Catarina de Bragança
Hampton Court, 10 de Setembro de 1662
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- Veja, tia Catarina, olhe, está ali o meu pai - dizia a pequenina Mary, de mão dada com a rainha.
Catarina olhou na direcção em que a criança apontava, e sorriu discretamente ao cunhado, que retribuiu o cumprimento inclinando a cabeça numa vénia.
- Pode acontecer-lhe alguma coisa, tia Catarina? - insistiu Mary, assustada. - A mãe não pára de chorar - acrescentou, envergonhada por revelar uma confidência familiar.
Catarina pensou que se fosse Charles a embarcar neste perigoso confronto faria o mesmo, e, apertando a mão da sobrinha, olhou-a nos olhos e sorriu:
- Claro que não, Mary. O pai é corajoso e forte. Os holandeses vão fugir do barco dele, sempre que o virem. Ninguém lhe fará mal.
Rezou a Deus para que a criança não a acusasse, um dia, de lhe ter mentido.
- Tia Catarina, veja! - e Catarina seguiu a direcção que a criança apontava com o dedo. O coração ia-lhe saltando do peito: não podia ser? Mas era, era Edward Montagu, o seu cabelo ruivo ainda mais ruivo ao sol, as suas inconfundíveis sardas, os seus olhos verdes que a procuravam, tinha a certeza disso. Teve vontade de quebrar todo o protocolo e ir até ele, de o convencer a não partir, a não arriscar a vida...
Os seus olhos prenderam-se longamente. Montagu dizia-lhe, tinha a certeza disso, que sem ela não valia a pena viver. Ela suplicava-lhe que não levasse a sua paixão tão longe, que procurasse outra mulher, que fosse feliz.
Mary puxava-lhe pela mão, cansada de estar parada no mesmo sítio, mas a rainha não se mexia. Até que Montagu levou a mão ao pescoço e puxou discretamente um fio. E atrás do fio vinha a medalha.
Os olhos de Catarina encheram-se de lágrimas. Acenou ligeiramente a cabeça, em sinal de entendimento, e deixou que a criança a arrastasse. Pouco lhe importava para onde.
Meg nem sequer se atrevera a acompanhar a rainha. Recebera na noite anterior um bilhete que a deixara completamente desconcertada. Francis Villiers dava-lhe conta que se tinha alistado. Serviria no barco do duque de York, como prova da sua idelidade a Meg, ao catolicismo, à causa da rainha. O seu irmão icara furioso, ameaçara deserdá-lo, tentara comprar a sua transferência para outro navio, mas Francis fora irme: era York, o inimigo mortal de lord Buckingham, que pretendia servir directamente. O próprio duque icara descon iado: o que fazia um Villiers junto de si, porque queria servi-lo? Ou será que era um espião de Buckingham? Felizmente falara na surpresa à mulher, e Anne Hyde contara-lhe todo o romance entre o jovem e a mais nova das Fanshawe, e implorara-lhe que lhe desse uma oportunidade. York gostava de Meg, e pensando bem dava-lhe um gozo enorme que George Buckingham estivesse zangado por o seu irmão lhe jurar lealdade. Era um ponto ganho ao inimigo, e por isso recebeu o jovem Francis com entusiasmo.
Meg sabia agora de tudo isso, mas não tinha coragem de descer ao cais, com medo de fazer igura de estúpida, de se lançar nos braços do seu amado, de lhe agradecer a persistência e a lealdade.
- Nan - dizia chorando no ombro da irmã -, ó Nan, que burra fui. Agora como me vou sentir se lhe acontecer alguma coisa?
Nan, muito prática, estendeu-lhe uma caneta:
- Escreve. Eu levo-lhe a carta!
Whitehall Palace, 22 de Dezembro de 1665
ra o terceiro Natal que ia passar fora de casa. Longe da mãe, de
Afonso e de Pedro. Como tudo se transformara na sua vida, como era estranho pensar que passara quase toda a sua existência numa mesma casa, rodeada das mesmas pessoas, e agora não parava em sítio nenhum. Não chegavam os dedos das mãos para contar os palácios diferentes onde já dormira, e vivia grande parte do tempo agora no escritório de Charles, aqui em Whitehall, a olhar o mapa de Inglaterra e a traçar com o dedo todos os locais por onde viajara. Eram tantos, e tão poucos, que esta ilha parecia não ter fim. Tantos como os desgostos, pensou. No ano que ficava para trás, Barbara Palmer derrotara-a mais uma vez, dando à luz George Fitzroy, o mais recente filho de Charles que, para não variar, recusara a princípio a paternidade, alegando que Barbara dormia com meio mundo, mas acabara por dar o seu nome à criança. O mais estranho de tudo é que o rei parecia francamente desinteressado da amante de olhos violetas, mas pelos vistos não dos seus serviços na cama, até porque, pensou angustiada, a paixão que mantinha pela Stuart, segundo lhe diziam, não levara ainda a que a francesinha tivesse perdido a virgindade. O que procurava Charles, se não era sexo, o que procurava que a sua mulher legítima não lhe pudesse dar?
Sentada a olhar o jardim, de repente percebeu um vulto familiar. Os cockers spaniels de Charles corriam em seu redor, saltando para conseguir roubar um biscoito, e ela linda, aconchegada na sua capa de peles trazida do Novo Mundo. Certamente, um presente...
Frances Stuart, sim, e um pouco mais atrás, olhando-a com ar enlevado, descansando sobre o seu inseparável «walking stick», cajado como lhe chamava Catarina, estava o rei.
Catarina levantou-se, apressadamente. Não queria ver, não queria saber. Atravessou a sala tão desnorteada que chocou com alguém. Esfregou os olhos embaciados, e olhou de novo:
- Dom Francisco, que bom vê-lo! Julgava-o ainda em França - conseguiu dizer.
O marquês de Sande sorriu-lhe e Catarina sentiu a alma lavada: o amor fazia bem a este homem, que se tornara tão mais caloroso desde que se apaixonara.
- Sua Alteza - disse o embaixador, inclinando-se para lhe beijar a mão. Ia acrescentar «que feliz estou em vê-la bem», mas não foi capaz, porque percebera que a rainha tinha acabado de ser magoada mais uma vez. Tentou animá-la:
- Pareceu-me ouvi-la cantar o Adeste Fidelis, a composição do seu pai.
Catarina sorriu:
- Estava mesmo, não sei porquê veio-me à cabeça. Vila Viçosa, a casa da música no jardim, o meu pai a tocar. Sabe, nem sequer sei se é uma memória verdadeira, ou se é uma história que de tanto ouvir tenho a certeza que vivi. Mas tinha dois anos.
- Posso eu testemunhar que foi tudo assim. O seu pai era um homem extraordinário. Mas, dona Catarina, posso falar consigo em particular?
Catarina assentiu com a cabeça, e indicou-lhe a sua salinha privada. Sentaram-se, e Sande começou o seu discurso, visivelmente ensaiado:
- Não posso esconder de Sua Alteza a minha missão em França, a pedido do conde de Castelo Melhor. Pelos vistos, a minha vocação é a de casamenteiro - e sorriu para a rainha -, e desta vez procuro negociar o casamento do seu irmão com a princesa Maria Francisca de Sabóia. Uma aliança importante...
- Sobretudo, era bom para o meu irmão se conseguíssemos casá-lo com uma mulher que o amasse, que o protegesse - suspirou, e no seu suspiro subentendia-se a incredulidade: haveria alguma capaz de ser tudo isto para alguém tão complicado como o rei de Portugal?
O marquês assentiu, mas continuou, gaguejando um pouco:
- Não estou em Inglaterra em serviço...
A rainha fingiu-se admirada:
- Porque não, dom Francisco? Está sempre ao meu serviço.
Sande percebeu que a rainha lhe dava um salvo-conduto, e agradeceu.
- Estou muito grato, Sua Alteza, mas a verdade é que iz esta viagem em segredo, saí sem dizer bem para onde ia, e gostaria, desculpe a impertinência, que não a referisse nas suas cartas para Lisboa - disse, corando como uma criança.
- Deixa-me muito feliz que passe o Natal connosco, e não vejo motivos nenhuns para falar da sua vinda a ninguém, mas sabe, dom Francisco, que há mais portugueses nesta ilha...
- Pois aí está onde queria chegai dona Catarina. Entrei aqui nos seus aposentos com a discrição que lady Suffolk me permitiu, mas vinha pedir-lhe um imenso favor...
- Depois de ter passado vinte e dois dias à minha cabeceira, considero que tem todo o direito de o fazer - disse a rainha, procurando encorajá-lo.
- Peço-lhe que deixe Margaret e Ann Fanshawe irem passar o Natal a casa. O pai, Richard, está de volta, convidou-me para passar as festas em sua casa, e solicitou-me que lhe fizesse este pedido.
Catarina teve vontade de rir. O embaixador mais hábil de Portugal parecia um adolescente a pedir à mãe para ir ao baile...
- Não posso recusar nada, também, ao embaixador inglês, nem sequer a nenhuma das suas ilhas, que me têm servido com uma lealdade extraordinária. Sei que vão bem acompanhadas. Pode dizer a todos os interessados que estão livres de partir quando quiserem, com a minha bênção.
Sande levantou-se, e com uma rápida vénia despediu-se. Catarina suspirou: que futuro poderia ter Nan junto deste homem, com idade para ser seu pai? Encolheu os ombros. Quem era ela para dizer o que podia, ou não, fazer alguém feliz.
Jemmy estava cada vez mais bonito. Mais convencido. Mais impertinente, mas ainda conservava uma cara de bebé que lhe permitia alguns atrevimentos. Como o de apanhar a rainha pela cintura e dizer-lhe, numa voz sedutora:
- Acompanha-me à varanda, para ver as estrelas?
Catarina deu uma enorme gargalhada. Nesta noite de Ano Novo agradecia a companhia do ilho bastardo do rei, casado já com uma das maiores fortunas inglesas, a que vinha apensa uma adolescente, pouco mais do que uma criança.
- A sua mulher não nos quererá acompanhar? - e antes que o pretensioso duque pudesse dizer fosse o que fosse, chamou, na sua voz doce, pela pequena Anne e, dando a mão a cada um deles, dirigiu-se para a janela aberta.
A noite estava gelada, a neve cobria os relvados do palácio e os telhados da cidade. O frio tornara o ar transparente e o céu estava claro e estrelado como nunca o vira, nem nas noites mais transparentes do Alentejo.
Aos poucos, vendo que a rainha estava lá fora, a varanda foi-se enchendo de convidados que achavam a sala demasiado quente.
Charles acabou por aparecer, e sorriu de satisfação ao ver Catarina em amena conversa com o seu ilho: era generosa a sua rainha, e que bonito lhe parecia Monmouth, que pena que não fossem mãe e ilho, embora tivesse de reconhecer que podiam ser marido e mulher. Quando ia entrar na conversa e fazer notar a sua presença, ouviu-se um grito. Uma das senhoras apontava para o céu, assustada: uma luz estranha iluminava o horizonte. Charles, um amante da ciência, que quando não estava ao ar livre se fechava no seu laboratório com o seu primo Rupert, exclamou de espanto e alegria:
- Um cometa, meu Deus. Estamos a ver um cometa atravessar os céus de Londres, e nenhum dos meus astrónomos, nenhum dos meus astrólogos, me alertou para isto - protestava.
Pegando em Catarina para que ela visse melhor, sussurrou-lhe ao ouvido:
- Talvez seja um sinal, como foi a estrela de Belém.
Catarina mordeu o lábio, comovida. Como queria que este momento durasse para sempre. Como desejava que, não podendo isto ser possível, a luz fosse sinal de que era este ano, o ano da glória de 1665, que daria à luz um príncipe herdeiro. Fechou os olhos e com todas as suas forças desejou uma gravidez.
Charles nessa noite veio ao seu quarto.
Hampton Court, 22 de Maio de 1666
tragédia tinha-lhe sido comunicada por um dos seus frades.
Charles não tivera coragem de lhe dizer, e Edward Hyde, o chanceler, há muito que lhe deixara de contar estas coisas. Desta vez não era mais um episódio da longa guerra com a Holanda, que, como Charles previra, uma vez iniciada nunca mais tinha fim... Desta vez o ataque era interno, dentro das quatro paredes do reino de Inglaterra.
A tão temida lei tinha passado no Parlamento. Chamavam-lhe The Five Mile Act, e era a demonstração pública de que crescia, entre os representantes da nação, um ódio claro e indisfarçável aos católicos. Dizia o texto que os padres católicos estavam proibidos de se aproximarem a uma distância de menos de oito quilómetros de onde tinham sido expulsos- e todos os dias chegavam notícias de novas expulsões. Deixava ainda claro que só eram permitidas reuniões ou cerimónias de anglicanos. Qualquer aglomerado de gente em redor de um padre católico, mesmo que no mais perdido descampado, dava lugar a prisão.
Catarina tinha di iculdade em entender o poder deste Parlamento. De onde vinha, o rei era soberano e nunca ninguém poderia passar uma lei destas sem o seu acordo. Aqui, e os seus conselheiros explicavam-lhe, o rei não podia vetar esta decisão. A rainha temia pelos seus arrábidos, instalados discretamente num convento adjacente a St. James. A capela onde, por ironia, o rei prometera pintar as armas dos Stuart e dos Bragança por cima do altar-mor e na varanda onde ela e a sogra assistiam à missa. E agora?
Charles já há dias que sabia o que se ia passar. Fugira dos aposentos da rainha ou de se cruzar com ela, mas agora que a notícia já era pública sabia que não podia deixar de a ir dar pessoalmente, ingindo-se surpreendido, talvez. Entrou de rompante pelo salão da rainha e Catarina, zangada, foi incapaz de resistir:
- Sua Alteza Real vem prender-me? Dentro de uma hora estarei numa das salas deste magní ico palácio reunida com um grupo de católicos, acho que tem bom motivo para chamar a guarda!
Charles franziu o sobrolho, zangado. Vinha pedir-lhe desculpa, justi icar-se, mas quando se sentiu posto entre a espada e a parede deu meia volta e desapareceu. Catarina deixou-se cair num dos cadeirões da sua salinha e, escondendo a cara nas mãos, vociferou contra si mesma «estúpida, estúpida, porque é que não controlas essa língua. O que é que ganhaste com esta demonstração de azedume? Nada, nada, mais uma vez nada!» Deixando a cabeça subir e encostar-se às costas da cadeira, suspirou: «Padre António Vieira, porque me abandonaste?» Pobre homem, abandonado e perseguido estava ele, e ela a nomear o seu nome em vão, mas como lhe faziam falta os seus conhecimentos teológicos, a sua argumentação sábia. De frei Pedro buscara sempre consolo e empatia, mas do pregador do reino esperava armas para lutar numa guerra aberta contra a sua religião. Escrever-lhe-ia. Estava certa de que a aconselharia.
Durante as semanas que se lhe seguiram passeou-se pelos jardins -estavam magní icos, cheios de lores, as relvas imensas de um verde fresco, tudo renascia com uma força só possível nesta terra húmida, tão parecida com Sintra. Invariavelmente sugeria o caminho que a levava frente ao campo de ténis coberto que Charles mandara construir e onde jogava desa ios renhidos com Rupert, que, para raiva do monarca, lhe ganhava sempre. Esperava encontrá-lo, trocar com ele um sorriso que restabelecesse tréguas. Mas Charles, pelos vistos, não jogava àquelas horas...
Nan estava tão melancólica como a rainha, e Meg treinava o tiro ao arco com intensidade, montava sozinha horas a io, mas estava igualmente desolada.
Num passeio pelo pomar das laranjeiras que a rainha mandara plantar, encomendando de Lisboa as pequenas arvorezinhas que se tinham dado muito bem em solo inglês, Catarina de repente desatou a rir:
- Já viram o trio que fazemos? Parecemos um bando de solteironas abandonadas...
Nan sorriu-lhe:
- Prefiro pensar que os nossos homens estão tão ocupados a fazer mover o mundo que não estão connosco apenas porque não podem.
Catarina olhou-a, os imensos olhos negros subitamente muito sérios, enquanto pensava como tudo seria mais fácil se acreditasse realmente que Charles, tal como o marquês de Sande e Francis Villiers, estava de facto tão completamente ocupado com a guerra que não tinha um minuto para a visitar.
Nan apanhou três margaridas, e estendeu uma à rainha, e outra a Meg:
- Love me, love me not...
Catarina repetia o jogo do Muito, Pouco ou Nada, com entusiasmo, e o inglês tornava-se agora tão natural que o fazia já na mesma língua que as irmãs Fanshawe.
- Love me - exclamou Catarina, e, como se estivesse no jardim do paço com os irmãos, esqueceu quem era, o lugar que ocupava, e pegando no braço de Nan dançou com ela uns passos sobre as pedrinhas que cobriam o caminho.
Meg preparava-se para lhe dizer que izera batota, mas Nan proibiu-a com os olhos: aquela franqueza inata da irmã era capaz de destruir muitos corações.
A rainha continuava a cantarolar «Love me, love me, muito, muito» e colocava no bolso a flor que lhe mudara o humor.
Quando, ao im da tarde, Charles inesperadamente se fez anunciar na sua sala de costura, a rainha não conseguiu impedir-se de trocar um olhar de cumplicidade com as Fanshawe.
Meg murmurou:
- Meu Deus, já não digo nada, amanhã vou apanhar mais malmequeres, pode ser que Francis me entre pela porta e eu tenha, inalmente, a oportunidade de o ter nos braços, de me certi icar, pela intensidade do seu beijo, que é meu, continua só meu, e nada mudou...
Dobrando-se sobre a camisa para os pobres que costurava, deixou cair grossas lágrimas sobre o pano. Nan, discretamente, passou-lhe um lenço bordado e animou-a:
- Vais ver que está mesmo a voltar. O Francisco, quer dizer o meu Francisco, que ideia foi esta de nos apaixonarmos por homens com o mesmo nome?, continua envolvido em negociações, de que obviamente não me conta nada, mas prometeu tentar meter-se num barco e dar um salto até Inglaterra. Se ao menos fôssemos para sul, mandava-lhe recado, quem sabe se por mim atravessava o canal da Mancha.
Meg ia responder-lhe que por ela o sóbrio marquês se atiraria por certo ao mar, não fosse a idade avançada, mas icou subitamente calada. Nan seguiu-lhe o olhar e percebeu que a inal Charles entrara apenas com o desejo de ver Frances Stuart. Entreolharam-se - logo hoje, logo hoje que Catarina ficara tão confiante no destino que o seu malmequer lhe ditava!
Frances não resistia a levantar os olhos do bordado para con irmar que era nela que o rei tinha a atenção. Con iante ao perceber que a rainha a inal falava sozinha, porque Charles não tirava os olhos de si, ingiu-se embaraçada virando-se de novo para a costura.
- Que cabra - murmurou Meg.
- Talvez seja só miúda e toda a admiração régia lhe tenha subido à cabeça.
- Nan, na cabeça apanhaste tu muito sol! Vê lá se não aceitou os aposentos que o rei lhe pôs à disposição. Olha só para o novo colar de pérolas de duas voltas. Sabe que a rainha sabe que só sir Charles lho pode ter dado...
Mas o rei tinha percebido que estava sob observação, e num gesto de bom senso beijou a mão da mulher e decidiu partir dali sem mais escândalo. Todas as damas se levantaram para lhe fazer uma vénia, mas Nan, Meg e duas outras damas igualmente rápidas juntaram ileiras, de forma que o rei não tivesse acesso fácil a Frances. Sabiam bem do que ele era capaz, e não queriam ver este momento de felicidade da rainha estragado, já bastava a má-língua viperina de algumas destas damas que acabariam por insinuar junto dos ouvidos de Catarina que o rei só viera para ver a mulher que amava... e que decididamente não era aquela com quem tinha casado. Charles percebeu o movimento das manas Fanshawe e da dama portuguesa, e contemplou-as, trocista. Não disse, mas podia ter dito, qualquer coisa como: «Pobres miúdas, julgam que preciso da vossa autorização para a meter na minha cama?» Mas elas ingiram não entender a ironia, insistindo na vénia. O rei, como acontecia sempre, não conseguiu deixar de soltar uma gargalhada. Beliscando a bochecha de Meg, murmurou:
- Sempre atenta, lady Meg. Gosto de quem serve os seus com lealdade.
Raio do homem, pensou a dama, é mestre nesta capacidade de virar o bico ao prego.
Salisbury, 26 de Julho de 1666
iajavam para sul. Charles viera avisar a rainha da necessidade de
partir com a corte para Salisbury, ou mais para baixo ainda, se a peste que tinha deflagrado em Londres continuasse a propagar-se. Começara com o calor no centro mais populado e sujo da cidade, e agora só não fugia quem não podia. Morriam às centenas por dia e as carroças passavam a cada minuto para recolher mais corpos, lançados depois em enormes valas cobertas de cal na tentativa de que não contagiassem mais ninguém.
Catarina desta vez não se atrevera a dizer nada a ninguém, mas acreditava estar grávida. Lady Suffolk suspeitava e D. Maria, apesar da cegueira, pressentira-o, mas ambas respeitavam o seu desejo de silêncio. Se era verdade que uma gravidez serviria para calar as vozes que a apelidavam de infértil, era mais do que certo que um aborto seria pretexto para acordar uma nova campanha contra a incapacidade de levar a bom termo uma gravidez.
Mentia, havia uma pessoa a quem tinha contado. Escrevera a frei Pedro por emissário secreto. Pedia-lhe desculpa pela ousadia do pedido, mas confessava-lhe o seu desespero. Implorava-lhe que, sem consultar fosse quem fosse, encontrasse forma de tirar da ermida de Mourão a verdadeira imagem da Senhora das Candeias. Mais di ícil ainda, de lha enviar para Inglaterra, disfarçada num carregamento de laranjas ou de especiarias. Sentia que só a Virgem seria capaz de a ajudar a ter este ilho. O ilho de Charles, que mudaria a sua vida, tornaria o seu lugar incontestado, realizaria esta ânsia imensa de ser mãe, de segurar nos braços um bebé seu. Dizia-lhe que sabia que o que lhe pedia era di ícil, mas con iava que conseguisse encontrar um estratagema para «roubar» a Santa sem que ninguém desse por isso - não sabia como, mas acreditava que frei Pedro seria iluminado por Deus na hora certa...
Agora na carruagem com o rei, em viagem rumo a mais uma cidade que nunca vira, rezava baixinho para que os saltos do caminho não desmanchassem a vida que crescia dentro de si. Sem dar por isso, colocou tantas vezes a mão no ventre, como se a cada solavanco quisesse proteger o ilho, que o rei percebeu tudo. Chegando-se mais perto dela, beijou-a longamente e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Quando chegarmos, e já não falta muito, quero que a minha mulher descanse. Tem sido um ano di ícil para ambos, mas quem sabe se não acabará por ser o mais memorável.
Catarina virou sobre ele os seus olhos negros e brilhantes e adorou-o:
- Temo que seja pecado amar alguém como amo o meu marido -desabafou.
Charles sorriu-lhe:
- Fique descansada, minha rainha, que não tenho a menor ilusão de me equiparar a Deus! Seja como for, estou-lhe muito grato por esse amor, que decididamente não mereço.
Meg, sentada no lugar em frente da carruagem e procurando ingir-se concentrada num livro, num gesto inconsciente abanou a cabeça, irritada. Era tão típico dos homens, deste homem em particular, atirar as culpas sobre si mesmo antes que alguém o acusasse, acreditando que bastava uma con issão em voz alta para que nunca mais ninguém lhe pudesse atirar nada à cara. Resultava quase sempre. Resultara agora. Catarina murmurava já qualquer coisa como «Charles, meu amor, eu é que tenho de lhe pedir desculpas!»
«Que arte», quase disse alto a dama, mas cerrou os lábios e mergulhou de novo na leitura de um manual de batalhas navais. Queria perceber tudo o que Francis lhe dissesse quando voltasse.
Nan não conseguia esconder a sua alegria. Nan não conseguia esconder nada, disse-lhe Catarina, enquanto caminhavam de braço dado para a pequenina capela improvisada.
- Dona Catarina, desculpe, devia contar-lhe tudo, mas não posso, prometi-lhe não dizer nada a ninguém.
Catarina afagou-lhe a cabeça.
- Não preciso que me diga nada, basta-me olhar para esses olhos, tão verdadeiros como os meus. Era bom que conseguíssemos esconder um bocadinho mais daquilo que sentimos, não era?
- Nas mãos erradas, Alteza, é uma informação que pode ser usada contra nós; mas nas certas...
E Nan, num gesto de ousadia, encostou por momentos a cabeça ao ombro de Catarina. Também ela sabia o segredo da rainha.
Chegaram as duas no mesmo dia. A carta e uma caixa grande de ripas de madeira, de onde caíam folhas de chá, mas que cheirava a laranjas. Ambas foram levadas até ao quarto da rainha, como expressamente pediam os mensageiros, tanto o que trouxera a carta, como o que chegara carregado.
Quando viu o caixote, Catarina esfregou as mãos de contente e pediu que a deixassem sozinha. Sentou-se na sua cadeirinha alentejana, que insistia em trazer sempre consigo, com a carta no colo, o embrulho em frente com as fortes correias ainda por desapertar.
Decidiu que abriria primeiro a caixa - se estivesse lá dentro aquilo que suspeitava teria mais força para suportar o conteúdo do que vinha escrito, mesmo que as notícias não fossem boas - e o selo da marinha inglesa fazia-a suspeitar que podiam não o ser...
Ajoelhando-se, abriu com alguma di iculdade o caixote. Delicadamente, mergulhou as mãos entre as folhinhas secas de chá e sentiu um arrepio na espinha quando tocou com as mãos no veludo de um saco. Com todo o jeito que os seus dedos trémulos conseguiram mostrar, puxou-o devagarinho, espalhando pelo chão as folhinhas que lhe vinham agarradas. O saco cheirava a laranja, e na parte da frente estavam bordadas as insígnias reais - só o Convento das Chagas, paredes-meias com o paço, estava autorizado a bordá-las.
Soltando os cordões, libertou a imagem da Santa, a imagem genuína da Virgem, meio metro de pedra de Ançã, as vestes brancas debruadas a ouro que aos dois anos fora levada a adorar. Não queria pensar no risco a que expusera frei Pedro para que este seu capricho se realizasse. Correndo para a imagem que era sua desde pequenina e que nunca se afastava do oratório, tratou de a substituir rapidamente: se D. Maria estivesse bem seria a primeira a perceber a diferença entre a verdadeira e a falsa, até porque a verdadeira era bem maior, mas acreditava sinceramente que mais ninguém olhava para a sua Senhora com a atenção necessária para perceber a troca. Acendeu uma vela maior e entregou-se à oração mais profunda e sentida que qualquer mulher alguma vez rezou, como mais tarde escreveria a frei Pedro. Mas com a coragem de quem aprendeu que Deus tem os seus próprios desígnios, terminou-a com um fervoroso «mas, acima de tudo, que seja feita a Sua vontade». Como desejava que, por uma vez, a vontade de Deus e a de Catarina de Bragança coincidissem.
Fechando de novo a caixa, onde colocara a imagem falsa, empurrou-a com o pé para debaixo da cama - pediria a lady Suffolk que a tratasse como ouro. Não lhe diria o que continha, mas estava segura que mesmo que algum curioso a abrisse entenderia que nos tempos que corriam era necessária toda a discrição para transportar uma imagem religiosa, porque a inal a Igreja de Inglaterra abolira a adoração de imagens, que considerava um rito pagão.
Catarina respirou fundo. Adorava Deus e orava ao Santíssimo através da Virgem Maria, era só isso...
Estava tão embrenhada em pensamentos que quase esqueceu a carta que icara pousada na mesinha. Pegou-lhe, voltou a sentar-se na cadeirinha, e, respirando fundo, abriu-a. Desatou num pranto. «Eu sabia, eu sabia que este desejo de a manter selada tinha uma razão de ser», chorava. A marinha inglesa, a pedido de sir Edward Montagu, dava-lhe conhecimento da sua morte em batalha, a bordo do Royal Catherine. Na carta estava acrescentado à mão, numa letra segura: «Sir Edward pediu-me, minutos antes de se reunir ao Senhor, que lhe izesse o favor de transmitir a Sua Alteza que foi uma honra morrer ao serviço da rainha.» Pobre Montagu, o seu mais leal amigo, que sofrera tanto pelo único erro de lhe ter demonstrado a sua dedicação. Assobiando pela pobre Cenourinha já tão trôpega, pegou-lhe ao colo: apesar da idade mantinha o pêlo encarnado-vivo, como os cabelos de Edward.
Nan viera procurá-la. Lady Suffolk dissera-lhe que a rainha pedira para icar sozinha, mas já lá iam duas horas e preferia que fosse Nan a ir ver o que se passava. Trocaram um olhar de entendimento, ambas rezavam para que não fosse nada que agitasse a rainha, agora que se encontrava neste estado, agora que o rei a visitava todos os dias e pelos seus cuidados deixava bem claro que também ele sabia o que ninguém era suposto saber.
Abriu a porta devagarinho e, percebendo que a rainha estava como uma estátua sentada naquela cadeirinha que trouxera da sua casa natal, aproximou-se suavemente:
- Penso que essa posição muito tempo seguida lhe pode fazer mal. Permite-me que a ajude a sentar-se numa cadeira mais confortável?
A rainha estendeu-lhe a mão, como uma criança a estende à ama, e Nan segurou-a ajudando D. Catarina a mudar de assento, sem deixar cair nem a raposinha, nem a carta que segurava na outra mão.
Ajoelhando-se depois aos seus pés, voltou a perguntar:
- Percebo que essa carta lhe trouxe dor... quer falar sobre isso?
Catarina olhou de soslaio para a imagem - a verdadeira imagem da Virgem de Mourão - e acenou que sim com a cabeça:
- Montagu, sir Edward Montagu morreu em batalha, a bordo do Royal Catherine.
Nan ficou em silêncio. Gostara sempre muito do estribeiro-mor da rainha mas, como acontece sempre que uma tragédia ocorre, pensamos primeiro naqueles que nos estão mais perto: tinha pena, mas seria muito mais doloroso se a morte anunciada fosse a de Francis Villiers e lhe coubesse dar a notícia à sua querida irmã Meg. As notícias dos combates contra os holandeses nesta guerra que se eternizava por enquanto favoreciam Inglaterra, e ainda há pouco York anunciara ter afundado vinte embarcações inimigas, mas mesmo nas batalhas vitoriosas havia mortos de ambos os lados...
Devagarinho, disse-lhe:
- Sua Alteza, sir Edward Montagu morreu como desejava morrer. Por si. Aceite essa dádiva de amor e lealdade, que bem a merece.
A rainha escondeu a cara.
- Aceite ser amada, Sua Majestade. Permita-me a liberdade de lhe dizer isto, mas precisa de acreditar mais em si. É uma mulher cheia de sabedoria, doçura e serenidade. Tem sofrido muito, mas sempre com coragem e sem queixumes, sem cair na tentação de encontrar bodes expiatórios - e pensava bastante mais do que o seu marido, que fez do seu estribeiro-mor um deles... -, mas tem de ser capaz de aceitar também as coisas boas que lhe acontecem. São tanto vontade de Deus, ou mais, do que as más.
Catarina olhou-a, surpreendida, e perguntou de repente:
- Nan, conheceu frei Pedro quando viveu em Portugal?
Nan sorriu:
- Tinha e tenho grande admiração por ele, falámos muitas vezes.
- Percebi logo. Tinha de ser - exclamou Catarina, entusiasmada.
- Mas tinha que ser porquê, Sua Alteza? - quis saber Nan.
- Porque Frei Pedro vê Deus assim. Disse-me sempre que não gostava de ver Cristo na cruz, que lhe parecia que era dada demasiada ênfase à morte, em lugar de à ressurreição; à dor, em lugar da alegria, que é tão abençoada como a angústia...
- É decididamente o mesmo frei Pedro. Mas sabe, tenho outra carta para si. Só que sei que esta é feliz - acrescentou Nan, estendendo-lhe um sobrescrito.
- Sabe o que contém? - indagou Catarina, cheia de vontade de rir.
- Não, não, não a li! - apressou-se a explicar Nan.
- Nem tal me passou pela cabeça, pensei apenas que quem me escreveu a mim também lhe escrevesse a si - retorquiu a rainha.
Nan corou até à raiz do cabelo. Tal fora a vontade de animar a rainha, que deitara tudo a perder.
Mas Catarina continuava a sorrir enquanto quebrava o lacre com as armas do marquês de Sande. Chegava já com algumas semanas de atraso, e dava-lhe conta que Maria Francisca Isabel de Sabóia tinha casado por procuração, em La Rochelle, com Sua Alteza o rei Afonso VI de Portugal. Dizia que a rainha portuguesa seguia já para Lisboa, onde o rei a aguardava com impaciência e o povo também, que desde o casamento da rainha de Inglaterra não se festejava nada digno de nota no reino de Portugal.
Catarina icou contente. Talvez fosse uma rapariga generosa e terna, talvez encontrasse maneira de se dedicar a Afonso, de descobrir como podia ser encantador quando queria. Recordou-se do irmão no torreão
ilipino quando lhe anunciara a sua aclamação, e de como ele a abraçara.
«Catarina, és a única pessoa no Mundo que realmente gosta de mim», dissera então. Será que a partir de agora seria diferente? Esperava de todo o coração que Maria Francisca fosse capaz de encontrar, entre tanta amargura, a sua bondade. Mas teria a sabedoria, aos 20 anos, de compreender um rapaz tão complicado como Afonso? Escreveria ao conde de Castelo Melhor, gostava de Luís de Vasconcelos e Sousa, estava-lhe grata por governar de forma tão dedicada ao seu irmão, e pouco lhe importava que se dissesse que o fazia somente por amor ao poder. A inal, não era assim que a sua própria mãe sempre tinha exercido o seu papel?
Virando-se para Nan, abanou a carta como um leque.
- Boas notícias, de facto. Desculpe a ousadia, mas a sua carta não dizia mais nada que pudesse ou quisesse dividir comigo? - perguntou, divertida.
Nan encostou-se aos seus joelhos, e de olhos postos no pequeno oratório, disse baixinho:
- Dom Francisco diz-me que, mal termine a missão de levar dona Maria Francisca até ao rei, fará tudo para voltar a Inglaterra...
- E muito bem. Está certamente ansioso por voltar para o meu serviço -disse a rainha, rindo.
- É tão bom ouvi-la rir, Majestade, que até me vou esquecer de que é à minha custa.
Pondo-se de pé, Nan suspirou:
- Mas agora vou dar a notícia de sir Edward a Meg. Preferia que ela a ouvisse por mim...
Catarina benzeu-se.
Londres, 2 de Setembro de 1666
rainha não queria acreditar quando lhe contaram - e se lhe
contaram. Uma, duas, três vezes, tantas quanta a maldade daquela corte era capaz.
Helen, por exemplo, esganiçava a voz para repetir alto e a bom som, como se recitasse uma peça de teatro, com diálogos e tudo:
«É horrível, nem sei se sou capaz de contar como tudo se passou. Sei que um criado com as cores de Buckingham entrou esbaforido nos aposentos de Barbara Palmer, furando a segurança da guarda. Sua Alteza levantou-se do sofá onde estava recostado, enquanto a Palmer lhe colocava uvas na boca, qual deusa romana, e vermelho de fúria preparava-se para rechaçar o atrevido, mas qualquer coisa na cara do miúdo impediu-o de o fazer.
- 0 que é que se passa? - perguntou, subitamente aterrorizado.
O criado, a gaguejar, disse: - Sua Majestade, desculpe a intromissão, mas tinha de lhe dizer, custasse o que custasse, foram essas as ordens de lord Buckingham.
- Pára de gaguejar, rapaz, e explica-te - terá dito o rei.
- Londres está a arder, Majestade. A cidade toda. - E, soluçando, deixou-se cair no chão.
- Vi a casa dos meus pais arder, e os pobres não conseguiam sair, morreram queimados, o meu pai e a minha mãe, sir...
Segundo me disseram, Charles apontou com o pé para o rapaz e...
- Silêncio, lady Helen - vociferou Catarina, e o silêncio caiu instantaneamente sobre a sala. Nunca em todos estes anos qualquer uma delas tinha visto a doce rainha possessa de fúria:
- Desapareça da minha vista e que não lhe ponha os olhos em cima durante muito, muito tempo. Não julgue que é o vergonhoso teatro que declama à minha frente, sem pudor nem respeito, que me deixa fora de mim, mas a falta total de consciência e caridade que me revela. Morrem pessoas, a nossa cidade arde, e a parvinha de uma menina da corte, que nunca teve uma preocupação na vida, aproveita o sucedido para dar à língua. Desapareça, e leve consigo todas as que lhe são iguais - gritou.
Virando-se para lady Suffolk, com os olhos lamejantes, deu ordens rápidas:
- Quero o meu fato de montar pronto.
Voltando-se para Nan, que continha a vontade de lhe bater palmas, ordenou:
- Lady Fanshawe, faça saber que o meu cavalo tem de estar pronto dentro de minutos, e avise a Guarda da Rainha para que prepare a escolta. Lady Margaret, peço-lhe que pergunte a quem entender onde posso encontrar o rei.
Distribuídas as ordens, desapareceu para mudar de roupa.
Catarina entrou no escritório onde Charles estava reunido com cinco outros homens, sem pedir licença. O rei abriu a boca, surpreendido, mas fez um sorriso ao vê-la de rabo-de-cavalo preso com um laço e a roupa de montar vestida.
A rainha fez-lhe um gesto de cortesia com a cabeça e perguntou:
- Já me disseram que Londres arde, vejo o fumo ao longe. Em que posso ser útil?
Os conselheiros, um deles decididamente o chefe dos bombeiros, de cara chamuscada e um ar exausto, olharam-na, espantados.
Charles pediu um minuto a sós com a mulher e, rodeando-lhe a cintura com o braço, disse-lhe:
- Querida, parece-me tudo menos sensato cavalgar a estas horas da noite- sobretudo no seu estado.
Catarina, assustada, levou a mão à barriga. Estava louca, como é que, grávida de três meses, logo ela que não fora capaz de levar duas gravidezes anteriores até ao fim, se deixava agitar assim?
Sentou-se na cadeira mais próxima e murmurou devagarinho:
- Só pensei em que é que podia ser útil.
- Só pensou nos outros, e ico muito orgulhoso de si por isso. Vou dizer-lhe qual vai ser a nossa estratégia, mas promete-me que depois vai deixar que a levem a Whitehall de carruagem? E que pede ao doutor Pierce que a vá ver.
Pegando num mapa da cidade, estendeu-o numa mesa à sua frente. A encarnado estava delimitada a zona do incêndio, já uma extensão enorme.
- O pior é que as casas são todas contíguas, arde uma, arde uma rua inteira, um quarteirão inteiro, dois a seguir, e assim sucessivamente.
- Mas tem de haver uma maneira de travar o incêndio...
- A sugestão do chefe dos bombeiros é que eu autorize a demolição de casas, igrejas e todos os edi ícios em redor da zona em chamas, criando um perímetro de segurança.
- Meu amor, que decisão horrível. Mas se não há outra, mais vale destruir voluntariamente do que deixar que o fogo coma toda a nossa cidade.
- As pessoas estão a ser retiradas. Sobre a decisão inal vou pensar um bocadinho mais, ouvir outras opiniões. James, felizmente, desembarcou há algumas horas e quero conhecer a sua opinião acerca disto. Mas agora vá, por amor de Deus, ponha-se a salvo. Se vir que há perigo, mandarei que se mudem para Hampton Court. Por favor, tenham as vossas coisas preparadas.
Catarina obedeceu-lhe, silenciosa. Chamava o irmão porque valorizava o que lhe tinha a dizer, ou procurava apenas demonstrar aos seus ministros que estava perfeitamente consciente de que quando morresse seria James a assumir o trono? Apesar de a rainha sua mulher estar grávida de três meses, desistira já de um herdeiro legítimo? As ideias atropelavam os seus pensamentos mais racionais, e foi mergulhada neles que sem saber muito bem como deu por si deitada na cama. Na mão uma caneca quente de infusão de laranja.
Soube que Charles e James tinham ido pessoalmente até às ruas de Londres. Que, chamuscados e sem guarda, passavam baldes, como toda a gente naquela cidade, e lançavam a água sobre as chamas. O chefe dos bombeiros fora capaz de convencer o rei a demolir o perímetro de segurança e só assim se tinha salvo uma parte da cidade.
Mas já estavam contabilizadas 13 200 casas destruídas, entre elas 87 igrejas. A Catedral de St. Paul ardera até às fundações, e com ela os túmulos dos pais da rainha Filipa de Lencastre, como lhe chamavam em Portugal; a inal, Philippa era a única rainha inglesa que Por tugal alguma vez tivera, mãe dos Descobridores, venerada em Portugal, e Catarina, a primeira rainha portuguesa que Inglaterra conhecia.
Se Deus me desse um ilho... um, mesmo que não fossem os oito de D. Filipa, pensava, enquanto olhava a Senhora das Candeias, os seus cabelos pretos, os seus brincos de prata, nos braços o seu menino de sorriso doce.
Meg estava feliz. Com James voltara Francis. Francis Villiers de carne e osso, que a apertara nos braços, esquecido de todas as zangas, de todos os mal-entendidos. Logo no primeiro dia estendeu-lhe uma caixa com um anel:
- Lady Margaret Fanshawe, casa comigo? Promete nunca mais amuar, fugir, desaparecer da minha vida?
Meg respondeu-lhe com um beijo ardoroso e quente, aquele beijo com que um e outro sonhavam há tanto tempo.
- Já escrevi ao seu pai, que ainda não me respondeu, e temo que me rejeite, mas confesso-lhe que mais do que tudo temia um pontapé da ilha... Até a ideia de pedir licença a dona Catarina para cortejar uma das suas damas me parecia tarefa mais fácil.
- Hoje não, mas nunca diga nunca - riu-se Meg.
Com Villiers de volta, as informações do lado de Buckingham tornaram a chegar: desta vez o duque inanciava quem ajudasse a espalhar o boato de que Deus estava descontente com uma rainha papista. A peste e o grande incêndio eram apenas os primeiros sinais da sua ira. «Morte aos papistas», gritavam os homens de Buckingham, que se concentravam frente aos portões de St. James, pedindo ao rei compensações inanceiras pelo desastre, a que se juntavam os protestos dos marinheiros regressados há meses sem ordenado e os das famílias das vítimas da peste.
A rainha nunca vira o rei tão preocupado. Charles dizia-lhe que esta insurreição era igual àquela que acontecera meses antes de o seu pai ter sido preso em Hampton Court, meses antes de lhe terem cortado a cabeça, privilégio dos nobres. Charles abominava as acusações histéricas e sem sentido que se faziam, protestava em coro com o seu primo Rupert, o seu companheiro de laboratório e co-fundador de uma sociedade cientí ica que tinha como missão lutar contra o obscurantismo, mas nos momentos mais di íceis fazia discursos conciliadores, implorava ao Parlamento que o ajudasse. Se não permitia que os conselheiros insultassem a sua mulher, se atrevessem a falar-lhe em divórcios, enganar-se-ia a si mesmo se não dissesse que, por vezes, a ideia o tentava. Os amigos sabiam que valia a pena continuar a pressioná-lo.
Naquela manhã, Catarina sentiu uma tontura súbita quando se levantava da cama. Uma dor forte nas costas levou-a a gritar. Segundos depois, lady Suffolk e duas criadas acorriam a socorrê-la, deitando-a e mandando chamar o médico.
A camareira-mor, hoje mais do que uma mãe, aconchegava-lhe os cobertores, passava a mão suavemente sobre a dela, procurando sossegar os seus soluços:
- Vai ver que não é nada disso, vai ver que está tudo bem.
Catarina estendia as mãos para a imagem da Virgem, e lady Suffolk encorajava-a:
- Isso mesmo, Sua Alteza, peça à sua padroeira que a proteja, que aqui na Terra pode contar connosco para fazermos tudo por si.
Subitamente, Catarina percebeu que tudo acabara. A cama ensopava-se em sangue, uma contracção mais forte levava-a a esticar-se na cama, presa nas garras da dor e do desespero.
- Lady Suffolk, não chame o médico, já não vale a pena. Ai, meu Deus, meu Deus, minha querida mãe. Mãe - chamava sem parar.
Quando o Dr. Pierce entrou limitou-se a pedir um chá e a juntar-lhe os pós de uma infusão calmante. A Lady Suffolk disse baixinho:
- Não quero embaraçar a rainha, vou mandar uma das parteiras de maior con iança. É preciso estancar a hemorragia, certi icarmo-nos de que fica limpa, porque uma infecção é suficiente para a matar...
Catarina puxara sobre a cara uma almofada, murmurando para si: «Seja feita a Tua vontade, seja feita a Tua vontade.» Tentava que a fé a impedisse de enlouquecer.
Whitehall Palace, 25 de Outubro de 1666