir crises. Tornava-se mais homem, mais rei, quando havia um problema por resolver. Cheio de bom senso, e simultaneamente tolerante e generoso, sabia impor-se, sem fazer rolar cabeças.
Lançou-lhe um olhar de admiração, e o rei correspondeu-lhe com um cumprimento.
D. Maria tremia. A voz do rei sobressaltara-a. Temia que a sua menina se fosse, se Sua Alteza mandasse sair assim padres e frades. Charles dobrou o joelho, de forma a que a sua cara icasse frente à dela, e disse-lhe, num castelhano pausado e suave:
- Não se assuste, dona Maria. Só queria proteger dona Catarina do perigo deste quarto demasiado aquecido. A vela está acesa no oratório, a imagem da Senhora das Candeias está aqui junto da sua menina, e Deus, no Céu, vela por ela. Vá agora descansar um bocadinho, que aqui fico eu.
Lady Suffolk, que chegara entretanto, pegou no braço da senhora e levou-a dali.
- Sua Alteza, desculpe, não sei como é que isto aconteceu...
- Temos de nos revezar, nós os três, a guardar a rainha destes abutres, é só isso - disse o rei, sem sombra de repreensão.
Lady Suffolk baixou a cabeça, em agradecimento. Era por ser assim que ninguém conseguia guardar rancor a este homem.
Charles sentou-se de novo na beira da cama. Catarina, com o ar fresco que chegava da janela aberta pelo rei, apesar do protesto do médico de serviço, abriu os olhos. O seu rosto, agora pálido, iluminou-se do mesmo sorriso de contentamento:
- Charles, o nosso ilho não é bonito, mas é tão querido, não é? E vai icar mais parecido consigo, eu sei que vai...
O marquês de Sande, no seu posto, deu um salto de terror, mas o rei virou-se rapidamente para ele, e fez-lhe sinal de que se calasse. A rainha delirava, e não era altura de a contrariar. Debruçando-se, de novo, sobre a sua mulher, tão doce, respondeu-lhe:
- É lindo, Catarina, tem os seus olhos.
- Vamos chamar-lhe Charles, por favor, eu sei que há muitos...
- Meu amor, Charles Stuart há só este...
Sande sentia, pela primeira vez há muitos, muitos, muitos anos, as lágrimas virem-lhe aos olhos. Nan, que entrara sorrateiramente com uma caneca de chá, ficou parada ao seu lado, embalada pela voz do rei.
- E as nossas duas ilhas estão bem? Tem estado com elas? Não apanharam esta horrível doença, pois não?
- Não, querida. Estão óptimas, ainda hoje fui vê-las brincar ao arco no jardim.
- Gosta delas, Charles, apesar de termos agora um rapaz, vai gostar sempre delas?
Charles, com a voz embargada, respondeu-lhe:
- Claro que vou, meu amor, são suas filhas.
- Nossas filhas, Charles...
- Nossas ilhas, Catarina, mas agora descanse, descanse, meu amor, que eu fico aqui.
- E o bebé?
- O bebé está bem entregue, a ama toma conta dele...
- Já disseram à minha mãe?
- Já, já seguiu o mensageiro, agora descanse. Descanse para icar boa depressa.
- Não me importo de morrer consigo ao lado, Charles, não sei dizer estas coisas, mas amo-o mais do que a vida.
O rei enterrou a cara no peito da mulher, e chorou como uma criança. Nan, sem saber o que fazia, procurou os braços do marquês de Sande, que a apertou contra si.
Catarina fechou os olhos: no jardim de Vila Viçosa, segura nos braços de Carminho, via Teodósio e Joana a brincar em redor de um tanque. Lá em cima na janela, D. Luísa olhava os seus três ilhos com um orgulho indisfarçável: um rapaz e duas raparigas, um príncipe herdeiro e duas princesas.
Sentindo-se profundamente feliz, adormeceu. A sua respiração estava, pela primeira vez, livre, a febre baixara, o seu sono era sereno. Quando o Dr. Pierce entrou no quarto, para a sua visita da meia-noite, acordou o rei, que se deixara adormecer sobre a cama.
- Sua Majestade, tenho boas notícias. A rainha já passou o cabo das Tormentas. Vai ficar boa.
Charles esfregou os olhos inchados de choro e sono, e benzeu-se. Nan ajoelhou-se junto do oratório, e o marquês de Sande olhou para os archotes que iluminavam o jardim, para as luzes dos barcos que, em sinal de preocupação pela rainha, se tinham juntado no rio, frente ao palácio. Corria a madrugada de dia 5 de Novembro, vinte e dois dias passados numa a lição constante: era a hora de dar a boa-nova à rainha-mãe de Portugal.
Luísa recebeu a carta de Sande. A luz dos seus olhos vencera a escuridão. Deus poupara-a, e tinha certamente um futuro para ela. Os elogios à dedicação do genro encheram-na de esperança. Talvez tudo não tivesse passado de uma prova, e o rei de Inglaterra tivesse descoberto o seu amor pela mulher. Talvez o medo da morte lhe desse a consciência da vida preciosa que guardava entre as mãos.
Sande contava que a ilha, a sua querida, adorada, a sua única ilha, tão longe, tão longe do afago da sua mão, no primeiro dia da convalescença sorria a toda a gente, agradecida. Mas quando lhe disseram que a sua cura era obra dos médicos, abanou a cabeça, zangada:
- Só houve uma pessoa que me salvou, o meu marido.
Luísa aconchegou a carta no bolso, e foi para a missa. Uma missa de Acção de Graças.
St. James Palace, 17 de Fevereiro de 1664
entou-se na sua pequenina secretária de pau-santo e escreveu, a mão
a mover-se cada vez mais depressa, a ponto de o bico se dobrar e partir, espalhando a tinta lentamente por toda a página, como um polvo que esticava os seus tentáculos. «Vergonha», «Vergonha», «Vergonha», «Vergonha», repetia ao longo das linhas. Olhando para a folha que tinha à frente, a rainha chorou. Porque é que as coisas boas acabam sempre? Porque é que precisava de estar às portas da morte para o marido a mimar, aconchegar, lhe dizer que não a queria perder? Estava melhor, fisicamente melhor, depois do pesadelo do sarampo, mas tudo voltara ao mesmo. Minutos antes, uma dama dera-lhe a notícia: Barbara Palmer dera à luz uma rapariga. Já tinha nome: Charlotte; e o rei, apesar de alguns protestos, e alegando sempre que não era dele, aceitara-a como filha, a sua quarta filha de Barbara Palmer e do rei. Charlotte Fitzroy. Que vergonha, não era capaz de dar um filho ao homem que tanto amava. Não era capaz de cumprir a sua parte do contrato. Outras faziam-no por ela. Sob o mesmo tecto. Mas já não tinha mais lágrimas para chorar.
Deixou de se importar. Catarina acreditou que se deixou de importar, e começou a agir como se ninguém a visse, ou pudesse julgar. Passeava, atirava ao arco, aprendia a pescar trutas à linha, o que lhe dava uma imensa serenidade. Nestes dias, em que a raiva se transformava em rebeldia, Meg era a sua principal companhia. Meg, que lhe contara tudo, num im de tarde junto ao rio: como amava perdidamente Francis, mas sentia que não podia con iar nele. Não lhe respondia às cartas, evitava encontrar-se com ele, não queria ceder. Catarina percebeu que, por delicadeza, não lhe contava o motivo da discórdia, só podia ser a lealdade à rainha, e tentou tranquilizá-la:
- Se é por mim, Meg, não vale a pena. Fico grata pela lealdade que me demonstra, não o escondo, mas longe de mim ser obstáculo a um amor verdadeiro. Pense bem, se não se está a afastar daquilo que mais deseja no mundo.
O silêncio que se seguiu era fácil de interpretar - Catarina pensava na sua recusa em aceitar a Palmer e no que, na sua imaginação, essa recusa lhe custara; Meg irritava-se com os homens, por muito charme que tivesse o rei, por muito charme que tivesse Francis, recusava-se a aceitar tudo com a passividade da rainha...
Montagu passou a estar sempre por perto. A verdade, a verdade profunda, é que pela primeira vez na vida D. Catarina fazia charme, como as damas da sua corte. Gostava da sensação de ser admirada, reconhecia as borboletas no estômago, quando percebia que o seu estribeiro se encostava ligeiramente, quando a ajudava a pôr o pé no estribo. A rainha queria bem saber que pensassem o pior - aos que comentavam alguma coisa, respondia com o moto da Ordem da Jarreteira: «Honni soit qui mal y pense.» Eram tempos agitados, ocupados, mas longe de serem felizes.
Nan sentia-se posta de parte.
- Meg, trocaste-me pela rainha?
Meg encolhia os ombros:
- Posso dizer antes que tu me trocaste pelo teu velho... amigo, o marquês de Sande. Ainda não percebo o que te deu, mas os teus olhos estão tão verdes que parecem árvores na Primavera. Não enganam ninguém. E ele até canta, meu Deus, até canta na missa, canta enquanto joga às cartas, canta quando o vejo à espera de te encontrar «por acaso» num dos corredores.
Nan não conseguiu conter uma gargalhada:
- Consegues pintar as coisas de uma maneira, que até parece que me apaixonei pelo meu avô...
- Concedo, foi só por um homem que tinha idade para ser teu pai. Mas tens razão, agora eu e a rainha estamos do outro lado da barreira: queremos não nos importar com homens!
Nan ficou subitamente séria:
- Meg, dá-lhe uma palavra sobre Montagu... Ou está com ele, ou com a raposinha que ele lhe deu ao colo. A Cenoura ainda vai ser levada a tribunal, como prova de que a rainha aceita presentes do seu amante.
- Nan, cala-te! Pareces o Francis. Deixem a pobre da rainha em paz.
- O Francis pode ter-se excedido com aquela história de preferir uma rainha protestante, mas tens de entender que não conhece dona Catarina, está a ver tudo pelos olhos de um político.
- Pelos olhos do mano mais velho, queres tu dizer?
- Talvez, mas não devias misturar as coisas. Estás amargurada e infeliz, e ele também. Nunca te foi desleal, e sempre te con idenciou os planos contra a rainha...
Meg virou-se na cama, de costas para a irmã:
- Deixa-me dormir.
Catarina hesitava. A Palmer mandara um bilhete a pedir para ser recebida. Devia recebê-la? Depois de tudo o que a outra lhe izera? Mas se vinha vê-la é porque os seus interesses estavam em perigo. O que seria bom, se quem os colocasse em perigo fosse ela, a rainha. Mas, infelizmente, não era esse o caso. Charles mandara instalar Frances em apartamentos próprios - ao que parece a pedido da dama, que não tinha coragem de ofender a rainha com as manifestações de afecto que recebia (e dava?) ao rei.
Charles ficaria preocupado quando soubesse, não ficaria? Nervoso por saber que a Palmer descera do seu torreão para ter uma conversa com a rainha? Óptimo, por hoje isso chegava-lhe. Se Montagu e a Palmer não fossem suficientes para o pôr nervoso, então também já não havia como atraí-lo.
Mandou um recado de volta. Que viesse beber um chá às cinco. Chamando lady Suffolk, comunicou-lhe o encontro, e a pobre senhora só valendo-se da contenção inglesa foi capaz de evitar um grito.
- Grite à vontade, lady Suffolk, mas ique descansada, não sou tão parva como pareço. Não acredito, nem por um minuto, que Barbara Palmer se dê ao luxo desta visita porque os meus interesses estão em perigo. Vem até mim porque precisa da minha ajuda para ficar com Charles, tem medo de o perder para a Stuart. Vou ouvir o que tem a dizer. Neste momento temos as duas os mesmos interesses.
A camareira-mor olhou-a em silêncio, mas com imensa admiração.
- Majestade, permita-me que lhe diga que gosto de a ver combativa. Fica mais bonita, mais forte, mais atraente. Vamos então tratar de preparar o lanche para essa senhora. Que tal scones com orange marmalade...
As duas desataram a rir, num riso cúmplice de quem já se conhecia há muito, e se gostava. O doce de laranja amarga tornara-se uma graça comum. No dia em que o cozinheiro inglês recebera ordens de fazer marmelada, utilizara laranjas amargas em lugar de marmelos. O resultado era uma pasta que pelo menos as papilas gustativas da rainha odiavam, mas que, estranhamente, os ingleses pareciam apreciar. Ou pelo menos, e era essa a fonte do divertimento, não tinham coragem de cuspir, julgando tratar-se de um prato «very typical» de Portugal. Se a minha mãe, ou as irmãs das Chagas, provassem esta mistela escandalizavam-se, pensava, divertida, D. Catarina.
A Palmer fora submissa, lambe-botas, lambe-mãos, lambe até o doce de laranja amarga como se fosse doce, comentou a rainha com lady Suffolk quando a mulher saiu da antecâmara.
- Veio dizer-me que estava muito preocupada com a possibilidade de Charles levar mais longe a sua paixão por Frances Stuart.
- A lata da criatura, vir dizer uma coisa destas à mulher de um homem cujo matrimónio foi santificado por Deus! - comentou lady Suffolk, chocada.
- Pois não se choque, que há pior. Como «boa amiga» veio contar-me que «um grupo de gente», traduza-se por lord Buckingham e amigos, pretende que o rei se divorcie de mim e case com a prima afastada, jovem, bonita e protestante - terminou Catarina, e agora a voz já não conseguia ingir qualquer alegria.
Lady Suffolk tocou-lhe gentilmente no braço:
- Disparates, só disparates. O que ela quer é que...
- É que eu arranje maneira de despachar Frances Stuart da corte. De preferência, casá-la e mandá-la para bem longe, para casa de um duque escocês, ou, melhor ainda, irlandês...
Lady Suffolk não teve a franqueza necessária para lhe dizer que a ideia não era mal pensada, mas Catarina tirou-lhe as palavras da boca:
- Por muito que seja ajudar indirectamente a Palmer, não posso deixar de tomar nota do seu aviso. Tenho pesadelos à noite desde que cheguei a Inglaterra, com este divórcio, este divórcio que tem antecedentes no de Catarina de Aragão, e em todas as outras pobres rainhas que ao desgosto de não terem um filho somaram o da exclusão.
- Chega, Sua Majestade. Chega desta conversa, que uma mulher com pouco mais de vinte e três anos não pode dar-se por derrotada. Muito menos quando é a rainha de Inglaterra. Sua Majestade, ninguém vai pedir divórcio nenhum, nem o rei aceitaria tal proposta, faça-lhe essa justiça...
Catarina lembrou-se do delírio, do suor, da mão de Charles na sua, nas noites que passara sem dormir a seu lado, na forma como ingira, só para não a perturbar, que ela tinha dado à luz um menino... Corou. Não podia duvidar de Charles. Nos momentos di íceis nunca a abandonara. Lady Suffolk tinha razão, era preciso não misturar as suas in idelidades com a sua honra.
Ficaria atenta, mas não agiria já. Que Barbara Palmer não imaginasse, nem por segundos, que conseguia manipular o comportamento da rainha. Era isso! Nos próximos dias, para a desconcertar, seria mais simpática do que nunca com a pequenina Frances. Isso sim, deixá-la-ia louca. Pensando bem, a loucura seria no plural, também a francesa não ganharia para o susto.
Mas não chegou a ir até ao salão naquela noite. De repente, toda a rebeldia, toda a infantilidade do seu comportamento pareciam ter-se virado contra si. A sua leviandade izera sofrer vítimas inocentes e a isso não havia penitência, ou oração, que perdoasse.
Nessa mesma tarde, Charles entrara intempestivo pelos seus aposentos.
Sentara-se à sua frente, enquanto com a mão ordenava que todas as damas saíssem da sala. Sozinho com a rainha, gritou:
- A minha rainha não tem consciência de que anda a provocar a má-língua desta corte, sempre que passa horas seguidas com o seu estribeiro-mor? Ou com essa raposa ao colo?
Catarina sentiu suores frios. Seria isto ciúmes? Deveria espicaçá-los, insinuar que se passava alguma coisa entre ela e Montagu, para o tornar mais vulnerável? Decidiu avançar com cuidado, por estes territórios que lhe eram absolutamente desconhecidos:
- Não percebo o que Sua Majestade diz. Sir Edward é um empregado leal e dedicado, e um amigo.
Que vontade tinha de lhe dar murros, de o magoar, de o fazer ver que não fazia mais do que procurar pagar-lhe na mesma moeda, chamar a sua atenção, que seria incapaz de amar outro. Mas o murro no estômago, quem o recebeu foi ela:
- Acredito que sim, que seja apenas um amigo. Não descon io por um momento da sua virtude. Aliás, nem tinha autoridade moral para lhe pedir que cumprisse votos que eu não cumpro...
Reconhecia assim a sua in idelidade, sem pedidos de desculpa, sem promessas de mudança, como um ponto assente e aceite.
- Como lhe dizia - Catarina tinha deixado por momentos de o ouvir, e ele percebera que se excedera na frieza -, tenho pena de tomar esta atitude a que me obriga, porque sei que está bastante sozinha, que não lhe presto o tempo e a atenção que merecia, que, em resumo, sou um mau marido, mas não posso permitir que as insinuações continuem.
- Porquê, se não obrigam-no a pedir o divórcio? Para que case com uma mulher bonita e protestante - não resistiu a dizer uma Catarina magoada e zangada.
Charles recuou, surpreendido. Catarina surpreendia-o sempre, de cachorrinho dócil transformava-se num simples segundo num gato de unhas a iadas, e nada lhe passava despercebido, como gostava de contar à sua consciência:
- Vejo que está bem informada. É isso mesmo que um grupo de pessoas está a tentar fazer, e com o risco de conseguirem granjear o apoio popular, por isso não podemos correr riscos.
Num tom mais doce, acrescentou:
- Ninguém pode duvidar da honestidade da rainha, de que o ilho que um dia trará no ventre só pode ser o filho do rei.
Catarina sentiu o nó apertar-se na garganta. Teve medo de desmaiar. Mas o que Charles disse a seguir indignou-a:
- Por isso, amanhã de manhã, bem cedo, prepare-se para se despedir do seu estribeiro-mor. Vou ter de dispensar os serviços de Edward Montagu...
Catarina suprimiu um grito. Respirou fundo e respondeu furiosa:
- Não posso consentir que se cometa uma injustiça dessas. Ao despedi-lo parece que havia alguma razão nessas intrigas, nessa suspeita, e sir Edward não o merece. Nunca disse uma palavra a mais, nunca me faltou ao respeito.
- Paga pelo que os seus olhos mostram - comentou o rei, bonacheirão, como se achasse tudo aquilo divertido. Um man o f the horse apaixonado pela rainha.
Catarina odiou-o com todas as forças. Nem sequer tinha o ciúme como pretexto. Agia a frio. Roubava-lhe, gratuitamente, o seu único amigo inglês.
Num tom gelado, como jamais usara com Charles, limitou-se a dizer:
- Não concordo com tal decisão, e deixá-lo-ei bem expresso.
Charles parou de sorrir:
- Pouco me importa a sua concordância. Amanhã mesmo nomearei outro homem para aquele lugar...
- Ai isso é que Sua Alteza nem sonhe em fazer. Primeiro, porque as nomeações da minha Casa só a mim me dizem respeito. Segundo, porque é Edward Montagu ou mais nenhum. Se não quer sujeitar um homem a ser humilhado pela rainha, deixe o lugar vago.
Virando-lhe as costas, abriu a porta para o seu quarto e fechou-a atrás de si. Charles icou sentado uns minutos, olhando pensativamente a porta: admirava esta mulher.
Chorou sem vergonha quando se despediu de Edward. Pediu-lhe desculpa, mas ele não a quis ouvir. Entregou-lhe um ramo enorme de ervilhas-de-cheiro, «roubadas ao jardineiro de Hampton Court», disse, com o lábio de cima a tremer de comoção, e recomendou, com uma voz que tentava manter firme:
- Sua Majestade, tome bem conta da Cenourinha!
Catarina, entre soluços, colocou-lhe em redor do pescoço um io de seda com uma medalha de Nossa Senhora da Conceição.
- Que a Senhora o guarde, sir Edward Montagu, meu amigo, e não deixe que a injustiça de que foi alvo amargure, nem um bocadinho, esse coração tão generoso.
Sabiam que nunca mais se voltariam a falar.
Whitehall Palace, 30 de Setembro de 1664
adre, pequei. Passo os dias a bendizer os holandeses e a
perspectiva de uma guerra», murmurava Catarina, ajoelhada frente ao confessionário.
O seu confessor, para espanto da rainha, começou a rir:
- Sua Alteza, nunca ouvi con issão assim. Agora a rainha mais pací ica do Mundo, que odeia con litos, mesmo dentro de casa, tornou-se uma perigosa belicista? - perguntou, divertido.
- Não se ria, padre, é mesmo verdade. Charles não pensa noutra coisa senão na sua frota, na preparação dos discursos destinados a pedir
inanciamento ao Parlamento, estuda mapas, convida-me para o seu
escritório e discute comigo estratégia, e até me convidou para ir a Woolwich ver baptizar os novos barcos da frota inglesa.
Não disse, porque não era próprio que o dissesse, que enquanto o marido se ocupava com tudo isto não tinha nem tempo nem vontade de frequentar os salões, perder-se nas cartas, nem mesmo paciência para os seus jogos com a menina Frances Stuart. Também não precisava de o dizer, porque toda a corte, e o seu confessor incluído, já o tinha percebido.
Delicado e suave, o padre insistiu:
- Não é a guerra que a rainha ama, nem os holandeses que odeia. Aquilo que ama, e aquilo que odeia de facto, são amores e ódios perfeitamente legítimos. Por isso não lhe dou penitência alguma, peço-lhe só que, pelo menos perante Deus, chame as coisas pelos seus verdadeiros nomes.
Catarina sorriu-lhe:
- Pelo menos, Bombaim já foi entregue aos ingleses. A questão do meu dote deixa-me sempre envergonhada. Quanto a Tânger, sabe que esteve cá o embaixador espanhol, a exigir que Inglaterra lhe entregasse a forti icação, alegando que nem sequer estavam a fazer uso dela, como se tivessem alguma coisa com isso. Padre, fui orgulhosa, recusei-me a falar em castelhano. Puxei pelos galões, e só me dirigi a ele em inglês...
O padre riu de novo:
- Gosto de a ver capaz de reagir aos acontecimentos, dona Catarina. Deus deu-nos talentos para os usarmos, e dotou-a de inteligência, para que fizesse uso dela...
- Pois, mas às vezes tenho medo de ser pouco caridosa, de magoar os outros.
- De perder tudo...
- Sim, isso, de, perdendo a cabeça, perder tudo o que me é mais importante.
O padre suspirou. Ainda bem que D. Catarina estava tão cega no seu amor pelo marido, porque incitar uma mulher nas suas condições, constantemente humilhada pela in idelidade dentro de portas, a manter os votos do casamento seria complicado - e, no entanto, uma obrigação. «Benditos holandeses», acabou também ele por murmurar para si mesmo.
Nessa noite Charles apareceu nos aposentos de Catarina para cear. A guerra contra a Holanda, que pirateava insistentemente os barcos ingleses e lhes roubava as praças conquistadas, estava inalmente decidida. Com esforço, e para ser sincero contra a sua própria vontade, fora capaz de conseguir o apoio inanceiro do Parlamento. Estava tudo em andamento, deveria sentir-se orgulhoso do seu esforço, mas de repente um cansaço de tudo e de todos tomou conta de si. Precisava de ouvir a voz de Catarina, de escutar os seus conselhos desinteressados, que lhe contasse o que sabia do Brasil e do Oriente, tudo aquilo que aprendera com António Vieira e tantos outros portugueses que há anos dominavam a arte deste novo comércio.
Sentado junto ao fogo que ardia neste início do Outono especialmente húmido, desabafou:
- Sabem lá eles o que odeiam, querem uma guerra para os distrair da desgraça, esquecidos de que as guerras são o maior assalto aos co fres do Estado e a maior fonte de pobreza. Neste caso, os cofres já estão praticamente vazios - confidenciava amargurado.
Catarina ouvia e argumentava: era preciso colocar limites, se deixassem os holandeses prosseguir na sua política expansionista em breve seriam as costas inglesas o alvo dos seus ataques. Charles temia o que vinha a seguir, via mais longe:
- Daqui a um ano, quando os corpos voltarem envoltos na bandeira, e não tivermos dinheiro para compensar as famílias, ou sequer fechar as contas dos ordenados vencidos, então quero ver como pedem a cabeça do rei num prato.
Catarina olhou para o marido, com orgulho. Por vezes desesperava com aquele seu espírito conciliador, temia que não quisesse lutar por comodismo. Mas nestes momentos percebia que Charles vivera muito, talvez até de mais, e não se deixava levar pela demagogia nem por populismos desenfreados.
Suspirou. Só no amor parecia não medir as consequências. E daí, talvez medisse. Talvez soubesse que, izesse o que izesse, a mulher continuaria a olhá-lo com este ar de cordeirinho embevecido. Charles aprendera cedo o poder do seu charme.
No porto de Woolwich, de onde partiria a armada inglesa naquele dia 26 de Outubro, Charles tinha-lhe prometido uma surpresa. Levando-a, com os olhos vendados para gáudio da multidão que se reunira em redor do estaleiro, até junto de um navio ainda em seco, colocou a sua mão sobre o casco.
- Um presente de aniversário adiantado - exclamou, tirando-lhe a venda. Catarina parecia uma formiga ao lado do barco imenso que tinha ao lado. Olhou, curiosa, e viu, em letras douradas escritas na popa: Royal Catherine.
Num impulso, saltou-lhe ao pescoço. Charles rodopiou-a pelo ar, e Catarina ria de alegria. Que estranha é a felicidade, como é que um minuto pode, afinal, ser infinito.
Alinhados nas docas, soldados, comandantes e almirantes esperavam que o rei os passasse em revista. O duque de York comandava a frota, e lá estava ele, imponente na sua farda azul, ao lado do príncipe Rupert, que, apesar da idade, não resistia a voltar ao mar.